19 de outubro de 2009

PECADOS MORTAIS DO JORNALISMO


Apesar dos bons serviços prestados pela imprensa, às vezes fica impossível aturar o que alguns apresentadores e repórteres dizem ou escrevem. O pior é que os lugares comuns não dão sinais de desistência e fica cada vez mais explícito que eles jamais mudarão os jargões, pois estão certo de que é assim desde que “o mundo é mundo”.

O QUE POUCA GENTE SABE - Em algum momento da profissão, o jornalista se sente uma divindade por deter o conhecimento do mundo, em todos os tempos. Ele faz parte de uma elite, a dos sabichões.

A SEGUIR, MAIS INFORMAÇÕES - Dizem isso no noticiário, mas o que poderia vir a seguir num jornal a não ser mais informações? É o mesmo que dizer: A seguir, vamos continuar respirando. Aguarde.

QUALIDADE DE VIDA - O jargão das consultorias contaminou as redações e de lá não saem mais. Qualidade de vida é poder exercer um estilo próprio, destacar-se da mesmice e publicar o que deve ser publicado e não o que ordenam os podres poderes.

VONTADE POLÍTICA – Essa se diferencia da vontade pura e simples porque a política dá mais dinheiro. Quando dizem falta vontade política é porque não chegaram ainda a um acordo sobre o montante a ser gasto na negociação.

JAMAIS PODERIA IMAGINAR - Já citei aqui, mas vale entrar neste novo cânone. O leitor ou a fonte são desprovidos de imaginação, talento que só o jornalista possui e costuma sempre destacar, para que todos morram de inveja de sua criatividade.

CLARO – Dito em tom peremptório, como aposto, expressa a obviedade do assunto que o espectador não consegue capturar e o apresentador, com um gesto ou cara de enfado, destaca não sem antes denunciar, no tom, que aquilo lhe custa muito esforço.

ESSA COISA DO “PERSONAGE” – Como ninguém verdadeiro chama a atenção da mídia, a moda é interpretar um papel e, o melhor, falar sobre o “personage”. Os repórteres, como fazem parte do show, adoram perguntar como que é essa coisa.

COMO SE SENTE PERDENDO TUDO? - Quem fizer essa pergunta deveria ser condenado e morar um ano na favela e todas as semanas responder como está se sentindo ao lado do esgoto, em barraco podre, na enchente ou abaixo de tiroteio.

RETORNO - Imagem desta edição: enchente no centro de Santo André. O Brasil não foi feito para chuva.

HORÁRIO DE VERÃO


Nei Duclós

O horário de verão significa que você não pode responder a uma pergunta simples: que horas são? Trata-se da ruptura do último consenso civilizado, o tempo. Porque na Biblia diz que há um tempo de nascer e outro de morrer; tempo de plantar e de arrancar, de derrubar e construir, mas o burocrata de energia diz: certo, mas adiante seu relógio. Ou seja, há um tempo para cada coisa, desde que seja 60 minutos mais tarde. Resultado: tudo se desfaz, pois não se pode confiar em mais nada.

O horário de verão é quando você acorda de tarde e dorme na hora de trabalhar, como um guarda noturno, que é uma profissão sem noção do horário normal. É como se alguém nos contratasse para dormir de cortinas fechadas durante o dia. Ou acordar quando chove e faz frio às três da matina e já passa da hora de bater o ponto. Você perde no mínimo uma hora por dia e a confusão produz problemas perenes. Por exemplo: o meio-dia jamais chega. Ou passa lotado, sem que ninguém perceba, depressa como um ônibus executivo, que te deixa na mão na hora do rush, bem na véspera do feriadão e você tem hora certa para chegar ao aeroporto. E quando chega, se chega, descobre que perdeu o avião porque seu horário, por ser de verão, foi na semana passada.

O grande problema de punir os responsáveis é que jamais saberemos quando é seis horas da tarde de verdade, pois é nesse momento em que devemos acionar a cadeira elétrica. Ou seria às seis da manhã? Não, seis da manhã é a forca. A cadeira elétrica tem que ser às seis da tarde, porque no horário normal são cinco horas e isso economiza energia. Ou então a execução deve ser às 12 em ponto, quando os ponteiros rezam por não saberem onde estão. Não se pode marcar um duelo com um sujeito se não acertarmos antes os relógios. Imaginem uma força multinacional na hora do ataque. Acertem os ponteiros, dirá o chefe, que é americano. Certo, responderá o chinês, que topa qualquer parada. Calma lá, dirá o soldado raso brasileiro, eu só posso ir nesse mesmo horário, mas uma hora depois! Na minha terra é horário de verão!

Uma das coisas mais desagradáveis é o fim do expediente com o sol a pino, esbravejando na sua cuca e você não consegue engatar na tranqüilidade da happy hour. Fica chato beber quando todo mundo está fazendo exercício para manter a forma. Então você deixa de lado a cerveja e vai correr para matar o tempo, pois tem ainda uma semana até o anoitecer. E quando ele vem, já é de manhã.

Uma das justificativas é que o horário de verão economiza 0,0000001 % da energia dispendida pelo pêndulo do relógio cuco e por isso vale muito a pena. Parece que faz bem para a lavoura de amendoim e ajuda a erradicar os besouros ruivos do Acre. A defasagem do fuso horário dentro do país se transforma num pesadelo.Um dia viajei em dezembro para Campo Grande às dez da noite e cheguei às quatro da tarde do dia anterior. Ninguém me aguardava no aeroporto, porque as pessoas estavam agendadas para fevereiro, quando a soma das horas perdidas poderia ser compensada sem muitos aborrecimentos na espera.

Para mim, tudo não passa de soberba. Os caras estão no poder e acham que podem fazer chover. Por isso mandam todo mundo jogar o relógio no lixo, adiar compromissos, chegar atrasado ou cedo demais, tudo em função de uma coisa marota e óbvia: os sujeitos que inventaram isso estão se lixando para o tempo. Chegam e saem a hora que querem. E quando perguntamos as horas eles dizem: sei lá. Ou melhor: são vinte para agora mais. Faltam dez para daqui a pouco. As mesmas de ontem a essa hora. E saem rindo da tua cara.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: obra de Salvador Dali.2. Magistral Mario Vargas Llosa sobre Polanski, Mitterrand e Berlusconi. A elegância do texto de mãos dadas com a contudência, a ironia e erudição de um grande talento.

18 de outubro de 2009

VIGÍLIA


Nei Duclós

Acendo a fogueira
se a terra esfriar

Dou corda no tempo
pra dor não matar

Relógios de dentro
costumam parar

O sonho retorna
de qualquer lugar

Vigília me cerca
de estranho luar

Quem tomba primeiro
ensina a tombar

Acendo a fogueira
Pra noite brilhar

RETORNO - 1. Poema da última página do livro No Meio da Rua (L&PM, 1979). Musicado por Carlinhos Hartlieb. Escutei a canção uma vez em São Paulo, apresentada pelo próprio Carlinhos, mas nunca ouvi gravada em nenhum lugar. 2. Imagem desta edição: Texel, de Daniel Duclós.

17 de outubro de 2009

MAITÊ PROENÇA E A SAIA JUSTA COM PORTUGAL



Maitê Proença apresentou no programa Saia Justa, da GNT, um vídeo de sua viagem a Portugal onde confunde o número três apresentado de maneira invertida, como é costume na maçonaria, com burrice de português, entre outras barbaridades. Disse asneiras sobre política e geografia, numa demonstração de extrema limitação mental e de cretinice, pois achou tudo muito engraçado. Resultado: só serviu para os portugueses intensificarem seus preconceitos contra o Brasil, pois Maitê é o que temos de pior e a roda onde participou o que temos de mais recorrente e burro.

É moda hoje na televisão brasileira criar uma roda de pontificadoras, como se estivessem defendendo amulher. As mulheres não tem nada a ver com essa exposição de intimidades, esses aconselhamentos inúteis e vazios, esse gargalhar de pessoas bem remuneradas. No Fantástico tem algo parecido, o Clube das Mulheres, e vi esses tempos as participantes manipularem pobres donas de casa, como substituir responsabilidades por vaidades, além da eterna campanha contra os homens, como se gênero valesse alguma coisa na maré alta do capitalismo.

É preciso ensinar para as ignorantes que a mulher tinha mais poder antigamente, quando era matriarca da sociedade, quando colocava os homens sob o jugo do casamento em favor da sobrevivência das famílias e da espécie, quando ditava o comportamento e a ética, quando davam ordens. Não que isso fosse modelo de qualquer coisa, mas o fato é que tinham mais poder, o que deita por terra todo o argumento de que estavam em desvantagem. Homens e mulheres viviam sob o peso da sociedade tradicional e o poder era exercido por qualquer um dos gêneros, basta lembraR as rainhas, as fazendeiras, as matronas. A luta pela emancipação feminina é antiga e não é obra exclusiva do feminismo transformado em pose.

O que temos hoje é a mesma coisa: o poder é exercido por qualquer gênero e a cidadania continua sob o tacão. Mas há uma diferença: o exibicionismo das falsas liberdades. Algumas mulheres, auto-ungidas representantes da espécie, se submetem a tudo que é sacanagem e expõem suas intimidades publicamente, sendo a coisa mais indecente suas próprias indigências mentais. Enquanto isso, a exploração sexual continua a mil, basta ver as dançarinas nos programas de auditórios. Se a revolução desembocou nas chacretes, então alguma coisa está errada.

Não são representantes das mulheres as que se apresentam assim tão liberadas e cheias de cicatrizes amorosas, confundindo seu egoismo com teoria da libertação. São apenas pessoas metidas a besta. As mulheres sérias e inteligentes não tem vez nesse sistema bandido, em que meia dúzia (que ascenderam não se sabe como) se colocam como luminares da situação, quando não passam de sabujas da ditadura econômica que nos governa. Pois é preciso que as mulheres percam a sua seriedade e adotem a postura de perseguidas em luta pela liberdade (como se a dignidade pertencesse apenas às mulheres) para que o roubo da população continue impune.

É mais fácil comprar uma cretina dessas para mostrar viagens idiotas do que se submeter às mulheres com grandeza, que não se vendem e tem muito mais a dizer do que o cacarejar permanente confundido com modernidade.

