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20 de agosto de 2004
UMA FALSA REVISÃO HISTÓRICA
Agora que a obra de Getúlio Vargas foi destruída e o Brasil voltou a ser o brinquedinho do mundo, graças aos governichos de Sarney a Lula, comete-se a heresia de fazer tardiamente o que a História exigia o tempo todo: encarar o grande presidente sem as picuinhas que mancharam a sua memória. Pena que esse tipo de falsa revisão histórica (que só chega agora, não por coincidência, depois da comoção provocada pela morte de Leonel Brizola) envolva gente de bem como nosso amigo Antenor Nascimento, autor da matéria de capa A Força do Líder, da última Exame. Os textos de Antenor, em sua maior parte, procuram fazer justiça à herança de Vargas. Mas o grave é o tratamento dado à edição e os artigos assinados por FHC, Maílson da Nóbrega e Bóris Fausto.
FECHAMENTO - Antenor Nascimento, jornalista de primeiríssimo time, não coloca em sua matéria que a definição de Getúlio como inventor do Brasil moderno é de Samuel Wainer, que assinou essa frase numa edição especial do Folhetim, encarte da Folha de S. Paulo criado por Tarso de Castro e editada por este e Nelson Merlin. Usa a expressão, infelizmente sem dar o crédito, para dar o tom desta edição 824 da revista. Ao fazer justiça a Vargas, ele destaca algumas colocações importantes como desmentir a acusação de que as leis trabalhistas eram de inspiração fascista. A matéria coloca como fonte das leis a OIT, Organização Internacional do Trabalho, mas Gilberto Vasconcellos já foi mais fundo, pois descobre as fontes das leis de amparo ao trabalhador no Patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrada e em Julio de Castilhos, inspirador de Getúlio Vargas em quase tudo, na maneira de governar, na educação etc. O texto de Antenor é um primor, mas o fechamento (títulos, olhos, legendas, fotos) é de uma má vontade sem fim. Primeiro, adoram colocar o Getúlio apenas de bombacha, como se ele fosse um palhaço fantasiado de gaúcho. Getúlio pertencia a uma geração letrada, sofisticada e rica de jovens intelectuais, conforme podemos ver nas memórias de João Neves da Fontoura, o grande tribuno da revolução de 30. Cosmopolitas, eles tinham acesso à cultura internacional e liam no original os grandes autores da época. Por isso é de gargalhar que Antenor, paulistano da gema, fique impressionado como Getúlio conseguiu liquidar a ditadura civil de 40 anos em apenas um mês, se ele, diz Antenor, era um gaúcho de uma cidade do interior, São Borja. Como si ser gaúcho fosse como ser um macaco, uma criatura ágrafa, que nasce em cima de um cavalo e se afoga em mate.
POVO - Quem nasce em Sampa acha que todo o resto do Brasil é um grotão só. Pois deviam conhecer São Borja, Uruguaiana e ter contato com um pouco de civilidade e civilização. Conheçam esse gentleman, Cabeto Bastos, esse ator magnífico, Miguel Ramos, esse fotógrafo de primeiro time, Anderson Petrocelli, esse músico de vanguarda, Bebeto Alves, esse poeta, J.A. Pio de Almeida e me digam se na fronteira tem gente bruta. Venham apertar as mãos das pessoas da fronteira gaúcha e entendam porque mudamos o Brasil quando nos levantamos em armas como um só homem e nada nem ninguém conseguiu nos segurar. Porque tínhamos Oswaldo Aranha, Batista Luzardo, Getúlio Vargas. Por isso, quando morre Brizola o povo sai à rua para chorar o choro perdido do desespero sem fim. Porque o povo sabe quem sempre esteve ao seu lado. A isso chamam populismo, os bandidos que venderam o Brasil. Além de colocar Getúlio de bombacha, a edição estampa fotos grotescas de Franco, Mussolini e Bismarck, como se Getúlio pertencesse a um biotipo de ditadores totalitários fantasiados. Getúlio era o fino da bossa. Escrevia o fino, era um orador fantástico e tinha um notório bom humor. Aliava essas qualidades a uma seriedade para governar reconhecida em outro texto da edição, da autoria de Maílson da Nóbrega. Este, declara o óbvio: Getúlio jamais teve irresponsabilidade fiscal e quem detonou as contas públicas foi o mineirinho sestroso, Juscelino Kubistcheck, eleito nas águas de Getúlio Vargas (apoiado pelo PTB e PSD, fundados por Vargas). JK, hoje tão incensado, foi quem deu início à dilapidação do patrimônio nacional criado pelo grande presidente. Mailson cita Boris Fausto (autor de outro texto na edição), que reforça mais uma calúnia: Getulio teria reprimido os esforços organizatórios da classe trabalhadora urbana fora do controle do estado atraindo-os para o apoio difuso do governo. Como lembrou uma vez Brizola, quando Lula chegou no ABC, o sindicato estava lá porque Getúlio garantiu a existência da organização com o apoio da polícia, já que os patrões não queriam nada disso.
SALVAÇÃO - Exame traz também um texto absolutamente execrável e mal escrito de autoria do FHC, um pernóstico criminoso que usa expressões como algo fundamental. Parece aqueles redatores ruins que implantam um a rigor para dar consistência ao texto frouxo. Mas FHC é a pessoa que jogou o Brasil fora, vamos pular. O importante é comentar o preciosismo de Boris Fausto, que usa os jargões velhos dos anos 90 para justificar a destruição da obra getulista. Ele diz que as reformas, a responsabilidade fiscal (tudo o que pregaram e jamais fizeram), além das as privatizações (sucateamento da riqueza do povo), a abertura (destruição do parque industrial brasileiro, para implantar a presença maciça da pirataria internacional) substituem o sistema criado por Getúlio. Este estaria defasado e encarnaria o papel de herói salvador da pátria. O tosco senhor esquece que Getúlio é considerado um salvador porque fez coisas concretas a favor do povo e do Brasil, não porque fosse um mágico especializado em ludibriar quem quer que seja. Se fosse um enganador, estaria esquecido. Exatamente porque foi sério, responsável, profundo e um gênio político é que é lembrado e nulidades como Fausto precisam pagar o mico de tentar enquadrá-lo. Fausto, respeite quem morreu pelo país. Honra e glória aos heróis da pátria.
RETORNO - Brizola morreu e a mídia foi alegremente enterrar o trabalhismo. Talvez venha de mais esse equívoco a tranqüilidade com que se tenta dar agora crédito ao presidente Vargas. Como não há mais perigo de se cumprir novamente a profecia de Samuel Wainer (Ele voltará), chegou a vez de relaxar e gozar. Só que o resgate é feito sempre nas águas pôdres da ilusão colonialista, de que temos um destino a cumprir, o de sermos periferia para o resto dos tempos (por isso Vargas, o inventor do Brasil soberano, continua sendo isso e aquilo, na visão torpe dos seus inimigos). O que Lula (que considera os jornalistas uns covardes) está fazendo com a Amazônia é motivo para insurreição popular em todo o país. Lula, num ato nada falho, disse que gostaria de aprender com o ditador da República Dominicana como ficar 37 anos no poder. Vejam aí a ironia: esse tipo de gente que governa o país adora adotar os crimes que eles sempre atribuíram a Getúlio. Lula deve tudo a Vargas e Brizola. Estudou no Senai, fundada na época do Estado Novo e foi fazer carreira no sindicato, garantido por Getúlio com o apoio da polícia. E elegeu-se com o apoio do trabalhismo. O samba não mente: ele pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão.
19 de agosto de 2004
VIGÍLIA DOS HERÓIS EM AGOSTO
O Diário da Fonte está num ritmo de mais de uma edição por dia. O cruzamento da História do país com memória pessoal, o resgate de um sonho de paz que levou bomba no Iraque, um passeio pelos eventos mais importantes da primeira metade do século vinte, tudo isso está na mão com um simples toque do mouse, basta rolar o cursor. Hoje, 19 de agosto, primeiro aniversário da morte de Sérgio Vieira de Mello, encerro a Semana a ele dedicada e publico mais três poemas sobre o melhor dos brasileiros. Este Diário continuará nesse ritmo pelo menos até o próximo dia 24, cinqüentenário do suicídio do Presidente Vargas.
LIMITE
Nei Duclós
Da terra que palmilhaste
Com as botas de peregrino
Do fôlego sem desgaste
Enfim te coube um limite
Não havia outro meio
de impedir a tua sorte
e mesmo já quase morto
Deus sabe que tentarias
Negociar mais um instante
para consertar o destino
Não era outro o motivo
daquele sorriso claro
Senão convencer a Morte
A desistir da visita
SE TE CABE UMA BANDEIRA
Nei Duclós
Se te cabe uma bandeira
Nenhuma outra seria
mesmo sabendo que todas
em teu perfil caberia
Já que dos povos ganhaste
estrelas na biografia
e qualquer nação quisesse
teu registro como filho
Embora tenhas partido
da terra que te amaria
mesmo que te obrigassem
amargar interno exílio
É o pavilhão do Brasil
que deve ficar contigo
NÃO DIGO FATALIDADE
Nei Duclós
Não digo fatalidade
Quando a vontade decide
Não está nas mãos de Deus
O caminhão de explosivos
Não digo fazer o quê
Quando matam o estadista
Não me coloco à mercê
Das imposições do crime
Não me conformo perder
o que de fato já tínhamos
Não posso me recolher
quando a metralha se anima
A História mais uma vez
Não me protege, me obriga
RETORNO - Além de ter criado e manter em constante evolução o estupendo site Consciencia, Miguel Duclós, generosamente, é o webmaster deste Outubro. Não contente, estréia também com seu blog, que de cara traz três posts assombrosos cruzando Matrix com Castañeda e criando massa crítica em cima da Teoria da Conspiração, além de resgatar presenças da cultura clássica na geléia geral da cultura audiovisual. Miguel não está na Internet a passeio.
HOUVE GUERRA, HOUVE MORTE, HOUVE SANGUE
Hoje respondo a maior parte das perguntas que formulei, impulsionado pela incredulidade de uma leitora sobre minhas análises históricas. Sempre fico impressionado com o que os professores não ensinam para os estudantes. Fiquei sabendo que professores de jornalismo dizem que a diferença entre texto de jornal e de revista é que o primeiro é feijão-com-arroz e o segundo tem que dourar a pílula. O primeiro é pão-pão-queijo-queijo e o segundo tem que ter nariz de cera, aquele início nada a ver que tanto cansa os leitores. Esse é um crime pedagógico altamente prejudicial ao futuro da imprensa. Mas vamos à História, que é um enigma nas salas de aula, graças à má fé, ao despreparo e às distorções de grosso calibre.
P - Por que e como Getúlio Vargas assumiu o poder em 1930?
R - Porque o governo da República tinha perdido contato com o país e governava sob férrea ditadura, impondo sua vontade contra as reivindicações populares e de algumas regiões. Havia marginalização geral de pessoas e estados. A pressão armada, via revolta militar e civil, foi violenta desde a renúncia de Deodoro em 1892. Três guerras marcaram os 40 anos da ditadura civil da Primeira República: a de 1893-95, a de 1923 e a de 1924-1927. Getúlio assumiu o poder ao fazer-se líder de uma reivindicação nacional por mudança. Presidente do estado gaúcho, Getúlio contou com a estratégia militar bem sucedida de Góis Monteiro, da liderança revolucionária de seu secretário de Justiça, Oswaldo Aranha, das tropas dissidentes do Exército e das forças estaduais de três estados sublevados (RS, Minas e Paraíba). Houve guerra, houve luta, houve sangue, houve morte. A guerra começou dia 3 de outubro. No dia 24, o presidente Washington Luis foi derrubado pela parte das Forças Armadas até então legalistas, que quiseram assumir o poder. Oswaldo Aranha não deixou. Embarcou num teco-teco e desceu no Rio de Janeiro para impor as condições. Podemos vê-lo alto, jovem, só e com um cigarro no canto da boca, pisando firme na capital da República, para falar com militares de alta patente. Eis um homem de coragem, Oswaldo Aranha, que tem um biógrafo respeitável, o brasilianista Stanley Hilton, autor de um livro obrigatório sobre esse grande personagem, que foi o primeiro secretário geral da ONU e que viabilizou o estado de Israel (sim, ele era getulista, que dizem ser anti-semita, não é mesmo?).
P - Por que Getúlio enfrentou a guerra contra integralistas, comunistas e militares revolucionários nos anos 30?
