Nei Duclós
Tudo mudou.
Menos nós,
pedras lisas na beira do rio do tempo
Nas enchentes, peixes e sereias nos visitam
Passando suas linguas furta-cor
Em nossa pele de alabastro
Depois brilhamos ao sol
Aguardando os pés das moças do subúrbio
Blog de Nei Duclós. Jornalismo. Poesia. Literatura. Televisão. Cinema. Crítica. Livros. Cultura. Política. Esportes. História.
Nei Duclós
Tudo mudou.
Menos nós,
pedras lisas na beira do rio do tempo
Nas enchentes, peixes e sereias nos visitam
Passando suas linguas furta-cor
Em nossa pele de alabastro
Depois brilhamos ao sol
Aguardando os pés das moças do subúrbio
Nei Duclós
Se puede morir quantas veces se quiera
Cuando se esta vivo, por motivo qualquiera
En las canciones o la literatura
En la mesa de bar o en amores perdidos
Pero siempre habra la vantaja
de tales emociones salir vivo
Eso no sirve si la muerte misma
Dale su mortal golpe en la vida
No se puede llorar como se llora
Antes de un café
No se puede morir sin vivir el peligro
De la pura muerte
De la muerte misma
Nei Duclós
Naquele tempo a terra era plana
Forma necessária para sustentar os gigantes
Que eram a imagem e semelhança de Deus
Os gigantes viviam mil anos
Como revela a Bíblia sobre a idade de Adão
Tinham tempo para formatar montanhas e deslizar cachoeiras eternas em pedras lisas para os banhistas
Fizeram templos e monumentos
Pirâmides e esfinges
Tinham tanto poder que desafiaram o Criador
Construindo a torre de Babel, o Hmalaia
Por isso foram destruídos
E substituídos por nós
Que moramos numa esfera
Para não nos sentir tão seguros
Nei Duclós
É prudente o passo que reatamos
Ainda não é laço, mas lasseou a ruptura
Azeitar o contorno de ser mais próximo
Contornar a herança deste exilio
Não repetir os erros, baixar a guarda
Lembrar o leve toque entre os dedos
Único vínculo que não é um fardo
Servir de ponte quando a dor inunda
Passear no campo, com os personagens
deste oficio insano, a literatura
Farejar a flor que morre no crepúsculo
Dar-se as mãos, sonhando com o futuro
Nei Duclós
Depois de uma cerveja Deus criou o mundo
Começou com o bar e fez a rua
O bairro suspeito, o casario decente
O centro com igreja e tudo
Quando o mundo ficou pronto ele descanso num banco de praça
Que tinha esquecido de criar
Mas os anjos cuidaram de colocar canteiros
E estátuas bebedouro balanço gangorra e um espaço de areia para crianças
Jamais ocorrera a Deus, boêmio
Que o mundo teria praça
Para saudar o sol
E curar a ressaca da cerveja
Nei Duclós
Propor charadas para capturar a essência do poema
Não passa de medo de expor-se
Diante da nudez da palavra
E sentir vergonha alheia como se ela fosse tua amante feia
Não chute a palavra
Que ela é feita de pedra
E a única coisa capaz de decifarr os segredos da tua vanguarda
Que é celebrada como se não precisassem da letra e de todo o impulso silábico
Nei Duclós
Confinado no tempo e no espaço
Por idade, complicações, cansaço
Não abro mão da claridade
Minha poção de cura, a cultura
Que cultivo por tradição e liberdade
Por amor, eu diria, por força de hábito
O coração é fogo, iluminação
Contra a escuridão covarde
Nei Duclós
Por aqui passou o poema
Como vassoura de palha
Deixou estrias no piso
Forçou a porta de entrada
Veio de longe o poema
Do tempo da esferográfica
Da praia em verões da lata
Das mãos mendigas da praça
Cadernos espiralados
E de sonhos
Que já não restam
Passou por aqui, poucas marcas
Revelam sua passagem
A não ser alguns garranchos
Nas paredes da tapera
L
Nei Duclós
Só a mim diz respeito
Os erros que cometi
E não foram poucos
Talvez só eu lembre
O Mal com que atingi
Pessoas próximas e distantes
Essa coleção de desacertos
Que desenham meus remendos
Mas quando me encontro
Com algum contemporaneo
Passamos a borracha
Amores feridos humanos
Memórias flexíveis
Que cabem em nosso vasto coração de abandonos
Nei Duclós
Faço tudo cedo
Café banho poema
Não tenho pressa nem medo
Apenas cumpro a agenda
Escrita pela experiência
Quem for mais moço ompreendo
Deixar tudo por fazer
Já fui assim, mas confesso
Que prefiro ganhar tempo
Para estar pronto, liberto
E aguardar que a fortuna
Para entrar peça licença
E note no meu asseio
O dia acertando o passo
Nei Duclós
Provo a maçã de natural promessa
Devo confiar até na casca
Não há veneno apenas fruta
Imagino a safra
Até chegar à minha mesa
Águas de intensa clareza
Molham as macieiras
Mãos de aprendizes
Colhem no ar a doce e vermelha porção da natureza
Mordo a polpa mais perfeita
Sou o alvo dessa prece
Que a terra entre estações inventa
Nei Duclós
Nei Duclós
Hora de levantar acampamento
Neste .momento de guerra
Quem dera fosse uma pescaria
Em que juntar as tralhas era volar para casa
Com as lições de desconforto do pai
Ferindo os pés
Enquanto nos dirigiamos para as mãos da mãe
Agora é batalha
Os pais se foram junto com o País.
