6 de dezembro de 2008

A VOLTA DA PALAVRA


Primeiro livro de Rubens Jardim em 30 anos, “Cantares da Paixão” rompe com os diques aparentemente sólidos de um tempo mau. (Atenção: leia abaixo, na seção Extra, a bela carta enviada por Rubens Jardim comentando esta resenha).

Nei Duclós (*)

A essência da tirania é interromper o fluxo do pensamento, último reduto da liberdade. As falas internas, as que se formam espontaneamente antes de serem expressas, são substituídas pelos arremedos de linguagem. O jingle que não sai da cabeça, a palavra de ordem jamais esquecida, a frase bem sacada que costura conversas, os jargões corporativos, os apelos políticos, as evidências históricas: eis um conjunto perverso que habita esse vácuo provocado pela interrupção do livre pensar.

A ele se soma a poesia, que continua cumprindo o papel de adorno de luxo, de emoção barata, de sabedoria-minuto, como costuma acontecer no atual estágio em que o trocadilho foi entronizado como insight esperto das mercadorias mais descartáveis, as pessoas. À custa, inclusive das grandes obras poéticas, que o deslumbramento sob medida transforma em lixo graças à repetição vazia, como é o caso do binômio passarinho/passarão. No mesmo recinto, suam os corpos ansiosos dos poemas metidos a besta, passaporte para notoriedades e até mesmo verbas públicas.

Esse acervo trágico é o escolho trazido pela maré alta do capitalismo de farol, o sistema que tenta se safar ao definir como bolha o que era tido como mercado até a véspera do colapso. De farol porque obriga o cidadão despossuído a lutar pela sobrevivência na instabilidade dos cruzamentos, e não na solidez do trabalho bem remunerado. No Brasil, a ciranda financeira, que a tudo reduz a pó, se aliou à longa presença de governantes apartados da cultura. Como vasos comunicantes, elas alimentam o esquecimento programado, que esvazia e reparte em postas a identidade da nação desconstruída.

Contra isso se insurgem, reduzidos ao silêncio, os poetas que mergulham na poesia com a gana de romper esses diques, mesmo que o reconhecimento fique no limbo, a obra submerja no esquecimento, se confunda no excesso de ofertas da rede virtual, ou o livro tarde. É o caso de Rubens Jardim, que lançou “Cantares da Paixão” (Artepaubrasil, 159 páginas), seu primeiro livro em 30 anos, um arsenal poético fartamente ilustrado e que vem em socorro dos que não se entregam às imposições das falas oficiais. Apesar da auto-imagem do poeta ter sofrido o impacto da indiferença, tanto é que se considera “menor” (vício da crítica literária inventado por Antonio Candido), este livro é um conjunto de assombros.

Não apenas pelo lugar que Rubens Jardim ocupa, de fato, na literatura brasileira, desde os anos 60 ao participar como protagonista da movimento Catequese Poética, liderado por Lindolf Bell, que inaugurou no País o evento cultural de massa em praça pública. O poema manifesto, tornado tradicional pelo tempo transcorrido e resgatado agora na memória impressa, é apenas um aspecto de seu trabalho. O mais importante não é sua “pertença”, sua biografia poética, mesmo que o núcleo de onde surgiu seja de citação obrigatória. O fundamental, em Ruben s Jardim, é o deslocamento do poema para fora da linguagem, o que é feito com maestria, no uso da palavra conhecida e na eventual quebra silábica do discurso.

O poeta reconhece: “Parca é a palavra./ Este é o celeiro-livro/ na livre escolha/ esquálida/ das espigas.”A colheita escassa no inventário do verbo sem nenhum poder empurra o poeta para longe do poema, transformando-o num catador de estilhaços, os restos de algo irreparável.

Impossível reproduzir numa resenha o impacto do trecho final do livro, que homenageia o primo tragicamente morto na queda de uma janela. O título é “Estrepitoso estrepe” e podemos selecionar alguns momentos, sem reproduzir o design dos versos na página: “Tenho velado nestes 50 anos a tua queda e não consigo remover do chão as marcas do teu corpo nem comover os degraus na escalada da tua morte. Hediondo instante. Você me deixou mais só diante do raio da rua e adiante de mim mesmo, irretratável realidade”.

Um soneto admirável na página 78 é mais um exemplo desse jogo que ele prefere decidir na arquibancada, ou na várzea, enquanto o campeonato corrompe o meio do campo: “Toda mulher é uma viagem/ ao desconhecido. Igual poesia/ avessa ao verso e à trucagem,/ mulher é iniciação do dia,/promessa, surpresa, miragem./ De nada adiantam mapas, guias,/ cenas ensaiadas ou pilhagens./ Controverso ser, mulher é via/de mão única, abismo, moagem./ É também risco máximo, magia,/ caminho íngreme na paisagem./Simplificando: mulher é linguagem,/ palavra nova, imagem que anistia/ o ser, o vir-a-ser e outras bobagens”.

Fica estranho dizer que o poeta se coloca fora da linguagem para lá encontrar a essência, a origem, o sabor, a história e, agora sim, o pertencimento da palavra. Mas essa é a solução encontrada pelo talento, esse mistério da sabedoria. O que vale é fazer parte de um povo e não de um grupo, mesmo que um seja representação do outro. Misturar-se ao caos primordial onde o verbo tem a força da criação e faz parte das rotinas é talvez do sonho de todo poeta, um árcade por excelência, pois sabe que da natureza flui o poema. No convívio com a terra, esse universo não literário, é que a poesia se salva. Em Jardim, há inclusive uma Marília de Dirceu: “Anarda era imprevista como as provisões, o pasto, o repasto. Prato bipartido Anarda se unifica: seu próprio rosto é um retrato.” Ou : “Anarda era uma viagem dentro do tinteiro. Cor e acorde, Anarda era uma âncora dentro do tinteiro. Antes marco e agora traço, Anarda é signo, insígnia, dentro do tinteiro.”

A consciência de que perdemos a batalha da linguagem, que as falas impositivas imperam na paisagem da cultura em ruínas, faz do poeta um outsider inclusive de si mesmo. Não que renegue o que fez ou tenta fazer. Mas porque insiste na busca e descobre que ao retirar-se, encontra. Nessa luta se desloca, sai para fora do mundo reconhecido. Como Jardim consegue ser um poeta do eu, como dizem, confessional a maior parte do tempo (seu grande poema para o pai expressa essa opção), se ele abandona a casa conhecida da poesia?

Sua escolha é consciente, a ruptura é fruto de árdua reflexão e exercício. E o deslocamento acontece como resultado desse esforço. No livro, uma longa entrevista foi incluída, demonstrando a complexidade de sua reflexão. Ao se manter fiel ao trabalho poético, sem vislumbrar nele nenhuma utilidade, Jardim reencontra o impulso do papel do poeta, mesmo sem usar a máscara que deveria defini-lo. Encontrar um lugar comum (de todos) fora da mesmice é uma contradição bem ao gosto da máxima de Torquato Neto: “Leve um homem e um boi ao matadouro. Aquele que berra é o homem, mesmo que seja o boi”.

Ao contrário de quem se entregou à tirania da falsa linguagem, Jardim exercitou o berro. Sorte de quem lê ou ouve: sua voz é melodiosa, e tem a vibração de uma passeata, aquele movimento coletivo de rua, que era aclamado nas sacadas da nação ainda esperançosa. Com “Cantares da Paixão”, a palavra, que tinha sido expulsa, voltou, como se ainda fosse possível reinaugurar o milagre.

RETORNO - 1. (*) Resenha publicada neste sábado, dia 6 de dezembro de 2008, na página 4 do Caderno de Cultura, do Diário Catarinense. 2. Imagem desta edição: Rubens Jardim lê um poema na 1ª Bienal Internacional de Poesia de Brasília (foto e legenda originalmente publicadas no Cultura). 3. O livro Cantares da Paixão, do poeta Rubens Jardim, será lançado na Livraria Martins Fontes (da av. Paulista), no dia 9 de dezembro, a partir das 18h30 até às 21h30.

BATE O BUMBO - O poeta e cronista Olsen Jr. me envia a seguinte mensagem: "Olá, Mr. Nei, salve! Acabo de ler, em um café aqui na Lagoa, o teu texto sobre o Rubens Jardim...Já havia esquecido desse poeta, grande poeta, belos poemas e excelente texto o teu, (re)apresentando-o ao público...Talvez o que resta para o escritor seja isso mesmo, restituir o verdadeiro Sentido às palavras, sem perder a ternura pelo que significam e a indignação por não Podermos "abrir a guarda"...Camarada, bom saber que a sua pena continua afiada e cortando só o que interessa para a refeição imediata, sem prejuízos, sem esbanjamentos... Abraço fraterno, do viking auto-exilado na Lagoa, e colorado, acrescente-se!"

EXTRA : RUBENS JARDIM LÊ A RESENHA:

"Nei, meu caro. Nunca na minha longa trajetória poética, alguém escreveu algo semelhante. Não sei explicar, mas você tocou em pontos sensíveis da minha alma. Gostei muito da contextualização da tua análise. Também sinto esse acervo trágico da emoção barata e da sabedoria minuto. Mas nunca havia pensado que os meus poemas estivessem alinhados na luta para romper esses diques e as imposições das falas oficiais.

O certo é que esta tua resenha é que é um conjunto de assombros. Desde o título, A VOLTA DA PALAVRA, até seus afinados desdobramentos,você conseguiu me remeter de novo ao grande Jorge de Lima. Ele já escreveu, em poemas inesquecíveis, algo bem aparentado com o teu brilhante e afiado discurso:

"As palavras envelheceram dentro dos homens
separadas em ilhas,
as palavras se mumificaram na boca dos legisladores;
as palavras apodreceram nas promessas dos tiranos;
as palavras nada significam nos discursos dos homens públicos...
E, por acaso, a palavra imortal há de adoecer?
E, por acaso, as grandes palavras semitas podem desaparecer?
E, por acaso, o poeta não foi designado para vivificar a palavra de novo?
Para colhê-la de cima das águas e oferecê-la outra vez aos homens do
continente?
E, não foi ele apontado para restituir-lhe a sua essência
e reconstituir o seu conteúdo mágico?" (Jorge de Lima)

Não tem tudo a ver com essa tua magnífica abordagem na resenha? Receba, meu caro Nei, a minha eterna gratidão por momentos de altíssima emoção. Abração comovido. Rubens Jardim."

5 de dezembro de 2008

O SPARTACUS DE MIZOGUCHI


Nei Duclós

Vi O Intendente Sansho (1954), de Kenji Mizogushi, um filme sobre a luta contra a escravidão. Não sei se alguém notou, mas este filme foi completamente copiado pelos americanos em Spartacus (1960), dirigido por Stanley Kubrick e roteirizado por Dalton Trumbo. O roteiro do filme do mestre japonês é de Fuji Yahiro, que se baseou em conto publicado no início do século 20, de Ogai Mori (1862-1922), que por sua vez se inspirou no conto popular conhecido como Anju e Zushio. É difícil saber quem bolou as situações que coincidem nos dois filmes, mas o que foi feito depois se espelhou totalmente na seqüência dramática do antecessor. Quais são essas coincidências (Picasso dizia que artista rouba)?

1. A visita do representante do Império na mansão do escravista Sansho é a mesma cena da visita do potentado romano Crassus (Lawrence Olivier) à casa de Batiatus (Peter Ustinov), o proprietário da escola de gladiadores. Revela a ligação do poder imperial com o escravismo.