R - Getulio tornou-se chefe do governo provisório e enfrentou cerrada oposição, a começar por São Paulo, que declarou guerra dois anos depois. Getúlio venceu a luta e conseguiu pacificar o estado. Os comunistas tentaram dar o golpe em 1935, mas o esquema foi mal planejado e o tiro saiu pela culatra. Os envolvidos foram deportados (um deles morreu torturado) e o líder da revolta, Luiz Carlos Prestes, ficou preso por dez anos. Prestes só foi solto em 1945, quando saiu candidato vitorioso ao senado, num mandato que durou apenas até 1947, quando seu partido, o Comunista, foi colocado fora da lei pela presidência do Marechal Eurico Gaspar Dutra. Os integralistas de Plínio Salgado sentiram-se fortes com seu sucesso popular (existiam um milhão de militantes integralistas no país, usando camisa verde e levantando o braço na saudação de inspiração nazista anauê). Cercaram e tirotearam o Palácio. Alzira Vargas (autora do belo livro Getulio Vargas, meu pai) pegou em armas para defender o governo. Os integralistas também foram derrotados.
P - Por que instaurou o Estado Novo em 1937?
R - Getúlio prometeu eleições, mas deu o golpe de estado em novembro de 1937 instaurando o Estado Novo, com Congresso fechado e imprensa censurada. Coincidiu com a época da guerra, desencadeada em 1939, a crise das grandes potências e o ocaso do liberalismo em todo o mundo. Declarou guerra às potências do Eixo (Alemanha e Japão) pressionado pelas manifestações populares depois que navios mercantes brasileiros foram afundados pela marinha alemã. A FEB, Força Expedicionário Brasileira, foi lutar na Europa e voltou coberta de glórias, sendo sua mais famosa batalha a de Monte Castelo (que Tabajara Ruas quer filmar com o sugestivo título A cobra vai fumar, slogan dos pracinhas da FEB; o roteiro está pronto, onde está o patrocínio para nosso primeiro grande filme de guerra?). Os motivos do golpe do Estado Novo, segundo os inimigos de Getulio, são de que esse sempre tinha sido seu objetivo, já que era mesmo um ditador. Estudei pouco o Estado Novo, mas duvido dessa tese. O golpe foi dado por um chefe de Estado pressionado pelas tentativas de desestabilização. Nada justifica o fechamento do regime, mas durante o Estado Novo Getulio viabilizou o parque industrial por meio da Usina de Volta Redonda, transformou o salário dos trabalhadores para níveis idênticos ao dos europeus, pagou toda a dívida externa e o Brasil ganhou prestígio internacional, sendo bajulado por todas as grandes potências. Não é pouco. Seu chefe de polícia, Felinto Muller, é o personagem mais polêmico: relatos (e documentos, acredito) confirmam que ele exercia tremenda censura à imprensa, prendia, matava e torturava. No Estado Novo, o Exército tornou-se enfim unido e foi a principal base de apoio do regime. Eis um período riquíssimo para ser decifrado pelos historiadores, longe da campanha de difamações que envolve o ex-presidente, que era apoiado pela população, tanto é que voltou ao poder em 1950 pelo voto direto.
P - Por que foi derrubado em 1945?
R - Porque havia uma nova ordem internacional e as forças armadas brasileiras tinham sido cooptadas para a divisão que mais tarde seria conhecida como Guerra Fria. O militar nacionalista deu lugar ao militar pragmático, que achava necessária fechar com a parte dita democrática das facções que se digladiavam no mundo. Foi também um golpe militar que derrubou Getulio, mas as eleições diretas saíram, sendo eleito o candidato getulista, Dutra, que governou até 1950. A direita, que tinha se assanhado com a queda de Getulio, ficou furiosa.
P - Como conseguiu voltar ao poder em 1950?
R - Toda a imprensa estava contra ele, mas não o povo. Era um uivo que se ouvia em todo o país, me disse Samuel Wainer, o uivo era a palavra Getúlio gritada pela população, que acorria em massa ao refúgio do presidente em São Borja. Ele voltará, escreveu Samuel Wainer numa reportagem dos Diários Associados. Quando venceu as eleições, Getulio apelidou Samuel de Profeta e garantiu que ele montasse a Ultima Hora para ter uma parte da imprensa enfim a seu favor.
RETORNO - Depois eu continuo. Ninguém faz perguntas? O curso vai acabar por aqui, desse jeito. O título desta edição é uma provocação aos que sustentam a tese de que no Brasil tudo se faz da boca para fora e que nunca houve guerra. Os combatentes que tombaram merecem que os historiadores contem outra História.
18 de agosto de 2004
VIVA O PRESIDENTE GETÚLIO VARGAS
A barra do dia mal se desenha no azul tímido deste céu de litoral. Não consigo mais dormir. A urgência do Brasil me acorda e algo precisa ser dito antes que chegue o 24 de agosto, quando a morte do presidente completar cinqüenta anos. O que dizer depois de tanto que já se disse? O que contrapor ao ganido dos chacais que estampam nas revistas, jornais, televisões, o perfil do homem que eles não compreendem e que tentam devorá-lo com suas palavras sem poder? Pois passarão os séculos e essa canalha irá sumir do mapa sem deixar vestígio. Mas o presidente ficará, no seu posto, e é disso que preciso falar.
DESFILE - Naquele tempo, éramos crianças apenas para nossas mães. Para nossos pais, éramos homens. Eu vestia uma avental branco, com um enorme tope azul no pescoço, calça curta, meia branca e sapato preto. Esse era o uniforme de quem ainda estava no jardim da infância. Não chamávamos nossa professora de tia, chamávamos nossas tias de tia. As palavras ocupavam um lugar seguro, assim como nosso lugar na fila. Formávamos para marchar na majestosa avenida Presidente Vargas, que se espraiava por um longo trajeto, toda embandeirada, com um obelisco pontificando bem no meio dela e ao som das marchas militares. Nosso coraçãozinho batia apressado. A grande emoção não era a Pátria, não era marchar, não era olhar para a bandeira. Não estávamos numa cena do patriotismo oficial. Nossa grande emoção, vestindo aquele avental branco lavado, passado, engomado, que fazia um arco ao nosso redor, não era marchar com nossos pezinhos pequenos batendo firme no asfalto e fazendo movimento com os braços dobrados, rígidos, imitando o gesto cívico das paradas de soldadinhos em movimento. Nada disso nos emocionava realmente, pois como nascemos numa pátria soberana, isso era assunto para os mais velhos. A grande emoção era saber que minha mãe estava no meio do povo, levantando a cabeça para me ver, sorrindo o sorriso orgulhoso das mães, abanando para nós que não podíamos abanar de volta, pois estávamos compenetrados demais. Essa era a festa cívica: ficar compenetrado diante de uma mãe que expunha publicamente o seu grande amor por nós. Só então a pátria fazia sentido.
CENA - Agora compreendo inteiramente a cena favorita da minha infância, quando meu pai me levou, aos três anos de idade, para conhecer a casa nova que ele estava reformando para nós morar. Ele não me pegou na mão, pois eu sou um dos seus filhos homens. Ele abriu a porta do carro para eu entrar e lá eu fiquei ao lado dele. Depois desceu comigo do automóvel e visitamos a obra. Ele me mostrou todas as peças, comentando o trabalho dos operários que se dependuravam em imensas, longuíssimas escadas, que iam até o distante teto. Meu pai tornou-se maior, aos 18 anos, em plena revolução de outubro de 1930. Casou aos 28 anos e fez sua vida na era Vargas inteirinha. Meu pai foi levado pelo exemplo do presidente Getúlio, que provou o quanto um homem podia fazer numa só vida. Os homens daquela época, antes de Getúlio, estavam confinados a um destino mesquinho. Meu pai nasceu pobre e trabalhou desde criança para sobreviver. Mas fez sua vida porque soube ousar. Não limitou-se ao emprego público, tão seguro, que segurou minha mãe até a a aposentadoria. Conheceram-se numa repartição e de lá formaram uma família. Os dois, lindos na sua juventude sem par, posaram para a eternidade aquela felicidade deslumbrante e serena. Meu pai palmilhou o país com seus sapatos branco e marrom, seu terno de linho branco, seu chapéu de feltro com borda desabada. Viveu no país que Getúlio reinventou. Era um cidadão que foi chamado à sua responsabilidade, assim como eu, na primeira infância, fui convocado para conhecer e aprovar a casa (o país em obras!) onde iríamos morar. Fui convocado para o que chamam hoje de cidadania. Quando saí daquela visita, eu não era apenas o filho mimado da minha mãe. Eu já era um homem, pronto para mudar de vida, sob a proteção do pai no país soberano do presidente eleito (estávamos em 1951), Getúlio Vargas.
RÉQUIEM - Ele era escravo do poder, diz Flavio Tavares num documentário que irá ao ar dia 22, domingo, às dez da noite, pela RBS (achei que era na Globo, é na RBS, faz diferença). Conheci Flavio rapidamente numa Bienal do Rio. É extremamente gentil e talentoso escritor. Pessoa marcada pela ditadura de 64, foi torturado e tem uma história digna. Mas está equivocado. Getúlio era escravo do povo, como diz sua carta-testamento, não do poder. Por que minha declaração deve soar ingênua e a do Flavio madura, coerente, científica? Baseio a minha num documento histórico. Até hoje o Brasil sente sua influência, para o bem e para o mal, diz a revista (V)Exame, a mesma que estampou o candidato FHC na capa na véspera da eleição para elegê-lo antes do povo. Por que para o mal? Que mal fez um presidente que entrou na guerra mundial antes dos Estados Unidos, como nota Gilberto Vasconcellos, que foi o único que pegou em armas contra o nazismo e o fascismo e foi punido por isso, sendo agora acusado de nazista e anti-semita? Conheço gente que vive às custas do falso anti-semitismo de Vargas. Ganham os tubos, dinheiro internacional, para provar que o presidente perseguiu judeus. Getúlio reprimiu quem tentou derrubá-lo pelas armas, mas não fez algo torpe como perseguir judeus. Entrou firme na divisão interna do Exército, que estava cheio de células de conspiração, muitas sob influência comunista. Não furtou-se ao seu destino e por isso morreu, para o desespero do povo que, segundo me contou pessoalmente Samuel Wainer, arrancou a Última Hora de dentro dos caminhões que distribuíam o grande jornal popular e para dentro deles jogava o dinheiro dos exemplares. Esse é o povo brasileiro: queria saber se a notícia era verdadeira e o único jornal que tinha credibilidade era a Última Hora. Por isso comprou-o à força, mas não saqueou, não roubou o jornal que estava do seu lado. Pagou pela notícia terrível. E saiu quebrando tudo. A direita morreu de medo e recolheu-se. Tentou o golpe em 1961, Brizola não deixou. Aí veio 1964 e ficamos reféns dessa canalha que até hoje manda no país que Getúlio Vargas construiu e que eles tentam destruir, todos os dias. Por isso digo, sem medo nenhum, de ser chamado disso ou daquilo. Viva o presidente Getúlio Vargas, a quem a nação brasileira tudo deve. E que deu-se um tiro no coração porque não se deixaria humilhar depois de tanta luta. Honra e glória aos heróis da pátria.
SEMANA - A Semana Sérgio Vieira de Mello termina amanhã. Hoje publico mais um poema do meu canto sobre o melhor dos brasileiros.
LIVRAI-NOS DO MAL
Nei Duclós
O brasileiro cordial colocou os pés na lama
Livrai-nos de todo o mal
para o sossego na Bósnia
A batalha terminal carregou o melhor homem
Livrai-nos de todo o mal
para haver paz em Ruanda
O Brasil chegou na guerra levando apenas a cara
Livrai-nos de todo mal
Para o consenso no Iraque
Não havia sentinela para defender sua História
Livrai-nos de todo mal
para o sucesso de Angola
Quem dera fossem assim os mandatários da terra
Livrai-nos de todo mal
Marquem reunião em Genebra
Que em Genebra está o corpo do brasileiro cordial
Para lembrar aos senhores
O cerco de Sarajevo
Não lhe façam homenagens sem assinar um acordo
Que Sérgio não sairá
de Timor Leste tão cedo
E se escolherem Nova York para celebrar a trégua
Lembrai-vos do brasileiro
Que foi-se antes da hora
O futuro lembrará deste diplomata estranho
Que forjou sua vocação
No chão de Copacabana
Quem sabe não estaremos um dia na mesma mesa
Livrados de todo o mal
Com Sérgio na cabeceira
17 de agosto de 2004
HISTÓRIA DO BRASIL URGENTE
Por que e como Getúlio Vargas assumiu o poder em 1930? Por que enfrentou a guerra contra integralistas, comunistas e militares revolucionários nos anos 30? Por que instaurou o Estado Novo em 1937?Por que foi derrubado em 1945? Como conseguiu voltar ao poder em 1950? Por que se suicidou? O que diz a Carta Testamento? Quem era Luiz Carlos Prestes? O que é o tenentismo? Quem era Olga e o que veio fazer no Brasil? Por que acusam Getulio de fascista? Qual a herança do grande presidente? Quem vem lá? perguntavam na revolução de 30. Oswaldo Aranha, era a senha. Quem foi Oswaldo Aranha? A quem Getúlio Vargas continua contrariando?