TEM BOBAGEM DEMAIS NO AR


O noticiário é uma sucessão de asneiras. O balão que foi capturado e não tinha menino dentro. O velho que reencontrou seu grande amor depois de 30 anos. O trecho do centro que teve o transito desviado. As declarações do Rubinho Barichello. A franqueza de Felipe Massa. Os três pênaltis perdidos pela seleção sub-20. A brabeza de Dunga e Maradona. A nova vinheta da Fórmula 1. A cena em que Didi sobe no gigante infeliz do basquete, que morreu, é considerada “clássica”. Xuxa canta (?) para as crianças angolanas, que sacodem os bracinhos, judiação.

Depois tem as perdas de tempo nas estradas em fúria. A lenga-lenga de Brasília, que deveria ser fechada. As crueldades como levar criança de camburão para fazer BO. Os incêndios sucessivos, principalmente em favelas. Os assassinatos em série, como se vida fosse vídeo-game. E as frases repetidas. Como a que nos lembra, a cada milissegundo, o fato de o Brasil já estar classificado para a Copa. Vamos para a África, puxa. Por que não vão cagar pedra?

Os novos desertos são exibidos orgulhosamente como um grande feito do agronegócio nacional. Os estouros do cartão de crédito nada tem a ver com as necessidades básicas, é tudo vaidade desse povinho que não sabe gastar. Bem nutridos maganos cretinos aparecem a toda hora dando conselhos para a cidadania tungada pelos juros escorchantes. O noticiário não tem denúncia, tem denuncismo barato. Não tem defesa do país ou de seus habitantes, tem defesa de interesses corporativos e publicitários. Todos são culpados, menos eles.

Aí o Datena ganha mais um programa. Por que, meu Deus? A Fernanda Lima suspira fundo seu esqueleto dourado e diz que é o maior prazer, viu? Idiotas se colocam atrás de displays de corpos nus e falam das suas trepadas, sob a gargalhada da apresentadora loirosa de cabelos escorridos e aplausos da claque imbecil. De manhã à noite, Didi, Dodô, Xuxu e Micharias. Sabe aquele filme que você tirou na locadora no século passado? Vai passar no Cinema Especial. Sabe aqueles filmes todos sobre como os americanos são fodalhões? Passa todos os dias. Esses dias, a selva peruana era o Brasil e bandidão americano falava para seus subordinados hispano-brasucas como se fossem animaizinhos de estimação.

Minha sucessão de leituras vai bem, o problema é que você não pode o tempo todo só escrever (trabalhar) e ler. É preciso ligar a TV, tirar um filme. Depois de assistir inúmeros clássicos estupendos, me cai nas mãos uma Sandra Bullock quarentona fazendo papel de menininha. Talento desperdiçado em filmecos comerciais. Parece que o grande hit é Intrépidos Bastardos, ou algo assim, mais Quentin Tarantino, daqui a pouco vem mais um Scorsese. Não há perigo de melhorar. Vejo filme razoável polonês do garoto que procura o pai e tem uma irmã que luta por um emprego. Uma cena inteira foi chupada numa novela da Globo. Eles chupam e pronto.

Espíritos bons e criativos perdem tempo com política. O Brasil do tucano-petismo é perda de tempo. Devemos aplicar nosso tempo em coisas mais proveitosas. Começo a ler o diário de guerra de Alfredo Escaragnole de Taunauy. O Conde D´Eu aparece como um homem digno. Achei que era um atrapalhado comandante-em-chefe. Talvez não tenha sido. Quem são essas personalidades históricas que projetam imagens tão conflitantes? Para onde foi o Brasil? O que vale a pena é o amor e a memória. A criação e a coragem. O sonho e o humor.

Voltei a Shakespeare esses dias. Há 400 anos, o gênio. Quando ler te derruba. Mas parece que o Rubinho tem algo a dizer. Vamos ver. Ele torce a boca. Está indo para a Ferrari. Felipe Massa parece que não gosta. Ou gosta? Por que perdemos os pênaltis para Gana? Quanto mistério. Mas nada se compara ao chapéu de campanha do presidente e sua arenga interminável. “Quousque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?”, como dizia Marco Antonio.

RETORNO - Imagem desta edição: Bobo da Corte.

16 de outubro de 2009

COMBOIO DE LIVROS


Nei Duclós

Livro tem pai e avô, como todo mundo. Nenhum autor importante, desses que deixam marca, escreve a partir do nada. Ninguém que vá morrer consegue inventar, sem base, algo que preste. O truque dos gênios é participar de uma linhagem, sem precisar dar sempre o crédito (isso fica a cargo dos estudiosos, os apaixonados dispersos no tempo). Artistas africanos anônimos e ancestrais foram apropriados por Pablo Picasso. MacBeth e Hamlet já tinham sido escritos, mas Shakespeare fez muito melhor. Os Irmãos Grimm, todos sabem: colheram as histórias do povo e colocaram em papel impresso. Cervantes usou os romances da cavalaria para talhar seu antídoto.

Picasso falava em roubar, mas era seu jeito debochado de abordar coisas sérias. Não acredito nessa definição. Existe o plágio, o clone, mas isso é outra coisa. Está cheio de ladrão por aí, mas os mestres são de outra estirpe. Trabalhar uma história e elaborá-la de tal forma que cruze os séculos é entender que literatura, como toda arte, é matriz, tem antepassados e gera seres vivos. Chamam de livros, mas podem ser páginas virtuais em telas luminosas, espalhadas em inúmeras fontes. Por um tempo foram manuscritos perdidos, obra de copistas, papiros, tábuas, argila. Não importa a forma, mas a elaboração que identifique a obra.

O papel impresso, por existir há muito tempo, parece ter se transformado na natureza do livro, mas esse é um erro de percepção. É imbatível como objeto a ser levado para a varanda, o quarto, o banco da praça, do ônibus. Mas acredito que hoje existe um exagero de livros não reconhecidos como tal espalhados pela rede, assim como temos livros perdidos, mofados, jamais reeditados e que fazem parte de um acervo de maravilhas ocultas, como os tesouros das lendas, essas que eram transmitidas pela voz por gerações e só depois pousaram, modificadas, em volumes que ocuparam estantes.

A essência do livro, da literatura, é habitar o espírito. Vejam bem que não usei missão, função, “papel” no sentido de incorporar um personagem. Porque é dentro de nós que uma história, uma teoria, uma lenda, uma parábola, um texto, um poema, uma obra habita. Não vamos procurar lá na sala encerada, na biblioteca opressiva, nas prateleiras convulsas, nos armários fechados a glória de existir da literatura. Também não vamos procurar apenas nas conversas eruditas, embora estas possam nos levar pela mão até onde nem imaginávamos com nossa precária leitura. Não se trata de fazer pouco do acúmulo ou das análises, pois tudo tem lugar nos livros.

O fato é que os antigos tinham mais sabedoria, pois não era preciso o livro para que a literatura habitasse as gentes. Bastava um narrador em praça pública, um poeta popular, um arauto, um aventureiro e suas memórias ditas em cima de um caixote, uma gávea. Não havia intermediários, a não ser o autor da saga, que assim se transmitia diretamente para o coração do povo. O livro no fim aprisionou o talento a sete chaves e ficou cada vez mais custoso abri-lo para ler, à medida que as atrações da vida se multiplicaram e se tornaram mais acessíveis.

Quantos livros deixei pela metade? Quantos dormiram na minha estante, às vezes por vinte anos, para enfim eu poder ser capturado por eles? Ler tudo é impossível, devemos ler só o necessário e cada um sabe sua cota. Ao mesmo tempo me pergunto: e se eu não os tivesse à mão, o que seria de mim? Brutalizado pelo exílio, eu amargaria a pena de viver tentando imaginar o impossível. Seria uma bruma de possibilidades e talvez eu quisesse, a certa altura, escrever algo para poder ter o que ler. Esse é o segredo dos diários: todos os dias colocamos a vida nele para um dia podermos ler o que passou por nós como um comboio. É nossa obra favorita.

Chegará esse tempo em que verei a paisagem do que escrevi. Mas isso vai se desenrolar lá fora do trem. Dentro, sobre uma poltrona amigável, eu continuarei a abrir os grandes autores, os que jamais devem se distanciar de nós. Porque se algo fica na terra, é a literatura, semente de obras ao infinito.

15 de outubro de 2009

MERGULHO


Nei Duclós

Teu corpo sobre o abismo
Piso de vidro em cela nua
Tosco telhado sem coluna
Um terremoto na esquina

Viver nos escombros da lua
Lixo ancestral de moluscos
Pontes podres na pedreira
Sopro de solidão, ventania

Paisagem de trem nas salinas
Vínculos de ar te seguram
Cama desfeita, sótão de susto

Teu olhar de bicho de circo
Preso pelo pé no precipício
Mergulho de anzol, estribilho

RETORNO – Imagem de hoje: estupenda obra de Ricky Bols, enviada por e-mail.

CANÇÃO DOS ANJOS EXAUSTOS


Nei Duclós

Para Caio Fernando Abreu

Os anjos exaustos do Continente
com plumas molhadas pelo minuano
desertaram os carnívoros exércitos

Levaram no bolso bulas de silêncio
lenços ciganos, mapas pela metade
essências cifradas em livros de latim

Partiram em desordem pelo vento
todos ao mesmo tempo, como potros
Montados em fogo na busca do mar

Despiram o vidro das esporas
arrancaram palavras dos trilhos
cercaram de conchas o paiol

Seguiram o rumo dos rios mansos
os rios alheios ao rumor das tropas
de margens caladas como baionetas

Sentiam sede os anjos exaustos
sede do sal que não amargasse
da água azul que não fosse covardia

Os passos soavam como porcelanas
as asas eram grandes pincéis
os olhos, bruscas mudanças de lua

Assim aportaram nas praias de sangue
engatilharam flores na fronteira
com o nome riscado por punhais

Os anjos exaustos do Continente
negaram mil vezes os velhos heróis
e cobriram com cinzas as vigílias

Afastaram-se das ordens do clarim
dos olhos torcidos como lençóis
dos cavaleiros reduzidos a leões

Trocaram o torpe destino pelo desatino
puseram a prêmio o frágil rosto de cera
gravaram na pedra seu resoluto caminho

Por isso Deus puniu-os com a eternidade
farto do fatídico desperdício que é ver partir
um filho moço, de olhar encharcado de sonho

RETORNO - Imagem desta edição: Caio Fernando Abreu, que tanto conviveu conosco, nas letras, nas ruas, nos livros, pelo tempo afora, até que se foi, cedo demais.