2. A revolta dos escravos que incendeiam a casa do Intendente é igual à cena em que os gladiadores destroem a casa de Batiatus

3. O governador bondoso em Mizoguchi é o mesmo senador interpretado por Charles Laughton: ambos libertam escravos, ambos caem em desgraça frente ao poder imperial.

4. O escravo que é obrigado a martirizar seu colega é uma situação que existe em ambos os filmes. No de Mizoguchi, é a tortura, em Spartacus é a luta de vida e morte na arena.

5. O emocionante reencontro final entre mãe e filho, no filme japonês, é reproduzido com a mesma intensidade no final do filme americano, no encontro terminal entre Spartacus crucificado e a mulher com o filho nos braços. Nas duas cenas, a mesma miséria, a mesma emoção dilacerada.

6. A família seqüestrada e dividida em Mizoguchi paira também em Spartacus, por meio da escrava interpretada por Jean Simmons e do escravo interpretado por Tony Curtis.

E daí? poderão dizer. Um é sobre a separação de um casal de filhos da mãe e outro é sobre a grande revolta dos escravos. Menos. Kubrick/Trumbo copiaram Mizogushi/Yahiro sem dó nem piedade. Encontraram no ilustre filme lançado seis anos antes as soluções que usaram até o osso. Se deram o crédito, desconheço. Uma pequena pesquisa no Google não resolve. Mas costumam moitar, por mais genais e brilhantes que sejam .

À parte isso, o filme de Mizogushi é estupendo, com cenas in esquecíveis, imagens maravilhosas, uma tensão brutal. Está nas melhores listas dos melhores filmes feitos até agora (não gosto da expressão “de todos os tempos”; não podemos falar pelo futuro). Spartacus também está entre meus filmes favoritos. Dois grandes espetáculos de artistas que provaram a escravidão (Mizoguchi teve que fazer filmes de propaganda durante a II Guerra; Douglas, que produziu Spartacus, vivia sob o tacão de Hollywood), mas dela se desvencilharam.

Houve uma época, crianças, em que a arte se insurgia e denunciava a tirania. Diferente de hoje, em que a razão cínica tudo justifica. Vejam, portanto, essas obras que são fruto da coragem, que precisa ser resgatada. Os caras estão muito mal acostumados conosco, poltrões inomináveis desta época de sombras.

RETORNO - 1. Imagem deste post: cena de O Intendente Sansho, de Kenji Migozuchi, mais um mestre do cinema. 2. Claudio Levitan informa: "PÉ DE PILÃO, ÚLTIMOS DIAS NO RENASCENÇA SÁBADO E DOMINGO 16 H - Quero reiterar o final da temporada da opereta e de um ano histórico e maravilhoso, afinal, depois de 30 anos sem desistir, conseguimos realizar o sonho de gravar as canções do PÉ DE PILÃO em cd com a história em quadrinhos (sem texto) para as crianças preencherem e se divertirem aprendendo um texto antológico do grande poeta Mario Quintana. Além disso, tem a versão ao vivo da pequena ópera para crianças de 1 a 100 anos em que, além de mim como ator, cantor e músico, tem outros quatro queridos e jovens artistas auxiliando nessa divertida empreitada". Em Porto Alegre, cidade da cultura. O Teatro Renascença é na Avenida Érico Veríssimo, 307.

BATE O BUMBO - Comentário de Adriana Godoy sobre meu ensaio A Trilogia de Máximo Górki, publicado no Digestivo Cultural: "Que análise fantástica a respeito da vida e da obra de Górki. Às vezes, nos esquecemos de gênios como ele. Esse texto nos arrebata, nos envolve e nos leva a querer rever a obra desse mestre da literatura. Parabéns!"

4 de dezembro de 2008

ESSA BRAVURA COLORADA


Nei Duclós

Vamos a um exemplo da miséria jornalística. Saiu hoje na Folha:
“Nilmar acertaria pouco depois a trave em uma cabeçada, porém estava impedido. No outro lado, saiu gol de quem não estava impedido. Boselli desviou de cabeça para o gol após uma cobrança de falta. Ele estava em posição legal, mas o bandeirinha anulou o lance equivocadamente porque outro jogador do Estudiantes que não tocou na bola estava impedido.” Quer dizer, vai escrever mal assim no Caixa Prego, seja lá isso onde for. Em quatro frases toscas, três vezes a palavra impedido. Depois reclamam que não compram mais jornal, que sobra na banca. A conquista ontem do Internacional, sobre o Estudiantes, da Copa Sul Americana, no Estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, merece algo à altura do jogo, não para celebrar ninguém nem nada, mas porque é uma chance de mergulharmos nessa cultura desconhecida, o futebol.

Vamos pensar assim: foi, até o gol decisivo, na prorrogação, com todas as letras e terrores, um Maracanazo (aquela vitória fatal da cultura hispânica nas fuças do Brasilzão cheio de si). Sim, o otimismo colorado defrontou-se com a barreira argentina e quase foi tudo por água abaixo. Não fosse o lance de sete toques, a história seria outra. Escrevo de memória: o chute veio do escanteio, surge a cabeçada, sobra para o atacante, que chuta sobre o goleiro, obrigado a fazer uma defesa impossível, quando a bola, para desespero da nação colorada, raspa no travessão; mas, felizmente, ela despenca no miolo da área tomada pela guerra declarada, no território minado de todas as fraquezas e bravuras, no lugar onde os corpos se misturam porque se estraçalham na vontade de vencer a qualquer custo, mesmo que seja o último grito sobre a terra.

Mais dois toques e pronto, Nilmar coloca para o fundo do gol. Foi épico, foi emocionante, foi uma lavada de alma. A torcida, que tinha embarcado no buraco negro formado pela implosão do jogo no tempo normal, desencadeou-se como uma tempestade, um tornado, um tsunami, uma inundação. A maré vermelha sangrou na pátria em chamas, varreu as arquibancadas e depois derramou-se sobre o campo, num choro de vitória que já se contava perdida.

Mas como não torço atualmente para time nenhum, a não ser para o Uruguaiana e o Guarani lá da minha terra, não vou alimentar o preconceito de que escrever sobre futebol precisa de hipérboles e emoções à flor da pele. Nada disso. Quero falar sobre o Maracanazo passageiro, pois aprendi que o futebol é jogado fora de campo. Isso mesmo. Nada a ver com psicologia de massa nem nada. Simplesmente faz parte da natureza do futebol. É quase parecido com aquela insistência de Parreira de que o Brasil precisa aprender a jogar sem a bola. O estranhamento fica maior quando vemos que o Brasil precisa aprender a jogar fora do campo, que é onde se decidem os campeonatos.

Pensem comigo. O que faz um time ser grande? O dinheiro, em primeiro lugar. Tem dinheiro rolando na grama? O patrimônio, o número de torcedores, a qualidade dos jogadores. Tudo isso existe antes de começar a partida. Não quer dizer que não faça parte do futebol. Ao contrário. Isso é o futebol. O resto, os noventa minutos, é lance de dados, senão o Fluminense estaria entre os primeiros, já que decidiu a Libertadores e não, como está agora, na zona do rebaixamento. O Fluminense perdeu fora do campo. Não foi o fato de dançar no último segundo. Foi dançar depois do último segundo, foi ter morrido depois daquela partida. Ou seja, depois, fora do jogo.

Ontem, a mesma coisa. O futebol, em tese, tinha se decidido antes do jogo. O Internacional tinha a vantagem. Merecia levar a taça, para completar sua série de troféus. Precisava dar o troco no Grêmio, que está na cola do São Paulo na decisão do Brasileirão. Tudo isso muito lógico. Ou seja, o Colorado estava jogando futebol fora do futebol. Esqueceu que os argentinos são craques nesse assunto (e, tempos atrás, os uruguaios, campeões do mundo em 1950).

Os argentinos são especialistas em dar cama-de-gato no gigante. Contam com sua ferrenha unidade nacional, sua determinação, sua certeza de que são os melhores do mundo em tudo. Nada pode contra essa avassaladora cultura argentina, que está sempre certa, sempre dentro da lógica, sempre acima, sempre melhor, maior e não sei mais o quê. Quando perdem, sempre há uma explicação, pois jamais abandonarão sua natureza hegemônica. Esse é o lance decisivo do futebol argentino jogado fora de campo, onde se decide o futebol (tanto é que têm mais títulos disputados no continente). Eles se armaram para estragar a festa (pode-se argumentar: mas isso todo mundo faz; só que os argentinos são mestres desse ofício). Eles criaram uma rede de intrigas dos corpos que iriam entrar em movimento. Contavam também com a sorte, que costuma se entregar às almas determinadas. A sorte tem medo de quem a desafia.

Há sempre um demiurgo nessa cultura estraga-prazeres. Em 1950 foi Obdulio Varella, ontem foi Verón. O demiurgo chama para si a responsabilidade e atrai a falta de sorte adversária assumindo o papel imaginário de herói. Verón caía como se estivesse num filme de capa e espada, jogava para a platéia, o time colorado. Os brasileiros prestam atenção demais nos heróis adventícios, numa espécie de complexo de culpa compulsiva de que não merece ser o maior, já que é, de fato, o maior. Já que o Brasil é mais, e isso não é justo, então os outros reivindicam esse papel. Jogam fora do futebol. Dizem: “Não, mais somos nós! Quer ver?”

E aí acontece a implosão. O time, os torcedores, a crônica esportiva, a diretoria, todo mundo brilhava como uma supernova. De repente, diante do time adversário,descobriram que eram uma estrela anã, estavam prestes a implodir, cair em sim, gerar um buraco negro. E foi o que ocorreu. O estádio murchou enquanto os argentinos celebravam o gol como se tivessem cometido um assassinato. Sorte que o futebol se decide fora do jogo. Sim, fora. Porque a prorrogação não é mais o jogo, é o plus, é a oportunidade de revanche. Funciona como fresta para mundos desconhecidos, como o crepúsculo.

A bola, como o sol que se recolhe, decide, no último minuto, desencadear uma torrente de luz. Foi aí que o Internacional voltou a brilhar. Merecidamente. Contrariou a previsível derrota, a perspectiva dos pênaltis, entre outros pesadelos, e venceu com o que tinha em campo: a garra, a coragem, a sorte, a insânia. Foi assim, meus queridos abnegados do futebol, que o Colorado meteu a mão na taça e Nilmar foi carregado em triunfo. Porque, no final dos 120 minutos, ficou provado que esse foi o melhor time do torneio e portanto deve, com todas as honras, sair às ruas vestindo sua camisa vermelha.

Assim é que é: quando achamos que pegamos a embocadura do futebol, ele nos escapa e cumpre à risca a percepção tradicional sobre esse jogo, um exercício que só pode ser praticado e assistido pelos espíritos livres.

3 de dezembro de 2008

O GRANDE SUFOCO


O título é uma tradução livre de The Big Heat, filme de 1953 de Fritz Lang, que vi ontem na Cinemateca Diário da Fonte. Mas também se reporta ao crime hediondo que é ficar à mercê de gigantescas porcarias que são produzidas em série pela indústria audiovisual bandida, enquanto maravilhas, jóias do filme noir e de todos os gêneros dormem no esquecimento ou rodam apenas na mão dos cinéfilos. Temos pouca noção do Mal que nos fazem ao nos apartar das obras-primas como The Big Heat, que foi lançada no Brasil com o título de Os Corruptos. Nada mais apropriado para o Brasil de hoje: investigador honesto enfrenta a máfia que domina os altos escalões da polícia e da política e paga um preço caro para provar sua inocência e recuperar o cargo perdido.

