14 de agosto de 2009

WOODSTOCK: A UTOPIA REVISITADA



Nei Duclós

Utopia significa não-lugar, portanto não adianta cercar Woodstock ou a fazenda onde foi realizado o megaevento de 1969 e que hoje é comemorado como um quarentão famoso. Já foi provado que repeti-lo também não significa nada. Você pode ir até o local, colher um punhado de terra para guardá-lo num gaveta, pagar um guia para dizer onde foi que os caras rolaram na lama, chamar um monte de estrelas da música, tudo será inútil. Woodstock existe em outro plano, tão real quanto um por-de-sol: ele dura alguns segundos, mas você o guarda para sempre no coração, na memória, na imaginação e no sonho. Veja e escute Joe Cocker cantando os Beatles, Jimi Hendrix arrasando o hino americano ou Santana despertando o cosmo escuro: lá brilha solitária a estrela da revolução assassinada.

Porque aconteceu assim e ninguém atenta: o grande acontecimento dos anos 60 foi uma retomada dos princípios humanos abandonados pela sociedade de massas, a mesma que levou nações à guerra de extermínio e transformou em negócio torpe a sagrada luta pela sobrevivência. Não foi a indústria do espetáculo que inventou aquela magia, nem as adolescentes gritando desesperadas nos show de rock. Não foram os cabelos compridos nem as roupas bizarras, ou a revolução sexual ou os protestos anti-Vietnam. Tudo isso é aparência, conseqüência.

O núcleo da questão está na percepção poética de Mario Quintana no prefácio do meu livro (de 1979) No meio da rua, em que ele identifica “aquele histórico e súbito movimento de maturidade e independência dos jovens - os quais se apresentavam de longas barbas, não para imitarem seus venerandos avós, mas sim, creio eu, numa espécie de reencarnação do homem das cavernas -, visto que era preciso recomeçar tudo”. Touché! Está tudo nesta frase.

Maturidade e independência, ao contrário do que dizem, de que era manifestação de pessoas irresponsáveis. As longas barbas, ou os cabelos e roupas, eram apenas um sintoma da necessidade de zerar tudo, de recomeçar do nada. Pois se tinham destruído o espírito humano com a bomba nuclear covardemente jogada em centenas de milhares de civis desarmados, se tinham levado gerações à morte num pequeno espaço de meio século, se tinham criado sistemas monstruosos de opressão e tirania nos dois lados da Guerra Fria, se tinham esvaziado o coração humano com todo tipo de ameaça, o que nossa geração poderia fazer senão recomeçar, restituir ao mundo o que ele tinha perdido nas mãos criminosas dos algozes?

Era um movimento diferente da luta política tradicional, em que se pegavam em armas para derrubar governos. Soubemos o que houve com as outras revoluções. As tiranias foram substituídas simplesmente. Os anos 60 fizeram outra coisa. Desarmaram os espíritos, se livraram dos bens terrenos (“deixa tudo, vem e segue-me”, segundo a base da utopia cristã) e se deram um longo, afetuoso, hilário, emocionado, épico, suntuoso abraço em Woodstock, um festival que deu certo por acaso, como não cansam de repetir seus organizadores. Inclusive ele choram no documentário maravilhoso que foi feito do grande acontecimento, reconhecendo que 500 mil pessoas se reuniram e não houve uma morte, um assassinato, um roubo sequer. Não foi um acaso: era a prova de que a utopia poderia acontecer, o não-lugar encontrava um pouso.

Bastava que Woodstock contaminasse o mundo. Mas o que aconteceu foi um susto. Tudo fizeram para destruir, esvaziar, debochar, ridicularizar, fazer pouco, duvidar de Woodstock. Drogas!, dizem. Gandaia, repetem. Alienação, vibram. Isso não existe, é o que querem dizer. Não adianta querer mudar o mundo, ele jamais muda, a não ser para pior. Não venham com grandes emoções coletivas, com a beleza explodindo como uma supernova, com a convivência pacífica, com esse som inesquecível, jamais repetido. Nada disso é real, não cansam de dizer. Voltem todos para o trabalho, as casas, o front no deserto de sangue, os negócios, o lazer vazio, as férias planejadas, a vida definida no berço. Não tentem destruir a grande obra do Mal!

Assim, Woodstock ficou só como um túnel de luz. Nele entramos toda vez que queremos recuperar o que nos foi tomado. E o que Woodstock nos revela não ficou confinado ao evento datado. Mas se espalhou, como cogumelo depois da chuva. Essa utopia habita em nós como uma revelação. Podem dizer o que quiserem. Toque de novo, coração, pois daquele lugar jamais fui embora. Apenas fui dormir por algumas horas e já estou desperto, esperando que aquelas canções, aquelas guitarras voltem junto com o sol.

RETORNO - O video é da minha cena favorita de Woodstock: Soul Sacrifice, com o Santana.

BATE O BUMBO: BLUES DA CASA TORTA NO YOU TUBE



Seguindo as comemorações pelos 40 anos de Woodstock, um presente para os leitores do Diário da Fonte: o Blues da Casa Torta, música de Muts Weyrauch e letra de Nei Duclós (poema publicado no livro "No meio da rua", 1979), interpretada pelo próprio Muts e sua banda, em vídeo produzido e acessível no you tube. O poema ainda estava na minha pasta quando Muts, no quintal lá de casa em Petrópolis, Porto Alegre, colocou o violão no joelho e, enquanto lia o poema, começou a cantar. Foi assim que aconteceu, pelo que lembro. Aí por 1974/75.

LER JORNAL


Nei Duclós

Jornal dá preguiça. Pegar o touro a unha, ou seja, atacar logo as manchetes, provoca baixas de leitura na primeira linha. A maioria das hardnews já são conhecidas e os jornais apenas se limitam a empilhar mais alguns parágrafos e cair nas novas armadilhas, como a invenção de transformar insucesso da reportagem em reportagem (“procurado, fulano de tal não retornou os telefonemas”). Desde quando rotina de repórter é notícia? É a mania do “outro lado”. A mídia publica um lado só, o outro fica mudo ou é coadjuvante (na televisão, é aquele plus narrado pelo apresentador com a cara de isenção democrática). Faça a reportagem sem culpa.

Sobram as notícias mais quentes, como a morte de Les Pauls, inventor da guitarra, ou a entrevista, ótima, de Ruy Castro na Folha, gravada durante o lanaçamento do seu livro, O Leitor Apaixonado, que é uma coletânea de crônicas escritas para jornal. Como estou preparando meu segundo volume de crônicas (o primeiro é O Refúgio do príncipe, já leu, já comprou?), e como gosto muito do trabalho de Ruy Castro, vi até o fim. Ele diz coisas impossíveis. Não tem facebook, nem Orkut (eu tenho) e nem celular (esse dispensei faz tempo). Não bate boca com leitor porque...leitor lê e escritor escreve! “Se eu for ler o que o leitor me escreve, então os papéis se invertem”. Poderia soar antipático. Mas Ruy, que escreve o fino, e bate na draconiana lei anti-fumo em São Paulo, pode.

Claro, dirão, você se interessa por matérias culturais, porque é poeta. Picas. Aqui no DF bato firme em política e economia, trabalhei vinte anos em jornalismo voltado para os negócios (Fiesp, Sala do Empresário, Visão, assessorias de imprensa etc.). É que os editores, concentrados em aborrecer o leitor, deixam escapar algumas notícias boas de ler. Tudo bem, é importante saber que o Lula liberou a bufunfa para mais publicidade, passagens, mordomias em geral, sob o álibi de que assim poderá desengessar obras sociais (ah ah ah). Mas não preciso mais do que três linhas para adivinhar o resto.

Quem duvida que a ministra (que parece produto de computação gráfica, daqueles programas que colocam peruca em cima de bonecos animados) pediu para a distinta senhora da Receita, pessoa séria e competente, apressar a investigação sobre Sarney, ou seja, arquivá-la? Então por que ficam nesse disse-me-disse? Agora querem ver as imagens dos corredores e salas. Tenham dó. Basta olhar para cada uma e tirar a conclusão. Uma está mentindo e a outra não.

Em geral, o noticiário é uma piada. Veja essa: “A Kia do Brasil pagou cerca de R$ 300mil para ocupar um espaço (quatro minutos e trinta e cinco segundos) no Auto Esporte do último domingo”, informa Daniel Castro na Folha. “A Kia confirmou que o material exibido foi um publieditorial. A Globo informou à coluna que não veicula matéria paga e que vendeu uma ação de product placement". Então tá. A velha matéria paga, o contrabando publicitário no corpo editorial, é agora product placement. Senhores da Kia: eu cobro menos. Faço um test drive e publico aqui, de maneira casual e detalhada, como é bom Kiar por aí.

No product placement (gostei!) de um livro da Folha sobre a dieta correta (mais uma), tem uma receita para emagrecer que é “ovos mexidos de microondas, torrada integral e suco de tomate”. Como nunca usei essa joça, me pergunto: o que será ou que gosto terá um ovo mexido no microondas? E tomate deixou de ser molho, agora é suco (eu sei, eu sei, é implicância!)? E se eu comer esse troço, perco minhas toneladas? Pior que isso é a outra receita, “macarrão com brócolis”.

Um dia vou descobrir de onde vem a força da máfia do brócolis. Costumava ir a cantinas em São Paulo, quando eu fazia parte da classe média e todos os pratos tinham brócolis. Eu insistia em algum sem o terrível acepipe. Não tinha. Então eu pedia um cabrito, sei lá, mas sem o brócolis. Eles anotavam diretinho e, surpresa! lá vinha o brócolis, hegemônico, como selva tomando conta da travessa. O pobre do cabrito estava enfurnado em algumas daquelas ramagens asquerosas, que tem gosto de isopor.

Na frente da televisão, os jornais são de matar. Uma matéria sobre os novos hábitos higiênicos e saudáveis provocados pela pandemia mostrou uma senhora muito gorda ensinando como se espirra hoje. Colocando o cotovelo na frente do nariz e não a mão! Juro que vi isso. Desliguei o aparelho, como se diz, e fui ler o livro que atualmente me encanta e que vou resenhar daqui a alguns dias. É a única saída. O livro.

