17 de abril de 2022

EIXO

 Nei Duclós 


Que coisa boa quando consentes

Que eu toque teu corpo e encontre um  pouso

No eixo que vai do rosto até o ventre 

Teus seios de fogo tua língua  violenta



VONTADE

  Nei Duclós 


Acordo com a poesia

Que dorme comigo

E traz consigo teu perfume físico

Essa rede infinita de vontade e gozo

Essa graça de fêmea,  essa arte  cativa



7 de abril de 2022

A DOR

 Nei Duclós 


Por que sentir dor

Se a dor já cumpriu sua missão de aviso

E em vez de retirar-se no tratamento

Estabeleceu--se no comércio do improviso

E se diverte enquanto morro vivo


É armadilha  contar  com instrumentos

Como a dor, mísero gatilho 

O que parece prático é  oportunismo

Do Mal, esse pacto bandido


Sinto a xor, que   já me tem  como destino

Ao invenlá-la

Alguém disse cace o bicho

Que fez da poesia  seu casulo

Explorem seu amor às letras

E extraiam pelo menos uma estrofe 

Que célebre a dor, sua consorte

No desconforto da pior idade


DANÇA

 Nei Duclós 


Fico extático diante do teu corpo em movimento

Apostas numa dança na varanda escassa do apartamento

Que se despeja sobre meu olhar

O som é qualquer

Importa que teu vestido escorrega prometendo o que não ouso dizer

É de manhã 

Chove o desejo nessa nuvem que nos condena

Ao anônimo abraço irreal 

Sem futuro

Mas só nosso

Ninfa suburbana

JACÓ E RACHEL

Nei Duclós 


Temeroso de perder a noiva prometida

Por um erro de cálculo Ou artimanha

De um sogro idoso que  continha

Como bem mais valioso, a bela filha

Jacó submeteu se ao novo ciclo

Achando seu prêmio garantido


Mas Labão vendeu Rachel às escondidas

E empurrava Lia, a moça bruta


Destruido ao descobrir o fato  novo

Jacó não desistiu, fez se de bobo

E decidiu  arquitetar o astuto plano


Fingiu aceitar a  caçula  mas  de olho

Na primogênita já  casada com outro

E quando todos dormiam despertou o fogo

Para que o  crime fosse o amor e não o ciúme



3 de abril de 2022

SOLDADA

 Nei Duclós 


Esquecida nos relatórios de caserna

Fez a guerra sem vestir o uniforme

Balas  na saia

Ombros de fuzis

Bolsa  com bisturi e mertiolate


Atiradora anônima ,  enfermeira do caos, carreteira em panelas de ferro


Eram tempos heroicos, mulheres que não batiam continencia

Voltavam exaustas, sem soldo, viúvas 

E nas casas preparavam a paz


Escondiam cicatrizes por baixo do pano

Sem jamais amaldicoar a Pátria 

Chão que acoolhe o sangue da família



31 de março de 2022

VESTIGIOS

 Nei Duclós 


As realidades que  vivi em momentos  concretos

Parecem hoje fantasia

Custo a acreditar no que passou 

Neste presente  bizarro

Em que a prosa afasta a poesia


Não transporto a  carga de amor

Daqueles dias

Sou um Quixote que  voltou para  casa

E deixou pistas

Os livros que mal ou bem

Mantem viva

A memoria ao redor do fogo 

Doce ferida



27 de março de 2022

MOSTRAR

 Nei Duclós 


Exponho cicatrizes, não por gosto

Para atrair atenção, me fazer  de  bobo

Ser o que não sou, um saltimbanco

Cromediante da dor, sujeito estranho


Exponho cicatrizes, Deus está vendo

Para repor a verdade onde me encontro

Assim saberás de mim, doce viajante

Que me queres ao vivo e não sabes onde

Está teu amigo De corpo presente


Conhecendo as fdridas seremos humanos

E não iludidos em máscaras de pano

Lúcidos como as manhãs de outono

Que mostram os moços e os veteranos

A viver  com graça as agruras do tempo


25 de março de 2022

PERIGOS

 Nei Duclós 


Em qualquer situação eu poderia ter partido

Quando cortei o braço na janela de  vdro

Ou quebrei o pulso e bati o queixo

Ou mesmo na madrugada correndo perigo

Na inundação de tantos dilúvios

No elevador que perdeu o ritmo

Em acampamentos entre desconhecidos

Nos assaltos em casa ou na rua

Ou nas inúmeras cirurgias


Mas em toda ocasião contei com Deus menino

Com a proteção da Mãe Santíssima

E com o arrimo da família

Que me deixaram tranquilo 

Enquanto a guerra corria solta pelas esquinas

E os insultos dominavam os espiritos



OUTONO

 Nei Duclós 


Outono  chega, mesmo que o verão,  irmão  mais moço 

Espiche a estação do sufoco 

E torne tardio o clima doce

O frio  que nos liberta do calorão em pele e osso


Outono é  o  coração do ano

Sua pulsação, seu abandono

Encontro que vira adeus

Janela de trem em cais do porto 


É  quando vens, no colo do sonho

Braço de mim, saída de banho

A dormir  comigo, depois do tombo

Da fruta que  cai ao desistir da planta que a sustenta

E se aninha em fogo brando 



21 de março de 2022

APRENDER

   Nei Duclós 


Tudo destruí com minha pata de ganso

Fiz desistir quem tentou se aproximar

Não  usufrui da sorte do destino

Sem noção cruzei o tempo distraído 


Hoje peço perdão, mísero sobrevivente

Dou o braço a  torcer, fruto do remorso

Cercado pelo amor de quem chegou para sempre

E com  a poesia me ensinou a ver

O que não atinei e estava  demasiado perto


 

