29 de fevereiro de 2004

A HIERARQUIA DOS GESTOS



Na literatura, o movimento do corpo é descrito e imaginado. No cinema e na TV, o gesto explícito é a vitrine dos nossos erros, já que os acertos não dependem do desenho feito pelo andar, linhas do rosto e trejeitos: a sinceridade vira pelo avesso a máxima de que somos o que parecemos. Somos o que somos quando não queremos parecer alguma coisa – nesse caso, o gesto faz parte do nosso encanto. Quando fingimos – forçamos os gestos – nos transformamos num conjunto de posturas artificiais. O mais trágico é quando os gestos denunciam a posição social que cada um ocupa na pirâmide das exclusões.

LITTLE BROTHER - O programa da Globo, Big Brother, é uma pequena loja de horrores. Um grupo é escolhido para exibir uma sucessão de gestos didáticos, que ensinam as pessoas a gozar a vida e a não trabalhar. Eles se deitam, se agridem e se fuzilam: toda hora tem “paredão”. É como se fossem ratos de laboratório, a provar a pesquisa científica dos idealizadores desse pesadelo, de que brasileiro é mesmo vagabundo, gosta de mordomia, odeia o próximo e só quer se dar bem na vida. Esse conjunto de conceitos é reforçado pelas cenas doentias, todas elas ostentando um falso improviso, quando está na cara que foram escritas, tanto é que tem personagem que não consegue dizer a fala direito (como no caso das crianças nos comerciais com aquela voz forçada, pois a meninada não está em condições de articular toda a complexidade e oportunismo da mensagem, o que inclui estrutura de frase, entonação etc). Costuma-se dizer que o povo gosta mesmo disso tudo, pois o Ibope (quá!) está alto. Me coloquem em horário nobre falando abobrinhas numa rede poderosa que terei Ibope alto. É tudo uma questão de oportunidade e horário. Sempre tenho a impressão que os programadores esperam dar traço na pesquisa (lá pela uma da manhã) para então colocar um belo documentário (como Roger and me, de Michael Moore, que passou na madruga do SBT) ou algum clássico (como acontece uma vez por semana na Bandeirantes, que ainda tem a manha de corromper a obra retaliando-a em blocos onde os intervalos são preenchidos com mídia interna, propaganda exaustivamente repetida sobre as outras atrações da rede). O público não tem opção, tem porcarias na hora em que tenta ver alguma coisa – e ainda é chamado jocosamente de “ô da poltrona” ou “você aí do sofá, que fica parado”. A malandragem costuma se deitar quando tem algum trabalhador pela frente. Principalmente quando está no poder.

OMBROS, CARAS E BOCAS – O entusiasmo de estar diante das câmaras falando qualquer coisa costuma deixar marcas, como o frenético sacudir de ombros, quando há a intenção de reforçar o que está sendo dito (normalmente um conjunto de redundâncias ou de informações plantadas). É o recado claro do exibicionismo, falta de assunto e desimportância da reportagem. Outro gesto é o leve inclinar para a frente, que acontece no final das frases do atual jornalismo de breque - aquele que também faz uma paradinha no meio frase para fazer suspense ou preparar o pobre do telespectador para a emissão do crédito. Acho até que, para os repórteres de TV (de todo o mundo) o mais importante é dizer o próprio nome. Não importa a informação, o que vale é “Fulano de Tal, de Caixa Prego". O recado também é claro: “Eu sou o maior, o mais importante. Dane-se a reportagem. Você aí da poltrona, admire-me.” Pois o mundo, caro leitor (você e eu) existe para admirá-los. E cuidado, senão você toma o lugar daquelas criaturas que vivem alcançando coisas ou aturando quem está hierarquicamente acima. O cara que alcança a toalhinha para o campeão de tênis, o lavrador que fica virando a forragem enquanto o repórter, de microfone na mão, explica como a coisa funciona, sem falar na plêiade de empregadas nas novelas, todas uniformizadas e aturando desaforo das starlets. Isso chama-se reiteração permanente dos papéis sociais.

O CORPO TODO – O gesto favorito dos nossos estadistas de estádio (como diria Ulysses Guimarães) é virar a cabeça junto com o tronco. Sinal que sugere integridade física, ou seja, não se torce o pescoço para olhar ninguém, vira-se inteiramente como a proclamar autoridade e expressar com esse gesto que se está ali para mandar e ensinar, e jamais para escutar. Nisso FHC e Lula também se parecem. A rigidez de ombros que ostentam significa que são rochedos. Em volta deles, pululam como ondas os ombros frenéticos da mídia, a lamber-lhes as ostras.

25 de fevereiro de 2004

O FALSO CINEMA DE AUTOR


Brian de Palma e Martin Scorsese - e sua versão ainda mais perversa, Quentin Tarantino – substituíram o espaço criado nos anos 60 e 70 por inventores como Arthur Penn e Sam Peckinpah, e por meio de um cinema vazio e apelativo tentam assumir a postura de autores, quando não passam de comerciantes da pior qualidade com pose de pais da matéria. Enquanto isso, a linhagem que tem Nickolas Ray como estrela maior encontra em Clint Eastwood sua mais bem acabada realização. Já David Lean e Fred Zinnermann continuam sós, ocupando a olimpo da genialidade sem terem deixado descendentes.

TUDO DESÁGUA NELE – Scorsese costuma pontificar na televisão como uma espécie de historiador do cinema, com um detalhe: o de que toda a maravilhosa produção cinematográfica italiana, de Vittorio de Sica a Fellini, de Rosselini a Visconti, acaba redundando na própria obra dele, Scorsese. Não é muita pretensão? Basta aturar o horrendo Taxi Driver, um filme que confunde transgressão estética com a instauração de uma indústria da maldade e da perversão, para ver que tipo de mente doentia tem esse sujeito. O cinema dele suga o espectador para devolver nossa alma em farrapos, e isso não pode ser encarado com um elogio (é moda aplaudir o horror como se fosse vanguarda). Tem sua porção italianinha com os Bons Companheiros, que ele tenta misturar comédia com tragédia, tentando imitar o “truque “ (na versão dele) de De Sica, esse sim um gênio, que criou inúmeras obras-primas, como Ladrões de bicicleta e Casamento à italiana (inteiramente chupado por Silvio de Abreu numa dessas novelas globais). Scorcese adora usar esse canastrão de marca maior, Robert de Niro, que não serve nem para engraxar os sapatos de Al Pacino e acha que fazer careta é arte de primeira grandeza. De Niro se presta a inúmeras performances que só intensificam sua falta de jeito e talento para esse ramo. Basta um milésimo de Sean Penn, um cordão de sapato de Tim Robbins para desmascarar essa fraude. Scorsese não faz cinema de denúncia (já que é sabujo do sistemão) como Arthur Penn, que em Caçada Humana ou Bonnie and Clyde consegue fazer um retrato da América fora do círculo de giz do autismo ideológico dessa nação. É por isso que encontraram em Scorcese o antídoto perfeito para o impacto causado por Penn, um cineasta como poucos. Além disso, Scorsese está longe de contribuir para o cinema como fez Sam Peckinpah, que colocou sangue na tela (o que era proibido pela censura estética conservadora) e filmou pela primeira vez a morte em câmara lenta (o que agora é usado até o infinito) sem se dobrar aos maneirismos “de autor”, apenas criando novas soluções visuais para traçar o perfil da América violenta. Cineastas originais precisam ser corajosos, o que não é o caso de Scorsese.

ENGULHOS - Nem tampouco Brian de Palma, essa contrafação do suspense, que, em princípio, odeia mulher. Está passando na HBO Femme Fatale, uma palhaçada com o execrável Antonio Banderas (o pior ator do mundo) e uma fauna de preconceitos (o negrão facínora, a loura vagabunda e cruel, a morena coitadinha, as lésbicas exibicionistas). Tudo provoca engulhos. O roteiro é ridículo, a apelação é extrema. O pior é que de Palma (e isso o aproxima de Scorsese) começa o filme transcrevendo um clássico do cinema noir, com Fred McMurray, como se essa citação o encaminhasse para a glória da autoria, como se fizesse parte do seleto grupo de criadores. Sua versão anódina de Os Intocáveis tinha essa mesma ilusão. O resultado foi um filme cheio de falsidades (como a tentativa de reproduzir a célebre cena de Eisenstein em Outubro, a do carrinho de bebê que desce a escada), além de um ridículo, como sempre, Kevin Kostner, o pseudo galã exilado de qualquer carisma. A cena do assassinato de Angie Dickinson em Vestida para matar é uma sucessão de barbaridades, a declarar o ódio que o autor devota ao sexo que ele deveria admirar. Acham essa cena o máximo, mas é apenas uma maneira de marcar o cinema com momentos de alta voltagem comercial, no pior sentido. Tudo não passa de comércio. Não há, nesses filmes, sinceridade que poderia até gerar muito dinheiro. Há apelo, como se o espectador fosse um sádico igual aos cineastas que produzem esse tipo de porcaria. E vocês notam a cara séria que eles fazem quando dão entrevistas sobre sua "arte"? Como se todos fossem obrigados a acreditar nas mentiras que contam.

RAÍZES - O tal de Tarantino, que nos explode a paciência com suas intermináveis arengas recheadas de violência gratuita, é ainda pior. Ter sido convidado para ser jurado em Cannes é puro deboche. Ele faz parte de uma camada de nulidades onde despontam coisas como o "diretor" Mel Gibson, o rei da patriotada barata. O novo filme de Gibson sobre Cristo deve ser uma besteira só. Sabe-se que ele, claro, apela para a violência estúpida que caracteriza toda a sua obra de ator e diretor. Gente desse quilate merece repúdio. Eles infestam o mundo do cinema e exercem péssima influência. Quando sabemos que David Lean se fez num caldo de cultura onde tinha Alexander Korda e Noel Coward, e que Glauber Rocha bebeu em Visconti de Terra Trema para fazer seu Barravento, e que Walter Salles seguiu os passos de Gloria, de John Cassavetes (autor de verdade) para compor sua obra-prima, Central do Brasil, notamos que o gênio nasce, mas precisa de ambiente para evoluir e se expressar. Num espaço tomado por inutilidades, fica difícil despontar os autores que mereçam ser vistos e respeitados.

RETORNO - Meu artigo sobre David Lean (escrito no bom e velho português) foi homenageado com um link no site em língua inglesa The Golden Years, que é uma seleção de textos sobre o que de melhor se fez em cinema. Está no endereço http://www.thegoldenyears.org/lean.html
É sempre bom saber que a análise livre sobre a arte das artes obtém repercussão. Este é um trabalho feito no calor da hora, sem nenhum vínculo com nada nem com ninguém, a não ser com o desafio de sintonizar, por meio da palavra, com a criação cinematográfica.

22 de fevereiro de 2004

A VEZ DO TRABALHISMO

Agora que todos se convenceram do que se trata o atual governo, é hora de resgatar o mais moderno conceito político do Brasil, aquele que garantiu para os trabalhadores seus direitos mínimos, sucateados pela atual fase do regime autoritário, que encontrou naquela pseudo esquerda dos 60 – tipo José Dirceu – a salvação da própria lavoura. É hora de apagar os preconceitos e apostar firme no trabalhismo, que é uma criação brasileira, apesar das acusações dos oportunistas que conseguiram “provar” o contrário.

O VOTO CERTO – Não existiam trabalhadores no Brasil antes de 1930 (quando uma dissidência política, com amplo apoio popular, fez a revolução), existiam escravos. Toda a família era jogada nos porões das fábricas mais de 10 horas por dia, sem direito a nada. Essa situação de miséria e exploração voltou, graças ao sucateamento das conquistas trabalhistas. O regime de 64, que ainda está em vigor, usou a direita de punhos de renda – o PT – para consolidar-se, ou seja, aniquilar as pretensões ao poder dos trabalhistas. Conseguiu dividir o movimento, entregando a sigla histórica, o PTB, para os traidores, e deixando à deriva a mais importante liderança trabalhista, Leonel Brizola – que na sua época de governador, colocou os mais importantes bicheiros na cadeia. Uma das acusações do PT era o abraço entre o getulismo e o jogo do bicho, mas sabemos agora quem está envolvido com quem. Quando José Vicente, o filho do governador, foi cooptado pelo PT para cuidar desse buraco negro que é a loteria (no seu caso, o Rio Grande do Sul), imediatamente Brizola, o pai, fez a denúncia. Brizola foi também o primeiro a saltar fora da coligação que levou o PT ao poder, quando viu para onde se dirigia o traidor Lula. Quando o trabalhismo perdeu as eleições no Rio Grande do Sul em 1962, graças à campanha das “mãos limpas” do candidato Francisco Ferrari (o que redundou no golpe de 64, apoiado pela direita gaúcha no poder estadual, junto com a direita de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro), minha mãe costumava dizer: “Não estão se dando conta que isso é jogada para derrotar o trabalhismo. Votem no PTB”, insistia, em vão. Dona Rosinha era funcionária pública do Centro de Saúde e tinha contato direto com a parte mais pobre do povo. Por muitos anos, foi uma espécie de para-médica, ou seja, aplicava injeções e vacinas e dava noções de higiene na periferia. Era a chamada Visitadora Pública, uma invenção do governo getulista. Depois de sucessivos golpes, o governo se retirou desse serviço, abrindo um claro para ser aproveitado pelas ONGs, que sugam dinheiro público subsidiado para suas ações paliativas. Saúde e educação são obras de governos. Governos trabalhistas, em sua maioria.