E, claro, um bloguinho diariamente. Na blogsofera, o do Virson está bombando muito, o deolhonacapital convidou o Mario Medaglia, do Batendo Forte, para fazer parte do time, o do Renzo Mora cada vez mais esclarecedor sobre culturas, tendências, comportamentos e deboches corrosivos em geral, o do ducsamsterdm dando show de informação e atraindo multidões de leitores, o blog do Miguel cheio de posts ótimos e com cada vez mais visitas, o freakmothers de Juliana Duclós com grandes insights sobre a infância e as artes, os enciclopédicos FériasFloripa e Nadaaver sendo copiados cada vez mais (uma hora eu entrego quem) e acessados como nunca, o do Álvaro Faria contundente em seu poetar continuo, o do Sergio Rubim denso de boas informações e ainda por cima um especial sobre 170 anos de fotografia etc. Todos esses blogs estão linkados aí ao lado.

Pensando bem, blog dá de dez em jornal. E se jornal publicar algo que preste, a gente vê primeiro num desses blogs. Jornalistas, caprichem. Está na hora de escrever melhor, trabalhar com mais competência e principalmente deixarem de ser sempre os Mesmos.

RETORNO - Imagem desta edição: Orson Welles em Cidadão Kane, o poder corrompido dos monopólios de informação minando as bases da convivência democrática. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

13 de agosto de 2009

NÃO POSSO RECUAR


Nei Duclós

Não posso recuar além de um poema
Meu limite de medo

Não posso deixar que a palavra se perca
Última colheita

Não posso esperar que o tempo resolva
Ser mais ameno

Não posso deixar de trair
O meu sossego

(Do livro No meio da rua, 1979, L&PM Editores)

RETORNO - Imagem desta edição: Bandeira, foto de Juliana Duclós.

O SANTO GRAAL DA LIDERANÇA


Nei Duclós

O gramado ficou coalhado de corpos. Cabeças se bateram, troncos levaram empurrões, membros correram risco de fraturas. Mas não foi um embate como, horas antes, a briga entre Brasil e Estônia, que provou não existir, no futebol, o conceito de amistoso. Enquanto na Europa nossa seleção teve de manobrar com as patadas de um timeco pretensioso, no Mineirão, nesta quarta-feira, Palmeiras e Atlético lutavam por algo maior. O jogo foi embolado, mas heróico. Houve agressões, mas houve grandeza. Estavam todos determinados e saíram do estádio cobertos de suor e com a certeza do dever cumprido. As duas equipes disputavam a penúltima batalha do primeiro turno e o jogo deve ser lido à luz da literatura medieval, aquela que empolgava a multidão apaixonada pela aventura.

Para isso, vamos entender Marcos, o goleirão do Palmeiras. Ele tomou um frango logo no início, dizem todos, mas se recuperou ao defender um penalty. O futebol não é crime e castigo, culpa e redenção. É um jogo exercido por espíritos livres, que buscam a perfeição. Num campeonato de pontos corridos, como é o Brasileirão, ocupar a liderança é o Santo Graal da saga, a conquista de um status que vai levar o time à glória, o gesto de levantar a taça vestindo a camisa do inimigo derrotado. Na cidadela do arqueiro, trava-se o duelo decisivo dessa busca incessante do cálice sagrado. É ali que a coruja pia e onde Marcos, campeão do mundo, exerce sua grande arte.

O chute que causou tumulto e levou o herói para as labaredas da perdição por um longo tempo do jogo (porque todos enxergam a mesma coisa, quando o futebol sempre sugere outra) cruzou o espaço sem efeitos, firulas, curvas ou desvios de rota. Foi direto, em diagonal, em direção à ruína do Palmeiras, que antes do jogo era líder e permaneceu assim depois do 1 a 1. Poderia ser diferente. Se perdesse, teria descido um degrau na tabela, deixando escapar o objetivo do grande clássico. E poderia ter perdido, se Marcos sucumbisse à falha que cometeu. Sim, ele disse que falhou e isso de fato aconteceu. Mas é preciso mergulhar na jogada para ver alguma coisa real dela. Senão ficaremos todos a comentar futebol como se fôssemos uns tontos.

A verdade é que não foi um frango. Li num livro de Mario Filho, irmão de Nelson Rodrigues, nome de batismo do estádio do Maracanã e inventor do jornalismo esportivo, O negro no futebol brasileiro, que cercar o frango era a expressão usada no início do século passado para definir o atrapalho do goleiro que tenta evitar o gol de maneira tosca. A bola é o frango em fuga e o goleiro, tropeçando nas pernas, procura alcançá-lo, mas todos os que vivem na roça ou viveram sabem o quanto é difícil alcançar o bicho. Mario Filho também detecta a origem da palavra torcedor, que significa isso mesmo, a pessoa que se retorce nas arquibancadas, sofrendo pelo seu time.

A expectativa de quem torce é sempre vencer em todos os lances e um gol desses, que passou voando por Marcos sem que ele pudesse interceptar a trajetória do biroço que estava a seu alcance, torna ainda mais claro o papel do cidadão sofredor que comparece aos jogos. Ele não se conforma e maldiz o cara que deposita nos ombros toda a responsabilidade do resultado do jogo. O problema é que Marcos não saiu que nem um bocó atrás de alguma coisa que fugia dele. Marcos está num nível mais alto. Nesta altura do campeonato da sua vida, ele procura alternativas para as suas defesas. O que fazer com um tiro que chega de chofre a passa perto demais, quando o corpo não está na posição ideal para saltar e dar um soco decisivo?

Marcos usou os dois braços juntos, como quem vai rebater o petardo do adversário no jogo de vôlei. Não poderia encaixar, não tinha posição para isso. Poderia bater com uma só mão para fora, o que era mais provável. Vamos imaginar o seguinte: se usasse os dois braços, não poderia recolocar a bola de volta aos companheiros, que assim chegariam rapidamente a um conta-ataque? Marcos confiou no seu timing. Ele calculou, num átimo de luz, num milissegundo, que poderia, torto como estava em relação ao chute, jogar-se de maneira eficiente e ainda tirar proveito da sua rebatida. Mas talvez o excesso de elementos da sua percepção tenha entupido as veias da defesa. E o gol aconteceu, miseravelmente, enquanto Marcos pulava para o abismo.

Ok, dirão os céticos, os que não lêem romances de cavalaria, foi mesmo um frango. Ele poderia ter defendido, mas apostou na sorte, na sua experiência etc. Engraçado que a mesma experiência serviu pra defender o pênalty. Marcos, o primeiro jogador brasileiro a admitir que usa a internet para estudar o comportamento dos adversários, ficou firme enquanto Renan, do Atlético, resolveu dar a paradinha antes de bater. A paradinha foi invenção do Pelé e serve para deslocar o goleiro. Você vai determinado pra chutar, o arqueiro vislumbra o canto pelo empuxe do batedor e se atira um milímetro de tempo antes. Se você der a paradinha, vê o goleiro se jogar a esmo para o canto vazio e assim você aproveita e bate no outro.

Só que Renan não soube dar a paradinha. O que ele fez foi zerar a batida. Ou seja, correu para a bola e parou, iniciou algo que não terminou. Depois de parar, teve de recomeçar tudo. Aí não tinha mais distância ideal e improvisou. Bateu a meia altura quase no canto e Marcos, que ficou, ele sim, parado olhando, soube defender. É preciso explicar os conceitos do futebol para os jogadores. A paradinha faz parte de uma única intenção. A jogada começa na corrida e termina no gol. Há o intervalo da paradinha. Não é a mesma coisa se a paradinha for o fim de uma sessão de cinema e não seu intervalo. Você assiste metade do filme, as luzes acendem e você vai para casa. No dia seguinte, vai ver a outra metade. Não funciona assim no futebol. Você termina na mesma noite o que começou.

Mas, e o jogo? Quem foram os artilheiros, quem foi substituído, em qual minuto aconteceu o sururu, como se comportou o árbitro? E Bruno, de 21 anos, goleiro estreante do Atlético? Foi ótimo. E o gol do Palmeiras, uma pintura, com bola por elevação em diagonal e a matada final de cabeça? Maravilhoso. Mas romances de cavalaria são publicados em série. Sempre haverá uma nova oportunidade para mais comentários. Nós, os escritores inspirados nas sagas medievais, queremos saber de bandeiras ao alto tremulando, choques de metais, espadas tinindo, cavalos espumando, multidões armadas para a guerra. Alguns lances são a síntese de um jogo corrido, num mata-mata impressionante, que faz do Brasileirão um grande evento, como há muito não se via. São cortes profundos na peleja de gladiadores.

Falemos de campeonato, e de apenas alguns momentos. Não de estatísticas ou de todos os 90 minutos. Esses dados estão disponíveis no noticiário. O que nos interessa é ver os caminhos encontrados pelos times que colocam a mão no cálice sagrado. Por enquanto, é o Palmeiras. Mas, por quanto tempo?

RETORNO - Imagem desta edição: Batalha de Pharsalos, na Idade Média. Autor? Cartas pra a redação.

12 de agosto de 2009

A DITADURA LUTOU CONTRA A DITADURA


Nei Duclós

Ditadura e democracia são conceitos claros na política brasileira. Tudo o que os atuais donos do dinheiro público fazem é democracia. Lula pede concessão de rádio para filho de Renan Calheiros; Collor, uma década depois de ser defenestrado do Planalto por inúmeras acusações de crimes e fraudes, consegue absolvição da Justiça e ameaça contar os podres de Simon; Jereissati grita “o dinheiro é meu” no plenário, depois pede desculpas; a grande rede de televisão usa dinheiro lavado extorquido dos fiéis, enquanto continuam os apelos do Criança Esperança; o presidente do Senado disse que não disse o que realmente disse e está gravado e não sai do cargo nem a pau; o caso dos prefeitos do ABC assassinados, onde as testemunhas foram fuziladas, continua na mesma. Tudo isso é democracia.