Não gosto de dar ficha de filme, já que a rede está aí para isso. Prefiro fazer um texto impressionista sobre o que vejo e ouço. O filme de Lang chama-se solidez. O texto, do celebrado roteirista Sydney Boehm , coadjuvado por William P. McGivern (escritores em dupla, bem sob medida para o cinema, que é trabalho de equipe), não tem as sacadas antológicas dos grandes filmes do gênero, aquelas ditas com um mínimo de movimento nos lábios, rosto de metal e olhar sampacu. Mas oferece uma narrativa segura, jamais redundante, com uma lógica encantadora e cenas que se encaixam perfeitamente numa sucessão ascendente de suspense e violência.

A brutalidade se manifesta contra as mulheres e também nelas. A magnífica Gloria Grahame, que faz a debochada e louca amante do gangster interpretado por Lee Marvin, atrai a fúria machista ao ter uma das faces queimada por café quente. Isso gera a mais brilhante fala do filme. Gloria e o herói, o policial interpretado por Glenn Ford, estão frente a frente, com a câmara de olho neles, de lado. Aparece apenas a face sã da mulher, que sugere: “Poderíamos viver apenas de perfil”, diz, num lance de meta-linguagem hilário.

Nenhuma mulher do filme é de brincadeira. A esposa do policial, Jocelyn Brando, mistura sexo e cozinha, vida conjugal tranqüila com cenas sensuais quentes, inteligência e coragem (ela é o parâmetro para o comportamento ético do marido).A viúva interpretada por Jeanette Nolan chantageia a máfia e ironiza a Justiça. E a Outra do veterano policial que se suicida, interpretada por Dorothy Green, levanta o véu da corrupção com seu depoimento. Todas as quatro principais protagonistas femininas acabam mortas. Fritz Lang, o gênio homenageado por Godard em O Desprezo, não veio ao mundo a passeio.

Enquanto as mulheres são fortes, os homens são uns poltrões, com exceção de Bannion, o good guy (dizíamos “mocinho”) que enfrenta todo mundo para vingar a morte da esposa. O cara que se mata, os chefes da polícia que comem na mão do mafioso, o brutamontes que se encarrega dos assassinatos, seu assecla que faz tudo errado, os colegas investigadores que tentam convencer Bannion de que não pode ficar isolado. Em Lang, o homem é o ser adaptado, covarde e mesquinho, enquanto as mulheres jogam pesado em favor do casamento, ou do dinheiro, ou da vingança.

Bem, já contei demais sobre o filme. Podem ir atrás ou pressionem as televisões para colocá-lo na programação (ha ha ha ha, como se isso desse resultado). Quem sabe o Programador do Traço, aquele cara que anda sumido e que colocava grandes filmes quando todos iam dormir, se sensibiliza. Talvez até o Programador do Traço tenha sido compulsoriamente aposentado. “Shane às três da matina? Pirou, vamos colocar Máquina Mortífera 15, isso sim”. Mas esse post ficou grande demais para o que eu queria fazer. Assim mesmo, arrisco um travelling (quem escreve sobre cinema faz travelling): vi O Invencível, do grande diretor indiano Satyajit Ray, de 1956, absolutamente verdadeiro e encantador. O garoto órfão de pai que ganha a oportunidade de estudar em Calcutá é uma das obras de sua famosa Trilogia Apu (nome do personagem), baseado na literatura de um escritor do início do século 20. Filme de impacto, limpo, seguro, belíssimo, com a grandeza que falta à maioria do cinema brasileiro hoje.

E tem também o conjunto de curta-metragens Ten Minutes Older - The Trumpet (que se diferencia da série Cello, com outros diretores) onde cineastas como Wim Wenderes, Spike Lee e o finlandês Aki Kaurismaki (autor do maravilhoso Nuvens passageiras, que também vi recentemente) exibem sua maestria durante os dez minutos propostos. Wenders é mestre, em pouco tempo compõe, baseado em experiência pessoal, uma trama audiovisual de arrebentar (o sujeito que toma sem querer uma dose de peyote e procura desesperado um hospital no deserto americano). Lee mergulha nos bastidores da derrota de Al Gore para Bush, num mini-documentário sobre os bastidores daquele trágico final de campanha. E Kaurismaki é o minimalista genial, quase um gerador de sessões de slides, pintor absoluto do cinema contemporâneo, com um humor poético que roça o bizarro. Há ainda Chen Kaige, que aborda a perda de identidade de uma China que pisa na tradição e opta pelo consumo por meio de uma refilmagem poética da fábula sobre o Rei nu: um equipe de mudança atende os apelos de um cidadão que enlouqueceu e carregam móveis e vasos imaginários de uma casa invisível situada no terreno baldio que outrora abrigara um bairro.

Mas haja espaço para comentar tanta coisa boa. O importante é destacar a necessidade que temos de sair do grande sufoco vendo filmes essenciais. Precisamos nos livrar do açougue a que nos submeteram com a difusão da crueldade, da violência gratuita, do esvaziamento do espírito, da pobreza mental, entre outros malefícios. Cinema de primeira grandeza: é disso que nós, o povo, gosta.

RETORNO - 1. Imagem de hoje: Gloria Grahame tenta seduzir Glenn Ford, o incorruptível, em "The Big Heat". 2. Ida Duclós aponta algo que me escapou sobre a personagem de Gloria: sua grande cicatriz numa das faces é a representação de uma pessoa dividida, entre o mundo do crime e a crítica aos mafiosos, entre a vida fácil e a vontade de ter uma família, entre a honestidade e a falta de ética. 3. No Profissão: Repórter de ontem, terça-feira, Caco Barcellos e sua equipe chegaram juntos na hora da onça beber água. Duplas de jornalistas e cinegrafistas entraram no supermercado saqueado em Itajaí, ficaram junto aos militares com lama até a cintura, entraram nas áreas de risco em Blumenau, Ilhota, Morro do Baú, falaram com as vítimas isoladas, feridas, desesperadas. Foi um up-grade do melhor da grande cobertura que a televisão fez tragédia. Eu me emocionei várias vezes. Santa Catarina, estado onde moro, partiu o coração de todos. O Brasil inteiro esteve aqui, ao nosso lado. Somos ainda uma nação.

BATE O BUMBO - Recebo o seguinte e-mail: "Caro Nei, Só agora li o que você escreveu sobre a coleção de Bossa Nova da Folha, que ajudei a organizar. Muito obrigado por suas palavras. Abraços, Ruy Castro."

2 de dezembro de 2008

MORROS


Nei Duclós (*)

Casa e morro são mistura de pedra e barro, só que nenhum deles foi feito para suportar o dilúvio. Menos ainda quando as imposições da laje e do concreto substituem a cobertura vegetal, oferecendo ao relento as piores perspectivas, confirmadas pela tragédia que despencou em Santa Catarina. Aqui é a terra dos morros e das casas do Brasil profundo, aquelas vistas à distância que despertam a vontade de morar nelas. O aspecto bucólico, silencioso, pacífico dos recantos que bordam as estradas desta paisagem é o alvo dos sonhos produzidos pelos estressados da hiper-urbanidade.

Quem vem de São Paulo, por exemplo, abandona um pesadelo de fuligem e metais, cruza a BR-116 por uma serra hostil, e enfim é recepcionado pelas rendas enfileiradas de cordilheiras baixas. Essa pintura derreteu quando os laboratórios da água conseguiram separar poeira e brita e jogaram uma parede de espantos na cidadania em pânico. O morro, símbolo do ambiente amigável, tornou-se sepultura de gente, casas, ruas, bairros, cidades inteiras. Pois não houve apenas inundação, enchentes. Houve a grande surpresa: uma parte importante do cartão postal implodiu, e rolou sobre pessoas e pistas.

No lugar de um terreno, um brejo; de uma edificação, ruínas; de um caminho, paredões surgidos do nada, com estrondo. Como se as entidades que segurassem os morros cometessem suicídio coletivo. Como se fosse uma emboscada, em que os atentados seriam de espíritos sinistros de outras dimensões a fazer tabula rasa da geografia, eliminando um por um esses sentinelas de vales, esses seguradores de vilas, esses guardiões de praias.

Morros que segredam trilhas, conduzem barcos, escondem ninhos, geram vagalumes. Morros que servem de refúgio, onde os duendes meditam, as fadas se inspiram, os poetas se abrigam. Por trás dos morros existia a imensidão do mundo desconhecido. Em muitos pontos do estado marcado pela dor, agora não existe mais nada. Nasce um novo temor, o do morro que ameaça, a prometer avalanches quando deveria apenas reproduzir o eco de nossos acenos.

Sobram ainda muitos, que merecem tratamento melhor, à altura do que enxergamos neles: a paz, que nos falta, a emoção, que foge para longe.

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 2 de dezembro de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem de hoje: pescador solitário, foto de Miguel Duclós. Praia ao entardecer, morros ao fundo: a paisagem que devemos preservar.

BATE O BUMBO - Recebo o seguinte e-mail sobre meu texto Galo Inventa a Manhã, publicado originalmente no Caderno Variedades do Diário Catarinense e reproduzido aqui, no meu site e no portal cultural Cronopios (cada vez melhor): "Professor, belíssimo o seu texto no Cronópios. Um aula de ficção-não-ficção. Aprendo sempre. Um abraço de estima". Germano Xavier. Iraquara-BA.

1 de dezembro de 2008

DEZEMBRO, O SUSTO DO TEMPO


BATE O BUMBO - Minha resenha sobre a trilogia de Máximo Gorki, que publiquei no caderno de Cultura do Diário Catarinense e reproduzi aqui no Diário da Fonte e no meu site, está bem destacado, a partir de hoje, no prestigiado Digestivo Cultural, na seção Ensaios. Estou muito bem acompanhado, por grandes escritores. Agradeço a Rafael Rodrigues pela gentileza da publicação e pelo cuidado e a competência com que encaminhou esse processo.

Nei Duclós

Vi dezembro chegar nas luzes da vizinhança. Elas piscam, insistentes, o susto do Tempo. Tentam surrar a lembrança da véspera, trágico novembro. Prometem festa, quando há dor. Vagalumes fixos de cores berrantes, estão deslocadas neste final de anti-primavera, quando no lugar de flores, colhemos luto. Quanto mais antigos somos, mais dezembro nos aproxima daquele choro derramado, posso dizer: de criança. Ainda mais agora, quando as cicatrizes do paraíso nos lembram o quanto somos pobres aqui no Sul tão celebrado. A pobreza quase oculta ficou ostensiva. A paisagem derreteu e o morro veio abaixo, levando junto o sonho de felicidade.

De repente, o Brasil inteiro descobriu que aqui, lugar de alegria no verão, quando todos nos visitam, é também um espaço de escassez e desperdício. Vidas sumiram, terrenos deixaram de existir, cidades foram riscadas do mapa, bairros inteiros engoliram seus habitantes. Quem consolará o brasileiro deste quadrante, que custa a acordar do pesadelo, enquanto milhares de abnegados heróis trazem a comida e a água, e permanece nas mãos de Deus o único consolo?