14 de outubro de 2009

IBGE X IBOPE: A QUESTÃO DA TERRA


Com uma pesquisa encomendado para o Ibope (o cliente sempre tem razão) o patronato do agronegócio, que detém os mais injustos, gigantescos e antis-sociais latifúndios do mundo, agentes do desmatamento e das plantations, onde produzem insumos para a especulação financeira a futuro, tem a cara de pau de denunciar a reforma agrária como fonte da favelização. Ou seja, tem o desplante de negar a reforma agrária, para deixar intocado o sistema implantado das capitanias hereditárias, onde maganos dominavam territórios tão gigantescos que o sol neles jamais se punha, a exemplo do império britânico. Ao mesmo tempo, o governo tem o desplante de dizer, via IBGE (o cliente sempre tem razão) que sua distribuição de terras gera produção de alimentos e que a reforma agrária vai bem no Brasil.

Ambos manipulam as pesquisas, ou seja, a opinião dos entrevistados, que não apitam, nem fedem ou cheiram no resultado das mostras. O que vale é usar as estatísticas para mentir, fazendo cara de politicamente correto. Nem o patronato nem o MST estão preocupados com a reforma agrária. Na hora em que ela for feita para valer, os latifundiários serão escorraçados de seus impérios e o MST não terá mais motivos para invadir, saquear, roubar e sair sorrindo em nome da justiça social.

Podemos imaginar o que não fazem com as pesquisas eleitorais. O que tem acontecido? Eles escolhem previamente os candidatos e fazem vários tipos de amostras, com rodízios das figurinhas carimbadas, essas que ocupam o noticiário acusando uns aos outros, como se fazer política fosse lavar roupa suja. As pesquisas mentirosas, que dizem maravilhas do Brasil petista, está sendo usada pela publicidade para lançar automóveis, que é o nicho de mercado que jamais deixa de faturar muito. É compreensível. O governo atual foi originado no ABC, reduto das multinacionais de carros.

Um país não pode ser considerado rico porque vende mais carros, mas deve ser visto como um lugar onde as pessoas morrem como moscas abatidas no trânsito. O feriadão matou menos, celebra o Jornal Nacional, em vez de 94 mortos, como no feriado da Independência, apenas 88 na folga de Aparecida. É a cara de pau, o cinismo, a indiferença dominando tudo. Como se pode dizer que é menos com números como esses? É fácil: basta colocar a culpa nos motoristas, irresponsáveis, alcoolizados etc. Todo o entorno do país em ruínas, que é a fonte das tragédias, não é levado em consideração.

Façam as contas: quanto o governo gasta com o Incra e dois ministérios, o da Agricultura e a do Meio Ambiente, para tudo virar uma favela e um tiroteio só? Peguem essa dinheirama e apliquem na reforma agrária. Façam assim ó: distribuam terras, criem infra-estrutura para dar apoio aos produtores rurais (essas coisas que se falam nas campanhas, saúde, educação,estradas etc.), estimulem a comercialização de comida, confisquem e reestatizem as terras griladas pelo latifúndio, regularizem a pequena posse e prendam os assaltantes que usam o álibi de pressionar os poderes para saquear as fazendas, tenham elas origem na grilagem ou não (isso é assunto da justiça, não da violência!).

Para isso, é preciso ética, correção, firmeza, caráter, preparo, conhecimento, poder de negociação dentro da lei etc. Tudo isso falta no ambiente político de hoje. A realidade é a manipulação dos índices para provar que cada um tem razão. Ninguém está com a razão. Estão todos errados e sabem disso. E não adianta aparelhar o debate que essa evidência não será erradicada assim de uma hora para outra. Não adianta vir de tucano-petismo disfarçado de papo democrático. Não há espaço para a democracia num regime de ditadura como o que vivemos. O que existe é desvirtuamento dos argumentos, diálogo de surdos e muita sacanagem.

RETORNO - Imagem desta edição: mapa das Capitanias Hereditárias, segundo Millor Fernandes, a única reforma agrária já feita no Brasil.

SAGARANA NÚMERO 37 HOMENAGEIA FERLINGHETTI

Mensagem de Julio Monteiro Martins, da Italia: "Cari amici e amiche, siamo lieti di annunciarvi che, a partire da oggi, potrete consultare il numero 37 della Rivista Sagarana. Questo numero è l’edizione speciale commemorativa del 9° anniversario della rivista, con un’intervista esclusiva per Sagarana del grande poeta statunitense Lawrence Ferlinghetti: a lui, ai suoi 90 anni appena compiuti, è dedicata questa edizione.

L’Editoriale di Julio Monteiro Martins, Il dilemma dell’artista, parla del perché sia importante l'esistenza di una rivista con le caratteristiche della Sagarana in Italia e dei dubbi presenti nel rapporto tra artisti e scrittori con il loro stesso processo creativo e con l’ombra dell’autocensura, ai giorni d'oggi.

Poi, oltre alla sezione I Cortometraggi, incentrata sulla video arte e sui linguaggi multimediali sperimentali, una Mostra Virtuale inedita, sui Migranti, di Guido Villa (Vercelli 1943): sono immagini di impatto, fonti di grandi emozioni.

La sezione Saggi oltre all’intervista con Ferlinghetti, realizzata dalla poetessa italo americana Pina Piccolo, propone una ricerca inedita del poeta statunitense Paul Polanski sulle “storie orali degli zingari rom”, e riflessioni di Jacques Le Goff, Primo Levi, Peppe Sini, Jorge Luis Borges e Nadia Urbinati.

In Narrativa ci sono racconti e brani di romanzi di Thomas Mann, Giuseppe Berto, Lucio Mastronardi, Gustave Flaubert, Marguerite Duras e W. G. Sebald, oltre a quelli di autori viventi come Nanni Balestrini, Lourenço Cazarré, Junot Diaz e Ascanio Celestino.

In Poesia, oltre a Ad alcuni piace la poesia, di Wieslawa Szymborska, ci sono poesie di Giorgio Gaber, un’inedita in Italia di Philip Lamantia e una di Bozidar Stanisic’. Nella sezione Gegner, le tre parti del Tacito soccorso all’ombra del Reich di Markus Mohr, e la sezione Nuovi libri presenta tra l’altro un brano tratto dal romanzo appena uscito, Tutto-mondo, di Édouard Glissant. A questo stesso indirizzo troverete anche gli aggiornamenti della sezione Il Direttore, con il racconto inedito Questione di sicurezza, di Julio Monteiro Martins.

Ci auguriamo che le immagini, i video, le testimonianze, le riflessioni, i saggi, i racconti e le poesie da noi selezionati possano offrirvi ore di piacevole lettura.
A partire da questo numero, sarà possibile fare donazioni alla Sagarana, con offerte libere, cliccando sulla casella Sostieni il Progetto Sagarana, sul sito della nostra rivista.

I più cari saluti
La redazione di Sagarana"

13 de outubro de 2009

TESTEMUNHAS


Nei Duclós (*)

Longevidade é compartilhar segredos. O maior deles é testemunhar a eterna repetição das coisas. A constatação corre o risco de ser confundida com a percepção cansada, que reitera o que está acostumada a ver. É um perigo real, mas o segredo extrapola esse limite óbvio. Tudo se repete de maneira tão corriqueira e insistente, que a opção do longevo é calar-se sobre isso para não despertar suspeitas. Vão achar que é caso de internação.

Basta folhear uma revista antiga ou ler um livro de memórias para sentir que a mesma coisa foi destaque no noticiário da manhã. Bobagem, dirão, e os computadores, as câmaras digitais, o anel gigantesco de Saturno? Tudo isso não existia anos atrás. É verdade. Mas o que se repete é a celebração das descobertas, o entusiasmo de que cruzamos a fronteira humana, que estamos palmilhando o futuro.

Descida na Lua há 40 anos não vale, está desmoralizada – é óbvio que tudo foi obra de Stanley Kubrick, pois não? Mas vamos pegar exemplos mais prosaicos. A eletrola hi-fi, por exemplo. Quando carregaram a gigantesca caixa de som que tomou conta da nossa sala e colocaram o bolachão explicativo sobre as maravilhas da alta fidelidade, jamais senti algo igual. A nitidez de sons independentes rebatia na minha caixa craniana como intensa revelação.

Outro exemplo é o bambolê. Quando surgiu, o feérico rebolar coletivo provava que estávamos em plena revolução do comportamento. Não era mais preciso ir à escola, assistir filmes, essas coisas obsoletas. Tudo se resumia a girar um aro de plástico ao som do rock and roll. Algo idêntico à entrega atual da meninada ao círculo fechado de tralhas mágicas, do Ipod ao celular fotográfico. O bambolê voltou à moda, mas não é essa a repetição. O que se reitera é o engajamento geral a uma nova mania, sempre sob o assombro de que estamos compartilhando um momento único.

Deus sabia que iríamos nos aborrecer com as rupturas sensacionais de paradigmas e aos poucos foi reduzindo a capacidade de viver, podando os conhecidos mil anos dos personagens bíblicos para a média dos 40 anos do século 17. Mas aos poucos fomos espichando esse tempo de viver e acabamos caindo na monotonia do déjà-vu. Viramos testemunhas glaciais do fogo fátuo de uma ilusão recorrente: a de que cada geração tem o privilégio de existir na era culminante da vida na terra.


RETORNO - 1. (*)Crônica publicada nesta terça-feira, dia 13 de outubro de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem desta edição: tirei daqui.

ENCOSTO


O espírito é um imã que atrai todo tipo de tralha. No ginásio, um colega sentava o meu lado para copiar tudo o que eu escrevia. Um dia, chegou ao auge de colocar na sua prova o meu nome. Fez isso automaticamente, não por má fé. Na vida literária, passei por todo tipo de encosto. Logo que lancei meu primeiro livro, um poeta emergente disse que, ao ler alguns versos, lhe deu vontade de me dar um tiro no olho (para me equiparar a Camões). Outro escritor, consagrado, publicou um livro inteiro no rastro de um personagem poético que criei. Não era citação, nem homenagem: era apropriação mesmo.

