12 de janeiro de 2010

CORTE CADETE



Nei Duclós (*)

O corte cadete deixava uma penugem no alto do cocuruto. Era obrigatório até a adolescência. Havia um relaxamento da imposição por alguns anos, até se chegar à idade militar. O rigor do assassinato estético era justificado pelo uso de boinas variadas. O cabelo confinado ao reduto muito acima das orelhas, lá onde o calombo do crânio tornava-se indecente, era o piso sagrado da gorra verde, branca ou azul, conforme a arma onde se servia. Todos sabiam que a branca era dos Fuzileiros Navais, a azul da Força Aérea e a verde nem precisa dizer de qual.

Era raro alguém ter orgulho de usar o cabelo assim pela vida afora. Um adulto, fora dos esquadrões e com liberdade de voo, não deveria passar a máquina zero de quinze em quinze dias para demarcar bem o território do seu orgulho. Mas havia uma exceção. Seu apelido, naturalmente, era Gorrinha e assim ficou para todo o sempre. Costumava dizer que viraria semente. Tinha encontrado sua identidade eterna.

Talvez quisesse preservar os sabores da mocidade, quando marchava orgulhoso ao lado de seus pares. Ou então gostava de ser chamado dessa forma, já que seu apelido era popular graças ao futebol jogado no time do bairro, o Andradas. Alardeava os feitos para os garotos da cidade que conheciam apenas o asfalto e jamais se aventuravam na periferia, onde Gorrinha reinava. Uma das marcas que exibia como craque era o chedinho, nome dado ao chute que pegava na veia. Nenhum goleiro resistia ao chedinho, que estufava as redes invariavelmente, segundo o relato feliz dito em tom sério.

Só mais tarde, quando voltávamos da capital nas férias, ouvíamos de novo o herói, já sem o brilho físico de outrora. Agora ele fazia parte do terceiro time do Andradas, mas as histórias eram ainda de primeira linha. Continuava caprichando nas versões, que cercavam sua biografia de uma aura dourada.

Poucos anos trás, fui visitado por ele quando retornei à minha cidade. Usava a mesma bicicleta que o carregava ao longo de ruas planas e largas. Mas havia uma diferença: pela primeira vez vi Gorrinha chorar. Era de saudade, dizia. Do tempo das rodas em que era ouvido e que, com nossa ausência, ficaram por lá. São memórias perdidas nos estádios do subúrbio, como bola quicando no fim da tarde. Gorrinha chorava porque a grande noite do tempo descia sobre as almas exaustas de tanta vida.

RETORNO - 1.(*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 12 de janeiro de 2010, no cadferno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem desta edição: timaço do Grêmio, com o grande uruguaianense Gessy Lima no centro entre os agachados. Segundo Roberto Mossman, Gessy Lima era "o Craque Paradoxal, porque, apesar de ser um dos maiores jogadores da história do Grêmio e do Rio Grande do Sul, ele simplesmente não gostava de jogar de futebol. Mas tinha tanta bola no corpo que ninguém ligava para isso". Gessy, o maior craque gerado pelo celeiro de futebol que é Uruguaiana, formou-se em odontologia aos 26 anos e nunca mais jogou. Informações por e-mail enviadas por Elo Ortiz.

11 de janeiro de 2010

FLERTE


Nei Duclós

Sei que não mereço
Mas ao te olhar
Emagreço

Imagino o teu desprezo
Mas nada pesa
O desejo

O coração ainda é o mesmo
Flutua quando estás
Perto

Se me perguntas por quê
Em vez de correr
Escrevo

É para não mais te perder
Minha quarta folha
Do trevo

RETORNO - Imagem desta edição: Um Casal, de Botero. Tirei daqui. Hoje, a vilania é a aparência, jamais o crime, tolerado em todas as instâncias.

ALTA TEMPORADA


O litoral brasileiro, deslumbrante, foi transformado numa arena complicada porque está em grande parte privatizado e entregue às baratas ao mesmo tempo. Ou seja, lotearam a praia, cobram os tubos e nada fazem de beneficiamentos. Fica tudo ao Deus dará. Não existe administração pública no Brasil, apenas extrativismo. Querem extrair, colher, devorar, gozar. Vemos o resultado desse mau exemplo que vem de cima: bêbados tirando a cabeça para fora do carro e berrando. Quem ainda se diverte são as crianças, porque persiste o hábito do veraneio familiar, o que segura um pouco as pontas.

A culpa é da falta de políticas públicas, que escancaram os territórios do litoral para a especulação e a falta de propósitos. No litoral norte de São Paulo, vi há tempos, pela primeira vez, mansões e muros cobrindo o caminho para o mar, que só pode ser acessado por estreitos corredores. Acontece isso em vários lugares. As pessoas chegam e perguntam: onde está o mar? Atrás das biroscas. Há uma cobra de concreto cercando todos os espaços para a areia. Os carros se apertam em vielas e na alta temporada vira tudo um engarrafamento só.

No domingo, para tomar banho na onda, as pessoas são obrigadas a estacionar em fila tripla. Os moradores não gostam do alto verão, aguardam março, que é mais tranqüilo e ainda há tempo quente. Gostariam que houvesse o mínimo de organização, saneamento. Lixeiros desesperados ficam o dia inteiro carregando toneladas que se acumulam por todo canto. Gente demais se amontoa em cada centímetro do território.

Deveríamos nos espalhar com conforto por toda a orla. Temos de sobra. Mas a idéia é fazer todo mundo pagar o maior mico. As multidões s locomovem de automóvel. Não tem um só trem para nos carregar com tranqüilidade pelo Brasil afora. E agradecemos quando escapamos de aguaceiros como este no litoral do Rio e no ano passado por aqui. Fiquei impressionado que as pessoas pagaram cinco mil reais para passar o reveillon embaixo de uma tonelada de barro. Com cinco mil reais dá para comprar um país e ainda sobra troco para um arquipélago. De onde tiram tanto dinheiro?

O Brasil é um país estranho. Prefere desenterrar crianças do barro do que ter políticas decentes de moradia. O mau costume é colocar a culpa no povo, quando é dos especuladores e seus aliados nos governos. "Eles constroem onde não devem e não querem sair de lá", dizem do pobrerio. Deve ser mole conseguir casa sem ter renda. Ou falam mal dos especuladores sem nenhuma conseqüência, pois a incúria continuará. Inundações cíclicas provocam reações repetitivas, com histórias edificantes de salvamentos e a cara de boi compungido dos apresentadores.

O país é do pau a pique, avesso a alicerces, ao cálculo, às aplicações da física e da matemática, onde pontes, igrejas, estradas desabam. Desmatamento, plantations, gado onde era selva, moradia pendurada no morro, empreiteiros sem engenharia, tudo isso é igual a destruição. Extrativismo, improviso, incúria, papo-furado, grilagem, má distribuição de renda fazem parte do modelo hoje embaixo d´água . O modelo de ocupação do território, que vem da época colonial, desabou com a chuva. Ou muda o sistema, ou seremos apenas barro.

Agora em janeiro, com o fim da folga compulsória de fim de ano, as coisas tendem a ficar um pouco mais equilibradas, mas nem tanto. Mas a muvuca se estende por dois meses. Depois, é aquele Paris,Texas: bairros mortos soprados pelo vento minuano. É quando bate a saudade do movimento, das comemorações, das visitas e dos momentos felizes em que as ondas fazem rolar os corpos exaustos na beirinha da praia.

RETORNO - Imagem de hoje: quadro de Juliana Duclós.

9 de janeiro de 2010

MEU DECRETO SOBRE DIREITOS HUMANOS


Fedeu a discussão sobre o decreto dos direitos humanos. Neolacerdistas chiaram contra a “comunização” do Brasil (achei que nunca mais ia escutar esse troço) e dentro do próprio governo os Ministros da Justiça e da Agricultura se insurgiram contra os abusos da nova lei, que, segundo as denuncias, estaria criando um poder acima da Justiça, revogando a Lei da Anistia e ainda por cima permitindo que as invasões de terras tenham mais amparo legal.

Acho tudo isso muito confuso. Como o debate foi adiado para abril, já que as Forças Armadas também não engoliram a enxurrada legisferante, decidi meter minha colher torta no assunto. Contribuo com uma série de medidas para resolver os impasses e criar soluções que garantam a modernidade do Brasil nessa área tão problemática. Vamos às minhas sugestões

MÍDIAS SOCIAIS – Orkut e Twitter terão poder de emitir leis, até manifestações ao contrário. Se, por exemplo, eu criar uma comunidade “O catchorrinho não é autor daquele poema que eu fiz”, isso valerá até que algum poeta emergente se assine Catchorrinho. Se eu tuitar que posso ter acesso a Avatar sem ter que esperar a chegada dos rolos de filmes por aqui nem ser obrigado a comprar o cd pirata do xiru da esquina, imediatamente terei o poder de ver o filme de James Cameron sem que ninguém me encha o saco. Isso poderá criar confusão, pois sempre terá um engraçadinho que vai dizer que a coisa não é bem por aí. Mas como são todos preguiçosos, vencerá quem tiver mais fôlego e tiver a manha de ficar online nas mídias sociais conhecidas e ainda se inscrever no Netlog, no Quepasa e outras arapucas por aí.

MINISTÉRIO DAS INVESTIGAÇÕES – Um ministério apenas para verificar se as pessoas estão realmente mortas deve ficar a cargo de Frank Brown, o Detetive Taxidermista, que Renzo Mora revelou ao mundo. Ninguém poderá ser enterrado sem que o próprio Brown ou alguém da sua equipe dê seu nihil obstat. Enterros levarão meses, mas ninguém será colocado vivo a dez palmos de fundura. Isso evitará assombrações e remorsos. É ou não direito humano? O problema é que Brown não fala português. Mas ao seu redor uma plêiade de transleitors Google, os anões atropeladores da neo-modernidade, darão conta do recado. O único problema é ter que subornar um anão para enterrar logo o chato do cunhado.

