Blog de Nei Duclós. Jornalismo. Poesia. Literatura. Televisão. Cinema. Crítica. Livros. Cultura. Política. Esportes. História.
30 de janeiro de 2004
A QUALIDADE DOS CONTERRÂNEOS
Faço parte de uma geração de pessoas gentis, formada na refrega dura da vida estudantil onde não havia colher de chá, onde bastava tomar bomba numa só matéria para repetir de ano, e se repetisse duas vezes, era convidado a deixar a escola. Meus pares são pessoas como Fernando Pereira da Silva Filho, Carlos Alberto Martins Bastos, Solon Sastre, Rubens Lenar Güez, Gilberto Duro Gick, Lino Antonio Ulharuso, Vicente Torre, Luiz Carlos Etcheverria, Miguel Ramos, entre tantos outros. Todos, claro, de Uruguaiana.
O TREM DEMOCRÁTICO - No seu belo best-seller, que tem o nome de Como é longe Uruguaiana, meu amigo (e colega de aula do meu irmão Luiz Carlos) Fernando Pereira da Silva Filho me envia um exemplar onde revela seu texto limpo, cheio de detalhes, que mistura história familiar com a história da cidade. Fernando resgata, entre vários eventos maravilhosos, uma viagem de trem, esse transporte que foi sucateado criminosamente pelo regime que ainda está no poder, o instaurado em 1964. O hoje Dr. Fernando, dentista renomado, filho da grande amiga da minha mãe, Dona Leda, sua colega de trabalho no Centro de Saúde, dá um banho de memória e criação literária, ao contar cada curva daquela estrada inesquecível, cada tipo que viajava naqueles trens puxados por uma esforçada Maria Fumaça, todas as peripécias de viagens que marcaram vidas, pois somos dos confins do Brasil, ou melhor, do seu início, e saíamos às cinco da manhã para chegar, com sorte, a Porto Alegre, às sete da manhã seguinte. Chega ao requinte de descrever o vagão restaurante, esse luxo que não existe mais nas viagens brasileiras, onde havia confraternização, alegria e convívios definitivos. Fernando descreve o cuidado que todos deviam ter ao tentar tomar café enquanto o trem sacudia, a distribuição para o vizinho do pacote de bolacha Maria e a presença fulgurante do chefe do trem. Como diz Fernando, a “autoridade máxima da composição, com poderes de mando irrestritos dentro de todo aquele território, que percorria vagões, vestindo sua farda azul, com algumas insígnias e botões dourados bem polidos e a cabeça coberta por um indefectível quepe da mesma cor”. Fernando tem um estilo direto, saboroso, que recria cenas aparentemente banais, que é o segredo de todo escritor de verdade. Sabemos o quanto custa chegar a esse resultado, sem pretensões, que torna-se poético sem jamais distrair-se da narração. Sua história corre pela linha como uma composição que nos carrega para longe, para a alegria das descobertas de um tempo que ainda está conosco, morando como um parente próximo, e amado porque jamais superado na sua grandeza.
DESTILARIA - Perto da minha casa morava, e ainda mora, a grande família dos Etcheverria. O patriarca era o primeiro funcionário da Destilaria, marco da introdução do petróleo no Brasil. Pois a primeira empresa que cuidou do petróleo em território brasileiro foi a que é hoje a Ipiranga. Um grupo de empresários começou a importar óleo cru de Buenos Aires e a fazer o refino. Mais tarde, com as mudanças da legislação e da política, e devido a uma estratégia com mais chances de sucesso, a empresa transferiu-se para Rio Grande, onde hoje tem sua sede. Luiz Carlos Etcheverria era um dos amigos daquela rua. Muito magro, com calções até os joelhos, era um inventor de palavras. Tinha mais de 15 irmãos. Hoje ele é professor aposentado e reparte conosco a glória de ter fundado o Esporte Clube Guarani, um time de rua que tem mais de 40 anos. A duas quadras, morava (numa casa que continua com sua família) o meu amigo Cabeto Bastos, o mais elegante, culto e gentil exemplar desta geração. Ele faz parte de uma das famílias proprietárias do Grupo Ipiranga. Íamos ao colégio Romaguera Correa no mesmo passo. Usávamos avental branco, um grande tope no pescoço, com nossas lancheiras a tiracolo. Ele quase caiu para trás quando o presenteei com um convite de formatura do pré-primário. “Como conseguiste guardar isso tanto tempo?” perguntou. Eu não soube responder.
SENTINELA - Na minha recente viagem à cidade, tive a felicidade de encontrar no tradicional Hotel Glória o Sólon Sastre, um apaixonado pela obra de Fulvio Penacchi, o maior pintor do Grupo Santa Helena e que tem suas obras primas na catedral Santana da nossa cidade. Comecei então pensar nas pessoas daqueles idos dos anos 50 e 60 e descobri que compartilhamos a mesma formação ao mesmo tempo rígida e amorosa dos nossos pais, do ensino estimulante das escolas públicas e privadas, do debate aberto e franco das idéias, que jamais deixaram quaisquer resquícios de inimizade, isso que atravessamos longa e penosa ditadura. Dei-me conta então que fazemos parte de uma humanidade que procura, hoje, transmitir a todos o que aprendemos, dividir a alegria da conversa, somar esperanças e sentir a genuína alegria no reencontro. Pena que alguns já partiram, como o príncipe Gilberto Gick, aquele que jamais deveria ter nos deixado, pelo tanto que poderia fazer, pela enormidade do espírito, pela inteligência infinita e pela ousadia de chegar sempre na frente. Gilberto era a nossa vanguarda e, como todo sinuelo, sofreu o vento minuano dos tiros na primeira hora, quando ainda estávamos dormindo. Quando acordamos, estávamos desamparados pela perda. Mas o texto, que é sempre trabalho penoso pelo desafio e gratificante pelos resultados, é a poção mágica que traz todo mundo de volta e nos coloca ao redor do fogo.
Somos de Uruguaiana, a cidade-sentinela. Quem vem de outro país nos cumprimenta em primeiro lugar. Respondemos com o abraço das boas vindas, com a aceitação das diferenças, com a certeza de que nascemos para dar o exemplo, já que somos fruto do exemplo maior da geração – e que geração! – que nos precedeu. A geração que nos deu os melhores, a que fundou a nação a partir do nada, e que nenhum respeito ou agradecimento, por maiores que sejam, jamais poderão retribuir tudo o que nos deram.
RETORNO - Fernando Pereira da Silva Filho me envia a seguinte a mensagem:
"Meu prezado Nei - Os amigos são sempre benevolentes. Grato por ter me colocado no mundo. Sei dos meus limites mas pretendo ir alargando-os, antes tarde do que nunca. Apesar de levar uma vida de paulista em Uruguaiana ( dá para acreditar?) pelos meus trabalhos ( tenho três frentes para encarar por dia) tenho me dedicado aos escritos. Sem medo de errar digo que eles são o meu prazer, o meu lazer e minha terapia para enfrentar esse mundo de hoje. Um abraço fraterno e obrigado pelo estímulo. Leio sempre tuas mensagens e vejo que apesar
dos tempos não te desligastes de nossa terra. Quem escreve com o coração não se trai nunca".
24 de janeiro de 2004
QUEREMOS MAIS, SÃO PAULO
A cidade-mãe a todos acolhe e recebe visitas e presentes no seu aniversário. Mas como toda mãe idosa, seu espírito parece estar confinado num asilo, esperando o dia em que filhos e trisnetos venham lhe prestar homenagens. No resto do ano, acontece o de sempre: surge a toda hora uma nova maneira de explorar a velha senhora, tirar tudo o que dela ainda jorra generosamente. Basta olhar ruas e calçadas e ver como a deixaram feia enquanto fazem brindes à sua longa vida.
O ENTERRO DOS FIOS – O morador comum de São Paulo não usufrui do que ela tem de melhor. Vive-se entre sujeira e pouco caso, barulho excessivo, ar poluído e água escassa. Estrelas internacionais vem e vão carregadas de dólares, restaurantes maravilhosos servem a poucos comensais, exposições de arte atraem filas e atropelos e morre-se diariamente no trânsito onde todos são os primeiros em tudo. O risível é o pacote de soluções idealizadas, todas orientadas pelo politicamente correto, os temas da moda, as picuinhas políticas. O fundamental para tirar São Paulo do horror urbano é, em primeiro lugar, deixar que o dinheiro público fique isento da cobiça do tubaronato. Segundo, cuidar da infra-estrutura, pois não é possível que ruas desenhadas para passar carroça tenham que absorver a incúria do poder público, que infesta o território nacional de novas fábricas enquanto deixa à deriva o mais importante transporte do mundo, o público, com ênfase nas ferrovias (temos ainda pouco metrô). O saneamento básico, a permeabilização das ruas, o conserto e reforma e redesenho das calçadas, o necessário enterro da rede de fios (coisa que se faz há decadas em outros países), o investimento maciço e total na habitação (em convênio com a própria população, que, sem ter outra saída, constrói casas por sua conta, deixando-nos o espetáculo triste de favelas com tijolos à mostra), seriam medidas óbvias. Colocar o poder público a serviço da infra-estrutura não é fazer obras mirabolantes, como levar 18 meses para cavar dois túneis em terreno nobre para impressionar os eleitores, como acontece atualmente na Eusébio Matoso e na Cidade Jardim. Habitação deve vir acompanhado de urbanismo moderno e eficiente em todos os bairros. O que se vê é uma cidade abandonada. As calçadas da importante avenida Francisco Morato, por exemplo, onde sobram empresas milionárias ao longo do seu percurso, são as mesmas que encontrei há trinta anos. Não se faz nada, a não ser politicagem.
CAOS - Não é difícil se chegar a resultados. Imagino sempre que os responsáveis pela cidade não vivem nela, passam por cima de helicóptero e estão sempre pensando em fugir do caos permanente. Não existe amor por São Paulo, existe o hábito de viver à sua custa, de se servir do que oferece, de encher os bolsos com seu dinamismo, de abraçar seus privilégios. Existe interesse e incúria. O amor é outra coisa. Amor não é detectar a cidade antiga soterrada na violência de hoje, não é sentir saudade, não é relevar seus problemas para dizer que ela continua maravilhosa. Amar a cidade é sair à rua e sentir-se seguro e confortável. Tradicionalmente, o Brasil odeia o espaço público e transforma o espaço privado num palácio. Os visitantes europeus notavam que não se encontrava nada nos mercados e que as ruas das cidades brasileiras eram imundas. Em compensação, as casas tinham tudo, de sobra. Essa mudança de enfoque não ocorreu ainda em São Paulo (onde, claro, são poucos os palácios e muitos os barracos), mas existe em outras cidades. Precisamos acabar com essa cretinice cíclica de desovar falso amor sobre a cidade que nos acolheu, que nos permitiu sobreviver e que continua grandiosa, imponente e cheia de energia, apesar do vampirismo que a suga diariamente.
VIBRAÇÃO - Foi paixão à primeira vista. Cheguei em São Paulo em julho de 1969 pela primeira vez. Fui com meus amigos pousar no estádio do Pacaembu, pois estávamos em férias e tínhamos carteira de estudante, ou seja, era permitido o acesso de peregrinos escolares aos infindáveis aposentos. Achei o máximo quando conheci a Avenida Paulista num entardecer de ouro. Senti a vibração das ruas e das pessoas. São Paulo me chamava e continua me convocando. Estou aqui em missão cívica, para aprender e ensinar. Gostaria de abraçá-la neste 25 de janeiro, quando completa 450 anos, como uma velha amiga e protetora. Cidade que o Brasil constrói como um projeto de futuro. Que abriga toda a população da terra. Que distribui bênçãos como uma matriarca. E que nos acompanha quando nos afastamos dela, saudosos da sua loucura, amantes da sua grandeza. Somos gigantes quando conseguimos sobreviver na selva paulistana. Ficamos diferentes e compartilhamos a experiência comum de conviver no miolo de um furacão, atiçados pelo centro de um terremoto.
Queremos mais, São Paulo. Te queremos limpa, bonita e agradável. Dizem que é impossível, que é pegar ou largar, que devemos nos conformar com os transtornos pois São Paulo é assim mesmo. Não concordo. São Paulo pode ser melhor. Basta deixar de roubá-la. Basta deixar de tratá-la como um objeto valioso da qual nos servimos sem limites. Basta devolver a ela mais do que palavras, ações verdadeiras em favor da sua redenção.
RETORNO- Não quero, com este texto, dizer que tenho cidadania paulistana. Sou lá do “sudoeste onde o Brasil termina”, como diz o poema. Também não quero dizer que devo a esta cidade. Aqui vivo e aqui muito sofri. Paguei o que recebi. Mas quando me perguntam onde estou agora, digo com orgulho: moro em São Paulo. A cidade vitoriosa que nos ensina a virtude da garra, a tenacidade do sonho, a realização do projeto, a convivência planetária. Moro aqui, onde queremos ser melhores do que somos. Onde sabemos que não somos nada. À parte isso, queremos mais do que apenas uma vida para ficar à altura do que podemos ser nestas avenidas, nestas pontes, nestes bairros.
Feliz aniversário, São Paulo. Posso te chamar de minha cidade?
22 de janeiro de 2004
NA PEDROSO, COM GIM TONES
O inenarrável repórter policial me aparece na nova redação vestido de motoqueiro sem moto, todo coberto de plástico para enfrentar a famosa chuvinha fodegosa que caiu hoje no Brasil de Sampa a Floripa (conheço o clima numa distância de 700 quilômetros), animado com o Ano do Livro e me convence a misturar chope gelado com caldo quente de feijão regado a cachaça Boazinha. Nesse ínterim, alguém ficou presa na casa em frente e, como só acontece em grandes reportagens, o sonso jornalista atravessa a rua convocado pela aventura . Não perca as próximas linhas.
DESTINO - É uma questão de linhas escritas na palma da mão. Lembro que na minha visita a Uruguaiana, quando fiz o périplo resgatante no carro regado a chimarrão do Anfitrião da Tríplice Fronteira Anderson Petroceli, passei algumas horas na mais completa tranqüilidade. Pois foi voltar para a praça e escutar de Tabajara Ruas, autor da obra-prima “Perseguição e Cerco a Juvêncio Gutierrez”, que também tinha saído a visitar a cidade, mas por sua vez no famoso “diapé”, a história assombrosa de que foi testemunha de um tiroteio, tendo adentrado no recinto dos balaços (logo depois do evento, claro), para verificar o estrago em algum conterrâneo que exibia o sangue dos inocentes. É como eu digo: tem gente que nasce para a aventura. Com Gim Tones dá-se o mesmo. Enquanto nos ocupávamos com mil lides editoriais, o solerte jornalista exibia seu olhar pela janela quando gritos da frente o convocaram para um resgate. Parece que a vizinha, tradicionalmente nervosa com o rompimento do seu matrimônio, tinha se encerrado sem querer atrás do grande portão (é uma região de grandes mansões e portões) e gritava por socorro. Pois não é que Gim prontificou-se a atravessar a rua e salvar a ilustre vizinha, notória por sua capacidade de gritar sempre que o ex-marido lhe aparece nas fuças, quando é alvo de ameaças como “essa conta vou mandar para o teu apartamento”. Depois do resgate, a vizinha aos brados contou o infortúnio para nosso repórter, que assim cumpriu o destino aventureiro da sua estirpe, deixando-nos boquiabertos com a oportunidade única que se lhe apareceu, ele que nunca visita a redação, redação que nunca é dada a esse tipo de ruído, já que se dedica as altas esferas da melhor literatura brasileira e mundial. Pois é assim, meus amigos e amigas, é assim que se manifesta a vida e suas escolhas. Não tive outra alternativa do que levar meu amigo para o Pirajá, prainha da Pedroso de Moraes, onde desfrutamos de uma conversa interminável sobre a linhagem da reportagem policial no jornalismo brasileiro.