PRECONCEITOS – Por favor, não me venham com a história de que Brizola é isto e aquilo. O golpe de 64 foi feito pelos governadores de direita – Meneghetti, Ademar, Lacerda (toc, toc, toc) e Magalhães Pinto. Eles queriam a presidência (o tiro saiu pela culatra, pois foram espirrados pelos militares) e só havia um candidato para ganhar nas eleições presidenciais marcadas para 965: exatamente Brizola, que estatizou multinacionais da área telefônica (as mesmas que hoje cobram para a gente receber ligações do celular), enfrentou uma ameaça de golpe de estado (em 1961, depois que aquele idiota do Jânio renunciou) e por isso foi o deputado federal mais votado do país em 1962. Eles tinham medo do voto crescente do trabalhismo, por isso deram o golpe, pois sabiam que iam perder. Pois os comunistas acham que o golpe foi contra eles. Não foi. O partidão jamais teve importância no Brasil. Quem dava as cartas era o trabalhismo getulista. Também não me venham com a história do caudilhismo getulista. Getúlio foi presidente eleito duas vezes, uma em 1933, pela Assembléia Constituinte, e outra em 1950, na mais completa lavada de votos do país, quando o povo sabia em quem votar. O Estado Novo foi um golpe militar nacionalista, desencadeado pelo erro dos comunistas e integralistas, que tentaram tomar o poder à força. Em 1945, quando Getulio foi derrubado por outro golpe militar, o Brasil tinha zerado a dívida externa. Hoje estamos vendidos aos gringos até o pescoço.
É simples. É cristalino. É óbvio. Apostem no trabalhismo.
Como vêem, estou em campanha.

20 de fevereiro de 2004

LEMBRANÇAS DE ANGOLA

A filha de uma das melhores amigas da minha mãe escreve um artigo revelador sobre sua experiência na África. Publico a seguir a maior parte do texto. Ela é Maria da Graça Lisboa Pereira da Silva, Pedagoga/Professora de Educação Física pela Universidade Federal de Santa Maria, a cidade-coração do Rio Grande do Sul. Sua especialização é em Natação pela University of Alberta, Edmonton, Canadá. Maria da Graça é irmã do meu amigo Fernando, o escritor que resgata Uruguaiana pela memória e a reportagem histórica.

PRIMEIRO IMPACTO - "Nos idos de junho de 1981 fui contratada como Pedagoga e Professora de Educação Física pela “Projed/Projetos educacionais”, para trabalhar na implantação de uma creche em Luanda, capital de Angola, na África, para atender aos filhos dos funcionários da Sonangol—Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola. A Projed é sediada em Porto Alegre e, na ocasião, era administrada pelo Coronel Mauro da Costa Rodriguez, que havia sido Secretário de Educação do Rio Grande do Sul e Secretário Geral do Ministério de Educação, na gestão do ministro Jarbas Passarinho. O projeto foi realizado pela Interbrás/Petrobás, exportadora de técnicos, por meio de empresas capacitadas e com credibilidade, contratadas para serviços específicos.
O primeiro impacto, ao chegar a Angola, foi o choque de culturas, principalmente por causa do regime comunista vigente no País, que me reservava tantas surpresas e problemas. Em compensação, tive também muitas emoções que me deixaram lembranças inesquecíveis de um povo carismático, sofrido e muito carente. Na ocasião, sofria Angola de instabilidade política, com guerrilhas entre as facções do MPLA, da UNITA e da FNPLA. A implantação da creche modelo, que comportava 300 crianças, de recém-nascidos até seis anos, foi iniciada com entrevista a 400 pessoas interessadas em preencher as 110 vagas disponíveis nos diferentes setores. Foi ministrado às pessoas selecionadas um treinamento de oito meses, nas respectivas especializações.

RACIONAMENTO - Éramos oito brasileiros. Nosso trabalho foi inicialmente coordenado por uma agente do partido comunista, de nome Clorinda, que, além de controlar o grupo, tentava exercer sobre nós um poder político e pessoal, como sempre. Vivendo em uma situação controlada, aconteciam fatos inusitados, como as compras para alimentação, que eram feitas por meio de um “cartão de cooperante”, que os estrangeiros recebiam ao chegar a Angola, para fazer compras no “supermercado dos cooperantes”. Esse cartão servia para comprar somente duas unidades por semana, de cada produto e, às vezes, não ultrapassava vinte diferentes produtos. Por causa do racionamento permanente, havia grande falta de produtos.
Este racionamento levava a trocas de produtos, chamada “candonga”. Os angolanos trocavam alimentos conosco. Também os cubanos tentavam fazer candonga com os brasileiros. Queriam tudo, até roupas. Hoje vemos isso sem surpresa, considerando o mercado negro existente em Cuba. Já os soviéticos eram mais arredios e não se misturavam ao “proletariado”, que eles consideravam seres inferiores. Nas manhãs de sábado utilizávamos nossas folgas para fazer compras no mercado central “Kinachiche”, que era bastante pobre mas onde encontrávamos frutas típicas da estação, alguns legumes e verduras, peixe fresco e trabalhos de artesanato. Recebíamos por malote, da Projed, suprimentos não existentes em Luanda, que, às vezes, eram trocados por alimentos frescos vendidos no mercado.

KWANZA - A moeda nacional era o kwanza. No mercado oficial trinta kwanzas valiam um dólar, entretanto, no mercado negro, que espelha o valor real da moeda local, eram necessários 400 kwanzas para adquirir um dólar. Em Cuba acontece fenômeno semelhante, em relação ao peso cubano. Posteriormente, para que Angola melhorasse seu relacionamento com os países da África Central, idealizaram os “I Jogos da África Central”. Eu, como professora de Educação Física, e a colega Marlise Jacinto, como Enfermeira, fomos requisitadas pelo Partido para nos incorporarmos ao grupo de trabalho. Fomos afastadas da creche por três semanas. Tudo fizemos para que os jogos fossem bem sucedidos.
Todas as atividades eram totalmente controladas mas tivemos o privilégio de receber um cartão permitindo circular nas horas proibidas pelo “toque de recolher”. Conseguimos, com nossa influência, colocar o grupo da PROJED em lugar destacado para assistir as festividades de abertura dos jogos no Estádio Municipal.
As alunas que treinamos para tomar parte na cerimônia tinham direito a melhor alimentação. Tivemos, assim, freqüência absoluta. Deixei uma parte da minha saúde em Angola, ao adquirir malária. Fui cuidada por minhas incansáveis alunas, que, durante uma semana, se revezaram noite e dia, ajudando, com métodos primitivos, amenizar a febre alta que me assolava. Tratei-me também com quinino, ministrada por médicos, além do carinho das colegas Clélia Dias e Maria Alice Baptista. Graças a esta equipe é que posso estar escrevendo esta história.

CORAÇÃO - Pelos noticiários temos conhecimento que Angola está em fase de reestruturação. Tenho pensado nas crianças daquela creche que lá deixamos há vinte e um anos. Elas são a nova geração daquele povo tão sofrido, tão perturbado por interesses internacionais, tão rico em recursos minerais. Estima-se que seu subsolo albergue 35 dos 45 minerais mais importantes do comércio mundial, dentre os quais destacamos: diamante, fosfato, ferro, cobre, magnésio, ouro e rochas ornamentais, além de petróleo, substâncias betuminosas e gás natural. Se toda esta riqueza fosse bem administrada, Angola estaria entre os países de melhor qualidade de vida do mundo.
Angola foi uma experiência maravilhosa, que merece um livro. As lembranças são incomensuráveis. Se tivesse a oportunidade, faria tudo de novo e inteiramente de graça. Realmente deixei meu coração na África. Lá nos realizamos como profissionais e como seres humanos. Dedicamo-nos àquele povo com todo nosso coração e temos a certeza de que não fomos esquecidos e que a recíproca foi verdadeira."

RETORNO - Meu poema Jimi, sobre Hendrix, o gênio que espichou o universo para fora de todas as fronteiras, serve de abertura para magnífico texto sobre aquele que nos tornou melhores no blog http://www.hugabuga.hpg.ig.com.br/jimihendrix.html

15 de fevereiro de 2004

O SUFOCO DO OLHAR


Sofia Coppola, em Encontros e desencontros (Lost in translation), mostra como o loteamento do olhar (em Tóquio, onde ela filmou, todos os espaços da percepção estão tomados) pode significar o momento de impasse na vida dos personagens envolvidos. Para ser fiel ao que vi no filme, prefiro trair o sentido pretensamente original de “translation”, que seria tradução, para o que acho mais apropriado: baldeação. Explico melhor a seguir.

VIDA PROVISÓRIA – A onda de equívocos que a crítica provocou quando a filha de Coppola estreou no cinema, como atriz, somou-se às asneiras ditas em relação à seminal obra-prima Poderoso Chefão III , o melhor da série dirigida pelo pai, Francis Ford, que pagou caro pela escolha que fez ao colocar sua garota nesse filme num dos papéis mais importantes. Sofia interpretou tão bem a filha do mafioso, que a confundiram como uma amadora, que estava ali representando a si mesma, como se naquele trabalho – à altura das grandes performances da estudada escola “naturalista” americana, filha dos ensinamentos do Actor’s Studio - já não estivesse presente a fagulha de um grande talento. Em Lost in translation, ela mostra mais uma vez que não é uma artista qualquer.

 O cinqüentão (Bill Murray, excepcional, como sempre) que desce do trem do seu casamento – pelo menos temporariamente, enquanto está filmando um comercial de uísque para os japoneses – está perdido nessa estação intermediária, esse lugar que confluências, que serve para despejar os passageiros de um comboio e recolher os passageiros de outro. Acontece o mesmo com a jovem (Scarlett Johansson), que duvida do seu casamento e é despejado dele também provisoriamente, já que o marido fotógrafo tem outras preocupações.

Este pode ser encarado como um filme para fotógrafos: a arte da imagem, nele, está totalmente identificada com o sufoco do olhar, a comercialização do que deve ser visto por todos. É por isso que o diretor do comercial é um bruto incompreensível, o fotógrafo que tenta tirar emoções do rosto do ator é um ignorante de cinema e o maridinho cool da principal personagem feminina é um imbecil corporativo, que cai nas artimanhas de uma starlet vazia. Eles reforçam o tema do filme, que é mostrar como o mercantilismo multinacional ocupa todos os espaços da visão para dela tirar o máximo proveito, jogando fora o que há de mais valioso, as relações verdadeiramente humanas.

Assim, o homem maduro e a jovem bacharel em filosofia, desencontrados de si, despejados de seus vagões, procuram fazer a baldeação na estação-Tóquio, encontrar um trem que os resgate.

VIVA A DIFERENÇA – A maldição do olhar viciado nas imagens comercializadas é reproduzir eternamente o imaginário do Mesmo. O truque é carregar nas cores, nos movimentos de luz, nas trucagens, para dar a falsa impressão de diversidade. Não existe diferença entre o Monte Fuji visto ao longe de maneira bem comportada, a partir de um campo de golf (o monte é apenas uma paisagem fake, mural que imita a natureza) e a animação de um dinossauro no centro de Tóquio. É tudo o Mesmo, que se reflete nas palavras gastas, nos cumprimentos forçados, na gentileza caríssima dos hotéis de luxo, no strip-tease profissional e bizarro.

Os dois personagens – o cinqüentão e a jovem – fogem do que costumam conectar, pois estão à procura da diferença, que dará sentido às suas vidas (mesmo que não saibam disso conscientemente). O ator escapa dos fãs, da troupe que o escolta, e faz gestos cínicos para quem tenta manipulá-lo. No outro lado do bar, ela foge das conversas sobre anorexia da mesa onde está, exausta do esforço que os viciados na mesmice tentam impor por meio de falsos impactos nos gestos e idéias. Essa fuga mútua empurra os dois para vários encontros e daí para uma relação que se transmuta numa revelação.

