20 de agosto de 2014

FIZ UM SINAL




Nei Duclós

O que é o mar, se não abismo
porção de sal em sol de açúcar
corte de Netuno numa escuna
cruzeiro solitário na penumbra

Palavra vã, mar, que se propunha
a naufragar o barco da aventura
confusa ao dar a volta ao mundo
capitania usurpada por bandeiras

Fiz um sinal e o mar então abriu-se
para eu passar com a lei da poesia
atrás vinha contrita a natureza

O maná me foi negado, comi areia
gotas de granito no deserto
quem é o mar senão um crime?


18 de agosto de 2014

DEUS INCOMODA



Nei Duclós

Deus incomoda, ceifa o trigo
na foice cega. Eleva
a estrela anã a supernova
compõe a sinfonia na rebeca

Inventa a treva para curtir
o escuro, e lança luz no lugar
que não preserva.
Gosta de dizer o que se entrega

para enterrar a palavra
ainda crua. Deus existe só
por teimosia, para fazer
companhia à alma bruta

que Ele soprou no barro
e foi para o ralo,
mal rompeu a comunhão
 da má conduta

Deus se acomoda,
o livro arbítrio é quando
delega e de ressaca no exílio
não desperta

o crime aproveita e se rebela
na fila onde Eva nos deserda
filhos da maçã, ferida aberta
no corpo fechado e infalível


14 de agosto de 2014

PASSAGEM PARA O PERDÃO



Nei Duclós

Caverna, em cinema, é a câmara escura. Por onde entra a luz – porta, fresta, janela – é o olho do refletor emitindo seu rastro pelo breu. O contorno da figura que se desenha na visão precária de quem está no fundo da sessão é a imagem virtual de uma presença poderosa, o protagonista de um drama que a narrativa, costurada pela Sétima Arte, veste de humanidade. Normalmente é alguém que sofreu uma derrota, como John Wayne no final de Rastros de Ódio, de John Ford, com seu passo de pistoleiro, emoldurado pela sombra. Ou o médico indiano que virou vítima da fantasia de uma moça britânica, numa das obras primas de David Lean.

Essa linguagem que se reporta a si mesma é o jogo sutil de uma pintura em movimento, carregada de princípios e valores e exposta como uma pedra ao sol do meio dia de verão. Assim, revelados pela luz, aprendemos que o erro, o equívoco, o desvio, são comuns a qualquer nação, povo ou ideologia e a culpa migra em rodízio conforme cada evento. Ser oprimido não dá razão a ninguém, assim como pertencer ao povo opressor não dá carta branca para as acusações de culpa. Tudo é passageiro e minúsculo diante do Destino e do poder supremo da natureza. A única coisa que engrandece a humanidade é sua capacidade de perdão, fruto da lucidez e da coragem. É o que nos diz Lean em Passagem Para a India (1984).

A moça inglesa (interpretada por Judy Davis) que tem dúvidas sobre seu noivo e seu casamento, vê-se enredada pelo eco das cavernas quase inacessíveis. E sofre sob o sol da colônia, país cheio de armadilhas eróticas, como as ruínas esquecidas num ermo povoado de estátuas enormes em poses sexuais, habitadas por multidões de macacos selvagens. O moço indiano (ator Victor Banerjee) que quer ser incluído no universo britânico e força a barra para impressionar suas ilustres convidadas – a moça e sua idosa tia – acaba vítima da Justiça e é julgado por um estupro que não cometeu. O entorno de cada membro desse casal de protagonistas empurra para o erro: os ingleses, ofendidos com a ousadia do nativo que assediou a donzela; e os indianos, que transformam o pretenso estuprador em herói por ser prata da casa em oposição ao invasor.