Quando, depois de vinte anos, alguém decidiu lançar um livro meu, fui abordado por outro escritor, conhecido, que me dizia estar também, que-nem-que, fazendo um lançamento na mesma editora. Ao participar de um evento coletivo, na hora em que fui chamado para falar, o mesmo autor se aprumou todo para tomar a palavra. Três anos mais tarde, repeti a dose e ele também. Lá estava o mesmo cara com outro livro, lançando junto, que-nem-que.

Encosto às vezes passa de pai para filho. O que era obsessão numa geração, vira doença na seguinte. Daqui a pouco, estarei lidando com os netos da mesma linhagem. Todos sendo o que precisam ser urgentemente, sem que eu possa fazer qualquer movimento. Quando assumi numa grande editora o estratégico papel de ajudar a decidir o que seria ou não publicado, choveram e-mails e telefonemas de algumas pessoas que não perdoaram a possibilidade de eu reemergir na vida literária. Parece mania de perseguição, mas “é a vida”, como dizem. O que me invoca é o resultado: o espaço que eu dispunha acaba sempre gorando.

Eu atraio e não sei me defender. Acabo sempre me enredando, porque o encosto diz que admira, mas no fundo tem aquilo que os maus chamam de “inveja boa”. Como se existisse esse tipo de coisa.

Nas redações, “chegar junto” era um tormento: sempre tinha alguém aspirando ao mesmo cargo, querendo fazer as mesmas matérias. “Papaste meu frila” era a acusação mais comum, pois eu acabava cobrindo, sem saber das intenções alheias, o que o jornalista autônomo sonhava em fazer. Mal-entendidos me perseguiram por toda a vida.

A toda hora sou convidado para participar de jogos com bolas quadradas. Queriam que eu fizesse parte do júri de um concurso literário e depois fui desconvidado, porque alguém reivindicou minha vaga. O pior é que era trabalho gratuito. Querem que eu participe de projetos estranhos, como dar três pulos em direção ao Alto Xingu e me atirar do Itaimbezinho sem para-quedas recitando os versos de notório poeta Quem?, que, como todos sabem, tem uma importância transcendental para a poesia brasileira e por isso eu devo pagar o mico, já que sou uma espécie de extra-terrestre da literatura, notório sem ser famoso e veterano ainda em busca de oportunidades.

Um dia fui a uma sessão kardecista de limpeza de aura e a pessoa que me atendeu ficou impactada. Disse que eu era um médium com grande força e precisava me cuidar, pois atraía toda espécie de encosto. Nunca dei muita bola. Mas fui resistindo, recuando, até chegar aqui no Diário da Fonte, onde de vez em quando alguém tenta provar que sou esse troço falso que todos conhecem. Isso que inventei esse espaço exatamente para ninguém vir me incomodar. Se quiser comentar, debater, maravilha. Mas se quiser se fazer de engraçadinho, me peitar, encher o saco, aparelhar os comentários, já sabe: queimei os navios.

Encosto, fora. Pelo menos nesse aspecto preciso ser livre.

RETORNO - Imagem de hoje: cena de Paths of Glory, de Stanley Kubrick. Os soldados encolhidos na guerra, sob o peso de todos os encostos.

NOVO TESTAMENTO


Nei Duclós

Se Deus fosse um pesadelo
a chance de acordar seria o tempo
e o gosto de dormir a nossa igreja

Ninguém poderia combatê-lo
a não ser o sonhador e sua teia
cercando a neve em incêndio

Abraçado ao luar, viria o peixe
nesse ataque feito de surpresa
e pássaros voando sobre o gelo

Mas despertar não seria Deus exposto
em carnes penduradas pelo susto
ou asas condenadas à frieza

O levante se faria em outro plano
com o avanço da manhã de seda
desabando os materiais do sonho

Deus assim mostraria um novo rosto
aberto como alguém que vem de longe
oculto para não perder o fôlego

RETORNO - 1. Poema do meu livro "No mar, veremos" (Editora Globo, 2001). 2. Imagem desta edição: obra de Boticelli.

11 de outubro de 2009

MUSEU DE CERA


Nei Duclós

O ódio usa o amor
O bruto emprega a gentileza
Crime em nome da justiça
O medo sorri e cumprimenta

Por isso o império da aparência
Sob o álibi da correção suprema
A essência presa num espelho
Maquiada para cumprir pena

As palavras se perdem na poeira
O leão deixa rastro de cordeiro
nos desertos do eterno presente

É a solidão cevada neste tempo
de sonhos virados pelo avesso
Somos restos de um museu de cera

10 de outubro de 2009

OS GAFANHOTOS MENTAIS


Nei Duclós (*)

Vivemos a era dos gafanhotos mentais. Nada medra sob o império dessas criaturas. Estão por toda parte, na faina perene de desbastar suas vítimas: na política, na educação, na mídia, no ambiente de trabalho, nos produtos culturais, nos apelos. O pior de tudo é que são mutantes. Eles se transformam, usam caras novas, adquirem outros hábitos, disfarçam a voz e podem até fazer favores, para não nos assustar, ou ficar do nosso lado, sintonizados com nossas críticas. Quem poderia identificá-los se são, por natureza, inocentes?

A praga ajuda a condenar os políticos para substituí-los. Se a colheita sofre a voragem de determinado grupo, a oposição toma conta dos canais da indignação para criar a ilusão de que “tudo isso que aí está” vai sumir, desde que assuma o poder. Mas não é só na política que o fenômeno se alastra. Ele não se limita aos cargos eletivos ou comissionados, mas pode estar à espera numa emergência, por exemplo.

A indiferença é moeda corrente em lugares onde as pessoas urram de dor e sentem que o futuro imediato de suas vidas é a temida fase terminal. Assim, a esperança de cidadania quebra a cara num momento culminante, que seria o último reduto dos direitos, já que na vida normal ela simplesmente não existe. Você também não pode exibir desespero diante dos infalíveis responsáveis pelo seu destino, pois terá sua sanidade mental colocada em observação.

Como o bom boi não berra, como diz o antigo ditado popular, vemos que nossa vida animal aos poucos se transforma em vegetal. Levantamos nossas pétalas para o alto, já que a fé é o único passaporte para as soluções mais simples, apartados que estamos de providências terrenas com um mínimo de eficiência. Vergamos nossas hastes por qualquer brisa. Sabemos que a tentativa de manter o prumo será punida com a quebra de toda a resistência. Confiamos ainda nas raízes, mas estas estão sendo desmoralizadas.

Há sinais evidentes de que os gafanhotos mentais estão comendo a semente outrora generosa da nacionalidade. O Brasil é hoje um mosaico de etnias e regionalismos e o brasileiro o mais vil dos habitantes sobre a terra. Qualquer evento promovido pelos ideólogos que tomaram o poder nos últimos vinte anos enriquece o acervo de desprezo ao Brasil, terra de onde todos querem escapar. Não se costuma identificar a tragédia como sendo obra dos gafanhotos mentais, que desde cedo determinam aos rebentos as provas irrefutáveis dessa mentira chamada grandeza do Brasil.

Como não há motivos para a autoestima, confundida, de propósito, com ufanismo, então a solução é sair aprontando. As transgressões violentas se manifestam antes da puberdade. Motivos sobram para atacar tudo o que for identificado com a nação, desde o adulto mais próximo até o professor. E até mesmo afastar o governante honesto que conseguiu romper a barreira do crime organizado em que se transformou parte do sistema responsável pelos rumos da nação, como não cansam de denunciar o Ministério Público, a imprensa e inúmeras testemunhas.

Na cultura, a barbárie come solta por meio do plágio, do crédito falso atribuído a autores notórios, da imposição de nomes recorrentes nas premiações. Medra no rodízio carimbado em instituições e fóruns, nos debates onde o objetivo é atingir a região abaixo da cintura, nos comentários preguiçosos, nos blogs oportunistas, nos editoriais vendidos, nas reportagens corporativas.

Mas o ruído, a cacofonia invasiva, é a principal arma dos gafanhotos mentais. Com sua algaravia, eles são capazes de interromper todos os pensamentos, deixando assim espaço livre para a penetração surda das vontades geradas pelo espírito de porco. E se você pedir que abaixem o som, eles aumentam. Se sugerir que não usem a serra elétrica às duas da manhã, argumentam que podem muito bem usá-la às três, qual horário você prefere? Se demonstrar alguma impaciência diante do buzinaço, receberá em troca o gesto obsceno, quando não a cusparada e até mesmo o tiro.

Os gafanhotos mentais, quando veem o resultado de sua obra, o imaginário doentio da terra arrasada, partem para a ignorância. Sempre haverá carne nova para alimentar os torpes torturadores desta época de provações.

RETORNO - (*) Crônica publicada neste fim-de-semana na revista Donna DC, do Diário Catarinense. A ilustração, publicada originalmente na revista impressa, é de Lucas Neumann. Trabalho magnífico: notem o formato dos pedaços de folha carregados e devorados pelos gafanhotos - todos são mapas, ou do Brasil, ou de alguns estados brasileiros. Na página inteira que a crônica ocupa no jornal impresso, os vários momentos da ilustração ocupam as margens, com destaque, deixando essa referência ainda mais explícita. Muita técnica e muito talento. Parabéns ao Lucas!

BROMÉLIAS


Nei Duclós

Somos como as estrelas
a única luz nesta noite preta
O amor que você produz me tenta
o corpo cai em confusões de renda

Somos como a lua em linha reta
subindo por um céu que não aceita
Ela quer vir até nós e ninguém deixa
Sua esperança é a carona de um cometa

O poeta não dorme enquanto houver mistério
Compartilhamos o susto de uma esfera
que rola infinita pelo tempo
mas quer mesmo é estar perto da fogueira

Pousa sobre nós o sopro de um segredo
Se estamos tão sós por que não venta?
Se não há tempestade existirão os duendes
a tramar nosso tombo entre bromélias

Embalados de natureza adormecemos
O escuro, exausto de nos pregar peças,
temeroso espia o sol que se apresenta
e foge para inventar mais sortilégio

Somos o amanhecer de olhos tontos
entrevemos um oceano de serenos
Ainda dormimos quando despertamos
numa nuvem de sono e realejo

RETORNO - 1. De volta a este poema, do meu livro inédito. 2. Imagem desta edição: Orquidário do Vigia do Mar, no Muquém, foto de Ida Duclós.

