17 de julho de 2023

ESTRELA

 Nei Duclós 


Não gosto dessa rotina de estrela 

Que compartilhas com inúmeras plateias 

Fazendo propaganda de perfumes 

Em lojas virtuais de cinderelas

Assumindo papéis que não condizem

Com teu coração que para mim entregas 

E me deixas esperando até que a noite

Estenda seu tapete persa

Sobre meu corpo exausto de promessas


No fim desisto. É quando chegas

Cheia de gás acumulado em passarelas

Para me atear fogo enquanto durmo

E sonho com o amor que tu me negas


Nei Duclós

TESOURO

 Nei Duclós 


Qual a cor dos teus olhos?

Comparo à alvorada em campo aberto

Ou de uma praia de esplêndida memória

Comparo ao melhor momento de uma vida plena 

Como fiapos de nuvens ao redor de uma estrela

Solitaria que aparece mal morre o dia 


Cor de mel e rosa morena

Brilho fosco de milho maduro 

Roupa de cristal que reflete a primavera em flor no muro 


Cor de dentro, da alma presa a uma promessa

Teus olhos que costuram a túnica do amor

Nosso tesouro


Nei Duclós

16 de julho de 2023

MARGEM

 Nei Duclós 


Não se estrague nas perdas

Não se rasgue

Não se mate na margem seca

Não se acabe

Mantenha a forma

Mesmo frágil 


Não gaste o aço 

Da sua coragem

Preste homenagem ao que se foi

Sem baixar a guarda


Não perca a batalha


Nei Duclós

15 de julho de 2023

MAR ADENTRO

 Nei Duclós 


Lanço-me à  aventura no barco grosso

Feito de árvores no seu começo 

Arbustos frágeis mas é o que temos


 Foi-se o naufrágio, quase morremos

Somos teimosos, sobrevivemos

À chuva, o frio e as doenças 

E hoje a ilha já vai distante


Bem devagar nos aproximamos

De nossa crença de um novo tempo

E que há um Deus por trás de tudo

Jugo de amor apesar de bruto


Somos tão poucos mas vela e remos

Nos levam longe onde houver chance 

Quem sabe a Terra, Paris ou Londres

Quem sabe o sonho por mais estranho


Dependemos do vento e das estrelas

Dependemos da bússola

Feita de arame

Dependemos da sorte no mar adentro

Dependemos do corpo, rota suprema


Dependemos da vitória, que jamais chega

Cais da esperança onde pousamos

O rosto amargo no ar espesso


Nei Duclós

14 de julho de 2023

TRABALHO

 Nei Duclós 


Se digo que trabalho

Em todas as formas da palavra

Virando madrugada

Dedicando tempo para decifrar as obras

E  compondo livros que ficam estocados

E que não cobro pelo serviço 

E vivo de ações  solidárias 

E que por isso me submeto de graça 

À oferta de serviços 

Públicos 


Então me olham e dizem que isso não é trabalho

É coisa de aposentado


Nei Duclós

10 de julho de 2023

ADEUS À MOCIDADE

 Nei Duclós 


Leio assustado sobre o esforço que alguns bilionários fazem para rejuvenescer

Eles tem medo de ficar velhos


Eu ao contrário tenho medo de voltar a ser jovem

Incomodar os pais

Falar merda colocando pessoas próximas em risco

Ir a eventos exibindo com orgulho um aspecto deplorável

Fazer desaforo nos empregos que joguei fora

Fugir dos compromissos

Descuidar da própria literatura

Esnobar amizades verdadeiras

Deixar passar as oportunidades

Desperdiçar talento achando que é coragem


Por isso sem nenhum esforço 

Envelheço devagar com uma sensação de alívio

Não que esteja totalmente curado

A qualquer hora posso voltar a cometer uma bobagem

Esquecendo meu adeus à mocidade


Nei Duclós

8 de julho de 2023

CAMINHOS

Nei Duclós 


Fui levado pelas mãos 

Para as refeições, o colégio, as igrejas


Fui levado pelas mãos 

Para a capital, o emprego, as paixões 


