Nei Duclós
Que coisa boa quando consentes
Que eu toque teu corpo e encontre um pouso
No eixo que vai do rosto até o ventre
Teus seios de fogo tua língua violenta
Blog de Nei Duclós. Jornalismo. Poesia. Literatura. Televisão. Cinema. Crítica. Livros. Cultura. Política. Esportes. História.
Nei Duclós
Que coisa boa quando consentes
Que eu toque teu corpo e encontre um pouso
No eixo que vai do rosto até o ventre
Teus seios de fogo tua língua violenta
Nei Duclós
Acordo com a poesia
Que dorme comigo
E traz consigo teu perfume físico
Essa rede infinita de vontade e gozo
Essa graça de fêmea, essa arte cativa
Nei Duclós
Por que sentir dor
Se a dor já cumpriu sua missão de aviso
E em vez de retirar-se no tratamento
Estabeleceu--se no comércio do improviso
E se diverte enquanto morro vivo
É armadilha contar com instrumentos
Como a dor, mísero gatilho
O que parece prático é oportunismo
Do Mal, esse pacto bandido
Sinto a xor, que já me tem como destino
Ao invenlá-la
Alguém disse cace o bicho
Que fez da poesia seu casulo
Explorem seu amor às letras
E extraiam pelo menos uma estrofe
Que célebre a dor, sua consorte
No desconforto da pior idade
Nei Duclós
Fico extático diante do teu corpo em movimento
Apostas numa dança na varanda escassa do apartamento
Que se despeja sobre meu olhar
O som é qualquer
Importa que teu vestido escorrega prometendo o que não ouso dizer
É de manhã
Chove o desejo nessa nuvem que nos condena
Ao anônimo abraço irreal
Sem futuro
Mas só nosso
Ninfa suburbana
Nei Duclós
Temeroso de perder a noiva prometida
Por um erro de cálculo Ou artimanha
De um sogro idoso que continha
Como bem mais valioso, a bela filha
Jacó submeteu se ao novo ciclo
Achando seu prêmio garantido
Mas Labão vendeu Rachel às escondidas
E empurrava Lia, a moça bruta
Destruido ao descobrir o fato novo
Jacó não desistiu, fez se de bobo
E decidiu arquitetar o astuto plano
Fingiu aceitar a caçula mas de olho
Na primogênita já casada com outro
E quando todos dormiam despertou o fogo
Para que o crime fosse o amor e não o ciúme
Nei Duclós
Esquecida nos relatórios de caserna
Fez a guerra sem vestir o uniforme
Balas na saia
Ombros de fuzis
Bolsa com bisturi e mertiolate
Atiradora anônima , enfermeira do caos, carreteira em panelas de ferro
Eram tempos heroicos, mulheres que não batiam continencia
Voltavam exaustas, sem soldo, viúvas
E nas casas preparavam a paz
Escondiam cicatrizes por baixo do pano
Sem jamais amaldicoar a Pátria
Chão que acoolhe o sangue da família
Nei Duclós
As realidades que vivi em momentos concretos
Parecem hoje fantasia
Custo a acreditar no que passou
Neste presente bizarro
Em que a prosa afasta a poesia
Não transporto a carga de amor
Daqueles dias
Sou um Quixote que voltou para casa
E deixou pistas
Os livros que mal ou bem
Mantem viva
A memoria ao redor do fogo
Doce ferida
Nei Duclós
Exponho cicatrizes, não por gosto
Para atrair atenção, me fazer de bobo
Ser o que não sou, um saltimbanco
Cromediante da dor, sujeito estranho
Exponho cicatrizes, Deus está vendo
Para repor a verdade onde me encontro
Assim saberás de mim, doce viajante
Que me queres ao vivo e não sabes onde
Está teu amigo De corpo presente
Conhecendo as fdridas seremos humanos
E não iludidos em máscaras de pano
Lúcidos como as manhãs de outono
Que mostram os moços e os veteranos
A viver com graça as agruras do tempo
Nei Duclós
Em qualquer situação eu poderia ter partido
Quando cortei o braço na janela de vdro
Ou quebrei o pulso e bati o queixo
Ou mesmo na madrugada correndo perigo
Na inundação de tantos dilúvios
No elevador que perdeu o ritmo
Em acampamentos entre desconhecidos
Nos assaltos em casa ou na rua
Ou nas inúmeras cirurgias
Mas em toda ocasião contei com Deus menino
Com a proteção da Mãe Santíssima
E com o arrimo da família
Que me deixaram tranquilo
Enquanto a guerra corria solta pelas esquinas
E os insultos dominavam os espiritos