8 de outubro de 2009

SOMOS UM PAÍS DE ESCRAVOS


Qual a relação entre o mega-empreendimento Cutrale, as fazendas coloniais de cana-de-açúcar, a invasão do MST e as empregadas uniformizadas nas novelas sendo escorraçadas pelas patroas em todas as cenas? A sintonia entre esses fatos é a escravidão, que é a medida de todas as coisas no Brasil, segundo a clássica tese de Joaquim Nabuco em O Abolicionismo, lançado em 1884. Ele previu que, pela demora da emancipação, o servilismo se tornaria endêmico e duraria um século.

Nabuco acertou em cheio. Quando vemos a Cutrale, segundo denúncias, grilando terras públicas para fazer um megaprojeto de produção de suco de laranja, movido a agrotóxico, vemos aí o velho senhor de escravos que se assenhorava do território nacional para plantar cana movido pela força dos negros. E quando vemos a bandidagem de uma porção do MST destruindo sete mil pés de laranja, e, segundo denúncias, roubando óleo diesel, dilapidando a fazenda e saindo dando adeusinho, vemos a insurgência da escravatura manipulada por verba federal e internacional – grandes somas são repassadas pela ONG alemã Via Campesina. No fundo, é o velho quilombo (onde também existiam senhores de escravos) contra o latifúndio. E a negra na cozinha, de uniforme de doméstica, sendo amiguinha da patroa ou sendo expulsa da sala, é uma reiteração desses papéis sociais que jamais cedem.

Quando Nabuco escreveu seu libelo a favor da libertação imediata de uma massa de um milhão e meio de pessoas ainda sob o jugo da escravidão, tudo já estava contaminado numa sociedade que por 300 anos, até aquela época, funcionava a partir da posse das pessoas para o trabalho forçado. Posse ilegal desde a lei de 1831, que se tornou letra morta e fora firmada segundo normas de um acordo internacional, que proibia transportar estrangeiros e mantê-los na soga.

Na época em que Nabuco escreveu seu livro brilhante, quando amargava uma derrota eleitoral vivendo algum tempo em Londres, estava em vigor a chamada Lei do Ventre Livre, de 1871. Sempre aprendi que a partir dessa data toda pessoa nascida em senzala estava automaticamente livre. Mas não é verdade, como reaprendemos em Nabuco. O ingênuo, como se chamava, deveria permanecer escravo até os 21 anos. Sabemos como funciona, no Senado brasileiro, as emendas. A Lei do Ventre Livre assim adiava a situação por mais de uma geração, pois as crianças nascidas depois de 1871, tanto do lado dos senhores como a dos escravos, continuariam vivendo num país de escravos até a idade adulta. Isso repercutiria pelo tempo afora, como de fato aconteceu.

Somos ainda um país de escravos. Faça um balanço da sua vida profissional. Você se sente livre? Eu nunca me senti, por um motivo óbvio: estive atrelado ao patronato por décadas e por mais que tenha publicado textos que considero importantes, nunca tinha, até este século, me sentido realmente à vontade para dizer o que penso e sinto com todas as letras, como faço aqui (a não ser, claro, na literatura, onde publiquei o quem bem entendi). Na vida profissional, havia sempre uma fisga, uma parede, uma barreira. Por um lado é bom pois evita que você, destrambelhado, acabe escrevendo besteiras. Mas de outro acaba te acostumando à canga e assim vamos envelhecendo, enquanto tempo desperdiçado se acumula atrás da porta.

Não se trata daquela velha liberdade cevada em ambientes escravizados, quando imaginamos que o negócio é sair por aí feito louco sendo livre. Mas a liberdade num mundo civilizado, em que é possível cumprir destinos, seguir vocações, ter uma vida adulta responsável e prazerosa, sem que tenha um feitor em cada canto sacudindo o dedinho e dizendo que as coisas não são bem por aí. Sim, uma liberdade compartilhada numa sociedade livre, com leis que funcionem, desenvolvida e com uma dose mínima de felicidade. Não a alegria do corpo pelado exposto em praça público e sorriso profissional. Mas a legítima felicidade de realizar alguma coisa que preste e viver segundo normas de solidariedade, respeito e grandeza.

Somos um país de escravos. Até quando, mestre Joaquim Nabuco?

RETORNO - Imagem de hoje: Priscila Marinho, de costas, uniformizada, com Christiane Torloni dando gritinhos em Caminho da ìndias: a endêmica luta de classes amortizada no imaginário pela comédia.

7 de outubro de 2009

“A RECUPERAÇÃO ECONÔMICA É UMA ILUSÃO “


Você sabia que todos os bancos centrais participam de uma instituição financeira que age em sigilo? Enquanto Istambul ferve com o confronto entre manifestantes e autoridades financeiras internacionais, é bom se informar sobre o que pega na economia mundial, longe do rema-rema da imprensa nativa. Você pode achar caluniosa a crítica à falsa recuperação, mas é certo que há uma atitude criminosa da mídia e do governo gerando esperanças enquanto o perigo continua crescendo. Leia o artigo "A Recuperação Econômica é Uma Ilusão", de Andrew Gavin Marshall na integra, no original, ou siga alguns trechos traduzidos e adaptados (para melhor compreensão) com exclusividade pela equipe do Diário da Fonte. Lá vai:

O Banco de Compensações Internacionais (BIS) alerta para as futuras crises (artigo de Andrew Gavin Marshall)

(Atenção: o texto a seguir é de Marshall): À luz do sempre presente e persistente anúncio de "um fim" à recessão, uma "solução" para a crise, e uma "recuperação" da economia, é preciso lembrar que isso está sendo dito pelas mesmas pessoas e instituições que nos disseram, nos últimos anos, que não havia "nada para se preocupar ', que' os fundamentos são bons", e que não havia "perigo" de uma crise econômica.

Por que continuamos a acreditar neles? Ou devemos pedir informações mais precisas para análise? Talvez uma fonte útil seria os que estão no epicentro da crise, no coração do mundo sombrio dos bancos centrais, no regulador bancário global, numa das "instituições financeiras de maior prestígio no mundo", que previu acertadamente sobre a crise até agora : O Banco de Compensações Internacionais (BIS). Este seria um bom lugar para começar.

A crise econômica está sendo tratada por "soluções" semelhantes a colocar um band-aid sobre um braço amputado. O Banco de Compensações Internacionais (BIS), o banco central dos bancos centrais do mundo, alertou e continua a alertar contra tais esperanças equivocadas. Membros dos bancos centrais têm reuniões bi-mensais para discutir uma variedade de questões, com o máximo sigilo.

O BIS foi criado "para corrigir a queda de Londres como centro financeiro internacional, fornecendo um mecanismo pelo qual os três principais centros financeiros, Londres, Nova York, Paris poderiam funcionar como um só." Foi fundado pelos bancos centrais da Bélgica, França, Alemanha, Itália, Holanda, Japão e Reino Unido, juntamente com três grandes bancos comerciais dos Estados Unidos, incluindo a JP Morgan & Company, First National Bank de Nova York e First National Bank of Chicago. O BIS, é, sem dúvida, a mais importante instituição, poderosa e secreta financeira no mundo.

Em setembro de 2009, o BIS informou que, "o mercado mundial de derivados subiram para 426 trilhões de dólares no segundo trimestre, mas o sistema continua instável e propenso a crises." O relatório trimestral da instituição disse que os derivados subiram 16% "principalmente devido a um surto de contratos de futuros e opções sobre taxas de juros a três meses." O economista-chefe do BIS advertiu que o mercado de derivados representa "grandes riscos sistêmicos" no setor financeiro internacional, e que, "O perigo é que reguladores voltarão a deixar de ver que as instituições têm tido grande exposição muito mais do que podem segurar em condições de choque.

Um dia depois que o relatório do BIS foi publicado, o ex-economista-chefe da instituição, William White, advertiu que os problemas não foram abordados de maneira correta no centro da crise econômica e é provável que podemos mergulhar de novo numa recessão". E ele ainda alertou “que as ações do governo para ajudar a economia a curto prazo podem estar semeando as futuras crises."

Um artigo no Financial Times explica que as observações de White são para ser levadas a sério, pois além da posição do Departamento Econômico do BIS 1995-2008, ele alertara sobre os desequilíbrios perigosos no sistema financeiro mundial já em 2003 - quebrando um tabu nos círculos grandes bancos centrais. Ao mesmo tempo, ousou desafiar Alan Greenspan, então presidente da Reserva Federal, sobre a sua política de dinheiro barato persistente.

O Financial Times continuou: “Em todo o mundo, os bancos centrais injetaram milhares de bilhões de dólares de novos fundos no sistema financeiro nos últimos dois anos, em um esforço para evitar uma depressão. Enquanto isso, os governos têm ido aos extremos semelhantes, com vastas somas de dívida para sustentar a indústria de operação bancária”. White advertiu que, "essas medidas podem já estar inflando uma bolha nos preços dos ativos, de ações de commodities", e que, "houve um pequeno risco de que a inflação pudesse sair do controle a médio prazo."

O mercado de derivados representa uma enorme ameaça à estabilidade da economia global. No entanto, é uma entre muitas ameaças, as quais estão relacionadas e interligadas; uma vai detonar a outra. O grande elefante na sala é a bolha financeira criada a partir de salvamentos e de "estímulo" dos pacotes de todo o mundo. Esse dinheiro tem sido utilizado por grandes bancos para consolidar a economia, comprando pequenos bancos e absorvendo a economia real. O dinheiro também tem ido para a especulação, alimentando a bolha de derivativos e levando a uma subida dos mercados bolsistas, uma ocorrência totalmente ilusória. Os resgates têm alimentado a bolha de derivativos para novos níveis perigosos, bem como inflacionado o mercado de ações para uma situação insustentável.

A crise econômica foi resultado de baixas taxas de juro e do dinheiro fácil: empréstimos de alto risco estavam sendo feitas, o dinheiro foi investido em tudo e qualquer coisa, o mercado imobiliário inflacionado, o mercado imobiliário comercial inflado, derivados do comércio subiram a centenas de trilhões por ano, correu a especulação desenfreada e dominou o sistema financeiro global.