CAPITANIAS HEREDITÁRIAS - Como a única reforma agrária do Brasil, a das Capitanias Hereditárias (conforme definição de Millor Fernandes) deu bons resultados, a idéia é repetir o feito e dividir novamente o país em grandes latifúndios, que funcionariam de maneira autônoma, acima das divisões estaduais. Cada Capitania estaria a cargo de uma grande personalidade. Pena que Clodovil não está mais entre nós, pois ele poderia pegar a Capitania de São Vicente e pontificar acima do prefeito de Ubatuba; ou Erasmo Dias, que ao pegar Piratininga poderia invadir a PUC todos os dias. Mas temos ainda Cauby Peixoto, que pegaria a Amazônia, já que seu vozeirão cruza a mata; o Guri de Uruguaiana pegaria o Nordeste, para ensinar como a coisa funciona por lá.

Isso posto, revogam-se as indisposições em contrário. No pé do decreto, a pena de morte: chibatadas até o desenlace para todos os que não acharem isso tudo muito engraçado. Como dizem os patetas da internet: rs rs rs. Se alguém bocejar, ponho a culpa no alto verão, que derrete até o dedão do pé.

RETORNO - Imagem desta edição: Lacerda (toc toc toc), novamente no centro das atenções, com a volta do medão que gerou 64, o da "comunização" do Brasil.

8 de janeiro de 2010

ROSA DOS VENTOS


Nei Duclós

Eu perdi aquele tempo:
Eu de branco em frente
ao manto azul
que o mar estende

Eu perdi aquele tempo:
Ponte entre a ilha
e o continente

Dias de súbitas gaivotas
Noites de lisérgico espanto

Eu me lembro: aquele tempo
tinha nas mãos a luz
de uma tormenta

Palavras de fina lâmina
Rosa dos ventos

Hoje estamos sós
De olhar vazio
como os gigantes

RETORNO - 1. Mais um poema do meu livro inédito, Partimos de Manhã. 2. Imagem desta edição: estupenda foto de Irene Schimidt.

7 de janeiro de 2010

DIGO PARA MIM



Nei Duclós

Digo para mim: fica tranqüilo
as coisas não são tão terríveis
és um anjo de asas brancas
o sol dessa manhã cinza

Digo para mim: não tema
há muito que te prenderam
estás acostumado ao calabouço
ver o mundo será tão pouco
comparado à solidão que aceitas

Sossega, tudo vem, uma larva no pescoço
um acidente, o amor de quando em pouco

Por isso bebe a água, come a carne
a falta de um almoço não te mata
deixa o tempo engatilhar sua arma

Nasceste para durar pouco
ou não durar nada
mas durar é secundário

Antes de partir
deixarás pegadas na areia
para a memória do vento

RETORNO - 1. Mais um poema do livro Outubro. Imagem desta edição: tirei daqui.

6 de janeiro de 2010

A VIAGEM DE UMA GERAÇÃO


O lançamento do meu livro Outubro em 1976 foi destaque na imprensa de Porto Alegre. Abaixo,reproduzo uma das matérias sobre o evento (Folha da Manhã, 10 de março de 1976, uma quarta-feira):

"Outubro, primeiro livro de poesias de Nei Duclós, será lançado hoje à noite, na Faculdade de Arquitetura. Às 20h, junto com o lançamento, Cláudio Levitan, Carlinhos Hartlieb, Tuca e Chaminé estarão apresentando alguns poemas do livro, musicados. Outubro (o poema) é a Origem, a criação de que o autor mais gostou, e que, com o tempo, se transformou num tema. Que ele afirma não ser individual, mas das pessoas que o cercam. Dividido em sete partes (que vão da luz, aos amigos, dor, infância, amor e bom humor), o livro de Nei é um relatório de viagem: "da viagem que eu, toda minha geração fizemos. Na estrada e dentro de nós".

Outubro, título, nasceu da busca de uma linguagem para o livro. Uma linguagem que, para Nei, está cheia de problemas: "está se abusando dela, ela é falsa, de mentira, ou instrumento de poder, de separação entre as pessoas, ou então de repressão do pensamento". Outubro é o resultado da razão de ser da poesia — explodir com todos os esquemas repressores-reprimidos da linguagem; a busca da palavra com o poder mágico, que desencadeia todas as outras coisas.

"Trago a nova: eu mudo lento, e é tudo. Sinto ser assim por estações: aos turnos. Posso voltar ao ponto de partida mas luto. Sei que vem outubro. Flores, frutos de seiva romperão no mundo (Trabalho duro: sugar de pedras, rasgar os caules, colher ar puro) Lento e bruto eu mudo/ Sei que vem outubro". O livro de Nei Duclós não tem prefácio e sua apresentação é de Cláudio Levitan, a quem o autor credita a realização da obra. "Ele tem amor pelos meus poemas, esta vibração que me ajuda. Sem ele o livro não sairia". .
Para Nei; todo o processo de elaboração do livro foi "um transação muito bonita. Eu, Levitan, Juarez Fonseca, minha mulher Ida, que me ajudou muito, principalmente no início, nos juntamos. Depois houve uma reestruturação por sugestão do Caio Fernando Abreu. Tudo coincidiu, nada foi combinado. Até a diagramação do Juarez saiu sem ele saber das ilustrações e tudo saiu claro, redondo, bonito".

A idéia original de Outubro seria fazer um ciclo, onde as coisas aparentemente se repetissem, "como uma espiral, que volta ao mesmo ponto de partida, mas sempre mais alto". Veio a idéia de fazer por estações: inverno seria a dor. Outono, o recolhimento. Verão, o amor. Mas depois o livro exigiu uma estrutura mais complexa e ficou dividido em sete partes, terminando "com bom humor, rindo, que é a melhor maneira de se chegar de uma viagem, assoviando, mostrando que nem tudo está perdido". A poesia é algo essencial na vida deste autor gaúcho de 28 anos, natural de Uruguaia na. Mas, mais do que isso, ele quer "escrever, escrever, escrever".

Para ele foi o mar quem desencadeou o processo: nascido na fronteira, longe do mar, foi levado a conhecê-lo aos nove a nos e não esqueceu a imagem que teve, das dunas. A partir daí começou a fazer poemas sem parar — "foi um acontecimento" — e este mar, ele lembra em "Mar dos Nove Anos, incluída no livro: "O mar na minha infância como um trem no sonho de um louco um disco voador na porta dos fundos, como o fim do mundo com ondas voltando de viagem". Poesia, então, passou a ser uma maneira de participar da vida coletiva, de ajudar as pessoas e o mundo a viajar, ou viajar com o mundo. "Uma maneira de lidar com a magia, minha alquimia particular-".

"Rindo é a melhor maneira de se chegar de uma viagem".

Mas isto não quer dizer que escrever poesias seja algo compulsório: "Passo meses sem escrever, como quando estava em Vitória, fiquei um ano sem fazer nada, sem forçar nada”. Poesia, para Nei, não pede virar obsessão. E lembra Mário Quintana, ao perguntar que "pais' é esse, onde “mãe é palavrão e poeta é apelido". De Mário ele também fala em Outubro: "Olhem o antipoda olhem o animal da palavra. É um dinossauro na cidade de vidro, borboleta branca na floresta queimada".

Nei Duclós tem suas razões para "esquecer" as poesias por algum tempo. Lembra que entre 69 e 71 o apelo aos poetas era grande, a produção era grande, e todo mundo se sobrecarregou. Foi em 69 que ele participou dos poemas na praça expondo durante um mês, e muitas vezes levando uma novidade, pelo gosto bom de apresentar na hora as coisas feitas recentemente.

Jornalista, trabalhou em Porto Alegre, Blumenau, São Paulo, Florianópolis, Vitória. Em 69, além dos poemas na praça, participou de Tombam os Primeiros Homens dos Trigais, com Celso Viola e Maria Scopel, de poesia e contos, mimeografado, com 100 exemplares. Depois participou de Eu Digo, também de poesia e conto (de onde tirou alguns para Outubro) e mais tarde de Há Margem, além de ter escrito também nos jornais.

Foi a partir da idéia de publicar Outubro que ele passou a se organizar e o segundo livro, ainda não sabe se será uma ampliação do primeiro ou diferente. Quer é escrever sempre, poemas, contos, crônicas, embora "poesia seja mais tranqüila, a gente pode escrever até caminhando”. Considera Maiakovski estimulante e Garcia Lorca, de uma musicalidade incrível, que atingiu o vôo mais alto na poesia. De seus poemas lembra Outubro, Tornei - me Passos, Carta ao Amigo e Lição de Travessia, até agora o único para Uruguaiana, cidade que ele carrega com muito carinho.

RETORNO – Imagem desta edição: um dos magistrais desenhos de Cláudio Levitan para um poema de Outubro: O universo partiu-se na cabeça/ ceguei-me em sangue de estrelas/ e molhei o travesseiro onde guardava segredos/ A vida é um passo além do extremo.

5 de janeiro de 2010

PIPA EM QUEDA


Nei Duclós (*)

Ela cai no vácuo formado pelo mormaço insuportável. Despenca do céu de verão sem vento, rumo ao solo torrado de pedras em brasa. Partiu a ligação com seu dono e por isso se joga, inapelavelmente, em terreno inóspito, onde se empilham caixotes, ruínas de lajes, cercas de arames, pés de milho.

A criatura que se entrega na descida deixa algumas pistas nessa tragédia sem importância, como o fio que a prendia, solto agora no teto da casa invadida, roçando o jardim coberto de espinhos. A linha do labirinto leva ao esconderijo onde jaz a maçaroca de papel e corda. É uma pipa de duas cores, dessas feitas em série, sem nenhum valor. Abandonada, sofre o peso de tentar voar na estação errada, neste tempo de asas esportivas, que imitam a sonolência dos urubus.

Suas rivais são empurradas por motores que monitoram praias vaidosas. A pipa também enfrenta a assombração de teco-tecos cuspidos do Outro Lado. Pilotos atônitos dos anos 50 aportam no século 21 com barulho obsoleto de hélices curtas. No vôo rasante, é possível ainda ver, da cabina do pássaro roncador, o jeito que cai a pipa temporã, esquecida de seus conflitos, a bordar o calor como beija-flor ferido.

As navegações simultâneas, do sono, da irrupção e da queda, colhem o fruto improvável no início do ano, o poema ainda indefinido. São tempos que se cruzam, cada qual com seu ritmo, mas o vórtice é esse mergulho do brinquedo voador em brusca entrega sobre si. É como um recado. Deixar-se levar, implodir, contrariar a curva ascendente da competição, estragar o caldo corruptor da sazonalidade.