Humberto de Alencar Castelo Branco, que derrubou um presidente trabalhista duas vezes eleito, pelo voto e o plebiscito, foi um grande democrata. Idem Costa e Silva, Médici, Geisel, Figueiredo. Os generais presidentes só são identificados com a ditadura quando lembram que eram gaúchos. No resto do tempo, causam comoção trepidante em inteligências como Elio Gaspari, ex-ghost writer de Ibrahim Sued. O ACM, que coisa, que estadista da democracia, mesmo ameaçando jornalista de morte em frente às câmaras. O próprio Sarney lutou muito contra ditadura, apesar de passar a maior parte da vida política sendo presidente da Arena e do PDS. Jarbas Passarinho, que destruiu a educação brasileira, é outro democrata admirável.

Todos eles lutaram contra a ditadura. Quando falam em ditadura no Brasil não é essa de 1964 para cá. Essa é a democracia. A ditadura era o que o Jango, assassinado covardemente no exílio, queria implantar no Brasil com a ajuda dos comunistas (os que atentaram em 1935 contra o governo constituinte de Vargas) e sindicalistas (os que assumiram agora o poder nos fundos de pensão e na manipulação das massas via cultura brega e eventos lotéricos). Ditadura era o Brizola armado para defender a Legalidade em 1961. Ditadura era, em suma, o presidente Vargas, eleito maciçamente pelo voto direto em 1950 e obrigado a se matar em 1954 depois que uma onda de democratas varreu a face do país com o início da campanha injuriosa que dura até hoje.

Democratas eram o Lacerda (toc toc toc), que derrubou três presidentes da República e deu um tiro no pé para colocar a culpa no Vargas . Era JK, o Peixe Bem Vivo, que apoiou o golpe de 1964, como atesta matéria na revista O Cruzeiro publicada logo depois da chamada Redentora. Todos esses democratas, a Banda de Música da UDN, os tubarões, latifundiários, reacionários de extrema direita, gorilas, bandidos do PCC que pararam São Paulo com a conivência do governo federal , são democratas até o osso. Ditadura, repito, era a Era Vargas, a esplendorosa época do Brasil soberano, em que qualquer câmara que apontasse para qualquer parte do país mostrava uma nação forte, orgulhosa, brilhante. Isso precisava ser destruído pela mediocridade.

Conseguiram. Mas como o Brasil ainda mantém algumas coisas boas, tudo fruto da Era Vargas, é preciso completar o serviço. Para isso existe a política engessada que enquadra o trabalhismo pífio dos atuais partidos pseudo-trabalhistas. E a indústria do espetáculo, que cuida para arruinar a memória e a honra de Vargas, como faz esse idiota do Tony Ramos, ator do novo filme de Daniel Filho, Tempo de Paz. Nele, Tony é o ex-torturador da política política de Vargas que assume o cargo de chefe da Alfãndega e no fim da II Grande Guerra, em 1945, decide quem entra e sai do país. A trama é sobre o confronto entre ele e um ator polonês que faz tudo para provar que não é nazista e assim conseguir licença para morar aqui. O bandido tem medo dos presos que torturou e que estão sendo libertados. Por isso enche o saco de suas vítimas.

Vi uma imagens no you tube. Lá está o ator Ailton Graça no papel de uma espécie de Gregório Fortunato, o guarda-costas de Getulio, pivô da crise que acabou derrubando o presidente. Todos os elementos da calúnia estão presentes. Costumo dizer: eles não dormem em serviço, por isso eu não posso baixar a guarda. Essa turma que se locupleta na atual ditadura, que ficou milionária graças ao monopólio da comunicação conivente com as torturas e lambe saco dos ditadores e que vive à tripa forra na fase atual da falsa democracia, essa turma de cangaceiros continua caluniando o grande presidente Vargas.

Por que insistem? Por que é preciso. Se eles deixarem um só dia de caluniar Vargas, poderão perder as tetas gordas nas quais se locupletam. Execrar a era Vargas é a única chance para a mediocridade. O povo brasileiro poderá acordar, veja o perigo. Tony é um canastrão asqueroso que se considera um ator popular, só porque suas caricaturas, ao ocuparem vasto latifúndio de exposição na mídia envenenada, tem repercussão. Tony, apelido americano do sujeito que tentou imitar Tony Quinn de Zorba o Grego, Tony, o bobalhão da respiradinha rápida (o que encerra no subtexto a exclamação: “ei, eu estou interpretando!”), se acha o grande denunciador de Vargas. Mas é preciso que se diga.

Quem lutou contra o nazi-fascismo foi Vargas, não eles. O que fez a direita, a qual Tony pertence? Usou a vitória de Vargas, a vitória da FEB, a vitória do Estado Novo a favor da liberdade nos campos da Europa, para gerar a mais monstruosa obra caluniosa da história mundial. Imediatamente após a vitória, a culpa pelo nazismo, torturas, massacres, que sempre foram da direita e seus aliados, passou para o colo de Vargas. Foi assim que eles se livraram do mico e colocaram nos ombros do presidente o crime que cometeram, o de terem inventado sistemas políticos de extrema direita (nazismo, comunismo), o que ensangüentou o mundo.

O que fez Vargas a partir de 1930? Primeiro, tirou o Brasil das garras da extrema direita, que mandava aqui desde a queda de Dom Pedro II. Depois, derrotou militarmente o revanchismo da hegemonia paulista, que levou uma tunda em 1932. Vargas então foi eleito pela Assembléia Constituinte, por sua vez eleita pelo voto direto, com o voto da mulher pela primeira vez. Seu governo legitimamente eleito levou um golpe, uma quartelada na chamada intentona em 1935, que foi derrotada.

Em reação ao golpe da esquerda, a direita se assanhou e quis assumir o poder. O álibi perfeito era a “democracia”, mas o golpe estava preparado na porção nazista das forças armadas. Getulio, apoiado pelas forças nacionalistas, instaurou o Estado Novo. Um regime que lutou na Europa de armas na mão contra as ditaduras de direita, que consolidou as leis do trabalho, o único plano real de distribuição de renda do Brasil em toda sua história, instalou a siderúrgica de Volta Redonda, base da nossa indústria, zerou a divida externa, guindou o salário dos trabalhadores a níveis de Primeiro Mundo, hoje pulverizado em economias informais.

È contra a magnífica obra política e social do presidente Vargas que anões como Tony Ramos vem caluniar, encher o saco, identificar o grande estadista com a ditadura que ele, Tony, e seus amigos defenderam por décadas (depois, posaram de democratas). E continuam defendendo, pois isso dá lucro. Estão com o baú cheio de dinheiro. E jogam pedra no estadista que se imolou em frente à nação e até hoje é lembrado como o único poder a favor do povo trabalhador. Quando se compara o gênio político de Vargas a esses troços que assumiram o Planalto desde 1964 dá para ver com nitidez que tipo de quadrúpedes se apoderaram da nação. E sequestram o imaginário do país, caluniando sem cessar.

São todos ditadores. Ganham os tubos porque lutaram ou lutam “contra a ditadura”. Essa é a armadilha mortal do Brasil da nossa época, que será lembrado pelo triste papel que desempenha nos índices sociais, na política internacional e na visão criminosa que tem do próprio passado.

RETORNO - Imagem desta edição: Daniel Filho, que é um grande ator, ensina Tony Ramos a caluniar a Era Vargas, no ensaio do filme "Tempo de paz".

11 de agosto de 2009

OS ALPINISTAS ASSALTANTES


Nei Duclós

Depois que inventaram o Locomotor Aéreo Silencioso (LAS), em 2023 - que não passa de uma pequena mochila com propulsor a jato, alimentado de ar comprimido por lasers virtuais opacos -, a nobre arte do alpinismo entrou em decadência. Limita-se hoje, primavera de 2050, a alguns abnegados, que abrem mão das comodidades do LAS para palmilhar a pedra bruta, cinzelar a rocha, cravar as ferraduras de seus sapatos especiais, enquanto sangram as mãos em direção aos picos. Sobrevive neles a obsessão das conquistas absurdas, o fato de chegar lá e não acontecer nada. Talvez levantar um braço, dizer iuhú, fincar uma bandeira.

Mas como os picos já foram conquistados, não há espaço mais para novas bandeiras. Então continuo sem saber porque eles se submetem a esse tipo de tortura, quando bastava ligar um LAS de última geração e sobrevoar as saliências, reentrâncias, gargantas, paredões possíveis. Qualquer um faz isso a qualquer hora. Já vi senhoras idosas dando uma volta no Everest. O noticiário está cheio de excursões de bebês sobrevoando o Aconcágua.

O pior são os Blocos de Adolescentes Tardios, que costumam passar a mão na bunda dos Alpinistas Voltados Para A Tradição, bem no momento em que eles estão conseguindo mais um feito, como dependurar-se num platô de dez centímetros quadrados de superfície, encostado à mais íngreme escarpa do Mauluvizu, o mal afamado monte africano, onde pereceram milhares de desportistas antes que os fabricantes de LAS inundassem a área com promoções de ascensão barata.

Tudo isso é pinto perto de outra ameaça que ronda os fervorosos subidores de altitudes heróicas. Pois não é que quadrilhas enormes de alpinistas, se é que podem se chamar assim, usando vários modelos de LAS, caem como gafanhotos nos pobres passadistas? Como os abnegados são ricos, pois só banana milionário para se dedicar a algo que já passou e jamais voltará, então eles carregam bolsos cheios de créditos azuis, os blue notes, os mais cobiçados na praça.

À noite, quando as barraquinhas penduradas nos abismos ficam à mercê do gelo que cai em forma de nuvem permanente, é impressionante o volume luminoso emitido pelos bolsos dos patetas. Isso chama a atenção da bandidagem, que vai lá conferir e consegue extrair tesouros incríveis. Basta para isso que rasguem as barracas, dêem alguns socos e pontapés e levem tudo. Há ainda, contra os que sabem se defender, o expediente de atacá-los enquanto estão distraídos, subindo a montanha. Os vagabundos se aproximam com grande estardalhaço e apalpam tudo até achar a prenda em algum desvão secreto da roupa.

