10 de setembro de 2012

A DISTÂNCIA DO TEU OLHAR



Nei Duclós

O tempo se esfarela em nossas mãos. Vamos manter o prumo. Voa, nau errante, em direção ao mistério.

Amor não pode ficar na reserva. Deve entrar em campo para decidir a parada. Em poucos segundos: a distância do teu olhar, pássara.

A palavra não se entrega. Precisa de uma carga de sedução para mostrar-se plena. É quando verte o poema, néctar da criatura.

Tuzinha. Cliquei cem vezes em teu ninho.

Fogo de palha. Te consomes em mim, depois voltas ao teu aquário. Água insolúvel de sortilégios.

Não quero mais te querer. Quero voltar ao normal, morar nas grutas de sal.

Sempre a mesma coisa. Te guardas como jóia e eu fico na bandeira morrendo de saudade.

Foste embora. Sou o pampa onde meu coração se perdeu.

Perdi o dia contigo muda. Aguardo a noite que talvez te inspire. Volta a me dizer que é impossível. É o que tenho de ti, inabitável.

Contratempos me tiram do sério. O poema se perde em lados ocultos. Volto a ser o que me nega. Saia da frente, anel de chumbo. Assome, primavera.

Me enredas até o infinito. Custo a me desvencilhar: um século.

Os meses misturam as estações. Por que eu não deveria?

Estavas escondida. Mas te encontrei. O amor te localiza.

Experimento a sensação de não ser mais teu. Espero que seja recíproco. A não ser que uma estrela beije a Lua.

Perdi a memória do que te disse. Joguei-a num mar que não devolve.

Agora só falta perder o vicio de estar contigo. O resto já foi feito: conseguimos romper o laço de um amor remoto.


RETORNO - Imagem desta edição:  Romy Schneider.

QUANDO SOPRA O VENTO LESTE



Nei Duclós
 

Sou um dos contemporâneos. Parte do mesmo sonho.
Não me acuse de vaidade por ter me tornado humano.

Moramos no mesmo verso. Vizinhos de carne e osso.
Virtuais quando sopra o Leste. Reais quando vens no colo

Não fuja desta cabana, que com as mãos construímos,
paredes de pau a pique, varandas de Lua Cheia.

Esse amor não nos pertence, por isso não há batismo,
é um evento bizarro, no cosmo sem cabimento.

Quando pensares no adeus, verás que não há arreglo,
a rede não admite ficar vazia de peixe.

Pode chamar de destino o que tanto nos separa,
 é o amor mais sincero de um grude visto do avesso.

Prometo dizer te amo, toda vez que houver Vésper.
Vou cumprir cada convênio que assinei com nosso acordo

Nem pense em cair de banda, que eu tocarei o alerta,
cem galgos no teu encalço, mil rastreadores atentos.

Não passa nem em cem anos, o que sentimos tão cedo,
te levarei para longe, onde seremos amantes.

O poema é pura entrega, na porta fechada sempre,
é a certeza de uma vida, no coração que não cede.

Demoras para atender, o coração é um viajante,
que chega de madrugada, pedindo espaço na cama.

Trovei apenas por vício, pensei em minha defesa,
riste de mim de preguiça, me conheces de tão linda.

Juro que não queria te amar como um siderado,
mas o que fazer com Cupido, e sua folha corrida?

Agora que já está dito, venha para a calçada,
mesmo com chuva me beije, amor que não mais me escapa.


8 de setembro de 2012

AGORA MESMO



Nei Duclós
 
Faço segredo desse mistério:
sentir-te perto, como num aperto
o último suspiro antes do enredo
cair como tecido num abismo

Não conto para ninguém, dá medo
imaginar perder-te , o que nem tenho
levei um tempo até ser aceito
pelo reino indissolúvel da beleza

Piso na areia quente sem ninguém ver
é doce demais essa véspera de beijo
quero fazer certo, saber como pegar-te

Arte do namoro, andar de caranguejo
sair em disparada quando há perigo
e ficar antenado: pode ser agora mesmo


RETORNO – Imagem desta edição: Caterine Deneuve.

FLOR DO CAMPO



Nei Duclós

Tudo é para ti, flor do campo.

Voltaste? Então me beije. Não finja que não me viste. Tudo em ti é desejo.