Todos aproveitam a tarde, o sol, o mar, menos a pipa, que aparentemente desistiu e decidiu entrar em parafuso para se esconder. Talvez tenha aproveitado o segundo de distração do garoto que resolvera empiná-la, contra todos os prognósticos do dia. Driblou a atenção de quem o segurava e cortou os laços. Assim, em vez de disputar espaço no céu tomado de expectativas e desejos, recolheu-se aos lugares ermos do bairro ainda em construção e já decadente.

Lá descobriu seus pares:o cachorro corrido pelos valentões da rua, a miosótis selvagem que só floresce quando ninguém está vendo e restos de roupas de um inverno recente, apodrecendo lãs tingidas. Cobertores misturados à terra, que acolhem a fugitiva e pedem para contar sua estranha história.

RETORNO – 1. (*) Crônica publicada nesta terça-ferira, dia 5 de janeiro de 2010, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem desta edição: Pipa II, trabalho de João Verner.

MARIO QUINTANA: A OUTRA VIDA


Nei Duclós

O reino de Mário Quintana não é deste mundo, onde a história é friamente traçada pelo calendário e onde as pessoas não podem dispor de seu próprio tempo. Seus poemas são janelas abertas para a outra vida, que não é, obrigatoriamente, o que está além da morte, e sim o que está além das vestes do tempo implacável, das modas e dos frágeis valores modernos.

Já na introdução do livro (lançado para comemorar seus 70 anos) ele avisa: "O fato é que nunca evoluí. Fui sempre eu mesmo". Aparentemente, esta blasfêmia poderia justificar alguns equívocos sobre sua obra, pois numa época onde tudo deve obedecer a uma rígida evolução histórica, é fácil surgirem preconceitos contra uma poesia que fala em tias velhas, relógios parados, retratos amarelos, fantasmas e escadas de caracol. E que faz queixas c denúncias contra o "progresso", que acabou com o prazer nas cidades, fechou o céu e expulsou as árvores e os grilos.

Jogo de espelhos — Mas todos esses elementos são apenas peças de seu baú particular. O importante é seu despojamento radical diante de tudo, a incessante busca da verdade e a fidelidade ao movimento eterno do universo. Nessa busca, ele descobre um reino impecável, onde Deus e a vida estão nus e onde a realidade das coisas não passa de um jogo infinito de espelhos. Nesse outro mundo tão próximo de nós, a morte é apenas um disfarce e o tempo, uma armadilha mágica, onde todos devem se deixar cair.

Para subverter a percepção do mundo, como os feiticeiros, Quintana usa armas poderosas: a emoção (principalmente), o humor, a ironia e a clareza. Com elas, investe também contra a piedade e a autocompaixão: "Mas não! este poema não é nenhum abrigo antiaéreo ... Ah, tu querias que eu te embalasse?! Eu estava, apenas, explorando uns abismos..." Pois ele sofre, como ninguém, as distorções da emoção neste mundo dos relógios, onde os poetas líricos são vistos com desdém ou com melosa admiração.

Contra esses equívocos, Quintana tem uma resposta em seus "Apontamentos": "Não tenho vergonha de dizer que estou triste/Não dessa tristeza criminosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas:/Estou triste porque vocês são burros e feios/E não morrem nunca..."

APONTAMENTOS DE HISTÓRIA SOBRENATURAL, de Mário Quintana; Globo/IEL; 167 páginas; 25 cruzeiros.

RETORNO – Resenha publicada na revista Veja 418, de 8.08.1976

4 de janeiro de 2010

A DIFÍCIL POESIA


Nei Duclós

Todos os poetas que tentam construir uma obra tão retilínea e previsível quanto uma casa correm o risco de, no final, se transformar em meros construtores, empilhando palavras como se fossem tijolos. E, assim, soterram a criação com fórmulas, em vez de desenvolvê-la com talento, obcecados, talvez, pelas exigências intelectuais das vanguardas dos anos 50/60 e pelo rigor de João Cabral de Melo Neto (sem seguir, entretanto, o exemplo de sua poesia ao mesmo tempo exata e tropical).

É o caso do gaúcho Armindo Trevisan, de 44 anos. A secura do seu último livro, "Em Pele e Osso", é uma herança da anemia que por muito tempo tomou conta, primeiro, dos cadernos culturais, e, mais tarde, do próprio clima poético do país. Depois de sua procissão de obras contidas e frias, que começou em 1967 com "A Surpresa de Ser". Trevisan insiste numa poesia onde é flagrante esse tipo equivocado de "saneamento básico" que o espírito tropical sofreu nos últimos tempos, fruto de uma exagerada preocupação pelos excessos formalistas do passado.

Arsenal afônico - O problema é que, de tanto destituir de carne o corpo da poesia, Trevisan — e dezenas de outros poetas, como ele "consagrados — recai no mesmo erro do parnasianismo, pelo excesso de zelo. O que fica óbvio com exemplos como este, primeira parte de seu poema "A Datilografa": "Sou datilografa / da Companhia Telefônica Nacional/ Sou fulô/ Meus pés/ tem paina/ Minhas mãos/ frescura de mato/ batendo nas teclas/ fazem/ bão-bão- bão". Para reforçar esse estado de franqueza, o crítico Antônio Ramos Rosa escreve na contracapa do livro: "Uma poesia do silêncio, isto é, uma poesia que consagra o silêncio, que caminha em silêncio e que em silêncio e sobre o silêncio se constrói".

No lado oposto deste arsenal afônico situa-se o paulistano Roberto Bicelli, 34 anos, que. infelizmente, cai na cacofonia pueril e inútil em seu livro "Antes que Eu Me Esqueça", um painel mais de sua incapacidade de criar (ou descobrir) um universo poético do que das amplas dimensões que a poesia pode alcançar com o desequilíbrio formal. Pois dizer coisas como "pló pló pló pló pló pló pló pló pló pló fazia a marrequinha no sunrise da folhinha" ou "as abóboras abobadas viram-se penduradas nas abóbodas das abobadas" só pode atestar a mesma anemia diagnosticada cm Trevisan, apesar das preocupações opostas.

O fundo do poço - No meio de tanta confusão e pieguice, a poeta carioca Olga Savary encontrou uma solução para redimir o leitor da avalanche de papel que só faz a poesia perder mais terreno e se solidificar na sua posição de "gênero menor". Em "Sumidouro", seu segundo livro (em 1971 saiu o excenlente "Espelho Provisório", e na gaveta estão os inéditos "Altaonda", "Linha d'Água" e "Repertório Selvagem"), Savary consegue captar um momento poético aparentemente em repouso, ou, como ela mesma diz, "esse tigre no salto coagulado". Nesse instantâneo entre o mineral (contração e tranqüilidade) e o animal (o gesto), procura chegar ao fundo do poço, ao lugar inviolável da lucidez que tenta escutar o princípio básico das coisas.

Entre "dói o viver por já vivido", do poema "Sextilha Camoniana", e "Cresço a favor da manhã", de "Pitúna-Ara", "Sumidouro" nos revela o caminhar sereno de uma autora que não se apressa nem quer ser destruidora de mitos ou criadora de "novas" linguagens. Concentra-se na sua própria voz e procura descobrir as espirais que ligam seu ser a uma ordem maior, desencadeando, assim, a fonte geradora da poesia, que está muito longe da tristeza burocrática ou o anarquismo fútil de alguns aspinrantes à glória.

EM PELE E OSSO, de Armindo Trevisan; Movimento; 110 páginas; 25 cruzeiros.
ANTES QUE EU ME ESQUEÇA, de Roberto Bicelli; Feira de Poesia; 119 páginas; 40 cruzeiros.
SUMIDOURO, de Olga Savary; Massao Ohno/ João Farkas; 60 páginas; 60 cruzeiros.

RETORNO - 1. Resenha publicada na revista Veja n° 493, de 15/02/1978. 2. Imagem desta edição: Olga Savary.

3 de janeiro de 2010

UMA VIAGEM DE VOLTA À TERRA NATAL



Nei Duclós

Os 45 poemas de A Escola das Facas, de João Cabral de Melo Neto (lançado cinco anos depois de "Museu de Tudo") mergulham no que existe de mais caro ao poeta pernambucano: as lições de sua terra natal. Nos diversos confrontos da natureza nordestina, entre o sertão e o litoral, entre a cana e o coqueiral, entre o vento e a chuva, ele retira, como sempre, sua poesia aguda e vertical, que de tão "antibrasileira" foi confundida, no início, como anti-lírica.

“A Escola das Facas", que traz um poeta memorialista e inclina­do a descobrir o açúcar de uma região de calamidades, prova como nenhum outro de seus livros que a geometria cabralina foi apenas uma reação contra as formas tradicionais do lirismo brasileiro.

Sua luta íntima, entretanto, provocou um dos mais graves erros de nossa história literária. Enquanto Cabral inaugurava sua obra, a partir de “Pedra de Sono", em 1946, com um enfoque totalmente inédito e demolidor diante da melosa dramaticidade nacional, muitos dos seus seguidores transferiram-se para a nova "escola" com todos os seus equívocos. Aproveitando palavras como pedra, cal, relógio, vidro, faca, usadas por Cabral para dissecar a linguagem e o sentimentalismo estéril, os “alunos" acabaram por depositar um entulho monumental no já confuso universo poético do país.

Por largos anos, a crítica ajudou a cristalizar o erro e em conseqüência houve um período onde a esterilidade poética era confundida com o rigor e a exatidão. É por isso que "A Escola das Facas”, publicado nos seus 60 anos, chega em boa hora para uma reavaliação de sua obra. Originalmente intitulado "Poemas Pernambucanos", o livro passeia pelos engenhos, os rios do Recife, as casas de Olinda, o cordel. Além disso, fornece detalhes de sua infância, confirmando a observação de Carlos Drummond de Andrade de que as impressões mais profundas são as que mais custam a vir à tona.

"A Escola das Facas" serve como um emocionado roteiro de seus amigos, como Ariano Suassuna, Joaquim Cardozo e Cícero Dias, com poemas que acusam o esquecimento de pessoas importantes e, em cada um, descobre íntima relação entre a personalidade e as paisagens urbanas. Cabral também prova que apren­deu lições amargas no seu duro exercício poético.