TODAS AS RESPOSTAS - Vou responder cada uma das perguntas, mas não tudo hoje. Sou convocado para isso pela minha amiga Larissa, do Rio de Janeiro, que me pergunta de onde tirei as informações . Agora, a repercussão do meu artigo sobre Olga serve também para eu entender o quanto devo em explicações sobre o que defendo aqui. Vamos começar pela guerra. A revolução de 30 não foi um acerto entre elites, como ensinam os professores mal formados em todas as escolas do Brasil. Foi um gigantesco movimento popular armado, liderado na área militar por dissidentes do Exército, líderes guerreiros civis e forças estaduais dissidentes; e na área civil pelos governadores de três estados. A revolução resultou na derrubada de uma ditadura, a da República Velha, instaurada logo depois do governo de Floriano Peixoto, no final do século 19, por oligarquias políticas e financeiras. Essa ditadura jogava com eleições de cartas marcadas (havia sempre um conselho de notáveis que mudavam o resultado das eleições, por si só fraudulentas, a bico de pena) e porrete grosso contra as manifestações populares e as revoltas armadas. Um dos presidentes da ditadura, Arthur Bernardes, governou quatro anos em estado de sítio e mandou bombardear por duas semanas alvos civis da cidade de São Paulo. Getúlio foi apoiado, só no Rio Grande do Sul, por cem mil voluntários civis, que se alistaram para entrar na luta. Foi aclamado pela multidão por onde passou, especialmente no Paraná e chegou ao Rio de Janeiro ovacionado pela população da então capital da República. A Revolução de 30 mudou o país. Implantou o parque industrial brasileiro, as leis trabalhistas, o voto das mulheres. Antes de 30, crianças, homens e mulheres, sujos da cabeça aos pés, trabalhavam 14 horas por dia, sem direito a nada, até morrer. Getúlio governou então como presidente do governo provisório até 1933, quando houve as eleições diretas para a Constituinte, que o elegeu presidente constitucional.
EXÉRCITO DIVIDIDO - Para entender a revolução de três de outubro de 1930 (agora as novas gerações sabem porque votarão no próximo dia três de outubro, que em tempos passados era feriado nacional) é preciso focar o exército dividido. Haviam três tipos de militares. Os jovens oficiais revolucionários, que pegaram em armas na década de 20 para derrubar a ditadura civil. São inúmeros, mas vamos citar Luiz Carlos Prestes, Siqueira Campos, João Alberto, Juarez Távora. O estopim para a rebelião foi o sentimento de desonra que experimentaram quando se sentiram ofendidos pelo ditador civil, Arthur Bernardes, mas os brios estavam exaltados desde a época da presidência de Hermes da Fonseca. O segundo grupo eram jovens oficiais reformadores, adeptos da guerra do movimento e da modernização do Exército. Seus ídolos eram os alemães. Dele faziam parte Bertoldo Klinger e Pedro Aurélio de Góes Monteiro, entre muitos outros. E o terceiro grupo eram os oficiais legalistas, que foram derrotados em 30, mas continuaeram ativos depois do movimento. Com a recusa de Prestes de assumir o comando da revolução de 30, Góis Monteiro, que era tenente-coronel, aceitou o convite e tornou-se um dos principais personagens das Forças Armadas brasileiras do século vinte, pois conseguiu unir o exército dividido, união que continua até hoje. Os reformadores ganharam a parada e os revolucionários, com Prestes à frente, perderam.
SIQUEIRA CAMPOS - Getúlio ofereceu o comando militar da revolução para Prestes, o mais prestigiado líder do exército rebelde. Mas Prestes tinha se entupido de cultura marxista doada pelo Partido Comunista Brasileiro, que tinha poucos anos de vida. Achou que deveria fazer a revolução popular e não aquela revolução, que considerava elitista. João Alberto e Siqueira Campos, seus companheiros de Coluna, foram a Buenos Aires, onde estava exilado, tentar convencê-lo. Mas este disse que não faria aquela revolução, causando tremendo sururu no quarto onde estava hospedado. João Alberto e Siqueira Campos saíram alterados da reunião. Pegaram um pequeno hidroavião com um piloto e começaram o sobrevôo do Mar Del Plata, rumo a Montevidéu. O avião caiu. O piloto morreu, junto com Siqueira Campos, o herói dos 18 do Forte (1922). Sua morte causou grande comoção nacional. Desde 1924 estava foragido e era idolatrado pela população. São Paulo inteira foi sepultá-lo. Foi nesse momento que o parque Trianon, na Avenida paulista, ganhou o nome do grande revolucionário. Amanhã continuo. Façam perguntas, senão não consigo focar direito, diante de tantos eventos. Quando passarem pelo parque Siqueira Campos, lembrem de quem arriscou a vida por uma nova nação. Em 1922, era quase um menino, um jovem oficial quando pegou em armas, repartiu a bandeira nacional com seus camaradas e saiu atirando, de peito aberto, contra as forças da ditadura nas areias de Copacabana. Quem poderá com essa raça de leões? perguntou o veterano escritor Coelho Neto no dia seguinte à batalha, que deixou apenas quatro sobreviventes entre os revoltosos, Siqueira entre eles (na hora em que personalidades da ditadura foram visitar os feridos, um dos combatentes arrancou os pontos da barriga para mostrar as vísceras e provar que a luta era até o fim). Quando morreu afogado, estava por volta de 30 anos. Honra e glória aos heróis da Pátria.
ADMIRAR OS CONTEMPORÂNEOS
EXEMPLO
Nei Duclós
Não canto os mortos de hoje
Haverá quem cante
Não canto a paz com honra
Haverá quem cante
Não canto os sonhos no front
Haverá quem cante
Canto o brasileiro raro
exemplar distante
Aquele que impôs o diálogo
no lugar de tanques
Aquele que em Timor Leste
trouxe a esperança
Canto seu andar
livre e soberano
Canto seu fervor
sobre o incêndio
Canto seu mergulho
por demais humano
O que o talento faz com o destino
Sérgio é o exemplo.
O que o exercício da soma traz de grandeza!
O que pode dizer de um herói
qualquer poema?
Canto porque não foi em vão
este projeto
que uma civilização engendrou
em campo aberto
Canto porque um só homem
faz diferença
Basta que ele saiba como
compor o gesto:
Esse punho cerrado se houver concreto
Esse abraço sem freio
se chegar gente
Esse nado na praia
por trás do vento
Canto o mar que repousa
na sua infância
A onda que viajou o mundo
e voltou mansa
Canto o que fica vivo
e não o morto
RETORNO - O obrigatório artigo do professor Mangabeira Unger na página dois da Folha, e reproduzido aqui em Santa Catarina pelo jornal A Notícia, aborda a mais poderosa porção da ditadura civil: o que ele chama de bonapartismo negocista. Desprovido de conteúdo, com ênfase no adjetivo e não no substantivo, o bonapartismo negocista é formado pelo grupo palaciano e o bando de aparelhistas emergentes que compartilham a grana. Mangabeira propõe que todos os cidadãos defendam a liberdade de imprensa, não apenas os jornalistas. E insiste num projeto político para 2006. Não vá de novo apoiar o Ciro Gomes. Aposte em quem o sr. acredita, professor. Está na hora de esquecer Maquiavel, o voto útil e outros instrumentos de tortura.
16 de agosto de 2004
O HERÓI AGONIZA DIANTE DO MUNDO
Quando a bomba explodiu no prédio da ONU no dia 19 de agosto de 2003, estava vendo a CNN. Segui então cada passo da agonia do mais brilhante diplomata brasileiro, Sérgio Vieira de Mello, que ainda sofreu por cinco horas até o desenlace. Durante todo o tempo de seu velório por três continentes e seu enterro em Genebra escrevi uma série de poemas. Coloquei na poesia o que significava aquela vida, que surgiu de repente no imaginário nacional e que tinha vindo de longe, das raízes do Brasil soberano e que se mostrava ao mundo em toda a sua integridade e entusiasmo. Nesta Semana Sérgio Vieira de Mello, vou publicar aqui, até o dia 19 de agosto, alguns desses poemas de inspiração lorquiana, mas com luz própria, gerada por um país que se redescobre.
A VIDA PERGUNTA ÁGUA
Nei Duclós
A vida pergunta água
a dor responde fuligem
O cal endurece as mãos
Num corredor de gatilhos
Todo espelho se quebra
ninguém é reconhecido
O Mal não suporta a sombra
que lhe faz o seu carisma
A ligação cai no colo
O poema lança o grito
Se a fala esqueceu a boca
nossas artérias se abriram
A morte pergunta fogo
Nós respondemos abrigo
Um teto bem mais acima
Dos pés que jamais fugiram
Que não desabe a parede
Nas costas desse conflito
A vida pergunta Sérgio
Todos respondem perigo
A SOBREVIDA DE UMA CALÚNIA
Aproxima-se o cinqüentenário do suicídio de Getúlio Vargas, o inventor do Brasil moderno segundo Samuel Wainer, e não por coincidência a Rede Globo faz vasto estardalhaço com o filme Olga, que será usado para incrementar a campanha contra o trabalhismo. A história é verídica, mas sua abordagem baseia-se numa calúnia: a de que Getúlio teria enviado Olga, esposa de Luiz Carlos Prestes e revolucionária alemã comunista, grávida, para o campo de concentração nazista. Getúlio não mandou ninguém para o campo de concentração. A verdade é bem diferente.
FATOS - Quem mandou Olga para o campo da morte foram os alemães, não Getúlio. O presidente brasileiro cumpriu apenas os acordos internacionais da época, pois o país, como todo o resto do mundo, mantinha relações normais com a Alemanha (a Rússia soviética, onde Olga tinha se refugiado antes de vir para o Brasil, chegou a fazer um pacto de não-agressão com a Alemanha nazista em plena Segunda Guerra; o que aconteceria com Olga se ela continuasse por lá?). Dito assim, a de que o algoz e tirano não teria piedade nenhuma para com sua vítima e maquiavelicamente enviou-a para a morte certa, soa como verdade, mas não é. Os fatos são claros e precisam ser conhecidos. Olga participou de uma tentativa fracassada de golpe de estado, a que foi batizada pelos militares de Intentona Comunista. Era procurada pela Alemanha, na época governada pelo Partido Nazista, país que mantinha relações normais com o mundo inteiro, que não estava ainda em guerra. Acontecia o mesmo com a Italia fascista. Na mesma época, anos 30, o filho de Mussolini tinha sido recebido com pompa pelos americanos em Nova York. Ainda na véspera da segunda guerra em 1939, o primeiro ministro britânico Chamberlain voltou de uma visita a Hitler e garantiu que ele não entraria em guerra, pois a Inglaterra tinha entrado em acordo com os alemães. Esse relacionamento de país para país são normais em tempo de paz, precisa dizer? Os campos de concentração só vieram à luz em 1945, no final da guerra.. Não se sabia deles antes disso. Olga tinha se refugiado na Rússia stalinista e de lá veio com Prestes para preparar e desencadear aqui o golpe contra o governo eleito pela Assembléia Constituinte de 1933 em eleições indiretas, com voto de parlamentares eleitos em grande e maciça votação direta em todo o país, inclusive com a participação, pela primeira vez na História do Brasil, das mulheres. Em 1935 o governo Getulio Vargas era legítimo, eleito democraticamente. Repatriou Olga pois assim ditavam os acordos na época. Olga estava sendo reivindicada pela Alemanha. Poderia tê-la condenada ao fuzilamento, já que queria matar para chegar ao poder. O que aconteceu com Olga é de uma brutalidade sem par, mas o fato não justifica a calúnia.