Quando finalmente eles assumem esse amor frutificado na diferença, o olhar deixa de ser refém da cidade e Tóquio aparece como nunca, dando espaço para um travelling inesquecível, onde a imagem divide-se entre o perfil dos edifícios e o céu, território quer não pode ainda ser loteado.

PAISAGEM - A libertação pelo amor vindo da diferença é o fim do sufoco do olhar. É pegar um trem que não estava programado, é inventar uma linha que, em vez de ir para a capital, pegue uma estrada imaginária que nos leve para o alto da serra, por exemplo. De lá, podemos descortinar uma nova paisagem, soma do que herdamos com o que adquirimos neste filme magnífico, meu favorito para todos os Oscar.


RETORNO - 1. Vi ontem a exposição sobre os 450 anos de São Paulo no Centro Cultural Fiesp. Estão faltando lá os fotógrafos atuais da cidade: Marcelo Min, Helcio Toth, Regina Agrella, Maurício Paiva, entre tantos outros. Senti falta também de um ensaio sobre o Copan do Adelino Nazario. Tudo isso daria mais vida à exposição, que está, apesar dessa falha, maravilhosa.
2. Um poema que fiz recentemente, ilustrado por foto de Anderson Petroceli. Veja em http://www.portaluruguaiana.com/cantinhodopoeta/imagem.html

14 de fevereiro de 2004

O POEMA DO JEITO QUE FOI FEITO


Escrevi esse poema e publiquei apenas duas estrofes dele no meu livro No Mar, Veremos (Ed. Globo, 2001). Hoje, relendo, acho que merece todo o espaço disponível. Por isso reproduzo abaixo, com tudo.

CASTRO ALVES

Nei Duclós

I

Palavras, balas
perdidas no cérebro:
perigo de morte certa

O poema fura os olhos
o que mata fica na memória

O poeta volta
como a primavera

II

Voz de azul
pés de barro
rega o silêncio com ferro

O sofrimento é maior que o mistério
nenhuma canção o suporta
Nenhum choro lhe cerca
de consolo ou vitória

O sofrimento não é solitário
e põe ovos
O mar carregou ventres inchados
de ódio

O poeta chora por nós
de garganta aberta

III

A morte não leva o poeta
como a prece
não o redime do inferno
A vida não basta ao poeta
nem a velhice lhe seca
Só a juventude pode matá-lo
com armas secretas

Quando o coração desce
a luz do homem se transfere

Um dia a vida voou
para outras terras
mudou de estação

Como a primavera
o poeta volta

IV

A Bahia fez um filho
leve como a espuma
como areia presa à pele
A Bahia fez um filho em brasa
hoje tem saudades de estátua

V

Estou calado
a liberdade é uma pérola
não sei mergulhar
nem tenho barco
Não posso falar como falavas

Bem-vindo seja, camarada
bem-vindo à minha alma
fui sonhado por ti
e não sou nada

O povo canta em voz baixa
te procuram em minha casa
Foste preso mais uma vez
ontem à tarde
Mas teus versos não batem
em retirada

RETORNO - Neste verão de poucas mensagens, agradeço as artes de Ricky Bols, artista maior, as mensagens de Paulo Nogueira, agência informal de notícias, e o link para este blog do talentoso Tony Monti, revelação da literatura brasileira.

13 de fevereiro de 2004

O PESADELO DA LINGUAGEM

O pior é que não acordamos dele. “Obrigada eu” disse hoje de manhã a estudante usando o celular na parada do ônibus. Não se trata de exigir o “linguajar correto”, mas o menos horrível. “Brigadão aí”, diz-se a toda hora e se alguém nota, a expressão é repetida até cansar, porque então fica engraçado. Opor-se é “chorar”. Por isso escorregamos para o horror da palavra frouxa, do “tô nem aí” do individualismo crônico. Tá tudo legal.

MÃOS AO ALTO - Levantar as mãos significa entregar-se ao que a publicidade e o pseudojornalismo impõem na mídia. Vemos isso não só nos filmecos sem moderação sobre cerveja, mas em pleno campo de futebol. Depois de chargear o adversário, o animal de chuteiras levanta as mãos como a justificar sua inocência. Nos shows, a massa está entregue ao absurdo de músicos que não sabem o mínimo de música, são apenas marionetes segurando microfones e repetindo acordes. No pseudonoticiário o desplante é tamanho que hoje ouvi no jornal das dez do canal 20 o apresentador enxergar na zona leste de sampa castigada pelo granizo um certo “clima novaiorquino”. Uma popular queria saber das autoridades os motivos do gelo em pleno verão, o que recebeu imediato deboche de outro apresentador, no noticiário de sangue antes do jornal da Band. Exclusão é a palavra de ordem. Mataram um dentista porque era negro. Até quando? Até sempre. Não muda nunca. Depois o comandante lamenta. Não tem que lamentar, tem que agir antes que aconteça. Nos chamados esportes radicais, a mesma mentalidade. Para mim, esporte radical é o desprezo pela paisagem. Engraçado que, enquanto carros envenenados atravessam regiões pobres sem infra-estrutura em busca de aventura, fala-se em proteção ao meio ambiente. Ninguém se opõe. Estão todos presos no pesadelo da linguagem. É uma armadilha que não falha. Repete-se, então, obsessivamente, a muleta “com certeza”. Duvidar pega mal. Reclamou é porque é “chorão”.

LIBERTAÇÃO - Leio Soldados de Salamina”, de Javier Cercas, obra-prima da literatura espanhola contemporânea transformada em magistral texto na língua pátria por Wagner Carelli. É a reconstituição de um assombroso episódio da guerra civil, quando um soldado poupa seu inimigo da morte certa com um dar de ombros. E para espantar as versões oficiais sobre a época do regime autoritário civil-militar de 64 (regime que ainda nos oprime, consolidado pela constituição de 1988 e suas emendas) , este ano haverá uma enxurrada de literatura sobre os anos de chumbo. Preparem-se. O Ano do Livro está mal começando. Metralhadora giratória contra o pesadelo da linguagem, que é fruto da má leitura ou da falta de. Um escritor te liberta quando faz o inventário da guerra, de qualquer guerra. Quando, à moda de High Noon, o faroeste inesquecível de Fred Zinnemann, Tabajara Ruas solta os cavalos na Uruguaiana dos anos 50 em seu Perseguição e Cerco a Juvêncio Gutierrez; quando Hilda Hilst, depois da sua morte, parte com sua obra para ser traduzida no Exterior, quando escritor falangista Sanchez Masa escapa do fuzilamento na obra de Cercas; quando sinto falta de Conrad, e Henry James, e Poe, e Lorca porque faz tempo que não os releio, algo acontece em nosso abandono das linguagens. É quando despertamos subitamente do pesadelo, e abrimos a janela direto para lua cheia.

ADVERTÊNCIA - No fundo, não é o livro que eu canto, mas essa revelação que nos manda para fora da rotina e nos arrebata porque somos criaturas com data de validade e a guerra que agora está sendo travada será transformada em palavras. Como disse uma vez Eduardo San Martin, o poeta e escritor que sumiu em Nova York e jamais manda notícias: “Cuidado, a vida é um romance, alguém está escrevendo.”

12 de fevereiro de 2004

QUAL O LIVRO DA SUA VIDA?

Podem ser vários, pode ser o mais relido, pode ser o perdido para sempre em alguma viagem, pode ser o traduzido pelo amigo, pode ser o que faltam as últimas páginas, pode ser o que sempre tivemos vontade de ler e perdemos todas as oportunidades. Pode ser aquele que você aplaude de pé no final, mesmo que esteja sozinho, desempregado, nos anos 60, encerrado numa república vazia e tenha fechado aquela página derradeira que diz sobre o mundo “que nunca acaba de se acabar” como aconteceu comigo diante de Cem anos de solidão, do maior escritor do mundo.

NONADA - O romance é o inventário de uma guerra, qualquer guerra. O único compromisso é com a literatura, que veste o que chamam verdade, ou memória, ou mesmo poesia. O que faz o romance é decidir o que existe de épico do fato reconstituído pela soma de linguagens atiradas no chão do tempo. Minha cena favorita de Lord Jim, de Joseph Conrad, traduzido de uma versão francesa pela música de Mário Quintana, é quando o anti-herói joga a tocha acesa no rio e, ao apagar-se, revela todas as estrelas. Ou a cena de O coração das trevas em que Marlowe cruza com seu barco o meio do nada chamado Tamisa e começa a narrar para quem o cerca, prendendo-os numa rede irresistível a que chamam história, mas que é pura magia. O romance pode ficar na sala da espera mas jamais humilha-se para uma entrevista. É o ato mais corajoso que o isolamento pode empreender, afora o fato de escapar de um seqüestro com as mãos amarradas – e isto já seria insumo para novo romance. O texto intrincado, como em Guimarães Rosa de Grande Sertão (e tão clássico em Sagarana) é a prova dos nove da leitura que se deixa abater depois de algumas investidas. Lembro que fiquei meses paralisado diante da palavra inicial Nonada, que Rosa usa para afugentar os preguiçosos.
O livro da sua vida é como o momento diante da morte: majestoso, irreversível, humano e precário; não há nada igual. Por um tempo, quando era foca na redação da Folha da Tarde da Caldas Junior em 1970, andava com os Quatro Quartetos do Eliot embaixo do braço. Nunca entendi o verso “abril é o mais cruel dos meses”, já que abril é um dos mais belos meses do ano, quando o Rio Grande do Sul dá uma trégua aos rigores do frio e do calor e aposta na amenidade da meia estação. Mas aquela edição antiga e brasileira de Eliot me encheu de boas fumaças para o exercício da escrita, naquele tempo em que enfrentei uma redação de feras e fui tratado com a generosidade que se presta aos viajantes sedentos e ainda jovens demais para pensar no pior.

SOBRA DE GUERRA - Conheço dúzias de pessoas sideradas por Os Thibault, de Roger Martin du Gard, que saiu em edição primorosa pela Editora Globo (graças, claro, à gestão Wagner Carelli) e que ainda deve estar dando sopa nas livrarias. Monteiro Lobato servia para inventarmos o verbo requeteler, pois era isso que fazíamos especialmente no inverno, quando o Sitio do Picapau Amarelo nos embalava a paz antes do sono e nos despertava para mais literatura. Tem livro inesquecível considerado científico que se lê com o prazer de um romance como é o caso de Raízes do Brasil ou Caminhos e Fronteiras, de Sergio Buarque de Holanda. Tem livro que assombra pela genialidade de sua síntese como As Brasinas, de J.A. Pio de Almeida. E livro que serve para marcar para sempre nossas vidas como Paris é uma festa, de Hemingway ou Seis contos da era do jazz, de Scott Fitzgerald. Tem livros impressionantes que li uma vez e jamais me recuperei como Metamorfose, de Kafka, O Conceito rosacruz do cosmo, de Max Heindel ou O Evangelho segundo o espiritismo, de Alan Kardec. Ou A magia do verbo, um pequeno opúsculo que mostrava a natureza divina de cada letra, representação de uma divindade que era evocada a cada enunciação do som que ela encerrava. Acredito na palavra mágica, no abracadabra. Não faz outra coisa o escritor do que ir atrás desse poder que abre portas e derruba muros. Tem livros que você não acredita não ser suficientemente conhecido como Sobra de Guerra, de José Onofre, o mais radical romance policial de todos os tempos.
O livro da sua vida é aquele que você cita cada página como se fosse sua e tem certeza que o escreveu em outras vidas, quando Deus foi bem mais misericordioso e distribuiu com mais igualdade suas graças. Pois o talento é um mistério que o universo guarda no cofre e de vez em quando abre para nos assustar. Ficar imune a essa provocação é perder o sentido da vida.

10 de fevereiro de 2004

O ETERNO ENCANTO DE LIBRES


Quando anunciavam a possibilidade próxima do fim do mundo, tinha gente na minha terra que imaginava uma solução tão simples quanto encantadora: escapar do Apocalipse era fácil, bastava fugir para Paso de Los Libres. A cidade em frente a Uruguaiana, do outro lado do rio, portal de entrada da Argentina, faz parte da nossa fronteira como alguém da família. Naquele imaginário antigo, Libres já era vista como o início de uma outra realidade, de uma viagem que a conterrânea e empresária Jussara Aymone descreve na bela mensagem a seguir.