7 de março de 2022

VIAJEI POR MAR

 Nei Duclós 


Viajei por mar

Para aportar no meu destino 

Lotou  o cais

Quando  cheguei no terra a vista


Trouxe presentes 

Para costurar  . no teu vestido

Pingentes de artesão  cherokee  

Estampas em tecidos andinos


Viajei porque quis

Amedrontar teu delírio

Achei  que podia

Cruzar meus limites

Mas eu nada tinha 

Fora do teu sonho,

Bússola feminina


O amor

Me esperava no fim da linha


Nei Duclós

5 de março de 2022

ENXAME

 Nei Duclós 


Como inseto que vem beber água nos teus olhos

E escolhe o momento certo

Para atrapalhar teus gestos

E te acorda no melhor do sono


Assim me tens assidua e inconveniente

A sugar meu tempo com impaciência


Não fosse o amor com seu expediente

De insistente presença ao redor

Tudo seria um enxame sem sentido


O sentimento depura  com a  doçura 

O voo  suicida dos amantes



4 de março de 2022

Cria⁶9tura

Nei Duclós 


Homem tem  a ver com a Terra

Pedras espinhos deserto montanha 

Foi criado bruto

Para viver entre feras 


Já a mulher é  fruto das estrelas

Quando as vemos de longe

E desenhamos esferas em fogo

Mulher é  húmus lava borrasca

Emissaria de sangue seiva nuvem


Homem é  a guerra

Mulher Helena de Troia

Erupção do Vesúvio 

Pomo das Hesperides 


Podemos chama-la criatura

Amor entre armas


 

10 de fevereiro de 2022

RESGATE

 Nei Duclos

Finalmente  encontrei-a depois de dois anos de busca, em estado terminal na maca imunda de um hospital de campanha, nos limites da África setentriomal. Comprei-a de uns guardas vagabundos que a tinham herdado em pagamento de uma divida de jogo contraida com piratas javaneses .


Carreguei-a como um fardo de guerra ate um descanpado onde peguei carona com um aviador detonado, fugitivo de cadeia chinesa.


Levei duas semanas por ar e mar ate chegar ao meu destino. Devolvi-a para a fanilia num encontro pautado pelos berros. Fora vitima de um naufrágio quando atendia populacoes miseraveis e migrantes .


Ela não me reconheceu. Melhor assim. Não é justo, neste mundo aos pedaços, ser chanado de meu único amor.



9 de fevereiro de 2022

EL JUEGO

 Neo Duclos


Me gusta ver  como luchan

Los dos hijos de Serena

Sin cuchillos ni violencia

En juego de campo abierto

Son dos paJaros de oro

A saltar sobre la arena

A tirar sangre en la boca

Quando uno se equivoca

Y se rebienta en risa

Porque tudo es una broma

De muchachos estupendos


Despues vuelven felices

Sucias las dos melenas

A cantar una parodia

Contra los terratenientes


Su lucha es un trenamiento

Para un futuro guerrero

Quando estaran listos

A romper con las cadenas


Como son guapos los hijos

De mi comadre Serena


MARGEM

 Nei Duclos


Inveja eh alma mesquinha

Saco de sal ou farinha 

Peixe que eh pura espinha

Margem seca ribeirinha


Inveja, cruzei a nado

O leito feito de pedra

E ao chegar no outro lado

Vi que o rio tinha sumido


Nao gera nenhum abrigo

Esta falta de compasso

Vivo cercado de cruzes

Que carrego no meu braço


Nei Duclos

28 de janeiro de 2022

JOGO

 Nei Duclos 


Se estiveres voando 

Não se impressione

Eh só cinema


Se estiveres chorando

Não eh contigo

Eh só um romance


Se estiveres pensando

Não se esqueça

Vem de outra fonte 


Se estiveres criando

Não amoleça

Deus esta vendo

22 de janeiro de 2022

FIM DO MUNDO

 Nei Duclós 


O mundo então calou-se

Por não ter o que dizer

Fechou-se em copas

Como as plantas carnivoras

Depois de devorar os últimos insetos. 