Nos poemas finais, “De Volta ao Cabo de Santo Agostinho" e "Autocrítica", ele confessa a inutilidade de sua denúncia sobre o sofrimento do nordeste (popularizada principalmente depois da transposição de "Morte e Vida Severina" para o teatro) e conclui que sua poesia se alimenta de apenas duas realidades: Pernambuco (de onde veio) e Andaluzia (para onde foi como diplomata).

Do sertão para Sevilha. Cabral agora empreende a doce viagem de volta, num gesto profundamente lírico, antítese perfeita para a esterilidade que ajudou inconscientemente a desencadear.

RETORNO - 1. Resenha publicada na revista Veja, 24/12/1980 , edição 642 pgs. 77 e 78. 2. Imagem desta edição: João Cabral de Melo Neto, em foto de Bob Wolfrnson.

2 de janeiro de 2010

SEGUE A VIAGEM


Nei Duclós

A cada novo livro, a revelação do Don Juan para Carlos Castaneda torna-se mais complexa e profunda. O discípulo amplia a percepção das novas realidades descerradas pelo mestre e revela para o leitor os detalhes ocultos nos outros quatro livros — Erva do Diabo, Uma Estranha Realidade, Viagem a Ixtlan e Porta para o Infinito, que em edições sucessivas atingem centenas de milhares de pessoas em todo o mundo.

A novidade neste livro é a ausência de Don Juan e Don Genaro, os dois bruxos que, juntos, nas obras anteriores de Castaneda, introduziram nove pessoas na terrível luta pelo conhecimento. Entretanto, a influência dos mestres continua poderosa e se reflete na tumultuada convivência entre os discípulos, que aqui pela primeira vez se vêem obrigados a contar com suas próprias forças para cruzar umbrais cada vez mais apavorantes.

Em "O Segundo Círculo do Poder" a armadilha preparada por Don Juan para colocar os discípulos à prova — principalmente Castaneda — é definitivamente mortal. Soledad, por exemplo — a velha que modifica seu corpo através dos ensinamentos de Don Juan —, precisa matar Castaneda para recuperar sua integridade espiritual. Essa personagem é exatamente o oposto de "A Gorda", a discípula que foi mais feliz nesta luta feroz pela salvação e está encarregada de transmitir as últimas revelações de Don Juan. Além delas, existem as "irmãzinhas" Josefina, Rosa e Lídia — também empenhadas em roubar a força espiritual de Castaneda — e os discípulos Nestor, Benigno, Pablito e Elígio, que apenas aparecem de passagem neste livro, mais voltado para o relacionamento do autor com as feiticeiras.

Força poética — Não vem ao caso discutir se são reais as histórias contadas por esse misterioso antropólogo do qual não se conhecem fotografias e que teria mudado sua vida depois de quinze anos em contato com a iniciação nos desertos do México. Importa penetrar na natureza dessa revelação, a primeira baseada nas esquecidas culturas indígenas do Novo Mundo. Sabe-se que uma revelação sempre procura a salvação dos homens através da mudança da percepção individual. O "ver o mundo com outros olhos" é fundamental para o surgimento de um novo relacionamento com a realidade e, em conseqüência, com a salvação. A imortalidade do corpo e do espírito — conseguida através de um esforço onde predominam o ascetismo e uma nova moral — é comum a todas as iniciações, de Krishna a Cristo.

Mas pode-se levar a sério um autor já acusado de abusar da credulidade das pessoas para enriquecer e que, segundo as últimas informações, não pas­saria de um executivo americano com extraordinária imaginação e cultura? Se nos ativermos aos textos publicados até agora, sem levar em consideração as acusações — muitas vezes fruto da pressa e do preconceito —, descobrimos, em primeiro lugar, um escritor de grande força poética, que pela primeira vez trata desses assuntos sem o ranço característico do gênero. Em segundo lugar, nota-se a atualidade da revelação, que perfeitamente pode ser identificada com a mudança dos valores de­sencadeada na década passada, já que os ensinamentos de Don Juan implicam o uso — eventual — das drogas e o contato com a natureza. E, em terceiro lugar, há a originalidade dos ensinamentos — que possuem uma linguagem própria, desvinculada dos conceitos tra­dicionais de alma, mundo, céu ou inferno.

Visto isso, podemos separar os cinco livros de Castaneda em duas fases. A primeira — quando o discípulo tateia cegamente com sua razão no novo mundo que Don Juan tenta lhe mostrar — encontra-se nos dois primeiros livros, que refletem as dificuldades do autor: eles são longos, confusos, detalhistas demais, embora nem por isso menos interessantes.

Tarefa de guerreiro - A partir de "Viagem a Ixtlan" — uma obra-prima do ponto de vista literário e filosófico —, Castaneda mostra-se de uma extraordinária clareza e elegância, contando a desintegração violenta de sua identidade de homem civilizado e super-racional. Em "Porta para o Infinito" — e agora neste "Segundo Círculo do Poder" —, a revelação toma um novo impulso e vai além do que qualquer leitor poderia ter imaginado. Ela só faz sentido, entretanto, para quem seguiu a viagem até aqui, já que conta com uma série de conceitos exaustivamente explicados nos outros livros. Ainda assim a leitura é clara, mesmo para quem está cru diante da viagem, pois Castaneda é um autor extremamente dedicado. E não é para menos: escrever é sua "tarefa de guerreiro", a sua atividade principal nesta vida antes de partir definitivamente para o nagual, aquele lugar desconhecido que existe "diante dos nossos olhos" mas que não podemos ver — a não ser em ocasiões excepcionais —, devido a séculos de opressão.

O acesso ao poder ganha com esses livros uma dimensão não devidamente analisada pelas suas implicações — inclusive políticas. Por enquanto, é muito cedo para avaliar toda a verdade dessa obra em série que ainda contará, pelo menos, com mais dois livros. Um falando sobre o contato de Castaneda com Nestor, Benigno e Pablito, e outro — é inevitável — sobre o impacto psicológico desta revelação na sociedade. Castaneda levará sua tarefa até o fim: afinal, ele se tornou um guerreiro e seu mestre o espera, de corpo inteiro, em algum lugar da vastidão, para continuar a viagem infinita.

O SEGUNDO CÍRCULO DO PODER, de Carlos Castaneda; Record; 238 páginas; 120 cruzeiros.

RETORNO - Resenha publicada na revista Veja número 532 em 15 de novembro de 1978. A ilustração é a original da revista.

PABLO NERUDA: HISTÓRIA GERAL


Nei Duclós

Neruda perdeu a terra e tenta recuperá-la através da poesia. Mas o que aparece neste livro (*), primeiro dos cinco volumes do seu "Memorial de Ilha Negra". escrito aos 60 anos, não é apenas o Chile (c. por extensão, a América Latina), mas principalmente a destruição da sua identidade pessoal. O poeta se debruça sobre sua infância, sobre sua cidade, e reconstitui esse processo de destruição para se redescobrir e recuperar o fio, apesar de saber que nunca será o mesmo c que está condenado, como todos, a uma viagem sem volta. No seu caso, essa viagem o levaria ao breve tempo de esperança no governo Allende e depois à morte, nos dias terríveis de setembro de 1973.

É por isso que Neruda não deixou, como herança, apenas uma descrição de sua terra, mas sua caminhada, sua tentativa de humanizar o homem destruído pela pressão social, sua vontade de recompor o mundo à imagem pura das matas de Temuco, onde "do machado e da chuva foi crescendo a cidade madeireira recém-cortada como nova estrela com gotas de resina".

Descobertas — O livro é sobre a descoberta do mundo, os primeiros passos do poeta, suas revelações através da dor, sua passagem para novos estados de consciência que, ao mesmo tempo, o afastavam de suas raízes. Esse mundo nasce da cidade madeireira. da descoberta emocionada dos pais, da experiência de terror e lucidez nas matas e no mar, da adolescência tímida que descobriu o sexo, o colégio, o livro, e o levou à poesia, ao medo na capital e à rotina na pensão da rua Maruri.

Pelos olhos de Neruda passeiam as assombrações do seu Tio Genaro que veio das montanhas, as paisagens da terra — como nos poemas "Lago dos Cisnes" e "A Terra Austral" — e do povo, como em "A Injustiça" e "O Trem Noturno". E. principalmente, a mudança do seu rosto, como neste trecho de "O Menino Perdido": "E de repente apareceu em meu rosto um rosto de estrangeiro c era também eu mesmo: era eu que crescia, eras tu que crescias, era tudo,. e mudamos e nunca mais soubemos quem éramos, e às vezes recordamos aquele que viveu em nós e lhe pedimos algo, talvez que nos recorde, que saiba pelo menos que fomos ele, que falamos com sua língua, mas desde as horas consumidas nos olha e não nos reconhece".

Memória social — Talvez só a poesia possa redimir o exílio, pois joga com a memória afetiva, redescobrindo o clima dos acontecimentos e as dimensões do homem nas suas viagens pelo furacão. Recompõe assim a história pessoal de uma coletividade, procura um rosto que permaneça e reine acima da perda, do eterno sentimento de derrota, dos foragidos que trocam de mundo também por que são empurrados, e não somente por sua sede de aventura. Neruda, apesar de eterno passageiro desse trem que nunca pára, procura a memória social através de sua existência individual, recuperando a terra perdida apenas cumprindo seu destino de poeta e cidadão do mundo.

A história de Neruda, por sorte, é a história do povo. Nascido da chuva, da madeira, do pão e do vinho, ele é capaz de se identificar com os movimentos da terra e do tempo, retratando a aventura numa época de dispersão e miséria. Por ter descoberto a identificação do seu destino com o destino do Chile, que por certo renascerá, pode-se dizer que Neruda, como todos os grandes poetas, é a pátria procurada pelos abandonados, pelos que foram varridos da sua terra, tanto pelo tempo como pela guerra. Felizmente, a tradução de Carlos Nejar conserva essa mágica experiência, através de um bom senso criativo, sem pretensões e exato. E há a vantagem de ser uma edição bilíngüe, onde Nejar mostra-se útil até o fim.

(*) MEMORIAL DE ILHA NEGRA — VOL. I: DONDE NASCE A CHUVA, de Pablo Neruda; tradução de Carlos Nejar; Salamandra; 86 páginas; 50 cruzeiros.