Já mandei um relatório em 3D para a diretoria aqui do Olhar Absoluto, nossa Agência de Informações Para Grandes Alturas, que impeçam esses bestas de tentarem uma aventura tão ridícula quanto perigosa. Está atraindo os sacanas e acabando com nosso sossego. Não tenho mais tempo de assistir velhos musicais do século 20. Sou impossibilidade de passar horas agradáveis com Natalie Wood e Marilyn Monroe. Tenho que ficar atento aos roubos e aos gritos dos alpinistas que, ao perderem sua bufunfa, entram em desespero e caem por três quilômetros abaixo, pois nem o velho para-quedas eles usam.

Já que eles não querem usar os imprescindíveis LAS, que tomem uma boa surra. Para aprender. No lugar de LAS, laço. Eu me encarrego de dar primeiras cem chibatadas.

Que você está escutando com essa cara de palhaço? Onde está o sanduíche de presunto e queijo que te pedi? Ou vai dizer que nesta Lanchonete antediluviana, especial para caras saudosistas como eu, não existe o lanche mais tradicional de todos os tempos? Quer o quê? Que eu sorva liquido roxo seguido de glegows magenta? Pelo amor do Altíssimo. Preciso comer. Preciso usar meus dentes. Droga.

Sei que custa caro. Mas estou abonado. As apreensões tem sido proveitosas. Retenho uns dez por cento do que consigo reaver. Os alpinistas babacas ficam felizes da vida e eu mais ainda, pois acumulo grandes quantidades de blue notes. Uma hora eu me aposento. Vou morar numa planície, num vale, numa praia. Tenho maior pavor de altura.

RETORNO - Imagem desta edição: obra de Rockwell Kent, outro grande artista americano de vanguarda da primeira metade do século 20.

MILAGRES


Nei Duclós(*)

Os milagres continuam na ativa, mas o ceticismo insiste em colocá-los na reserva. Motivos não faltam para explicar porque acontecem. A única sobrevivente de um desastre aéreo teve a seu favor a determinação de ficar agarrada num escombro do avião, que boiava. Não foi, claro, porque sua salvação tenha também sido obra das orações.

As jornalistas que foram salvas da morte certa graças à intervenção brilhante de um estadista americano devem agradecer à diplomacia, aos contatos, às conversações, e jamais ao brilho e à coragem, qualidades que fazem parte da vida espiritual. Ou ao apoio das divindades, erradicadas do jogo bruto entre nações armadas pelo irracionalismo da bomba definitiva.

Como a falta de lógica orienta as ações dos grandes poderes, é preciso que esse obscurantismo seja apresentado como única opção. O determinismo cria uma barreira contra a transcendência e a fé, pilares de uma percepção acima do muro que confina a cidadania. Os fatos que deslumbram a população por estarem fora desse pacote de acontecimentos previsíveis servem apenas de insumo para o noticiário das curiosidades. Eles não atingem o significado profundo de uma realidade fora da ordem mundial.

Somos testemunhas de inúmeros milagres. O emprego que chega no momento em que todas as portas pareciam se fechar, a volta do filho considerado perdido, a cura improvável que salva uma família são exemplos dessa sucessão de fatos inexplicáveis, atribuídos normalmente ao acaso.

O problema é que, com tanta escassez, nossos pedidos se limitam aos milagres prosaicos, que possam nos ajudar na sobrevivência. No fundo isso também é falta de fé, disseminada por todas as relações sociais, apesar de tanta reza e eventos lotados em estádios ruidosos. É costume esperar milagres como um casamento, uma herança, uma loteria. Jamais pedimos um jorro de luz na curva da estrada, quando somos derrubados pela evidência da intervenção do Criador, que nos fala diretamente.

Seria pedir demais? Acredito que não. No fundo, o que se espera de nós, almas eternas em passaportes físicos datados, é um pouco de lembrança da nossa essência. Mais do que o pão, que é apenas coadjuvante, necessitamos de inspiração, a graça suprema que paira sobre nós e fica a maior parte do tempo, invisível.

RETORNO - 1.(*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 11 de agosto de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

2. Imagem desta edição: Bill Clinton olha, emocionado, sua obra: a libertação das jornalistas americanas da Coreia do Norte, onde tinham sido condenadas à execução. Podem dizer o que quiserem, mas Bill Clinton é, talvez, o mais brilhante dos nossos contemporâneos (e ter seus defeitos apenas confirma que, dos simples mortais, pode surgir o gênio). Como é que ele convence um governo fechado e determinado daqueles a soltar as gurias? Milagre, só pode. Imaginem o Rumsfeld com o mesmo encargo. Seria recebido a rebencaço.

3. O único problema da foto é o gesto falso do Al Gore, o novo dono do "planeta" (que perdeu aquelas eleições por incompetência diante da fraude e pôs a culpa no Clinton). A emoção de Clinton é sincera, o sorriso confortador de Gore é fake. Muita ingenuidade minha tudo isso? Que me importa. Ainda acredito que as pessoas fazem a diferença.

10 de agosto de 2009

HIGH NOON: A SOLIDÃO DA CORAGEM


Nei Duclós

A morte chegará no trem do meio dia. À sua espera estão seus aliados: o medo, o egoísmo, a fuga. O facínora que sai da prisão para acertar contas tem apenas um adversário: o velho xerife solitário que o prendeu e agora vai enfrentá-lo sem ninguém ao seu lado. A Justiça se retira, a cidadania se omite, a religião se fecha, o casamento escapa das mãos, a noiva se separa. A comunidade é incapaz de reagir, sob a justificativa de que aquela briga não lhe pertence, está confinada ao homem que representa a lei, culpado de ter cumprido seu dever e que agora se vê abandonado pelo que acumulou ao longo da vida.

Que tesouro acumulado é esse? O reconhecimento dos cidadãos, que se esvai logo que chega a notícia do tiroteio próximo; a honra de quem viveu e lutou honestamente, e que, apesar da determinação, chega a entrar em pânico diante do desenlace; o amor da jovem esposa Quaker, avessa a qualquer tipo de violência, que o deixa por não ter escapado a tempo da armadilha. A hora e meia de tempo real em que transcorre a obra-prima de Fred Zinneman, High Noon (Matar ou Morrer, 1952, com Gary Cooper e Grace Kelly) é o baú do xerife que se esvai minuto a minuto. A decisão de se aposentar depois de ter desempenhado bem de sua missão revela-se inútil quando a pressão do destino o convoca para o último duelo.

Não há, no universo hostil, ninguém mais solitário do que Gary Cooper e sua estrela de lata, debaixo do sol que castiga com luz e calor insuportáveis. Vejam como, desesperado, procura quem o apóie e é recebido com a porta na cara, cinismo, voluntários incapazes de lutar (o bêbado e o adolescente). Veja como quase cede diante da possibilidade de sair a galope dali. Mas ele sabe. Viver é adiar o inevitável. Chega o momento em que não é possível mais escapar desse confronto. Velho, machucado, com apenas um revólver e algumas caixas e balas, o herói dividido palmilha a rua que lhe servirá de jazigo. Ele carrega o mundo nos ombros. Mas não por muito tempo.

A morte que chegará de trem é bem-vinda para os habitantes da pequena cidade. Os vagabundos do bar, o vendedor de bebidas, o recepcionista do hotel querem o mesmo movimento que existia antes de o bandido ser trancafiado. O facínora faz bem para os negócios. A vida pacata instaurada pela eficiência do xerife cansa a cidade perdida no mapa. Eles recebem com alegria o irmão do malfeitor e debocham da solidão do xerife. Num clima diferente, mas com os mesmos resultados, os piedosos e aparentemente indignados pais de família reunidos na igreja dizem que já pagaram pela segurança e não cabe a eles arrostarem com o perigo.

Só resta ao xerife o enfrentamento, decidido numa seqüência memorável e curta. A briga, no fundo, não importa. O que está em foco é a ligação entre a sociedade estabelecida e o crime. São faces da mesma moeda: o Mal é confundido com prosperidade e aventura, o Bem é jogado na vala comum da indiferença. O sub-xerife que cobiça o cargo agora vago e que se recolhe à bebida no momento decisivo representa essa covardia que se quer justa, essa decadência alimentada por boas intenções que se revelam falsas.

Feito o serviço, onde o herói contou não apenas com a coragem, mas com a sorte e a experiência de guerreiro, é hora de jogar a estrela na cara de quem o abandonou. São eles que agora estão sós, abraçados aos bandidos acolhidos por sua conivência. Estes estão mortos, mas outros virão. E foi o que aconteceu. Mais de meio século depois de o filme ter sido lançado, estamos todos às voltas com o poder crescente da criminalidade. Fomos omissos e, mesmo que contássemos com um herói para resolver o impasse, isso não era suficiente. Sabíamos que o destino iria se cumprir. Bastava que ficássemos à sua espera na estação, armados com aquilo que sobrou no xerife de High Noon: a coragem, essa certeza de que, pelo menos uma vez na vida, temos chances contra o que já está decidido.

Nosso medo inventa a tirania. Só poderemos derrotá-la se nos convencermos que não há fuga possível. O tempo – todos os nossos pertences e conquistas - escoou pelo ralo. Quando o trem apitar, é chegada a hora.