Fui levado pelas mãos 

Para a comunhão, o amor, os filhos 


Nada fiz sozinho

Parentes, professores, amigos

Me deram as mãos 

Todos me cercaram de caminhos


Hoje vivo isolado na poesia

Para onde fui parar

Conduzido por autores de livros 

Os que escrevem com o coração 

Infinito


Nei Duclós

6 de julho de 2023

HÁBITO

 Nei Duclós 


Permaneço escondido, como de hábito 

Mostrando a cara, sem perder o costume

A poesia tornou-se um dos andares

Do edifício ao qual não tenho acesso 


Virei saltimbanco, sem ocupar o espaço 

Que também está loteado, o dos incompreendidos

Premiados pela pose de palhaços


Sou mendigo raiz, produzo sem fazer contatos

Não vou a eventos, prefiro os pássaros 

Que migram dando lições de liberdade 


Vire a lata do lixo, lá está o poema

Sangue em conta gotas, como de praxe

Teu coração aplaude sem som ou imagem

Tudo se repete na solidão da arte 


O tempo não registra, avesso a vaidades

De quem deveria existir mas só se afoga

Mar sem saída do anonimato


Nei Duclós

4 de julho de 2023

ESTRADA

 Nei Duclós 


Publico versos que eu esqueço 

Depois revisito, mas não mereço 

Esse dom que parece especial

E é só o preço 

Que pago por nascer escravo 

Último servo da guilda, o escriba

Torto cabedal de biblioteca


Arrasto os pés no roto piso

Estuário de livros abandonados

Tropeço em folhas em tom sépia 

Marcas do tempo onde calado

Escrevi na carne da promessa


Nada levo e deixo muito pouco 

Passei em vão a vida sobre a terra

Carrego o pão para comer na estrada


Nei Duclós

NUVENS

 Nei Duclós 


Fui herói, quando me enxergaste pela primeira vez 

Fora do meu perfil de ser precário 

Achaste o máximo ao me ver no palco

Depois foste embora quando perdi a mágica 


Agora és feliz nos aniversários

Em fotos sorridentes

Tiradas sem remorso

Enquanto eu continuo vivendo ao largo

Entre gaivotas e nuvens, que são as palavras

As mesmas que usei no meu tempo heróico

Quando tive sorte 

E por ti fui inventado


Tenho esperança 

De resgatar-me estátua 


Nei Duclós

3 de julho de 2023

MILAGRE

 Nei Duclós 


Ela se deixou tocar

Milagre de um encontro que no excesso se completa

Eu já estava deixando escapar

Sem noção do que ela tinha armado

Na conversa


Sou o último a saber quando me querem

SEMENTE

 Ela disse que não vai morrer

Que vai ficar para semente


Gostaria de plantá-la 

Assim nunca me faltaria amor


Nei Duclós 

2 de julho de 2023

IMPERDOÁVEL

 Nei Duclós 


Tomei todas as decisões erradas

Sai quando devia ficar

Fiquei na hora de sumir

Menti para me prejudicar  

Fui sincero e não precisava me expor

Rompi no momento de insistir 

Travei na urgência de acelerar

Lembrei o que para sempre esqueci

Comentei sem me aprofundar

Desisti por uma questão de princípio 

Recolhi o que joguei fora

Almejo o que nunca foi para mim

Sonhei em situações reais

Perdi o jogo antes da vitória certa

Achei o que jamais procurei


O pior é que em vez de sentir  remorso para ganhar tempo

Decidi abrir mão de todo arrependimento


Nei Duclós

28 de junho de 2023

APERTO

Nei Duclós 


Apertei seu corpo inteiro

Num encaixe perfeito

até o vulcão entrar em cena


Ficamos sem respiração

E o fogo atingiu suas têmporas

Enquanto as pernas bambas pediam socorro


Segurei o mais que pude

Sabendo quanta água o prazer providenciava

Em seus tecidos


Sim porque estávamos vestidos numa festa formal de conhecidos