RETORNO - Resenha publicada na seção de Livros da revista Veja em 1976.

1 de janeiro de 2010

OS MAIORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS


Pronto, lá vem o cânone. Paciência. Se você não viu um só dessas obras, o que eu duvido, coloque-as como metas do Ano Novo.

PARIS, TEXAS, de Wim Wenders - Nenhum cenário é mais lancinante do que a criatura louca em busca do amor perdido em pleno deserto, com guitarras ao fundo. Só de lembrar, tenho um surto.

2001, AN SPACE ODISSEY, de Stanley Kubrick – Depois desse filme, nós todos, os espectadores noturnos, moramos lá no infinito formado entre a nave mãe e a pequena cápsula que carrega nosso companheiro nos braços e o lança para o nada. Somos aquela cena e precisamos voltar para desativar Hal.

THE SEARCHERS, de John Ford – Cruzamos as pradarias cavalgando, com neve à altura das selas. Nosso objetivo é destruir Scarr e trazer Natalie Wood de volta para casa. Mas, nesse embate, teremos que enfrentar as piores tentações da morte.

OS SETE SAMURAIS, de Akira Kurosawa. O maior do cineasta maior. Um modelo de narrativa cineamatográfica, em que os preparativos são rios que deságuam no grande caudal do mais longo, genial e definitivo embate entre grupos em guerra. Nem que todos os cineastas cresçam, jamais chegarão ao nível de Kurosawa.

LAWRENCE DA ARABIA, de David Lean – Tome Akaba, by land, lidere 50 guerreiros decididos e atravesse a Bigorna do Sol do deserto de Nefud duas vezes, uma delas carregando o homem que você vai matar nas costas. No final da jornada, convença Anthony Quinn que é seu prazer invadir os turcos. Depois me diga se existe uma aventura igual neste mundo sem sentido.

SHANE, de George Stevens – Lute contra o fazendeiro no meio das patas do cavalo no curral até que ele desmaie cheio de sangue e compreenda que não pode enfrentar a maior encarnação do Mal, Jack Palance. Só você, que é mais rápido e sairá sangrando enquanto o menino implora para o eco da montanha para você voltar.

M, de Fritz Lang - Descubra a ética da bandidagem, o julgamento do pragmatismo contra a loucura, o assassinato da inocência, a sombra mais poderosa que a criatura, a câmara sobre a escada em caracol sugerindo o crime ainda oculto e reconheça que aqui existe um milagre, o da criação total compartilhado conosco pelo gênio.

DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, de Glauber Rocha – Tente impedir o fanático de usar o punhal no sacrifício, fique de pé quando Othon Bastos entra em cena e assuste-se com seu diálogo entre duas cabeças. Veja que ele tem a espada de São Jorge e que mata pobre para não mais morrer de fome.

SÃO PAULO S.A, de Luiz Sergio Person - Vire a mesa com a indignação de Eva Vilma diante da covardia de Walmor Chagas e recomece no Viaduto do Chá a vida que você jogou fora. Acompanhe a montagem revolucionária que nos ensinou a ver cinema como uma arte cíclica, no tempo em que tudo tinha começo meio e fim.

MORANGOS SILVESTRES, ade Ingmar Bergman – O road movie definitivo. A Terceira Idade assombrada pela frustração na véspera de uma medalha. O sonho pautando a memória e a lucidez terminal de quem consegue ver tudo e nos mostra onde estão alguns segredos.

HIGH NOON, de Fred Zinemann – Enfrente os bandidos que chegam do trem no sol a pino sem que ninguém o ajude, elimine um a um e depois saia de uma vez da cidade, jogando a estrela de lata na rua indigna da covardia.

SONHOS, de Akira Kurosawa – Arroste o rosnar desse cão que assola suas pernas depois que você vê seu batalhão, enviado para a morte por uma ordem absurda, e sinta o remorso de não estar entre eles, dando meia volta e marchando para dentro do túnel sem fim.

WEST SIDE STORY, de Robert Wise e Jeromy Robbins - Dance com Russ Tamblyn e apaixone-se novamente por Natalie Wood interpertando a porto-riquenha que se sente bonita. Embale-se nessa coreografia magistral e pule da cadeira toda vez que os passos coletivos tomam conta da tela.

CITZEN KANE, de Orson Welles - Ninguém decifra o enigma Rosebud em Cidadão Kane. A solução da charada morre junto com o personagem , fechando o círculo onde se encerra uma vida privada, a única com existência real, já que o perfil público do homem que construiu um palácio de Mil e Uma Noites é pura representação, tragédia e deboche.

RETORNO - Imagem desta ediçção: Harry Dean Stanton como Travis Henderson em "Paris, Texas".

31 de dezembro de 2009

NOVO


Nei Duclós

Novo
Palavra de louça
Em giz na lisa lousa

Novo
Com as forma das mãos
Dos anjos no sono

Novo
Roupa de algodão
Sopro de voz rouca

Novo
Curto cobertor, brim tonto
Porto no sonho

Novo
Pecado no mundo louco
Verão, extremo outono

Novo
Palmas exangues
Abraço posto

Novo
arte irmã, mana
Louvo

RETORNO – 1. Um poema para cruzar a meia noite e chegar em 2010 em forma. Para todos os que seguem este Diário da Fonte, de onde brota o coração e os miolos. 2. Imagem desta edição: a menina carrega o artesanato somado ao poema. 2010, Ano do Artesanato + Poesia. Foto de Juliana Duclós.

30 de dezembro de 2009

MIDIA BLOG


Quando entrei oficialmente para a profissão, em 1970, depois de ter passado pela peneira de focas promovida pela Folha da Tarde, dirigida pelo Valter Galvani, freqüentávamos o prédio da Caldas Junior, empresa que publicava, além da FT, o decano Correio do Povo, e que era uma referência física importante em Porto Alegre. Hoje faz parte das construções históricas, mas na época era uma espécie de Meca para onde se dirigiam não apenas os jornalistas gaúchos, mas os estudantes, os políticos e toda a fauna humana existente.


A Caldas Junior era um portento, imbatível, líder em tudo,até mesmo no rádio, já que, como escreveu Rubem Mauro Machado no seu romance A Idade da Paixão, “o som da Guaíba era, para mim, o som de Porto Alegre”. Sua gráfica a chumbo foi um impacto quando a conheci dois anos antes, em 1968, recém chegado na Ufrgs. Os pagamentos eram feitos em cash, num guichê idêntico aos que víamos em filmes antigos de Hollywood, até mesmo de faroeste. Vinha o holerith, o salário, com todos os trocos e centavos. Reclamávamos que era pouco. Mal sabíamos que escrever como profissão remunerada um dia poderia desaparecer.

Naquele tempo escrever era um esforço muscular. Máquinas pesadas, carrilhões barulhentos, laudas grossas de papel, cestos cheios de leads estropiados, mesas cobertas de tudo que é tralha, telefones pretos tilintando sem parar, cafezinho e fumaça, gritos e xingamentos, pressão de todos os lados. Hoje, com os recursos digitais, você pode derrubar um governo ou tomar o Suriname pelo twitter entre dois goles de água gelada. Facilitou geral e já existem bons exemplos que, com as ferramentas disponíveis, tentam lembrar os veículos que por mais de um século foram a cara do mundo em constante transformação e guerra.

Os blogs são hoje exercícios importantes de comunicação, de grande diversidade, concorrendo até com as versões digitais dos jornalões (que não passam de superblogs, cheios de mini-blogs dentro). Afora os blogs que se consolidaram como padrão do gênero, como o do Noblat e o do Nassif, temos aqui em Florianópolis excelentes produtos desta mídia, que não é mais nova, mas ainda tem muito caminho a percorrer. Destaco alguns, notórios.

Meu amigo Sergio Rubim, jornalista da pesada, faz seu Cangablog uma referência de notícias importantes para a região e o leitor brasileiro, destacando a política local, as barbeiragens políticas nacionais, sem abrir mão de um perfil autoral, pois sempre há um texto saboroso sobre suas andanças, ambiente doméstico e relações familiares e de amizade. Há o terremoto Tijoladas de Mosquito, várias vezes censurado, que chega a atingir cinco mil visitas diárias, em que o responsável Amilton Alexandre (se recuperando de um enfarto) abre a metralhadora giratória contra os desmandos locais, sem nenhuma auto-censura. Há ainda no blog o reforço da TV Mosquito, que são inserções no You Tube.

Destaco também o Coluna Extra, do jornalista Alexandre Gonçalves, meu ex-colega na editora Empreendedor, sempre na vanguarda das informações sobre Comunicação. E há blogs pessoais com um bom acervo de posts sobre vários assuntos como o de Dauro Veras, ou ainda o Balaio de Siri, da jornalista Elaine Borges, que diz bastante sobre a ilha e seus encantos e problemas. E, last but not least, o excelente Deolhonacapital, http://www.deolhonacapital.com.br/ do jornalista Cesar Valente (foto acima), que conheci ainda nos anos 70 na redação do jornal O Estado, de Florianópolis, e que recebeu recentemente reforço dos meus amigos Mario Medaglia e Emanuel Medeiros Vieira. Pois Deolhonacapital é o blog mais bem resolvido em termos de mídia blog e fazia parte de um pacote de serviços para o Diarinho, de Itajaí.

Um desencontro entre o editor e a empresa acabou vitimando Deolhonacapital, referência de leitura, um pacote forte de concentração de mídias. Dezenas de comentários lamentam o fim do blog. É uma pena, mas todos acreditam que o bom Cesar Valente vai voltar em plena forma, em outro veículo que irá certamente criar. É o que esperamos. Mídia blog é atualmente a grande força da imprensa. Não tem perigo de piorar.

RETORNO - Imagem de hoje: Cesar Valente. Tirei daqui.

29 de dezembro de 2009

NESTA ÉPOCA


Nei Duclós (*)

Hábitos estranhos tomam conta das pessoas nesta época do ano. Manchas vermelhas enormes desfilam em corpos indiferentes, como se queimadura de último grau em peles brancas fosse a coisa mais natural do mundo. É tocante ver as vítimas na fila do sorvete com essas manchas, numa espécie de resgate dos tempos em que não se falava em camada de ozônio ou protetores solares.