Escrevi para você uma carta cifrada. Decifraste a charada? Diz: te quero.

Saudade tão funda que supera o abismo.

Te assustei ao me tornar explícito. Não tem mais como segurar, amiga.

Entenda o contrário, como sempre. Gasto meu latim enquanto reproduzes o que jamais digo. Só o beijo cala tua calúnia.

Digo isso para todas que eu amo, que é tu.

Você pensa que eu distribuo palavras sem nenhum motivo, como se fosse um semeador maluco. Meu alvo é bem explícito. Teu coração, passageira. Sou rápido no gatilho.

Não me acreditas. Te guias por falsos sinais, aparências pífias. O que faço com as verdades que gastei à toa contigo?


Não sei porque perco a palavra te estendendo tapete. Vou para o lado oculto da Lua ler os santos.


Conseguiste me esvaziar antes do tempo. Agora o que faço com a tarde morta?

Dentro de mim mora um pássaro de gelo, que ressuscita quando tu, primavera, aproxima teu corpo.

Não sei porque perco a palavra te estendendo tapete. Vou para o lado oculto da Lua ler os santos.

Desconheço o que te move, persona sem rosto. Deixa-me com meu crepitar de chamas.

Unhas vermelhas repousavam nos dedos de um descanso. Eram um grupo antes do agarro. Preparavam o bote fingindo sono.
 
 
RETORNO - Imagem desta edição: Natalie Wood.

7 de setembro de 2012

ESCAMAS

Nei Duclós

Não quero você, tome seu rumo
guarde para si os seus encantos
não preciso de amor nem de consolo
sou lobo do mar, minha sereia


Cante segredos para os marinheiros
que adoram afogar-se em teu veneno
minha terra é o convés, sólido balanço
danço no mar, meu salgado endereço

Deves sofrer, pois reservas teus beijos
para momentos em que fomos completos
mas somes de mim quando mais te desejo

Cansei de dizer que há tempos te amo
tua indiferença é feita de escamas
cobres tua pele com malvada aspereza


RETORNO - Imagem desta edição: Marlene Dietrich.

APEGO



Nei Duclós

Não é para você que eu canto
nem para o Tempo, nosso termo
mas para o lugar onde preservo
a suave sonoridade pelo avesso

Não há personagens quando escrevo
que se adaptem ao real acervo
é tudo fantasia, criaturas menos
e não o que vês diante do espelho

Fujo assim de responsáveis erros
e me escondo com o que não tenho
a liberdade de reinventar o mundo

Se quiseres saber, venha que eu digo
coloco você num pedestal de beijos
e te deixo desmaiada de tanto apego


RETORNO - Imagem desta edição:  Natalie Wood.

VIGÍLIA

Nei Duclós

Viraste sonâmbula. Eu velo tuas noites
de coração na mão. Tenho medo
que me leves para a casa das sombras.


Não posso te acordar
e acabo de ressaca o dia inteiro.

Mas ostentas um ar de triunfo,
como se tivesses feito amor
e nem lembre direito.

Sou uma vaga luz
no teu sonho de mágica vigília.


RETORNO - Imagem: Harrison Ford e Sean Young em Blade Runner.

6 de setembro de 2012

PERFORMANCE

Nei Duclós
 

Enganas a luz, te transformas,
mas a forma é sempre bela.
Qual o segredo da performance,
tão múltipla e tão ela?


Dos papéis que assumes
prefiro o que tua doçura guarda
o que gera tanta humanidade
Vejo teu rosto por toda parte

Do fundo tiras essas mulheres
que expões como se fossem tuas
e,milagre, não és nenhuma

Consegues partir antes da arte
fazes com gosto fechando a porta
sorte de quem bate quando abres


RETORNO - Imagem desta edição: Juliana Biancato. 