TEIMOSIA - A abordagem, que transparece agora no marketing da Globo, servirá para ajudar a destruir o trabalhismo (o único movimento político que condenou a Rede Globo à morte, por meio de declarações explícitas de Leonel Brizola). É notória a lembrança de muitos jornalistas veteranos de que o Roberto Marinho entrava na redação do jornal Globo e exibia para as visitas aqueles a quem chamava os meus comunistas. Os comunistas brasileiros são um fracasso político retumbante e fazem parte da reserva de argumentos usada para acabar com a memória de Getúlio Vargas. Até mesmo Prestes teve a grandeza de reconhecer Getúlio depois que saiu do cárcere em 1945. Isso significa que não havia essa maldade explícita do presidente brasileiro, como quer transparecer a propaganda. Prestes cometeu um erro grave, que contraria não apenas o bom senso, mas o próprio marxismo-leninismo: recusou-se a participar da revolução de 30 por achar que ela era burguesa. Desconhecia o fato, ou não quis levar em consideração, que os bolcheviques participaram da revolução democrática que derrubou o Czar e colocou Kerenski no poder em fevereiro de 1917, oito meses antes, portanto, da revolução comunista. O pior é que Prestes recebeu dinheiro de Getulio para fazer a revolução e acabou desistindo, sem devolver nada. Depois, refugiou-se na Rússia e voltou com um núcleo de conspiradores profissionais para derrubar o governo eleito. Foi uma burrada monumental, fruto do seu sectarismo e teimosia. Se tivesse aceitado a liderança militar em 30 estaria mais próximo do poder do que nunca e aí teria melhores condições de fazer a revolução que sonhara.
GUERRA - Mas tudo isso é muito complicado para fazer sombra à mensagem que o filme Olga, baseado no excelente livro de Moraes, vai distribuir pela população brasileira. A de que tínhamos aqui no poder um tirano nazista, o que é uma calúnia monumental. Getulio sempre enfrentou a conspiração que procurava desestabilizar o seu governo. Foi atacado militarmente por comunistas e integralistas (estes, cercaram o palácio do governo). Enfrentou uma guerra contra São Paulo que durou oito meses. Por muito menos, governos ditos democráticos fazem cerrada censura à imprensa. Bastou uma reportagem no New York Times para Lula mostrar o que sabe sobre liberdade de imprensa. Vejam o que está acontecendo agora, quando tenta-se institucionalizar alguns instrumentos poderosos de legalização da ditadura civil, como a lei da Mordaça. Quando foi presidente eleito por voto direto nos anos 50, Getulio enfrentou toda a imprensa unida contra ele, com exceção da Ultima Hora de Samuel Wainer, que revolucionou os jornais brasileiros. Li esses dias a declaração de uma testemunha dizendo que Lacerda jamais foi ferido no pé, já que correu como nunca no atentado da rua Tonelero. Em 1954, jogaram o presidente eleito por voto direto contra a parede (Getúlio não sabia nada sobre o atentado), obrigando-o a se suicidar. O dia da sua morte, 24 de agosto de 1954, é a data magna do luto nacional. Sussuravam para mim, que mal acordava da cama: o Getúlio se matou, o Getulio se matou. Abri a janela do meu quarto, que dava para a rua. As pessoas choravam e tinham aquele gesto com os pés que declaravam o quanto não sabiam para onde ir. A cidade inteira chorou e Porto Alegre foi incendiada pelo povo. No Rio de Janeiro e em todo o país a multidão extravasou a sua raiva contra o movimento que enfim levou nosso grande presidente para a tumba. Ainda não conseguiram enterrá-lo totalmente. A Rede Globo promete um especial dia 22. Nenhuma pá de cal vai cobrir de desonra o presidente que fez do Brasil uma nação soberana.
15 de agosto de 2004
A CENSURA FUNCIONA ASSIM
A ditadura civil tem um esquema infalível para censurar o que realmente interessa (tudo aquilo que poderá denunciá-la ou apeá-la do poder): usa a liberdade contra a liberdade. Querem uma televisão sem o tacão do censor? Dê-lhe estética de cabaré (que o Veríssimo, mais elegante, chama de bordel) . Querem uma imprensa democrática? Destruam o Ibsen Pinheiro com uma informação falsa, como conta a IstoÉ desta semana. Querem Reforma Agrária? Subsidiem os desvios do MST e deixem os fazendeiros formar uma milícia. Querem eleições isentas? Informatizem tudo e coloquem os resultados numa caixa preta. Querem um mercado editorial livre de censura? Coloquem os incentivos fiscais nos livros de conteúdo publicitário. Querem cultura? Abandonem as bibliotecas e distribuam concessões de rádio e televisão para quem tem alergia à arte e ao conhecimento.
TALENTO - O país parece estar na mão daqueles que fecham inferninho quando conseguem arrancar uma bolada do dinheiro público. O cabaré permanente a que se reduziu o horário nobre mostra como apresentadores e apresentadoras exibem o produto (o corpo pelado das mulheres) para o mercado, sob o álibi fajuto de que estão abordando moda. Vi ontem uma imitadora mirim da Kelly Key rebolando, passando a mão no corpo de maneira pretensamente sensual e cantando o clássico Baba, baby, baba. A criatura não devia passar dos oito anos e usava uma peruca loira. Quem promove esse tipo de horror deveria estar preso por crime hediondo. Mas ao contrário, falam em milhões de salário para cada um deles. Para mim tudo isso é feito de propósito. Como somos o play-ground da canalha que nos governa, eles debocham da nossa necessidade de ter acesso à cultura audiovisual de qualidade e nos inundam de porcarias. Tentamos nos refugiar na mídia impressa e sabemos que a Veja errou ao denunciar Ibsen, mas não quis voltar atrás pois a matéria estava na gráfica e por isso teria improvisado uma declaração favorável à denúncia. A concorrência predatória entre as revistas abre espaço para esse tipo de erro. Os jornalistas são os culpados? Não apenas eles. O ambiente que favorece o denuncismo serve às brigas de cachorro grande que disputam o dinheiro público. A imprensa é culpada da direção à redação. Mas é apenas instrumento da ditadura civil ao tornar-se esnobe e arrogante e achar que pode editar o mundo. A saída é trazer de volta o talento e deixá-lo solto, livre. O talento desmoraliza o Mal, o talento recria, o talento recupera o leitor perdido. Talento é graça divina, distribuída, portanto, sem a intervenção dos donos do poder.
MÃO É FALTA - Não gosto de jogos com a mão. Acho uma covardia. Pretensamente receptiva, a mão, quando se liberta, torna-se uma ferramenta de ódio. O saque no tênis é uma brutalidade sem fim. No vôlei, não sei como agüentam aquela sucessão de canhonaços. O handebol então é uma coisa incompreensível. Parece que disseram assim: tudo o que o futebol execra vai virar handebol. Vi o jogo da seleção brasileira desse jogo. Levaram um saco de gols da França. Em compensação, fomos bombardeados durante meses com uma propaganda caríssima sobre nossa torcida ao jogo com a mão. Pegassem esse dinheiro e colocassem na seleção de handebol, acho que não teríamos fiasco semelhante. No futebol, a mão é coadjuvante, princesa e muitas vezes vilã. É coadjuvante quando é batido o lance lateral. É princesa quando salva o gol na hora certa. É vilã quando ajuda a colocar a bola para dentro da rede, como fizeram os argentinos para serem bicampeões do mundo (é por isso, talvez, que eles comemorem um gol como se fosse a celebração de um crime, de um assassinato). E o basquete? Repetitivo. Domínio absoluto dos inventores desse jogo ridículo, os americanos. Tenho urticária quando vejo os jogadores se dependurarem na cesta. E mais ainda com os apelidos. Magic Paula é realmente uma dose cavalar. Para mim, tocou com a mão, o juiz deve apitar. Mão é falta, que deve ser batida com o pé. O pé é a dificuldade, algo não natural para dominar a bola. A mão é exatamente o contrário, tem a forma da bola. Quer dormir? Assista a uma partida de golf. Quer torcicolo? Agüente o Guga gemendo e jogando a bolinha de um lado para outro e dando uma machadada em cada saque. Quer apagar a TV? Tente assistir uma dessas matérias televisivas sobre o tesão das torcedoras em cima dos jogadores de vôlei. Tesão não é esporte. Nem cabaré é tesão. Tesão é outro departamento.
BORDÕES - As Olimpíadas trouxeram à tona os bordões de Silvio Luis, maravilhosos. Acerta o seu aí que eu arredondo o meu aqui. Eees-tá valen-do! Pelo amor dos meus filhinhos! Pelas barrbas do profeta! Opa, opa, Opa! No paaaaaauu! É maaais um gol brasilEEiro meu povo. Foifoifoifoifoi ele, o craque da camisa número 10. O futebol tem mais graça com a narração de Silvio Luis. No jogo Brasil X EUA ele comentou: o locutor do estádio está falando grego, não entendo nada. Agora sim, ele falou ladies e gentleman, agora entendi. Atenção, é yellow card, tra-du-zin-do, cartão amarelo.Esse é Silvio Luis, um deslumbramento do jornalismo esportivo. Um dia assisti sua má vontade diante de um repórter estúpido que perguntava se ele usava esses bordões em casa. Claro que não, Mané. Isso é criação de linguagem, é talento, é cultura de arquibancada recriada no microfone. Silvio Luis faz parte da linhagem da locução inesquecível de Ary Barroso e espero que nunca se aposente. É uma alegria escutá-lo depois que a bola vai direto na gaveta: No gogó da Ema, no co-cu- ruuto da Girafa.
RETORNO - Hoje, nesta segunda edição da Semana Sérgio Vieira de Mello, comentei o caso Ibsen Pinheiro a pedido de Urariano Motta, meu editor para textos que precisam ganhar o mundo. Urariano é um entusiasta do artigo que publico no meu site e também no La Insígnia, que aponta um link poderoso entre um conto de John Reed e o personagem de Chaplin.
A HIERARQUIA DAS NAÇÕES
As Olimpíadas são a reiteração das posições hierárquicas das nações, definidas logo depois da Segunda Grande Guerra. A única forma de reverter esse quadro seria uma real democracia em escala mundial, com direitos humanos assegurados e respeito entre os povos. Sonho que o brasileiro raro, Sérgio Vieira de Mello, pagou com a vida no dia 19 de agosto de 2003. Com o design renovado pelo nosso webmaster Miguel Duclós, o Diário da Fonte inaugura a Semana Sérgio Vieira de Mello abordando os jogos de Atenas, que são a justificação histórica da hegemonia americana e seus mais próximos aliados.
ETERNOS VENCEDORES - Nesses jogos, infelizmente encarnamos o pior dos personagens: o que chega com a banda mas não é levado a sério no pódio. Talvez a Inglaterra não tenha um esquema parecido com a da nossa mídia lá, presente, mas em compensação, possuem atletas. Os brasileiros são criaturas não sintonizadas com o que é feito com o corpo humano nesta disputa. Os eternos vencedores são manipulados para isso e batem em todos os detalhes. No futebol feminino, por exemplo, jogamos o fino no primeiro tempo contra os Estados Unidos, mas no segundo tempo dançamos diante da nossa incompetência, dos trancos dos adversários e da arbitragem. Duas das nossas jogadoras foram parar no hospital. O jogo bruto da política internacional, que faz vítimas nos esportes que envolvem disputas entre nações, mata em qualquer campo. Na África, houve neste fim de semana um massacre num campo de refugiados. Pessoas foram mortas a machadadas. Por cinco horas Sergio Vieira de Mello agonizou nos escombros do prédio da ONU. Ele estava costurando um acordo sério no Oriente Médio, hoje entregue à sanha assassina de todas as facções e das nações envolvidas na guerra. Nos resta homenagear aquele que foi o melhor dos brasileiros.
O FINO DO FUTEBOL - Se o futebol é uma impossibilidade teórica (encaixar uma esfera num espaço limitado por linhas retas), e seu principal conflito é entre a curva e a reta, entre volumes redondos e retangulares, então esse jogo é a busca permanente por espaços que não existem. A retranca é o cânone da impossibilidade, pois não permite que o adversário se movimente, ou seja, encontre espaço. Por isso o passe direto do meio do campo que deixa o atacante na cara do goleiro é o lance mais importante depois do gol. O gol é a consagração do espaço então inventado. A celebração de um gol (com exceção dos argentinos, que festejam como se tivessem acabado de cometer um assassinato) é a constatação de que o espaço inexistente pode ser um ato de criação. A caixinha de surpresas é a natureza quântica do jogo, um baú de possibilidades. Contra as americanas, tínhamos Marta e Pretinha, mas tropeçamos em Rosana e Christiane. Marta é a melhor do mundo e comprova que o futebol feminino, por estar no começo e ainda se pautar pelo seu clone masculino, pode resgatar coisas perdidas como o drible, essa curva do corpo que cria o espaço mínimo e básico para o movimento. O passe excessivo tem substituído o drible, para infelicidade geral da nação brasileira. Há rebeldia, como Edílson, hoje no Vitória e que por isso é chamado , claro, de Capetinha. O negro no futebol brasileiro (título de um livro magnífico de Mario Filho) ainda é visto nos seus papéis sociais de escravo. Ouvi o Zagallo dizer ao vivo que colocaria duas peças na defesa. Peça é um termo da escravidão, significa um escravo adulto ou pode valer uma criança e um escravo mais velho ou algo assim. Termos uma jogadora com nome oficial de Pretinha não nos recomenda, já que não existe nenhuma adversária com o nome de Branquela, ou Arroz com Leite.