DESPISTE – Para impressionar o solerte pesquisador de histórias desumanas da periferia e texto maior da nova safra de escritores brasileiros, tentei vestir de carisma minha trajetória de vida colocando o talento como coisa comum entre edição e reportagem. Nesta, destaco como diferencial básico a coragem. O repórter que se aventura na favela para trazer a história que ninguém conta tem em mim o admirador número um. Contei ao garoto quase trintão a importância de pessoas como Pena Branca e Hamilton Almeida Filho, já que de Caco Barcelos não preciso nem traçar mínima biografia, pois é público e notório que Caco é o verdadeiro nome da coragem. Gostei de ver Gim Tones animado com as perspectivas que se abrem no Ano do Livro, pois já estava preocupado com sua longa descida aos infernos da lassidão desempregatícia, já que o Império da Idiotia erradicou o talento das redações como se tirasse fora ervas daninhas. Mas o talento soa como uma rebelião, como falei recentemente para meu consideradíssimo amigo e escritor maior Moacir Japiassu, que aos poucos planta os pés para fora do Brasil com sua grande literatura e nos prepara uma surpresa de arrepiar para os próximos meses.
AUTORES - É desse jeito que vivo atualmente, entre meus queridos escritores, que palmilham o território da criação na maior das dificuldades, sem querer saber do dia de amanhã, pois o futuro nos pertence, assim como o presente é uma presa fácil em nossas mãos cheias de vontade de acertar o passo. Espero que estas linhas agradem os leitores deste espaço, que está meio atirado por absoluta falta de tempo, mas não por falta de vontade. Pois vontade sobra e estamos prontos para atravessar o rubicão com as palavras que preparamos para cumprir nosso destino. Nós, brasileiros, somos assim, por isso somos os melhores.
18 de janeiro de 2004
CHUVAS DE VERÃO II
O filme perfeito não me sai da cabeça. Continuo hoje o que comecei ontem neste espaço e abordo a solidão, que ocupa, na obra-prima de Cacá Diegues, um lugar de honra. E faço também um resgate pessoal de outros trabalhos de cineastas da minha preferência, para que possamos ver a paisagem cinematográfica brasileira com sua verdadeira diversidade e competência, que chega muitas vezes no raro patamar da genialidade.
CONFISSÕES DO ISOLAMENTO - “Passei a vida inteira trabalhando em troca de uma caneta dourada. O que fiz da minha vida?”, diz o aposentado interpretado por Jofre Soares (quem pode esquecê-lo em “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, filme maior de Roberto Santos, onde outro grande ator, Leonardo Villar, faz História?)
- “O senhor me desculpe, mas acho que me fodi na vida”, diz a senhora muito antiga, concertista de piano que se desespera diante da inutilidade da sua trajetória e grava sua performance para que futuros netos (que não virão, já que seu filho escolheu como esposa uma velha atriz decadente de teatro de revista) possam apreciá-la.
- “As crianças são a única alegria da minha vida e só faço apresentações para manter a forma”, diz o palhaço aposentado e pedófilo, interpretado por Rodolfo Arena.
- “Eu também preciso ganhar a vida”, diz Juracy, criação do impiedoso Paulo César Peréio, o ator fundamental do cinema brasileiro, quando tenta justificar sua deduragem.
- “Declama aquele poema do brinde, que me emociona tanto”, diz para sua noiva o personagem Paulinho, o adolescente tardio que não sai da escola para não enfrentar a vida.
- “Eu queria ter aquele filho. Mas a pressão foi enorme. Então decidi me dedicar às minhas irmãs”, diz a solteirona Miriam Pires, momentos antes de provar novamente o orgasmo.
Essas frases revelam a solidão de personagens que jamais se encontram e somam-se ao silêncio desesperado de Marieta Severo depois de descobrir a homossexualidade do marido. “Se eu puder fazer alguma coisa por você”, diz o pai e Marieta devolve para essa frase sem sentido um olhar em pânico e um meio sorriso sombrio.
A apresentação visual da solteirona é revelada pelo súbito mutismo do filme, que estava embrenhado no alarido e no zoom. Quando a enfoca pela primeira vez, afasta o olhar da câmara para colocá-la isolada, na calçada, com suas roupas escuras, seu rosto despedaçado.
- “Estou aposentado, não tenho nada para fazer o dia todo”, diz Jofre Soares, olhando os que passam rumo ao trabalho.
Como viver se você foi jogado fora? E o que rompe o isolamento desses personagens trágicos? Primeiro, a súbita aparição de um bandido, amante da empregada (Cristina Aché) do aposentado, que se esconde na casa dele para ser descoberto por Juracy. A busca da polícia alvoroça a rua e agrega as pessoas em torno da tragédia. No mesmo tom, a apresentação do palhaço que reúne em sua volta a ingenuidade popular e a alegria das crianças – contraponto do cerco que o artista faz a uma menina – resulta numa cena que descamba para a ameaça da violência sobre a festa coletiva. O bar onde se encontram os homens sem nada a fazer, fracassados de seus sonhos (como o ex-jogador de futebol que quebrou a perna em dois lugares), é um antídoto para esse cerco de solidão que cai irredutível sobre cada um.
Mas a esperança – que é a salvação possível, a cura da ressaca provocada pelo horror – dá-se pela coragem de enfrentar as dificuldades. A redescoberta do sexo na terceira idade, a auto-entrega do culpado diante da polícia, o carinho pela família, a aceitação do inevitável são remédios que curam de verdade, mesmo que essa cura seja provisória. O filme nos emociona porque não nos pede licença, nos coloca contra a parede mas não tira proveito disso. Ao contrário, nos entrega uma obra de referência, a quem devemos fazer uma visita periodicamente, assim como devemos reler os clássicos.
TODOS OS DOMINGOS DO MUNDO – Assim como Matraga, de Roberto Santos (o cineasta de morreu de um ataque cardíaco depois de um festival de Gramado, onde não recebeu prêmio algum), temos, em Todas as Mulheres do Mundo e Edu, Coração de Ouro, de Domingos de Oliveira, outros exemplos de filmes perfeitos. Anexo à lista São Paulo S.A. (obra-prima absoluta) e O Caso dos Irmãos Naves, de Luiz Sérgio Person e O Assalto ao Trem Pagador, de Roberto Farias. Além, é claro, de O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, Os Fuzis, de Ruy Guerra, Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe , de Glauber Rocha. Mas estes são por demais conhecidos e incensados. Nem precisa lembrar o que são – obras-primas brasileiras que deslumbraram o mundo. Só queria chamar a atenção para meus filmes nacionais favoritos que não costumam ganhar o mesmo tipo de admiração e carinho.
17 de janeiro de 2004
O FILME PERFEITO
“Chuvas de Verão” (1977), de Cacá Diegues, continua sendo uma obra-prima do cinema nacional. Em cada cena de clássico acabamento, numa trama de grande complexidade e transparência, vemos neste filme maravilhoso quem realmente somos e aprendemos a admirar nossa capacidade de alcançar o mais alto nível da criação cultural. Com essa revelação, resgatamos o país mergulhado dentro de nós. Fica assim mais fácil suportar e entender a carga de realidade que nos desafia e que costumamos ignorar.
MILAGRE – Ao filmar o Rio de Janeiro e deixar de lado a Zona Sul, Cacá Diegues captou o milagre da civilização brasileira, que se estende por vasto território com as mesmas características (“milagre de português”, segundo Paulo Vanzolini). O aposentado que sonha em nada fazer descobre nos vizinhos, amigos e parentes a sombra pesada de uma vida em todos mal resolvida, e por isso mesmo, humana. O admirável é que não há lamentações nesse impacto composto de pedofilia, homossexualismo, deduragem, assassinato. O olhar ao mesmo tempo triste e resignado de Jofre Soares (o ator a quem o Brasil jamais poderá agradecer o suficiente) sabe abrir-se nos momentos mais cruciais, quando a lucidez sobre o horror escancara uma janela para a alegria.
A vida e seus espinhos passam rapidamente como chuvas de verão. O que fica é a tenacidade da sobrevivência, o convívio trepidante entre os despossuídos, a dignidade que prescinde da moral conservadora, a glória da ingenuidade que enfrenta a violência e sai ganhando. Nesta narrativa, desfam grandes eprsonagens interpretados por Miriam Pires,a nudez, a resignação e o desejo da terceira idade; Rodolfo Arena, o palhaço encantador e sinistro; Paulo Cesar Pereio, o comportamento crítico diante da falsa arte por meio de genial caricatura do malandro,entre outros.
A rua de casas que serão demolidas para uma futura obra do metrô é pintada como uma paisagem única, onde a decadência da modernidade superpõe-se à seqüência de cores e formas da tradição pictórica brasileira. Como se os séculos anteriores servissem de amparo para a trama que se desenrola entre paredes velhas, com fotos e cartazes antigos, móveis obsoletos. O corpo humano é moldado por essa paisagem e seus gestos são limitados pela penúria da geografia que o circunda. Torna-se patética a justificativa do palhaço criminoso (Rodolfo Arena) que tenta disfarçar a culpa do estupro com o simulacro de um exercício físico. A imagem da solidão absoluta é o aposentado que leva sua cadeira desconfortável para a calçada numa tentativa de fisgar a vizinha. E a precariedade do caráter revela-se na camisa aberta ao peito de Juracy (Paulo César Pereio, absolutamente impossível na sua genialidade).
CIRCO - Há também camadas superpostas de artes populares, como é o caso da cena do teatro de revista que vira drama de circo de subúrbio. O mais impressionante neste filme antológico é que Cacá, como os grandes romancistas, expõe as feridas mais profundas dos personagens como se estivesse narrando uma anedota. E conta uma história aparentemente banal com todos os elementos do grande teatro. Ali está a relação edipiana entre adolescente tardio e a estrela decadente; a morbidez do velho (Sady Cabral) que tenta descobrir o estado terminal dos amigos; a senhora muito antiga (Lourdes Mayer) que faz revelações pornográficas e consegue rir do seu fracasso; o almofadinha (o magnífico Daniel Filho, ator infelizmente pouco presente no nosso cinema) que conseguiu escapar da miséria e entrega-se a orgias homossexuais; a filha (Marieta Severo) que nunca vê o pai para poder escapar de suas raízes.
Mas não se entenda essa galeria de horrores como uma entrega da obra às facilidades da desgraça. Sem cair no otimismo – que é a esperança pulando o Carnaval – Cacá Diegues aposta na dignidade de uma vida escassa, mas cheia de grandeza. O final, que são as pessoas indo para o trabalho ao som de um chorinho, nos mata de emoção. A solteirona (Miriam Pires) que ao redescobrir o sexo usa sua saia amarela ao voltar para o batente, o operário que antes de pegar o trem é acompanhado pela mulher e filhos fazem parte de um hino camerístico, a majestade informal de uma cultura que soube encontrar sua identidade e deixa sua marca para ser vivenciada e admirada.
SOMOS ASSIM - Dificilmente “Chuvas de Verão” deixará de ser a obra- prima que é. Por ser um filme perfeito, já nasceu clássico. Por ser a soma da nossa coragem, veio para ficar. Por falar a verdade sem nos humilhar, é um amigo eterno. Por nos abraçar sem nos paparicar, faz parte da família. Por isso é muito mais do que um drama ou uma comédia de costumes. A obra não se enquadra em qualquer moldura. É o que temos para mostrar a nós e ao resto do mundo: somos assim. Por isso somos os melhores.
RETORNO - Boa entrevista de Cacá Diegues aqui .
15 de janeiro de 2004
UM AMIGO DA PRIMEIRA INFÂNCIA
O Ano do Livro começa animado e me toma todos os minutos do dia. Minha função é ajudar a viabilizar a publicação de autores dentro e fora das fronteiras. No mesmo embalo, tenho aqui repassado textos que me enviam, para compartilhar o que se passa na cabeça alheia e conectar com memórias e depoimentos de pessoas que estavam perdidas nesse mundão de Deus e que, graças à Internet, chegam para lembrar-nos de onde viemos e de que tipo de material humano somos feitos. Hoje, coloco neste espaço uma surpreendente carta de alguém que foi meu colega nos primeiros anos do primário e com o qual só agora retomo contato.
CARTA DO BRASIL PROFUINDO - "Oi Nei. Desculpe a demora para encontrar em contato com você, mas ontem foi que vi seu recado no portaluruguaiana. Talvez você não lembre mais de mim. Sou Lino Antonio Ulharuso, estudamos juntos no Romaguera Corrêa, éramos muito amigos, sempre ia a sua casa para estudarmos. Estudei com voce até o segundo ano, depois fui para o Reingantz, não sei se você lembra, ficava perto do hospital de caridade. Lembro bem de seus pais, eram gente finissima. Depois que fui estudar em outra escola nos afastamos. Lembro muito de quando faziamos bagunça na aula dona Eva, mandava chamar o Iris (na época prefeito). Ele chegava na janela de nossa sala que ficava na lateral da prefeitura e com aquele vozeirão dele, davanos bronca então ficavamos calados."
ANDANÇAS - "Saí de Uruguaiana em 67 fui morar no Rio, depois joguei futebol na Venezuela, acabei deixando o futebol devido às decepções. Em 1970 fui trabalhar em Recife, me casei por lá morei 23 anos, estou aqui em Brasília desde 1993. Tenho uma filha que vai fazer 19 anos em fevereiro. Hoje trabalho no Comando da Aeronáutica
( sou funcionário civil). Voce é o único de nossa turma do Romaguera que
lembro, pois eramos muito amigos. Não sei se voce lembra de mais alguém
daquela época. Ha 15 anos que não ia a nossa terrinha, estive em março 2003,
gostei muito do que vi, a cidade mais bonita, inúmeros prédios. Meus pais
moravam na Barão do Triunfo (hoje Iris Valls), não sei se você lembra do Palma
(fotógrafo) minha casa ficava ao lado da dele. Minha mãe ainda mora lá.
Que legal que temos um Uruguaianense militando na imprensa. Olha, às vezes
vou a Sampa tenho uma cunhada que mora aí. Soube que o Cabeto Bastos estava morando em Sampa, agora quando estive na terrinha perguntei pelo mesmo e me deram essa informação. Por acaso você sabe onde anda o gordo Jorge?"