ESTILO DE VIDA - “Eu sou apaixonada por Libres e quando a gente chega lá tem a sensação de viajar ao passado, não só pela hora a menos mas pelos prédios, ruas, estilo de vida. Tem ruas com aspecto tão de antigamente que se tem a sensação de estar dentro de um filme ou mesmo em outra época. Adoro o fato de ser vizinha da Argentina pois confio mais neles do que neste Brasil que desde o governo FHC em 1995 não nos permite ter esperanças de vencer ou mesmo crescer na vida. Eles são unidos, politizados e estão superando a crise, vejo isto na quantidade de argentinos que neste ano estão passando por aqui para irem para as praias do Brasil.
Outra coisa interessante de Libres pela cultura do povo é que sendo uma cidade com apenas 50.000 habitantes a gente encontra nas papelarias materiais de desenho assim como papéis importados, esfuminho, lápis, pastel...até em Porto Alegre estes materiais só se consegue em papelarias especiais. O mercado não tem mais aquele monte de bancas, mas a loja "Emilia" ainda existe com aquele cheirinho peculiar de mistura de queijos, azeitonas, bolachinha Criolitas, balas de leite, tudo a granel...
Nos supermercados sempre se vê novidades que ainda não chegaram no Brasil, eu adoro novidades. Ainda existe também o "Buraco", mas o Mercosul acabou com nosso livre trânsito então não se pode comprar víveres assim como frutas, queijos, carnes, batatas. O pessoal daqui compra no Buraco a cerveja, o vinho, o sabão e trazem escondido alguma fruta ou carne. Não existe mais o comércio formiga que ia lá comprar a batata, a cebola e outra coisas convenientes para vender em sua casa aos vizinhos que não tinham acesso a Libres. O Mercosul faz os trâmites pelos céus entre Buenos Aires e SP...e podemos comprar a deliciosa maçã argentina só no supermercado do Brasil. A gasolina continua mais barata lá.

SORVETE EM TAÇA - Libres continua do mesmo tamanho mas com vantagens, o horário é diferente e indo lá as 10 da noite a cidade está iluminada com muita gente sentada nos barzinhos e sorveterias, o comércio aberto e muito povo na rua dando a sensação de grande cidade. Em dias de semana a cidade aqui está morta neste horário pois a Globo rouba a cena...E outra coisa gostosa de Libres é o prazer de se sentar na sorveteria e poder comer aquele sorvete delicioso na taça banhado com chocolate sabendo que não será pesado; o fato de pesar o sorvete matou a sorveteria...aqui fazem fila para as máquinas com gosto de nada.
Quando o filme Titanic foi lançado aqui na nossa cidade não havia mais cinema, então fomos curiosos assistir o filme com todos aqueles efeitos especiais em Libres.O cinema de lá é como em toda cidade de interior que tem a praça principal, de um lado da rua a prefeitura, de outro a Catedral, de outro o Clube do Comércio e de outro o cinema. Era inverno, com o frio marcando zero graus, levamos a garrafa do bom vinho argentino Don Valentin...entramos na sala de projeção e algo estranho nos chamou atenção: os corredores do cinema estavam sendo aquecidos por estufas de gás, tal era o frio da noite e seriam 3 horas de filme...Sentamos e passou o baleiro uniformizado com aquela bandeja pendurada no pescoço oferecendo balas de leite, alfafores, torrones...A luz apagou...as cortinas abriram e fomos envolvidos por um som maravilhoso das propagandas argentinas, como são lindas, bem feitas...Iniciou o filme, claro que não tinha o som de um cinemax... mas eu estava curiosa nos efeitos especiais e isto foi mágico...

CID AO PIANO - É, Libres é assim para mim, me passa a nostalgia que não encontro em nossa cidade. Aqueles bons tempos de Uruguaiana que deves sentir saudades é claro que mudaram pois fizemos parte de uma geração de juventude rica, com poesia, com sentimento onde o amor era lei.
Eu trabalhei muito com filmagens e fotografias de festas no início da década de 90, fiz trabalhos maravilhosos de montagens com música erudita e trilha sonora de filmes e via nos bailes as meninas dançando sozinhas e os meninos com um copo de bebida só olhando... Desconhecem a delícia de dançar de rosto colado...Mas no Clube Caixeral tem estes bailezinhos para casais nos sábados com um conjunto ao vivo cantando Roberta Miranda e todas estas músicas cafoninhas de época.
Quando estivestes aqui notastes que o atual prefeito iluminou e valorizou a praça e ainda existe os footings em fins de semana, mas nada a ver com os de nossa época onde todos nós desfilávamos com glamour. Cid Guez toca e canta no kiosque em fins de semana e fica legal sentar ali para bater papo e acompanhar seu repertório maravilhoso, músicas de nossa época.”


RETORNO – Bebeto Alves, secretário de Cultura de Uruguaiana, anuncia o lançamento dia 21 da revista Fronteira (já tem um tira-gosto no portal Uruguaiana), uma vitória dele, da sua brava equipe e do prefeito Caio Riella. Lá está reportada uma fatia importante da vida uruguaianense, desde o carnaval que veio diretamente do Rio de Janeiro via Fuzileiros Navais (pois lá tem água e fronteira, duas missões da Marinha), até o perfil do inventor Jesus Maria Macuco, um assunto originalmente criado para o projeto da revista Vocare e que hoje encontra pouso num veículo que fará história. Bebeto pegou o touro a unha e fez acontecer um projeto que é um marco cultural, pois somos do Brasil, país que desconhecemos, e precisamos saber como é a vida em todas as bandas deste continente.

1 de fevereiro de 2004

O EXCESSO EM DENYS ARCAND


Invasões Bárbaras, o filme do cineasta canadense que dá seqüência a "O Declínio do Império Americano", trata da sobrevivência do espírito humano ressecado pelo excesso de conhecimento. O transbordo da informação cultural – que no fim torna-se escassa ao escoar pelo ralo numa sociedade de privilégios – é a desmoralização da pose acadêmica e o resgate da mais cruel e gratificante verdade humana: aquela que se revela pela sinceridade e a lucidez, e alcança sem querer a transcendência ao conhecer o limite imposto pela morte.

DIÁLOGOS - Se Godard é a majestade do cinema dominado pela cultura, o paraíso de uma síntese genial e insuperável, Denis Arcand é uma descida aos infernos dos consumidores dessa mesma cultura, quando não conseguem transformar-se em criadores. Ficam no limbo da superficialidade, e desenvolvem sua experiência mais importante ao promover o jogo da verdade nos mais duros e inspirados diálogos já escritos para o cinema. A conversa – insumo principal do esclarecimento filosófico – torna-se hilária pela quantidade gigantesca de informações e piadas que jorram das inúmeras escolas do pensamento universitário. Ou melhor, da convicção de que nada mais pode ressurgir da desmoralização das escolas do pensamento diante da complexidade surpreendente da História que passa pelos nossos olhos.


Nos dois filmes, a realidade é a percepção terminal de uma sociedade por meio dos seus mais privilegiados personagens, aqueles que ganham a vida para estudar e transmitir conhecimento. Parece haver culpa nessa vida curtida com jantares grandiosos, casas de campo e viagens internacionais. Mas há apenas revelação. Folhas ao vento das tendências e teorias, as vidas privadas dos personagens deixam-se levar pelos apelos dos projetos, para sucumbir diante dos antigos males humanos, a traição, a solidão, o desamparo, a frustração e a morte. Salva-se apenas a relíquia mais preciosa: a amizade.

Esse laço profundo, que leva todos de volta ao redor da cama do amigo desenganado, abre caminho para o amor possível, tanto o que foi feito para durar – que sonha com fidelidade e filhos – quanto o outro que tem o perfil da aventura. Mas este, devido às feridas acumuladas, tem menos chance de vingar. Por isso a viciada em heroína, depois de beijar o homem por quem se apaixonou – bem sucedido filho do professor que se foi – empurra-o em direção à porta da saída. Alguma lição fica do terremoto: a de que, antes de empapuçar-se de idéias arrivistas, é preciso cuidar de algo muito mais importante e piegas, que é o coração.

Ao resgatar a humanidade com esse convívio, o grupo – ou seus descendentes – terá mais condições de palmilhar a trilha do conhecimento sem os equívocos que colocaram todos a perder. Essa é uma posição otimista diante de um filme que joga pesado na desesperança, mas que acaba se costurando por meio de uma pungente canção popular.

OS DEZ CORAÇÕES DO TEXTO – Leio Pelé – Os dez corações do Rei (Ediouro, 235 páginas), de José Castello e navego num balanço primoroso de uma vida tratada com a mestria do grande ensaísta. Castello refunde o caldeirão do mito com o reconhecimento do quanto já se escreveu sobre o Rei, e devido a essa postura (que não pode ser confundida com humildade, mas com sabedoria) e ao seu talento, consegue nos trazer uma revigorada análise sobre a trajetória do craque maior. A história de Pelé torna-se então a bola que obedece facilmente aos lances de um craque do texto. Neste livro, em vez do futebol jogado sem imaginação, surge a arte da composição rítmica; no lugar da biografia bem comportada, a invenção que não cai nas tentações da firula; e em vez do modelo rígido das jogadas, a estratégia vencedora que não paga mico para a mesmice. O melhor e mais importante crítico literário do país – e romancista do primeiro time – dá um drible nas dificuldades que se impuseram diante desse projeto, e sem deixar cair a bola no gramado, atinge o gol.

RETORNO – Desta vez, o Diário da Fonte teve duas edições dominicais. Para compensar a vagareza dos últimos dias e para aproveitar o tempo disponível nesta época de preparo do Ano do Livro.

O SONO DA IMPRENSA


O vasto espaço editorial disponível nos grandes jornais não conecta a diversidade da produção do talento e com isso ajuda a travar sua divulgação. Ao mesmo tempo, nem as editoras – e até mesmo a Internet – dão vencimento à cultura trabalhada por uma gigantesca humanidade, cada vez mais ansiosa diante da injustiça que é expressar-se para poucos, e não ter o retorno valioso dos seus contemporâneos. Aqui, algumas sugestões pensadas em voz alta para enfrentar o desafio desse sofrimento.

TODO MUNDO LÊ – Falta vida às reportagens, falta alegria e gratificação na leitura, falta a imprensa escrita retomar a vanguarda, deixar de ser periférica, dizem especialistas como o professor Carlos Chaparro, e também o mais completo profissional de comunicação do país, Wagner Carelli – com quem tenho o privilégio de trabalhar e que ontem, sábado (31/01/04) deu longa entrevista ao programa Comunique-se, da allTV, junto com Mathew Shirts. Como leitor eventual de jornais – pois tenho décadas de contato com esses veículos e minha paciência tem limites – diria que a redundância é o principal problema. Não há a aposta no leitor, ou seja, cada nota ou matéria resgata tudo o que foi dito antes sobre o assunto, como se o comprador de jornais fosse um completo ignorante, que precisa ver todos os dias as mesmas coisas, pois corre o risco de ter esquecido tudo e não saber do que se está falando. Essa memória residual, comum a toda criatura, não é levada em consideração. Sobram então quadrinhos e dicas de como o leitor deverá se orientar nas páginas, dispondo de sínteses que, na mente enevoada dos editores, seriam as únicas a serem lidas. Leva-se o leitor pela mão como se ele fosse um débil mental. Pois aposta-se que ninguém lê no Brasil – um reflexo, possivelmente, da própria situação intelectual de quem edita. Ao contrário do que se pensa, todo mundo lê no Brasil. Temos um tremendo mercado editorial e as bancas estão lotadas de títulos – com belas novidades, como a revista Nossa História, da Biblioteca Nacional, que é um sucesso de público, tendo vendido toda a sua edição inicial de 16 mil exemplares. Criam-se novas livrarias em todo o país, superando-se em instalações cada vez mais completas. Compra-se mais livros e cada pessoa tem uma produção por escrito, especialmente agora, em que a Internet facilitou a vida dos textos, que correm na velocidade da luz pela rede. Tudo isso não é considerado pela imprensa, que insiste nos mesmos colunistas, nas mesmas fórmulas, nas mesmas pautas e no mesmo tipo de texto, padronizado por manuais que provocam sono.

PARCERIAS - No lugar de tentar agarrar o mundo – que lhe escapa pelos braços carregados de auto-suficiência – os grandes jornais deveriam reconhecer sua própria precariedade e estender a mão para o que se produz fora das suas fronteiras. Poderia colocar sua estrutura e recursos à disposição de equipes inteiras de jornalistas que trabalham à margem do mercado do trabalho, suando para manter-se em pé, e que se dispersam em inúmeras tarefas mal remuneradas. Basta fazer um rodízio e encartar revistas, suplementos, grupos de ensaístas sobre os mais diversos assuntos, que tivessem liberdade editorial e visual. Ganhando uma percentagem da publicidade que for conseguida pelos departamentos de publicidade e marketing das empresas jornalísticas, essas equipes teriam a chance de vir à tona e assombrar o leitor com suas revelações. Para isso é preciso grandeza, reconhecer que não se pode fazer tudo.
O que existe dentro das empresas de comunicação é um gargalo cada vez mais apertado de profissionais. Pois a sugestão que está sendo encaminhada agora ampliaria o quadro de produtores de pensamento sem nenhum ônus para as empresas – que precisam investir em tudo, menos nos seus quadros de redação, claro. Assim teríamos inúmeros projetos que seriam revelados pelas empresas e que poderiam então ganhar vida própria ou mesmo continuar, em sistema de rodízio, pegando carona no esquema bem montado que existe no mercado formal. Já existe isso, pode-se dizer. Talvez, aqui e ali. Mas esse é um projeto que deveria ser encarado de forma massiva, para que pudéssemos dispor, todos os dias da semana, de algo bem mais importante do que apenas o cardápio sonolento do noticiário diário. Por osmose, talvez as grandes redações pudessem ganhar novo impulso e vir a ser aquilo que o Wagner Carelli lembrou no programa, quando trabalhou aos 20 anos na redação do Estadão: um espaço onde haviam pessoas brilhantes em todo o canto e onde aprendia-se tudo numa profissão que é a melhor do mundo.