O ano não prometia esse desfecho. Tínhamos a ilusão de que todos os equívocos, cada vez mais intensos a cada temporada, como o volante arrogante, a irresponsabilidade coletiva, a ansiedade geral, a brutalidade possante expressa em motores cada vez mais hegemônicos, poderiam ser manobrados pela paciência, a perseverança, o otimismo e o prazer, enfim de viver na praia. Mas com a pressão das águas, tudo ficou insuportável. Não é possível achar normal ter que jogar o carro para a calçada para dar vez ao mastodonte que o pressiona com roncos, luzes e o olhar feroz.

Não queremos mais correr no estacionamento para que o animal, que veio zunindo do cruzamento, possa imediatamente colocar sua carruagem na vaga inexistente. Não queremos atravessar a rua de coração na mão. Não queremos ouvir o som alto, o vozerio gritado, as conversas bisonhas, a beberagem, a comilança, a confraternização visigoda numa época que pede civilização e respeito. Queremos um verão equilibrado entre a perda que aqui todos sofreram e a necessidade de recompor as forças, sonhar um pouco, antes que tudo rebente.

Existe a certeza de que o Tempo deva ser aproveitado, como se viver fosse sugar de canudinho a caipirinha que some por entre pedras de gelos. Que, se nos entregarmos a todos excessos cevados pela imaginação ao longo de um ano duro de trabalho, seremos recompensados por uma satisfação que jamais virá. Não tem outra saída. A paz de espírito vem da certeza na vida eterna. Se você se acha mortal, datado, finito e acabado, se não compreende que sua alma volta para a eternidade, então não há remédio. As férias serão sempre esse rosnado de feras, essa catinga de brutos, essa sedução primária.

Não que você vá se entregar à carolagem ou dizer “fica com Deus” a cada instante, como acontece com os fundamentalistas. A fé ficou tão desvirtuada pelos catequistas analfabetos, que a religião voltou a ser de foro íntimo, do tempo das catacumbas. Você reza, mas não faz um carnaval com suas orações. Você pede proteção, mas não fica advertindo os outros sobre sua correção. Somos precários, cometemos faltas. Devemos nos insurgir contra a barbárie, mas não virar pastores de Evangelhos mal lidos.

Rezemos pelas almas dos nossos mortos. E vamos ao mar, que o mar lava o sofrimento e nos prepara diante do irremediável. Saudemos o mar. Que fique em seu leito e que suas bênçãos sejam o único excesso deste início de dezembro, em que ficamos mais frágeis e com noção mais exata do quanto dependemos uns dos outros para sobreviver. A solidariedade deve ser também exercida pelos viajantes, que aportam aqui à procura da natureza, expulsa dos seus locais de origem.

Fica, penhasco, em guarda na praia posta em sossego. Mantenha-se, montanha, com suas trilhas e segredos. Voltem, cardumes, para nossas redes de espera. Que o pão e a água sejam repartidos, sempre. Porque assim ordenam os mandamentos do Alto, os que nos transcendem e por isso nos libertam. Chegue, dezembro, com seu abraço profundo. Traga redenção, traga de volta essa criança eternamente recém nascida, a esperança.

RETORNO - Imagem de hoje: Luzes, Cores, mais uma fotaça de Sérgio Saraiva.

"A Trilogia de Máximo Górki" - 1/12/2008 - Digestivo Cultural - Nei Duclós - Ensaios

"A Trilogia de Máximo Górki" - 1/12/2008 - Digestivo Cultural - Nei Duclós - Ensaios

30 de novembro de 2008

A SOMA DE TODAS AS MÍDIAS


É moda pontificar sobre jornalismo, principalmente depois que os blogs deram uma tremida no espaço tradicional da mídia, obrigando os jornalistas que ainda estão nos veículos de comunicação a aderirem à nova ferramenta. Há excelentes blogs desse tipo, como os de Luiz Carlos Merten (se recuperando de uma cirurgia cardíaca e produzindo sucessivos posts, um melhor do que o outro), do Estadão, e o do Paulo Moreira Leite, da revista Época. O bom do blog de quem está numa redação é que nele se destacam as pessoas com algo a dizer, como os dois citados acima. No geral, os jornalistas de redação que mantêm blogs adotam uma abordagem prudente e civilizada, ao contrário de outros, que adoram chutar o balde sem olhar a quem.

Toda inovação é soma, jamais exclusão. Um blog não substitui um jornal, um jornalista blogueiro pode ser melhor ou pior do que um blogueiro sem formação jornalística. Nos sites da mídia oficial, há um banho de novas informações com as fotos enviadas de toda parte, dos vídeos agora fáceis de produzir, do espaço dos comentários que, quando não xingam, podem muito bem dizer algo que preste e assim por diante. Ainda não caiu a ficha de que a emergência das novas mídias digitais está transformando radicalmente o universo jornalístico, apesar de as análises escancarem essa evidência em qualquer texto sobre o assunto.

Na prática, as coisas ainda não mudaram. E não mudarão enquanto acharem que blog e site são coadjuvantes e não protagonistas do noticiário. Quantas vezes vemos a intervenção pífia de internautas perguntando obviedades para os narradores bem postos nas grandes redes? É que é difícil mudar quando carreiras inteiras e patrimônios se fizeram à custa de um paradigma que permaneceu intocado por mais de cem anos, mesmo que tenha havido muitos avanços tecnológicos. A passagem para o off-set, que eliminou as gráficas a chumbo, não provocou nem de longe o nível de mudança que está ocorrendo hoje. A Internet, a mídia das mídias, engole tudo e deixa para a tradição uma margem muito limitada de manobra.

O grande problema é que o jornalismo praticado nos grandes veículos sofre um impasse de conteúdo e forma exatamente por ter sido dominado pelas grandes corporações, que interferiram perversamente no modo de fazer jornal. As corporações de vanguarda, da área digital, são mais espertas. Deixam todo mundo livre e dispõem dos dados pessoais, profissionais e tudo mais de qualquer pessoa conectada. Estamos na mão de quem nos proporciona essa liberdade, não é uma contradição?

Um aspecto da realidade de hoje é que as comunidades de relacionamento (e existem várias, não apenas o Orkut, como Facebook, Multiply etc.), são, elas próprias, poderosas mídias, que disseminam informações variadas. Elas se somam às grandes novidades como o you tube e os espaços dedicados à produção audiovisual. Para onde isso vai nos levar?

Acho que a inundação sempre reflui e as margens aparecem de novo com os leitos reacomodados. Ou seja, depois do deslumbramento e explosão iniciais, há sempre uma recaída, uma reflexão e isso já está ocorrendo. Usar um blog não significa que sejamos blogueiros. Blog é ferramenta para o jornalismo no sentido amplo, e isso inclui a produção autoral. Um jornal deveria suportar tudo, desde reportagens literárias até mesmo poemas no corpo do noticiário. É o que fazemos aqui no Diário da Fonte, espaço pioneiro de informação autoral, que desde 2002 bate o bumbo sem dó. Ou vocês acham que eu ia falar sobre jornalismo e internet e, como acontece normalmente, não iria citar o Diário da Fonte, que continua praticamente anônimo?

Enquanto isso, aumentam os links para textos daqui e do meu site. Cinema tem sido muito referendado por várias fontes. Sinal que não estamos sós, que a diversidade dos assuntos tratados acaba chamando a atenção de uma público de grande diversidade. Mas o que estava dizendo, mesmo? Ah, o jornalismo. Ontem, enviei um e-mail para o Comunicar Erros da Folha Online, notando que numa frase curta eles tinham colocado quatro vezes a palavra “mortes”. Sugeri uma alteração. Eles me atenderam. Achei muito civilizado. Mas continuo lamentando a eliminação do copy desk. Como nós, os editores de texto, somos necessários, cada vez mais! Podem me contratar, que eu deixo.

RETORNO - Imagem de hoje: meu amigo Luiz Carlos Merten, que sabe tudo sobre cinema e mais um pouco.

29 de novembro de 2008

BATE O BUMBO: O REFÚGIO EM MADRI


Uma edição Extra do Diário da Fonte para anunciar que meu livro O Refúgio do Príncipe - Histórias Sopradas pelo Vento foi selecionado e está no Catálogo de Autores y Libros de America Latina, publicado pelo Cerlalc - Centro Regional para el Fomento del Libro en America Latina, Caribe, España y Portugal, de Madri. No Prólogo, Isadora de Norden , Diretora do Cerlalc (foto acima), explica os objetivos da publicação, que foi distribuída na edição número 67 da Feira do Livro da capital espanhola, realizada este ano.

"Con los claros propósitos de ampliar la oferta literaria a los lectores de la región iberoamericana, fortalecer la industria editorial de América Latina y fomentar la bibliodiversidad, la circulación de las ideas, el pensamiento a creación artística, el Centro Regional para el Fomento del Libro en América Latina, Caribe, España y Portugal (Cerlalc), presenta este Catálogo de autores y libros de América Latina.

La oferta editorial latinoamericana disponible en la Feria alcanza los 1.860 ítulos de 243 editoriales, ocho mil ejemplares, e presenta como na inmejorable oportunidad para incentivar el conocimiento e diferentes culturas y propiciar la promocion en España de otras literaturas. La inmensa mayoría de autores y obras reseñadas en el presente volumen no ha tenido distribución más allá de sus fronteras nacionales. El lector tiene entre sus manos una muestra significativa de la producción reciente de autores latinoamericanos en literatura, ensayo, crónica e historia. Esperamos que el acervo de libros disponible en las bibliotecas españolas se enriquezca con la diversa oferta literaria latinoamericana presentada en este catálogo.

Por su importante colaboración y apoyo, agradezco muy especialmente a la Secretaría General Iberoamericana (Segib), a Feria del Libro de Madrid, el Ministerio de Cultura de España, a Agencia Española de Cooperación Internacional para el Desarrollo (Aecid), la Secretaría de Estado para Iberoamérica, la Consejería de Inmigración y Cooperación de la Comunidad de Madrid, la Fundación Carolina, el Grupo Iberoamericano de Editores (gie ), la Federación de Gremios de Editores de España, las Cámaras del Libro y Asociaciones de Editores de Latinoamérica."

Isadora de Norden - Directora Cerlalc

Este é o verbete sobre meu livro no Catálogo:

duclós, nei
O refúgio do Príncipe.
Histórias sopradas pelo vento
Cartaz

"Revelaciones del libro de cuentos y crónicas El refugio del príncipe. Historias sopladas por el viento de Nei Duclós: viejos gigantes habitaron la isla de Santa Catarina; a Laguna de La Concepción es artificial; los adoradores de La piedra cuidaron un reino que conoció a caída después de que un príncipe se rehusó a asumir el trono. Quién era el príncipe y cuál su reino? Contado en forma de leyenda, descubierta por un narrador que estuvo en la isla sólo de paso, este libro empezó a gestarse en 1981 y sólo ahora está siendo divulgado, después de un largo período de espera. Pero hay otras historias en esta pequeña selección escrita con lenguaje poético y que sigue el linaje de las narraciones contadas alrededor del fuego." (tradução do texto originalmente publicado no blog Nada a ver, de Ida Duclós).