FAMÍLIA - "Você me parece que tinha outros irmãos, tem alguem de sua familia morando ainda em Uruguaiana? Que ano você saiu de lá? Quando for a Sampa irei lhe procurar para batermos um papo, pode ser? Nei vou encerrando está com grande alegria em poder manter contato contigo depois de mais de 45 anos, é tão bom a gente poder contatar com amigos que nos foram tão caros na infância. Esatei aguardando sua resposta. Um grande prazer e aquele abraço do amigo. Lino
RETORNO - Meu bom amigo Lino faz assim uma ponte maravilhosa entre o Mundo Perdido e o século 21. Como posso agradecer a ele? Respondendo que fiquei feliz em saber de suas andanças e dizer que, infelizmente, tenho apenas meus pais, irmã e tias lá, mas morando no Outro Lado. Quando estive em Uruguaiana, todos me perguntaram sobre minha família. Meus pais, muito queridos, deixaram sua marca na cidade encantada, e jamais serão esquecidos. Obrigado, Lino, colega do Grupo Esacolar Romaguera Correa (o grande dicionarista do pampa), que estava instalado num prédio - hoje patrimônio histórico e que abriga a Prefeitura Municipal. Cabeto Bastos era nosso colega e mora em São Paulo, onde trabalha na empresa da família dele, o Grupo Ipiranga. Pois pouca gente sabe que o petróleo no Brasil começou em Uruguaiana e não na Bahia. Assunto para outras edições.
CARTA DO BRASIL PROFUINDO - "Oi Nei. Desculpe a demora para encontrar em contato com você, mas ontem foi que vi seu recado no portaluruguaiana. Talvez você não lembre mais de mim. Sou Lino Antonio Ulharuso, estudamos juntos no Romaguera Corrêa, éramos muito amigos, sempre ia a sua casa para estudarmos. Estudei com voce até o segundo ano, depois fui para o Reingantz, não sei se você lembra, ficava perto do hospital de caridade. Lembro bem de seus pais, eram gente finissima. Depois que fui estudar em outra escola nos afastamos. Lembro muito de quando faziamos bagunça na aula dona Eva, mandava chamar o Iris (na época prefeito). Ele chegava na janela de nossa sala que ficava na lateral da prefeitura e com aquele vozeirão dele, davanos bronca então ficavamos calados."
ANDANÇAS - "Saí de Uruguaiana em 67 fui morar no Rio, depois joguei futebol na Venezuela, acabei deixando o futebol devido às decepções. Em 1970 fui trabalhar em Recife, me casei por lá morei 23 anos, estou aqui em Brasília desde 1993. Tenho uma filha que vai fazer 19 anos em fevereiro. Hoje trabalho no Comando da Aeronáutica
( sou funcionário civil). Voce é o único de nossa turma do Romaguera que
lembro, pois eramos muito amigos. Não sei se voce lembra de mais alguém
daquela época. Ha 15 anos que não ia a nossa terrinha, estive em março 2003,
gostei muito do que vi, a cidade mais bonita, inúmeros prédios. Meus pais
moravam na Barão do Triunfo (hoje Iris Valls), não sei se você lembra do Palma
(fotógrafo) minha casa ficava ao lado da dele. Minha mãe ainda mora lá.
Que legal que temos um Uruguaianense militando na imprensa. Olha, às vezes
vou a Sampa tenho uma cunhada que mora aí. Soube que o Cabeto Bastos estava morando em Sampa, agora quando estive na terrinha perguntei pelo mesmo e me deram essa informação. Por acaso você sabe onde anda o gordo Jorge?"
FAMÍLIA - "Você me parece que tinha outros irmãos, tem alguem de sua familia morando ainda em Uruguaiana? Que ano você saiu de lá? Quando for a Sampa irei lhe procurar para batermos um papo, pode ser? Nei vou encerrando está com grande alegria em poder manter contato contigo depois de mais de 45 anos, é tão bom a gente poder contatar com amigos que nos foram tão caros na infância. Esatei aguardando sua resposta. Um grande prazer e aquele abraço do amigo. Lino
RETORNO - Meu bom amigo Lino faz assim uma ponte maravilhosa entre o Mundo Perdido e o século 21. Como posso agradecer a ele? Respondendo que fiquei feliz em saber de suas andanças e dizer que, infelizmente, tenho apenas meus pais, irmã e tias lá, mas morando no Outro Lado. Quando estive em Uruguaiana, todos me perguntaram sobre minha família. Meus pais, muito queridos, deixaram sua marca na cidade encantada, e jamais serão esquecidos. Obrigado, Lino, colega do Grupo Esacolar Romaguera Correa (o grande dicionarista do pampa), que estava instalado num prédio - hoje patrimônio histórico e que abriga a Prefeitura Municipal. Cabeto Bastos era nosso colega e mora em São Paulo, onde trabalha na empresa da família dele, o Grupo Ipiranga. Pois pouca gente sabe que o petróleo no Brasil começou em Uruguaiana e não na Bahia. Assunto para outras edições.
14 de janeiro de 2004
O DESABAFO DA HORA
Corre na Internet um texto sobre a decadência do Brasil e a vontade de resgatar o que perdemos. O texto é de autor desconhecido, segundo quem me enviou a mensagem, meu irmão Elo Ortiz. Repasso na íntegra o que recebi.
MATINÊS - "Fui criado com princípios morais comuns. Quando criança, ladrões tinham a
aparência de ladrões e nossa única preocupação em relação à segurança era a
de que os "lanterninhas" dos cinemas nos expulsassem devido às batidas com
os pés no chão quando uma determinada música era tocada no início dos
filmes, nas matinês de domingo.
Mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos eram autoridades presumidas,
dignas de respeito e consideração. Quanto mais próximos,e/ou mais velhos,
mais afeto. Inimaginável responder deseducadamente a policiais, mestres, aos mais
idosos, autoridades. Confiávamos nos adultos porque todos eram pais e mães
de todas as crianças da rua, do bairro, da cidade. Tínhamos medo apenas do
escuro, de sapos, de filmes de terror.
Hoje me deu uma tristeza infinita por tudo que perdemos. Por tudo que meus
filhos um dia temerão. Pelo medo no olhar de crianças, jovens,velhos e
adultos. Matar os pais, os avós, violentar crianças, seqüestrar, roubar,
enganar, passar a perna, tudo virou banalidades de notícias policiais,
esquecidas após o primeiro intervalo comercial.
Agentes de trânsito multando infratores são exploradores, funcionários de
indústrias de multas. Policiais em blitz são abuso de autoridade.
Regalias em presídios são matéria votada em reuniões.
Direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos
honestos.
Não levar vantagem é ser otário. Pagar dívidas em dia é bancar o bobo,
anistia para os caloteiros de plantão. Ladrões de terno e gravata,
assassinos com cara de anjo, pedófilos de cabelos brancos. O que aconteceu
conosco?
Professores surrados em salas de aula,comerciantes ameaçados por
traficantes, grades em nossas portas e janelas.
Crianças morrendo de fome, gente com fome de morte. Que valores são esses?
Carros que valem mais que abraço, filhos querendo-os como brindes por
passar de ano. Celulares nas mochilas dos que recém largaram as fraldas.
TV,DVD, telefone, vídeo-game, o que vai querer em troca desse abraço, meu
filho?
DIGNIDADE - Mais vale um Armani do que um diploma. Mais vale um telão do que um papo. Mais vale um baseado do que um sorvete. Mais vale dois vinténs do que um
gosto. Que lares são esses? Bom dia, boa noite, até mais. Jovens ausentes,
pais ausentes, droga presente e o presente uma droga. O que é aquilo?
Uma árvore, uma galinha, uma estrela.
Quando foi que tudo sumiu ou virou ridículo?
Quando foi que esqueci o nome do meu vizinho?
Quando foi que olhei nos olhos de quem me pede roupa, comida, calçado sem
sentir medo?
Quando foi que fechei a janela do meu carro?
Quando foi que me fechei?
Quero de volta a minha dignidade, a minha paz.
Quero de volta a lei e a ordem, a liberdade com segurança.
Quero tirar as grades da minha janela para tocar as flores.
Quero sentar na calçada e ter a porta aberta nas noites de verão.
Quero a honestidade como motivo de orgulho.
Quero a retidão de caráter, a cara limpa e o olho no olho.
Quero a vergonha, a solidariedade e a certeza do futuro.
Quero a esperança, a alegria.
Teto para todos, comida na mesa, saúde a mil.
Não quero listas de animais em extinção.
Não quero clone de gente, quero cópia das letras de música, cultura e
ciência.
Eu quero voltar a ser feliz!
Quero dizer basta a esta inversão de valores e ideais.
Quero mandar calar a boca de quem diz "a nível de", "enquanto pessoa",
"visa resgatar".
Quero xingar quem joga lixo na rua, quem fura a fila, quem rouba, quem
ultrapassa a faixa, quem não usa cinto, quem não dignifica meu/seu voto.
Quero rir de quem acha que precisa de silicone, lipoaspiração,dieta,
cirurgia plástica, carro zero, laptop, bolsa XYZ, calça ZYX para se sentir
inserido no contexto ou ser "normal".
O SER PERDIDO - Abaixo o "TER", viva o "SER"!
E viva o retorno da verdadeira vida, simples como uma gota de chuva, limpa
como um céu de abril, leve como a brisa da manhã! E definitivamente comum,
como eu.
ADORO O MEU MUNDO SIMPLES e COMUM.
Vamos voltar a ser "gente"? Ter o amor, a solidariedade, a fraternidade
como base.
A indignação diante da falta de ética, de moral, de respeito...
Discordar do absurdo. Construir sempre um mundo
melhor, mais justo, mais humano, onde as pessoas respeitem as pessoas.
Utopia? Não... se você e eu fizermos nossa parte e contaminarmos mais
pessoas, e essas pessoas contaminarem mais pessoas... hein?!
Quem sabe?...
Por um mundo mais humano !!!"
(Texto de autoria de Sara Maria Binatti dos Anjos)
RETORNO - Reproduzo aqui a mensagem que identifica a autoria do texto: "O texto tem o título original "Reflexões" e é de autoria de Sara Maria Binatti dos Anjos. Este texto é devidamente registrado na Biblioteca Nacional através do EDA (Escritório de Direitos Autorais) de Porto Alegre. Solicitamos citar o título e a autoria . Obrigado. Dr. Antonio Carlos Carvalhal
12 de janeiro de 2004
UM OUTSIDER EM PLENA FORMA
Um dos mais queridos e importantes jornalistas da minha geração, Jary Cardoso, colocou preto no branco o filé da cultura brasileira desde os anos 60. Agora me escreve um depoimento sobre suas andanças profissionais. Vale a pena fazer uma visita ao nosso amigo, que trocou sua São paulo por Salvador, e lá enfrenta todas as barras do jornalismo, com a serenidade de quem aprendeu muito e tem muito a dizer.
NAQUELE TEMPO - "Quando comecei oficialmente na profissão, com carteira assinada, no início de 69 em Porto Alegre - Zero Hora, com Marcão, e Sucursal da Abril, com Totti -, trazia o espírito acadêmico da Maria Antonia, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP - cursos iniciados e não concluídos de Filosofia Pura, Psicologia, Letras, Economia, militando num grupo de intelectuais revolucionários, também ligados à USP, a Polop, onde me tornei dirigente nacional e editava o Informe da Política Operária, me iniciando na prática no jornalismo - e, então, em Porto Alegre incorporei o espírito acadêmico ao jornalismo, sempre me interessando pelo lado teórico e vanguardista da prática jornalística, e me lembro qdo o Alberto Dines foi a Porto Alegre (na PUC?) fazer palestra sobre jornalismo impresso confrontado com a força visual da TV, eu tava lá na primeira fila ouvindo-o com muita atenção. E tem sido assim, naquela época ligado nas reformas implantadas anos antes pelo JB e depois pelo JT, e mais tarde militando na imprensa alternativa, construindo uma ideologia do jornalismo artístico e revolucionário. Até mantive por muitos anos o projeto de um livro sobre a imprensa alternativa, e cheguei a ouvir muita gente, entre outras, Maciel, Jaguar, até o Tarso foi em casa e escreveu na minha Olivetti portátil duas laudas sobre a verdadeira história da fundação do Pasquim, laudas guardadas como um tesouro querido. E aí eu tava sossegado aqui na Bahia, sossegado no sentido mental de qualidade de vida, mas trabalhando muito, pois aqui se precisa trabalhar muitas horas mais pra se ganhar muito menos do que aí em horas normais."
CHEGA O FURACÃO - "Mas eu tava sossegado, sem inquietações, tocando burocraticamente o meu ganha-pão qdo eis q de repente surge no pedaço um louco e visionário do jornalismo: Ricardo Noblat, q dirigiu a Redação de A Tarde por 10 meses e já se picou. Mas qdo ele chegou, mexeu fundo comigo, foi um terremoto na Redação e me senti renascendo para a causa jornalística. Noblat é realmente um líder forte, embora estúpido demais, mas prefiro mil vez toda a estupidez dele do q o marasmo dos burocratas. O período de Noblat deu seqüência e radicalizou o projeto já em andamento da Mediacción/Universidade de Navarra, cuja consultoria havia sido contratada pelo jornal, e o Noblat era um dos palestrantes do Curso Master de Jornalismo p/ Editores, q vários colegas do jornal cursaram em São Paulo e cada vez q voltavam do curso me davam entrevista para A Tardinha - house organ de A Tarde do qual sou editor. E os caras de Navarra davam palestra no jornal e eu como sempre tava lá na primeira fila, e o Noblat chegou sistematizando e radicalizando tudo isso, e chegou com um livro sobre a Arte do Jornalismo Diário, q devorei imediatamente. E de repente todos os cobras brigaram com os donos do jornal e Noblat e Navarra se picaram. E eu tô de volta ao rame-rame. Às vezes me dá vontade de rodar a baiana e sair brigando com todos q nem o Noblat pra fazermos um trabalho de qualidade em equipe, mas tudo depende da boa vontade dos patrões, ou seja, não dá pé. Na verdade não tenho tanta paixão assim pelo jornalismo do Sistemão, sinto no fundo q é tudo mentira. Me lembro das minhas incursões como repórter de Local no Estadão. Qdo voltava à Redação pra escrever a matéria, tinha a nítida sensação de q eu tava inventando uma história: aquilo q eu havia colhido como repórter podia ser visto e contado de mil ângulos diferentes, e eu acabava encaixando a forceps "fatos" escorregadios dentro do padrão de realidade implícito no Manual de Redação q eu tanto exercitara como copy-desk. É uma das maneiras de se descrever o mundo, como dizia o brujo Dom Juan. Então hoje continuo ligado em coisas como os sites Comunique-se e Observatório da Imprensa, mas continuo também um outsider: no fundo não tenho nada a ver com tudo isso."
CITAÇÃO - "Me identifico mesmo é com isto:
"O homem comum acredita em tudo o que lê nos jornais ou vê na TV como se fosse a expressão rigorosa da realidade objetiva. É óbvio, à mais superficial análise, que não é assim. A imagem que a mídia oferece da realidade é cada vez mais distorcida, não só porque serve a interesses específicos, mas, mais grave do que isso, porque também reflete e propaga o nosso excessivo grau de alienação coletiva". ("Sobre a Imprensa", in "As Quatro Estações", de Luiz Carlos Maciel)
RETORNO - Jary Cardoso foi aquele cara que encontrei na redação da Zero Hora em 1969. Pouco falava, mas quando me segredava coisas, era direto e de grande impacto. Foi ele quem me extraiu o primeiro lead forte da minha vida profissional. Batalhou, reagi bem e ele elogiou. Reencontrei-o mais tarde, na Ilustrada e no Folhetim, de Tarso. Foi quando ficamos amigos.