9 de agosto de 2009

PAÍS DOS PAIS


Nei Duclós

Não sou pentacampeão. Nunca fiz gols
Não sou verde-amarelo do lápis de cor
Nem gaivota de praia ou águia de Haia

Não sou patriota de duas bandeiras
Uma no escanteio, uma na grande área
Não troco de camisa na segunda vaia

Eu sou o país presente dos meus pais
Território sem fim, mar longe do cais
Paredão da serra em direção ao céu

Sou ruínas e glória, o grito e o sol
Chão podre de sombra, cachoeira de ar
Respiro História como um rastreador

Tome distância quando me vir passar
Preciso de espaço para meu embornal
Com verbos vivos a incendiar jazigos

Marcho na avenida, tenho cinco anos,
quem vai tremer diante da criança?
O tempo perfeito de compor canções

O segredo do pé repercute como ferro
Nos remos firmes em forma de braços
Faço gestos duros de trigo e sentinela

Cidadão sem brilho, sou o livre arbítrio
Escolhi o Brasil, nome de um destino
Distribuí rações para corações de vidro

Bato na madrugada, sílabas ressuscitam
Os sonhos se levantam como barricadas
Somos esse país que, teimoso, canto

RETORNO - Imagem desta edição: obra de Portinari.

8 de agosto de 2009

O QUE É ÉTICA?


Ética é a medalha de honra dos canalhas. Jamais é pronunciada pelas pessoas honestas e decentes, que não precisam apontar como algo externo e palpável o que faz parte delas, o fato de serem boas e justas diante dos semelhantes. Ética pode ser usada à vontade, principalmente para arquivar denúncias contra criminosos que brandem suas fichas para serem absolvidos de todas as acusações.

Hoje, a ética é bala na agulha. Multidões de militantes éticos estão preparadas para a guerra. Trabalham dia e noite aparelhando o Estado com suas certezas éticas e não vão largar o osso assim no más, depois de uma eleição onde saiam derrotados, por exemplo. Por mais de uma vez a nação foi ameaçada de violência se o poder que conseguiram mentindo sobre ética corresse perigo. A ética faz parte das:

PROFISSÕES BIZARRAS

ÉTICO – Especialista em tirar da reta, vai até as últimas conseqüências defendendo o seu. Pode até berrar em rede nacional: “o dinheiro é meu!” Assim, não haverá dúvida para que serve a ética.

PROVADOR – Café ou vinho, o provador profissional vive de ecas. Usa até babador, pois joga fora tudo o que põe na boca.

RECEPTADOR DE CAMISAS TROCADAS – É o sujeito que fica na boca do túnel recolhendo as camisetas suadas, trocadas nos intervalos dos jogos. Ele coleciona futum e pode conseguir bom preço por isso. Normalmente joga os souvenirs num canto e só aposta nas peças que poderão dar lucro. Tem faro para o negócio, pode-se dizer.

DEMOCRATA – Mix de Berlusconi com Chávez, o democrata nega que tenha armado os criminosos enquanto posa nu para as câmaras ao lado de prostitutas, mata estrangeiro ilegais remetendo-os de volta ao deserto em containers de aço, e ainda financia o carnaval do Rio. Sua palavra de ordem é: “Não radicalizemos”. Seu bordão: “Imprensa golpista”. Sua obsessão: “Ah,é? Então tu é tucano (petista)”.

SEGURADOR DE BANDEIRA - Deu no noticiário: carregar bandeira de partido ou de reivindicações é atividade remunerada, reconhecida pelo sistema político vigente. Pode até gerar aposentadoria, já que a democracia do Sarney completa 30 anos daqui a pouco.

EX-ESTRATEGISTA – Cargo de aposentado estabelecido, depois de levar a maleta cheia de dólares para o exterior, pagamento de sua anexação a governos que ele definiu como os mais corruptos da História. Tem sotaque gringo e faz caretas de Mussolini.

REVOLUCIONÁRIO – Usa barbinha e bolsa e aponta o dedinho para todas as direções. Toca e canta Viola Enluarada e grita No pasarán. Acredita ser El Che, mas não admitem que o mandem para a selva.

REACIONÁRIO - Separatista, quer que os Jardins virem principado e que ele e seus parentes sejam reconhecidos de raça pura. Vivandeira de quartel, fica nervoso com a falta de entusiasmo dos fardados.

CONTADOR DE MOEDINHAS - Vive na fila da padaria fazendo contas entre o número de pães a comprar e o preço que eles vão alcançar no sistema por quilo. Quando tira os trocados do bolso, sempre uma moeda de cinco centravos acaba rolando para baixo do balcão, o que o obriga a refazer a compra.

RETORNO - Imagem desta edição: Senate, obra de Gropper, um dos inúmeros grandes artistas americanos de vanguarda do início do século 20.

7 de agosto de 2009

PÁSSARO


Nei Duclós

É breve o pássaro
que ofusca a treva

e enfrenta a obscura
flor da ante-manhã

que antepõe o sol
à negra névoa

Por um instante o vôo
pousa o turvo manto

um relâmpago faz
o corpo estremecer

mas vence o véu da viúva
e tudo tarda

Por isso o pássaro
emudece o canto
depois de amanhecer

(Do livro "Partimos de Manhã")

RETORNO - 1. Imagem desta edição: Santo Antônio de Lisboa (praia aqui da ilha), foto de Ida Duclós. 2. O considerado Mestre Moacir Japiassu publicou como epígrafe, na sua festejada e importante coluna Jornal da ImprenÇa desta semana, no Comunique-se, um trecho deste poema e o colocou na íntegra no seu Blogstraquis. Diz Japi: "Leia no Blogstraquis a íntegra de Pássaro, cujo fragmento encima a coluna. Insere-se no livro intitulado Partimos de Manhã, obra-prima de um poeta que levanta com esforço as âncoras e parte nas naus sem volta do seu canto".

3. A imagem usada por Japi é outra citação de outro poema meu, "Apesar de tudo", que foi publicado no meu livro de estréia, "Outubro":

APESAR DE TUDO

Nei Duclós

Apesar de tudo
sou teimoso
e vivo
sou teimoso e visto
a pele dos soldados mortos

Neste carrossel de espanto
que carrego dentro dos olhos
toco melodias
que me ressuscitam

Levanto com esforço
as âncoras
e parto nas naus sem volta
do meu canto

E sempre tenho que mudar as velas
arrebentadas de vento
com remendos colhidos
dos violentos panos do tempo

O tempo é novo
e eu tenho a mania insone
de rebentar em pranto

Mas sou teimoso e insisto
sou teimoso e visto
a pele dos soldados mortos

6 de agosto de 2009

O ALCANCE DA BOLA


Nei Duclós

Bruno, o goleiro do Flamengo, não é tão eficiente quanto imagina ser. Eduardo Martini, goleiro do Avaí, não tem um décimo da pose e está fechando sua cidadela, enquanto Bruno deixa o Goiás empatar nos últimos minutos. Trata-se de se colocar ao alcance da bola. Bruno perde tempo dando uma de líder da equipe, quando não é. Deveria ficar na sua e se concentrar. Sua falta de foco é visível nos gols que tomou nesta quarta-feira no jogo contra os goianos. Como estava preocupado em ser o técnico do Flamengo na hora da onça beber água, a bola entrou obrigando-o a se jogar como tivesse esperança de pegar.

Foi um gesto falso. Ele sabia que o serviço já estava feito, mas precisava alimentar a imagem de goleiraço. Dirão: "É, mas houve o pênalti, que o juiz não marcou". Verdade. O empurrão dentro da área deixou o adversário com tudo para chutar. Mas Bruno ficou paralisado, porque estava prestando atenção em outra coisa. Isso foi fatal. Na sua atual fase, acho que Martini defenderia. No terceiro gol, que decidiu a partida, Bruno errou de novo, abaixou-se quase ao piso do estádio e quando a bola veio a meia altura, tranqüila de pegar se não estivesse naquela posição miserável, dava pena de ver com espichava, em vão, o braço. Ele, com sua postura, já tinha decidido o lance. As pernas curvadas, o tronco pesando dez toneladas, tudo remava contra o seu arco.

Vimos o oposto nas defesas impressionantes de Eduardo Martini contra o Corinthians uma rodada antes da de ontem. Martini estabeleceu um vínculo entre sua flexibilidade e a movimentação extrema do jogo. Seus reflexos funcionaram porque estava super concentrado. Ele não se acha um Rogério, o cara que manda tanto no time que ao se contundir a equipe cai pelas tabelas do campeonato. Martini segura o rojão apenas como goleiro e estabelece as bases para o Avaí subir mais na classificação (o time agora ocupa o sexto lugar). Mas tem jogadas em que os arqueiros não podem mesmo fazer nada, mesmo que tenham tomado todas as precauções e trabalhado no rumo certo.

É quando Petkovic (foto acima) entra em cena. O craque que voltou recentemente ao Flamengo disse a que veio no jogo de ontem contra o Goiás. O impacto não foram os dois dribles que o deixaram à vontade para bater em direção ao gol. O que pega em Petkovic é que ele encomenda a bola para fora do alcance do goleiro. "Ah, mas que coisa óbvia, todo cara que faz gol consegue isso". Não é verdade. Petkovic bate de uma forma que a bola ocupa um espaço impossível de ser alcançado sob qualquer hipótese. Ele faz isso quando chuta faltas. A bola é endereçada para um arquivo virtual, que só existe na imaginação dele. O goleiro se confunde e se atira naquele lugar onde acredita estar o biroço. Mas como não está lá, a bola entra. Como acontece isso?

Vejam o lance de ontem. Ele bateu na diagonal. A bola então teria cruzado a área numa velocidade imbatível. Mas a velocidade aqui não conta. Mesmo que o goleirão fosse o Flash, a bola entraria. Porque Petkovic chutou de uma forma que a bola trafegou, em curva, numa espécie de túnel de minhoca, aquela estrutura teórica que economiza espaço/tempo para viabilizar futuras viagens espaciais. Petkovic encaixou o embrulho nesse túnel em movimento. Claro que essa explicação é inverossímel e os túneis de minhoca nem foram comprovados. Mas o importante é o uso prático de uma proposta.

O craque bateu de um jeito que fez o goleiro desistir de tentar alcançar a bola já no início da jornada do chute. Inclusive, no vídeo, vemos como o braço do goleiro do Goiás está encolhido, como se não estivesse ali. O lance de Petkovic atrofiou o adversário. O jogo, a partir daí estava na mão. Mas Bruno colocou tudo a perder. Talvez o técnico Andrade, eficiente, seguro, tranqüilo, não tenha tido forças par enfrentar a determinação do inimigo, que do treinador aos atacantes deixou claro que não sairia do estádio Serra Dourada sem vencer. A sorte se rende a quem faz questão dela.