Eu faço a mochila juntando as cartas do meu camarada para a família
Não há correio no front
E um tiro selou seu destino
Carreguei-o até a beira deste rio
E sepultei-o entre as pedras
Se eu sobreviver
Serei carteiro de um herói
Recebido com lágrimas
Pelos que perderam um filho
Nos confins da pátria e da memória
Nei Duclós
Nei Duclós
Se o ódio por acaso for dormir não o desperte de manhã. Deixe-o ficar lá até ele esquecer de levantar
Mas desperte o amor e leve-o para ver o mar
Nei Duclós
Ficamos sós, eu e o poema
Ofício sem poder no esquema
Ainda riem do que acham inútil
O varso e o versejador caduco
Ambos sentados na sarjeta suja
Ficamos sós, por nossa culpa
E a lua, sem misericórdia
Vem fazer parte da comédia
Para ela tanto faz, ilusão ou crime
Poesia é vício da solidão
Musa distante que o diga
Nei Duclós
O amor é um jardim sem dono
Que alguém plantou e foi embora
Ele continua produzindo flores
Íntimo da chuva e da terra inóspita
A primavera vem em seu socorro
Quando o inverno vence a estação dos brotos
E o clima morto acha que está feito
O corpo do jardim já decomposto
Ressurge então o amor, supremo rosto
De pétalas azuis por entre o barro
Sentimos de longe, remota montanha
Mas ele está dentro, e diz teu nome
Batismo de seda contra o abandono
Nei Duclós
Não diga que sou tirano
Porque travo a língua com palavras pobres
O lixo que recolho serve para o sonho
Não deixo nada fora no ofício medonho
É missão de sacerdote o poeta que sofre
VendO o verbo atirado sem nada que o apanhe
Por isso reza enquanto anima o espólio
O encalhe das falas e dos relatórios
Tenho o hábito dos santos apesar de humano
Vivo no pecado das estrofes sem uso
Mas os anjos gostam e devolvem num sopro
Maravilhosa e inéditos cantos gregorianos
Nei Duclós
Que coisa boa quando consentes
Que eu toque teu corpo e encontre um pouso
No eixo que vai do rosto até o ventre
Teus seios de fogo tua língua violenta
Nei Duclós
Acordo com a poesia
Que dorme comigo
E traz consigo teu perfume físico
Essa rede infinita de vontade e gozo
Essa graça de fêmea, essa arte cativa
Nei Duclós
Por que sentir dor
Se a dor já cumpriu sua missão de aviso
E em vez de retirar-se no tratamento
Estabeleceu--se no comércio do improviso
E se diverte enquanto morro vivo
É armadilha contar com instrumentos
Como a dor, mísero gatilho
O que parece prático é oportunismo
Do Mal, esse pacto bandido
Sinto a xor, que já me tem como destino
Ao invenlá-la
Alguém disse cace o bicho
Que fez da poesia seu casulo
Explorem seu amor às letras
E extraiam pelo menos uma estrofe
Que célebre a dor, sua consorte
No desconforto da pior idade
Nei Duclós
Fico extático diante do teu corpo em movimento
Apostas numa dança na varanda escassa do apartamento
Que se despeja sobre meu olhar
O som é qualquer
Importa que teu vestido escorrega prometendo o que não ouso dizer
É de manhã
Chove o desejo nessa nuvem que nos condena
Ao anônimo abraço irreal
Sem futuro
Mas só nosso
Ninfa suburbana
Nei Duclós
Temeroso de perder a noiva prometida
Por um erro de cálculo Ou artimanha
De um sogro idoso que continha
Como bem mais valioso, a bela filha
Jacó submeteu se ao novo ciclo
Achando seu prêmio garantido
Mas Labão vendeu Rachel às escondidas
E empurrava Lia, a moça bruta
Destruido ao descobrir o fato novo
Jacó não desistiu, fez se de bobo
E decidiu arquitetar o astuto plano
Fingiu aceitar a caçula mas de olho
Na primogênita já casada com outro
E quando todos dormiam despertou o fogo
Para que o crime fosse o amor e não o ciúme
Nei Duclós
Esquecida nos relatórios de caserna
Fez a guerra sem vestir o uniforme
Balas na saia
Ombros de fuzis
Bolsa com bisturi e mertiolate