11 de janeiro de 2004
O CÍRCULO DE GIZ DA AMÉRICA
O cinema é a prisão do imaginário americano. Melhor: é o reflexo, ou subproduto, da percepção fechada sobre a própria fronteira mental, que é muito mais sólida e perene do que a fronteira física pois, ao contrário desta, trabalha com a inclusão para que tudo permaneça inalterado. Nada escapa a esse círculo, mesmo quando se trata dos seus mais brilhantes diretores, seus maiores atores, seus melhores filmes. Vencer e perder ou fazer o que se deve fazer são os clichês dessa inflexível Parca Átropos (a deusa grega responsável por cortar o fio da vida) tornada, pela repetição, inevitável.
MYSTIC RIVER – O filme de Clint Eastwood “Sobre Meninos e Lobos” é, segundo ele, sobre a perda da inocência, mas prefiro dizer que é sobre a costura possível dessa cultura americana na época em que tudo desmorona – e intensifica a necessidade da sobrevivência. Agulha e linha, neste caso, não fluem diretamente só do roteiro, mas da postura de toda a obra. Não existe traição à pátria, consentida pela cultura, nos Estados Unidos. O Império não tolera defecções. Obrigatoriamente, estejam onde estiverem seus personagens, tenham ou não cometido o mais hediondo dos crimes, estará lá de plantão, batida pelo vento, altiva ou murcha, a bandeira do país tremulando na tela. Pois o crime maior é negar a América, portanto tudo cabe na teia tecida pela segunda Parca, Lachesis, responsável pelo destino, a duração e as ações da vida. Já que todos obedecem à primeira Parca, Clotho, que manobra com o nascimento, já que todos pertencem ao mesmo mundo fechado, o que qualquer filme feito nos Estados Unidos se preocupa é o lugar ocupado pela América. No caso de Clint, fica na ação, não na moral, fica no fazer, não no refletir, fica no presente, jamais na memória. A América se constrói todos os dias e para essa árdua tarefa é preciso que o homem seja o rei da sua família, a mulher o apóie, seja qual for o crime do marido, e os filhos não se desencaminhem, mesmo que tenham passado pela ruptura ocasional do relacionamento familiar. A maldição é para os perdedores: os que não conseguem chegar ao fim de suas ações (como a vítima Dave, que escreveu apenas as primeiras letras do seu nome no cimento fresco). Prisioneiros do destino, os americanos só podem escolher o inevitável: reconhecer que os perdedores caíram na armadilha e que para vencer é preciso perseverar, mesmo que seja necessário mentir, matar, roubar. Encontramos essa inevitabilidade em Os Imperdoáveis. Tudo o que contraria essa lei faz parte da cultura alienígena, que na maioria das vezes, é o catolicismo.
MEDO DA CRUZ - Os americanos temem a Igreja Católica e este filme de Clint mostra a dimensão desse pavor. Eu achava que eles simplesmente a desprezavam, pois costumam sempre debochar da cruz em todos os seus filmes. O filme cumpre a escrita e identifica o catolicismo com o Mal. Mas, mesmo marcado com a cruz tatuada nas costas, o líder familiar (Sean Pen, excepcional) assume seu papel na América, onde não há espaço para arrependimentos. Não é que a ação tudo justifique, a ação é a única lei, e ela precisa estar orientada para a costura do país, que experimenta uma fase de Queda absoluta. Nada existe fora do fazer, do verbo. Para isso, Clint usa a qualidade teatral de seus magníficos atores (como Tim Robbins, no papel do adulto Dave que fica confuso diante das manifestações do Mal, ou Kevin Bacon, um carismático e clássico investigador da Polícia). O rosto de Tim é a decadência física da América, assim como as ruas e prédios da cidade exausta. A liquidez dos gestos de Kevin e a solidez física de Sean fazem parte da América que pega o touro a unha. No roteiro enxuto, na composição visual perfeita, sobra justiça para Lawrence Fishburne, que livra-se de sua pretensiosa interpetação em Matrix e comporta-se sob o tacão de mestre Clint. Se "Na Linha de Fogo" pátria era elegância, em Mystic River a América é uma sobrevivente, que reitera sua cultura na parada escolar, apoteose da vitória, bem o oposto da primeira comunhão da irmã da moça assassinada, quando os dois eventos – morte e eucaristia – coincidem. O valor do filme é revelar os limites desse círculo mental que oprime a América e o mundo. Tudo está por um fio. Talvez tenham que chamar de volta Dirty Harry para recolocar as coisas no eixos.
O rio místico é a metáfora do mito fundador da nação. Ele lava os crimes em nome de um destino maior. Nada mais criminoso, mas nas mãos de Clint Eastwood, nada mais brilhante.
LINHO BRANCO NA CIDADE ANTIGA
Todo dia era dia de solidão. Colocar a roupa branca de linho, passar uma escova no sapato, pentear o cabelo, sair olhando para os lados. Quatro quarteirões me separavam do cinema e da praça. Ainda era cedo para o footing. Podia pegar um filme. Quando não estava lotado, entrava já com a sessão adiantada. Sentava só, numa poltrona no fundo, ou “lá em cima”, longe da tela e perto do projetor.
SORTE - Depois da sessão, saía junto com um rio de gente. Meus irmãos tinham partido, as irmãs casado, os irmãos menores estavam perto, mas distantes. Os amigos se dispersaram. Punha as mãos no bolso e tentava a sorte. Passava pelo corredor entre os bancos e os carros parados. Cumprimentava alguém, todos enturmados. Eu andava pela praça, passava para a quadra seguinte (que hoje é um calçadão), ia direto para ver a vitrine da casa Jacques (que agora vai ser shopping) e terminava no Campana, que um dia tinha sido do meu tio Nico, único irmão da minha mãe. Era um enorme restaurante, com inúmeras mesas, todas com o açucareiro em cima, pois serviam cafezinho não só no balcão, serviço feito por garçons uniformizados. Antes dessa fase de solidão (já tinha uns 16 anos), quando era pequeno, íamos ao Campana tomar guaraná, crush, soda laranja, sorvete e picolé. Eram os verões gloriosos dos anos 50. Do flerte com as gurias mais bonitas. A perseguição física aos amores jamais correspondidos. Mexíamos com alguém e saíamos correndo. Às vezes, para casa.
Mas agora eu estava muito alto e muito grande para fazer essas coisas. Voltava do Campana com um giro nos calcanhares. Decidia então atravessar a praça na diagonal. Lá estava a estátua do Barão (que vi recentemente, com a mesma imponência, um Rio Branco imortal num pedestal de mármore naquela região da fronteira), a Branca de Neve com os anões, a pontezinha sobre o lago onde um dia haviam patos. A praça estava lotada, mas eu continuava só.
TURMAS - Decidia então parar na passarela do footing para ver as meninas de mãos dadas que passavam. Mas passavam também as turmas, as do violão, as do que capotam (filhinhos de papai que tinham carros), a dos que tomavam grandes fogos e a dos chatos. Estes, estavam também sempre sós, mas eu já tinha aprendido a me livrar deles. Quem se cria em cidade pequena não tem chance de se esconder. Precisa enfrentar a barra da humana presença cara a cara. Ou você tolera ou expulsa. Aprendi cedo a dizer não. Mas quando a solidão batia, sempre tinha jeito de escutar histórias intermináveis sobre a segunda guerra mundial (assunto que sempre detestei), sobre músicas sem importância. Muitas vezes, sentava eu quieto no canto do quiosque para tomar uma interminável coca-cola geladíssima. Ocupava a mesa por mais de uma hora. O dinheiro dava só para um refrigerante. Os garçons não gostavam. De lá, acompanhava as decepções: aquela garota que eu estava de olho sucumbia diante do charme de alguém. Desistindo do passeio monótono, passava em frente ao Clube Comercial. Lá estava o eterno porteiro, a olhar feio para a classe média para baixo. Como meu pai era sócio, às vezes eu forçava a barra e entrava, peitando a má vontade do porteiro, pois eu não me vestia adequadamente.
- Sempre branco, me diziam. Eu vestia linho, o mesmo todo dia. O cabelo curto, o corpo curvado . Chegava em casa, estava praticamente vazia. Tudo tinha ido embora. Chegava minha vez também de partir. Tendo completado o segundo científico, me preparava para ir à capital tentar o vestibular. Levaria ruas percorridas sem amigos, levaria meus sapatos pretos, minha calça de brim coringa (o jeans antigo), minhas blusas de lã, minha campeira (o casaco grosso que enfrentava o inverno que estava por chegar). Logo logo despontaria março e voltariam as aulas, quando enfim, teria chance de conviver com bastante gente. O verão era o deserto daquele fim de adolescência. Eu já era muito antigo, já tinha tido uma vida inteira na cidade que me vira crescer.
Quando chega o verão, minha memória passeia pelas largas calçadas. Um assobio insistente de outro solitário, longe. Risadas em frente de alguma casa. O barulho dos passos às onze da noite. O céu muito estrelado.
O Cruzeiro do Sul despencava como uma flecha em direção ao rio.
Eu já estava pronto. Tinha virado adulto. Mas levaria a criança que insistia em caminhar raspando a sola do sapato na calçada. Ou, como fazia um irmão meu, raspando o lado esquerdo do sapato no canto da parede das casas (que ficam rentes, grudadas nas calçadas).
Um dia, ele deu um chute num monte de moedas, perdidas por ali.
É assim o passeio de verão: um golpe de sorte e você está de novo no centro do mundo.
SORTE - Depois da sessão, saía junto com um rio de gente. Meus irmãos tinham partido, as irmãs casado, os irmãos menores estavam perto, mas distantes. Os amigos se dispersaram. Punha as mãos no bolso e tentava a sorte. Passava pelo corredor entre os bancos e os carros parados. Cumprimentava alguém, todos enturmados. Eu andava pela praça, passava para a quadra seguinte (que hoje é um calçadão), ia direto para ver a vitrine da casa Jacques (que agora vai ser shopping) e terminava no Campana, que um dia tinha sido do meu tio Nico, único irmão da minha mãe. Era um enorme restaurante, com inúmeras mesas, todas com o açucareiro em cima, pois serviam cafezinho não só no balcão, serviço feito por garçons uniformizados. Antes dessa fase de solidão (já tinha uns 16 anos), quando era pequeno, íamos ao Campana tomar guaraná, crush, soda laranja, sorvete e picolé. Eram os verões gloriosos dos anos 50. Do flerte com as gurias mais bonitas. A perseguição física aos amores jamais correspondidos. Mexíamos com alguém e saíamos correndo. Às vezes, para casa.
Mas agora eu estava muito alto e muito grande para fazer essas coisas. Voltava do Campana com um giro nos calcanhares. Decidia então atravessar a praça na diagonal. Lá estava a estátua do Barão (que vi recentemente, com a mesma imponência, um Rio Branco imortal num pedestal de mármore naquela região da fronteira), a Branca de Neve com os anões, a pontezinha sobre o lago onde um dia haviam patos. A praça estava lotada, mas eu continuava só.
TURMAS - Decidia então parar na passarela do footing para ver as meninas de mãos dadas que passavam. Mas passavam também as turmas, as do violão, as do que capotam (filhinhos de papai que tinham carros), a dos que tomavam grandes fogos e a dos chatos. Estes, estavam também sempre sós, mas eu já tinha aprendido a me livrar deles. Quem se cria em cidade pequena não tem chance de se esconder. Precisa enfrentar a barra da humana presença cara a cara. Ou você tolera ou expulsa. Aprendi cedo a dizer não. Mas quando a solidão batia, sempre tinha jeito de escutar histórias intermináveis sobre a segunda guerra mundial (assunto que sempre detestei), sobre músicas sem importância. Muitas vezes, sentava eu quieto no canto do quiosque para tomar uma interminável coca-cola geladíssima. Ocupava a mesa por mais de uma hora. O dinheiro dava só para um refrigerante. Os garçons não gostavam. De lá, acompanhava as decepções: aquela garota que eu estava de olho sucumbia diante do charme de alguém. Desistindo do passeio monótono, passava em frente ao Clube Comercial. Lá estava o eterno porteiro, a olhar feio para a classe média para baixo. Como meu pai era sócio, às vezes eu forçava a barra e entrava, peitando a má vontade do porteiro, pois eu não me vestia adequadamente.
- Sempre branco, me diziam. Eu vestia linho, o mesmo todo dia. O cabelo curto, o corpo curvado . Chegava em casa, estava praticamente vazia. Tudo tinha ido embora. Chegava minha vez também de partir. Tendo completado o segundo científico, me preparava para ir à capital tentar o vestibular. Levaria ruas percorridas sem amigos, levaria meus sapatos pretos, minha calça de brim coringa (o jeans antigo), minhas blusas de lã, minha campeira (o casaco grosso que enfrentava o inverno que estava por chegar). Logo logo despontaria março e voltariam as aulas, quando enfim, teria chance de conviver com bastante gente. O verão era o deserto daquele fim de adolescência. Eu já era muito antigo, já tinha tido uma vida inteira na cidade que me vira crescer.
Quando chega o verão, minha memória passeia pelas largas calçadas. Um assobio insistente de outro solitário, longe. Risadas em frente de alguma casa. O barulho dos passos às onze da noite. O céu muito estrelado.
O Cruzeiro do Sul despencava como uma flecha em direção ao rio.
Eu já estava pronto. Tinha virado adulto. Mas levaria a criança que insistia em caminhar raspando a sola do sapato na calçada. Ou, como fazia um irmão meu, raspando o lado esquerdo do sapato no canto da parede das casas (que ficam rentes, grudadas nas calçadas).
Um dia, ele deu um chute num monte de moedas, perdidas por ali.
É assim o passeio de verão: um golpe de sorte e você está de novo no centro do mundo.
8 de janeiro de 2004
A RONDA DOS BICHOS E O CÉU DO VERÃO
Os bichos imprimem o desenho dos teus hábitos. Estão próximos demais para serem ignorados. Os predadores domesticados te cercam, os selvagens acasalados te espiam, os habitantes de paragens remotas te sobrevoam. Penas, asas, patas, focinhos, olhos fundos a te enxergar a alma. Eles estão conosco e repartem mais do que água e comida. Partilham o planeta, que longe do tráfego, sabe ser quieto, majestoso, indecifrado.
CORUJAS - No terceiro dia de nossa estadia, uma das corujas chegou até a cerca e pousou, perto da varanda, dando um guincho. Era o sinal mais explícito de sua presença, de seu domínio. Segundos depois, estourou uma bomba com som de canhão. O sujeito deu um sobressalto, mas não levantou vôo. Continuou firme, nos espiando. Mora com sua parceira ou parceiro no terreno baldio em frente, ao lado da plantação de milho, que já está meio troncha pelo calor, falta de água e cuidados, cercada de mato ralo impertinente. O casal faz a ronda e ataca em rasantes os grandes cachorrões que ousam aproximar-se do ninho, feito no chão. Quando explodiu a bomba e Os-Grandes-Olhos continuou no local, firmemente plantado no mourão do muro, dei meu grito de guerra, que inventei neste verão:
- Viva a Marinha do Brasil!