BRASIL É RESPONSÁVEL PELA PAZ NO CONTINENTE

Os países vizinhos se assanham, se armam e querem guerra. A postura covarde do Brasil, que se rende a todas as pressões, das tarifas de Itaipu às invectivas chavistas, desestabiliza o continente. Se houver qualquer guerra, mesmo uma guerrinha, o Brasil é o culpado. Somos um país com enormes responsabilidades. Não devemos deixar que a situação se deteriore, como acontece nas fronteiras, onde os cucarachas mandam nos rios limítrofes. Se você deixa à deriva um patrimônio como nosso território, então todas as vinganças e justificativas históricas emergem. Se não há nem sombra de uma possível tunda em quem se aventurar e se meter a engraçadinho, então o jogo está feito.

Não se trata de rosnar ou dar uma de machão. Mas alimentar nossos soldados com nutrição de atletas e não dar-lhe feijão com arroz e farinha. E aproveitar todo o contingente que completa os 18 anos para defender o país, inclusive do banditismo.

Leio sobre o Marechal José Pessoa (foto ao lado), que escolheu o local para ser construída Brasília ainda antes de JK, o maneiroso, no governo Café Filho. Pessoa assumiu um Conselho criado, claro, pelo Getúlio Vargas em 1953 (esse Getúlio!). Lucio Costa levou toda a fama, mas foi José Pessoa que idealizou o Lago Paranoá e a estruturação da cidade ao longo de dois eixos transversais. Soube que ele, José Pessoa, fundador do da Academia das Agulhas Negras, combateu eficazmente o banditismo no Mato Grosso quando assumiu a Região Militar de lá. O banditismo na era Vargas foi combatido pelas Forças Armadas, incluindo aí a surra em Lampião, tão celebrado pelos que “lutaram contra a ditadura”.

5 de agosto de 2009

REVANCHE


Nei Duclós

Sou avô, mas jamais fui neto
Por destino desenhei uma linhagem
Da nação sem lei sou a estiagem
E reponho a bandeira no meu teto

Abandonei o estrago das esperas
E fui em busca da camaradagem
Encontrei a exaustão da mocidade
E a tristeza terminal em cada cela

Eu que no passado fui tormenta
Na dor, assombro de esperança
Apaguei o futuro do meu rastro

Montei sem chances no deserto
Mergulhei nas pedras dos extremos
Hoje sou aço e cobro uma revanche


RETORNO - Imagem desta edição: Anthony Quinn como Auda abu Tayi em Lawrence of Arabia.

UMA HISTÓRIA DE QUINN COMO AUDA

Miguel Ramos me envia uma história verídica, contada pelo próprio Anthony Quinn: "Antes de ser oficialmente contratado para o papel de Auda Abu Tayi, precisava me encontrar com David Lean para obter a aprovação definitiva. Era só uma formalidade, mas os produtores estavam me pagando uma fortuna e eu queria que vissem que o dinheiro era bem empregado.

Lean já estava na locação, filmando no meio do deserto, portanto fui ao seu encontro já a caráter. Parei no quartel-general da produção para a figurinista me vestir os trajes apropriados e fui à tenda da maquiagem com uma foto de Auda Abu Tayi como modelo. Uma hora depois, com a barba e o famoso nariz adunco de Abu, eu convenceria o mundo de que era o próprio.

Iolanda, minha mulher, e eu seguimos de jipe até uma duna a poucas milhas de distância. Paramos a cerca de 300 metros de um rochedo dramático, sabendo que Lean estava do outro lado, filmando a cena daquele dia. De onde estavam, não veriam o jipe. Eu queria fazer uma entrada em grande estilo, surgindo das areias, a pé.

Não contei com a gente do lugar. Bem à frente havia uns quatro ou cinco árabes sentados sob uma saliência do rochedo, para fugir do sol do meio-dia. Sentavam-se juntos, como carneiros à sombra. Ao me avistarem surgindo no horizonte, começaram a saudar: "Abu Tayi, Abu Tayi, AbuTayi". Para eles eu era Auda Abu Tayi, enviado para livrá-los do sol quente, como uma miragem. Puseram-se a me seguir, em fila, até o outro lado, onde haviam me dito que encontraria a equipe. A saudação dos árabes se alteava, transformando-se num cântico feroz em honra de Abu Tayi. Elevado pelas vozes, fui conduzido em procissão ao set, onde Lean conversava com Peter O' Toole.

Disseram depois que os árabes causaram uma grande comoção, à qual pude assistir, e que fiz uma entrada grandiosa, à qual os outros assistiram. Lean interrompeu a conversa com O' Toole e perguntou a um assistente a razão do tumulto.
- São os árabes, sr. Lean - o assistente explicou. - Estão cantando em hora de Abu Tayi.
-E quem é aquele, o primeiro da fila?
-Não sei. Deve ser o Abu Tayi.
-Olhe - disse Lean -, O Anthony Quinn que se foda. Contrate esse cara agora mesmo."

Do livro "Tango Solo", de Anthony Quinn.

BILL CLINTON DIANTE DA MORTE


Pode ser que tudo tenha sido obra da estratégia diplomática do presidente Obama, ou do líder da Coréia do Norte, ou mesmo que Al Gore esteja por trás manobrando os eventos, ou então foi a mão providencial de Hillary, ou então porque não era mesmo chegada a hora das duas jornalistas americanas condenadas à morte no país que testa mísseis sobre o mar do Japão, vive fechado e põe todo mundo em polvorosa.

Sim, talvez seja isso. Mas quem apostaria que as duas seriam libertadas antes que Bill Clinton aportasse em terras conflagradas?

O fato, a verdade incontestável, é que algumas horas antes das duas jornalistas descerem sãs e salvas no aeroporto americano, foi Bil Clinton quem esteve presente diante do ogro, que convenceu a parede a tomar uma atitude em favor da liberdade, que foi Bill Clinton quem desatou esse nó. Segundo o NYT, ele se envolveu profundamente nesta que foi considerada a mais explícita ação diplomática americana numa década. Porque foi ele quem enfrentou a morte iminente de duas pessoas que estava para ser injustamente executadas. O que teria dito, cara a cara, este gênio que cometeu todos os erros possíveis quando era presidente, das guerras ao charuto erótico, mas que ao ser entrevistado diante das câmaras abre o verbo de maneira lúcida, ordenada, contundente e extremamente de vanguarda? E que é capaz de obras como esta?


Por que ele conseguiu? Porque foi presidente, porque tem carisma, porque sabe o que faz, porque joga de maneira certeira. Ninguém tinha certeza, nem Obama, que a operação seria bem sucedida. Tudo estava nas mãos de Clinton, que talvez seja uma das mais privilegiadas cabeças do nosso tempo. Você pode dizer: é um falcão, um cretino e tudo o que tem direito. Pode reclamar que aqui no DF eu bato no Obama e acabo elogiando Clinton. Mas escutem o que o cara tem a dizer. E vejam o astuto gênio quase chorando diante das câmaras olhando a libertação das duas jornalistas. Veja o estadista em ação e me digam se ele não encarna algumas qualidades perdidas, como a coragem, o brilho, o poder da inteligência e da persuasão.

Bill Clinton diante da morte: eis um momento especial das hardnews desta semana. Se eu fosse americano, o colocaria de volta na Casa Branca. Quando foi presidente, o mundo mudou radicalmente, lembram? Ou esqueceram como estávamos na idade da pedra antes de Clinton assumir o poder? Nem precisa acreditar nisso, mas é a pura verdade. Deveria assumir mais responsabilidades na gestão Obama, que quase foi dele, via Hillary.

Vejam só: no momento em que eu perdi a confiança em todo mundo, emerge a figura lendária de um contemporâneo, que deixa sua marca para o futuro. A posteridade lhe fará justiça.

AZUL NÃO É AZZURRO


Nei Duclós

Estão chamando o Avaí de esquadra azzurra . O motivo é que ambas as camisetas, a do chamado Leão da Ilha e da seleção italiana teatracampeã do mundo, teriam a mesma cor, azul. Só que a cor oficial do Avaí é o azul e a da Itália não é o blu, é o azzurro, que é outra coisa. O azzurro é uma cor base do azul, assim como o rosa é do vermelho. Chamar azul de azzurro seria o mesmo que chamar colorado de cor-de-rosa. Isso daria briga na certa. Numa definição da enciclopédia, “o azzurro é a cor do céu limpo, a do mar perto da costa e pode indicar um gama de tonalidades entre o celeste e o turquesa, ou ainda ser mais claro. A etimologia se reporta à cor da pedra lapislazuli”.

O céu pode ter vários tipos de azul. Conhecemos o blu di pinto de blu, o azul pintado de azul, do Domenico Modugno da canção Volare. Mas é melhor deixar os italianos com seu azzurro e manter o Avaí no azul tradicional, pois lá essa especificidade define uma nação, é sua grande representação, significa a unidade nacional italiana, que sempre foi um conjunto de nações independentes até que no século 19, a ferro e fogo, depois de séculos de guerra, virou o país que conhecemos. Como a Espanha, que luta contra o separatismo, a Italia também sofre dessa doença, basta ver como os sicilianos se sentem em relação ao norte do País, e vice-versa. Os italianos se definem mais pelo lugar de origem do que pela Italia propriamente dita.

É como aqui: ninguém é brasileiro até o momento em que o capitão Dunga levanta a taça e grita: “Está aqui esta merda, porra!” Aí somos brasileiros. A diferença é que lá, quando o Baggio joga a bola para os eucaliptos num lance decisivo da Copa do Mundo, ninguém cospe na bandeira nacional nem pede cidadania de cachorro paraguaio, como aqui, quando o Roberto Carlos vai arrumar as meias e os franceses entram com tudo. Bem, estava falando de um assunto sério, o azzurro como símbolo da Itália. Qual a origem disso?