No fundo, os costumes formatados por gerações anteriores continuam firmes diante das novidades. Expor-se em demasia faz parte de um acervo que inclui celebrações, encontros ruidosos, fogos. Mas principalmente o álibi perfeito para furar toda espécie de compromisso. Tudo se justifica com a expressão “nesta época”. A encomenda que foi despachada para um lugar e acaba misteriosamente num depósito suburbano de megalópole remota. O serviço prometido e ansiosamente aguardado que cai no buraco negro da viagem súbita dos encarregados, ou então do estranho sumiço dos clientes. “Fecharam tudo e foram embora” é o que dizem os vizinhos para abnegados funcionários em pânico.

A certeza de ganhar um extra, por parte de quem está empregado, e a possibilidade de faturar algo fora da rotina, para quem vive os altos e baixos do trabalho autônomo, repassa coletivamente uma ansiedade sem precedentes. Cortiços alugados a preços de hotéis cinco estrelas. Ou faxinas e jardinagens urgentes imploradas com lágrimas ao custo de uma viagem a Paris. O excesso de migração para os grupos que emitem ordens ou fazem pedidos acaba valorizando os remanescentes que resolvem tudo.

Assim mesmo, sobrevive uma qualidade imponderável, a boa vontade. Não se trata do “espírito” que obrigatoriamente deveria tomar conta do ambiente hostil até duas semanas atrás. Mas da índole de pessoas que encontramos por acaso, na nossa faina de tomar providências antes que o ano acabe. É quando vemos o quanto vale um gesto que desarma um pesadelo, dado muitas vezes de graça.

O encantador é que essa surpresa faz parte da natureza de quem soube ser solidário quando todos procuravam apenas satisfazer seus prazeres e necessidades. Sobreviverá à festa, assim como existia antes dela. Precisamos é ter a sorte de encontrar os que cultivam o amor no deserto. Talvez possamos ser como eles, imitá-los de todas as formas, de janeiro a dezembro.

RETORNO - 1.(*) Crônica publicada neta terça-feira, dia 29 de dezembro de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem desta edição: Navio, foto de Regina Agrella. 3. Dois textos meus, um sobre John Reed e outro sobre Claudio Favieri, estão na lista Da vida para a história da seção "2009 - Memória ", do Observatório da Imprensa. "Para manter viva a lembrança dos que se foram, mas deixaram suas marcas na história da imprensa e do jornalismo", diz o site.

26 de dezembro de 2009

CASO SEAN: O BRASIL NO RALO



Não contesto o direito do pai biológico David Goldman querer o filho Sean para perto de si. Nem os argumentos de que a Justiça brasileira não é confiável, tanto é que o caso passou pelas provas “naturais” de exaustivos meandros. Também não vou ficar defendendo uma poderosa família de advogados brasileiros que queria impedir a volta o garoto de nove anos para seu país natal. O que realmente me torra o saco é a maneira desprezível com que o Brasil é tratado num caso desses, em que a poderosa indústria de espetáculos americana fez uma celebração da própria nacionalidade num evento familiar.

O que me satura os gargomilhos é ver Hillary Clinton e Obama se meterem no assunto, como se fossem os arautos dos direitos humanos, logo eles, representantes e gerentes de um império que não respeita ninguém, invadindo quando e como querem de um lado e batendo no peito a devoção de todas as virtudes de outro. O que realmente me enche a paciência é ver como os americanos passaram por cima da mãe biológica do menino, que o teria “seqüestrado”. Eliminam a fonte do evento, o amor materno, que queria o filho junto a ela, mas não queria mais o marido. Falam em seqüestro o tempo todo, como se o Brasil fosse lá roubar o americaninho e o trouxesse para o meio da selva para entregá-lo à gula dos jacarés.

O que me irrita profundamente é essa palavra que os americanos tornam nojenta, “home”. Vocês sabem o que é home. É o único lugar do mundo que vale, a América, o único país que conta, na visão tosca deles. Tirar o menino das garras do lobo mau foi uma bem sucedida cruzada americana patriótica, como se a criança não fosse metade brasileira e, pelo tempo que ficou entre nós, quase toda brasileira, tanto é que mal fala inglês. Tudo isso não conta. Eles cuspiram no Brasil de tal forma que isso vai, inapelavelmente, respingar na formação de Sean. Ele terá problemas de identidade, já que sua maior porção não presta, é brasileira.

Isso não foi levado em consideração por esse fracasso político chamado Hillary Clinton, que só está no cargo em função de um ressentimento familiar, pois ninguém me tira da cabeça que ela queria ser presidente para desforrar-se do marido, que a traiu na frente do mundo inteiro. Hillary não tinha uma carreira política, até resolver tê-la, quando explodiu a grande farsa do seu casamento. Mulher ressentida (motivos lhe sobram), é totalmente inábil politicamente, tanto é que teve de voltar atrás do caso Zelaya. Nos momentos decisivos ela não apita, então sobra para que se meta em falsos seqüestros de anjinhos americanos por maldosos ricaços brasileiros.

Ela deve ter seu quinhão de poder. Na guerra, precisa obedecer ordens, mas em questões familiares, bate com o pau na mesa, já que está cheia de razão depois de ter sido desmoralizada publicadente pelo marido metido a comedor. Bill gerou Bush com sua boquete. Foi um desastre, apesar de ser, pessoalmente, um gênio. Considero Clinton uma das cabeças mais brilhantes do nosso tempo. Mas colocou tudo a perder.

Obama, acusado de não americano, com nome de terrorista árabe, precisa mostrar que é alguém da home, da América como lar e por isso meteu também o bedelho. É fácil desmoralizar o Brasil, que tem um governo panaca se pavoneando pelo mundo, que abre as comportas das perdas internacionais, já que os juros estratosféricos remuneram nababescamente os especuladores da pirataria global. O governo atual compra a mídia, dominada pela bandidagem financeira.

Por isso agimos como gado em direção ao corte. Não mugimos nem tugimos. Deixamos que desmoralizem o país. Não aparece uma voz forte dizendo que não houve seqüestro. Houve um drama familiar. Uma separação, a opção da mãe de trazer o filho para cá, a morte dela em função do parto do segundo filho e a vontade natural dos avós quererem que Sean ficasse. Isso poderia ser resolvido sem que a nacionalidade americana tratasse o caso como uma invasão do Comando Delta para resgatar a vítima.

Deveria haver civilização, já que tudo isso envolve uma criança. Mas houve apenas barbárie. É justo que Sean fique com David. O que não é justo é o Brasil fazer papel de palhaço, não por culpa do seu povo ou de sua biografia, mas porque somos governados por merdas, que fingem independência, mas basta um poder estrangeiro roncar para todos irem se meter embaixo da cama. Não temos estadistas, temos poltrões. Não era preciso dar uma de machão para depois voltar atrás como uns filhos da mãe. Bastaria analisar o caso à luz do Direito, dar a mão à palmatória, arrumar tudo para que as duas famílias pudessem compartilhar o amor do menino.

Do jeito que foi feito a caca, poderá haver seqüelas. Deus queira que não, mas tudo indica que sim.

RETORNO - Imagem desta edição: tirei daqui.

24 de dezembro de 2009

ALÔ NO LUGAR DE ADEUS



Há excesso de despedidas por parte de tuiteiros e blogueiros, como se o mundo digital fosse idêntico ao espaço físico, quando fechávamos as portas do estabelecimento e sumíamos. Por mais que você se afaste, sempre haverá um micro no ermo, uma conexão feita a martelo, que dará para atualizar os mails e até mesmo fazer uma edição rápida. Não se trata de fanatismo, é outra coisa.

McLuhan, na sua famosa sacada, dizia que as rodas eram a extensão do pé humano. Podemos aplicar o mesmo princípio ao universo digital. Nele, criamos uma série de desdobramentos de nós mesmos. Veja o que acontece por todo o canto: jornalistas que foram jogados fora estão mais atuantes do que nunca, incomodando horrores, pois agora dispõem de espaços virtuais sem chefes nem patrões. Falam o que querem e quando bem entendem. O mesmo com escritores. A gaveta acabou, você pode publicar seu poema on line, enquanto trabalha nele.

Você pode ser aquele sujeito calado que vai até padaria comprar pãozinho e mal cumprimenta as balconistas. Ao mesmo tempo, fazer furor com um texto inesquecível, uma denúncia decisiva, uma carta aberta às autoridades. Ninguém dá nada, ao vivo, para um blogueiro porreta. É até maltratado, pois ninguém sabe o que faz em sua casa-escritório, onde cultiva um fluxo interminável de criações, que se espalham como fogo no milharal.

Uma revolução dessas não está confinada a departamentos, a salas fechadas em edifícios imponentes. As sedes luxuosas e gigantescas dos grandes jornais estão virando pirâmides do antigo Egito. Hoje você pode editar o NYT com um teclado e um mouse. Então não precisa fazer como os apresentadores de TV que se despedem dos telespectadores enquanto o público continua onde está. Nunca entendi o até amanhã do final dos noticiários. Como assim, vocês dizem adeus e nós dizemos alô, como nota eternamente John Lennon?

A liberdade proporcionada pela internet serve para difundir hábitos obsoletos. Olá, estou aqui, estou saindo, dizem as pessoas no Twitter. Que importa se chegas ou vais? Está tudo 24 horas por dia no ar. Tantufas se entras por aqui ou sais por ali. Todos estão dentro, e ao mesmo tempo, fisicamente, fora. Acho redundância tanto salamaleque quando todos podemos partir diretamente para o lead. Não se trata de falta de educação, simplesmente isso não faz mais sentido. Um Papai Noel blogueiro distribui presentes até em datas improváveis.

Talvez precisemos de um tempo para nos adaptar. Seguir uma trilha para esquecer o computador. Acampar no deserto, mergulhar numa praia remota, subir o Aconcágua para relembrar o sentido da vida. Eu desejo boa sorte a todos, porque continuo sempre no mesmo lugar, onde nunca estive antes e de onde ninguém parte. Encontrei finalmente a estação ideal dos amores eternos, os que não possuem despedidas. Aqui não é aeroporto de Casablanca para você blefar dizendo que seu grande amor será feliz com o herói da guerra. Aqui você se entrega e ao mesmo tempo em que acena do trem está correndo atrás dele.

É como diz aquele poeta :

"EU SOU TREZENTOS

Mário de Andrade

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo."