Dizem que é mais uma bobagem que tirei do baú, mas o bordão me acompanhou por toda a virada desse ano novo. Imaginei uma escola de navegação em cada cidade do litoral, para massificar uma prática numa civilização das águas. Imaginei milhões de toras de madeira de lei apreendidas pelo Ibama serem transformadas em barcos novos para pescadores e amadores e o turismo em geral. Imaginei um país que planeja o grande fluxo migratório de volta ao litoral – pois é de lá que viemos, quando arranhávamos as costas, nos dizeres do nosso primeiro historiador, Frei Vicente de Salvador (ele falava em portugueses, mas dá no mesmo). É esse o sentido da grande massa que despenca para as praias: resgatar nossas raízes sobre as areias, a visão primeira do paraíso, longe do inferno terreal do interior. Somos índios a olhar o horizonte em busca de navios, somos soldados portugueses a saudar a Marinha, estamos na plataforma do Brasil que olha o mundo, diante do mar profundo e azul turquesa da nossa costa sem fim. Planejar essa migração, com local adequado para todos, para que não se atroplem, não sejam explorados, saibam navegar, eis o meu sonho deste início de 2004, enquanto o casal de corujas me observava.
GAIVOTAS, CACHORRO - Rodeando por todo o canto, a palavra gaivota, que dá nome a avenidas, pousadas, bares e restaurante. A majestade do pássaro maior das nossas praias, a disputar território aéreo com urubus, bem-te-vis e picapaus. A conviver com os poucos barcos dos pescadores que restaram, no canto de algumas praias, em comunidades despossuídas de terras que a especulação imobiliária pegou, afundadas nas dunas, para depois serem expulsos de lá em nome da “preservação ambiental”. Enquanto isso, postes de luz fincam-se firmes na areia movediça e tudo é permitido no litoral, onde se coloca carros em cima do dorso de Netuno, o deus exangue. Mas a barbárie fica a alguns quilômetros. Aqui, a vida é outra. Acho que não terei a oportunidade de testemunhar um evento que deve ocorrer em breve: a visita do cocker Nick ao mar, que desde que chegou na praia, ele pressente que existe. As pessoas saem pesarosas, com os rostos caídos e voltam radiantes, molhadas e salgadas. Ele cheira e desconfia. Algo enorme esconde-se pra lá do horizonte, perto das montanhas, quem sabe. Mas é cedo. Ele ainda se recupera da travessia do país num edredon no banco de trás do carro, tremendo sem parar num dia de Natal, para poder ficar agora escondido em algum canto da grama do quintal. Ele sonha com a noite do dia 24 de dezembro, quando em Curitiba fez de tudo, desde verter água em todas as plantas do hotel, e até mesmo cair, na manhã seguinte, com cinco graus de temperatura mínima, em plena piscina, obrigando seus donos a uma delicada operação de salvamento. A longa jornada do cocker em direção ao mundo muito maior do que ele imaginava é a saga que levou Nick para um lugar onde ele agora cheira tudo, observa tudo e já começa a latir para os que passam, pois seu território começou a ficar firmemente demarcado.
Só não pode chegar perto das corujas, que elas não deixam. Nem alcançar as gaivotas, que estão muito acima do que um pobre cão pode viver ou pensar.
ASTRONOMIA POPULAR - Enquanto isso, diante do céu estrelado, o poeta explica para seus filhos a existência das improváveis Três Joaninhas, uma carreirinha de estrelas apagadas que estão perto das Três Marias e que, desconfio, só existiam porque Tia Ceci um dia nos disse que elas estavam lá. E estão mesmo!
A astronomia popular de Uruguaiana sobe aos céus da ilha encantada. Ouve-se mais um tiro de canhão:
- Viva a Marinha do Brasil! grito, sem nenhum freio.
Tem gente que sacode a cabeça, achando estranho.
Mas há verões e verões. Este fica na história.
20 de dezembro de 2003
AVENTURA COM FINAL FELIZ
A libertação de Trolé desencadeou uma série de acontecimentos que culminaram com uma tropa de blogueiros invadindo a cobertura de Mr. Toth e seu fiel Radoc. O final dessa história de Natal, que me foi soprada via e-mail pelo Editor da Fronteira, encerra a segunda fase do Diário da Fonte. Podemos voltar a qualquer instante.
CERCO E INVASÃO - “Gim Tones tinha me informado que descobrira um furo na aparente carcaça de Mr. Toth: ele se deixava dominar pelas imagens. Era um vício, não conseguia se desprender delas. Por isso tinha inventado um clone, para fazer o serviço sujo, enquanto babava em frente das reproduções gigantescas de fotos do Hélcio. Adelino Nazario, que é do ramo, propôs que se fizesse imediatamente uma invasão na cobertura, inundando o cientista maluco com as mais variadas fotos de São Paulo e do povo brasileiro, pois ele fatalmente iria sucumbir diante da imensidão daquelas imagens cheias de luz. Pois Mr. Toth odiava cores, gostava mesmo era do sépia, nem o preto e branco suportava. Por isso mantinha Radoc grudado na parede, assim as fotos de Helcio ganhavam um tom amarronzado insuportável.
Decidimos pegar carona até o prédio sinistro no carro de Ms. Agrella, que dera falta de Hélcio e não entendia porque não respondia aos seus telefonemas. Sabedora da tragédia, encheu o bagageiro com suas fotos fantásticas de Sampa e das estradas por onde andou. Nazario levou sua seqüência sobre o Copan. Eu decidi levar algumas fotos clássicas de Marcelo Min, pois imaginava que poderia atrair o grande fotógrafo de dentro da criatura do Mal com suas próprias imagens. Chegamos lá e vimos o prédio todo coberto de luzes em cores que variava do azeite escuro ao roxo vivo. Radoc!, pensei, pois sabia que aquilo era manifestação do Inominável. Ele estava brincando de Papai Noel, talvez para obedecer Mr. Toth e atrair gente para o covil, se bem que essa não fosse sua verdadeira natureza. Tiramos a muamba fotográfica de dentro do carro e subimos as escadas, que despencavam corrimões e degraus com aquele tropel de gente. A porta, como sempre estava aberta. Ms. Agrella desenrolou logo sua foto sobre o centro de Sampa, onde prédios antigos pontificavam sobre um céu azul, além de fotos de parques e de gente e foi jogando em cima da criatura. Mas essa era um clone e não atendia a estímulos externos. Adelino não teve dúvida e desferiu uma porrada no falso cientista, que ainda estava debruçado sobre a perna indecifrável de um inseto. Era o que pensava: o clone era apenas de papelão e tinha sido posto lá para impressionar os visitantes. Mr. Toth não tinha poder de clonar nada nem ninguém. Descobriram o covarde dentro do armário, já cobrindo os olhos com a luz que vinha das reproduções coloridas de Adelino e Agrella.
- Sai daí, peste, gritou Adelino, dando-lhe um safanão.
Radoc interviu transformando-se numa gosma e atirou-se às fotos para que elas perdessem o brilho. Era o fim? Gim Tones então lembrou-se que outra coisa insuportável para Mr. Toth era a literatura. Começou a recitar suas Memórias Póstumas aos gritos, e quanto mais avançava no ritmo, mais Mr. Toth se desmanchava. E ele parecia sumir numa fumaça escura, de onde vislumbravam-se duas silhuetas bastante conhecidas.
Eram Hélcio e Min, exaustos de ficarem naquele calabouço. Gim deu um safanão e tirou Min da fumaça, mas não se cumprimentaram. Algo havia entre eles. Hélcio caiu nos braços de Mrs. Agrella. Ouviu-se então um estrondo e todos saíram correndo escada abaixo. Lá fora, um grupo de demolidores preparavam-se para a ação:
- Vamos explodir essa porra, disse o chefe dos operários.
- Por quê? perguntou o incansável repórter Gim.
- Porque é Natal, caralho!
Antes da bomba explodir, chegou Trolé com Anabela na garupa. E mais o trio de especialistas, Daniduc, Pablo e RBP.
- Uma coisa eu não entendi, perguntou Gim. Se Mr. Toth sabia que a Internet tinha fim, porque ficou perdido quando vocês colocaram a moto lá?
- Ele sabia e queria usar isso para fazer sua maluquice, colocar todo o conteúdo da Internet na cabeça de um alfinete, numa espécie de anti-big-bang, explicou Pablo. Mas é um covarde e não chegava lá nunca, porque também sabia que não poderia dominar nada num lugar como esse, que parece plausível, mas é uma bobagem, pois nenhum site é um beco sem saída. Internet é a liberdade.
O trio bateu mutuamente as mãos espalmadas, contentes com a resposta de Pablo. Gim olhou desconfiado:
- Acho que vou moer vocês com novas perguntas.
- Pelo ICQ, disse RBP. Pelo ICQ.
O prédio então explodiu e uma grande fumaça de todas as cores levantou vôo na noite gloriosa de dezembro. Ouvia-se ao longe o segundo movimento da Sétima Sinfonia de Beethoven. Era a audição especial de Natal no Pátio do Colégio capitaneada pelo DJ Cabeça, que na seqüência colocaria o rock dos rocks, Satisfaction.
E foi com essa trilha sonora que Hélcio Toth pegou a magrela, acompanhando o carro de Mrs. Agrella, com quem trocava gentilezas:
- Não vai fotografar melhor do que eu, hem!
- Isso vamos ver, dizia ela, rindo.
Era o amor. Ainda pude ver a cena maravilhosa em que os três especialistas entregaram um lap-top para Trolé presentear sua namorada no Natal:
- Estava sobrando lá no reduto de Mr. Speed. Pega aí.
Trolé roncou a moto e fez continência para todos. Tinha uma ceia a cumprir.
Ainda fiquei por ali, escutando o som do DJ Cabeça. Amava aquela cidade para caralho. São 450 anos de vida! E os amigos eram o oásis do real.
Depois me dirigi para o aeroporto. Vou pegar um avião e um ônibus para Uruguaiana, pois tenho um churrasco marcado no Bar do Funcho.”
RETORNO - E assim termina nossa história de Natal. Quem souber que conte outra. Boas festas para todos.
Notas importantes: Gim Tones e Adelino Nazario fazem parte dos redutos sagrados de Fabio Murakawa (http://gimtones.blogger.com.br/). Aparecem aqui sem cerimônia porque esta é uma homenagem aos amigos; o site Espinha continua firme e forte, assim como o Fotogarrafa; Regina Agrella é a responsável pelo Fotoblog; o Gulib é um grupo que atua no Cybershark; já Trolé ainda não tem blog, mas pelo andar da carruagem, logo logo vai ter um; e Anabel gostou de ser rebatizada de Anabela, um erro de digitação do Editor da Fronteira que acabou dando certo.
Gulib informa: "Li agora o relato do resgate de Trolé conforme visto pelo El Gran Terceirizador e como testemunha-participante tenho que dizer que as coisas foram mais ou menos desse jeito mesmo, embora tenha que realizar algumas explanações orientadas pra os tecno-geeks, ja que El Gran, mais afeito as artes literárias passou bem a emoção da perigosa situação, porém talvez os escovadores de bits apreciem alguns apartes. errêbepe, também conhecido como el coordenador devido ao seu duvidoso passado na temivel "FIRMA" que a principio se passava por bondosa organização pró linux e no final se revelou apenas outro plano de dominação (fonte para toda uma nova história) lembraria, embora não me tenha dito nada, que seu login não é grafado em caixa alta (RBP) e sim em letras minúsculas (rbp), ja que na matriz-linux as maiúsculas se diferenciam das minúsculas. Quem diria que habitamos um lugar onde A não é a. Apenas como curiosidade, o contato se deu com El Gran Editor de la Frontera via ICQ para ele, mas nós gulibenhos usávamos na verdade o transporte jabber para ICQ, evidamente encriptado com GPG, já que o segredo era naquele momento vital para o sucesso da missão!Aproveito para contar para os preocupados que não só não cumprimos o prometido de fazer upload dos milhares de endereços de possíveis infelizes de presunto enlatado (SPAM é também presunto enlatado, sabia não? http://www.spam.com/>) como ainda por cima deixamos como despedida para a horde de provedores-bots uma instância de bogofilter. rere, isso deve atrasá-los um pouco. De resto, que mais? Foi bem assim mesmo que se deu a coisa, e estou muito feliz que a historia tenha sido relatada tão fielmente. Espero ansioso a oportunidade para novamente dizer "tu por aqui?"Grande abraço. daniduc "
MOTO NO FIM DA INTERNET
Neste capítulo, onde reproduzo mais mensagens do Editor, descobrimos os verdadeiros motivos de Trolé estar dentro do gafanhoto mutante Pimple. Tudo graças aos repórteres policiais que, de início, não quiseram colaborar, mas colocaram suas antenas a funcionar e ajudaram a descobrir uma aventura completamente ensandecida, nas estradas virtuais da rede infinita (infinita?)
LINKS – “Ok, disse Gim Tones batendo o copo, vamos imaginar que tua história seja verdadeira. O que não me impressiona é esse motoqueiro ser colocado dentro do bucho do superblog, sem nenhum motivo aparente. Que prova é essa que Mr. Toth disse que está fazendo? Para que serve um pobre coitado lá dentro da invenção miserável dele?
O repórter fazia as perguntas certas. Dei de ombros. Realmente eu não sabia. Tinha fugido apavorado da cobertura antes de saber da explicação. O mistério despertou a gana dos dois jornalistas.
- Vamos até lá, disse Gim a Adelino, que prontamente já estava na porta, fazendo um gesto de pindura para o dono do bar, que olhou feio.
Gim depois me contou a história que ouviu de Mr. Toth, graças à sua ousadia de chegar no pedaço sem nada a temer, como sempre foi seu estilo:
- O cientista me disse que o entregador de pizza é o exemplo mais bem acabado da Lógica Elementar num mundo em transformação e movimento. Ele está sempre se arriscando, dia e noite, e precisa seguir um encadeamento perfeito para não decepcionar os fregueses. Os primeiros a pedir são os primeiros a serem atendidos. O timing é fundamental. Há um momento de começar a entregar a mercadoria, e outra de fechar o expediente, tudo isso feito em duas rodas. Não pode haver outra criatura que precise saber tanto de lógica para poder driblar carros, acertar endereços, ser simpático, ver o troco direitinho, entre outras modalidades. Por isso o pesquisador resolveu colocá-lo lá, para poder calibrar sua invenção. Pimple era gigantesco demais e estava perdido. Mas Mr. Toth não contava com o pânico do motoqueiro. Fez a operação de maneira muito rápida, pois contou com a ajuda de Radoc, o Inominável. (não seria o Abominável? copidescou Gim, atento ao fato de que o codinome queria dizer aquele que não pode ser nomeado, o que era uma contradição difícil de ser engolida por qualquer editor). Além disso, Trolé conseguiu se comunicar lá dentro, o que não estava previsto. Agora ele conseguiu imobilizá-lo, mas precisa que Trolé se movimente, pois senão a experiência vai fracassar.