TABLÓIDE

Nei Duclós

Fazes pouco do que me assombra
tua beleza que assusta os deuses
achas comum ter esse corpaço
pomo de Hespérides sobre a mesa


Não é deslumbre, é reportagem
que os olhos escrevem siderados
publico teu perfil em meus tablóides
mas pões no lixo fazendo alarde

Desprezas o editorial onde confesso
minha absoluta falta de caridade
de querer só para mim o que excede

Componho rodapés cheios de graça
e faço manchetes sobre o escândalo
a tua natural perfeição de cânone


RETORNO - Imagem desta edição: Ava Gardner

INUNDAÇÃO



Nei Duclós
   
Nada sabes da dor, bonita
Décadas confinado , cidades opacas,
 janelas cinzas, alegorias sinistras.
Jamais ver o sol de um grande grito

Nada sabes do que é sofrer sem amor
enquanto a vida se esvai ao infinito
Fantasiar o real que te salvaria
e entregar-se à desesperança

Ser podado em todos os sentidos
por malvadeza, pouca sorte ou destino
nunca chegar a vez do momento livre

E guardar em si essa inundação
que hoje sem querer te agride
e te atrai, final de desperdício


RETORNO – Imagem desta edição: Maureen O´Hara.

5 de setembro de 2012

ESPECIARIAS



Nei Duclós

 A primavera se aproxima como um navio vindo do Oriente. Especiarias e roupas de odalisca para dançares na minha frente.

Você se arrepia por comedimento. Se fosse sincera, rasgarias tuas sedas.

Chego tão perto que as peles se confundem. Há natureza de pétala pousando no urso.

Te dei um beijo e saí correndo. Deixei a marca em teu silêncio. Fique atenta. Sou o que te acena.

Foi-se embora com o circo. Me deixou na lona.

O barco em riste navega o canal que leva à fonte. Lá salta como um peixe para o alto.

Bruto e rude civilizado por tuas curvas.

Água e mel numa planície de esgrimas. Somos um sonho impregnando a noite de suspiros

Estava morto quando me perguntaste as horas. Já é tempo, respondi, ventriloquo do amor ardente.

Antes de chegar em Vênus eu tinha garras. Depois ganhei dedos, feitos pela doçura do teu desejo.

Não se queixe, respire se puderes. Elimino o ar quando te pego.

Te quero e o resto fecho para balanço.

É sempre o mesmo momento. Teu corpo denso me fazendo estrago.

Esquecida do que te aflige simplesmente me beijas. Ninguém pode contigo, surpresa.

Escreva para você mesmo. Se não obtiver resposta é porque mudou de endereço.


RETORNO – Imagem desta edição: Marilyn Monroe.

4 de setembro de 2012

SUSPEITO



Nei Duclós

Sou suspeito. Deixei-me dominar pelo amor, crime perfeito.

Toda crítica procede. Eu canto mesmo a criatura de jade, a persona que abres com teu molho de chaves.

Eu peguei a mão das fadas. Elas suspiram quando faço arte. Depois me soltam, convocadas pela tempestade.

Me ensinas quando te deixo. Aprendo a voltar correndo.

Tens um compromisso no cais do porto. Venha buscar teu peregrino. Ele andou meio mundo pensando em te dar colo.

Quando me arrependi fiquei de joelhos. Quando tive razão te dei um beijo.

Sou barco a remo. Cruzei o mar com teu nome no bolso.

Fique tranquila. Parto para onde venho. Fujo para quem me encontra.

Sou do vento. Inflo tuas velas, amor sem medo.

Só capturo quem consente. No fundo, sou eu quem fica na rede.

Você some nas dobras do tempo. De vez em quando assoma, flor do encanto

Tenho fé na força do verbo, a que inaugura espaços, de todos os tamanhos.

Bem no ponto, onde há o toque. Mesmo que não toque de fato, apenas chegue.

Tudo se encaixa, fada. Trajeto sem farsa. Quarto destruído.

Passeie enquanto é tempo. Na volta, não terás recreio. Preparei uma dose do que chamas veneno e é apenas o doce que verte do teu beijo.

Nosso amor será mudo, para não haver briga. Na língua do beijo.

A paz vem depois do xeque-mate, quando o amor entra no acordo.

Chanceler da Rainha, a poesia, aportei no deserto da nação recém fundada. Fui recebido por balas no meio da conversa. Acorreu-me a musa, que estava por perto.

Venha que eu quero. Queira que eu pouso. Voe que eu sonho com teu aperto.

Eu tinha desistido. Mas você me mostrou o tempo que seria dedicado ao desamor.



RETORNO - Imagem desta edição: Cameron Diaz.