RETORNO - Imagem desta edição: a rua Direita, em São Paulo, tantas vezes palmilhada por Mário de Andrade. Tirei daqui.

23 de dezembro de 2009

“OS BONS, COMIGO”


Ser bom está fora de moda, mas não em desuso. Não é valorizado e já vi gente pedindo desculpas por divulgar suas vitórias escolares. Há um medo geral de ser confundido com os nerds. Todos querem ser o boquinha torta da esperteza, a caricatura publicitária do Ligador. O grande crime é ser flagrado como trouxa. Isso diminui as chances para o exercício da bondade, ou pelo menos, sua visibilidade. Esconder-se para fazer o bem é o limbo para onde foram atiradas as pessoas boas, enquanto os vivarachos batem no peito dizendo-se paradigmas da correção.

Lembro quando essa onda começou. Éramos bonzinhos na época em que se amarrava cachorro com lingüiça. Ser mau não pegava bem. Ninguém admirava um canalha. Mas aí foi implantada a cultura da malandragem. No início era uma reação à falsidade geral e começou a ser vista como algo positivo, legal de embarcar. Mas tornou-se hegemônica e hoje é obrigatória. Ou você é malandro ou você é um abombado. Como em terra de escravos todo mundo quer ser senhor, em ambiente de espertos todos são o último grito da sacanagem.

Existem sinais evidentes do sujeito que se esforça em ser o que não é. Um dos vícios mais comuns é dirigir olhando para o lado. Enquanto o carro vai a toda velocidade, o motorista in, por dentro, torce o pescoço e olha para as garotas na parada de ônibus, para as mulheres carregando bebês, para as senhoras ao celular, para as adolescentes indo para a escola. O sujeito pode também estar ao telefone, falando aos berros ou sussurrando alguma cantada. Ele se sente admirado, o mau da turma.

O cara bom sente desconforto em prejudicar qualquer pessoa. Teme pela vida dos outros, é solidário nos momentos mais críticos, não pede reconhecimento e não finge que é o grande amigão para tirar vantagem. Ele faz o bem e não deixa pistas. É possível que o beneficiário, se for um cretino, e normalmente é, esqueça a fonte de sua atual fase de sucesso, coloque na gaveta oculta de desmemória aquele gesto salvador, achando que só ele conta.

Tenho atualmente inúmeras manifestações a meu favor e sempre tive. Fui e sou cercado por pessoas boas. Claro que topei com todo o tipo de traste, de gangsters sem limites, de falsos amigos e tudo mais. Mas a maioria se pauta pela decência. Sofrem na mão dos carrascos e quando tem poder, abrem generosamente as portas. Vimos isso muitas vezes. A quantidade de aproveitadores que cercam alguém de boa índole no poder impressiona. São moscas ao redor do doce. A vítima, que toma os outros por si, não se dá conta. Ou quando enxerga, resolve agir estrategicamente.

Não há estratégia que vença a maldade. A única coisa que funciona é chute na canela. Ou você dá um tranco ou deixa-se enredar pela súcia. Vi várias vezes pessoas boas serem erradicadas de empregos sem se dar conta. Quando viram, estavam na rua. Aí foram fazer a última visita ao local de trabalho e quem estava aboletado na sua mesa? O melhor companheiro, o sujeito amigo de todas as horas. Acontece sempre.

Mas por ser vocação, a bondade não diminui diante das decepções. A pessoa boa continua com sua grandeza diária, encantando tudo o que toca. Por ser humana, ela também comete erros, deslizes e pode até fazer maldades. Mas sente remorso, essa lixa ardida da consciência. Volta atrás, pede desculpas. E assim reforça vínculos muitos antigos, os da amizade e até do amor. Porque o amor é, no fundo, o laço eterno da bondade humana, seu fruto mais nobre.

Que fique entre nós essa percepção de que somos maioria e que não baixamos a guarda por mais que tentem nos transformar em soldados do outro lado. Combatemos daqui, onde nada nos derruba. Deixe que nos chamem de babaca. Nossa esperteza é de outra natureza e tem vida longa. Renasce sempre, rodeada pela inocência. E voa sobre o mundo distribuindo presentes em salas iluminadas por uma alegria infantil. Esse é o mito que alimenta a sobrevivência da espécie, num universo bruto, onde corre bala. Somos esse atalho que surge no meio do tiroteio.

“Por aqui”, dizem os que existem para evitar o pior. “Os bons, comigo”, como diz André Falavigna quando convoca para o pôquer no “Cambuci profundo”. Significa: os melhores, ao meu lado. Somos um timaço. O jogo vai recomeçar. Vale até blefar. Não vale é achar que bandidagem é um royal flush.

RETORNO - 1. Imagem de hoje: royal flush, tirei daqui.2. O sistema de comentários mudou e ainda estou me enrolando com a nova versão do Haloscan. Por isso, Virson Holderbaum não conseguiu postar seu comentário e as palavras do amigo Wladir Dupont, por um erro por aqui, foram apagadas. Para o Virson já enviei um e-mail e agradeço ao Wladir, que está no seu blog http://wladirdupont.blogspot.com/, que merece ser visitado. Disse ele: "Nei, gostei do seu blog, ácido, crítico, como deve ser." Grande Wladir. Também recebo de Carmen Silvia o seguinte: "Nei, querido Poeta! Vivas às soldas do amor, um laço Soldado de futuro!!!Um abraço carinhoso, amei a Crônica: Os Bons Comigo!!!"

22 de dezembro de 2009

MENTE ANIMAL


Nei Duclós (*)

O cachorro se concentra na mente do dono para adivinhar intenções e se antecipar. Desenhamos na mente nosso gesto seguinte, o animal lê e se adianta. Também tem a história do cão que ficava horas quieto esperando e só se movimentava no instante em que o dono, a quilômetros de distância, decidia voltar para casa.

Trazer o chinelo ou rolar quando lhe ordenam não tem valor nenhum. Eles fazem isso só para nos agradar. No fundo, a raça canina é a única dos ditos irracionais que ficou próxima a nós. Nossos ancestrais tinham mais sorte e sabedoria. Sabiam que o puma se instala no pensamento da caça para capturá-la. Não é apenas a espreita, como nos ensinam os documentários sobre a natureza. É outra coisa.

Não é também a “inteligência”, espécie de concessão que fazemos às criaturas ditas inferiores. Os animais possuem a chave do que perdemos. Tente matar a mosca que lhe incomoda. Ela sempre encontra uma saída, por mais que você se esforce. A não ser que uma ferramenta o ajude. Mas o truque, de mãos limpas, é esvaziar a mente, como nos ensinamentos zen. Isso faz com que a futura vítima relaxe, pois acha que você não está a fim de matá-la. Aí um gesto brusco acaba pegando-a em pleno vôo. Obama mostrou isso esses tempos num programa de TV.

Quando o perdigueiro “amarra” a presa, acontece um duelo mental. O cachorro está trêmulo de tensão. Todo seu corpo se concentra no futuro movimento da perdiz. O olho da ave está dividido entre a visão do algoz e o vôo iminente. Ela então arrisca. No exato segundo que tenta dar o salto, o cão se atraca. Quem acompanhou os adultos no meio do pampa, armados de espingardas e cartucheiras, sabe disso.

Os pioneiros aprenderam truques para aprisionar os animais apenas com a mente. Bastava sacudir pedras numa panela no momento em que a onça urrava nos arredores. Repetir o gesto duas ou três vezes era suficiente. No dia seguinte, ela ainda estava lá, acuada, presa num espaço imaginário. Quem contava essa história era Orlando Villas Boas, que mergulhava no rio junto com a comida, para escapar das varejeiras. Um dia ele revelou o que um índio lhe disse sobre a existência de um “céu do céu”.

Não se trata de primitivismo ou magia. É, antes, o acervo de maravilhas que jogamos fora enquanto perdemos tempo discutindo política brasileira.

RETORNO - 1. Crônica publicada nesta terça-feira, dia 22 de dezembro de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.2. Imagem desta edição: tirei daqui.

20 de dezembro de 2009

OS MELHORES DE 2009



Desta vez, não são obrigatoriamente os melhores deste ano duro, difícil, complicado, mas o que de melhor pôde ser visto, ouvido e lido nos doze meses de provações que passamos, da crise mundial à marolinha perversa, da chuvarada aos ventos a 300 por hora. Ou seja, o que passou por aqui neste ano e merece destaque absoluto, não o que foi lançado em 2009, certo? Você verá o quanto estou por fora do que aconteceu este ano. Não faz mal. “Meu tempo é quando”, como disse Vinícius de Moraes.

BLOG

RENZO MORA - Disparado o melhor blog do ano. O escritor cool que “envelhece mal” traz de volta a idade de ouro do humor escrachado e fino, o melhor e o pior da América e tem tudo para ser visto como um Chuck Norris digital, mas ao elencar suas admirações, que vão de Frank Sinatra a David Letterman, mostra que não é bem assim. Além de Renzo, destaco todos os blogs linkados de maneira permanente aí ao lado. É uma avalanche de informações e criatividade.

JORNAL

MOMENTO DE URUGUAIANA, o jornal que me trouxe de volta o hábito de ler jornal. Com uma equipe da pesada, Ricardo Peró Job e Vera Ione Molina fazem um semanário na medida certa, reportando Uruguaiana e analisando o mundo, sem medo da internet e apostando na sobrevivência da espécie, o impresso bom e velho de guerra. O fato de alguns textos selecionados do Diário da Fonte serem publicados no Momento não interfere na seleção. Eu bem poderia me calar, como costumo fazer.

ROMANCE

OS PASSOS PERDIDOS, de Alejo Carpentier - Lançado em 1953, soeste ano mergulhei nesta obra-prima absoluta, o livro que dispensa a leitura de todos os outros. Parece exagero, mas não é. A saga do sujeito que vlta aso país Nnatal, mergulha na selva e volta para a cidade é tudo o que Garcia Márquez queria fazer, e fez – pois de ler este livro rasgou o que tinha escrito e recomeçou o Cem Anos de Solidão.

POESIA

MAR ABSOLUTO E RETRATO NATURAL, de Cecília Meireles. Dois livros reunidos num só, numa edição dos anos oitenta da Nova Fronteira, é a porta para muitos assombros. Todo gênio escreve sobre a linguagem e Cecília nos traz sua arte magnífica distribuída em paisagens e águas profundas, numa incomparável demonstração de força. Todos os outros que me perdoem, mas esta criatura é a verdadeira Poeta Maior.