Nei Duclós
Outono chega, mesmo que o verão, irmão mais moço
Espiche a estação do sufoco
E torne tardio o clima doce
O frio que nos liberta do calorão em pele e osso
Outono é o coração do ano
Sua pulsação, seu abandono
Encontro que vira adeus
Janela de trem em cais do porto
É quando vens, no colo do sonho
Braço de mim, saída de banho
A dormir comigo, depois do tombo
Da fruta que cai ao desistir da planta que a sustenta
E se aninha em fogo brando
Nei Duclós
Tudo destruí com minha pata de ganso
Fiz desistir quem tentou se aproximar
Não usufrui da sorte do destino
Sem noção cruzei o tempo distraído
Hoje peço perdão, mísero sobrevivente
Dou o braço a torcer, fruto do remorso
Cercado pelo amor de quem chegou para sempre
E com a poesia me ensinou a ver
O que não atinei e estava demasiado perto
Nei Duclós
Viajei por mar
Para aportar no meu destino
Lotou o cais
Quando cheguei no terra a vista
Trouxe presentes
Para costurar . no teu vestido
Pingentes de artesão cherokee
Estampas em tecidos andinos
Viajei porque quis
Amedrontar teu delírio
Achei que podia
Cruzar meus limites
Mas eu nada tinha
Fora do teu sonho,
Bússola feminina
O amor
Me esperava no fim da linha
Nei Duclós
Nei Duclós
Como inseto que vem beber água nos teus olhos
E escolhe o momento certo
Para atrapalhar teus gestos
E te acorda no melhor do sono
Assim me tens assidua e inconveniente
A sugar meu tempo com impaciência
Não fosse o amor com seu expediente
De insistente presença ao redor
Tudo seria um enxame sem sentido
O sentimento depura com a doçura
O voo suicida dos amantes
Nei Duclós
Homem tem a ver com a Terra
Pedras espinhos deserto montanha
Foi criado bruto
Para viver entre feras
Já a mulher é fruto das estrelas
Quando as vemos de longe
E desenhamos esferas em fogo
Mulher é húmus lava borrasca
Emissaria de sangue seiva nuvem
Homem é a guerra
Mulher Helena de Troia
Erupção do Vesúvio
Pomo das Hesperides
Podemos chama-la criatura
Amor entre armas
Nei Duclos
Finalmente encontrei-a depois de dois anos de busca, em estado terminal na maca imunda de um hospital de campanha, nos limites da África setentriomal. Comprei-a de uns guardas vagabundos que a tinham herdado em pagamento de uma divida de jogo contraida com piratas javaneses .
Carreguei-a como um fardo de guerra ate um descanpado onde peguei carona com um aviador detonado, fugitivo de cadeia chinesa.
Levei duas semanas por ar e mar ate chegar ao meu destino. Devolvi-a para a fanilia num encontro pautado pelos berros. Fora vitima de um naufrágio quando atendia populacoes miseraveis e migrantes .
Ela não me reconheceu. Melhor assim. Não é justo, neste mundo aos pedaços, ser chanado de meu único amor.
Neo Duclos
Me gusta ver como luchan
Los dos hijos de Serena
Sin cuchillos ni violencia
En juego de campo abierto
Son dos paJaros de oro
A saltar sobre la arena
A tirar sangre en la boca
Quando uno se equivoca
Y se rebienta en risa
Porque tudo es una broma
De muchachos estupendos
Despues vuelven felices
Sucias las dos melenas
A cantar una parodia
Contra los terratenientes
Su lucha es un trenamiento
Para un futuro guerrero
Quando estaran listos
A romper con las cadenas
Como son guapos los hijos
De mi comadre Serena
Nei Duclos
Inveja eh alma mesquinha
Saco de sal ou farinha
Peixe que eh pura espinha
Margem seca ribeirinha
Inveja, cruzei a nado
O leito feito de pedra
E ao chegar no outro lado
Vi que o rio tinha sumido
Nao gera nenhum abrigo
Esta falta de compasso
Vivo cercado de cruzes
Que carrego no meu braço
Nei Duclos
Nei Duclos
Se estiveres voando
Não se impressione
Eh só cinema
Se estiveres chorando
Não eh contigo
Eh só um romance
Se estiveres pensando
Não se esqueça
Vem de outra fonte
Se estiveres criando
Não amoleça
Deus esta vendo
Nei Duclós
O mundo então calou-se
Por não ter o que dizer
Fechou-se em copas
Como as plantas carnivoras
Depois de devorar os últimos insetos.