RETORNO – Graças a Bebeto Alves, que é secretário de Cultura de Uruguaiana, com extensa e maravilhosa obra de instrumentista, cantor e compositor, conheci Renato Dalto, um magnífico escritor da fronteira. Vejam o currículo do índio: “Primeiro, pra matar tua curiosidade: tenho alguns livros publicados, sim, mas nenhum na área de ficção. O mais conhecido deles é o Missões Jesuítico-Guaranis, um livro que editei para a Unisinos, com fotos do Eduardo Tavares. Escrevo o primeiro capítulo- os demais são escritos pelo Barbosa Lessa, Armindo Trevisan, Décio Freitas, Nestor Torelly e Pedro Schmitz. Esse livro ganhou o Prêmio Açorianos (acho que 98 ou 99). Outras publicações: Terra da Gente, para uma ONg, em parceria com o Barbosa Lessa; escrevi um capítulo do livro Éticas (editado pela Federasul e Assembléia Legislativa) , onde faço alguns perfis como do Sérgio Faraco, Olga Reverbel e Sérgio da Costa Franco.
Minha profissão original é jornalista: escrevi sobre cultura no extinto Diário do Sul ( de onde conheço um baita escritor e sujeito maravilhosos chamado Tabajara Ruas), trabalhei no Jornal do Brasil, enchi o saco e larguei empregos.Resolvi inventar coisas para não morrer numa redação. E inventei algumas. No jornalismo, fiz alguns projetos que me deram muito prazer. Por exemplo: uma série de 10 cadernos chamada Paraísos, publicada na Gazeta Mercantil (caderno do Rio Grande do Sul). Trata dos principais santuários ecológicos do Rio Grande do Sul. Comecei a trabalhar muito como roteirista. Escrevi a série Sul sem fronteiras, para a TVE-RS, dez documentários sobre o patrimônio histórico do RS- mas não esse patrimônio convencional, de prédios e relíquias antigas. Patrimônio histórico é o que herdamos, o que somos, nosso jeito de ser, as histórias que temos pra contar.
Mas o que inventei mesmo e mudou a minha vida foi criar cavalos crioulos.
Comecei num campo alheio, em Livramento, minha terra. Juntei uns pilas,
comprei um torrão pras bandas de Camaquã e trouxe pra cá a eguada. Batizei
meu chão de Cabanha Enluarada. E reatei o cordão umbilical que me liga à
terra. Isso também foi decisivo no que escrevo. Foi chuva boa na pastagem
das letras. Atualmente, passo a maior parte do tempo por lá, trabalhando com
o bicharedo e escrevendo pra sobreviver.Finalmente, devo te confessar que
tenho projetos na área de ficção. Há muito tempo, escrevi poesia, à qual
abandonei. Também não sou tão jovem assim: acabo de chegar nos 45, mas acho
que conservo o fôlego de potro. Tenho duas ou três histórias iniciadas, um
roteiro pronto para um documentário na região do pampa, várias idéias na
cabeça e acho que posso dizer e escrever coisas que agradem ouvir ou ler. E
sigo adiante, a galopito, bombeando o horizonte.” Falei para o Dalto que 45 anos para mim, é guri.

30 de janeiro de 2004

A QUALIDADE DOS CONTERRÂNEOS


Faço parte de uma geração de pessoas gentis, formada na refrega dura da vida estudantil onde não havia colher de chá, onde bastava tomar bomba numa só matéria para repetir de ano, e se repetisse duas vezes, era convidado a deixar a escola. Meus pares são pessoas como Fernando Pereira da Silva Filho, Carlos Alberto Martins Bastos, Solon Sastre, Rubens Lenar Güez, Gilberto Duro Gick, Lino Antonio Ulharuso, Vicente Torre, Luiz Carlos Etcheverria, Miguel Ramos, entre tantos outros. Todos, claro, de Uruguaiana.

O TREM DEMOCRÁTICO - No seu belo best-seller, que tem o nome de Como é longe Uruguaiana, meu amigo (e colega de aula do meu irmão Luiz Carlos) Fernando Pereira da Silva Filho me envia um exemplar onde revela seu texto limpo, cheio de detalhes, que mistura história familiar com a história da cidade. Fernando resgata, entre vários eventos maravilhosos, uma viagem de trem, esse transporte que foi sucateado criminosamente pelo regime que ainda está no poder, o instaurado em 1964. O hoje Dr. Fernando, dentista renomado, filho da grande amiga da minha mãe, Dona Leda, sua colega de trabalho no Centro de Saúde, dá um banho de memória e criação literária, ao contar cada curva daquela estrada inesquecível, cada tipo que viajava naqueles trens puxados por uma esforçada Maria Fumaça, todas as peripécias de viagens que marcaram vidas, pois somos dos confins do Brasil, ou melhor, do seu início, e saíamos às cinco da manhã para chegar, com sorte, a Porto Alegre, às sete da manhã seguinte. Chega ao requinte de descrever o vagão restaurante, esse luxo que não existe mais nas viagens brasileiras, onde havia confraternização, alegria e convívios definitivos. Fernando descreve o cuidado que todos deviam ter ao tentar tomar café enquanto o trem sacudia, a distribuição para o vizinho do pacote de bolacha Maria e a presença fulgurante do chefe do trem. Como diz Fernando, a “autoridade máxima da composição, com poderes de mando irrestritos dentro de todo aquele território, que percorria vagões, vestindo sua farda azul, com algumas insígnias e botões dourados bem polidos e a cabeça coberta por um indefectível quepe da mesma cor”. Fernando tem um estilo direto, saboroso, que recria cenas aparentemente banais, que é o segredo de todo escritor de verdade. Sabemos o quanto custa chegar a esse resultado, sem pretensões, que torna-se poético sem jamais distrair-se da narração. Sua história corre pela linha como uma composição que nos carrega para longe, para a alegria das descobertas de um tempo que ainda está conosco, morando como um parente próximo, e amado porque jamais superado na sua grandeza.

DESTILARIA - Perto da minha casa morava, e ainda mora, a grande família dos Etcheverria. O patriarca era o primeiro funcionário da Destilaria, marco da introdução do petróleo no Brasil. Pois a primeira empresa que cuidou do petróleo em território brasileiro foi a que é hoje a Ipiranga. Um grupo de empresários começou a importar óleo cru de Buenos Aires e a fazer o refino. Mais tarde, com as mudanças da legislação e da política, e devido a uma estratégia com mais chances de sucesso, a empresa transferiu-se para Rio Grande, onde hoje tem sua sede. Luiz Carlos Etcheverria era um dos amigos daquela rua. Muito magro, com calções até os joelhos, era um inventor de palavras. Tinha mais de 15 irmãos. Hoje ele é professor aposentado e reparte conosco a glória de ter fundado o Esporte Clube Guarani, um time de rua que tem mais de 40 anos. A duas quadras, morava (numa casa que continua com sua família) o meu amigo Cabeto Bastos, o mais elegante, culto e gentil exemplar desta geração. Ele faz parte de uma das famílias proprietárias do Grupo Ipiranga. Íamos ao colégio Romaguera Correa no mesmo passo. Usávamos avental branco, um grande tope no pescoço, com nossas lancheiras a tiracolo. Ele quase caiu para trás quando o presenteei com um convite de formatura do pré-primário. “Como conseguiste guardar isso tanto tempo?” perguntou. Eu não soube responder.

SENTINELA - Na minha recente viagem à cidade, tive a felicidade de encontrar no tradicional Hotel Glória o Sólon Sastre, um apaixonado pela obra de Fulvio Penacchi, o maior pintor do Grupo Santa Helena e que tem suas obras primas na catedral Santana da nossa cidade. Comecei então pensar nas pessoas daqueles idos dos anos 50 e 60 e descobri que compartilhamos a mesma formação ao mesmo tempo rígida e amorosa dos nossos pais, do ensino estimulante das escolas públicas e privadas, do debate aberto e franco das idéias, que jamais deixaram quaisquer resquícios de inimizade, isso que atravessamos longa e penosa ditadura. Dei-me conta então que fazemos parte de uma humanidade que procura, hoje, transmitir a todos o que aprendemos, dividir a alegria da conversa, somar esperanças e sentir a genuína alegria no reencontro. Pena que alguns já partiram, como o príncipe Gilberto Gick, aquele que jamais deveria ter nos deixado, pelo tanto que poderia fazer, pela enormidade do espírito, pela inteligência infinita e pela ousadia de chegar sempre na frente. Gilberto era a nossa vanguarda e, como todo sinuelo, sofreu o vento minuano dos tiros na primeira hora, quando ainda estávamos dormindo. Quando acordamos, estávamos desamparados pela perda. Mas o texto, que é sempre trabalho penoso pelo desafio e gratificante pelos resultados, é a poção mágica que traz todo mundo de volta e nos coloca ao redor do fogo.
Somos de Uruguaiana, a cidade-sentinela. Quem vem de outro país nos cumprimenta em primeiro lugar. Respondemos com o abraço das boas vindas, com a aceitação das diferenças, com a certeza de que nascemos para dar o exemplo, já que somos fruto do exemplo maior da geração – e que geração! – que nos precedeu. A geração que nos deu os melhores, a que fundou a nação a partir do nada, e que nenhum respeito ou agradecimento, por maiores que sejam, jamais poderão retribuir tudo o que nos deram.

RETORNO - Fernando Pereira da Silva Filho me envia a seguinte a mensagem:
"Meu prezado Nei - Os amigos são sempre benevolentes. Grato por ter me colocado no mundo. Sei dos meus limites mas pretendo ir alargando-os, antes tarde do que nunca. Apesar de levar uma vida de paulista em Uruguaiana ( dá para acreditar?) pelos meus trabalhos ( tenho três frentes para encarar por dia) tenho me dedicado aos escritos. Sem medo de errar digo que eles são o meu prazer, o meu lazer e minha terapia para enfrentar esse mundo de hoje. Um abraço fraterno e obrigado pelo estímulo. Leio sempre tuas mensagens e vejo que apesar
dos tempos não te desligastes de nossa terra. Quem escreve com o coração não se trai nunca".

24 de janeiro de 2004

QUEREMOS MAIS, SÃO PAULO



A cidade-mãe a todos acolhe e recebe visitas e presentes no seu aniversário. Mas como toda mãe idosa, seu espírito parece estar confinado num asilo, esperando o dia em que filhos e trisnetos venham lhe prestar homenagens. No resto do ano, acontece o de sempre: surge a toda hora uma nova maneira de explorar a velha senhora, tirar tudo o que dela ainda jorra generosamente. Basta olhar ruas e calçadas e ver como a deixaram feia enquanto fazem brindes à sua longa vida.

O ENTERRO DOS FIOS – O morador comum de São Paulo não usufrui do que ela tem de melhor. Vive-se entre sujeira e pouco caso, barulho excessivo, ar poluído e água escassa. Estrelas internacionais vem e vão carregadas de dólares, restaurantes maravilhosos servem a poucos comensais, exposições de arte atraem filas e atropelos e morre-se diariamente no trânsito onde todos são os primeiros em tudo. O risível é o pacote de soluções idealizadas, todas orientadas pelo politicamente correto, os temas da moda, as picuinhas políticas. O fundamental para tirar São Paulo do horror urbano é, em primeiro lugar, deixar que o dinheiro público fique isento da cobiça do tubaronato. Segundo, cuidar da infra-estrutura, pois não é possível que ruas desenhadas para passar carroça tenham que absorver a incúria do poder público, que infesta o território nacional de novas fábricas enquanto deixa à deriva o mais importante transporte do mundo, o público, com ênfase nas ferrovias (temos ainda pouco metrô). O saneamento básico, a permeabilização das ruas, o conserto e reforma e redesenho das calçadas, o necessário enterro da rede de fios (coisa que se faz há decadas em outros países), o investimento maciço e total na habitação (em convênio com a própria população, que, sem ter outra saída, constrói casas por sua conta, deixando-nos o espetáculo triste de favelas com tijolos à mostra), seriam medidas óbvias. Colocar o poder público a serviço da infra-estrutura não é fazer obras mirabolantes, como levar 18 meses para cavar dois túneis em terreno nobre para impressionar os eleitores, como acontece atualmente na Eusébio Matoso e na Cidade Jardim. Habitação deve vir acompanhado de urbanismo moderno e eficiente em todos os bairros. O que se vê é uma cidade abandonada. As calçadas da importante avenida Francisco Morato, por exemplo, onde sobram empresas milionárias ao longo do seu percurso, são as mesmas que encontrei há trinta anos. Não se faz nada, a não ser politicagem.