Ela se sentiu culpada não pelo marido que já não via

Mas por ter cedido

Tão intensamente depois de nosso flerte consentido

Que nos aproximou até a erupção

Do que parecia ser só tesão 

E era uma bomba de mil megatons


Não vou mais suportar ficar sozinha depois disso

Apesar de ter me arrependido

Disse ela mais molhada do que a Lua quando mergulha na piscina


Nei Duclós

27 de junho de 2023

CANTEIRO

 Nei Duclós 


Vida conheço de memória 

Sei de cór e salteado

Da infância à meia idade

Do coração à glória 


Mulher que no plural aflora

Nos momentos decisivos da saudade

Faz parte dessa bruta história 

Roupa de linho, casaco de aniagem

Estou vestido para o tempo breve


Fiz vestibular para a coragem

Passei nos testes gerais da refrega

Tenho bagagem que jogo fora

Ponho teu corpo liberto da vergonha


Ao vivo não ofereço nada

Ando sem ser visto, canto sem acordes

Ofereço uma obra, canteiro selvagem 

Onde um dia perdeste tuas verdades


Nei Duclós

21 de junho de 2023

VIRTUOSE

 Nei Duclós 


Nunca estás sozinha

Nas fotos de família

Nenhuma imagem solo

Virtuose em sinfonia

Mas sumida entre violinos

Anônima, imperceptível


Queria te ver na moldura

Sobre a minha escrivaninha

Junto às folhas cobrindo a mesa

Canetas e livros como companhia


Não cabe no escritório

Essa vocação coletiva

Sobra gente na cintura do vestido

Prefiro esperar que um dia aconteça 

O flagrante mínimo com a pose espontânea

O rosto surpreso, o pezinho em falso

E o sorriso em teus cabelos

Que o vento, meu emissário invasivo

Improvisa, na pele da felina


Nei Duclós

20 de junho de 2023

ESTRELA GUIA

 Nei Duclós 

Perdi a chance porque mantive intacta

Minha teimosia feita de revanche

Não é lamento mas a inconstante

Mania de me colocar à parte


Prefiro, por motivos misteriosos

Passar ao largo do que o destino cobra 

A liberdade é um vício dos tratantes

Modo seguro de evitar vitórias 


Nem a metáfora mais radiante

O verso que coleciona joias 

Em poemas que somem no horizonte

E me deixa só na sanga e nas praias

Poderá mudar a decisão antiga


Desmaia em mim o som mais cativante

Desperto num tempo que desafia a sorte

Venha até meu ninho, estrela guia

Que a poesia insiste num galope

Trema meu peito, musa moça e fria

Mas não espere mais do que já tenho

Homem calado, sem identidade

Sou o folclore de um país datado


Nei Duclós

17 de junho de 2023

 Nei Duclós 


Não economizo poema

Para entregá-lo depois a prazo


Recolho a granel na rede de três panos

Embrulho do disperso verbo sem arrimo

Exponho como peixes pendurados pela rua

que pescadores pobres trocam por almoço 


No papel almaço onde ponho o pão 

Ponho o poema

Caderno pardo de improviso 

Que serve para forrar o chão 


Palavras que varrem o coração 


Nei Duclós

ARTE Y FUTURO

 Nei Duclós 


Que gran arquiteto es el viento 

Que esculpe puentes y monumentos

Y que artista hermosa es la lluvia

Con agua sagrada en el tiempo

A bordar las sierras de alturas

Que hoy cae en nuestra cabeza


Como creer que el acaso

Sea capaz de hacer eso? Olvidar los ancestrales gigantes

Obreros de tantas piramides?

Y reir de su sabedoria

Su fuerza en piernas y manos

Legado de humana conduta 

Dioses antediluvianos


Pero llaman de la naturaleza

La obra hecha de sangre 

Nosotros seremos lo mismo

Sepultados por hijos extranos?


O teremos la suerte de estatuas

Que sobreviven en distante futuro?

Seremos montanas

O el mar con la luna en sus cuestas?