A corda arrebenta nos mais fracos. Na mulher, que acaba reconhecendo que acusara um inocente, e o réu, que se transforma radicalmente: deixa de ser o solícito médico moreno para se transformar num odioso cidadão excluído que vê a chance de se libertar. O jogo muda de mão no transcorrer da história. Quem tinha razão a perde por entregar-se ao ódio. Quem deve ser perdoado agora é a moça britânica por ter sido vítima da incompreensão do acusado, que deixou-se levar pelo ressentimento. Em ambos os lados da contenda, destacam-se os apaziguadores, o amigo inglês (James Fox) que sempre confiou na inocência do acusado, Mrs. Moore (Peggy Ashcroft), que tem estima pelo rapaz, e o professor indiano (Alec Guiness, perfeito como sempre) que confia no desfecho já prescrito - pensamos ser a condenação, quando era a liberação do réu.

Lean nos surpreende a cada minuto. O som é um contundente personagem: o clima de assombro criado pelo eco na caverna provocado primeiro pela multidão e depois pelo moço indiano desesperado em  busca da sua convidada que tinha sumido de vista. No escuro da caverna e diante da iluminação que vinha da porta, onde se desenhava o perfil do seu pretenso algoz,  ela se entrega à ilusão: o ato sexual que não aconteceu, o estupro estava na sua ansiedade, vontade, atraso, na sua imaginação. No tribunal, debaixo do teto de vidro, ela consegue enxergar a verdade e, depois de assumi-la, receber o impacto da inundação das águas que estavam represadas. O orgasmo, representado pela água que escorre pelo chão no momento do falso crime, agora se transmuta no encontro de si mesma, quando decide retirar a queixa e enxergar sua própria culpa, a mentira, o erro, o equívoco.

É a vez então do réu, que revida e se afasta, envenenado pelo que lhe aconteceu (cadeia, invasão de domicílio, nome sujo). Mas isso lhe tira a razão. O reencontro, por meio de uma carta, é o final favorável desse drama em que o cinema é a sala escura da caverna, onde o evento é imaginado e, portanto, visto, trespassada pela luz que vem empurrada pelo sol do verão indiano.

Sutil, grandioso, emocionante, obra de gênio. Justifica a resposta à pergunta essencial. O que fizemos das nossas vidas? perguntarão. Fomos ao cinema, responderemos.

Nei Duclós

13 de agosto de 2014

PENS/ARTE



Nei Duclós

Alegria e tristeza fora do teatro. Sem iluminação para criar clima. Sem olhares para o vazio para atrair atenção. Sem riso estudado de resultados.

Mas a sinceridade acaba sendo de bastidores, uma performance perfeita que até parece humana. Criamos personagens à imagem e semelhança de alguém que desconhecemos, nós mesmos.

Somos colhidos pela tentação da sabedoria, a que não nos pertence. Traímos o molde e fora dele. Por isso fazemos arte, representação do que podemos ser, calor na sala alimentado pelo porão.

Morrer é pouco quando a verdadeira maldição é não se ver e confiar no espelho o que vigiamos desacordados.


12 de agosto de 2014

DEIXE QUIETO O SEGREDO

Nei Duclós

Deixe quieto o segredo. Ele é um dragão dormindo.

Lua tão intensa que impôs a prata fria de um dia bizarro no quintal preparado para a aparição dos espíritos.

Não precisas de mim, a não ser quando desapareço.

Eu te ignoro quando não ousas sumir da minha frente.

Bom que te releio, acervo cada vez mais denso.

A prosa é o amor de chão batido. A poesia, a falta de piso.

Corres daquelas mesas para, sozinha, abrir tua caixa postal. E lá está, a mensagem que te imobiliza.

Era amor, mas inventaram uma concorrência entre nós. Então entregamos os pontos numa certa noite. Mas voltaremos, palavra que dói de tão bonita.

É tanta saudade de ti que parece implicância.

És minha paisagem, reduto extremo do amor e sua miragem

Perdemos o dom da palavra, que escorregou para longe. Ficamos com as pistas, sílabas que são gritos.

Me imaginaste deserto quando sou adubo onde semeias.