O poema mudou-se
Para planetas mais doces
Onde possa sobreviver
O colecionador de sementes
Navega sem porto no mar ignoto
Que bate nos contrafortes
Das serras do amanhecer
Nei Duclós
Nei Duclós
Se agora estou vivo
Ainda há esperança
Mesmo que a dança do extermínio
Se encha de confiança
E imponha o ritmo do funeral na consciência
E o coração esteja tão vazio
Como o rio Uruguai na seca
Agora estou vivo
E todas as memórias se completam
Povoamos o paraíso de conflitos
Mas colhemos a flor do fruto ainda por vir
O jeito de resistir
Imaginando um futuro com o perfume de conquista
Nei Duclós
O que fiz está feito
Não mudarei o entorno da torta árvore
O corpo é o que ofereço à eternidade
Os versos são datados
Folhas secas de um outono raro
Véspera do inverno do esquecimento
Grudado ao verão que o
anunciou amargo
Fiz por gosto e contingência
Não fosse o amor
Não teria feito
O melhor de mim
Primavera tardia mas a tempo
Nei Duclós
Aqui, Uruguaiana, onde o Brasil começa
Onde o rio rumo ao Prata abraça o pampa
Somos o sinal de alerta de um país soberano
A paz da sesta, a pressa do Minuano
Lutamos pelo chão,
encharados de sangue
Terra de pescadores, de plantas e rebanho
Em tuas ruas largas mora a memória
Em teu coração montei minha casa de barro
Meus cavalos de sonho, querencia a céu aberto
Aqui, Uruguaiana
Onde sopra a grandeza
De sermos conterrâneos
Nei Duclós
Arrisco na oficina
Já gasta de tanto ofício
Duvido que reaviva
A chispa que alimente a trilha
Noto o fio cego da mavalha
Na longa noite de metais sujos
A mão que iluminou maravilhas
Apenas se pergunta
Serei ainda o ogro do verbo claro
Ou viciei na lavoura do deserto?
Crie o que pinta, disse assim o anjo
Exausto dessa minha rotina
De morar no céu a inventar o mundo
E não saber ainda qual o meu destino
Acredite, disse ele
Eu só existo porque és exímio
Em produzir o sonho no universo cinza
A revelar o verbo oculto em bruta mina
Mesmo que negues ser o escolhido
Nei Duclós
A RAINHA DO MAR
Os versos nascem livres
E cedo aprendem a voar
Pousam em jardins inacessíveis
Onde jamais serão recolhidos para formar uma obra
A poesia sobra
Ave soberana do oceano
Nei Duclós
MIRAGEM
Quando enfim apertarmos as mãos
Depois deste tempo em que encostamos nossos socos
Num futuro ano novo ainda humano
E a dor for apenas memória
Teremos então uma história para contar
Nos livros que ressuscitarão
Nei Duclós
Nei Duclós
Irmão é reparte do genoma
Cromossoma afim, berço, carona
Porção do mesmo nome
Coadjuvante, persona
Que cresce na divisão do bolo
Adulto, continua criança
Pela memória comum, fruto de família
E quando parte leva junto
O que fomos, o que seremos
Órfãos de uma sintonia
Herança bruta
Apenas irmãos
Na terra onde pertencemos
Nei Duclós
GUARDA
Para onde vão os sonhos depois que acordamos?
Ficam de plantão como guarda noturno?
Somem ou nos perseguem em becos e sombras?
Se escondem fingindo-se de mortos?
E reaparecem como os blocos de sujo
Nas ruas da vizinhança?
Serei o que estava só no deserto?
Na avenida lotada pedindo carona?
Terei asas? Homem voa?
Sou Santos Dumond que pousa no pampa?
Para onde vou, navegador errante?
Nei Duclós
TERRA SECA O tempo se esvai como chuva na sarjeta escoa seu espírito de correntes Vai diminuindo o fluxo que o alimenta E nos deixa na rua de terra seca Já que o perdemos por não poder retê-lo Olhamos para o céu: Quando voltará seu acervo Estamos com sede, Deus intenso Nei Duclós
AMARELO GRIS Que nenhuma política nos divida Nem te afastes por qualquer motivo O tempo exige compromisso Teu coração no meu, prazeroso ofício Não falo de perdão ou o que demais exigem Para compor o laço indestrutivel Abraço no palco e câmara em rodízio Com gargalhadas mudas de orgasmo múltiplo Nosso vínculo não depende do show business Somos precários como antigo circo Sou palhaço e choro E ao cair do trapézio abres um sorriso Não importa tantas brigas Valeu o sacrificio Tomo banho no rio, moras na Bahia Teu cabelo amarelo, minha roupa gris Existe uma nação no arco- íris Nei Duclós