Ao mesmo tempo, os governos gastaram dinheiro vagamente, especificamente os Estados Unidos, pagando por várias guerras trilhões de dólares e os orçamentos de defesa, imprimindo dinheiro fora do ar, cortesia do sistema bancário mundial central.
Como se esse endividamento não foi suficiente, considerando que seria impossível para pagar, nos últimos dois anos tem havido a expansão da dívida mais rápida jamais vista na história do mundo - na forma de estímulo e de pacotes de resgate.

Os avisos do Banco de Compensações Internacionais (BIS) e seu ex-economista-chefe, William White, devem ser levados a sério. Não se deve permitir que os meios de comunicação difundam a esperança de "recuperação econômica" e marginalizem "a realidade econômica." Embora possa ser deprimente a reconhecer, é uma coisa muito maior de estar conscientes do solo sobre o qual você pisar, mesmo se for semeada de perigos, do que ser ignorante e imprudente e correr por um campo minado. A ignorância não é felicidade.

Um médico deve primeiro identificar e diagnosticar corretamente o problema antes que ele possa oferecer qualquer tipo de prescrição como uma solução. Se o diagnóstico é impreciso, a prescrição não vai funcionar, e poderia, de fato, tornar as coisas piores. A economia global tem um câncer gigantesco: ela foi diagnosticada corretamente por alguns, mas a receita foi para curar uma tosse.

Como Gandhi (foto) disse: "Não há deus maior do que a verdade."

6 de outubro de 2009

NA MORAL


Nei Duclós (*)

No início de um confronto, a força é de quem tem a moral, que é a soma de normas ditadas pelos costumes, a educação e a tradição. E de quem diz agir conforme a ética, o modo considerado correto de se comportar. Isso é uma vantagem, pois ajuda a formar alianças e a fazer mobilizações bem sucedidas, isolando o oponente que, em tese, não possui o mesmo cacife de princípios universalmente aceitos. Mas tudo se dilui quando, por falta de diálogo, cada lado da luta decide que está com a razão. A briga então se generaliza e a força passa a ser de quem tem mais poder de fogo e define a melhor estratégia.

A escolha de "outros meios" de fazer política, como escreveu Clausewitz no seu livro clássico, "Da Guerra", acaba jogando no ralo os motivos que impulsionaram o engajamento. No momento em que o soldado entra no território conflagrado, acaba sua liberdade. Há tempos que o mundo entrou nessa zona nebulosa de carnificina, apesar dos acordos de paz. Sem falar nos exemplos óbvios, do Afeganistão à Guiné-Conacri, temos a difusão extrema dos conflitos no seu grau mais intenso ao nosso redor.

O espaço da conversa diminuiu e o que se vê é o tiroteio e o poder crescente das facções, enquanto a cidadania desarmada foge das balas perdidas. Já saiu da reta o conjunto de explicações para tanto crime. Perdeu a força falar em problema social. O que temos é perversidade pura e simples, em todos os nichos, marginais ou oficiais. Os corpos dos adversários políticos fuzilados amontoam-se junto com as vítimas de assassinatos comuns. A violência em todo o tecido social destruiu a sólida argumentação a favor da moral e da ética. Populares aplaudem execuções na calçada enquanto criminosos notórios sorriem em frente às câmeras. A corrupção corrói o sistema, alimentando a brutalidade geral.

No desequilíbrio internacional, reflexo ou consequência desse front interno, a verdade, que deveria fazer o papel de algoz, acaba como vítima. Não fazer concessão aos opositores, que enfeixariam todos os males da falta de razão, contamina o espectro legal das nações. A base das posições, que pode ser chamada de ideologia ou civilização, se esgarça junto com o tiroteio. Hoje, a moral não tem mais a mesma serventia, a não ser para insuflar discursos vazios que perderam a batalha para o chumbo, a lâmina, o míssil, a pólvora.

RETORNO - Crônica publicada neta terça-feira, dia 6 de outubro de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

ROMA, URGENTE: SEMINÁRIO DE LITERATURA BRASILEIRA

Julio Monteiro Martins, o mais importante escritor brasileiro em atividade no Exterior, me envia a seguinte mensagem: "Caro amigo Nei. Te mando um belo projeto relativo ao Brasil, que eu organizei a pedido da Embaixada do Brasil em Roma, e que inicia na próxima semana. É o maior e o mais completo sobre o assunto já realizado no exterior. Acho que o pessoal no Brasil que trabalha com lit. brasileira gostaria de conhecê-lo, não é? Um abraço,Julio."

SEMINARIO: STORIA DELLA LETTERATURA BRASILIANA

Roma, 15 ottobre - 1 dicembre 2009 - Ambasciata del Brasile

Tutti gli incontri del Seminario avranno luogo dalle ore 18:00 alle ore 20:00, nell’Auditorium del Centro Culturale Brasile-Italia – Piazza Navona, 18.

Gli incontri si svolgeranno sempre in italiano.

Il coordinamento del Seminario è a cura del Professor Julio César Monteiro Martins (Università di Pisa) e del Settore Culturale dell’Ambasciata del Brasile.

L’ingresso è libero.

PROGRAMMA

1° Incontro: Giovedì 15 ottobre 2009
Lo spirito e il contributo originale della letteratura brasiliana
(Professor Julio César Monteiro Martins, Università di Pisa)
Seguirà cocktail.

2° Incontro: Venerdì 23 ottobre 2009
La letteratura brasiliana come letteratura della complessità
(Professor Silvano Peloso – Università degli Studi di Roma «La Sapienza»)

3° Incontro: Martedì 27 ottobre 2009
Romanticismo e identità nazionale
(Professoressa Sonia Netto Salomão - Università degli Studi di Roma «La Sapienza»)

4° Incontro: Venerdì 30 ottobre 2009
Machado de Assis: la maturità del romanzo e l’“istinto” della nazionalità
(Professor Roberto Mulinacci – Università degli Studi di Bologna)

5° Incontro: Lunedì 2 novembre 2009
Città, Sertão, Amazzonia agli albori del XX secolo. Lima Barreto, Euclides da Cunha e la costruzione di una poetica dello spazio brasiliano
(Professor Aniello Angelo Avella – Università degli Studi di Roma Tor-Vergata)
Nel corso della conferenza sarà proiettato il film "A Paz é Dourada", di Noilton Nunes (anteprima europea, 80’)

6° Incontro: Venerdì 6 novembre 2009
Modernismi e manifesti letterari: nuove cartografie della nazione
(Professor Giorgio De Marchis – Università degli Studi di Roma Tre)

7° Incontro: Venerdì 13 novembre 2009
Altri modernismi: nazionalismo e regionalismo nella stabilizzazione della coscienza creatrice brasiliana
(Professor Roberto Vecchi – Università degli Studi di Bologna)

8° Incontro: Martedì 17 novembre 2009
Poetiche del Novecento e modernità in transito: Bandeira e Drummond
(Professoressa Giulia Lanciani – Università degli Studi di Roma Tre)

9° Incontro: Venerdì 20 novembre 2009
Pós-tudo. Modernità radicale e narrative: João Guimarães Rosa e Clarice Lispector
(Professor Ettore Finazzi-Agrò – Università degli Studi di Roma «La Sapienza»)

10° Incontro: Venerdì 27 novembre 2009
Utopia, resistenza, diaspora (1960-1990)
(Professor Giovanni Ricciardi – Università degli Studi di Napoli)

11° Incontro: Martedì 1 dicembre 2009
La letteratura del XXI Secolo. Il nuovo realismo urbano di Cidade de Deus, i nuovi narratori, gli scrittori emergenti
(Dottoressa Silvia Marianecci, traduttrice)

EVOCAÇÃO DO CANTO


Nei Duclós

Cansei do twitter, do blog, do e-mail
Cansei do site, profile, up-grade
Cansei do notes, do router, do browse
Cansei do spam, dos groups, dos bites
Cansei do post, dos links, mensagens

Cansei da tela, do arquivo, do mouse
Cansei da rede, do micro, teclado
Cansei da velha e falsa amizade
Que se esfarela nas comunidades
no facebook, no orkut, em bobagens

Quero de volta o mar, devorado pelo inverno
Quero de volta a praia sem a tensão pré-sal
Quero de volta o cinema no verão
Quero a praça, o refrão, a gargalhada
Quero o som visual de todas as aves

Quero a natureza refeita do susto
A flor passageira e turva do cerrado
Terra sem veneno, semente frágil
Quero rios de águas livres e lisas
Caindo, véu da noiva, sobre abismos

Quero te ver outra vez, minha miragem
Com a chance do tempo e sua vontade
Quero acenar do convés, sopro de brasas
Sofreguidão incerta, surpresa de escarpas
Quero me encantar de novo, musa, quimera

Descerra essa violação, afasta essa solidão
Venha me encontrar na última carruagem
Pegue o trem, pilote o avião, pouse em Marte
Retorne com as palavras perdidas no porão
Venha, rouxinol, cante que é tarde

RETORNO - Imagem desta edição: foto de Juliana Duclós.

5 de outubro de 2009

CONCEITOS GRANÍTICOS VEICULADOS PELA TV


São eles:

DEMOCRACIA - É um sistema outorgado pelo Alexandre Garcia para o telespectador. Ele cobra bom comportamento democrático, sob pena de cassar a licença. Para isso conta com sua função de porta-voz da ditadura.

NOTÍCIA – É tudo aquilo anunciado pelo William Bonner e confirmado pela Fátima Bernardes. O resto dos telejornais apenas repercute.

ECONOMIA - É um livro de ficção, lançado em fascículos, pela Miriam Leitão. Quem compra ganha mais imposto, crise financeira, lucros dos banqueiros e créditos podres.

ANÁLISE – É tudo aquilo que é sustentado pelo olhar grave do William Waack. Sem esse olhar mortal, não há análise.

ENTRETENIMENTO – É o mico que as famílias pobres pagam para serem torturadas pelo sorriso adunco do Luciano Hook

ANCORAGEM – É o tempo que o telespectador é obrigado a aturar enquanto a Sandra Anneberg espicha as sílabas no cumprimento fanho do telejornal: Boa tardinhêêêê, que ela sustenta por vários minutos para ficar mais tempo no ar.