DUREZA - Como os americanos não suportam ser vencidos em nada, querem ser os maiorais também no futebol, que eles chamam de soccer (para eles, futebol é aquele jogo que eles jogam com mão, as calças apertadas, capacete de motoqueiro e a bunda arrebitada ? poderia ser apelidado de assball). Vimos essa obsessão no jogo contra as brasileiras. As jogadoras estreladas bateram duro e aproveitaram a falta de objetividade do nosso ataque (e a frouxidão do meio do campo) para fazer dois gols. Tínhamos chance de definir a parada no primeiro tempo (probabilidade quântica que não se concretizou, pelo menos neste mundo). Mas fiquei impressionado com o domínio pessoal da bola de muitas das nossas jogadoras, dos chutes a gol maravilhosos, como um de barreira que foi batido de lado em curva. O futebol feminino precisa reiventar-se. Ainda é muito novo e deveria ter apoio aqui no Brasil.
RETORNO - 1. Leio o primeiro volume da obra autobiográfica de Celso Furtado e da fonte clara do seu texto brota o Brasil que perdemos, o que tinha presença internacional e não era alvo da risada geral do mundo. Furtado é quem lança luzes sobre os anos 1946 /1948, decisivo para entendermos o Brasil e o cenário internacional que até hoje nos domina. Época em que fez carreira diplomática o pai de Sérgio, que foi colocado para fora do país pela ditadura de 64. 2. A nova foto deste blog é de autoria de Marcelo Min, que captou o instante em que eu abraçava os exemplares da revista que implantei na Fiesp com uma equipe de primeiríssima água.
14 de agosto de 2004
CARTIER-BRESSON, O ILUSIONISTA
QUAL É A PERGUNTA? - A pergunta é o grande desafio. Poderíamos simplificá-la e enunciá-la com a velha questão: o que é a fotografia? Respondemos usando a orientação do mestre Walter Firmo, que diz ser a fotografia um instrumento da descolonização do olhar, o que acho uma brilhante contribuição ao pensamento sobre essa arte e que ele nos revelou numa inesquecível matéria que fiz na Senhor de Mino Carta. Hélcio Toth, que sabe como ninguém o quanto é fugaz o instante da fotografia que se eterniza e que não acredita na realidade como ela é vista (o que é um lugar comum filosófico, mas uma raridade entre os mortais); Marcelo Min, que encontra o equilíbrio estético para nos surpreender com o caos social que revela, o que é um paradoxo e ao mesmo tempo uma riqueza incomum de percepção e trabalho; e Regina Agrella, que encontra espaço onde não há (na grande cidade) e captura o detalhe em campo aberto; todos são aprendizes de feiticeiros e lidam com a pergunta de Bresson. A fotografia é um trabalho autoral, que se alimenta do real que desmorona e torna permanente o que nem tinha sido percebido. Bresson praticamente revelou o século 20 e é nesse século 20 de Bresson que eu quero morar. Quero estar na Paris libertada, quero estar junto aos grandes artistas e pensadores, quero viver na doçura dos habitantes das cidades modernas e ainda pacatas, quero brincar com aquelas crianças, quero andar naquelas bicicletas, quero participar daquele beijo. Queremos você, Bresson, queremos tua ilusão que tornou-se real porque viste o quanto ela era real (e isso ainda nos dá esperança de reencontrá-la) . Não teria coragem de viver no front de Cappa, apesar de admirar também, obviamente (é como gostar de Picasso, uma obviedade) esse trabalho de insânia e aventura. Mas teria enorme alegria em estar perto do que Bresson reinventou com sua genialidade. Quero vestir aquelas roupas, Bresson, ter aquela altura, usar aquelas boinas e nem sequer te enxergar.
QUERO SER ARTE - Ricardo Chaves reclama das câmaras digitais que batem a foto quando bem entendem, tirando o poder autoral do fotógrafo. Isso nos deixa à vontade para dizer que a fotografia digital está a meio caminho do cinema e revela o processo das criaturas em andamento, o que só se conseguia antes fazendo o clic andar em câmara lenta (quando os fantasmas do real se revelam numa sucessão de imagens). O que nos cabe, afora a pretensão de desvendar o enigma (que não temos), é descobrir do que se trata o olhar pessoal sobre o caos da realidade e como ele seleciona a imagem nítida dessa percepção. Nesta época em que até as palavras são imagens, é fundamental sabermos o que é a fotografia. Milhões de fotos estão no orkut identificando pessoas, milhões de fotos estão espalhadas por todo o mundo mostrando quem nasceu onde, milhões de fotos mostram as viagens, os partos, as mortes. Mas só poucas imagens ficam conosco para sempre. São aquelas que fazem parte do nosso sonho, da nossa carne e mostram quem realmente somos. Para uma multidão, essas imagens são as de Bresson. Se estivéssemos falando de cinema, diria que sonho ser aquele vento que sopra na cena final de Os Rastreadores (The Searchers, traduzido para Rastros de Ódio), de John Ford, quando a família vê ao longe a filha voltar para a casa sob a guarda do bruto que se civilizou. Aquele vento, que parece movimentar a cadeira de balanço, o cabelo dos homens, o rosto das mulheres. Sou aquele vento e gostaria de ser aquela luz que banha o herói que parte derrubado pela tragédia, a luz que acompanha o destino pela mão de um mestre. Gostaríamos de ser arte, por isso adotamos nossos artistas favoritos. Só os artistas sabem o quanto precisamos dessa transcendência, desse momento decisivo de eternidade, que por um milionésimo de segundo justifica toda uma vida, que parecia estar sendo jogada fora.
RETORNO - O motoqueiro grandalhão Ricardo Chaves tinha a melhor resposta para esses esculturas de Fídias que vivem notando o excesso de peso alheio. Tenho outro por dentro, dizia (frase que costumo adotar para enfrentar o mesmo problema). Foi ele quem introduziu no fotojornalismo paulista o genial Antônio Gaudério, ganhador de todos os concursos de fotografia. Os dois fazem parte do talento sem fim da fotografia nascida no Rio Grande do Sul, que tem como entidade mágica o fulminante Leonid Strelaiev, o Uda, hoje vivendo justo exílio em Garopaba.
13 de agosto de 2004
O MERCADO HUMANO DA MODA
FUTURO ? A passarela é o não-lugar onde a imaginação erótica corre solta. Um anjo nu desfila coberto por uma túnica transparente ao som de música tecno e sob luzes que multiplicam as sensações. Os passos trançados servem para balançar as cadeiras, e tornar todo o corpo um novelo de curvas, para atiçar a gula da platéia (milhões de pessoas de olho no produto). As roupas são apenas decorativas e imediatamente esquecidas no desfile seguinte. O que é permanente é a mulher, que roda por cidades milionárias fazendo gigantesco pé de meia. Quando finalmente acontece a concretização do desejo, como comprova a vida do sr. John Casablancas, que um belo dia veio ao Brasil para casar com alguém do interior do país que completava na época uns 13 anos ou algo parecido (sob aplausos entusiásticos da mídia que não viu nisso nada demais), a ficha cai. É para isso que serve! A cara tosca do sr. Cicarelli diante da namorada que se expõe para o universo é outra evidência. Fica-se sabendo que ele a presenteou com um apartamento em Paris e ajudou para que a moça fosse capa no Vanity Fair. Ronaldinho deveria aprender alguma coisa com o sofrimento. Ele se recuperou de uma grave contusão (que a pirataria internacional jurava ser definitiva) não porque é brasileiro e não desiste nunca, mas porque experimentou uma vida familiar estável, casado e com um filho. Essa base emocional foi somada ao dinheiro e à existência de um fisioterapeuta do Brasil, que não compactuava com o diagnóstico que eliminava o jogador (que ficaria assim marcado para sempre pelo fiasco na final da copa de 98, quando sobrou boatos sobre a má influência de um caso mal parado com uma alpinista social). Mas como é um grande bobalhão, apesar de craque magnífico, caiu de novo na armadilha. Sua cara de songa monga, pretensamente cheia de tesão, em direção à escultural modelo, virou manchete das revistas. Todos acham uma gracinha.
CONCERTO - No concerto internacional das nações, o Brasil entra com a mulher. Temos gigolôs treinados. O repórter da Globo entrevistava um atleta americano e este dizia que não sentia tesão pelo futebol feminino do Brasil, mas caía de quatro diante das duplas femininas de vôlei. Tudo com o beneplácito do repórter-escroque, que ajudava a oferecer as fêmeas do seu país para a cobiça internacional. O Brasil é um país que, esteja onde estiver, sacode as tetas. Logo depois dessa manifestação explícita de proxenetismo, veio massiva reportagem sobre os atletas americanos, o país-macho, que a todos come sem dó. Os Estados Unidos invadem o Iraque e transformam o país num inferno. Matam iraquianos de todas as idades. Pois o noticiário nacional de TV chama as vítimas de rebeldes e dizem na maior cara de pau que eles estão conflagrando o país. A TV brasileira está à direita de Bush. Vi outra matéria sobre arte abstrata. As crianças aprendiam o que isso significava. Pois ensinaram que as formas abstratas sempre lembravam algo do mundo, pretensamente real, percebido pela colonização do olhar, e todos poderiam tentar visualizar formas conhecidas a partir das sugestões do abstracionismo, que assim virou um apêndice do figurativismo. Em nenhum momento a matéria sugeriu que as formas abstratas são apenas isso, formas abstratas, e que um volume não precisa, obrigatoriamente, lembrar um elefante. A matéria, claro, saiu na Globo, a Treinadora do Mal. Nos domingos, as videocassetadas do Grande Bundão servem para destruir a auto-estima do telespectador, que, em vez de insurgir-se, ri da sua desgraça, para recomeçar mais uma semana como escravo. E ao contrário do atleta americano, que fica de olho nas nossas atletas como se isso fosse assunto dele, acho a tal peteca de praia uma chatice sem fim e aposto no selecionado feminino de futebol. As gurias jogam o fino e começaram vencendo.
RETORNO - Com a força de Urariano Mota, que é meu atento editor para textos que precisam ganhar o mundo, enviei meu ensaio sobre John Reed e Chaplin para Jesus Gomez. Editor com E maiúsculo, como diz Urariano, nosso grande Jesus (que é autor de textos contundentes) já colocou o artigo com destaque no La Insignia, um espaço que reúne apurada seleção de autores, da qual tenho a honra de participar.
12 de agosto de 2004
INSURREIÇÃO GERAL NO PAÍS
FINANÇAS - A Internet tem sido veículo de insurreição geral. O motivo parece ser um só: o crime organizado que veste a pele das instituições públicas tem colocado a cidadania contra a parede, e esta reage com a mídia das mídias, a rede que por enquanto é nossa aliada. Tenho recebido e-mails os mais diversos sobre a entrega da soberania, as fraudes eletrônicas nas eleições, o ódio às gírias como balada ou galera, num volume gigantesco de denúncias. Um amigo lembra o vínculo da bandidagem da oposição, hoje governo, formatada nos anos 70, quando a opção pela guerrilha jogou o radicalismo da classe média nas mãos da brutalidade ampla e irrestrita do crime. José Dirceu, com seu ex-assessor que negociava diretamente com bicheiro e sua vitória diante das evidências, torna-se um Golbery clonado, mas sem o aparato do galicismo (je m´en vais), talvez porque isso seria confundido com frescura no ambiente onde ele trafega. Os banqueiros que ganham os tubos com o arrocho da população e dos negócios (a cada duas empresas que são criadas, uma vai para o brejo nos primeiros dois anos de vida, constata o Sebrae), seguem à risca o aparato financeiro de toda ditadura brasileira. No tempo do Império, eram os banqueiros donos do escravo como mercadoria (negociado com a elite rural) e o link com as finanças britânicas que garantiam a ditadura monárquica (apesar das barbas tão simpáticas de D. Pedro II e sua visível superioridade em relação a qualquer estadista de hoje no Brasil). Na República Velha, o encilhamento e outras falcatruas mostraram para que servia o regime recém empossado, exatamente manter a ditadura para garantir o lucro abusivo do sistema financeiro. Hoje, nem se fala. Vivemos para pagar (honrar, dizem eles) os juros escorchantes de uma dívida que foi feita à revelia do povo. Sem falar em coisas como o escândalo do Banestado. Falam em emissão ilegal para o Exterior de uma quantia equivalente a 30 bilhões de dólares. Então se transfere o PIB brasileiro para fora e ninguém sabia de nada, só agora?