CAOS - Não é difícil se chegar a resultados. Imagino sempre que os responsáveis pela cidade não vivem nela, passam por cima de helicóptero e estão sempre pensando em fugir do caos permanente. Não existe amor por São Paulo, existe o hábito de viver à sua custa, de se servir do que oferece, de encher os bolsos com seu dinamismo, de abraçar seus privilégios. Existe interesse e incúria. O amor é outra coisa. Amor não é detectar a cidade antiga soterrada na violência de hoje, não é sentir saudade, não é relevar seus problemas para dizer que ela continua maravilhosa. Amar a cidade é sair à rua e sentir-se seguro e confortável. Tradicionalmente, o Brasil odeia o espaço público e transforma o espaço privado num palácio. Os visitantes europeus notavam que não se encontrava nada nos mercados e que as ruas das cidades brasileiras eram imundas. Em compensação, as casas tinham tudo, de sobra. Essa mudança de enfoque não ocorreu ainda em São Paulo (onde, claro, são poucos os palácios e muitos os barracos), mas existe em outras cidades. Precisamos acabar com essa cretinice cíclica de desovar falso amor sobre a cidade que nos acolheu, que nos permitiu sobreviver e que continua grandiosa, imponente e cheia de energia, apesar do vampirismo que a suga diariamente.

VIBRAÇÃO - Foi paixão à primeira vista. Cheguei em São Paulo em julho de 1969 pela primeira vez. Fui com meus amigos pousar no estádio do Pacaembu, pois estávamos em férias e tínhamos carteira de estudante, ou seja, era permitido o acesso de peregrinos escolares aos infindáveis aposentos. Achei o máximo quando conheci a Avenida Paulista num entardecer de ouro. Senti a vibração das ruas e das pessoas. São Paulo me chamava e continua me convocando. Estou aqui em missão cívica, para aprender e ensinar. Gostaria de abraçá-la neste 25 de janeiro, quando completa 450 anos, como uma velha amiga e protetora. Cidade que o Brasil constrói como um projeto de futuro. Que abriga toda a população da terra. Que distribui bênçãos como uma matriarca. E que nos acompanha quando nos afastamos dela, saudosos da sua loucura, amantes da sua grandeza. Somos gigantes quando conseguimos sobreviver na selva paulistana. Ficamos diferentes e compartilhamos a experiência comum de conviver no miolo de um furacão, atiçados pelo centro de um terremoto.
Queremos mais, São Paulo. Te queremos limpa, bonita e agradável. Dizem que é impossível, que é pegar ou largar, que devemos nos conformar com os transtornos pois São Paulo é assim mesmo. Não concordo. São Paulo pode ser melhor. Basta deixar de roubá-la. Basta deixar de tratá-la como um objeto valioso da qual nos servimos sem limites. Basta devolver a ela mais do que palavras, ações verdadeiras em favor da sua redenção.

RETORNO- Não quero, com este texto, dizer que tenho cidadania paulistana. Sou lá do “sudoeste onde o Brasil termina”, como diz o poema. Também não quero dizer que devo a esta cidade. Aqui vivo e aqui muito sofri. Paguei o que recebi. Mas quando me perguntam onde estou agora, digo com orgulho: moro em São Paulo. A cidade vitoriosa que nos ensina a virtude da garra, a tenacidade do sonho, a realização do projeto, a convivência planetária. Moro aqui, onde queremos ser melhores do que somos. Onde sabemos que não somos nada. À parte isso, queremos mais do que apenas uma vida para ficar à altura do que podemos ser nestas avenidas, nestas pontes, nestes bairros.
Feliz aniversário, São Paulo. Posso te chamar de minha cidade?

22 de janeiro de 2004

NA PEDROSO, COM GIM TONES



O inenarrável repórter policial me aparece na nova redação vestido de motoqueiro sem moto, todo coberto de plástico para enfrentar a famosa chuvinha fodegosa que caiu hoje no Brasil de Sampa a Floripa (conheço o clima numa distância de 700 quilômetros), animado com o Ano do Livro e me convence a misturar chope gelado com caldo quente de feijão regado a cachaça Boazinha. Nesse ínterim, alguém ficou presa na casa em frente e, como só acontece em grandes reportagens, o sonso jornalista atravessa a rua convocado pela aventura . Não perca as próximas linhas.

DESTINO - É uma questão de linhas escritas na palma da mão. Lembro que na minha visita a Uruguaiana, quando fiz o périplo resgatante no carro regado a chimarrão do Anfitrião da Tríplice Fronteira Anderson Petroceli, passei algumas horas na mais completa tranqüilidade. Pois foi voltar para a praça e escutar de Tabajara Ruas, autor da obra-prima “Perseguição e Cerco a Juvêncio Gutierrez”, que também tinha saído a visitar a cidade, mas por sua vez no famoso “diapé”, a história assombrosa de que foi testemunha de um tiroteio, tendo adentrado no recinto dos balaços (logo depois do evento, claro), para verificar o estrago em algum conterrâneo que exibia o sangue dos inocentes. É como eu digo: tem gente que nasce para a aventura. Com Gim Tones dá-se o mesmo. Enquanto nos ocupávamos com mil lides editoriais, o solerte jornalista exibia seu olhar pela janela quando gritos da frente o convocaram para um resgate. Parece que a vizinha, tradicionalmente nervosa com o rompimento do seu matrimônio, tinha se encerrado sem querer atrás do grande portão (é uma região de grandes mansões e portões) e gritava por socorro. Pois não é que Gim prontificou-se a atravessar a rua e salvar a ilustre vizinha, notória por sua capacidade de gritar sempre que o ex-marido lhe aparece nas fuças, quando é alvo de ameaças como “essa conta vou mandar para o teu apartamento”. Depois do resgate, a vizinha aos brados contou o infortúnio para nosso repórter, que assim cumpriu o destino aventureiro da sua estirpe, deixando-nos boquiabertos com a oportunidade única que se lhe apareceu, ele que nunca visita a redação, redação que nunca é dada a esse tipo de ruído, já que se dedica as altas esferas da melhor literatura brasileira e mundial. Pois é assim, meus amigos e amigas, é assim que se manifesta a vida e suas escolhas. Não tive outra alternativa do que levar meu amigo para o Pirajá, prainha da Pedroso de Moraes, onde desfrutamos de uma conversa interminável sobre a linhagem da reportagem policial no jornalismo brasileiro.

DESPISTE – Para impressionar o solerte pesquisador de histórias desumanas da periferia e texto maior da nova safra de escritores brasileiros, tentei vestir de carisma minha trajetória de vida colocando o talento como coisa comum entre edição e reportagem. Nesta, destaco como diferencial básico a coragem. O repórter que se aventura na favela para trazer a história que ninguém conta tem em mim o admirador número um. Contei ao garoto quase trintão a importância de pessoas como Pena Branca e Hamilton Almeida Filho, já que de Caco Barcelos não preciso nem traçar mínima biografia, pois é público e notório que Caco é o verdadeiro nome da coragem. Gostei de ver Gim Tones animado com as perspectivas que se abrem no Ano do Livro, pois já estava preocupado com sua longa descida aos infernos da lassidão desempregatícia, já que o Império da Idiotia erradicou o talento das redações como se tirasse fora ervas daninhas. Mas o talento soa como uma rebelião, como falei recentemente para meu consideradíssimo amigo e escritor maior Moacir Japiassu, que aos poucos planta os pés para fora do Brasil com sua grande literatura e nos prepara uma surpresa de arrepiar para os próximos meses.

AUTORES - É desse jeito que vivo atualmente, entre meus queridos escritores, que palmilham o território da criação na maior das dificuldades, sem querer saber do dia de amanhã, pois o futuro nos pertence, assim como o presente é uma presa fácil em nossas mãos cheias de vontade de acertar o passo. Espero que estas linhas agradem os leitores deste espaço, que está meio atirado por absoluta falta de tempo, mas não por falta de vontade. Pois vontade sobra e estamos prontos para atravessar o rubicão com as palavras que preparamos para cumprir nosso destino. Nós, brasileiros, somos assim, por isso somos os melhores.

18 de janeiro de 2004

CHUVAS DE VERÃO II



O filme perfeito não me sai da cabeça. Continuo hoje o que comecei ontem neste espaço e abordo a solidão, que ocupa, na obra-prima de Cacá Diegues, um lugar de honra. E faço também um resgate pessoal de outros trabalhos de cineastas da minha preferência, para que possamos ver a paisagem cinematográfica brasileira com sua verdadeira diversidade e competência, que chega muitas vezes no raro patamar da genialidade.

CONFISSÕES DO ISOLAMENTO - “Passei a vida inteira trabalhando em troca de uma caneta dourada. O que fiz da minha vida?”, diz o aposentado interpretado por Jofre Soares (quem pode esquecê-lo em “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, filme maior de Roberto Santos, onde outro grande ator, Leonardo Villar, faz História?)
- “O senhor me desculpe, mas acho que me fodi na vida”, diz a senhora muito antiga, concertista de piano que se desespera diante da inutilidade da sua trajetória e grava sua performance para que futuros netos (que não virão, já que seu filho escolheu como esposa uma velha atriz decadente de teatro de revista) possam apreciá-la.
- “As crianças são a única alegria da minha vida e só faço apresentações para manter a forma”, diz o palhaço aposentado e pedófilo, interpretado por Rodolfo Arena.
- “Eu também preciso ganhar a vida”, diz Juracy, criação do impiedoso Paulo César Peréio, o ator fundamental do cinema brasileiro, quando tenta justificar sua deduragem.
- “Declama aquele poema do brinde, que me emociona tanto”, diz para sua noiva o personagem Paulinho, o adolescente tardio que não sai da escola para não enfrentar a vida.
- “Eu queria ter aquele filho. Mas a pressão foi enorme. Então decidi me dedicar às minhas irmãs”, diz a solteirona Miriam Pires, momentos antes de provar novamente o orgasmo.
Essas frases revelam a solidão de personagens que jamais se encontram e somam-se ao silêncio desesperado de Marieta Severo depois de descobrir a homossexualidade do marido. “Se eu puder fazer alguma coisa por você”, diz o pai e Marieta devolve para essa frase sem sentido um olhar em pânico e um meio sorriso sombrio.
A apresentação visual da solteirona é revelada pelo súbito mutismo do filme, que estava embrenhado no alarido e no zoom. Quando a enfoca pela primeira vez, afasta o olhar da câmara para colocá-la isolada, na calçada, com suas roupas escuras, seu rosto despedaçado.
- “Estou aposentado, não tenho nada para fazer o dia todo”, diz Jofre Soares, olhando os que passam rumo ao trabalho.
Como viver se você foi jogado fora? E o que rompe o isolamento desses personagens trágicos? Primeiro, a súbita aparição de um bandido, amante da empregada (Cristina Aché) do aposentado, que se esconde na casa dele para ser descoberto por Juracy. A busca da polícia alvoroça a rua e agrega as pessoas em torno da tragédia. No mesmo tom, a apresentação do palhaço que reúne em sua volta a ingenuidade popular e a alegria das crianças – contraponto do cerco que o artista faz a uma menina – resulta numa cena que descamba para a ameaça da violência sobre a festa coletiva. O bar onde se encontram os homens sem nada a fazer, fracassados de seus sonhos (como o ex-jogador de futebol que quebrou a perna em dois lugares), é um antídoto para esse cerco de solidão que cai irredutível sobre cada um.
Mas a esperança – que é a salvação possível, a cura da ressaca provocada pelo horror – dá-se pela coragem de enfrentar as dificuldades. A redescoberta do sexo na terceira idade, a auto-entrega do culpado diante da polícia, o carinho pela família, a aceitação do inevitável são remédios que curam de verdade, mesmo que essa cura seja provisória. O filme nos emociona porque não nos pede licença, nos coloca contra a parede mas não tira proveito disso. Ao contrário, nos entrega uma obra de referência, a quem devemos fazer uma visita periodicamente, assim como devemos reler os clássicos.