Flor é a senha. Surra de pétalas.

Perdemos a noção nos tropeços. Dá-me tua mão, mesmo que eu não mereça.

É bem pequeno o alcance do poema. É como asa de pássaro arisco quando fisga no ar a pétala em queda.

O limite nos faz humanos. O infinito nos condena à eternidade.

Não consigo me afastar por mais que eu fuja. Sempre estás onde mais te oculto.

Deixou cair o lenço num lugar inacessível. Tentei a expedição impossível. Mas o vento rolava para longe seu beijo embrulhado naquele pano

Arrependeu-se do amor, como a flor quando nota que se enfeitou à toa. Girou nos calcanhares, foi para o dancing de um subúrbio de guitarras roucas.

Calou-se por um tempo. Minuto de eternidade

 

SCRIPT

Precisei refazer o script. A estrela tinha sumido. Foi substituída por reflexos de água na planície escura do céu noturno.

O mestre não precisa de reconhecimento ou submissão. Celebre seus dons e submeta-se ao silêncio. Ele pertence a algo que nos transcende.

Aceite o convite, mesmo que seja esquisito. Adicione-se a uma percepção diferente do que te deixa agora em desconforto. Voe, deixe o porto.

Somos soma. O que vês em mim tem porções de ti.

Decepcione-se antes de admirar. Isso economiza tempo e evita a ressaca da revelação.O humano antes do mito celebra algo maior, o espírito.



CONVERSAS

- Me sinto forte, falei para o final do dia.
- O que te deixa triste, desiste, ele me disse.

- Escreva algo de fôlego disse ela. Não se perca em pequenos insights de domingo.
- O amor é a obra maior, disse ele. Nenhuma palavra é do tamanho do que sentimos.

- Por que publicas versos fraquinhos? disse ela.
- Poesia não exerce o halterofilismo, disse ele.

- Prefiro que sejas épico, não lirico, disse ela. .
- Só a flor sobreviverá ao apocalipse, disse ele.

- Desse jeito serás sempre expulso do cânone, disse ela.
- Poesia é pedra em janela de vidro, disse ele.





ESCREVER-TE


Não acredite no que te dizem. A vida te acha bonita. E isso fica, enquanto a palavra inútil sobre ti se definha.

Passas a mão como se eu fosse um livro. Cada folha me sinto vivo.

Aprendo com o que te ensino. Me devolves o que fica fora de mim, a lição relida em tua alma de ouro.

Me distraio com as palavras. Mas elas somem, datadas. Fica o hábito, preparo de uma íntima obra.

Nem sempre acerto na escolha do verbo. Deixo para ti, coração assustado, tuas antenas de seda trêmulas de contato.

Estás fora de alcance, envolvida em outras paragens. Mas o verso é a linha direta com tua fantasia de um novo compasso.

Vestida só do meu beijo, me escreves de um realejo. Tocas a melodia de um encontro sem medo.

Digo para o vento o que calo contigo. Vê se escuta o meu jeito tímido.

 

PASSEIOS

1.
Me deste a mão num passeio
surgido por acaso
numa praia em dia de agosto.

2.
Defines o sonho
quando a realidade desmorona
em minutos de prata e ouro

3.
Vou adotar um nome oriental
para fazer parte do teu caderno.
Com versos lavados de sabedoria.
Preces poemas, cheias de subterfúgios.
Falando que o amor é de tua competência.
Quando sabemos que há Cupido
e suas flechas de veneno.

11 de agosto de 2014

O SOM EXATO



Nei Duclós

O som exato que é dito
reflexo do mecanismo
na aridez do conflito
quando a alma frutifica

Dom  e obra do artífice
pelo tempo transcorrido
acervo em mapa deserto
corte na carne convicta

Vogal encaixa o sentido
 consoante cada capitulo
ordenações do medievo
segredo em cofre de vidro

Enxergar o que é enigma
ocultar a descoberta
sob o véu da pitonisa
o poema faz a festa