- Ele lhe contou tudo isso?
- Mr. Toth é louco para aparecer. Ainda mais na Verdade Sangrenta. Ele lê aquele jornal todos os dias.
De repente, o ,meu celular tocou. Era Daniduc transmitindo providências:
- Mr. Toth conseguiu colocar a moto lá dentro, disse o especialista. Vai fazer com que Trolé monte sem capacete para desenvolver algumas experiências - de cabeça descoberta, o pobre rapaz fica ainda mais à mercê daquele louco. Nossa idéia é tomar o comando e levá-lo para um lugar seguro. Lá, abriremos uma porta para ele sair.
- E que lugar seguro é esse? perguntei, suando frio.
- O Fim da Internet, disse Daniduc, e ficou esperando minha reação.
- Como assim, a Internet é não é infinita?
- Não, e Mr. Toth sabe disso. Ele quer colocar não apenas os blogs, mas os sites e portais dentro do gafanhoto e transformar tudo num chip do tamanho da cabeça de um alfinete. Assim, ele poderá dominar a rede, que entende por invenção do Mal, da Liberdade Absoluta e da falta de Lógica.
- Então ele me mentiu! Disse que só queria devorar blogs!
Daniduc riu da minha ingenuidade.
- Ele mente o tempo todo. Bem, vamos arriscar, já que os Provedores estão aqui no nosso pé. Só conseguimos neutralizá-los porque prometemos repassar um milhão de endereços para eles enviarem spams.
- E eles acreditaram nisso? Insisti.
Daniduc riu. O três especialistas, então, cada um conectado numa máquina, me colocaram on-line pelo ICQ descrevendo o que estava ocorrendo naquela delicada operação de guerra. Transcrevo a síntese das mensagens:
- Guiamos agora Trolé pela estrada virtual do Google, que é a mesma usada por Mr. Toth. Nessa avenida, milhares de cidades-sites se aglomeram em grandes portais, tudo rodeado de blogs favelas. Para conseguir o controle total da moto, abrimos uma estrada vicinal, que é montanhosa e rude, parece uma trilha. Mas Trolé está acostumado e consegue agüentar bem a viagem. O problema é chegar agora ao fim da Internet. Vamos ver. Escolhemos um dos sites com esse nome, que diz não ter link para lugar nenhum, então não há como voltar. Mr. Toth é muito lógico para agüentar essa barra e vai ficar perdido e deixar por alguns minutos de nos perseguir com aquelas caratonhas terríveis que criou para assustar os moradores do prédio sinistro. Essas máscaras tem poder e estão atrapalhando as manobras. Agora sim. Trolé está num beco sem saída. Aparentemente...Vai Trolé! Dá uma ré, porra. Não contavam com a ré. Ré total! Faça um cavalo de pau, vamos abrir uma porta para você sair! Vamos Trolé, firmeza, usa tudo o que tu sabe. Não conseguimos daqui ter plenos poderes para te tirar daí. Boa Trolé, é essa mesma, a porta do Cybershark.net. Vai, cara, anda.
- Iahuuuu, gritaram os três especialistas no meio da Sala de Máquinas e Ferramentas. E seguiu-se silêncio mortal. Mr. Speed veio ver o que se passava,. Descobriu tudo e expulsou-os de lá, ordenando que se desfizessem todas as ações desencadeadas pelo trio.
Mas era tarde demais. Como um pássaro, um avião, um foguete, Trolé irrompeu pela porta do Cybershark foi cair de cara num grupo de ambulantes da 25 de Março. Foi um estrago danado.”
RETORNO – Uau! Essa foi forte. O que será que Trolé, agora livre, vai fazer? Vai ver a namorada? Enfrentar Mr. Toth? Mais informações no próximo capítulo.
ANABELA ENTREGA TUDO
Recebo mais uma mensagem do Editor Fronteira, me contando sobre os desdobramentos desta história contada pelo avesso. Vejam que delicadeza de pensamentos, e o que se arma logo depois do final da conversa, quando El Gran Tercerizador encontra-se com um grupo poderoso de especialistas e mais tarde vai acabar num bar oculto perto do Copan, onde faz um apelo para uma dupla de misteriosos repórteres policiais que tudo sabem e tudo acham uma grande bobagem.
CEIA PERDIDA – “Depois que saí correndo do prédio sinistro, sentindo ainda o hálito podre de Radoc, corri para a pizzaria de Trolé para me atualizar sobre os últimos acontecimentos. Lá encontrei, aos prantos, a namorada do garoto, que lamentava principalmente a perda da perspectiva de uma ceia, onde ela seria o prato principal.
- Estou sabendo de tudo, Anabela, e vim aqui para ajudar.
- Mas como poderia o senhor ajudar? disse a menina, enxugando as lágrimas. Recebi a última mensagem de Trolé toda truncada, pois parece que Pimple conseguiu neutralizar o meu amor, que agora está todo imobilizado por bits e bytes.
- Mas o que dizia a mensagem? perguntei.
- Não entendi quase nada. Só vi que no meio dos gritos de socorro ele implorou para eu pedir a intervenção dos maiores especialistas em informática do Brasil, o pessoal de um tal Gulib.
Minha mente tomou-se de assalto pela imagem dos garotos bambas do Gulib. Conheci-os de uma festa em Perdizes, onde falavam linguagem cifrada, que eu tentava interromper com piadas gastas, onde se destacam palavras ridículas como buffer e plus. Os garotos me olhavam com uma certa simpatia, já que não eram arrogantes, faziam parte do Grande Movimento Pró-Linux, adversário fatal dos donos da rede.
- Deixa comigo, Anabela, você me deu uma luz. Vou procurar esse pessoal.
- Mas o senhor conhece eles? Por favor, diga para tirar meu Trolé de lá. Eu não vivo sem ele. E juro que nunca mais penso em comprar um computador. Ele está trabalhando demais porque quer me presentear no Natal com um lap-top. Custa quatro mil reais, como ele vai conseguir? Foi por isso que se meteu nessa encrenca. Me sinto tão culpada!
E desatou novamente a chorar. Consolei-a o que pude e fui até um apartamento em Perdizes, onde encontrei, em alegre confraternização, três elementos poderosos do Gulib: Daniduc, Pablo e RBP.
- Tu, por aqui? pilherou Daniduc, devolvendo um velho cumprimento entre os dois.
- Preciso da ajuda de vocês, disse.
E contei tudo. Eles imediatamente se prontificaram a tomar providências e foi cada um para seu computador. Mas voltaram em pouco tempo dizendo:
- Esse Mr. Toth amarrou direitinho as coisas, disse Pablo. Precisamos intervir na fonte, senão Trolé está perdido.
- E o que vem a ser a fonte? perguntei, já exausto de tanta ansiedade.
Eles se entreolharam. Eu não sabia mesmo nada. Perdi toda credibilidade quando confundi servidor com provedor.
- Precisamos ir até o reduto de Mr. Speed e seus cruéis Provedores, disse RBP. Pois Mr. Toth não apenas aprisionou o entregador de pizzas e o teu frila Hélcio. Eles fizeram coisa pior.
Lembrei os olhos quase orientais de Mr. Toth. Era isso! O pesquisador de gafanhotos tinha também abocanhado Marcelo Min , com Fotogarrafa e tudo.
- Mr. Toth seqüestrou Min a pedido de Mr. Speed, disse RBP.
- Vamos até lá, argumentei.
Concordaram, depois de se espreguiçarem bastante. Essa vida de computador é mesmo um porre. Em vez de ir para a praia, depois de fazerem milhões de migrações e quê sei eu mais, eles ainda estavam se prontificando a entrar numa encrenca sem tamanho.
- É importante para nós, atalhou Daniduc. Acho que a ditadura dos Provedores está por demais. Com Mr. Speed, a gente se entende.
Fui com eles até um escritório gigantesco no centro, coberto de paredes de vidro, onde Mr. Speed, cognominado de O Arquiteto (depois que todos viram Matrix Reload) mandava e desmandava, mas sempre aconselhado pelos Provedores. Para surpresa geral, fomos recebidos na sala do chefe. O problema é que ele estava rodeado de Provedores, autômatos parecidos com Mr. Smith, de Matrix, que faziam mecanicamente o gesto de entregar cartões e dizer a frase “assine o nosso, assine o nosso”.
- Ora, ora, ora, disse Mr. Speed, todo vestido de branco, para imitar o Arquiteto. Os gênios do Gulib. O que vocês estão pretendendo com esta visita?
Eles começaram a dialogar o que jamais entenderei. Mas descobri que as coisas iam bem, pois os três se dirigiram à Sala das Máquinas e Ferramentas.
- O que aconteceu? perguntei.
- Shhh, advertiu Pablo. Enganamos eles. Dissemos que íamos ajudá-los num trabalho complicado aqui, mas no fundo queremos é desativar Pimple.
Suspirei de alívio e saí de lá, pois só poderia atrapalhar. Acabei chegando no centro da cidade, perto do edifício Copan. Lembrei que Gim Tomes e o fotógrafo Adelino Nazario costumavam ficar por perto, tomando cerveja em algum bar. Não custei muito a descobrir. Me receberam geladamente, pois sabiam que eu estava sempre querendo propor projetos, e eles estava eram a fim de uma grana da mega-sena.
- Senta aí, disse Gim, e continuou a conversa.
A certa altura, interrompi. Eles ficaram em silêncio. Depois começaram a rir baixinho.
- Deixa de delírio, fronteirista. Isso tudo é armação entre você e aquele coreano Min, disse Adelino.
- O Min brigou com Mr. Speed e travou o Fotogarrafa, disse Gim. Agora é com ele. E o Toth deve estar por aí, magrelando.
Não acreditaram em mim. O que fazer para convencê-los?"
RETORNO - Não me pergunte, sr. Editor. Sou apenas mídia. Só retransmito mensagens. Nada tenho a ver com isso. Virem-se. Fico então aguardando os desdobramentos dessa história terripilante de Natal. Onde tudo isso vai acabar?
CEIA PERDIDA – “Depois que saí correndo do prédio sinistro, sentindo ainda o hálito podre de Radoc, corri para a pizzaria de Trolé para me atualizar sobre os últimos acontecimentos. Lá encontrei, aos prantos, a namorada do garoto, que lamentava principalmente a perda da perspectiva de uma ceia, onde ela seria o prato principal.
- Estou sabendo de tudo, Anabela, e vim aqui para ajudar.
- Mas como poderia o senhor ajudar? disse a menina, enxugando as lágrimas. Recebi a última mensagem de Trolé toda truncada, pois parece que Pimple conseguiu neutralizar o meu amor, que agora está todo imobilizado por bits e bytes.
- Mas o que dizia a mensagem? perguntei.
- Não entendi quase nada. Só vi que no meio dos gritos de socorro ele implorou para eu pedir a intervenção dos maiores especialistas em informática do Brasil, o pessoal de um tal Gulib.
Minha mente tomou-se de assalto pela imagem dos garotos bambas do Gulib. Conheci-os de uma festa em Perdizes, onde falavam linguagem cifrada, que eu tentava interromper com piadas gastas, onde se destacam palavras ridículas como buffer e plus. Os garotos me olhavam com uma certa simpatia, já que não eram arrogantes, faziam parte do Grande Movimento Pró-Linux, adversário fatal dos donos da rede.
- Deixa comigo, Anabela, você me deu uma luz. Vou procurar esse pessoal.
- Mas o senhor conhece eles? Por favor, diga para tirar meu Trolé de lá. Eu não vivo sem ele. E juro que nunca mais penso em comprar um computador. Ele está trabalhando demais porque quer me presentear no Natal com um lap-top. Custa quatro mil reais, como ele vai conseguir? Foi por isso que se meteu nessa encrenca. Me sinto tão culpada!
E desatou novamente a chorar. Consolei-a o que pude e fui até um apartamento em Perdizes, onde encontrei, em alegre confraternização, três elementos poderosos do Gulib: Daniduc, Pablo e RBP.
- Tu, por aqui? pilherou Daniduc, devolvendo um velho cumprimento entre os dois.
- Preciso da ajuda de vocês, disse.
E contei tudo. Eles imediatamente se prontificaram a tomar providências e foi cada um para seu computador. Mas voltaram em pouco tempo dizendo:
- Esse Mr. Toth amarrou direitinho as coisas, disse Pablo. Precisamos intervir na fonte, senão Trolé está perdido.
- E o que vem a ser a fonte? perguntei, já exausto de tanta ansiedade.
Eles se entreolharam. Eu não sabia mesmo nada. Perdi toda credibilidade quando confundi servidor com provedor.
- Precisamos ir até o reduto de Mr. Speed e seus cruéis Provedores, disse RBP. Pois Mr. Toth não apenas aprisionou o entregador de pizzas e o teu frila Hélcio. Eles fizeram coisa pior.
Lembrei os olhos quase orientais de Mr. Toth. Era isso! O pesquisador de gafanhotos tinha também abocanhado Marcelo Min , com Fotogarrafa e tudo.
- Mr. Toth seqüestrou Min a pedido de Mr. Speed, disse RBP.
- Vamos até lá, argumentei.
Concordaram, depois de se espreguiçarem bastante. Essa vida de computador é mesmo um porre. Em vez de ir para a praia, depois de fazerem milhões de migrações e quê sei eu mais, eles ainda estavam se prontificando a entrar numa encrenca sem tamanho.
- É importante para nós, atalhou Daniduc. Acho que a ditadura dos Provedores está por demais. Com Mr. Speed, a gente se entende.
Fui com eles até um escritório gigantesco no centro, coberto de paredes de vidro, onde Mr. Speed, cognominado de O Arquiteto (depois que todos viram Matrix Reload) mandava e desmandava, mas sempre aconselhado pelos Provedores. Para surpresa geral, fomos recebidos na sala do chefe. O problema é que ele estava rodeado de Provedores, autômatos parecidos com Mr. Smith, de Matrix, que faziam mecanicamente o gesto de entregar cartões e dizer a frase “assine o nosso, assine o nosso”.
- Ora, ora, ora, disse Mr. Speed, todo vestido de branco, para imitar o Arquiteto. Os gênios do Gulib. O que vocês estão pretendendo com esta visita?
Eles começaram a dialogar o que jamais entenderei. Mas descobri que as coisas iam bem, pois os três se dirigiram à Sala das Máquinas e Ferramentas.
- O que aconteceu? perguntei.
- Shhh, advertiu Pablo. Enganamos eles. Dissemos que íamos ajudá-los num trabalho complicado aqui, mas no fundo queremos é desativar Pimple.
Suspirei de alívio e saí de lá, pois só poderia atrapalhar. Acabei chegando no centro da cidade, perto do edifício Copan. Lembrei que Gim Tomes e o fotógrafo Adelino Nazario costumavam ficar por perto, tomando cerveja em algum bar. Não custei muito a descobrir. Me receberam geladamente, pois sabiam que eu estava sempre querendo propor projetos, e eles estava eram a fim de uma grana da mega-sena.