RETORNO - Certamente essa importante citação tem uma fonte: a resenha O Refúgio da Crônica, assinada por Urariano Mota, no La Insignia, site editado por Jésus Gómez, de Madri. Muito me honra também a referência do megaescritor Deonísio da Silva, na sua celebrada coluna da revista Caras. A edição, que está toda na mão do autor para ser distribuída e comercializada, chama a atenção de uma importante instituição européia, é ou não motivo para Bater o Bumbo? Pois vamos Bater o Bumbo que a pequena seleta de prosa poética do meu livro entrou em Madri com todas as honras. E vocês já sabem: quem quiser um exemplar do Refúgio, basta escrever para mim (
neiduclos@gmail.com) enviando o endereço que eu mando a c/c para o depósito de apenas vinte reais, com frete incluído para qualquer parte do Brasil, e envio o livro autografado. E as livrarias que quiserem, também!

28 de novembro de 2008

PERTO DAQUI, AQUI MESMO


O depoimento mais arrasador da tragédia que derreteu a paisagem de Santa Catarina, matando mais gente do que as estatísticas conseguem suportar, foi o do jovem pai de família que perdeu a mulher grávida e a filha pequena, que vi ontem no Jornal Nacional/RBS. Sua fala é a dor da perda maior, a da esperança. Como conviver com a impossibilidade de salvar a família, com a perspectiva de não ver nascer e crescer a criança esperada, que tinha até nome escolhido? Como não sofrer diante da mãe agarrada ao corpo da menina, encontrada depois, quando tudo estava perdido?

Pela primeira vez vi os apresentadores de televisão, que vivem forçando a barra para promover emoções baratas, ficarem realmente tocados com essa fala dita de maneira entrecortada, por alguém que expressou o grande abismo em que a população mergulhou depois que a chuva insistente e depois torrencial, provocou no belo estado que todos nós escolhemos para viver, mesmo os que ainda não vieram para cá.

Santa Catarina sempre foi a garantia de que nem tudo está perdido. Se você vive décadas numa estação de horrores, como os megacentros urbanos malcheirosos e violentos, quando chega nesse aprazível lugar se encanta e quer ficar para sempre. É assim que acontece. É tão avassaladora essa tendência de vir para cá que ontem estive no correio para enviar uma encomenda para Uruguaiana quando, ao meu lado, uma família inteira perguntava para a moça que atendia como fazer chegar uma carta exatamente na terra natal deles, Uruguaiana. Isso serve para várias outras regiões, que não cansam de enviar gente para cá. Ou seja, é todo mundo mesmo.

Por isso dói demais ver a calamidade que este lugar privilegiado se transformou, virando o foco do noticiário com seus alagamentos, deslizamentos, afogamentos, mortes, miséria, saques, desespero, choro. Por que, meu Deus? Porque temos que passar essa dura prova, neste pedaço de Brasil que parece ter jeito, onde ainda existe ou existia paz, reconhecimento mútuo, coletividade? Pessoas preocupadas me telefonam de Campo Grande, Amsterdam, Imbé, Porto Alegre. Querem saber como estamos. Estamos bem, pois aqui no norte da ilha fomos poupados, felizmente, com algumas exceções, alagamentos em servidões (as pequenas ruas que existem por aqui). Mas estamos arrasados.

Redescobrimos que nossa tranqüilidade não vem da nação que habitamos, mas da firmeza do clima. Se ele estiver bom, tudo pode ser resolvido, até mesmo a ditadura que nos governa. Mas se redemoinhos de centenas de quilômetros se movimentam em sentido anti-horário, capturando milhões de toneladas da água do mar, para jogar sem cessar em cima de nós, então não tem remédio, não tem mais jeito. É uma espécie de traição. É como romper as regras do jogo só para humilhar o adversário. Onde está o sol, que não seja ardido e prenúncio de mais chuva? Onde está a praia, impossível de freqüentar com tanta intempérie?

Uma rocha de duas mil toneladas pousa na pista da BR-101. Dois milhões de quilos é brincadeira. Para você trafegar nessa estrada, que normalmente já é precária, vai ter que remover um asteróide de médias dimensões? Para voltar a circular, é preciso implodir um Himalaia de granito? E a bucólica rodovia SC-401, a que nos liga ao centro de Florianópolis, serpenteando entre verdes morros? Há uma semana está interditada e o troço vai demorar ainda mais vinte dias. Os morros despencaram brutalmente, me deixando de cabelo em pé. Eu queria achar que aquilo estava acontecendo longe daqui, mas me alertaram, gritaram no meu ouvido: É apenas uns 10 quilômetros daqui, ali na curva, entende? Ali? dizia eu, incrédulo. Mas eu passava por ali todos os dias. Ali mesmo!

Não quero falar mal de ninguém, mas fico pasmo diante das explosões em bloqueios onde devem existir ainda pessoas soterradas; queixas de que os mantimentos e recursos não podem ser transportadas (claro, choveu! foi por isso que enviaram os mantimentos, seu); helicópteros cheios de autoridades que descem em áreas de risco e não carregam ninguém porque estão lotados (inacreditável!); soberba na hora de fazer o balanço achando quem tudo é culpa da natureza. Não é não. Vamos assumir uma ponta da culpa. Isso não quer dizer que devemos negar a grande movimentação solidária, o heroísmo dos bombeiros, vítimas e voluntários, a generosidade de quem envia ajuda. Tudo isso é verdade, é louvável e quem precisa levanta as mãos para o alto. Mas vamos analisar o que aconteceu. Desde o derretimento da paisagem até os processos de salvamento. Vamos ver o que há, para saber melhor o que há de vir.

Afora, isso, rezar. Deus nos proteja.

RETORNO - Imagem de hoje: Renascimento de Santa Catarina, de Rafael (1483-1520). Mulher de grande cultura e sabedoria, dobrou as eminências do reino de Alexandria e foi perseguida pelo rei, que a encarcerou e torturou. Seu milagre foi enfrentar a morte e o suplício mantendo-se fiel ao que sabia e aprendeu. Rogai por nós.

27 de novembro de 2008

CRÔNICAS DA URUGUAIANA CLÁSSICA

Hoje eu deveria estar autografando meu livro em Uruguaiana, junto com meus conterrâneos e escritores amigos, na renovada Praça Barão do Rio Branco. Mas já expliquei os motivos da minha ausência para Rubens Montardo Junior, assessor do prefeito Sanchotene Felice: o dilúvio aqui em Santa Catarina, que não só bloqueou avenidas importantes que nos ligam ao centro e ao aeroporto, como todas as estradas federais e estaduais do território catarinense. Temeroso de que as coisas se complicassem ainda mais, decidi ficar, mas não em espírito, pois a essa altura estou lá no café da Praça, reunido com essa parcela de humanidade que nos cabe fazer parte desde o berço. De todos eles destaco, hoje, como uma homenagem a todos, o cronista de mão cheia Paulo Tarso Gomes.

Paulo Tarso é um exemplar perfeito da civilização da fronteira. Tive o privilégio de conhecê-lo quando eu ainda era muito menino e o encontrava casualmente, nos momentos em que eu convivia com aquele talento que se foi cedo demais, nosso querido Gilberto Duro Gick, seu parente. Empresário, escritor, tribuno, político, honrado cidadão e pai de família, hoje aos 70 anos desfruta, como sempre, do prestígio junto aos seus contemporâneos e concidadãos. Para nós, pessoas do pampa, todas essas qualidades fazem parte da identidade da terra, mas em algumas pessoas, como o Paulo, elas chegam ao seu melhor estágio. E o que é mais importante: junto com elas, destaca-se o talento do escritor.

Digo isso depois de ler, numa sentada, sua saborosa coletânea de crônicas Um certo Marechal Chagas e Silva...e outros escritos (Edições A Tribuna, com apresentação de familiares e amigos e do editor Fred Marcovici, e posfácio de Túlio Rolim) sobre esse personagem inesquecível, um entre tantos lá daquele nosso território. Todos os que viveram no que Paulo chama de a "Uruguaiana clássica", diferente da de hoje ("nervosa, complexa, progressista e depersonalizada"), mas com ela mantendo vínculos poderosos, sabe quem foi Chagas e Silva. Eu mesmo, que pouco sei do marechal, inventei de colocá-lo numa crônica, a Fazenda Azul, publicado em primeira mão aqui no DF e que está no meu livro "O Refúgio do Príncipe". Mas com Paulo é diferente. Ele não apenas tem os detalhes da memória, mas o perfil completo, já que nossa cidade impregna todos os momentos de sua vida. Em matéria de Chagas e Silva, e dos assuntos da cidade, Paulo Tarso é mestre do ofício.

O que nos deslumbra é a precisão do texto, o pleno domínio da narrativa. Paulo, como todo bom escritor, sabe a diferença entre narração oral e escrita. Não se pode simplesmente transcrever a oralidade para o papel impresso, que não funciona. O texto impresso obedece a outros princípios. Mas como reproduzir no papel a mesma pegada existente numa roda de amigos, em que os causos explodem junto com o riso, as exclamações e até mesmos os gritos? Não é fácil. Mas não para Paulo, que sabe exatamente como conseguir um efeito de impacto sem apelar para hipérboles, exageros, nada. A partir dessa base sólida, uma cena dramática ou engraçada, um desfecho de pano rápido, deixando para o leitor o prazer da descoberta, que ele já sugeriu em parágrafos anteriores, mas sem jamais tirar esse gosto de quem o acompanha pela leitura.

Diriam: eis um escritor moderno, já que não se rende aos equívocos das soluções supérfluas. Mas moderno é uma palavra pobre. Eis um autor clássico, um cronista de uma cidade que revela usos e costumes que fazem parte da nação uruguaianese, que nesta obra se identifica totalmente. No caso de Chagas e Silva, uma tarefa árdua, pois trata-se de personagem riquíssimo. Tinha grande cultura e era considerado e se comportava como demente; era um monarquista no auge do republicanismo e do socialismo; exibia a mania de grandeza muito comum das cidades pequenas, que se revela em episódios antológicos e inesquecíveis. O Chagas e Silva de Paulo Tarso Gomes surge assim como o retrato de um mundo perdido, que se segura hoje só pelo talento de quem o resgata.

EXTRA - Rubens Montardo Jr. informa: Antologia Poética do Rio Uruguai. Será lançada amanhã, sexta-feira, dia 28/11, às 21h, na 33ª. Feira do Livro, que acontece na praça Barão do Rio Branco, a Antología Poética del Río Uruguay, publicada pela Ediciones Municipales Paso de los Libres. A obra é composta de 14 escritores brasileiros (Uruguaiana) e 14 argentinos (librenhos).

Integram a Antologia, pela cidade de Paso de los Libres: Noe Coto, Guillermo H. Fernández, Nilza Fontes de Cabrera, Blanca Giorgio de Pisano, Oscar Rubén Goñi, Gladys Guadalupe, José Demesio Lezcano, Nora Mercedes Martinelli, Héctor Daniel Miño, Marina Pannunzio, Beatriz Pereira de Gallegos, María Estela Reguera, Carlos Gabriel Righero Fagúndez e Hilda Zulema Sarto; pela cidade de Uruguaiana: Maximiliano Alves de Moraes, Rita de Azambuja Gick, Zenaira Barbosa Machado, Colmar Duarte, Nei Duclós, Marina Fagundes Coello, Silvio Genro, Luiz de Miranda, Vera Ione Molina, Rubens Montardo Junior, Jorge Nicola Prado, Ricardo Peró Job, Jorge Claudemir Soares e Ubirajara Raffo Constant.

O diretor de Cultura e coordenador editorial, Ramón Alfredo Blanco destaca que "esta obra inaugura as Ediciones Municipales de Paso de los Libres, dando relevo aos nossos escritores, com o rio Uruguai sendo tema de um projeto integrado entre librenhos e uruguaianenses, inaugurando um intercâmbio cultural entre dois países irmãos".