O poema mudou-se

Para planetas mais doces

Onde possa sobreviver


O colecionador de sementes

Navega sem porto no mar ignoto

Que bate nos contrafortes

Das serras do amanhecer


Nei Duclós

17 de janeiro de 2022

PERFUME

 Nei Duclós 


Se agora estou vivo

Ainda há esperança 

Mesmo que a dança do extermínio

Se encha de confiança

E imponha o ritmo do funeral na consciência

E o coração esteja tão vazio

Como o rio Uruguai na seca


Agora estou vivo

E todas as memórias  se completam

Povoamos o paraíso de  conflitos

Mas colhemos a flor do fruto ainda por vir

O jeito de resistir 

Imaginando um futuro  com o perfume de conquista



15 de janeiro de 2022

QUATRO ESTAÇÕES

 Nei Duclós 


O que fiz está feito

Não mudarei o entorno da torta árvore 

O corpo é  o que ofereço à eternidade


Os versos são datados

Folhas secas de um outono raro

Véspera do inverno do esquecimento 

Grudado ao verão que o 

anunciou amargo


Fiz por gosto e contingência 

Não fosse o amor

Não teria feito

O melhor de mim

Primavera tardia mas a tempo




14 de janeiro de 2022

COMEÇO

 Nei Duclós 


Aqui, Uruguaiana, onde o Brasil começa

Onde o rio rumo ao Prata abraça o pampa

Somos o sinal de alerta de um país soberano 

A paz da sesta, a pressa do Minuano


Lutamos pelo chão,  

encharados de sangue

Terra de pescadores, de plantas e rebanho


Em tuas ruas largas mora a memória 

Em teu coração montei minha casa de barro 

Meus cavalos de sonho, querencia a céu aberto


Aqui, Uruguaiana

Onde sopra a grandeza

De sermos conterrâneos 



8 de janeiro de 2022

NAVALHA

 Nei Duclós 


Arrisco na oficina

Já gasta de tanto ofício

Duvido que reaviva

A chispa que alimente a trilha


Noto o fio cego da mavalha

Na longa noite de metais sujos

A mão que iluminou maravilhas

Apenas se pergunta 


Serei ainda o ogro do verbo claro

Ou viciei na lavoura do deserto?


Crie o que pinta, disse assim o anjo 

Exausto dessa minha rotina

De morar no céu a inventar o mundo

E não saber ainda qual o meu destino


Acredite, disse ele

Eu só existo porque és exímio

Em produzir o sonho no universo cinza

A revelar o verbo oculto em bruta mina

Mesmo que negues ser o escolhido 


Nei Duclós

2 de janeiro de 2022

A RAINHA DO MAR

 A RAINHA DO MAR


Os versos nascem livres

E cedo aprendem a voar

Pousam em jardins inacessíveis

Onde jamais serão recolhidos para formar uma obra


A poesia sobra 

Ave soberana do oceano


Nei Duclós

NÁUFRAGOS

 NÁUFRAGOS 

Treinei contigo o amor impossível 
Caímos de boca na liberdade virtual
Cada palavra com sabor de verdade
O desejo embrulhado no sonho
O corpo jogado num temporal

Depois acordamos
Como náufragos na praia do real

Nei Duclós 

31 de dezembro de 2021

M,IRAGEM

 MIRAGEM 


Quando enfim apertarmos as mãos 

Depois deste tempo em que encostamos nossos socos

Num futuro ano novo ainda humano

E a dor for apenas memória 

Teremos então uma história para  contar

Nos livros que ressuscitarão 


Nei Duclós

25 de dezembro de 2021

REPARTE

 Nei Duclós 


Irmão é  reparte do genoma

Cromossoma afim, berço, carona 

Porção do mesmo nome

Coadjuvante, persona

Que cresce na divisão do bolo


Adulto, continua criança 

Pela memória comum, fruto de família 


E quando parte leva junto

O que fomos, o que seremos

Órfãos de uma sintonia

Herança bruta

Apenas irmãos 

Na terra onde pertencemos


Nei Duclós

24 de dezembro de 2021

GUARDA

 GUARDA


Para onde vão os sonhos depois que acordamos?

Ficam de plantão  como guarda noturno?

Somem  ou nos perseguem em becos e sombras?


Se escondem fingindo-se de mortos?

E reaparecem como os blocos de sujo

Nas ruas da vizinhança?


Serei o que estava só no deserto?

Na avenida lotada pedindo carona?

Terei asas? Homem  voa?

Sou Santos Dumond que pousa no pampa?


Para onde vou, navegador errante?


Nei Duclós

22 de dezembro de 2021

TERRA SECA

 TERRA SECA O tempo se esvai como chuva na sarjeta escoa seu espírito de correntes Vai diminuindo o fluxo que o alimenta E nos deixa na rua de terra seca Já que o perdemos por não poder retê-lo Olhamos para o céu: Quando voltará seu acervo Estamos com sede, Deus intenso Nei Duclós

AMARELO GRIS

 AMARELO GRIS Que nenhuma política nos divida Nem te afastes por qualquer motivo O tempo exige compromisso Teu coração no meu, prazeroso ofício Não falo de perdão ou o que demais exigem Para compor o laço indestrutivel Abraço no palco e câmara em rodízio Com gargalhadas mudas de orgasmo múltiplo Nosso vínculo não depende do show business Somos precários como antigo circo Sou palhaço e choro E ao cair do trapézio abres um sorriso Não importa tantas brigas Valeu o sacrificio Tomo banho no rio, moras na Bahia Teu cabelo amarelo, minha roupa gris Existe uma nação no arco- íris Nei Duclós