Atiradora anônima , enfermeira do caos, carreteira em panelas de ferro
Eram tempos heroicos, mulheres que não batiam continencia
Voltavam exaustas, sem soldo, viúvas
E nas casas preparavam a paz
Escondiam cicatrizes por baixo do pano
Sem jamais amaldicoar a Pátria
Chão que acoolhe o sangue da família
Nei Duclós
As realidades que vivi em momentos concretos
Parecem hoje fantasia
Custo a acreditar no que passou
Neste presente bizarro
Em que a prosa afasta a poesia
Não transporto a carga de amor
Daqueles dias
Sou um Quixote que voltou para casa
E deixou pistas
Os livros que mal ou bem
Mantem viva
A memoria ao redor do fogo
Doce ferida
Nei Duclós
Exponho cicatrizes, não por gosto
Para atrair atenção, me fazer de bobo
Ser o que não sou, um saltimbanco
Cromediante da dor, sujeito estranho
Exponho cicatrizes, Deus está vendo
Para repor a verdade onde me encontro
Assim saberás de mim, doce viajante
Que me queres ao vivo e não sabes onde
Está teu amigo De corpo presente
Conhecendo as fdridas seremos humanos
E não iludidos em máscaras de pano
Lúcidos como as manhãs de outono
Que mostram os moços e os veteranos
A viver com graça as agruras do tempo
Nei Duclós
Em qualquer situação eu poderia ter partido
Quando cortei o braço na janela de vdro
Ou quebrei o pulso e bati o queixo
Ou mesmo na madrugada correndo perigo
Na inundação de tantos dilúvios
No elevador que perdeu o ritmo
Em acampamentos entre desconhecidos
Nos assaltos em casa ou na rua
Ou nas inúmeras cirurgias
Mas em toda ocasião contei com Deus menino
Com a proteção da Mãe Santíssima
E com o arrimo da família
Que me deixaram tranquilo
Enquanto a guerra corria solta pelas esquinas
E os insultos dominavam os espiritos
Nei Duclós
Outono chega, mesmo que o verão, irmão mais moço
Espiche a estação do sufoco
E torne tardio o clima doce
O frio que nos liberta do calorão em pele e osso
Outono é o coração do ano
Sua pulsação, seu abandono
Encontro que vira adeus
Janela de trem em cais do porto
É quando vens, no colo do sonho
Braço de mim, saída de banho
A dormir comigo, depois do tombo
Da fruta que cai ao desistir da planta que a sustenta
E se aninha em fogo brando
Nei Duclós
Tudo destruí com minha pata de ganso
Fiz desistir quem tentou se aproximar
Não usufrui da sorte do destino
Sem noção cruzei o tempo distraído
Hoje peço perdão, mísero sobrevivente
Dou o braço a torcer, fruto do remorso
Cercado pelo amor de quem chegou para sempre
E com a poesia me ensinou a ver
O que não atinei e estava demasiado perto
Nei Duclós
Viajei por mar
Para aportar no meu destino
Lotou o cais
Quando cheguei no terra a vista
Trouxe presentes
Para costurar . no teu vestido
Pingentes de artesão cherokee
Estampas em tecidos andinos
Viajei porque quis
Amedrontar teu delírio
Achei que podia
Cruzar meus limites
Mas eu nada tinha
Fora do teu sonho,
Bússola feminina
O amor
Me esperava no fim da linha
Nei Duclós
Nei Duclós
Como inseto que vem beber água nos teus olhos
E escolhe o momento certo
Para atrapalhar teus gestos
E te acorda no melhor do sono
Assim me tens assidua e inconveniente
A sugar meu tempo com impaciência
Não fosse o amor com seu expediente
De insistente presença ao redor
Tudo seria um enxame sem sentido
O sentimento depura com a doçura
O voo suicida dos amantes
Nei Duclós
Homem tem a ver com a Terra
Pedras espinhos deserto montanha
Foi criado bruto
Para viver entre feras
Já a mulher é fruto das estrelas
Quando as vemos de longe
E desenhamos esferas em fogo
Mulher é húmus lava borrasca
Emissaria de sangue seiva nuvem
Homem é a guerra
Mulher Helena de Troia
Erupção do Vesúvio
Pomo das Hesperides
Podemos chama-la criatura
Amor entre armas