BRONCO - Ronald Golias enche o espaço total quando risca a tela com um amplo gesto com o braço. É um ator nato, superconvicente, legítimo, que a partir de Totó conseguiu criar um tipo brasileiro ainda resistente. Moacir Franco serve de escada no ótimo Meu Cunhado (que peita o futebol da mesmice global), do SBT. A série foi produzida em anos passados e só agora foi ao ar, obedecendo à estratégia de Gargalhada, o Palhaço Sinistro, que aproveita para encher de excessiva propaganda os intervalos do programa humorístico que ele não queria no ar. Depois, Gargalhada toma conta do SBT com seus execráveis jogos copiados do que há de pior na televisão mundial. Soube que Gargalhada, o Palhaço Sinistro ordenou que Moacir Franco, vestido de mulherzinha na Praça da Alegria, comparecesse ao seu gabinete para renovar o contrato. Foi uma humilhação. Moacir Franco & Convidados deveria ser o programa semanal focado na música com melodia, harmonia, arranjos magníficos e letras (coisas que já não existem mais no baticum horroroso de hoje). Lembro de Totó porque é dele o quadro depois chupado pelo Rolando Lero na Globo. Sócrates morreu? perguntava Totó ao professor, numa cena hilária de um dos seus maravilhosos filmes, que às vezes passa no Eurochannel. No episódio de ontem de Meu Cunhado, em que Moacir e Golias vão para o Pantanal tomar posse de terras, aparece na estrada uma figura baseada em Mazzaroppi. Já vi um filme, O homem que roubou o Sputinik, em que Oscarito fazia um personagem todo ele calcado no caipira de Mazzaroppi (homenagem do gênio de Oscarito ou obediência ao cânone instaurado pelo seu colega). As conexões na comédia sempre me intrigaram e nessa área sou um ensaísta movido pela curiosidade. Já defendi a idéia de que Chaplin pegou emprestado de John Reed, do conto O Capitalista, o personagem que o imortalizou.
11 de agosto de 2004
O JORNALISMO NA CAMISA-DE-FORÇA
Há grande polêmica sobre o Conselho Federal de Jornalismo. Quando existe grita geral contra determinado ato político, usam-se os jargões antigetulistas. Isso é estadonovismo, isso é coisa de pelego e por aí vai. Ou seja, os crimes do atual corporativismo triunfante são atribuídos ao pobre do Getúlio Vargas. Esquece-se que, na atual ditadura civil, o jornalista vive numa camisa-de-força cada vez mais apertada, pois apostou no enquadramento total da profissão e isso foi usado para imobiliza-lo. Enquanto isso, as empresas de comunicação fazem o que querem e impõem seus interesses passando por cima do jornalismo.
MICO GERAL - A questão do diploma obrigatório, que expulsa da profissão pessoas formadas em outras faculdades importantes, como Economia, Direito, História, virou uma armadilha. Agora quer-se amarrar o jornalista ao tal Conselho, que pode impedir o exercício da profissão para quem não pagar anuidade, por exemplo, conforme li no Comunique-se. O enquadramento total tenta garantir reserva de mercado para a multidão despejada pelas faculdades de jornalismo, mas o tiro saiu pela culatra. Profissão da moda, todo mundo quer ser jornalista e tem gente trabalhando de graça por uma oportunidade. Grandes profissionais já desistiram de lutar e refugiaram-se nos livros, no jornalismo empresarial, na aposentadoria, no exílio, ou em algum negócio próprio que nada tenha a ver com redação. Muita gente boa, no pico das suas capacidades, vê-se na rua mendigando frilas, pois para isso que serve o império da merreca: desvincular a cidadania da sobrevivência para poder manipulá-la. No excesso de oferta, pessoas de muito talento que acabam de sair das faculdades precisam medir forças com outras que nunca leram nada, que jamais produziram pensamento e são incapazes de ouvir quem quer que seja.
PARADOXO - Mas há um paradoxo: se o diploma obrigatório faz jornalista sair pelo ladrão, por que acabar com esse instrumento? Acho que o jornalismo deveria atrair, como sempre fez, apenas as pessoas vocacionadas, estejam onde estiverem no grande arco de formação profissional e intelectual. Alguém que fez Física pode muito bem, com um pequeno treinamento, detonar nas matérias de ciência e tecnologia. Isso sempre serviu de peneira no jornalismo. Com a obrigatoriedade, gente que nunca teria uma chance no esquema tradicional de vocações que se impõem, acabam tomando ares de jornalista sem terem pisado numa empresa de comunicação. A formação do ensino superior para o jornalista deveria continuar como opcional e também complementar uma formação mais pesada. Vejo o jornalismo como pós-gradução. Acho um escândalo que estudantes de jornalismos e mesmo recém-formados jamais tenham lido um livro (Notícias do planalto não vale). Conheci várias pessoas assim, ninguém me contou. A leitura e análise de livros deveriam ser obrigatórias, mas de maneira intensa. As empresas de comunicação, tão à vontade e muitas sem redações, só com departamentos comerciais, deveriam ter bibliotecas dentro delas, com bibliotecária formada fazendo o acompanhamento das leituras e a produção de papers sobre cada livro lido. Um jornalista que nunca leu as memórias do Samuel Wainer, escritas pelo Augusto Nunes, não pode se dizer jornalista. Você fala em Samuel Wainer e há um grande ponto de interrogação na cara de muita gente.
BALCÕES - Onde estamos? Na ditadura civil, claro, que leva em rédea solta a produção de veículos de comunicação e tenta enquadrar até o osso os jornalistas, que agora esperneiam contra os excessos corporativos. É preciso garantir o livre exercício da profissão sem enquadrar o jornalista, mas as empresas. Matéria paga em revista semanal disfarçada de grande reportagem? Não pode. Deveria dar multa pesada. Como há muita competência hoje no jornalismo empresarial, esse nicho tem se aproximado da linguagem jornalística. Isso dá elegância e credibilidade a um veículo corporativo. Do outro lado do muro, os jornais e revistas parecem grandes balcões de negócios, com a publicidade escancarando seu poder no meio das reportagens. Anúncio no lugar de olho pode? Capa de caderno cultural, inteira, fazendo propagando de jeans? Quero minha profissão de volta.
RETORNO - Embaixo do artigo de Edson Sardinha sobre o CFJ, no Comunique-se, coloquei o seguinte comentário: A ditadura civil, sistema político que nos governa (seja qual for o governo), conta com o apoio do corporativismo dos jornalistas, que ao defender a profissão partiram para o engessamento do perfil profissional, com graves conseqüências, agora tornadas explícitas. O jornalismo é um ofício que precisa ser protegido no atacado, a empresa de comunicação, e não no varejo, o exercício da profissão. A empresa de comunicação não deveria poder colocar o tacão dos seus interesses sobre uma profissão que deve garantir a livre expressão da opinião pública. Por isso a empresa precisa ser regulamentada. E o jornalista não deveria estar cerceado, para garantir a livre circulação de idéias. Por isso não deve ser regulamentado. Mas trocou-se as bolas. As empresas de comunicação deitam e rolam e os jornalistas estão cada vez mais na jaula. O resultado é o prejuízo financeiro e falta de credibilidade dos veículos de comunicação e o empobrecimento profissional e pessoal dos jornalistas.
10 de agosto de 2004
OS ESPAÇOS FATIADOS
O ator move a cabeça lateralmente em ângulos bem determinados, como faz Michael Keaton e Kiefer Sutherland. A tela da TV, pequena para definir espaços maiores, e mesmo a atual tela de cinema, infinitamente menor do que o velho cinemascope, obriga o ator a fazer esse movimento que, para quem não domina o ofício, fica artificial demais. Quem é do ramo sabe que assim pode fatiar o espaço em vários pedaços de percepção. O que ele pretensamente enxerga em cada movimento é um compartimento à parte, que pode sugerir espanto, dúvida, entendimento.
TRUQUES - Mas há os grandes canastrões, como Andy Garcia, que mexem lentamente a cabeça para o alto e depois, num gesto que pretende ser imperceptível, fixam o olhar num vazio onde parece existir algo. O truque fica óbvio demais. No fundo, o ator cubano acreditou que possui uma estampa imbatível e as pessoas pagarão só para vê-lo levantar a cabeça, talvez para dizer que lembra que um dia foi dirigido por Coppola e depois nunca mais fez alguma coisa. Garcia também tem o dom de carregar levemente (para evitar rugas) o sobrolho ou dobrar o indicador no queixo para expressar concentração. Keaton e Kiefer, atores médios que se especializaram no artesanato da interpretação, quebram o galho em filmes de ação, onde os gestos laterais da cabeça ajudam a multiplicar a cena. Há atores melhores, como Morgan Freeman, que ao interpretar um detetive concentrado na tela do computador coloca a cabeça um pouco em diagonal com o micro e nos surpreende quando levanta subitamente os olhos. A cabeça levemente inclinada já cria alguma coisa em relação ao brilho e à superfície da tela; o levantar de olhos nos leva para o núcleo da sua investigação. Sabemos que ele desconfiou de algo, que ele está pronto para descobrir, que ele aponta uma pista e que a partir desse gesto, tornando significativo pelo seu grande talento, os atores coadjuvantes vão vestir a idéia com movimentos, diálogos e ações. Um crime corre agora o risco de ser desvendado. O roteiro pode ser fraco, mas um grande ator salva a obra toda. Há ainda o mistério dos monstros como Marlon Brando, que transforma sua cabeça num monumento iluminado pelo gênio de Coppola e que torce a boca ou apenas fala e tudo funciona de maneira magnífica. Sobre essa arte nós, que estamos fora desse ofício, fechamos a boca. Vai lá saber o que eles realmente fazem para nos assustar.
O FAVOR E A ORDEM - Um favor é quando você não consegue fazer o que pede. Uma ordem é quando você pode fazer e lembra o Outro que é atribuição dele. Uma ordem costuma vir disfarçada de favor, como é o caso do imperativo Façavor. E se houver relação obsequiosa, um favor pode cumprido como se fosse uma ordem. Na sociedade escravagista em que vivemos, as exigências vestem a roupa da falsa civilidade, mas os interlocutores mandões se traem quando fuzilam o olhar para suas vítimas. Ler os gestos é uma forma de entender a verdadeira intenção de quem se dirige a você. Desconfio, por exemplo, de todo jornalista veterano que não tenha curvatura nas costas. Passou a vida dando ordens e fugiu das pretinhas. Implico com quem jamais entende o que você fala, pois isso quer dizer que tua fala não é legítima e não tem importância, tanto é que precisa ser repetida várias vezes. Na terceira vez em que você repete a fala, você é interrompido com algo que o desqualifica (ah, mas isso eu já estou sabendo, por exemplo). Assim é a nação de escravos onde vivemos. São coisas comuns, diárias, mas que pouca gente presta atenção. Tudo isso é fonte de sofrimentos e de baixa auto-estima. Ninguém consegue mentir se você souber ler o que a cabeça, os ombros, as pernas, as costas dizem. Preste atenção no olhar. Crie espaços fatiados com seu corpo para escapar para novos mundos. Diga para procurá-lo na esquina. Uma retaliação desaforada nem precisa ser explícita. Basta você replicar de maneira competente.
9 de agosto de 2004
O SABER LISO DE AZULEJO
Ao seguir a esmo pelas ruas, Sinistrus Joe foi parar na palestra do ínclito Pífio Esmeril, professor doutor formado pela Universidade do Vale do Níquel, na Monrovia Central, e autor da tese A Necessidade de Ser Europeu no Gueto Conhecido como Europinha. De olhar azul furibundo e vestindo conjunto preto apertado, Joe afundou a cabeça (encimado por raridade capilar e adornada com modesto rabinho de pônei) numa suave poltrona de corino que ajuda a compor um teatro pouco conhecido na periferia da cidade. Joe adormeceu quando o sábio teceu longa aleivosia sobre o azulejo azul como representação da consciência do homem comum.