AMOR - É o conjunto de pessoas peladas trepando sem parar, sem olhar a quem, em frente as câmaras em todos os horários.

VIOLÊNCIA - É tudo o que acontece de ruim para as pessoas ricas e tudo o que é bem feito para as pobres que não sabem se cuidar e vivem marcando touca.

BONS SENTIMENTOS - É a forma de sonegar impostos inoculando no público o complexo de culpa por viver num país em ruínas e exigindo depósitos por telefone.

DIREITOS HUMANOS – É o poder que as pessoas negras uniformizadas de doméstica tem de serem expulsas aos gritos de vai vai vai pelas protagonistas de todas as novelas.

REPORTAGEM - É o momento em que o repórter prova alguma coisa e diz, embevecido para as câmaras: “Hummm, está muito bom”.

ESPORTE – É a histeria feminina diante dos paus de perna de todas as modalidades.

MULHER - É o paradigma de todas as coisas e ao seu redor gravitam cornos mansos, pederastas circenses, velhos ridículos, crianças metidas, adolescentes tardios, jovens cretinos e necessidades básicas em geral, como dar para o personal trainer enquanto o marido atura os petizes aos berros.

SONHO – É tudo aquilo que o telespectador é obrigado a comprar com o cartão de crédito, que cobra juros extorsivos embutidos no entusiasmo dos anúncios.

CIDADÃO - É o babaca que nunca sai do sofá porque a televisão exige que ele jamais saia dali porque o casal de apresentadores vai voltar rapidinho.

RETORNO - Imagem desta edição: Luciano Huck.

4 de outubro de 2009

GRACIAS A MERCEDES, QUE NOS HA DADO TANTO



Mercedes Sosa é o melhor da Argentina, essa porção do país vizinho que nos deslumbra, da música ao cinema, da luta democrática à capacidade de auto-superação. Nascida e criada na Argentina profunda, em Tucuman, atraiu grandes artistas e intelectuais e interpretou o fino das canções do continente, de Violeta Parra a Chico Buarque. Como todo artista, engajou-se na política, transformando-se num símbolo de resistência contra a invasão americana e a busca de uma identidade comum na América latina.

Seu grande sucesso, de autoria da chilena Violeta Parra, é uma canção de amor, que fala “no homem que eu amo, na voz tão terna do meu bem amado, na rota da alma do que estou amando, o fundo dos teus olhos claros”. O amor como representação do canto comum, coletivo: “O canto de vocês é o mesmo canto/ e o canto de todos que é o meu próprio canto”. È o talento, o amor (trágico em Violeta Parra, que acabou se suicidando depois de uma desilusão amorosa) unidos na sua voz magnífica, capaz de fazer chorar as pedras, que une Mercedes à eternidade. Não é a política, por mais que a usem como símbolo, por mais que ela mesma tenha se instaurado como porta-voz da insubmissão.

Sabemos no que resultou o movimento cultural e político da Nuestra América: meia dúzia de estadistas toscos invadindo embaixadas, comprando mísseis, governando para os banqueiros, vingando passados longínquos, atraindo ditadores de outros continentes. Esse acervo não faz parte da grande Mercedes, que nos deixa aos 74 anos depois de longa vida dedicada à arte. Voz de contralto, diziam. Voz vinda do talento, esse mistério da sabedoria.

Em Uruguaiana, fui criado, entre outros gêneros, pela música folclórica argentina, especialmente o chamame. Faz parte da nossa formação ouvir os argentinos, que em algumas coisas fazem jus à sua auto-estima excessiva. Mercedes transcendeu, superou-se e nos legou uma herança maravilhosa, que nos acompanhará sempre.

GRACIAS A LA VIDA

Violeta Parra

“Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me dio dos luceros que cuando los abro
perfecto distingo lo negro del blanco
y en el alto cielo su fondo estrellado
y en las multitudes el hombre que yo amo.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
me ha dado el oido que en todo su ancho
graba noche y dia grillos y canarios
martillos, turbinas, ladridos, chubascos
y la voz tan tierna de mi bien amado.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado el sonido y el abedecedario
con él las palabras que pienso y declaro
madre amigo hermano y luz alumbrando,
la ruta del alma del que estoy amando.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado la marcha de mis pies cansados
con ellos anduve ciudades y charcos,
playas y desiertos montañas y llanos
y la casa tuya, tu calle y tu patio.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me dio el corazón que agita su marco
cuando miro el fruto del cerebro humano,
cuando miro el bueno tan lejos del malo,
cuando miro el fondo de tus ojos claros.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado la risa y me ha dado el llanto,
asi yo distingo dicha de quebranto
los dos materiales que forman mi canto
y el canto de ustedes que es el mismo canto
y el canto de todos que es mi propio canto.

Gracias a la Vida
Gracias a la Vida
Gracias a la Vida
Gracias a la Vida"

SALINHA DE SHOPPING É ERGÁSTULO DE ESCRAVO


Um segurança negro foi com a família num mega-supermercado e ficou no estacionamento cuidando da sua neném enquanto a mulher e filhos faziam compras. Tinha acabado de adquirir seu EcoSport de IPI reduzido e em infinitas prestações. Desconfiado de uns motoqueiros, saiu do carro para ver o que acontecia. Imediatamente foi rodeado pelos seguranças, certos de que o negro não teria cacife e fatalmente estaria roubando o carro. Surrado, humilhado, quase morreu, mas conseguiu convencer os algozes de que era um homem sério e honesto. Foi salvo quando voltou ao estacionamento e lá estava a família toda, esperando, preocupada, pois a neném continuava dentro, dormindo, sozinha.

Vimos isso a toda hora, virou moda. Um vendedor que estava dentro de um shopping não teve a mesma sorte e foi assassinado pelos seguranças. Onde? No ergástulo do shopping. Aprendi a palavra ergástulo em O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco, livro fundamental do Brasil lançado nos anos 80 do século 19. Eram prisões onde se colocavam os escravos. Hoje, a democratização da tortura colocou os ergástulos nas famigeradas salinhas dos shopping centers, onde os suspeitos são torturados e mortos, e depois jogados fora em carrinhos de supermercado e embrulhados em sacos de lixo.

Os seguranças dos shoppings são a encarnação dos feitores antigos e estão ali colocados exatamente para erradicar as ameaças da escravaria naquele tipo de estabelecimento, que, sob todos os aspectos, representa a ostentação da Casa Grande das velhas fazendas coloniais. Não é de admirar que aconteça isso. Primeiro, porque os shopping do Brasil, pelo menos os mais notórios e pioneiros, foram implantados pelos neo-coronéis de uma família nordestina (poderia ser de São Paulo, onde a escravidão pegou fundo, ou de Minas, ou de qualquer lugar do Brasil). Eles adaptaram uma idéia americana e trouxeram dos engenhos seculares toda a concepção da sociedade de colonial de classes, com um centro irradiador e poderoso (a mega-loja, ou o mega-supermercado) e seu entorno (as boutiques de luxo, o fast-food, o lazer supercaro).

Para que desse certo, era preciso que a situação brasileira se mantivesse intacta na sua divisão entre a superconcentração de renda e a escravidão. Nabuco prova em seu livro que a escravidão “enerva” toda a sociedade, ou seja, é o imã que une (ou desune) todos numa só nação. Ser proprietário do alheio é o que pega em todas as atividades, nichos e classes. O que dizem os bandidos no assalto? “Onde está o MEU dinheiro?” Ou seja, eles são proprietários do dinheiro dos outros, basta que se lembrem disso. Na política, sabemos do que se trata. Como a sociedade assim contaminada pela escravidão continua marcando passo, é preciso que se cerquem de muros e guardas os lugares das compras, pois na rua é um perigo.

Todas as ameaças existentes numa sociedade que confina a maior parte da população aos ferros e ao açoite se debruçam sobre o shopping center, que atrai a cobiça de quem nada tem, ou quer ter mais, ou simplesmente gosta de exercer seu ofício de ladrão. Os seguranças servem para colocar todo mundo nos eixos. Por meio do terror, obrigam a massa a se comportar e a consumir sem tugir nem mugir (de preferência, que sejam todos brancos). Os donos das lojas, que pagam fortunas para os maganos tubarões dos shoppings, também precisam desse serviço, senão acham que serão destruídos pela escravaria enfurecida (era o mesmo argumento dos velhos senhores que não queriam o fim da escravidão). E quem for identificado como ameaça, dança. É a lei do cão.

Mas tudo isso é aparência, claro. Sabemos que a modernidade chegou ao Brasil e ninguém deve ser tão pessimista. E que o privilégio ampliou seu espectro. Hoje, um segurança pode comprar um EcoSport. Isso é sinal que o atual governo inclui as massas desfavorecidas na sociedade de classes. Não é uma contradição? No lugar de eliminar as diferenças, o governo inclui mais gente no sistema de privilégios. Em conseqüência a repressão, como nos prova os shoppings, continua intacta.

Qual a solução? Distribuir renda e não aprofundar o endividamento das classes menos favorecidas. Em O Abolicionismo, Nabuco nos fala de uma lei de “apoio à lavoura” de 1875 que transformava a propriedade escrava em papéis especulativos (letras) para circularem na Europa. Idêntico aos famosos créditos podres que provocou a atual crise financeira. Ah, esqueci. A crise “acabou”. Então, tá, conta outra.

RETORNO - Imagem desta edição: quadro de Debret mostrando o açoite de feitor em escravo na Praça XV, no Rio.

ABISMO


Nei Duclós

Nada prende o passageiro
e seu abismo de espelhos
onde reflete o destino
do tempo

Nada esconde o passageiro
e sua cabeça de estrelas
onde guarda bagagens
e vento

Nada espera o passageiro
no seu caminho de espanto
onde encontra a perdição
e o pranto

Nada perde o passageiro
com sua coragem sem bolso
onde enfrenta paredes
e fogo

Nada parte o passageiro
com sua arte de encontros
onde inaugura cidades
e sonho

RETORNO - 1. Mais um poema do livro "No Meio da Rua" (L&PM, 1979). 2. Ilustração: Banjo, de Juliana Duclós.