TODOS OS DOMINGOS DO MUNDO – Assim como Matraga, de Roberto Santos (o cineasta de morreu de um ataque cardíaco depois de um festival de Gramado, onde não recebeu prêmio algum), temos, em Todas as Mulheres do Mundo e Edu, Coração de Ouro, de Domingos de Oliveira, outros exemplos de filmes perfeitos. Anexo à lista São Paulo S.A. (obra-prima absoluta) e O Caso dos Irmãos Naves, de Luiz Sérgio Person e O Assalto ao Trem Pagador, de Roberto Farias. Além, é claro, de O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, Os Fuzis, de Ruy Guerra, Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe , de Glauber Rocha. Mas estes são por demais conhecidos e incensados. Nem precisa lembrar o que são – obras-primas brasileiras que deslumbraram o mundo. Só queria chamar a atenção para meus filmes nacionais favoritos que não costumam ganhar o mesmo tipo de admiração e carinho.

17 de janeiro de 2004

O FILME PERFEITO



“Chuvas de Verão” (1977), de Cacá Diegues, continua sendo uma obra-prima do cinema nacional. Em cada cena de clássico acabamento, numa trama de grande complexidade e transparência, vemos neste filme maravilhoso quem realmente somos e aprendemos a admirar nossa capacidade de alcançar o mais alto nível da criação cultural. Com essa revelação, resgatamos o país mergulhado dentro de nós. Fica assim mais fácil suportar e entender a carga de realidade que nos desafia e que costumamos ignorar.

MILAGRE – Ao filmar o Rio de Janeiro e deixar de lado a Zona Sul, Cacá Diegues captou o milagre da civilização brasileira, que se estende por vasto território com as mesmas características (“milagre de português”, segundo Paulo Vanzolini). O aposentado que sonha em nada fazer descobre nos vizinhos, amigos e parentes a sombra pesada de uma vida em todos mal resolvida, e por isso mesmo, humana. O admirável é que não há lamentações nesse impacto composto de pedofilia, homossexualismo, deduragem, assassinato. O olhar ao mesmo tempo triste e resignado de Jofre Soares (o ator a quem o Brasil jamais poderá agradecer o suficiente) sabe abrir-se nos momentos mais cruciais, quando a lucidez sobre o horror escancara uma janela para a alegria.

A vida e seus espinhos passam rapidamente como chuvas de verão. O que fica é a tenacidade da sobrevivência, o convívio trepidante entre os despossuídos, a dignidade que prescinde da moral conservadora, a glória da ingenuidade que enfrenta a violência e sai ganhando. Nesta narrativa, desfam grandes eprsonagens interpretados por Miriam Pires,a nudez, a resignação e o desejo da terceira idade; Rodolfo Arena, o palhaço encantador e sinistro; Paulo Cesar Pereio, o comportamento crítico diante da falsa arte por meio de genial caricatura do malandro,entre outros.

A rua de casas que serão demolidas para uma futura obra do metrô é pintada como uma paisagem única, onde a decadência da modernidade superpõe-se à seqüência de cores e formas da tradição pictórica brasileira. Como se os séculos anteriores servissem de amparo para a trama que se desenrola entre paredes velhas, com fotos e cartazes antigos, móveis obsoletos. O corpo humano é moldado por essa paisagem e seus gestos são limitados pela penúria da geografia que o circunda. Torna-se patética a justificativa do palhaço criminoso (Rodolfo Arena) que tenta disfarçar a culpa do estupro com o simulacro de um exercício físico. A imagem da solidão absoluta é o aposentado que leva sua cadeira desconfortável para a calçada numa tentativa de fisgar a vizinha. E a precariedade do caráter revela-se na camisa aberta ao peito de Juracy (Paulo César Pereio, absolutamente impossível na sua genialidade).

CIRCO - Há também camadas superpostas de artes populares, como é o caso da cena do teatro de revista que vira drama de circo de subúrbio. O mais impressionante neste filme antológico é que Cacá, como os grandes romancistas, expõe as feridas mais profundas dos personagens como se estivesse narrando uma anedota. E conta uma história aparentemente banal com todos os elementos do grande teatro. Ali está a relação edipiana entre adolescente tardio e a estrela decadente; a morbidez do velho (Sady Cabral) que tenta descobrir o estado terminal dos amigos; a senhora muito antiga (Lourdes Mayer) que faz revelações pornográficas e consegue rir do seu fracasso; o almofadinha (o magnífico Daniel Filho, ator infelizmente pouco presente no nosso cinema) que conseguiu escapar da miséria e entrega-se a orgias homossexuais; a filha (Marieta Severo) que nunca vê o pai para poder escapar de suas raízes.

Mas não se entenda essa galeria de horrores como uma entrega da obra às facilidades da desgraça. Sem cair no otimismo – que é a esperança pulando o Carnaval – Cacá Diegues aposta na dignidade de uma vida escassa, mas cheia de grandeza. O final, que são as pessoas indo para o trabalho ao som de um chorinho, nos mata de emoção. A solteirona (Miriam Pires) que ao redescobrir o sexo usa sua saia amarela ao voltar para o batente, o operário que antes de pegar o trem é acompanhado pela mulher e filhos fazem parte de um hino camerístico, a majestade informal de uma cultura que soube encontrar sua identidade e deixa sua marca para ser vivenciada e admirada.

SOMOS ASSIM - Dificilmente “Chuvas de Verão” deixará de ser a obra- prima que é. Por ser um filme perfeito, já nasceu clássico. Por ser a soma da nossa coragem, veio para ficar. Por falar a verdade sem nos humilhar, é um amigo eterno. Por nos abraçar sem nos paparicar, faz parte da família. Por isso é muito mais do que um drama ou uma comédia de costumes. A obra não se enquadra em qualquer moldura. É o que temos para mostrar a nós e ao resto do mundo: somos assim. Por isso somos os melhores.

RETORNO - Boa entrevista de Cacá Diegues aqui .

15 de janeiro de 2004

UM AMIGO DA PRIMEIRA INFÂNCIA

O Ano do Livro começa animado e me toma todos os minutos do dia. Minha função é ajudar a viabilizar a publicação de autores dentro e fora das fronteiras. No mesmo embalo, tenho aqui repassado textos que me enviam, para compartilhar o que se passa na cabeça alheia e conectar com memórias e depoimentos de pessoas que estavam perdidas nesse mundão de Deus e que, graças à Internet, chegam para lembrar-nos de onde viemos e de que tipo de material humano somos feitos. Hoje, coloco neste espaço uma surpreendente carta de alguém que foi meu colega nos primeiros anos do primário e com o qual só agora retomo contato.


CARTA DO BRASIL PROFUINDO - "Oi Nei. Desculpe a demora para encontrar em contato com você, mas ontem foi que vi seu recado no portaluruguaiana. Talvez você não lembre mais de mim. Sou Lino Antonio Ulharuso, estudamos juntos no Romaguera Corrêa, éramos muito amigos, sempre ia a sua casa para estudarmos. Estudei com voce até o segundo ano, depois fui para o Reingantz, não sei se você lembra, ficava perto do hospital de caridade. Lembro bem de seus pais, eram gente finissima. Depois que fui estudar em outra escola nos afastamos. Lembro muito de quando faziamos bagunça na aula dona Eva, mandava chamar o Iris (na época prefeito). Ele chegava na janela de nossa sala que ficava na lateral da prefeitura e com aquele vozeirão dele, davanos bronca então ficavamos calados."

ANDANÇAS - "Saí de Uruguaiana em 67 fui morar no Rio, depois joguei futebol na Venezuela, acabei deixando o futebol devido às decepções. Em 1970 fui trabalhar em Recife, me casei por lá morei 23 anos, estou aqui em Brasília desde 1993. Tenho uma filha que vai fazer 19 anos em fevereiro. Hoje trabalho no Comando da Aeronáutica
( sou funcionário civil). Voce é o único de nossa turma do Romaguera que
lembro, pois eramos muito amigos. Não sei se voce lembra de mais alguém
daquela época. Ha 15 anos que não ia a nossa terrinha, estive em março 2003,
gostei muito do que vi, a cidade mais bonita, inúmeros prédios. Meus pais
moravam na Barão do Triunfo (hoje Iris Valls), não sei se você lembra do Palma
(fotógrafo) minha casa ficava ao lado da dele. Minha mãe ainda mora lá.
Que legal que temos um Uruguaianense militando na imprensa. Olha, às vezes
vou a Sampa tenho uma cunhada que mora aí. Soube que o Cabeto Bastos estava morando em Sampa, agora quando estive na terrinha perguntei pelo mesmo e me deram essa informação. Por acaso você sabe onde anda o gordo Jorge?"

FAMÍLIA - "Você me parece que tinha outros irmãos, tem alguem de sua familia morando ainda em Uruguaiana? Que ano você saiu de lá? Quando for a Sampa irei lhe procurar para batermos um papo, pode ser? Nei vou encerrando está com grande alegria em poder manter contato contigo depois de mais de 45 anos, é tão bom a gente poder contatar com amigos que nos foram tão caros na infância. Esatei aguardando sua resposta. Um grande prazer e aquele abraço do amigo. Lino

RETORNO - Meu bom amigo Lino faz assim uma ponte maravilhosa entre o Mundo Perdido e o século 21. Como posso agradecer a ele? Respondendo que fiquei feliz em saber de suas andanças e dizer que, infelizmente, tenho apenas meus pais, irmã e tias lá, mas morando no Outro Lado. Quando estive em Uruguaiana, todos me perguntaram sobre minha família. Meus pais, muito queridos, deixaram sua marca na cidade encantada, e jamais serão esquecidos. Obrigado, Lino, colega do Grupo Esacolar Romaguera Correa (o grande dicionarista do pampa), que estava instalado num prédio - hoje patrimônio histórico e que abriga a Prefeitura Municipal. Cabeto Bastos era nosso colega e mora em São Paulo, onde trabalha na empresa da família dele, o Grupo Ipiranga. Pois pouca gente sabe que o petróleo no Brasil começou em Uruguaiana e não na Bahia. Assunto para outras edições.

14 de janeiro de 2004

O DESABAFO DA HORA



Corre na Internet um texto sobre a decadência do Brasil e a vontade de resgatar o que perdemos. O texto é de autor desconhecido, segundo quem me enviou a mensagem, meu irmão Elo Ortiz. Repasso na íntegra o que recebi.

MATINÊS - "Fui criado com princípios morais comuns. Quando criança, ladrões tinham a
aparência de ladrões e nossa única preocupação em relação à segurança era a
de que os "lanterninhas" dos cinemas nos expulsassem devido às batidas com
os pés no chão quando uma determinada música era tocada no início dos
filmes, nas matinês de domingo.

Mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos eram autoridades presumidas,
dignas de respeito e consideração. Quanto mais próximos,e/ou mais velhos,
mais afeto. Inimaginável responder deseducadamente a policiais, mestres, aos mais
idosos, autoridades. Confiávamos nos adultos porque todos eram pais e mães
de todas as crianças da rua, do bairro, da cidade. Tínhamos medo apenas do
escuro, de sapos, de filmes de terror.

Hoje me deu uma tristeza infinita por tudo que perdemos. Por tudo que meus
filhos um dia temerão. Pelo medo no olhar de crianças, jovens,velhos e
adultos. Matar os pais, os avós, violentar crianças, seqüestrar, roubar,
enganar, passar a perna, tudo virou banalidades de notícias policiais,
esquecidas após o primeiro intervalo comercial.

Agentes de trânsito multando infratores são exploradores, funcionários de
indústrias de multas. Policiais em blitz são abuso de autoridade.
Regalias em presídios são matéria votada em reuniões.
Direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos
honestos.

Não levar vantagem é ser otário. Pagar dívidas em dia é bancar o bobo,
anistia para os caloteiros de plantão. Ladrões de terno e gravata,
assassinos com cara de anjo, pedófilos de cabelos brancos. O que aconteceu
conosco?

Professores surrados em salas de aula,comerciantes ameaçados por
traficantes, grades em nossas portas e janelas.
Crianças morrendo de fome, gente com fome de morte. Que valores são esses?
Carros que valem mais que abraço, filhos querendo-os como brindes por
passar de ano. Celulares nas mochilas dos que recém largaram as fraldas.
TV,DVD, telefone, vídeo-game, o que vai querer em troca desse abraço, meu
filho?

DIGNIDADE - Mais vale um Armani do que um diploma. Mais vale um telão do que um papo. Mais vale um baseado do que um sorvete. Mais vale dois vinténs do que um
gosto. Que lares são esses? Bom dia, boa noite, até mais. Jovens ausentes,
pais ausentes, droga presente e o presente uma droga. O que é aquilo?