CONFORTO - Sinistrus deu um trato no visual e agora, além do uniforme, usa bota de salto recém escovada (presente do seu amigo milionário), mas costuma futucar lixeiras chics do centro e dos shopping atrás de sobras de latinhas de refrigerante. Ele implica com a mania brasileira de esmigalhar latinhas com os pés para a tal da reciclagem e costuma dizer que o brasileiro desceu tanto na escadaria do desemprego que encara a mendicância como profissão nobre, já que esse nicho há muito está lotado em todos os pontos possíveis do Brasil. Por isso descobre estranho prazer quando vê uma lata que escapou do massacre e sorve o líquido viscoso de algo inominável, enquanto olha para os lados para espantar quem se aproximar dele. Mas como tem apurada percepção, descobriu um grupo fora dos padrões normais e seguiu-o, palmilhando cada pedaço de calçada com o cuidado dos leopardos. Viu então que eram estudantes que cumpriam agenda escolar indo a pé, em longa caminhada, até a palestra de Pífio Esmeril. Este, alto, parcialmente calvo, de terno cinza claro e grandes manoplas expressivas, atrás de uma exígua mesa (para não caber mais ninguém ao seu lado) tergiversava sobre sua tese como se esta fosse o único ponto importante do saber mundial. De butuca na platéia estranha, Joe tentou se esconder, sentado para não ser descoberto, mas o súbito conforto o engolfou entre um parágrafo e outro das boutades verbais do nobre lente.
PULO - Acordou de um salto quando ouviu a palavra caboclo, dita de maneira cheia, como se uma batata quente com a tessitura de uma bola de ping pong ribombasse no céu da boca do palestrante, assustando os ouvintes. Pífio Esmeril notou a agitação do nobre colega e, opondo-se a seus hábitos, quis saber a opinião do estranho ser vestindo preto e que ostentava credibilíssimo cavanhaque. O que o senhor acha...entendeu Joe, que subitamente deu sua resposta padrão: quem pensa que é europeu não passou de Niterói! Disse isso num grito, para compensar o que tinha ouvido do outro, pois agora toda a palestra inoculada durante o sono vinha à luz como um monstro do lago Ness. Pífio tinha sustentado a idéia de que a consciência tem um brilho azul e insano e se desdobra infinitamente em superfícies eternas, jamais mergulhando em qualquer ponto do universo. A profundidade era exclusiva de deuses e de escolhidos como ele, Pífio, mas no comuns dos mortais, especialmente os que eram objeto do seu estudo, nunca atingiam a altura máxima de dois milímetros. Daí para a palavra caboclo foi um pulo.
GLAUBER - Entendo, respondeu Pífio, e continuou sua arenga sem se importar com as breves palavras do seu, agora, oponente. Sinistrus viu que tinha chamado a atenção do grupo. Alguns, espantados por vê-lo ali, depois de terem notado sua presença no centro da cidade, levantaram-se para falar com algumas autoridades presentes, que usavam farda azul e vasto revólver na cintura. Joe escafedeu-se não sem antes gritar: mais fortes são os poderes do povo! Joe sempre usa Glauber Rocha quando pressente o perigo.
NAVEGAR NA CULTURA
ADORNO - Fico reclamando do Gilberto Barros, o onipresente, que tem a petulância de ocupar todo o horário nobre com asneiras, e que divide a TV aberta com nulidades de auditório nas outras redes (todos fazem a mesma coisa o tempo todo) e esqueço de lembrar o que Theodor Adorno (1903-1969) disse sobre esse pesadelo. Europeu sofisticado, ele migrou para a América com o ascensão do nazismo. Consulto a Internet e vejo o que ele viu: a fonte do horror que hoje nos sufoca: A imensa rede de atividades que cobria toda a cidade era regida apenas pela ideologia do negócio. Numa sociedade onde as pessoas somente sorriam se ganhavam uma gorjeta, nada escapava das motivações do lucro e do interesse. Aprofundando-se no estudo da mídia norte-americana, entendeu que por detrás daquele aparente caos, onde rádios, filmes, revistas e jornais, atuavam de maneira livre e independente, havia uma espécie de monopólio ideológico cujo objetivo era a domesticação das massas. Quando o cidadão saía do seu serviço e chegava em casa , a mídia não o deixava em paz, bombardeando-o, a ele e à família, com programas de baixo nível, intercalados com anúncios carregados de clichês conformistas, comprometendo-o com a produção e o consumo. Não se tratava, para ele, de que aqueles sem fim de novelas e shows de auditórios refletissem a vontade das massas, algo autêntico e espontâneo, vindo do meio do povo. Um anseio que os profissionais da mídia apenas procuravam dar corpo, transformando-os diversão e entretenimento. Ao contrário, demonstrava, isso sim, a existência de uma poderosa e influente indústria cultural que, de forma planejada, impingia aos seus consumidores doses cavalares de lugares comuns e banalidades, cujo objetivo era ajudar a reproduzir ?o modelo do gigantesco mecanismo econômico? que pressionava sem parar a sociedade como um todo. Lá, na América, não havia espaço neutro. Não ocorria uma cisão entre a produção e o lazer. Tudo era a mesma coisa, tudo girava em função do grande sistema. Dessa forma, qualquer coisa que causasse reflexão, uma inquietação mais profunda, era imediatamente expelida pela industria cultural como indigesta ou impertinente.(fim da citação).
KRISIS - Consulto o site www.consciencia.org para visitar o texto do Grupo Krisis sobre o fim do trabalho. Vamos a dois trechos: Quanto mais fica claro que a sociedade do trabalho chegou a seu fim definitivo, tanto mais violentamente este fim é reprimido na consciência da opinião pública. Os métodos desta repressão psicológica, mesmo sendo muito diferentes, têm um denominador comum: o fato mundial de o trabalho ter demonstrado seu fim em si mesmo irracional, que tornou-se obsoleto. Este fato vem redefinindo-se com obstinação em um sistema maníaco de fracasso pessoal ou coletivo, tanto de indivíduos quanto de empresas ou "localizações". A barreira objetiva ao trabalho deve aparecer como um problema subjetivo daqueles que caíram fora do sistema.
A mesma lei do sacrifício humano vale em escala mundial. Um país após o outro é triturado sob as rodas do totalitarismo econômico, o que comprova sempre a mesma coisa: não atendeu às assim chamadas leis do mercado. Quem não se adapta incondicionalmente ao percurso cego da concorrência total, não levando em consideração qualquer dano, está sendo penalizado pela lógica da rentabilidade. Os portadores de esperança de hoje são o ferro-velho econômico de amanhã. Os psicóticos econômicos dominantes não se deixam perturbar em suas explicações bizarras do mundo. Aproximadamente três quartos da população mundial já foram declarados como lixo social. Uma "localização" após a outra cai no abismo. Depois dos desastrosos países "em desenvolvimento" do Hemisfério Sul e do departamento do capitalismo de Estado da sociedade mundial de trabalho no Leste, também os discípulos exemplares da economia de mercado no Sudoeste Asiático desapareceram no orco do colapso. Também na Europa se espalha há muito tempo o pânico social. Os cavaleiros da triste figura da política e do gerenciamento continuam em sua cruzada ainda mais ferrenhamente em nome do deus-trabalho.(fim da citação)
RETORNO - Como hoje é uma homenagem aos alemães, registro a visita que o Conde Herr Holderbaum, que também tem forte ascendência italiana, fez no fim-de-semana, onde abriu uma das portas da sua coleção de identidades e nos brindou com magníficas pizzas de originalíssimo sabor. A receita ele nos segredou em parte, sob juramento de que não contaríamos para ninguém, pois teme a estandartização cultural de suas descobertas culinárias, fruto de profunda pesquisa em arquivos familiares antiqüíssimos. O Conde assumiu o posto de Mestre Pizzaiolo e fez uma demonstração civilizatória de um ritual que, como toda mágica, depende apenas de nomenclatura e mis-en-scène.
8 de agosto de 2004
AMAZÔNIA PARA OS OUTROS
La selva que todos quieren
Según algunas noticias, Brasil se prepara para privatizar buena parte de la Amazonia mediante concesiones territoriales a empresas e individuos para explotar maderas, productos vegetales, minas, turismo y ganadería. El gobierno brasileño desmintió tajantemente esta especie y la ministra de Medio Ambiente, Marina Silva, afirmó que trabajan exactamente en sentido opuesto: "Queremos evitar cualquier tipo de pretensión sobre el Amazonas que no respete la soberanía brasileña".
Hay que aceptar las palabras de la ministra, aunque las dos noticias no son incompatibles. Al conceder licitaciones por un número de años, así sea a firmas multinacionales, el Gobierno estaría ejerciendo la soberanía y podría amortiguar las fuertes presiones de distintos intereses que se proyectan sobre la selva. Algunos la explotan ya sin ningún recato y con pocos controles, y en torno a sus recursos giran mafias dispuestas a asesinar a quien las denuncie, como ocurrió al ecologista Chico Mendes.
Las afirmaciones, rumores y datos falsos que a menudo circulan por Internet sobre el Amazonas reflejan la triple tensión existente entre los Estados suramericanos que tienen soberanía amazónica, la comprensible preocupación reinante en el mundo científico por la indefensión de este valioso territorio -que cada año pierde 25.000 kilómetros cuadrados por talas de bosque- y los apetitos de explotación de la selva que palpitan en muchos sectores. En las discusiones sobre el TLC, sin ir muy lejos, las pretensiones de propiedad biológica tienen nombre propio: la diversidad amazónica.
La Amazonia brasileña -casi 5 millones de kilómetros cuadrados- es la selva más grande del mundo, y la cuenca total representa una quinta parte del agua dulce y otro tanto del bosque tropical del planeta. En su territorio yacen grandes minas de minerales escasos, como uranio, titanio, niobio y bauxita. Pero, más importante que todo, la Amazonia es el mayor depósito biológico de la Tierra, con más de 500 especies vegetales por hectárea y miles de especies animales. No existe laboratorio genético ni regulador de aguas y temperaturas más rico que esta región.
Desde el siglo XIX, los países poderosos le han puesto el ojo. Data de 1850 el primer escrito que menciona "la incapacidad de los brasileños para desarrollar la región", descalificación que implica también a colombianos, peruanos, ecuatorianos y venezolanos. Aquella inquietud se ha extendido. El vicepresidente Albert Gore señaló en 1989 que, "contra lo que piensan los brasileños, la Amazonia no es de ellos, sino de todos". A ello, un intelectual brasileño respondió que, en ese caso, también son de todos Nueva York, París, los museos europeos, los Alpes y otra serie de bienes que representan patrimonio de la humanidad. El presidente francés Francois Mitterrand habló de que "Brasil debe aceptar una soberanía relativa sobre la Amazonia", y el primer ministro británico John Major recomendó en 1992 una intervención militar directa para salvar la ecología de la región.
La Amazonia, pues, es zona caliente en todo sentido y no sorprende que se procure crear una atmósfera enrarecida sobre su manejo. Hacen bien Brasil y los países limítrofes en defender su soberanía, particularmente frente a países contaminadores y consumidores que a nadie pueden dar lecciones de respeto ambiental. Pero también conviene cuidarla al máximo y estudiar con minuciosa atención las consecuencias de cualquier proyecto económico en el área.
7 de agosto de 2004
ERA UMA VEZ O JORNALISMO
O QUE É VANGUARDA? - Vanguarda é a reportagem exclusiva, desvinculada de qualquer interesse mais forte. É a dedicação total do repórter e o respeito do editor. É o dono de jornal não meter as patas na redação e fazer como o velho Breno Caldas, que tinha um recorte do seu Correio do Povo preso na mesa pela tampa de vidro. Breno Caldas tinha uma resposta pronta quando alguém ia reclamar de alguma coisa publicada no jornal maior do Rio Grande, aquele que nasceu para refletir a união gaúcha e a soma dos pequenos jornais políticos da República Velha e que assumiu, depois da revolução de 30, a função de um jornalismo moderno e acima das picuinhas locais. ?Veja só, nesse recorte está algo que eu discordo e é exatamente contra mim?, dizia, mostrando o pequeno texto que algum repórter, ainda não totalmente impregnado pela cultura do velho Correio, tinha assacado, com o apoio distraído do editor. Claro que era uma boutade do grande Publisher, mas pelo menos havia essa cultura de que redação era de responsabilidade dos jornalistas, e diretor de redação era um cargo para jornalistas e não para parentes do patrão. Ainda não existiam as inúmeras faculdades de jornalismo, que despejam pessoas que fazem qualquer coisa por uma colocação, até mesmo trabalhar de graça. Não existiam os manuais de redação, pois naquele tempo haviam escolas do mais alto nível. Estudava-se português a fundo, além de Latim, Francês e Inglês. O sucateamento da educação provocou o analfabetismo funcional e os jornalistas que se formam ficam na mão da pata dura da mentalidade de negócios que tomou conta do ofício.