26 de novembro de 2008

“EM VIRTUDE DO MAU TEMPO”!


A paisagem derreteu em Santa Catarina. Não se trata de mau tempo, de enchente, inundação. Mas de uma situação completamente oposta ao que existia antes dos quatro meses de chuva. Os morros vieram abaixo e enterraram não as casas, mas as cidades. Os rios terem saído do leito é um evento tradicional, mas a montanha desistir de ser montanha é outra, completamente diferente. Passava todos os dias pela estrada que foi invadida pelos morros que despencaram, aqui perto de casa. Não é que as pessoas estejam ilhadas em Blumenau, Itajaí e várias outras cidades. Esses agrupamentos urbanos desapareceram com a catástrofe. Não é uma tragédia, é o fim de uma aparente normalidade, que não voltará à situação anterior. Sem querer fazer alarme: os saques aos mercados já começaram em Itajaí.

É heróico o esforço dos voluntários, dá gosto de ver bombeiros e soldados do Exército mobilizados, é bonito quando chegam as ajudas de outros estados. Mas tudo isso obedece a paradigmas que não existem mais, foram soterrados. Existe ajuda valiosa em remédios, comidas, colchões etc. Na lista dos itens, surgem utensílios como baldes. Baldes? Mas o que era uma cordilheira hoje está no telhado! Modelos de escavadeiras do tempo da minha infância ficam raspando lama e batendo em pedras gigantescas, que simplesmente rolaram como bem quiseram. Dez anos atrás vi um documentário sobre máquinas de vanguarda, gigantescas, feitas na Alemanha, para transporte, remoção de entulhos etc. Nós continuamos com as velhas Mastodontas, com conceitos ultrapassados. Levarão um mês para desuntupirem as pistas. Não acredito. Levarão mais de uma vida e a pista continuará a perigo.

Aí vem a força tarefa, os milhões liberados pelo governo e que sei eu mais. O que acontece é que o gigantismo do troço colocou todo mundo, governantes principalmente, no chinelo. Todos pagam o mico de serem ultrapassados pela nova realidade. Foi um tsunami que está sendo enfrentado por lamentações , baldes e retroescavadeiras. Todos contam com o fim da chuva, mas ela ronda. Faz um sol ardido, com nuvens esparsas ameaçadoras e dali a pouco recomeça. Levaram três dias para tirar o caminhoneiro do entulho. Dizem que tem vítimas embaixo dos deslizamentos e aí usam dinamite para apressar os trabalhos. Não se procuram sobreviventes nesses casos. É preciso desentrolhar a pista.

“Piove, governo ladro” diria o italiano radical. A culpa, não interessa. O que vale é a visão de futuro. O que vamos fazer com sistemas viários, urbanos, de distribuição de energia (dutos de água e gás se romperam) que não se seguram, que foram superados pelos acontecimentos. Vão querer fazer bondinho aéreo, como prometeram na campanha política? Vão continuar colocando uma camadinha de asfalto em cima do barro e da lama? Vão continuar permitindo que se construa bairros inteiros com casas sem alicerces, que sucumbem diante do peso da água que cai sem parar? Vão viajar para a Europa, como fizeram recentemente no Rio Grande do Sul, para aprender como eles fazem as canalizações, ou seja, vão lá fazer turismo e dizem que vão trabalhar.

Um espetáculo de balé não vai mais se apresentar mais em Blumenau “em virtude do mau tempo”. Que catso é isso? Blumenau submergiu, acabou. Pelo menos a cidade como era conhecida. Ou se parte para uma nova cidade ou vira tudo ruína. Pois seria suicídio insistir nos mesmos esquemas e esperar o quê? Um novo dilúvio? Aqui no norte da ilha, funcionou o sistema de esgoto pluvial implantado pela Prefeitura. Mas bem perto, em Canasvieiras, tem desabrigados. A verdade é que somos muito amadores, em tudo. Somos uma nação não amadurecida. Voluntariosa, corajosa em muitos aspectos, admirável pela força humana que mantém as coisas de pé, funcionando. Mas defasados, obsoletos, desinformados, indiferentes.

Santa Catarina é só um exemplo. O que aconteceu aqui, pode se repetir em qualquer lugar. Que Deus nos proteja. E nos dê forças para que as luzes da mente se acendam e encontrem soluções rapidamente.

RETORNO - 1. A imagem de hoje é de New Orleans depois do Katrina. Aqui não houve furacão, mas chuva e chuva. O Brasil não foi feito para a chuva. Imaginem se nevasse.


BATE O BUMBO - Ainda não me recuperei do Profissão: Repórter, do Caco Barcelos e jovem equipe, que foi ao ar depois da meia-noite, quando o Toma Lá Dá Cá (o besteirol do esgoto) esgotou todos os prazos de tolerância , tendo deitado, rolado e sapateado em cima do horário, obrigando as pessoas a ir dormir, a desistir. Mas eu resisti. Fiquei e vi. Foi uma grande reportagem sobre o julgamento de um crime em Guarulhos.

Jovem assassinada faz com que a Polícia encarcere três suspeitos, que teriam confessado sob tortura. Eles são liberados depois de dois anos, quando outro suspeito se atribuiu a autoria do crime. Os três foram soltos, mas novamente condenados, pois, segundo a perícia, o assassinato fora praticado por mais de uma pessoa. Não entendi porque condenaram os três, se não existiam provas. Condenaram apenas porque o outro, sozinho, não poderia ter sido o autor? Foi por eliminação?

Acho que Caco foi claro sem meter a mão na cumbuca. Caco é liso e super eficiente. Deixou na mão do telespectador o verdadeiro motivo da condenação pesada (mais de vinte anos para dois e nove anos para o terceiro). Ficam as perguntas. O lugar ermo que é desova de corpos, para onde os três teriam sido torturados, foi analisado, está sob intervenção, ou continua lá, na mesma?

Foi terrível ver a testemunha de dentro da prisão que teria ouvido gritos das supostas vítimas de tortura. O cara teve que ficar na delegacia, sob acusação de falso testemunho. Seria o poder de Polícia a verdadeira Justiça no Brasil? Não sabemos de nada. Não damos entrevistas. Não fazemos declarações. Passe bem.

25 de novembro de 2008

VERÃO À VISTA


Nei Duclós (*)

O verão se aproxima e vejo braços levantados, que se destacam na multidão. Eles se sacodem ao ritmo de um Carnaval de cidade pequena, praça cheia, salão suado. As lantejoulas grudam na pele que brilha, como um verniz. Os rostos redondos de olhos esperançosos aguardam o porvir, nome antigo do futuro, que chegou cedo demais e depressa se despediu. O Tempo voltou ao normal, devorando a memória. À poesia restou o encargo de resgatar o pó dos dias, reuni-lo em forma de criatura. E soprar nela o despertar, enquanto enterram o amor num canto remoto do quintal.

Confundimos a lembrança, achando que ela é feita de saudade ou mocidade. É composta de sentimento, essa é a verdade. Sem o socorro do coração, tudo está perdido: as horas são feitas de areia, os momentos enchem os porões de lixo. Se mantemos intacto o mel que lambuza a clepsidra, o relógio antigo de grão e vidro, então achamos o tesouro oculto. Aqueles braços, por exemplo, eram da mulher que rodava o sonho no espanto de menino. O corpo se aproxima, arrastando os pés cadenciados pela marcha-rancho. O cheiro é de tábua inchada pela chuva. Pernas sob a fresta do vestido prometem o mundo.

O verão se aproxima e cansamos da primavera alagada, dos súbitos tornados, das casas penduradas na serra. Esquecidos da praia, queremos de volta o horizonte azul de calmarias. Queremos a renda branca entre conchas e penas. O pisar no ouro liso das margens amigas. O levantar do sol como uma pipa, majestoso no seu trono de luzes fartas, de manhãs claras e tardes de Danúbio. Queremos cartas que nos digam: vou te conhecer, me aguarde. Queremos o fim das suspeitas, o prescrever das penas, o esquecimento, filtro de recordações plenas.

Queremos uma seleção de cenas. É noite, e estamos lassos depois de tanta água. Colocamos a roupa branca e saímos pela calçada, debaixo de lâmpadas indecisas. Há barulho de lata, tambor, apito. Vozes nos dizem que a algazarra começou pelo subúrbio e aos poucos parte para dominar o centro. É o verão que grita, por meio dessa visão inesquecível: dois braços vibram no ar e eles se dirigem em nossa direção. De coração na mão, damos um passo à frente. A próxima estação arranca a alegria debaixo do tapete.

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 25/11/08, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem de hoje: foto magnífica de Sergio Saraiva.

OS MAUS DO CLIMA


Nei Duclós

As gangs climáticas tinham absorvido uma parte da tecnologia do início do século, que arrasou países provocando maremotos, tsunamis, tornados, inundações, terremotos. Depois do grande Acordo Geral, de 2048, entre todos os países, que se comprometeram a não usá-la de novo, as coisas se acalmaram. Não havia mais perigo de cidades inteiras submergirem. Ou alguém fazer sumir o Timor Leste, como foi noticiado (e logo depois esquecido) em 2014. A China acostumara-se a ficar sem um terço do território, o equivalente a uma superfície de Júpiter, depois que acertaram as bases da grande represa com um bombardeio de íons carregados de neutrinos dinamizados pelo avesso.

Todos sabiam como provocar uma catástrofe “natural”, assim como todos tinham a bomba nuclear. Mas os segredos de bombardear com petardos plásticos a ionosfera não ficou circunscrito aos governos dito responsáveis. Algo vazou e foi assim que recomeçaram as tragédias, se bem que em menor dimensão. Os vendavais acoplados com chuvas de granizo, criados em laboratórios ocultos em porões, destruíam no máximo uma criação de cabras. Não chegavam a atingir os centros das capitais, porque tudo estava protegido sob o manto da Ordem Total.

Mas havia margem para algum divertimento. Os Maus do Clima, como eram chamados os meliantes que se dedicavam essas pequenas crueldades, agiam da mesma forma do que os antigos pichadores de edifícios, todos exterminados, no mundo inteiro, aí por 2020, na Operação Adrenalina. Havia, claro, uma disputa entre eles. Quem faria chover na cabeça do primeiro Ministro? Quem levantaria a saia da nova Rainha de Sabá, casada com o príncipe Abdul Al Litifah, do Corporatiscão, o grande país do Oriente Médio formado logo depois que jogaram areia em cima de algumas avenidas de luxo e fizeram a Arábia desaparecer de um dia para o outro? Os desafios eram tão intensos que começaram a ficar bizarros. Quem jogaria, só com a força do vento, uma montanha de pétalas no pólo Norte? Quem desligaria o motor das ondas em Copacabana? Era possível atrair um grupo de turistas coreanos para um abismo provisoriamente implantado no subúrbio de Paris?

Quem não gostava dessas firulas era Jamir Pinch Body, o Biltre. Achava perda de tempo. Não se conformava em saber pouco sobre o que queria fazer muito. Sua intenção era varrer os mares, tufão! Jamir lia Castro Alves e não suportava esse neheco nheco bossanovista de fazer despencar violetas em penhascos da Normandia. Queria ação, queria poder. Chegou a planejar duzentos assaltos ao Grande Cofre em Genebra, que guardava aquelas charadas que o levariam para o exercício pleno de sua própria potência. Poderia extrair toda a areia da Lua para jogá-la em Andrômeda. Explodiria planetas, como viu naquele filme antigo. Adoraria provocar mil dilúvios e mataria com as próprias mãos, estrangulando-a, a pomba da paz e jogaria no fogo o ramo das oliveiras. Ah, ninguém tinha idéia das intenções de Jamir, o mais Mau do Clima.