CINEMA

O SONO TRANQUILO DA MALDADE, de Akira Kurosawa, ou The Bad Sleep Well, de 1960. Quase tudo o que é feito no cinema vem de Kurosawa. Entre inúmeras peças fundamentais da Sétima Arte, esta obra coloca no ralo a falsa percepção que temos dos honoráveis executivos que se “suicidam” depois de um escândalo. São assassinados. Impressionante que o mestre denunciou isso há 50 anos e o expediente maroto continua sendo usado, de fato

MÚSICA

MILES DAVIS - Sou a última criatura sobre a terra que se rendeu ao gênio. Descobri tardiamente que ele é um construtor, como o poeta João Cabral, que define seu projeto sonoro com precisão e soberba, sem dar a mínima para a vontade alheia. Não pretende emocionar e nem fala à razão. Faz música de alto calibre, que é uma coisa que nos falta nesta época de cretinicie sonora, analfabetismo melódico, burrice ruidosa etc. No video selecionado, Miles Davis e John Coltrane.

TWITTER

São muitos os destaques, mas aponto dois, fundamentais: @BrazilTour, um banho de informação sobre o Brasil para o mundo, e @tfsolomon, a atenção permanente para o que há de mais importante no noticiário internacional.

RETORNO – 1. Com este, são 408 posts só em 1989. Ao todo, o blog publicou 1934 edições. Ao mesmo tempo, meu site http://www.consciencia.org/neiduclos/ entra em nova e portentosa fase. Um luxo só, up-grade a cargo de Miguel Duclós. O site é um portal sobre assuntos diversos, abordados com criatividade e profundidade. Um enciclopédia pessoal on line. Mais de 600 textos, entre artigos, poemas, ensaios, trabalhos acadêmicos, resenhas etc. 2. Um recado para meu amigo Dauro Veras: fiz minhas opções para 2009 esses dias e deixei o texto acima pronto, sem publicar. Fiquei gratificado com a coincidência do enfoque, pois você também destacou o que viu no cinema este ano, sem se ater aos lançamentos. Muito bom.

19 de dezembro de 2009

MATADOR DE MATADOR – UM CONTO NO TWITTER


Nei Duclós

Máximas do Matador de Matador: "Me alimentem. Não trabalho durante as refeições."

Máximas do Matador de Matador: "Não encomendo a alma de ninguém. Só faço o serviço que foi apalavrado."

Máximas do Matador de Matador: "Franco atirador é covardia. Preciso ver a fuça do sujeito encomendado."

Máximas do Matador de Matador: ""Quem mata ruindade deve ter desconto na hora do Juízo."

O Matador de Matador só é encontrado em biroscas isoladas,longe até das estrebarias.Lá ele produz pensamento, debruçado sobre o balcão podre

O Matador de Matador tem ponto fixo na frente dos muros penitenciários. Encostado num poste, debaixo do sol a pino, ele aguarda o indigitado

"Circulando" diz o Guarda para o Matador de Matador.Mas se arrepende.Acaba de ser fuzilado pelo olho morto envolto na córnea do poço amarelo

Todo fim de ano, o Matador de Matador vai visitar o pai, morador do deserto em tenda de lata. Cego,o velho sente a catinga da Morte chegando


No reveillon, o velho tenta atingir o Ano Velho com seu rifle, mas em vão. Então o Matador de Matador aponta o céu e descarrega o revólver

Ele existe.Conheci o Matador de Matador na Feira do Livro.Ele ia praticar genocídio de autores, mas não deixei.Falei para entrar na política

Perguntei por que queria exterminar escritores. Ele disse: "Li dez livros, todos os personagens acabam morrendo. Prometi vingança."

Sugeri que fosse para Hollywood. "The killers killer?" perguntou. "Não me agrada. Não gosto do genitivo"

Tentei corrigi-lo, mas voltei atrás. O Matador de Matador jamais reconhece um erro. Seria o fim de sua espécie.

"Estavas indo bem com teu conto",me disseram."Até que descambou para a metalinguagem". Vou sugerir ao Matador de Matador mirar os críticos.

Máximas do Matador de Matador: "Desliguem o som. Meu revólver é acionado automaticamente pelo baticum."


RETORNO - Conto publicado nos limites até 140 toques, no Twitter. Imagem desta edição: Agildo Ribeiro, no clássico de Roberto Pires de 1962, o inesquecível filme Tocaia no Asfalto, recentemente restaurado e relançado. Um pedaço da sequência final vai abaixo. Agildo Ribeiro é o pistoleiro contratado para matar. Meu conto dialoga com o filme, mas os personagens são diferentes. Um reza pela alma de quem vai matar, o outro não. Um mata quem nunca matou, o outro não. Um bota metalinguagem no vatapá, o outro não.

METAS PARA O MEIO AMBIENTE


Pequenas nações se insurgiram contra o fracasso do encontro em Copenhague e resolveram fazer um documento alternativo ao pífio acordo oficial, se é que houve um. Foram definidas algumas metas, dentro do enfoque proposto pela Ministra Dilma, de que o “o meio ambiente é, sem dúvida nenhuma, a maior ameaça para o desenvolvimento sustentável e, portanto, para o planeta e os nossos países”. O objetivo é salvar o planeta acabando logo com o meio ambiente. Isso guindará os países anões a potências poluidoras como a China.

Entre os signatários estão enclaves como a Toca da Raposa, territórios como Cucaracha do Oeste (que fica entre o Acre e a Chavezland), ermos montanhosos europeus como Luxemburgo Central, além de lugares que declararam independência recentemente, como Tuvalu Sem Jaça, na Ásia, Ilha da Páscoa Meridional, perto da Patagônia, e Pé do Vesúvio, um paraíso histórico turístico situado nos Pirineus. Vamos às principais decisões:

DESMATAMENTO - A meta é chamar os malaios para acabar de uma vez com a Amazônia, como fizeram com a mata Atlântica. Derrubar dez milhões de acres por segundo com tratores alemães fará com que a região do norte do continente sulamericano se transforme num Saara, onde, invariavelmente, existirá petróleo. Isso será uma bênção para o desenvolvimento automóvel-sustentável.

FULIGEM CHINESA - Os países signatários se comprometem a importar tecnologia para promover e provocar a fuligem que atualmente toma conta das grandes cidades chinesas, pois isso é um sinal evidente de Nojo do Outros professados pela China e tão necessário para a afirmação internacional – e, portanto deve ser imitado. O único problema é agüentar a sacanagem dos técnicos vindos dessa potência do lixo universal. Como se sabe, eles são especialistas em fabricar porcarias. Possivelmente vão implantar chaminés fajutas e fumaça sem aquele impacto ambiental poderoso que faz de Xangai uma atmosfera jupiteriana.

BIO-UNIVERSIDADE - Ao contrário da biodiversidade, a meta é praticar genocídio de todas as espécies, deixando apenas algumas para que a ação politicamente correta possa concentrar recursos públicos do mundo inteiro. O negócio é eliminar jacus, papagaios, antas, rinocerontes, emas e deixar apenas tartarugas, golfinhos e mico leões dourados. Assim, a biouniversidade trará o brilho das teses sobre a importância do casco da tartaruga para a defesa do mau ambiente , além de disseminar o horror visual que é a botação de ovo glégous por meio de cloacas devidamente protegidas.

BARANGAS – Preservar as Barangas, dando-lhes trabalho remunerado e concentrando-as em mini-séries como Cinquentinha, da Globo, é medida ultra-moderna para que as próprias não invadam as salas luxuosas dos executivos e joguem na cara as barbaridades que cometeram há cem anos, quando as atuais Barangas eram consideradas pitéus. Regar a plantação de Barangas com a presença de pré-adolescentes com pretensão ao estrelato, e provocar cataclismas estomacais com cenas de lesbianismo entre esqueletos celulíticos, será de bom proveito para os emergentes que quiserem brilhar no cosmo da devastação do meio ambiente mental. O modelo será o sovaco da Suzana Vieira, considerado sensacional, e o rodopio sexy da carcaça da Xuxa nos intervalos comerciais.

GEOPOLÍTICA - A meta é fazer com que haja neve no deserto e tempestades de areia impulsionadas por tornados extra-plus gerenciais nas serras aprazíveis. É preciso desmistificar as idiossincrasias geográficas e fazer com que todo mundo se exploda no planeta, que todos sabem que rima com o quê. Assim, tomando na tarrasqueta a humanidade vai bater maceta dançando ao som da retreta, sem falar no palavrão que será dito toda vez que alguém falar em monitoramento das reduções de emissões. É como diz Caetano: Eeeeta. Eta eta etaaaa...

ANTÁRTICA - Como todo o gelo do pólo sul será devorado pela permanência do paradigma da primeira revolução industrial, que ainda domina o mundo, apesar da conversa fiada da Microsoft, haverá chances de povoamento naquela região. As atuais estações de observação serão demolidas e substituídas por fábricas de automóveis chineses, que começarão imediatamente a rodar por lá movidos a gasolina que será fabricada em destilarias locais, que aproveitarão o petróleo extraído das profundezas do ex-continente desaparecido sob toneladas de gelo. Será definido lugar especial de globalização bandida sob a batuta das grandes corporações e do Marco Aurélio Garcia, que todo ano aparecerá na janela do seu Iglu e fará top top top para quem estiver passando.

Pelo menos, alguma coisa que preste foi decidida na reunião,que consumiu bilhões de dólares para reunir centenas de panacas que ficam definindo metas para 2050. Se quisessem despoluir era só fechar as fábricas poluidoras e mandar todo mundo para casa. A pé, de trem elétrico ou de bicicleta. Não seria preciso ficar enchendo o saco com um encontro que não serviu para nada. Nem mesmo houve a presença de Berlusconi para que alguém pudesse jogar um sapataço nele e assim movimentar as turbinas da indignação, hoje tão confinadas a passeatas e comícios, ações obsoletas na atual fase da sociedade pós-pré-sal.

RETORNO - Imagem de hoje: a China já cumpriu todas as metas para acabar com o meio ambiente e assim salvar o planeta - tirei daqui.