A enciclopédia nos mostra que a origem da cor se refere ao 20 junho de 1366, quando o Conde Amedeo VI di Savoia, parte para uma cruzada, encomendada pelo Papa Urbano V, em auxílio do seu primo, o imperador bizantino John V Palaeologus. Di Savoia quis que a sua bandeira, a ser colocada numa frota de 17 navios e 2000 homens, fosse a cor do céu consagrado a Nossa Senhora, representada por sua imagem rodeada de estrelas de ouro. Esse azul específico, o azul di Savoia, sofreu diversas modificações ao longo do tempo até se transformar no atual azzurro, usado em todas as cerimônias oficiais da Itália.

É uma bela história, que define uma nação e seu povo. Não precisa ser copiada, num equívoco básico, passando por cima de tantos elementos históricos. É verdade que os azuis se atropelam na geléia geral da midia e insistir nisso poderia ser considerado pura perda de tempo, com repercussão zero. Mas pesquisei um pouco porque implico com a tendência de nos reportar a times e seleções de outros países. Isso virou moda de um certo tempo para cá. O futebol brasileiro pentacampeão do mundo acabou sendo punido, se transformou em celeiro de craques para times estrangeiros. Celeiro é uma palavra que se refere ao ambiente da roça e não a de uma civilização atlântica, como queria Glauber Rocha.

A garotada passou a usar a camiseta do Milan ou a do Real Madrid. Ou até mesmo a Azzurra quando alguém se considera “um bom italiano”, como dizem de sua linhagem os brasileirinhos desterrados, há muitas gerações, da Bota. Mas com a volta de Ronaldo e Adriano, e o Brasileirão pegando fogo, com exemplos heróicos como o do Avaí, que arrancou da lanterna para a décima posição em seis jogos, parece que a situação está revertendo. Os times brasileiros voltaram ao seu tradicional carisma e é bom que a cartolagem aproveite isso, pois há mais dinheiro em times consolidados com seus craques do que a venda compulsiva de talentos para qualquer transilvano que chegue sacudindo rúpias.

Há orgulho de vestir as cores do time. As do Avaí são a azul e o branco e não o azzurro italiano. O Avaí não precisa se mirar em exempos de fora. É time brasileiro, e de primeira grandeza. Quando aportei aqui vários amigos tentaram me empurrar para a torcida do Avaí. Mas não tenho mais time nenhumn, a não ser dois: o Esporte Clube Uruguaiana e o Guarani Futebol Clube, também da minha cidade e que ajudei a fundar quase cinquenta anos atrás. Já fui corintiano e gremista, não sou mais. Torço para todos os que mostrem o melhor futebol. É o caso do Avaí, que tem um baita equipe, um goleiraço e pode aprontar muita coisa ainda, o glorioso azul e branco aqui da ilha.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: os azuis da Lagoa da Conceição e do céu da ilha, foto de Miguel Duclós. 2. Tinha errado o título desta edição. Agora está certo.
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4 de agosto de 2009

MANÁ DE ESTRELAS


Nei Duclós

Navegadores fazem colheitas de estrelas. Precisam do brilho para alimentar as sereias, que segredam os confins da rota nos ouvidos de marujos exaustos da espera. Na calmaria, os desesperados fixam o olho na massa informe de sombras, miragens de monstros extintos. O que estava próximo se dissipa na véspera da ilusão mais grave, o grito salvador que viria da gávea. O que fica é a sede, delírio de uma última chance, a de descobrir o rumo pela voz das traiçoeiras habitantes das ondas.

As sereias exigem constelações atraídas pelos mapas. Querem o sangue das criaturas que assombram os heróis antes do abismo. Elas exigem que as estrelas mergulhem e sejam dissolvidas no repasto. O que sobra são colares que aos poucos somem de vista, para desespero do céu que tenta recuperar parte do seu tesouro. Fartas, as sereias brincam com as preciosidades e só então sopram o norte para navios enredados em sargaços.

Ermos de estrelas, os navegadores ficam à mercê do canto sedutor, cada vez mais longe. Aos poucos, são abandonados, sob um lençol insípido de tormentas, que vieram rebentar porões, amedrontar os grumetes. Ficam intactos apenas os veteranos caçadores de pérolas, os egressos de tombadilhos perversos, os que repartiram bandeiras misturadas a ossos. Esses persistem, amarrados aos mastros para não enlouquecerem diante da armadilha das musas.

Soube de um navio fantasma que no porto carregou mantimentos como se vivo fosse, arregimentou tripulação, distribuiu favores. Era capitaneado por Ahab, o sobrevivente da loucura. Ele queria de novo ir à forra, não contra baleias brancas ou submarinos do futuro. Sua meta era trazer de volta as sereias, seres de uma outra era, distraídas em afundar escotilhas quando tinham nascido para mundos sem escamas. O louco queria libertar a lenda e devolvê-la à areia.

Só que ele não contava com a natureza de seu barco, espírito que anda sobre esmeraldas e prata. Aos poucos, perdeu os frutos trazidos de ilhas ancestrais e diluiu-se. Idêntico ao sangue vertido na superfície, depois que as mulheres misturadas a peixes deglutem os diamantes celestes presenteados por antigos piratas. São destino e desperdício, restos de pedras de ângulos perfeitos, maná de estrelas para escunas que vagam em vastos oceanos.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: obra do acervo da artista plástica, editora de arte e ilustradora Juliana Duclós. 2. Crônica publicada no dia 4 de agosto de 2009 no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

SUCATA NO AR


Nei Duclós

Tudo faz sentido. A sucata moral tem a ver com a sucata física. A segunda é fruto da primeira. O calhambeque que quase matou os passageiros numa zona de turbulência, no vôo entre Rio e Estados Unidos, carregava 168 pessoas amontoadas, que, por se tratar de gado, nem foram avisadas do perigo. Teve gente que furou o teto. Espalhou sangue por todo lado. Outra sucata, a que carregou a adolescente em coma num vôo entregando-a morta para os pais, faz parte de uma companhia irresponsável, que freta encomendas irresponsáveis de agências de viagem irresponsáveis. E por que um pai entrega uma filha, menina, nas mãos dessas gangs do turismo de massa para visitar aquela bomba que é a Disneylandia? Tudo é lixo, que sobra no ambiente político brasileiro.

Quer dizer então que Collor e Renan sabia que o Simon estava com o rabo preso numa maracutaia da carne podre de Chernobyl e só agora denunciam? Ou não era maracutaia ou era, então é crime o silêncio. Calheiros: “O senhor conhece a PortoSol, senador Pedro Simon? Conhece?” Silêncio no plenário. Simon baixa a cabeça. (Nota: A PortoSol é uma instituição comunitária de crédito que tem como presidente, desde 2006, Tiago Simon, filho do senador). Quer dizer então que o Collor está rosnando, mandando os outros engolirem as palavras? Daqui a pouco ele se candidata a presidente, com apoio do Lula. Esperem e verão. Teremos então Collor no Planalto, Dilma no Ministério da Defesa, Palocci no governo do Estado, Sarney como chanceler, Renan na Casa Civil e a bandidagem cobrando pedágio da população em todas as ruas.

Uma coisa é certa: quanto mais denunciam, quanto mais batem, mais ficam firme. Por que será? Porque estamos numa ditadura, não canso de repetir. Se fosse uma democracia, estavam todos presos. Como então se descobre as relações incestuosas do cacicão com elementos de judiciário e fica assim? Ou não fica assim, vai se arrastando, arrastando, até que de repente, podem apostar, Maluf vai ressurgir mais inocente do que nunca. A sucata é para nós: as viagens criminosas, as sessões políticas asquerosas, as figuras lombrosionas, as mentiras e os achaques. Para eles o luxo: castelos, viagens internacionais de primeira classe, foto com Obama, entre outras mumunhas.

E dá-lhe censura. Proibiram o Estadão de publicar denúncia sobre o filho do fundador da ditadura civil. Todos os dias tem um exemplo de censura à imprensa. Por que? Porque estamos numa ditadura, será possível que precise repetir? Todos os dias falam que isto ou aquilo não pode acontecer numa democracia. Por que será? Ora...Essa ilusão persistente, a de que nos livramos da tirania, é o mimo apodrecido que guardamos nesta vida falsa, que são os últimos 45 anos da política brasileira. Desde 1964 experimentamos o terror de viver à deriva, apartados do mundo civilizado, só que não nos damos conta. Primeiro foi a juventude, a bossa, o rock. Depois a “luta contra a ditadura”. Depois, a “democracia”. Nossa esperança foi loteada e vendida no mercado a futuro, que era sinistro.

Mientras tanto, eles permaneceram no poder e fazem gato e sapato do teu voto. A verdade é que não vencemos porra nenhuma. Fomos derrotados de cabo a rabo. E ainda levamos a culpa de eleger energúmenos, sabendo que tudo é carta marcada. Collor confessou ontem em plenário que sua candidatura em 89 nasceu num instituto de pesquisa. Claro, onde mais? Não temos “bases”, nem quadros, nem opinião pública. Temos militantes raivosos ameaçando por para quebrar a qualquer movimento de liberdade de imprensa, codinominada de golpista. Esses dias li que o Sarney lutou contra a ditadura. Que fenômeno. Por décadas apareceu na TV com o cabelo e a cara lambidos exercendo o cargo de presidente do partido da ditadura. Daqui a pouco vão dizer que o Médici, o Geisel, o Costa e Silva, todos lutaram contra a ditadura. Vai ver, quem sempre foi a favor da ditadura fomos nós, palhaços desse circo de horrores, fazendo rir uma platéia de monstros carregando um machado nas costas.

Essa talvez tenha sido a imagem mais assustadora que vi quando criança: no circo, um palhaço levou a machadada de outro palhaço e ficou de um lado para outro, curvado, com aquele troço nas costas. O que mais me dilacerava era que todo mundo ria!

Não temos democracia, mas temos blogs. Por enquanto.