3 de outubro de 2009

PARADIGMAS EM “CARAS E BOCAS”


Como novela é considerada perda de tempo, e é verdade, já que substitui atividades mais proveitosas, como ler livros importantes, ver filmes antológicos, criar alguma coisa, vou elencar em itens o que vejo nessa “obra” escrita por Walcir Carrasco e dirigida por Jorge Fernando. Os paradigmas insuflados pela novela são estes, muito bem expostos e repisados na trama:

1. O marido corno é, no fundo, homossexual, pois se traveste de gueixa, baiana, perua, para tentar flagrar a mulher com o falso irmão, colocado pela mulher dentro de casa sob o álibi de ser da família, quando não passa de amante. Está na cara de todo mundo, menos do maridão enrustido, que não perde ocasião de colocar uma saia. Talvez ele já esteja convencido da sua homossexualidade, apenas usa o relacionamento dos dois para se vestir de mulherzinha, que é, no fundo, o que sempre desejou.

2. O garoto bobão é, no fundo homossexual, por isso aceita ser vestido de mulherzinha para agradar seu pretenso objeto de desejo, a garota arrivista e pragmática, que faz dele gasto e sapato. Os gestos atrapalhados, a gagueira, o jeito meio afrescalhado sugerem que ele pode servir de divertimento para homossexuais adultos que estão no poder na novela e gostam de ver adolescente usando saia florida.

3. O marido da vilã dominadora é, no fundo, homossexual, pois é destratado pela mulher de todas as maneiras e nem quando sabe do caso que ela tem com seu assessor deixa de ser o bobalhão que é. Não toma atitude, não rompe, fica sempre à mercê das ordens dela, como o filho homossexual dominado pela mãe castradora.

4. O “bofe escândalo”, amante da perua passadaça, é explicitamente homossexual, mas surpreende com o relacionamento hetero, apesar de a toda hora ter recaídas, quando toca em algum galã ou suspira diante de homens considerados, pelos mandões da novela, bonitos (são apresentados como irresistíveis).

5. A heterossexualidade é contaminada pela desconfiança, a chantagem, o ódio mútuo ou pelo esforço chato e inútil de gerar uma criança. Ou simplesmente nojenta, como acontece com o mau-caráter que a todas seduz com sua lábia, como a provar que relacionamento com mulher é sempre suspeito. Em contraponto, a homossexualidade é lúdica, bizarra, circense, ingênua e amorosa e atinge a maioria dos personagens, à revelia deles ou não. Os dois funcionários do bar (que chamam o galã de “patrãozinho”) estão sempre de avental brincando de se pegar; o amante e o marido da baiana são flagrados por ela abraçados na cama.

6. Todos estão á venda, vítimas da garota ambiciosa que compra e chantageia todo mundo, da vilã que quer dirigir a grande empresa, do executivo gordo e canalha que a toda hora dá um golpe. Os amigos traem, as ex-mulheres sacaneiam, a apaixonada compra o marido por meio de um contrato draconiano, a enfermeira é uma espiã, o assessor é bandido, o pintor falsifica, os namorados mentem, o avô manipula.

7. A arte e os artistas não prestam. Quadros modernos podem ser feitos por macacos. Basta jogar uns baldes de tinta nas telas e dar umas pinceladas a esmo, aos guinchos. Isso deslumbra o mercado de arte, feito por babacas idiotas e cheios da grana.

Chega? “Não tem nenhuma”, como costumam dizer. Isso é inoculado para milhões de pessoas, todos os dias, de maneira divertida. É tão gostoso deixar-se levar pela baixaria! Solidariedade, talento, seriedade, grandeza, tudo isso não vale nada. São princípios perigosos. Se estivessem em vigor no país, a mediocridade criminosa não tomaria o poder para sempre, como aconteceu no Brasil.

RETORNO - Imagem desta edição: o ator Marco Pigossi, no papel do marido corno, se traveste de Cupido.

2 de outubro de 2009

VOLTA, RIO


Nei Duclós

Na origem, o Rio é uma paisagem-monumento
na essência, um urbanismo clássico
na História, uma soma nacional
na música, uma tarde de sol.

Rio, capital do Brasil soberano:
hora de voltar ao que somos,
paz na terra conflagrada,
trégua no salve geral

Esperança de um samba maior
"Rio de Janeiro, gosto de você".
És um susto de luz
depois do túnel

Rio dos meninos em armas de 1922,
da literatura de teus moradores,
dos sons de teus gênios.
Terra onde nem os mendigos abrem mão da arte

Rio do esplendor, vives na nossa memória.
A multidão acena para a Revolução
de Outubro de 1930, depois acena
para o corpo que se vai em 1954.

Órfã de ti, a nação perdeu o foco
e hoje vive de meio expediente no cerrado,
enquanto a metralha varre tuas famílias.
Volta, Rio, ao poema.

Quem somos nós, sem as raízes do Rio,
sem o Brasil gerado ao pé da Serra dos Órgãos?
Nada faz sentido se um país perde sua capital.
Volta, Rio.

RETORNO - 1. Poema escrito on-line no Twitter minutos depois que o Rio foi escolhido capital olímpica em 2016. 2. Imagem desta edição: tirei daqui.

QUE UM DE NÓS SOBREVIVA


Nei Duclós

Que um de nós sobreviva
e emudeça

Para esse alguém e suas mãos
estamos preparando nossa insônia

Que por fora ele seja de aço
e por dentro de estrelas
Que ninguém desconfie do seu destino
De maneira alguma
sorria
(para isso, se for preciso
mastigue infinitamente
meteoros e planetas)

Pois esse que eu chamo companheiro
deixará que os anjos revistem seus bolsos
e aprendam o que se passou conosco

RETORNO - 1. Mais um poema do livro Outubro, publicado em 1975 pelo Instituto Estadual do Livro/RS, em convêncio com a Editora A Nação, de Porto Alegre. 2. Imagem desta edição: Anjos entre nuvens, foto de Regina Agrella.

1 de outubro de 2009

TORNEI-ME PASSOS


Nei Duclós

Tornei-me passos
em busca da aurora

Belo como geada
acordei enrolado num cobertor
que o sol dourava
nos terrenos baldios
da minha estrada

As cidades construíram
muros à sua volta
mas com cordas
escalei pedras
e penetrei nas entranhas
de concreto e praças

(Do livro Outubro, 1975)

RETORNO - Imagem desta edição: a insuperável arte de Claudio Levitan para a capa do meu livro de estréia, lançado há tanto tempo, mas jamais esquecido.

JOGO BRUTO PRÉ-ELEITORAL


Hoje, o que pega não é a campanha de quem é favor ou contra. Um caso Lurian não vai decidir a parada. O buraco é mais embaixo. O que existe de fato é disputa braba de cachorro grande, onde entra de tudo. O que está em jogo é a maior fortuna disponível no planeta: o dinheiro arrecadado pelo Brasil (os orçamentos dos outros países não estão tão disponíveis assim). É mais do que uma grana preta, é toda a grana do mundo. Já viram filme de grandes golpes? É aquele clima.

As eleições não serão definidas pelos chamados formadores de opinião. Mas pelos que podem manipular mais voto por meio da força bruta. É um salve geral: enquanto perdemos tempo com posições ideológicas, botox ou caras de vampiros, filhinhos de papai ou coronéis do sertão, corruptos e malfeitores, ingênuos e capoeiras, o troço se decide nas múltiplas aparelhagens: cargos ocupados e disponíveis, acertos de contas, viagens de dinheiro, e tiroteio puro e simples.

O pessoal do governo se sente à vontade, mas é uma ilusão. Vive no bem bom do poder e tem aliados bem amarrados, mas basta se aproximar a possibilidade de uma mudança de mãos de quem tem a chave do cofre para os acertos desmoronarem. A oposição, louca para voltar ao Planalto, ruge. Vale tudo. Um dos fenômenos que mais cresce é a disputa por figuras carimbadas e notórias, como se fosse importante atrair votos por meio de um nome famoso. Trata-se de jogo de cena. Enquanto ficam ao redor do Chalita ou do Padre Fábio de Mello, cava-se um túnel em direção ao Banco Central.

Não que os postulantes aos cargos de presidente, senador, governador sejam desonestos. Ou que a Justiça Eleitoral seja uma farsa. Ou que a gente continue vivendo numa ditadura. Nada disso. Todos são lisos, as justiças funcionam e vivemos numa democracia, está combinado. O que estou falando aqui é de um roteiro cinematográfico, imaginação pura e simples. Se um candidato da oposição crescer muito, basta sacudir o país com alguns terremotos e pronto, a coisa volta ao normal. É com nos filmes, só isso.

Lembro quando, no movimento das Diretas-Já, nos anos 80, a ditadura promovia black-outs pesados, intensos, que cobriam todo o território nacional. Não mudou muito. Quando lançam bombas no centro de São Paulo, queimam um monte de ônibus, metralham policiais, é porque algo fede na política. Marginal não tem esse cacife. Quem tem esse poder é roteirista de filme de gangster. É gente abraçada com o crime organizado. São os pretensos “revolucionários”, os que querem foder com tudo para mudar o que funciona, quando deveria ser o contrário, deveriam mudar eles mesmos para foder com tudo o que não presta. Ou os pretensos “democratas” que não querem perder sua parte no butim

No gosta do governo? Não bata em cachorro morto, que ele ressuscita. É a tática de voltar com mais força. Tente enxergar as armadilhas. Honduras é um bom exemplo de hardnews que exige intervenção imediata do analista. Não pode, como aconteceu, apoiar a interferência brasileira no país como fizeram bloguistas notórios, e depois se retirarem aos poucos dessa posição e acabarem assumindo o bom senso de uma visão mais equilibrada. O Diário da Fonte mandou ver uma hora depois do ocorrido e depois deixou de abordar o assunto, a não ser algumas observações ao longo das edições seguintes.

Tem jornalista gastando criatividade para debochar da crise de Honduras. Pode acabar em massacre. Pode resultar numa ditadura de fato. Tudo pode acontecer. Nada daquele país, nem de qualquer outro, nos diz respeito. Precisamos cuidar aqui dentro. A campanha eleitoral está começando. “Vem aí uma tempestade de merda”, para citar Norman Mailer.

RETORNO - Imagem desta edição: Tony Camonte em Scarface, 1932.