Uma árvore, uma galinha, uma estrela.
Quando foi que tudo sumiu ou virou ridículo?
Quando foi que esqueci o nome do meu vizinho?
Quando foi que olhei nos olhos de quem me pede roupa, comida, calçado sem
sentir medo?
Quando foi que fechei a janela do meu carro?
Quando foi que me fechei?
Quero de volta a minha dignidade, a minha paz.
Quero de volta a lei e a ordem, a liberdade com segurança.
Quero tirar as grades da minha janela para tocar as flores.
Quero sentar na calçada e ter a porta aberta nas noites de verão.
Quero a honestidade como motivo de orgulho.
Quero a retidão de caráter, a cara limpa e o olho no olho.
Quero a vergonha, a solidariedade e a certeza do futuro.
Quero a esperança, a alegria.
Teto para todos, comida na mesa, saúde a mil.
Não quero listas de animais em extinção.
Não quero clone de gente, quero cópia das letras de música, cultura e
ciência.
Eu quero voltar a ser feliz!
Quero dizer basta a esta inversão de valores e ideais.
Quero mandar calar a boca de quem diz "a nível de", "enquanto pessoa",
"visa resgatar".
Quero xingar quem joga lixo na rua, quem fura a fila, quem rouba, quem
ultrapassa a faixa, quem não usa cinto, quem não dignifica meu/seu voto.
Quero rir de quem acha que precisa de silicone, lipoaspiração,dieta,
cirurgia plástica, carro zero, laptop, bolsa XYZ, calça ZYX para se sentir
inserido no contexto ou ser "normal".

O SER PERDIDO - Abaixo o "TER", viva o "SER"!
E viva o retorno da verdadeira vida, simples como uma gota de chuva, limpa
como um céu de abril, leve como a brisa da manhã! E definitivamente comum,
como eu.
ADORO O MEU MUNDO SIMPLES e COMUM.
Vamos voltar a ser "gente"? Ter o amor, a solidariedade, a fraternidade
como base.
A indignação diante da falta de ética, de moral, de respeito...
Discordar do absurdo. Construir sempre um mundo
melhor, mais justo, mais humano, onde as pessoas respeitem as pessoas.
Utopia? Não... se você e eu fizermos nossa parte e contaminarmos mais
pessoas, e essas pessoas contaminarem mais pessoas... hein?!

Quem sabe?...

Por um mundo mais humano !!!"

(Texto de autoria de Sara Maria Binatti dos Anjos)

RETORNO - Reproduzo aqui a mensagem que identifica a autoria do texto: "O texto tem o título original "Reflexões" e é de autoria de Sara Maria Binatti dos Anjos. Este texto é devidamente registrado na Biblioteca Nacional através do EDA (Escritório de Direitos Autorais) de Porto Alegre. Solicitamos citar o título e a autoria . Obrigado. Dr. Antonio Carlos Carvalhal

12 de janeiro de 2004

UM OUTSIDER EM PLENA FORMA



Um dos mais queridos e importantes jornalistas da minha geração, Jary Cardoso, colocou preto no branco o filé da cultura brasileira desde os anos 60. Agora me escreve um depoimento sobre suas andanças profissionais. Vale a pena fazer uma visita ao nosso amigo, que trocou sua São paulo por Salvador, e lá enfrenta todas as barras do jornalismo, com a serenidade de quem aprendeu muito e tem muito a dizer.

NAQUELE TEMPO - "Quando comecei oficialmente na profissão, com carteira assinada, no início de 69 em Porto Alegre - Zero Hora, com Marcão, e Sucursal da Abril, com Totti -, trazia o espírito acadêmico da Maria Antonia, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP - cursos iniciados e não concluídos de Filosofia Pura, Psicologia, Letras, Economia, militando num grupo de intelectuais revolucionários, também ligados à USP, a Polop, onde me tornei dirigente nacional e editava o Informe da Política Operária, me iniciando na prática no jornalismo - e, então, em Porto Alegre incorporei o espírito acadêmico ao jornalismo, sempre me interessando pelo lado teórico e vanguardista da prática jornalística, e me lembro qdo o Alberto Dines foi a Porto Alegre (na PUC?) fazer palestra sobre jornalismo impresso confrontado com a força visual da TV, eu tava lá na primeira fila ouvindo-o com muita atenção. E tem sido assim, naquela época ligado nas reformas implantadas anos antes pelo JB e depois pelo JT, e mais tarde militando na imprensa alternativa, construindo uma ideologia do jornalismo artístico e revolucionário. Até mantive por muitos anos o projeto de um livro sobre a imprensa alternativa, e cheguei a ouvir muita gente, entre outras, Maciel, Jaguar, até o Tarso foi em casa e escreveu na minha Olivetti portátil duas laudas sobre a verdadeira história da fundação do Pasquim, laudas guardadas como um tesouro querido. E aí eu tava sossegado aqui na Bahia, sossegado no sentido mental de qualidade de vida, mas trabalhando muito, pois aqui se precisa trabalhar muitas horas mais pra se ganhar muito menos do que aí em horas normais."

CHEGA O FURACÃO - "Mas eu tava sossegado, sem inquietações, tocando burocraticamente o meu ganha-pão qdo eis q de repente surge no pedaço um louco e visionário do jornalismo: Ricardo Noblat, q dirigiu a Redação de A Tarde por 10 meses e já se picou. Mas qdo ele chegou, mexeu fundo comigo, foi um terremoto na Redação e me senti renascendo para a causa jornalística. Noblat é realmente um líder forte, embora estúpido demais, mas prefiro mil vez toda a estupidez dele do q o marasmo dos burocratas. O período de Noblat deu seqüência e radicalizou o projeto já em andamento da Mediacción/Universidade de Navarra, cuja consultoria havia sido contratada pelo jornal, e o Noblat era um dos palestrantes do Curso Master de Jornalismo p/ Editores, q vários colegas do jornal cursaram em São Paulo e cada vez q voltavam do curso me davam entrevista para A Tardinha - house organ de A Tarde do qual sou editor. E os caras de Navarra davam palestra no jornal e eu como sempre tava lá na primeira fila, e o Noblat chegou sistematizando e radicalizando tudo isso, e chegou com um livro sobre a Arte do Jornalismo Diário, q devorei imediatamente. E de repente todos os cobras brigaram com os donos do jornal e Noblat e Navarra se picaram. E eu tô de volta ao rame-rame. Às vezes me dá vontade de rodar a baiana e sair brigando com todos q nem o Noblat pra fazermos um trabalho de qualidade em equipe, mas tudo depende da boa vontade dos patrões, ou seja, não dá pé. Na verdade não tenho tanta paixão assim pelo jornalismo do Sistemão, sinto no fundo q é tudo mentira. Me lembro das minhas incursões como repórter de Local no Estadão. Qdo voltava à Redação pra escrever a matéria, tinha a nítida sensação de q eu tava inventando uma história: aquilo q eu havia colhido como repórter podia ser visto e contado de mil ângulos diferentes, e eu acabava encaixando a forceps "fatos" escorregadios dentro do padrão de realidade implícito no Manual de Redação q eu tanto exercitara como copy-desk. É uma das maneiras de se descrever o mundo, como dizia o brujo Dom Juan. Então hoje continuo ligado em coisas como os sites Comunique-se e Observatório da Imprensa, mas continuo também um outsider: no fundo não tenho nada a ver com tudo isso."


CITAÇÃO - "Me identifico mesmo é com isto:
"O homem comum acredita em tudo o que lê nos jornais ou vê na TV como se fosse a expressão rigorosa da realidade objetiva. É óbvio, à mais superficial análise, que não é assim. A imagem que a mídia oferece da realidade é cada vez mais distorcida, não só porque serve a interesses específicos, mas, mais grave do que isso, porque também reflete e propaga o nosso excessivo grau de alienação coletiva". ("Sobre a Imprensa", in "As Quatro Estações", de Luiz Carlos Maciel)

RETORNO - Jary Cardoso foi aquele cara que encontrei na redação da Zero Hora em 1969. Pouco falava, mas quando me segredava coisas, era direto e de grande impacto. Foi ele quem me extraiu o primeiro lead forte da minha vida profissional. Batalhou, reagi bem e ele elogiou. Reencontrei-o mais tarde, na Ilustrada e no Folhetim, de Tarso. Foi quando ficamos amigos.

11 de janeiro de 2004

O CÍRCULO DE GIZ DA AMÉRICA


O cinema é a prisão do imaginário americano. Melhor: é o reflexo, ou subproduto, da percepção fechada sobre a própria fronteira mental, que é muito mais sólida e perene do que a fronteira física pois, ao contrário desta, trabalha com a inclusão para que tudo permaneça inalterado. Nada escapa a esse círculo, mesmo quando se trata dos seus mais brilhantes diretores, seus maiores atores, seus melhores filmes. Vencer e perder ou fazer o que se deve fazer são os clichês dessa inflexível Parca Átropos (a deusa grega responsável por cortar o fio da vida) tornada, pela repetição, inevitável.

MYSTIC RIVER – O filme de Clint Eastwood “Sobre Meninos e Lobos” é, segundo ele, sobre a perda da inocência, mas prefiro dizer que é sobre a costura possível dessa cultura americana na época em que tudo desmorona – e intensifica a necessidade da sobrevivência. Agulha e linha, neste caso, não fluem diretamente só do roteiro, mas da postura de toda a obra. Não existe traição à pátria, consentida pela cultura, nos Estados Unidos. O Império não tolera defecções. Obrigatoriamente, estejam onde estiverem seus personagens, tenham ou não cometido o mais hediondo dos crimes, estará lá de plantão, batida pelo vento, altiva ou murcha, a bandeira do país tremulando na tela. Pois o crime maior é negar a América, portanto tudo cabe na teia tecida pela segunda Parca, Lachesis, responsável pelo destino, a duração e as ações da vida. Já que todos obedecem à primeira Parca, Clotho, que manobra com o nascimento, já que todos pertencem ao mesmo mundo fechado, o que qualquer filme feito nos Estados Unidos se preocupa é o lugar ocupado pela América. No caso de Clint, fica na ação, não na moral, fica no fazer, não no refletir, fica no presente, jamais na memória. A América se constrói todos os dias e para essa árdua tarefa é preciso que o homem seja o rei da sua família, a mulher o apóie, seja qual for o crime do marido, e os filhos não se desencaminhem, mesmo que tenham passado pela ruptura ocasional do relacionamento familiar. A maldição é para os perdedores: os que não conseguem chegar ao fim de suas ações (como a vítima Dave, que escreveu apenas as primeiras letras do seu nome no cimento fresco). Prisioneiros do destino, os americanos só podem escolher o inevitável: reconhecer que os perdedores caíram na armadilha e que para vencer é preciso perseverar, mesmo que seja necessário mentir, matar, roubar. Encontramos essa inevitabilidade em Os Imperdoáveis. Tudo o que contraria essa lei faz parte da cultura alienígena, que na maioria das vezes, é o catolicismo.

MEDO DA CRUZ - Os americanos temem a Igreja Católica e este filme de Clint mostra a dimensão desse pavor. Eu achava que eles simplesmente a desprezavam, pois costumam sempre debochar da cruz em todos os seus filmes. O filme cumpre a escrita e identifica o catolicismo com o Mal. Mas, mesmo marcado com a cruz tatuada nas costas, o líder familiar (Sean Pen, excepcional) assume seu papel na América, onde não há espaço para arrependimentos. Não é que a ação tudo justifique, a ação é a única lei, e ela precisa estar orientada para a costura do país, que experimenta uma fase de Queda absoluta. Nada existe fora do fazer, do verbo. Para isso, Clint usa a qualidade teatral de seus magníficos atores (como Tim Robbins, no papel do adulto Dave que fica confuso diante das manifestações do Mal, ou Kevin Bacon, um carismático e clássico investigador da Polícia). O rosto de Tim é a decadência física da América, assim como as ruas e prédios da cidade exausta. A liquidez dos gestos de Kevin e a solidez física de Sean fazem parte da América que pega o touro a unha. No roteiro enxuto, na composição visual perfeita, sobra justiça para Lawrence Fishburne, que livra-se de sua pretensiosa interpetação em Matrix e comporta-se sob o tacão de mestre Clint. Se "Na Linha de Fogo" pátria era elegância, em Mystic River a América é uma sobrevivente, que reitera sua cultura na parada escolar, apoteose da vitória, bem o oposto da primeira comunhão da irmã da moça assassinada, quando os dois eventos – morte e eucaristia – coincidem. O valor do filme é revelar os limites desse círculo mental que oprime a América e o mundo. Tudo está por um fio. Talvez tenham que chamar de volta Dirty Harry para recolocar as coisas no eixos.
O rio místico é a metáfora do mito fundador da nação. Ele lava os crimes em nome de um destino maior. Nada mais criminoso, mas nas mãos de Clint Eastwood, nada mais brilhante.