RETORNO - Falando em blog, visitem o Blog do Virson : poesia, memória, crônica, tudo junto num espaço de primeira grandeza, de autoria deste aamigo escritor e jornalista, que finalmente dá as caras para todo mundo ver. Grande Virson Holderbaum.

Mais blogs: o do Noblat, sobre a crise do Senado, está ótimo. De quebra, um vídeo do baú: Lula batendo em Sarney em 1989, quando éramos mais trouxas.


Muito pesada esta edição? Leiam então minha crônica publicada hoje no caderno Varidades, do Diário Catarinense, Maná de estrelas (que vou postar mais tarde aqui, em edição especial).

2 de agosto de 2009

DOIS ESCRITORES DAQUELAS REDAÇÕES


Nei Duclós

O copy-desk, profissão extinta, era o lugar onde se refugiavam os escritores. Como não há profissão de escritor, éramos empurrados para acertar o texto alheio, cuidar do fechamento e pendurar piadas no mural, pois não podíamos deixar de exercer a verve vinda do berço. Em Blumenau, em 1971, na inauguração do Jornal de Santa Catarina, tive a sorte de trabalhar com um dos grandes e saborosos textos da minha geração, Virson Holderbaum, hoje usufruindo sua digna aposentadoria depois de décadas na militância jornalística, onde fez de tudo, de reportagem a edição, projetos especiais sobre cidades e campos, rádio e jornal, entre muitas outras coisas. Conheci Virson na faculdade, onde falávamos mal de esquerdistas e reacionários e víamos todos os filmes cults da época, que sobravam em inúmeros cinemas vazios (por isso fecharam, fime cult ninguém vê).

Virson é a referência e a base de alguns personagens meus, como o conde que vive no ermo num castelo cercado por quilômetros de uma hinterland oculta, e o bom vivant Alípio, do meu romance Universo Baldio, que recentemente foi lido por outro amigo, Antenor Nascimento, com quem trabalhei na redação da Istoé. Antenor é o chamado puta texto, uma elite de centroavantes da linguagem muitas vezes desconhecida do público, mas que formam, mesmo sem querer, uma confraria secreta, que se entende por sinais a distância.

Numa carta recente, Antenor lembra as redações clássicas, onde vivemos por décadas: “Quanto àquela época, foi uma das melhores. Não por causa do trabalho, claro, mas de tantos amigos bons. E, além disso, foi um tempo em que ainda podíamos fumar, beber e falar da vida alheia sem a censura dos chatos que existem hoje. Sabe, né? Os bambis, os dumbos, a disneylândia inteira que brotou de repente. Nos meus últimos dias numa redação, a garotada toda usava camiseta debaixo da camisa e ninguém -- ninguém -- saía pra tomar um drinque depois do fechamento. Odiavam o ar condicionado da minha sala. É uma geração que sente frio, mesmo no verão.”

Recuperei o contato com Antenor, que comentou já O Refúgio do Príncipe, postado aqui (na seção Retorno). Desta vez, ele fala sobre meu romance, num depoimento que transcrevo a seguir. Do Virson Holderbaum, publico na sequência uma crônica sobre seu querido Avaí, a sensação atual do Brasileirão. Virson vê o fantasma de Nelson Rodrigues pontificando sobre o milagre do time que saiu da lanterna e hoje está encostando nos líderes. Como costumo sempre publicar textos meus, é bom lembrar que nesta edição, existem dois autores assinando. Se reproduzirem os textos, atenção para os créditos!

ENCONTRO FUGAZ COM O FANTASMA DE NELSON
NA NOITE FRIA DA RESSACADA


Virson Holderbaum

O jogo já terminara e eu me encaminhava para a saída quando vi aquela figura pachorrenta, cigarro fumegando entre os dedos, a contemplar o gramado vazio.

Parado, fixei o olhar naquele terno escuro, achando que era algum sósia, mas não, ele estava lá mesmo, idêntico, com o mesmo olhar bovino a ruminar seus mais sórdidos personagens de “Bonitinha, mas ordinária” e “Os Sete Gatinhos”.

Já sabem de quem estou falando. Por mais absurdo que possa parecer, lá estava eu, no estádio silencioso, diante do fantasma de Nelson Rodrigues, o Anjo Pornográfico.

Pensei até em saudá-lo com uma expressão jocosa, tipo “e aí, cara, descansando à sombra das chuteiras imortais!”, para quebrar o gelo, mas achei melhor não arriscar. Ele poderia me virar a cara, me esnobar, me ignorar, ou pior, desaparecer de vez.

Cheguei mais perto e me sentei a umas quatro cadeiras dele, na mesma fileira. Então ele se virou pra mim e disse com o olhar “sampaku” e a inconfundível voz arrastada:

- O futebol do Avai é uma reinvenção surgida do Nada Absoluto só para contrariar os comentaristas de abobrinhas e emudecer o ego doentio das grandes torcidas. Ái de vós corintianos e flamenguistas de botequim! Esse timinho que não valia uma nota de 10 reais está jogando um futebol luxuoso como sofá de marquês.”

Tossiu devagar e calou-se.

Não havia mais dúvidas. Era mesmo ele. Ou o fantasma dele.
Virou-se novamente na minha direção, e sem me olhar, continuou:

- Faz pouco debochavam desse time dando gargalhadas convulsivas. O Avaí era a Tartaruga Sentada no Poste da Série A. Ninguém sabia como tinha chegado lá mas todos sabiam que ia descer. Pois agora eu digo que a tartaruga criou asas e voa altaneira sobre todos os postilhões da primeira divisão. Eu saúdo a Tartaruga Voadora da Ressacada. Longo futebol a esse Possesso Redivivo que vocês chamam de Muriqui.

Tossiu mais uma vez enquanto esmagava o toco do cigarro com a sola do sapato. Foi se levantando vagarosamente, ajeitou o casaco no ombro, a camisa branca de linho semi-aberta no peito. Já passava da meia noite, o sereno congelava as cadeiras de plástico do estádio mas o fantasma de Nelson não sentia frio nenhum, como se fosse um Vampiro da Transilvânia.

Fomos caminhando devagar em direção a saída, eu na frente, ele um pouco atrás. Me distraí imaginando como estaria o trânsito no Trevo da Seta e quando meu pensamento voltou me dei conta que a figura de terno escuro já tinha desaparecido.

A MAIS RETA LINHA DA VERDADE

Antenor Nascimento

"Caro Nei. Vou resumir aqui o que achei de Universo Baldio. Deixo de lado a beleza da linguagem; você já conhece a minha opinião.

Li a carta do Raduan Nassar. Discordo dele. Embora o Segundo Tempo seja excelente, e muito bem coordenado com o primeiro, foi a República de Itaguaçu o que me emocionou mais. A história sangra. Comove. Lendo esse texto sincopado (como diz o Nassar), a gente mergulha no pesadelo dos anos 70.

Você traça o retrato exato de uma geração cujos sonhos (e os propósitos) foram cortados com um canivete rombudo. Os personagens da casa-cor-de-rosa são desordenados, desorientados, incongruentes. Perturbadores. Figuras do limbo.

Eu não vivi esse tempo, pelo menos como adulto – o meu relacionamento com a ditadura do general Médici começou em 1974, quando quase fui expulso do Colégio Olavo Bilac por causa de uma discussão com a professora de Patriotismo (na época, a matéria se chamava Educação Moral e Cívica) sobre a revolução. Mas conheci vários dos caídos de 1968-1970 e, na medida em que isso é possível, também vivi a experiência dessa época calcinada.

As doze síncopes do Primeiro Tempo abrem essa ferida sem piedade. Já li vários livros que raspam esse tema. Nenhum deles vai ao drama central, que é o das pessoas. O teu é o primeiro. É uma pintura de Goya.

Sobre o Segundo Tempo. Esse diálogo com o fantasma, que traz de volta a infância e que faz Luís livrar-se e encontrar o seu refúgio numa viagem que acaba em alto-mar, toca a gente de outra maneira. Ele faz refletir. Veja. Fiquei eu aqui, na minha mesa velha, numa tarde de domingo, imaginando uma conversa com meu avô. Lembra? O tenente da Força Pública. Ele me dizia: Você acha que fez grandes coisas, macaco? Só porque escreveu algumas gozações? Eu cacei jagunço no noroeste de São Paulo, salvei gente na trincheira de Piquete, criei teu pai e, quando fiquei cego, não dei um pio de reclamação.

Anotei frases perfeitas. Lá vai: 1. ...colecionava detritos verbais no bolso da camisa...2. Mas é guri mesmo. Tem quase cem anos e morre de medo do pai. Vai te lasquear. 3. Continuas malcriado, mas pelo menos aprendeste a me chamar de general.

Por fim, Nei, duas outras coisas que me dizem algo muito forte, embora eu não saiba exatamente o quê. Primeiro, o 38 em cima da mesa – aquele que também aparece em Refúgio do Príncipe. Segundo, a palavra travada, que não se desata, a não ser no fim: o filho, ou o mar.

Esse é o melhor serviço dos escritores. Você lê e sente, mas é um sentimento tão enterrado que a gente não consegue pescá-lo para a razão.

Isto aqui não é um panegírico, nem uma cortesia de amigo. Como dizia o meu avô em momento de solenidade, é a mais reta linha da verdade.

RETORNO – 1. Imagem desta edição: Batalha do Avaí, de Pedro Américo. Assim, ilustro duas paixões dos nossos escritores homenageados de hoje: a palavra Avaí ligada à luta pela vitória, tema de Virson, e a história militar, um dos hobbies de Antenor. 1. Vimos como a leitura de Antenor é pura literatura, de escritor que estoca também seus fantasmas. Queremos mais textos teus, Antenor, sobre tuas vivencias, lembranças, andanças. 2. Virson está animado: “Estou lutando pra terminar as memórias. Estive na serra gaúcha onde vivi infância e adolescência, reencontrei pessoas da época, foi emocionante. Trouxe mais material e mais trabalho.Ah, e estou fazendo blog!”