DE REPENTE, BLUMENAU - O ônibus parou numa rua arborizada. Parecia ainda a estrada do Vale do Itajaí e fiquei lá dentro, esperando que a viagem prosseguisse. Mas eu já estava em Blumenau. A cidade-aranha, que tinha um centro com várias pernas-ruas que se ramificavam e iam subindo morros e alcançando as periferias, mostrava-se absolutamente inédita para mim, criado na linha reta de Uruguaiana e no fervilhar portoalegrense dos 60 (meninos, eu vivi aquela cidade que explodiu no meio da rua). Fui então para a redação do Jornal de Santa Catarina, onde Nestor Fedrizzi me esperava, tentando montar uma redação. Não existiam jornalistas de sobra e ele fez um anúncio na redação da Zero Hora oferecendo o dobro do salário para quem topasse a aventura. Deixei a vida de estudante para trás, depois de ter passado um período na Folha da Tarde da Caldas Junior, onde fui foca selecionado em concurso. Trabalhei então com Mario Medaglia, José Antonio Ribeiro, o Gaguinho (diretor de redação, que já partiu para o Outro Lado), Sergio Becker, Paulo Becon (colunista), Virson Holderbaum (redator como eu), Renan Ruiz (arte), entre outros. Morávamos, os gaúchos, numa enorme casa ao lado do jornal, a qual chamávamos de Mansão. Nos primeiros dias, fizemos um movimento para conseguir ajuda de custo para a nossa mudança, pois estávamos, para variar, completamente duros. Isso provocou grande mal-estar e aquela equipe não durou mais do que um ano. Fui o primeiro a levantar vôo. Aquele jornal a qual chamávamos de JSC hoje é apelidado de Santa e é de propriedade, pelo que sei, da RBS. Essa foi a primeira vez em que assumi a aventura do jornalismo, essa profissão que tudo me deu e hoje passa por duro teste de sobrevivência.
NA LAPA - Foi Humberto Werneck numa palestra que apontou a saída para a crise do jornalismo: a reportagem. Autor de livros-reportagem, Werneck faz parte de uma elite fora das redações principais que mantém viva a atividade, que dele sempre recebeu as mais duras críticas. Nei, me dizia ele, você conhece algum lugar chamado Lapa que seja bonito? Veja a Lapa do Rio. Agora me diga: um lugar chamado Lapa de Baixo, tem chance? Era assim, com essa soda cáustica no humor, que cruzávamos os longos invernos no galpão da Editora Três, onde passei os mais produtivos anos do meu jornalismo particular. A mais notória piada de redação daqueles tempos era a chegada do Elio Gaspari na Veja. Como todos os editores estavam deitados na sopa de uma revista bem sucedida, diziam que só se ouvia o barulho da máquina do Renato Pompeu. E assim mesmo, esse último baluarte caiu quando Renato acabou o romance dele. Renato Pompeu é um escritor magnífico e, claro, não faz parte desse tamborete onde se aglomeram alguns famosinhos escritores da moda. Basta ler Quatro Olhos para ver o que é texto. Esse é o nível dos jornalistas brasileiros. Precisamos recuperá-lo. Basta contratar o talento, dar-lhe esse insumo básico, a liberdade, e lutar até a morte para publicá-lo. Um jornal assim será copiado por todos os sites do país. Vamos ser jornalistas, vamos ser heróis.
RETORNO - Tony Monti foi fundo no debate sobre a letra do Hino Nacional aqui no Diário da Fonte. Esperneei, contra-argumentei e no fim agradeci essa valiosa colaboração. Costumo saber o que penso quando escrevo livremente. O retorno me ajuda a esclarecer melhor o que penso e até mesmo a reavaliar o que escrevo. Ou a revisitar o assunto ou a insistir no que disse. Insisto: nosso Hino é o máximo. Mas ninguém é obrigado a gostar.
6 de agosto de 2004
O POEMA FUNDADOR
IMPÁVIDO COLOSSO - A primeira estrofe seleciona o momento de decisão, o grito do Ipiranga, como semente do novo país. O desfecho, a Independência, não se resume à convocação do príncipe para a guerra. O conflito armado já estava desencadeado desde o ano anterior, em 1821, e só chegou ao fim no dia 2 de julho de 1823. O que raiou naquele instante foi a promessa da liberdade, o sol que cega, a luz ostentada, a liberdade imaginada. Um brilho no céu. O céu escuro da pátria (até então não-existente) se revelou com essa faísca. O brado retumba porque havia ressonância nacional, havia a percepção de que era preciso se separar de Portugal. A segunda estrofe é o compromisso, o penhor, o significado do grito que coloca a nova nação contra a parede: ou se liberta, ou morre. Ou continua dependente, ou vira o jogo. O bordão da Pátria amada cria (ou faz referência a) o vínculo amoroso com a nova nação, que se torna objeto de adoração. O país nasce então, na terceira estrofe, desse raio vívido vislumbrado no momento do grito, desse sonho, dessa esperança e desse amor proposto para que a nação exista. A Pátria é uma revelação sem nenhum risco ou rasura. A imagem do novo país é como um céu límpido que se expressa com identidade própria, com a marca do Cruzeiro do Sul na sua face. Esse país, que tem uma constelação como marca, possui a vocação de grandeza, ditada pelo vasto território conquistado em séculos e com o sacrifício de muitas gerações. Esse esforço coletivo transfere grandeza à nação que nasce, um gigante que não se abala, sereno (impávido colosso, metáfora maravilhosa). Nasce forte e é eterno, pois seu futuro é como o seu território, gigante, belo e forte.
BERÇO ESPLÊNDIDO - O país nasce soberano, bem plantado, para todo o sempre, no seu território, embalado pela sua vocação de grandeza . Ao som do mar (tão distante hoje, com tanto baticum na praia) e à luz do céu profundo (temos isso ainda no interior e no litoral, não nas grandes cidades). Aquela faísca inicial, graças á grandeza da nova nação, faz do país uma criatura luminosa, gerada pelas promessas de um mundo renovado, num continente novo, a América. Esse país é de tamanho brilho e grandeza que pode ser visto como um ornamento de ouro, central, em forma de flor, nesse novo continente. Isso o torna diferente das demais. A natureza generosa sugere uma vida também diferente, fundada na felicidade e no amor. Por isso ela é idolatrada e sua representação (bandeira, mapa, cultura) deve ser saudada como um estandarte, um símbolo do amor eterno. O poema define as cores do país (verde-louro) e seus fundamentos, sua vocação: paz no futuro e glória no passado. Há, entretanto, perigo na esquina. O país que nasce e se consolida pode ser ameaçado. A arma do novo país então é a clava forte da justiça, a guerra justa, que serve para reunir os cidadãos em torno de uma luta legítima, para valer, até a morte se for preciso. A certeza no país, o amor devotado a ele, não permite defecções. Esse país tão amado deve ser sempre como uma mãe amorosa para com seus filhos. Amor retribuído, de cidadão para a nação e vice-versa. Amor mútuo, recíproco.
ANTOLOGIA - O hino é apenas linguagem, e linguagem é pura representação. Isso não o torna irreal. Ele existe concretamente e serve de parâmetro para a idéia de soberania do país, com identidade própria, legitimidade e futuro garantido. O hino não propõe uma situação estática. Ele propõe uma História, a nação que nasce a partir de uma decisão irrevogável; uma mitologia, a da grandeza soberana, representada pelas cores, o estandarte (a bandeira), a marca da sua legitimidade natural (o Cruzeiro). O que é insuportável é alguém fazer trejeitos com a voz para tornar o hino mais muderno. O que não devemos aceitar é usar os símbolos nacionais para implantar uma ditadura, para fazer patriotadas. O que não podemos esquecer, nesta maré alta da pirataria internacional, que os territórios continuam sendo conquistados, invadidos, comprados, tomados á força. O Brasil existe porque está enfeixado em seus símbolos. Por isso a bandeira tremula ao vento e levamos a mão ao peito quando entoamos o poema fundador desse poeta fundamental, que tem sobrenome de rota, caminho, direção. E que deve fazer parte de qualquer antologia da nossa literatura, pois coube a ele dizer o que o país significa nos momentos mais solenes. Quando perdemos as eleições das diretas-já. Ou quando somos campeões do mundo. Ou quando enterramos um herói, que pela Pátria arriscou todos os minutos da sua vida.
5 de agosto de 2004
CAMPANHA DE ASSINATURAS
Os jornais estão em crise, mas não o Diário da Fonte. O que temos são acidentes de percurso. Uma placa-mãe que queima, uma internet discada que cai, uma nova rotina que impõe novos hábitos e assim por diante. Como este jornal virtual vai completar, daqui a pouco, 300 edições, e já tem gente reclamando que o gol do Alex ficou tempo demais no ar (duas laudas sobre um único lance e zero comentários), decidi lançar uma campanha de assinaturas. Prepare-se.
ELEGÃNCIA - Quem contribuir para a manutenção do jornal (que tem custos, obviamente) em troca de boa leitura, já estará inscrito para receber meu futuro livro de ensaios, que estou preparando, que é uma antologia do que está no site e neste blog, junto com outros textos. Imagino que dez reais por semestre estaria de bom tamanho,. Como sou otimista e vejo o número crescente de leitores, que aqui se refugiam expulsos da mesmice do jornalismo pátrio, acredito que esse é um valor mínimo e básico viável. Não tira pedaço de ninguém e ajuda e fazer algumas manutenções fundamentais. Basta enviar um e-mail para nei@consciencia.org dizendo que quer colaborar que eu direi o número da conta. Não vou tornar pública minha conta aqui no DF porque não considero isso elegante. Isto posto, vamos ao que interessa. Vamos obedecer a pauta do Mestre Moacir Japiassu, que comentou na sua coluna a disposição do vice José de Alencar em mudar a letra do Hino Nacional. É preciso entender que a letra do Hino é o nosso poema fundador. É uma letra que funciona como fonte de idéias sobre o Brasil. Contra o que se insurge o vice? Contra o verso deitado eternamente em berço esplêndido. Ele quer trocar para desperto e vigilante em solo esplêndido.
SOBERANIA - Argumento que o vice não entendeu o hino. "Deitado eternamente em berço esplêndido" quer dizer um país consolidado em sua soberania, não um país preguiçoso. O verso capenga do vice, "desperto e vigilante em solo esplêndido", além de tosco, é uma impossibilidade, pois se o solo é esplêndido, qual o motivo de ficar insone (desperto e vigilante, coisa de guarda-noturno)? O hino é o país que queremos. O país se deita na sua glória soberana. O vice é mais um desses politicamente corretos, que tem preconceito contra o povo ou o país (que acham preguiçosos) e para compensar vivem tentando defendê-loS. Era só o que faltava, copidescar o poema que nos deu imagens belíssimas como ?ao som do mar e à luz do céu profundo?, ou ?verás que um filho teu não foge à luta?, entre outras preciosidades. Nosso Hino tem uma história incrível. A melodia já existia desde o tempo do Império. Quando veio a República, quiseram mudar tudo, já que o regime mudara. Tentaram de tudo. Até que um dia, num evento em que estava o Marechal Deodoro, a bandinha tascou o laranja da china. Foi uma comoção pública. Então resolveram manter a música de Francisco Manuel da Silva e fazer uma licitação para a letra. Osório Duque Estrada fez o nosso Lusíadas, um poema épico fundador de uma nova nação. As dificuldades do Hino são a sua salvação. Todo conhecimento, observam os filósofos, implica em estranhamento. A letra avessa à facilidade obriga o cidadão a articular a língua culta em todas as suas entonações e consonâncias. O significado de cada verso é um desafio para a análise. Prefiro mil vezes o nosso Hino do que os de muitos países, que oferecem letras sanguinárias como mataremos todos os inimigos com nossas lanças e as patas dos nossos cavalos ou coisa que valha, imagens que sobram nessas canções bárbaras.
FRANÇA - Simpatizei com a Marselhesa até que a França fez aquele papelão na copa de 98, quando ganhou o caneco em casa depois de um episódio muito mal explicado. E tripudiaram em cima da seleção de ouro com aquele bobalhão do Platini à frente, fazendo gestos canalhas para a sua troupe enquanto, humildemente, recebíamos a medalha de prata. Mas nos vingamos em 2002, quando a França, que nunca foi de futebol, foi chutada para fora da Copa. Aquele hino, naquela copa, me deu engulhos. Muito bonito e tudo, mas já foi um dia expressão de cidadania e liberdade. Em 2002, perdeu a credibilidade.