Nei Duclós

16 de junho de 2023

CERCA DE TI

 Nei Duclós 


Quanto a mi si te equivocas

Es por um mal-entendido 

No quiero ser tu marido

Pero respeto tus  coplas


Solamente te admiro

Y mi deseo es el arte 

Yo soy un hombre de letras 

Y tu una melodia


Tu danza es la poesia

Mi guitarra un poema

Piel de la rosa morena

Rostro de mel y azucena


Asi nos pomos de acuerdo

El abrazo en tu cintura

El beso nuestra  cadena

El amor quando Dios quiera


Nei Duclós

VERTIGEM

 Nei Duclós 


É cedo demais, me falou o anjo

O sol ainda não teceu a aurora

A poesia dorme ao lado na tua cama

E o dia te reserva um doce estímulo 

O amor que você carrega e está escondido


O espírito é visto só na superficie

Engana os sentidos ocupados brutos

Enquanto medra em lugar profundo

O trigo cultivado num terreno antigo 


A manhã prepara em susto a epifania

Não o que esperas na óbvia planície

Mas na montanha onde algo habita

Deus concentrado em ventos e vertigem


Nei Duclós

PARTISANA

 Nei Duclós 


Yo quiero poner mis manos

Con amor de partisano

en la bela guerrillera


Luchamos en las montanas

Contra enemigos con ganas

Pero tenemos con fuerza

Todo lo que cultivamos

En tierras de nuestra Espana


Soy tu amor de primera

Terrible en la carretera

Mi sonoridad lorqueana

Metralla por la frontera


Somos el vino de sangre

El abrazo de esperanza

Nosotros los partisanos

Soldados de cuerpo y letra


Nei Duclós

VÉSPERA

 Nei Duclós 


Ficou nítido para mim o que estava misturado

Solar o que ficava oculto 

Presente o que se escondia

Próximo o que viajou para longe 


Temo que seja a espécie de melhora que antecede o desfecho

O ânimo na fase terminal da despedida

Tão necessário para os últimos retoques


Há ilusão de que voltamos no tempo

Já que as pernas obedecem e o olhar se ilumina

E a voz agora encontra o tom certo

Até arrisco uma canção inédita 

Que compus há tempos e pensei em jogar fora


Mas é apenas a vida que não te ignora

Quando tudo te abandona no apagar das luzes

É  para você se acostumar nesta véspera

A enxergar as estrelas na rua morta


Para lá vai teu coração cheio de gás 

Como a Lua Cheia retorna para a Nova


Nei Duclós

13 de junho de 2023

SILENCIO

Nei Duclós 


En la muerte hay silencio

Mismo que griten los muertos

En su destino sin suerte 

Silencio en su intestino

A trabajar limpiamente

Sin gotas de interferencia


Es un silencio de muerte 

De poesia de piedra

A decir es para siempre

Y no me grite o conteste

Que ella trae en su ventre

Luna venida de sombra


No se ve la pobre estrella

Moriendo en cielo supremo

Ella nunca esta pronta

Porque trabaja en silencio


Nei Duclós

10 de junho de 2023

FLAMENCA

 Nei Duclós 


Por estar muy lejos de ti

Linda lejana que en la ventana 

Me dice en poesia el olvido 

Que hay en el viento y en las ciudades de Espana 

Por estar lejana

Mucho mas te quiero patria mia 


Y no es solo la danza

Las guitarras Las voces y los vestidos

Y las manos que dan el ritmo a mi corazon despedazado en este exilio

No solo Madrid Sevilla o Andaluzia

O Granada donde Lorca lo mataran

Tanpoco el mar, Barcelona o la cordillera de Montserrat

Pero si las palavras de mi nido tierra mia

Cerca de los abuelos en las guerras y la miseria


Por eso te canto amor de la Iberia 

Para que vengas a mi por todos los siglos 

Mujer lejana 

Patria que no muere ni me abandona


Nei Duclós

6 de junho de 2023

ESCULTURA

 Nei Duclós 


Parece fácil com a obra pronta

Depois do suor de árduas horas

Em que o talento consegue a síntese 

Da sofisticação e simplicidade

E aguarda o reconhecimento 

Que só os deuses são capazes

Porque os humanos acham mole

E não se assombram como deveriam

Desprezando a relíquia mais sagrada


O ourives conhece esse destino

E por isso trabalha em liberdade 

Abraçado à criação, sua escultura


Nei Duclós

DISTÂNCIA

 Nei Duclós 


Amor que a distância mata

É como brasa dormida 

Que sem o fogo agoniza

No inverno em pura armadilha

Noite adentro se aprofunda

E acorda virado em cinza 


Amor que esquece sua origem

E vegeta sob a sombra

De um cenário impossível 

Roteiro que evita o filme

Coração preso em cadeia

Ninguém enxerga no exílio 


Amor fora do otimismo

Que se reduz muito cedo

E acaba sem alimento 

Flor de jardim suspenso

Joio sufocando o trigo

Ronco de gruta escondida 


Amor que só sobrevive

Se houver amor por si mesmo

Que do teu corpo independe

E vive no ar rarefeito

De montanhas de granito


Onde gigantes criaram 

Mistérios de megalitos

Ruínas inacessíveis 

Do amor que morto resiste


Nei Duclós

4 de junho de 2023

TEIMOSO

 Nei Duclós 


Aproxima-se o final do outono

Armas do inverno limpando o cano

Sonhos de verão por baixo do pano

Amor que vi morrer ainda pulsando

Vida sem razão em mais um ano

Corpo em reclusão fecha o balanço 

O vento ameaça vir de longe

Batem na porta com força de gigante 

Cruzarei este mar mesmo sem apoio 

Vim do levante, existo de teimoso


Nei Duclós

3 de junho de 2023

AVÓS

 Nei Duclós 


Os avós são pássaros Invisíveis

Que se ocultam nas nuvens

E de lá não saem


As vezes nem sabemos seus nomes

E nas fotos são rostos anônimos 

Nem um pouco parecidos conosco


Sem saber herdamos seus gestos

E cultivamos hábitos sem ter por onde


Arriscamos até um pigarro

Uma tosse que ressoa 

Quando dizem

Parece teu avô 

Herdeiro desnaturado


Vá visitá-lo, dizem

Revele o pássaro 


Nei Duclós

1 de junho de 2023

DESAPEGO

 Nei Duclós 


Não importa a palavra

Em forma de conversa ou poema

Zeramos o que nos fez humanos 

Montamos no

manso cavalo

Do desapego


O mundo bate o ponto. Hora de começar tudo do novo 

Sem nossa presença

Solidão de veteranos


Nei Duclós