- Senta aí, disse Gim, e continuou a conversa.
A certa altura, interrompi. Eles ficaram em silêncio. Depois começaram a rir baixinho.
- Deixa de delírio, fronteirista. Isso tudo é armação entre você e aquele coreano Min, disse Adelino.
- O Min brigou com Mr. Speed e travou o Fotogarrafa, disse Gim. Agora é com ele. E o Toth deve estar por aí, magrelando.
Não acreditaram em mim. O que fazer para convencê-los?"
RETORNO - Não me pergunte, sr. Editor. Sou apenas mídia. Só retransmito mensagens. Nada tenho a ver com isso. Virem-se. Fico então aguardando os desdobramentos dessa história terripilante de Natal. Onde tudo isso vai acabar?
UMA VISITA A MR. TOTH
O Editor da Fronteira, El Gran Tercerizador, combinou uma trégua com o maquiavélico Mr. Toth, o pesquisador de gafanhotos. Conseguiu convencê-lo a deixar preso Radoc, o que conseguiu em parte, mas o argumento definitivo é que não havia mais ninguém na cidade e uma visita cordial para resolver o problema de Trolé seria uma boa pedida. Ele sabia que o cientista maluco queria platéia e alguém prestando atenção em suas teorias seria uma forma de passar o tempo na cidade morta Sampa 2003. Damos agora a palavra ao El Gran.
O AVESSO DO AVESSO – “Cheguei no prédio e a porta estava aberta. Entrei na recepção coberta de teias de aranha, onde não havia ninguém para me receber. Olhei o elevador, quebrado. Vi as escadas imundas, cobertas por um sebo grosso, e me arrisquei. O mais difícil foi pisar cada degrau como se estivesse atravessando a ponte pênsil de Macchu Picchu. Ouvia barulhos estranhos. Insetos, ratos. Algo terrível me esperava no último andar. Bati na porta e ela se abriu com a força do meu muque (e isso que bati de leve). Lá estava de avental branco e debruçado sobre a perna desarticulada de algo indecifrável o louco desenvolvedor de monstros. Toquei no ombro dele e não se mexeu. Ouvi uma voz atrás de mim:
- Esse é meu clone. Ele nunca atende a estímulos externos, a não ser os meus.
Senti uma sombra escorregando pelas paredes cobertas com fotos da 25 de março. Era um líquido viscoso, fino como pele, que escorregava mudando de cor, de azeite escuro para roxo vivo. Radoc! murmurei, apavorado.
- Hoje ele está de recesso. Dei-lhe uma dose extra de suco de asa de morcego, incrementado com Natu Nobilis.
Mr. Toth aproximou-se de mim e me olhou com olhos minúsculos, quase orientais, por detrás de suas lentes adornadas por aros redondos foscos.
- O que vem fazer aqui em plena véspera de Natal, sr. Editor?
- Você sabe porque estou aqui, Excelência. Quero libertar Trolé.
Ouvi então um baque surdo no sótão. O entregador de pizzas não se dava por vencido.
- Mas ele está bem lá, senhor. Eu precisava de uma cobaia para testar meu novo invento. Pimple, o gafanhoto mutante, é o blog dos blogs, e a tudo devora. Pois eu tinha um problema.
- E qual é esse problema, Excelência? (precisava tratar bem o maluco, pois eu poderia cair nas garras de suas invenções).
- É que todo blog contraria a lógica. Não dá para contar uma história de trás para diante. O leitor lê o final antes do início.
- Mas esse é o charme do blog, respondi, escudado nas lições magistrais de dois gênios, Marcelo Min e Gim Tones, que a esta altura deveriam estar cada um numa praia distante (ou talvez não, ou talvez não). O blog é uma revolução cultural e não precisa desse encadeamento linear que temos na literatura tradicional.
- É aí que você se engana, disse Mr. Toth. É possível reverter essa situação. Pimple vai devorar todos os blogs e depois vai dar um comando, que eu já programei,. E colocará tudo na ordem certa, começando pelo começo. Quem quiser acompanhar é só ir até o final do blog, lá estará a seqüência. Pois o que eu gosto é da Lógica, meu caro, da Lógica Matemática, de tudo nos conformes. Para que isso aconteça, invento qualquer coisa. Faço e aconteço.
Eu sabia que conhecia aquele sujeito. Tinha dado uns frilas para alguém parecido com ele. Olhei novamente ao redor e, surpresa! as fotos da cidade morta Sampa 2003 eram todas daquela frila louco, o Hélcio. Será que Helcio, de tanto pedalar a magrelinha pela cidade, tinha se transformado no cientista louco?
Mr. Toth desconfiou que eu estava pesquisando seus segredos e decidiu fazer um gesto brusco. Atirou-se à janela, que se abriu para um paisagem inacreditável. Sabem, aquele deserto do real de Matrix? Era pior.
- O que é isso, balbuciei? enquanto ouvia o som gutural de Radoc gaguejando seu clássico “nããão hááá vaaagas...
- Benvindo ao imaginário da cidade. Ela é assim, mas só os blogs tornam essa catástrofe um lugar humano. Por isso estou pesquisando essa criação infantil que é o blog, diário de adolescentes. Revolução cultural...bah
- Mr. Toth, disse ( avancei um passo). O que o sr. fez com fotógrafo Hélcio?
- Aquele tonto? Vivia dando bandeira na cidade que tinha inventado para si e seus amigos no seu blog Espinha. Por isso incorporei nele para poder ter uma apresentação física real neste mundo de fantasmagorias.
Tive mais um calafrio. Estava tudo perdido. Eu nas garras do pesquisador de gafanhotos, sentindo já o bafo de visky barato com gengibre pelo ar.
- Se o blog é o avesso, sou o avesso do avesso, recitou Mr. Toth, abrindo um sorrisinho enigmático. Tudo voltará ao normal. Olhe lá para fora. Veja essa passeata.
Era uma multidão que ensaiavam passos de uma parada, como se fossem um exército sem nome a vagar pelo deserto de real.
- São os Escritores Marginalizados, meu caro. Eles ficam fazendo passeatas pela cidade para chamar a atenção. Como ninguém dá pelota, eles acabam sempre no bucho de um blog. Se tudo der certo, no mais gigantesco dos blogs, o Pimple, o gafanhoto mutante. Quanto mais colocam palavras e fotos nele, mais cresce.
Os Escritores Marginalizados davam passos de ganso e dobravam os cotovelos, colocando as mãos na altura do peito, empinando o nariz.
- Eles não servem para nada, disse Mr. Toth. O mundo é das imagens, não das palavras. Eles não conseguem se desvencilhar da sua maldição, pois o final das suas histórias estão sempre no começo.
E aproximando-se novamente do meu rosto, gritou:
- Ninguém LÊ!
Saí correndo. Era demais para mim. Quando passei pela recepção, ainda ouvia os baques surdos de Trolé no sótão. Fiquei aliviado pois na rua não tinha passeata nenhuma. Apenas o corriqueiro: uma cidade enfeitada para o Natal, com pessoas cheias de sacolas andando apressadas e rindo. “Não sabem o perigo que correm, pensei.”
RETORNO – Vejo que, seguindo a maldição dos blogs, ninguém dá bola para esses acontecimentos. Ainda mais agora que todo mundo foi embora. Mas na próxima edição, El Gran Tercerizador fará uma entrevista com a mocinha abandonada. Anabela (para saber quem é, percorra o sentido inverso da história, descendo mouse abaixo). Foi o que ele me prometeu. Aguardem.
O AVESSO DO AVESSO – “Cheguei no prédio e a porta estava aberta. Entrei na recepção coberta de teias de aranha, onde não havia ninguém para me receber. Olhei o elevador, quebrado. Vi as escadas imundas, cobertas por um sebo grosso, e me arrisquei. O mais difícil foi pisar cada degrau como se estivesse atravessando a ponte pênsil de Macchu Picchu. Ouvia barulhos estranhos. Insetos, ratos. Algo terrível me esperava no último andar. Bati na porta e ela se abriu com a força do meu muque (e isso que bati de leve). Lá estava de avental branco e debruçado sobre a perna desarticulada de algo indecifrável o louco desenvolvedor de monstros. Toquei no ombro dele e não se mexeu. Ouvi uma voz atrás de mim:
- Esse é meu clone. Ele nunca atende a estímulos externos, a não ser os meus.
Senti uma sombra escorregando pelas paredes cobertas com fotos da 25 de março. Era um líquido viscoso, fino como pele, que escorregava mudando de cor, de azeite escuro para roxo vivo. Radoc! murmurei, apavorado.
- Hoje ele está de recesso. Dei-lhe uma dose extra de suco de asa de morcego, incrementado com Natu Nobilis.
Mr. Toth aproximou-se de mim e me olhou com olhos minúsculos, quase orientais, por detrás de suas lentes adornadas por aros redondos foscos.
- O que vem fazer aqui em plena véspera de Natal, sr. Editor?
- Você sabe porque estou aqui, Excelência. Quero libertar Trolé.
Ouvi então um baque surdo no sótão. O entregador de pizzas não se dava por vencido.
- Mas ele está bem lá, senhor. Eu precisava de uma cobaia para testar meu novo invento. Pimple, o gafanhoto mutante, é o blog dos blogs, e a tudo devora. Pois eu tinha um problema.
- E qual é esse problema, Excelência? (precisava tratar bem o maluco, pois eu poderia cair nas garras de suas invenções).
- É que todo blog contraria a lógica. Não dá para contar uma história de trás para diante. O leitor lê o final antes do início.
- Mas esse é o charme do blog, respondi, escudado nas lições magistrais de dois gênios, Marcelo Min e Gim Tones, que a esta altura deveriam estar cada um numa praia distante (ou talvez não, ou talvez não). O blog é uma revolução cultural e não precisa desse encadeamento linear que temos na literatura tradicional.
- É aí que você se engana, disse Mr. Toth. É possível reverter essa situação. Pimple vai devorar todos os blogs e depois vai dar um comando, que eu já programei,. E colocará tudo na ordem certa, começando pelo começo. Quem quiser acompanhar é só ir até o final do blog, lá estará a seqüência. Pois o que eu gosto é da Lógica, meu caro, da Lógica Matemática, de tudo nos conformes. Para que isso aconteça, invento qualquer coisa. Faço e aconteço.
Eu sabia que conhecia aquele sujeito. Tinha dado uns frilas para alguém parecido com ele. Olhei novamente ao redor e, surpresa! as fotos da cidade morta Sampa 2003 eram todas daquela frila louco, o Hélcio. Será que Helcio, de tanto pedalar a magrelinha pela cidade, tinha se transformado no cientista louco?
Mr. Toth desconfiou que eu estava pesquisando seus segredos e decidiu fazer um gesto brusco. Atirou-se à janela, que se abriu para um paisagem inacreditável. Sabem, aquele deserto do real de Matrix? Era pior.
- O que é isso, balbuciei? enquanto ouvia o som gutural de Radoc gaguejando seu clássico “nããão hááá vaaagas...
- Benvindo ao imaginário da cidade. Ela é assim, mas só os blogs tornam essa catástrofe um lugar humano. Por isso estou pesquisando essa criação infantil que é o blog, diário de adolescentes. Revolução cultural...bah
- Mr. Toth, disse ( avancei um passo). O que o sr. fez com fotógrafo Hélcio?
- Aquele tonto? Vivia dando bandeira na cidade que tinha inventado para si e seus amigos no seu blog Espinha. Por isso incorporei nele para poder ter uma apresentação física real neste mundo de fantasmagorias.
Tive mais um calafrio. Estava tudo perdido. Eu nas garras do pesquisador de gafanhotos, sentindo já o bafo de visky barato com gengibre pelo ar.
- Se o blog é o avesso, sou o avesso do avesso, recitou Mr. Toth, abrindo um sorrisinho enigmático. Tudo voltará ao normal. Olhe lá para fora. Veja essa passeata.
Era uma multidão que ensaiavam passos de uma parada, como se fossem um exército sem nome a vagar pelo deserto de real.
- São os Escritores Marginalizados, meu caro. Eles ficam fazendo passeatas pela cidade para chamar a atenção. Como ninguém dá pelota, eles acabam sempre no bucho de um blog. Se tudo der certo, no mais gigantesco dos blogs, o Pimple, o gafanhoto mutante. Quanto mais colocam palavras e fotos nele, mais cresce.
Os Escritores Marginalizados davam passos de ganso e dobravam os cotovelos, colocando as mãos na altura do peito, empinando o nariz.
- Eles não servem para nada, disse Mr. Toth. O mundo é das imagens, não das palavras. Eles não conseguem se desvencilhar da sua maldição, pois o final das suas histórias estão sempre no começo.
E aproximando-se novamente do meu rosto, gritou:
- Ninguém LÊ!
Saí correndo. Era demais para mim. Quando passei pela recepção, ainda ouvia os baques surdos de Trolé no sótão. Fiquei aliviado pois na rua não tinha passeata nenhuma. Apenas o corriqueiro: uma cidade enfeitada para o Natal, com pessoas cheias de sacolas andando apressadas e rindo. “Não sabem o perigo que correm, pensei.”
RETORNO – Vejo que, seguindo a maldição dos blogs, ninguém dá bola para esses acontecimentos. Ainda mais agora que todo mundo foi embora. Mas na próxima edição, El Gran Tercerizador fará uma entrevista com a mocinha abandonada. Anabela (para saber quem é, percorra o sentido inverso da história, descendo mouse abaixo). Foi o que ele me prometeu. Aguardem.
TROLÉ E O GAFANHOTO MUTANTE
Um pedido de socorro do entregador de pizza Trolé me convocou para uma ação entre amigos. Vamos retirá-lo do bucho de Pimple, o inseto-monstro desenvolvido pelo cruel Mr. Toth, o pesquisador de gafanhotos que conseguir domar Radoc, o Inominável. Os dois bandidos moram numa cobertura de um prédio sinistro. Sigam essa história de suspense, que retirei do blog Espinha (link ao lado)
INÍCIO DO PESADELO – Um anúncio no Espinha dizia, embaixo de uma foto do lugar terrível: “Esse prédio tem apartamentos de 4 quartos para alugar, não tem garagem e o aluguel gira em torno de $ 750, 00. Fica perto do Mercado Municipal. Tô fora, deve ter fantasmas e ratos nos corredores”. Pois logo nos comentários soubemos que alguém sabia de tudo o que se passava nos corredores. É o depoimento de alguém chamado Trolé:
“Lá mora Radoc, o Inominável. Passa de um apartamento a outro pelas frestas das paredes. É fino como navalha, horrendo como o pânico de avestruz diante de um vampiro. Radoc é a própria sombra e costuma puxar o brinco dos garotos cools que chegam para instalar algum estúdio para suas bandas fantasmas. Radoc emperra as fechaduras e limpa as poucas geladeiras que restaram de velhos moradores. Disfarça-se de porteiro e recebe os recém chegados com sua famosa frase, dita num som gutural-horripilante:
- Não háááá vaagas.