Mas ele não contava com o surgimento de Jihara, A Sílfide Transparente. Mulher desejada por todos os potentados internacionais, jamais se deixava fotografar inteiramente. Dela só se conhecia um olho, um perfil, um tornozelo, um requebro que eu quero ver. Jihara acabou se transformando na obsessão de Jamir, que tinha longas faixas de tempo inútil, já que sonhava em destruir o universo mas não conseguia nem fazer chover no seu quintal. Pelo menos, não de maneira copiosa, abundante. Jamir sonhava com Jihara como uma criança devora um doce com o olhar. Foi então que teve um insight! E se usasse seus parcos conhecimentos para voar num tapete e pousar suavemente num terraço onde Jihara fazia suas orações? Sabia onde ficava, no Palácio de Cristal localizado em Xangrilá, Etiópia.

Jamir prometeu que destruiria Marte depois de conquistar Jihara. Fabricou então um tapete voador. E soube se dirigir para seu objetivo, sem que os Ferozes Índios Xerox, donos dos ares, se dessem conta. Ele desceu no meio da tarde, quando Jihara penteava seus longos cabelos. Debruçou-se sobre ela e zás, roubou-a do jardim. Voltou voando enquanto a Sílfide berrava que estava sendo seqüestrada. Mas Jamir sabia: aquela história teria um desfecho favorável. Esperava apenas o narrador cansar de contar tanta bobagem para enfim conseguir fazer o que sonhava há décadas: transar embaixo dos pessegueiros em flor. Desde que nenhum Mau do Clima tivesse a idéia fresca de desencadear uma avalanche de neve na hora do bem bom.

Tudo pode se esperar dos Maus do Clima. Até mesmo uma tremenda empatada na hora em que o Biltre iria crau na Sílfide.

24 de novembro de 2008

1964: O GOLPE CIVIL


Para quem tinha dúvidas, vou reproduzir aqui alguns trechos da edição de 10 de abril de 1964 da revista O Cruzeiro, agora digitalizada (a jóia me foi repassada por Clovis Heberle, por e-mail). É simples: o golpe de 1964 foi civil. Foi comandado por civis, assumido publicamente pelos civis, justificado em tudo, repressão, prisões, perseguições, cassações, pelos civis. Os militares entraram como braço armado do golpe que eles, civis, promoveram.
Neste depoimentos, dos quatro governadores golpistas, a farda aparece sempre em segundo plano. Todos os que estão aqui são culpados, como mostram seus depoimentos. Carlos Lacerda, governador do estado da Guanabara, Magalhães Pinto, de Minas, Adhemar de Barros, de São Paulo, Juscelino Kubistchek, de olho na volta ao poder (que não teria chance, pois o voto trabalhista, que o elegeu em 1955, iria em 1965 todo para Leonel Brizola). Faltam outros, como Ildo Meneghetti, do Rio Grande do Sul. Leiam o que foi publicado na revista:

MAGALHÃES

"O Governador Magalhães Pinto, de Minas Gerais, liderou o grande movimento político-militar em defesa do regime democrático. Sem perder a serenidade um só momento, o dirigente udenista manteve o clima emocional, a união de Minas e a decisão de conquistar a vitória. Quando ela foi conquistada, declarou com exclusividade para “O Cruzeiro”: "O movimento restaurador da legalidade, que Minas tomou a iniciativa e a responsabilidade de desencadear, com o apoio de todos os brasileiros, em breve estará concluído com a formação de um Govêrno em condições de promover a paz, o desenvolvimento nacional e a justiça social. Belo Horizonte, 2 de abril de 1964.

ADHEMAR

O Governador Adhemar de Barros em entrevista exclusiva cedida a “O Cruzeiro” – a primeira desde a eclosão do movimento armado contra o govêrno do Sr. João Goulart –, disse que dará combate sem trégua aos comunistas, caçando-os onde estiverem, em qualquer ponto do território nacional. Visìvelmente eufórico, apesar do cansaço de muitas horas sem dormir, o Sr. Adhemar de Barros começou dizendo que o movimento revolucionário por êle comandado em São Paulo começou na noite de 31 de março de março, “para valer”.
– Quando vocês todos estavam dormindo, sonhando com a liberdade, nós já mandávamos os primeiros comunistas para a Casa de Detenção.
E frisou:
– Mas à velha Casa de Detenção, pois não têm mais direito nem à cadeia nova.

“A Polícia de São Paulo” – continuou – “agiu com absoluta segurança, colaborando com o General Amaury Kruel, que desde o início estava integrado no nosso esquema de libertação nacional. Naquela altura, eu e mais seis governadores de Estado (Minas, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Guanabara, Mato Grosso e Paraná) já tínhamos pronto o decreto de beligerância que iria instaurar o primeiro govêrno brasileiro. Eu próprio redigi o manifesto que ainda se encontra em meu poder. Queria com isso comunicar ao Mundo que no Brasil ainda havia líderes realmente democratas que não toleram o jôgo vermelho.

“O Brasil retornará agora à sua política internacional de apoio incondicional ao Ocidente. À sua política de livre iniciativa. Abandonamos o tripé instalado pelo Goulart. Tripé apoiado em órgãos espúrios como CGT, UNE, PAC, PUA e outros. No govêrno dele mandavam os pelegos, os estudantes vermelhos, os camponeses doutrinados e os escravos de Moscou.

LACERDA

Antes, durante e depois da crise, o Governador Lacerda estêve no centro dos acontecimentos. E, como é de seu feitio, pronunciou-se diversas vêzes com a maior veemência. Na tarde do dia 1º de abril, anunciando ao povo a vitória das fôrças comandadas pelo General Olímpio Mourão Filho, o Governador da Guanabara fêz declarações através do rádio, declarações que constituem verdadeira súmula do que êle dissera até então. Depois de se dirigir às donas de casa, pedindo-lhes que se mantivessem calmas, o Governador passou a analisar o Sr. João Goulart, seu Govêrno e as causas que determinaram a necessidade do seu afastamento. “De herdeiro de alguns hectares de terra, transformou-se, em poucos anos, em proprietário de mais de 550 mil hectares – uma área igual a quatro vêzes e meia o território da Guanabara.”

E prosseguiu: “Associado do Sr. Wilson Fadul (que por isso foi ser Ministro da Saúde, e não porque seja um cientista), em quatro anos, com dinheiro do Banco do Brasil, e com dinheiro cuja origem não explica, o Sr. João Goulart transformou-se num dos homens mais ricos dêste País, com três bois por hectare em suas fazendas”.

“O Sr. João Goulart é um leviano que nunca estudou – e não estudou porque não quis, não é porque não pôde. E agora, no Govêrno do País, queria levar-nos ao comunismo.” Explicando que discordara da investidura do Sr. João Goulart na Presidência da República, mas terminara aceitando-a, disse o Governador Lacerda: “Eu o conhecia bem. Mas, como bom democrata, submeti-me à vontade da maioria, quando entrou em vigor a fórmula do Parlamentarismo. Mas o Sr. João Goulart não queria governar. Adulava, de dia, os trabalhadores que condenava ao desemprêgo, de noite. O Sr. João Goulart jurou fidelidade ao Parlamentarismo, para logo em seguida impor o plebiscito, e todo o povo votou. Eu não votei porque achava que o plebiscito era uma palhaçada, e repito que era”.

“Quem quiser fazer reformas deve ter a honestidade de dizer que as fará sem reformar a Constituição. Há necessidades de se fazer reformas, e eu acho que se pode fazer isso sem se mexer na Constituição. Mas o Sr. João Goulart não queria isso. Montou um dispositivo sindical nos moldes fascistas, com dinheiro do Ministério do Trabalho, dinheiro roubado do impôsto sindical, roubado do salário dos trabalhadores, para pagar as manifestações de banderinhas e as farras dos homens do Ministério do Trabalho.”

“Ao mesmo tempo, começou a criar dificuldades para a Imprensa, para os jornais, para o rádio e a televisão, iniciando um processo de escravização dos homens livres que fazem a imprensa do nosso País. Depois de criar as dificuldades, o Sr. João Goulart oferecia-se para resolvê-las, enquanto dava curso ao processo de entreguismo do Brasil à Rússia. O Sr. João Goulart foi o maior entreguista que já teve êste país.”

JUSCELINO

Dizendo que a legalidade é anticomunista mas não é antipopular, o ex-Presidente Juscelino Kubitschek, candidato do PSD ao Palácio do Planalto em 1965, afirmou em entrevista exclusiva a “O Cruzeiro” que a hora é de grandeza democrática, e que o Brasil precisa de reformas contra os privilégios e contra os extremismos. A palavra do líder que estêve, também, no centro dos últimos acontecimentos é decisiva para o desarmamento dos espíritos, agora que o País volta à paz e ao trabalho.

"É com o pensamento voltado para Deus, grato à sua proteção ao Brasil e ao seu povo, que saúdo a nossa gente pela restauração da paz, com legalidade, com disciplina e com a hierarquia restauradas nas Fôrças Armadas. No auge da crise, quando era próxima a possibilidade de derramamento do generoso sangue brasileiro, o apêlo à paz, com legalidade, disciplina e hierarquia, tinha de ser ouvido. E foi ouvido. A paz está mantida. A legalidade engrandecida. A disciplina e a hierarquia rejuvenescidas. Mas do que nunca o Brasil precisa de paz: nos espíritos e nos corações. A mente clara, para pensar sem ódios e sem rancores. A convalescença terá de ser curta, sem radicalizações e sem ressentimento. Não manteremos a paz da Democracia representativa com sentimentos de vingança e rancores condenáveis.

A hora é de grandeza democrática. De grandeza da própria Democracia. De volta à rota do progresso pela criação da riqueza e da multiplicação das oportunidades de viver melhor. Sem progresso não haverá liberdade para alcançar a justa distribuição da riqueza. Continuaremos a socializar o escasso.

A paz não exclui, todavia, a vigilância democrática. O perigo comunista não estava, como se viu, no comportamento do povo e dos trabalhadores, ordeiros e democratas. O perigo comunista estava na infiltração em comandos administrativos. A vigilância democrática não significa, porém, a oficialização em qualquer ponto do território nacional do liberticídio, do desrespeito às liberdades individuais e associativas. E muito menos daquelas liberdades que mais de perto se relacionam com as aspirações populares e com os direitos associativos, com os sindicatos libertados de influências políticas de cúpula.

A legalidade é anticomunista, mas não é antipopular. A legalidade democrática deverá estar aberta, em todos os seus canais de comunicação, ao livre curso dos debates. A legalidade democrática abre também a possibilidade de recolocar o problema das reformas de base. As reformas realmente democráticas, dentro da ordem social e econômica. Reformas que elevem o padrão de vida do povo, nos campos e nas cidades, significando socialização da riqueza, com a preservação integral do princípio da propriedade privada, que cumpre estender e generalizar, dando prioridade aos que nada possuem.

Não temos dúvida em afirmar que a Democracia só será consolidada e enriquecida com a conquista permanente da devoção popular. A legalidade democrática nos conduzirá às eleições. Será a continuidade do regime, já restaurado com a posse, pelo Congresso, do meu eminente companheiro de partido, o Presidente Ranieri Mazzilli. O ritual democrático está firme. É preciso, agora, que os fins que êle simboliza sejam realizados pela ação dos brasileiros lúcidos e tolerantes.

O Brasil das reformas é o Brasil democrático, contra privilégios e contra extremismos. É o Brasil sem frustrações. Esperançoso, rico e mais justo."

RETORNO - 1. Imagem de hoje: vocês vêem algum militar na capa da edição que celebra o golpe? 2. Vemos nos depoimentos acima o conjunto de justificativas para a maior tragédia brasileira. Cheios de ódio, rancor, ressentimento, calúnias, mentiras, singelezes sinistras (como JK falando em democracia! que a democracia "está consolidada"!) temos o quadro da destruição do Brasil Soberano. Lacerda acusando Jango de censura à imprensa! De ter latifúndios! (o golpe de 64 abriu as comportas para o latifúndio). Falando mal do plebiscito, que derrotou-o fragorasamente. Dizendo que "discordara da investidura" de Jango, ou seja, discordou da Constituição (a posse do vice-presidente) que ele dizia defender! E acusando o presidente deposto (quanta covardia!) de entreguista, vejam só. O grande entreguista acusando os outros do seu maior crime.

Os civis ficaram no poder de fato, na política econômica. Os militares entraram com seu programa nacional e assumiram o Planalto, mas pagaram o mico, ou seja, foram queimados pela direita civil, que retomou as rédeas políticas em 1985. Foi simples: os civis golpistas, logo que viram não terem acesso ao Planalto, posaram de vítimas da ditadura que eles mesmo implantaram. E assim clonaram as oposição à tirania e recuperaram o poder total na chamada retomada democrática. Retomada sem soberania, claro.

RUBENS JARDIM, A PALAVRA PLENA


O gentil, talentoso, atencioso, importante, militante poeta Rubens Jardim lança um novo livro de poemas depois de 30 anos sem publicar! Um dos caras que integraram a Catequese Poética, fundada por Lindolf Bell, que tinha como lema: "O lugar do poeta é onde possa inquietar. O lugar do poema são todos os lugares". A Catequese foi um movimento cultural que semeou aos quatro ventos a noção da poesia para todos, fora dos clubes, igrejinhas, conluios, conciliábulos, que ensinou os brasileiros a ir para rua dizer o que era preciso ser dito a plenos pulmões. Pois ele agora estará perto de você com sua obra recém saída da gráfica. Vá até lá e diga: obrigado, poeta, por voltar até nós, os deserdados da terra. A seguir, publico na íntegra as informações que Rubens Jardim me enviou sobre esse lançamento:

O livro *Cantares da Paixão*, do poeta Rubens Jardim, será lançado na Livraria Martins Fontes (da av. Paulista), no dia 9 de dezembro, a partir das 18h30 até às 21h30.

Após 30 anos longe do circuito editorial, Rubens Jardim, poeta paulistano da geração de 60 vai finalmente publicar um livro de poemas: Cantares da Paixão, com apresentação de Afonso Romano de Sant’Anna e prefácio de Cláudio Willer. O livro, publicado pela editora ArtePau Brasil, reúne em 160 páginas fartamente ilustradas, alguns poemas já publicados em livros anteriores—mas a grande maioria é constituída por poemas inéditos.

Segundo Claudio Willer, poeta e crítico, o que caracteriza o trabalho de Rubens Jardim é ele querer “uma poesia total cujo centro é a palavra plena, mas que inclui o visual - o elaborado tratamento gráfico e a grande quantidade de ilustrações -, o biográfico - ao qual remetem informações no livro e temas de alguns dos poemas -, e o restante do contexto, daquilo que ocorreu nestas últimas décadas. No limite, aspira a uma síntese, através da qual se confundiria com seus poemas, e vice-versa: é a unidade sugerida pelo confronto, lado a lado, dos poemas sobre a rosa real e a rosa irreal; a coexistência do existente e do imaginado, do antiornato e do pleno pigmento. Para realizar essa síntese, a própria palavra tem que ultrapassar-se: daí criar vocábulos em alguns de seus poemas, além de explorar as possibilidades das homofonias e anagramas ".

Também para o poeta Afonso Romano de Sant’Anna, o aspecto dominante desse trabalho de Rubens Jardim, poeta que vem da geração de 60 é a superação dos limites entre os grupos oriundos daquela época, e a criação de soluções pessoais para a questão da comunicação poética. Diz Sant’Anna que “neste livro ele se dá uma liberdade rara transitando entre as mais variadas formas. Pode-se dizer que ele faz uma síntese do que seria o poema-cartaz, o hai-kai, o poema-piada, o caligrama, a publicidade e o poema convencional. Pode tanto produzir um poema com o mínimo de palavras ou letras, como um magnifico soneto. Pode compor um poema voltado para problemas sociais ou para a repressão política, ou pode dedicar-se à sua infância e a temas subjetivamente familiares. E tudo com a desenvoltura de quem sabe o que está fazendo.”

PERFIL

Rubens Jardim, 62 anos, jornalista e poeta. Publicou poemas nas antologias: 4 Novos Poetas na poesia nova(1965,SP), Antologia da Catequese Poética (1968,SP), Poesia del brasile d'oggi(1969,ITÁLIA), Vício da Palavra (1977,SP), Fui Eu (1998,SP), Poesia para todos (2000,RJ), Antologia Poética da Geração 60 (2000,SP), Letras de Babel (2001,URUGUAI), Paixão por São Paulo (2004,SP), Rayo de Esperanza (2004, Espanha), Congresso Brasileiro de Poesia (2008,RS). É autor de dois livros de poemas: Ultimatum e Espelho Riscado.

Promoveu e organizou o Ano Jorge de Lima em 1973, (em comemoração aos 80 anos do nascimento do poeta), evento que contou com o apoio de Carlos Drummond de Andrade, Menotti del Pichia, Cassiano Ricardo, Raduan Nassar e outras figuras importantes da literatura do Brasil. Organizou e publicou Jorge, 80 Anos (uma espécie de iniciação à parte menos conhecida e divulgada da obra do poeta alagoano).

O QUE JÁ SE FALOU DESTE POETA

“Poeta Rubens Jardim: deixo de responder à sua carta-desencanto porque a melhor resposta lhe foi dada por você mesmo, em Espelho Riscado, cadernos de poesia-2. A poesia é exatamente o projeto de solução que encontramos para os desencontros e absurdos do mundo. E você dá bravamente o recado, em seus versos. Portanto, é seguir em frente, com as armas da lucidez e da esperança.” Carlos Drummond de Andrade

“Rubens Jardim, que parece ser o mais maduro do grupo --mais maduro e, no fundo, mais amargurado -- diz, significativamente, que sua infância foi exata como um relógio sem ponteiros.” Rolmes Barbosa (Suplemento Literário de O Estado de São Paulo)

“Rubens é o poeta de hoje, definitivo e consumado. Ele só seria o poeta do futuro - como gostam de prever os críticos de rugas e casaca - se a arte admitisse progresso. Flávio Márcio, (dramaturgo)

“Poeta de talento o jovem Rubens Jardim do Ultimatum, que diz com o desassombro de seus 20 anos poesia em praça pública (como naquele Comício Poético, em outubro de 65, na Praça da Sé, em São Paulo)... E eu planto aqui no cerne de cada coração, o ultimatum da minha última esperança...Stella Leonardos ( Jornal de Letras)

“Três livros de poesias nos vieram às mãos esta semana. Um deles é firmado pelo jovem poeta Rubens Jardim. E tem um título bélico: Ultimatum. A poesia de Rubens tem aquele sabor próprio da geração que os maiores insistem em não compreender, por comodismo ou incapacidade. É o protesto.” J.Pereira (Diário de São Paulo).

23 de novembro de 2008

NO, NO SE PUEDE


Lula agora quer rosnar com os países da América Espanhola. Mostrou os dentes para o Equador, que tem como território o equivalente aos municípios de Uruguaiana e Alegrete somados. Lula achava que o prestígio do País vinha do fato de ele ser o rei da cocada preta, o gostosão das massas, o imperador das esquerdas submissas, o pacificador dos Andes, o Abanador Profissional para as Câmaras, o Sorridente Alvar ao lado do Côco Bicho Chavez. Deixou-se fotografar com Evo Morales dando-lhe uma prensa por trás. Era filmado gargalhando ao lado dos meliantes, que tungaram o patrimônio brasileiro e agora ameaçam romper acordos internacionais. Começam com Itaipu e terminam no Acre. É esperar para ver.

A cama está feita, pois no Brasil há um grande movimento a favor do ditador paraguaio Solano Lopes, tratado como libertador, quando era apenas um ditador facínora inescrupuloso e assassino, que invadiu o Brasil (minha cidade, Uruguaiana, foi totalmente destruída pelas tropas paraguaias, que também aprontaram em São Borja e Itaqui, onde entraram em todas as casas para roubar e quando não roubavam cortavam tudo a golpes de sabres). O Chavez vem aqui e cacifa escola de samba. Sin fronteras, claro, na America Nuestra (coincidentemente, falada em espanhol). Para que fronteiras, se elas comportam para nós, brasileiros, o território maior, melhor, mais rico e mais potente? O negócio é clamar pelo internacionalismo poncho e conga a favor dos povos oprimidos. Não existe povo sem nação. Se você foder com a nação, acaba com o povo, oprimido ou não. Disso muitos brasileiros não se deram conta.

O respeito ao Brasil vinha das guerras, quando disputamos os territórios espanhóis travando uma luta de vida ou morte. Por isso o Brasil era respeitado, porque compareceu no campo de batalha. Nossas fronteiras vem dessa luta. A paz com os vizinhos vem dessas guerras, inclusive com algumas derrotas ótimas, como a contra os uruguaios, que conquistaram sua independência. Na batalha de Tuiti, os bravos mortos de ambos os lados foram queimados para não espalhar doenças. Aos milhares, uma fogueira de gente. Foi por isso. Não porque Lula é o gostosão do Atlântico ao Pacífico. Aí ele foi deixando os caras fazerem o que quisessem, não havia reação nenhuma. Si, se puede: já que o gigante gosta que lhe passem a mão na bunda, então vamos roubar tudo o que eles tem aqui dentro dos nossos países. O Assessor Cuca, Sargento Garcia, aplaudia.

Agora Lula quer rosnar. Tarde piaste. Quando sair do poder, algum estadista de verdade deve ocupar o seu lugar. Nada a ver com imperialismo tupiniquim, como querem os espertalhões gringos (para servirmos de bucha de canhão). Mas tem a ver com soberania. A Newsweek saiu com uma matéria dizendo que somos potência econômica e por isso a Gran Cucaracha está assanhada. O Brasil não é potência econômica, é quintal do imperialismo e deixa o povo na mais completa miséria. Esbagaçou o patrimônio público, atrelou a moeda às moedas mais poderosas, entregou-se à ciranda financeira, destrói sem parar as matas, mete soja e gado em tudo que é lugar, vende adoidado terra para estrangeiros, divide-se em centenas de grupos étnicos (ninguém mais é brasileiro).

O bairrismo, que despreza o Brasil soberano em favor do “sangue” de alguma nação estrangeira, é o brinquedinho dos boçais. O Brasil precisa de estadistas à altura da sua História. No, no se puede.