O único que teve coragem de morar lá, numa cobertura (adornada com fotos da cidade morta Sampa-2003), foi o cientista Mr. Toth, o pesquisador de gafanhotos. Mr. Toth conquistou Radoc ao dar-lhe, todos os dias, um suco de asas de morcego que tirou de seus inumeráveis potes de vidro. Mr. Toth substitui às vezes Radoc na recepção aos recém chegados. Ao casalzinho maneiro que pretende se mudar, diz:
- Aqui é jóia, pode subir. Depois ri, sacudindo os ombros.
Radoc e Mr. Toth, os reis da Mêda.”
PIZZA À MEIA-NOITE – Logo em seguida, descobrimos quem é Trolé e o que o atrai para o lugar sinistro: “Sou entregador de pizza. Tenho uma encomenda para o Natal: levar, à meia-noite, uma redonda para Mr. Toth dividir com Radoc. Brrrr. Não gosto de ir lá. O gafanhoto mutante, que está preso no sótão da cobertura, e atende pelo nome de Pimple, pode já estar pronto para o primeiro salto. Dizem que ele devora motoqueiros. Quem vai comigo? “ Apesar dos seus apelo, ele acabou caindo na armadilha, pois compareceu ao lugar sem acompanhamento de ninguém. Vejam o que aconteceu:
“Estou agora no estômago de Pimple, o gafanhoto mutante. Quando fui lá pessoalmente combinar a entrega da pizza no Natal, Mr. Toth apareceu com seus oclinhos redondos parecidos com os do John Lennon, avental branco de cientista maluco, cabelo espinhento e sorriso maroto. Mandou Radoc me pegar e me jogaram no sótão. Mas eu não sabia que Pimple funciona como um blog. Está até conectado com a Internet. Descobri a manha aqui de de enviar mensagens e a minha é: socooorrro! Como vou convidar minha namorada Anabel para a ceia do Natal, ainda mais que este ano ela seria a ceia? Mr. Toth, tenha piedade, eu juro que não conto mais nada, especialmente sua coleção de urânio enriquecido que o Sadam mandou para o sr. Mande o Radoc passear que eu preciso sair ...Socooorrro...Só espero que Pimple não devore minha motoca...ei, pensando bem, se eu tiver uma moto aqui posso ligar e sair em disparada. Má hora quando fui entrar naquele prédio! O duro é guentar essas caratonhas. Socorro, Gim, Karen, Min, todos vocês... “
O QUE VAI ACONTECER? - As caratonhas que ele fala são criações do terrível Mr. Toth. Quem vai ajudar o pobre rapaz? Como ficará a indefesa Anabela? Estará Radoc querendo aumentar sua influência e também raptar a mocinha? Ou Radoc só pode sobreviver no ar mofado daqueles prédios? Se a moto for devorada, vai funcionar dentro do Pimple? Meu Deus, que situação complicada. Ninguém se habilita?
RETORNO – Lu Felix me manda um cartão pelo correio que é uma graça, desejando felicidades este fim de ano para mim e minha família. Retomo contato com Júlia Zillig, brilhante repórter com quem trabalhei na revista da Fiesp. Rubens Montardo Junior promete declamar o poema Reencontro no próximo churrasco no Bar do Funcho, a poucos metros do rio Uruguai. Miguel Ramos, por favor separe para mim um pedaço “da diretoria”. Aquela porção não foi suficiente!
18 de dezembro de 2003
DOIS MESTRES DA PESADA
Hoje convoco os poemas favoritos do primeiro time. Um trecho do poema de Drummond e um soneto de Shakespeare.
PROCURA DA POESIA
Carlos Drummond de Andrade
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
Há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
Como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sobre a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram da noite as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo
A UM DIA DE VERÃO COMO HEI DE COMPARAR-TE?
William Shakespeare
A um dia de verão como hei de comparar-te ?
Vencendo-o em equilíbrio, és sempre mais amável!
Em maio o vendaval em ternos botões disparte
E o estio se consome em prazo não durável.
Às vezes, muito quente, o olho de céu fulgura,
Outras vezes se ofusca com a sua tez dourada;
Decai da formosura, é certo, a formosura,
Pelo tempo ou o acaso é enfim desadornada:
Mas teu verão é eterno, e não desmaiará,
Nem hás de a possessão perder tua beleza,
Vagando em sua sombra, o fim não te verá,
Pois neste verso eterno ao tempo, tu te igualas:
Enquanto o homem respire, e os olhos possam ver,
Meu canto existirá, e nele hás de viver.
A MUSA ANTES DA PALAVRA
Nei Duclós
A palavra dorme numa cama voltada para o nascente.
Ainda nem é palavra, nem som, nem nada.
Apenas existe esquecida de si mesma.
Mas toda a criatura tem o privilégio da alvorada.
Naquele despertar gostoso, antes de alcançar totalmente a lucidez diurna,
ela faz um barulho na boca como que gozando o sono
e a vontade de continuar na cama.
É quando ela sonha acordada nessa porta entre mundos,
nesse crepúsculo ao avesso,
nessa estrela antes de ser sol.
A palavra nem sempre gosta de tornar-se límpida, de banho tomado,
café posto na mesa.
Prefere muitas vezes o espreguiçar-se, a lenta mansidão dos braços
que evoluem em forma de blues,
quando ouve galos folk dylan guthries, guitarras perdidas
antes do heavy metal,
baterias que solam nossos corações que foram felizes,
trumpetes inimagináveis,
camas de gato da última sílaba de pink floyds
uivando para as ruinas.
A palavra, antes de acordar, vira sonata, piano, tambor e corda,
caixa de ressonância.
Aí levanta e algum treco horrendo martela no som do vizinho.
Por isso ela pensa sempre no dia seguinte, quando voltará
a ter esperança de um renascimento.
O único jeito é muddy waters e count basie misturados às frutas da manhã.
Quem sabe uma criança anuncia uma nova banda,
que nos faça esquecer o passado,
já que pode tocá-lo por inteiro sem despertar saudade.
Pode ser um joão gilberto no bar do Arantes, na praia do Pântano.
Um Walter Franco resgatando o mantra.
Um espesso rolling stones no céu de diamantes.
Um penny lane de carruagens.
Algo ainda perto, mas perdido. Algo, enfim, sem nome.
Por enquanto, para reverter o barulho, a palavra pia o gesto
que o artista descobre em cada traço, em cada curva do sonho.
RETORNO - Este é um poema feito sobre ilustração do artista Ricky Bols
16 de dezembro de 2003
O RIO NÃO MORRE
“ También se muere el mar” (Garcia Lorca)
“Aquele rio era um cão sem plumas” (João Cabral de Melo Neto)
Nei Duclós
Não se mata um rio
como não se enterra
um morro
Como a fogueira
não se põe no bolso
Como um leão
não pede socorro
Um rio terminal
é a soma da baba
do rebanho
viscoso no que tem
de sono
aéreo no que tem
de sonho
O mar recebe o rio
feito de escombros
O mar pode morrer
(Netuno exangue)
Não por obra do rio
que guarda o sopro
Envenenado talvez,
mas nunca morto
Um rio sobrevive
sem suas vertentes
Um rio pode seguir
sem ser corrente
Um rio não é a escama
de nenhum peixe
Ele será sempre o rio
da minha infância
O Uruguai antes
do saque
touro frente à lua
surra de gigante
Nesse rio sem fim
mora meu povo
Cobre de minuano ao frio
Charrua de invencível
lança
Não se mata um rio
O sol não cabe
numa estante
A eternidade acampou
e faz a ronda
REENCONTRO
Nei Duclós
Te reencontrei, cidade
E estavas à minha espera
como um pássaro sagrado
Tuas ruas abertas como asas
Calçadas varridas de memória
Anjos da minha guarda
Tuas mãos gastas pela demora
Teu rosto sem lágrima
Teus rios de eterna água
Te reencontrei, cidade
Como um filho tardio
o último que retorna
Estavas pronta, mãe que sabe a hora
Estavas forte, perfil de flor teimosa
Estavas maior, amor que não se dobra
RETORNO - O poema Reencontro está muito bem acompanhado na seção Cantinho do Poeta, no endereço eletrônico www.portaluruguaiana.com.br , graças a Anderson Petroceli, o criador cultural responsável pelo site e fotógrafo maior, profissional que sabe como ninguém revelar a dimensão mágica da geografia natural e urbana de Uruguaiana.
14 de dezembro de 2003
COMO SERÁ O ANO DO LIVRO
Não se trata de marketing, que disso estamos cheios. Nem de divulgar um ramo que agora estou metido até o osso. Falo daquele Ítalo Calvino estocado e ainda não lido, aquele Dom Quixote que te emprestei e não devolveste, aquele Proust interrompido no segundo volume, aquela capa dura que precisa colocar no seu velho Lord Jim. Falo de leitura, de companhia. Nada há para ler, a não ser livros. Basta olhar os jornalões dominicais.
MARIA RITA - Maria Rita chega, Elis se despede. Dois lados da mesma viagem, com diferentes caligrafias. No CD de Maria Rita, a intérprete que revela e inventa compositores, destaca-se uma obra-prima: “Veja bem, meu bem”, de Marcelo Camelo. O vai-e-vem, o leva-e-traz carrega Elis enfim para o Outro Lado – de sua mudez nunca nos conformamos – e nos aporta a filha que chega madura, despertando o milagre: eis que nos pegamos cantando, novamente.Maria Rita chega e todos a inundam de saudade, e não pode ser assim. O certo é recebê-la como um milagre e descobrir com ela o quanto temos ainda intacta a fonte da cultura brasileira, a mesma que resiste e tem uma continuidade alimentada pela grandeza. A chave do cd é “Encontros e Despedidas”, de Milton Nascimento e Fernando Brandt: “São dois lados da mesma viagem/ o trem que chega/ é o mesmo trem da partida/ a hora do encontro/ é também despedida. “ Quando Elis se foi, ficamos na plataforma, tontos de espera. Não houve tempo para despedidas. A chegada da filha significa o adeus de quem nos carregou para dentro da forja divina da canção. É a vez de enfim tirarmos o luto e ter fé, apesar dos problemas.
DA GUERRA - Leio enfim Clausewitz e descubro o óbvio: a guerra, diz ele no início do século 19 (1824) é a ampliação de um duelo, é impor a sua vontade contra a vontade do adversário, e para isso é preciso desarmá-lo. Costumam dizer a bobagem de que no Brasil nunca houve guerra. Parece que o mundo chegou com oito milhões e meio de quilômetros quadrados e disse para o brasileiro: “tó, porque tu é bunitim” . O território foi disputado cada milímetro, contra piratas, potências estrangeiras, traidores de todos os níveis, a ferro, facão, tiro e sangue. Os primeiros donatários, os caras que vieram fazer açúcar nos engenhos, eram obrigados por lei a ter pólvora, armas e chumbo estocados, como nos ensina a professora doutora Nanci Leonzo, da USP, no seu clássico oculto "Forças Armadas na América Portuguesa". A guerra da Independência do Brasil durou dois anos, de 1821 a 1823, com batalhas da Bahia até o Piauí, algumas com mais de 400 mortos, como nos ensina José Honório Rodrigues na sua vasta obra (cinco volumes) sobre a Independência. Há um longo histórico de cidades brasileiras bombardeadas, como Manaus, Salvador e São Paulo, esta em julho de 1924, quando canhões poderosos de 105 mm destruíram bairros operários, hospitais e fábricas. Houve saques por toda a cidade. Metade da população conseguiu fugir. A outra metade se refugiou nas casas e enterrou seus mortos no quintal. Paulo Vanzolini lembra que os portugueses tinham a expressão “limpar o rio”, que era matar índios para a região ser tomada. O Pantanal foi disputado palmo a palmo com a “hispanidad”, los hermanitos tão simpáticos. No Rio Grande do Sul, então, foi bala para todo lado. Quando falo em guerra no Brasil, todo mundo toca na mesma tecla, Canudos. Isso é lembrado porque houve um Euclides da Cunha, assim como a Revolução Francesa teve Michelet (que inventou a mística da revolução 40 anos depois da queda da Bastilha). Há uma dívida histórica no Brasil: o estudo profundo das Forças Armadas. Há muita coisa boa e muita divisão nessa área. Mas falta mais, além de uma disseminação da história da guerra no Brasil, para entendermos porque somos tão belicosos, porque um país tão grande, porque salteadores de estrada nos governam, porque nossos heróis (como os combatentes de Monte Castelo) são desconhecidos e porque até hoje costuma-se sepultar a História, como aconteceu recentemente, quando o aeroporto de Salvador teve seu nome, a data histórica do fim da Guerra da Independência na Bahia, 2 de julho de 1823, substituído por Luis Eduardo Magalhães.
RETORNO - Em 2004, leia livros. Pois 2004 será o Ano do Livro. Se assim sonhamos, assim será.
13 de dezembro de 2003
SOLDADO, LAVRADOR, POETA
Nei Duclós
O texto exausto se recolhe e no seu sono esquece a porta aberta, por onde entra a poesia. O poema pode ser noturno, ou assombrar a sesta antes das duas. É quando a palavra se supera, e não se explica. Quando se prosta, o beija-mão da prosa aprende que o verso é criação divina. O autor apenas sonha, de janela escancarada para o dia.
Ninguém gosta de partir sem deixar marca
Coloquei ferro no gado e azeitei armas
Parti menino com um canhão no ombro
Vi generais fugirem a cavalo pelo barro
E soldados trocarem de farda em plena luta
Vi bandeiras demais e a gritaria me cansou
Voltei para ver minha mãe que lá estava
Cuidando das crianças e da terra
Apareci com barba ainda rala, mas antigo
E decidi ficar para consertar a cerca
Ninguém gosta de ficar sem uma bala
À noite eu perdi o sono ouvindo passos
Eram javalis de palha, roendo aldravas
As palavras me escapavam como a água
Percebi que havia um morro derrubado
E fui tirar satisfações no povoado
Fui então atirado numa vala, porque bebi
E não sabia distinguir mais nada
Voltei a pé, contando os passos
Recebeu-me Luiza, aquela que não fala
Levou-me ao catre e interrompeu a faina
Só para me colocar o corpo enxuto e claro
Casei por um motivo nobre, o amor veio depois
Quando ela me deu filhos e pude então ver Deus
Só fiquei intrigado um dia quando uma tropa
que eu vi morrer voltou cruzando o túnel
Os fuzileiros vieram morder meus calcanhares
Mas eu não dei a ordem que os levou para a tumba
Um cão me farejava, quis rasgar minha alma
Fui para dentro de casa e pela primeira vez rezei
Na manhã seguinte a chuva inundou a colheita
E vi-me pobre novamente
Agora vou de novo para a guerra
Nenhum general vai fugir, não vou deixar
Voltarei com espólio, voltarei com prata
Quero semear o trigo onde hoje há pedra
Venham me dizer que não devo partir
Ninguém gosta de viver sem cravar a lança
E fazer um sulco na província morta
Sou soldado, lavrador, poeta
Tentem me tirar o sono, estarei alerta
Ainda parto em dois essa quimera
que fustiga a janela feito musa
Sou o duro amor que peita o inverno
Não faço flor nem fruto, faço trigo
Vendo no mercado o que liberta
RETORNO - Fiz este poema em parte inspirado em Sonhos, de Akira Kurosawa.
Assinar:
Postagens (Atom)
