4 de março de 2022

Cria⁶9tura

Nei Duclós 


Homem tem  a ver com a Terra

Pedras espinhos deserto montanha 

Foi criado bruto

Para viver entre feras 


Já a mulher é  fruto das estrelas

Quando as vemos de longe

E desenhamos esferas em fogo

Mulher é  húmus lava borrasca

Emissaria de sangue seiva nuvem


Homem é  a guerra

Mulher Helena de Troia

Erupção do Vesúvio 

Pomo das Hesperides 


Podemos chama-la criatura

Amor entre armas


 

10 de fevereiro de 2022

RESGATE

 Nei Duclos

Finalmente  encontrei-a depois de dois anos de busca, em estado terminal na maca imunda de um hospital de campanha, nos limites da África setentriomal. Comprei-a de uns guardas vagabundos que a tinham herdado em pagamento de uma divida de jogo contraida com piratas javaneses .


Carreguei-a como um fardo de guerra ate um descanpado onde peguei carona com um aviador detonado, fugitivo de cadeia chinesa.


Levei duas semanas por ar e mar ate chegar ao meu destino. Devolvi-a para a fanilia num encontro pautado pelos berros. Fora vitima de um naufrágio quando atendia populacoes miseraveis e migrantes .


Ela não me reconheceu. Melhor assim. Não é justo, neste mundo aos pedaços, ser chanado de meu único amor.



9 de fevereiro de 2022

EL JUEGO

 Neo Duclos


Me gusta ver  como luchan

Los dos hijos de Serena

Sin cuchillos ni violencia

En juego de campo abierto

Son dos paJaros de oro

A saltar sobre la arena

A tirar sangre en la boca

Quando uno se equivoca

Y se rebienta en risa

Porque tudo es una broma

De muchachos estupendos


Despues vuelven felices

Sucias las dos melenas

A cantar una parodia

Contra los terratenientes


Su lucha es un trenamiento

Para un futuro guerrero

Quando estaran listos

A romper con las cadenas


Como son guapos los hijos

De mi comadre Serena


MARGEM

 Nei Duclos


Inveja eh alma mesquinha

Saco de sal ou farinha 

Peixe que eh pura espinha

Margem seca ribeirinha


Inveja, cruzei a nado

O leito feito de pedra

E ao chegar no outro lado

Vi que o rio tinha sumido


Nao gera nenhum abrigo

Esta falta de compasso

Vivo cercado de cruzes

Que carrego no meu braço


Nei Duclos

28 de janeiro de 2022

JOGO

 Nei Duclos 


Se estiveres voando 

Não se impressione

Eh só cinema


Se estiveres chorando

Não eh contigo

Eh só um romance


Se estiveres pensando

Não se esqueça

Vem de outra fonte 


Se estiveres criando

Não amoleça

Deus esta vendo

22 de janeiro de 2022

FIM DO MUNDO

 Nei Duclós 


O mundo então calou-se

Por não ter o que dizer

Fechou-se em copas

Como as plantas carnivoras

Depois de devorar os últimos insetos. 


O poema mudou-se

Para planetas mais doces

Onde possa sobreviver


O colecionador de sementes

Navega sem porto no mar ignoto

Que bate nos contrafortes

Das serras do amanhecer


Nei Duclós

17 de janeiro de 2022

PERFUME

 Nei Duclós 


Se agora estou vivo

Ainda há esperança 

Mesmo que a dança do extermínio

Se encha de confiança

E imponha o ritmo do funeral na consciência

E o coração esteja tão vazio

Como o rio Uruguai na seca


Agora estou vivo

E todas as memórias  se completam

Povoamos o paraíso de  conflitos

Mas colhemos a flor do fruto ainda por vir

O jeito de resistir 

Imaginando um futuro  com o perfume de conquista



15 de janeiro de 2022

QUATRO ESTAÇÕES

 Nei Duclós 


O que fiz está feito

Não mudarei o entorno da torta árvore 

O corpo é  o que ofereço à eternidade


Os versos são datados

Folhas secas de um outono raro

Véspera do inverno do esquecimento 

Grudado ao verão que o 

anunciou amargo


Fiz por gosto e contingência 

Não fosse o amor

Não teria feito

O melhor de mim

Primavera tardia mas a tempo




14 de janeiro de 2022

COMEÇO

 Nei Duclós 


Aqui, Uruguaiana, onde o Brasil começa

Onde o rio rumo ao Prata abraça o pampa

Somos o sinal de alerta de um país soberano 

A paz da sesta, a pressa do Minuano


Lutamos pelo chão,  

encharados de sangue

Terra de pescadores, de plantas e rebanho


Em tuas ruas largas mora a memória 

Em teu coração montei minha casa de barro 

Meus cavalos de sonho, querencia a céu aberto


Aqui, Uruguaiana

Onde sopra a grandeza

De sermos conterrâneos 



8 de janeiro de 2022

NAVALHA

 Nei Duclós 


Arrisco na oficina

Já gasta de tanto ofício

Duvido que reaviva

A chispa que alimente a trilha


Noto o fio cego da mavalha

Na longa noite de metais sujos

A mão que iluminou maravilhas

Apenas se pergunta 


Serei ainda o ogro do verbo claro

Ou viciei na lavoura do deserto?


Crie o que pinta, disse assim o anjo 

Exausto dessa minha rotina

De morar no céu a inventar o mundo

E não saber ainda qual o meu destino


Acredite, disse ele

Eu só existo porque és exímio

Em produzir o sonho no universo cinza

A revelar o verbo oculto em bruta mina

Mesmo que negues ser o escolhido 


Nei Duclós

2 de janeiro de 2022

A RAINHA DO MAR

 A RAINHA DO MAR


Os versos nascem livres

E cedo aprendem a voar

Pousam em jardins inacessíveis

Onde jamais serão recolhidos para formar uma obra


A poesia sobra 

Ave soberana do oceano


Nei Duclós

NÁUFRAGOS

 NÁUFRAGOS 

Treinei contigo o amor impossível 
Caímos de boca na liberdade virtual
Cada palavra com sabor de verdade
O desejo embrulhado no sonho
O corpo jogado num temporal

Depois acordamos
Como náufragos na praia do real

Nei Duclós 

31 de dezembro de 2021

M,IRAGEM

 MIRAGEM 


Quando enfim apertarmos as mãos 

Depois deste tempo em que encostamos nossos socos

Num futuro ano novo ainda humano

E a dor for apenas memória 

Teremos então uma história para  contar

Nos livros que ressuscitarão 


Nei Duclós

25 de dezembro de 2021

REPARTE

 Nei Duclós 


Irmão é  reparte do genoma

Cromossoma afim, berço, carona 

Porção do mesmo nome

Coadjuvante, persona

Que cresce na divisão do bolo


Adulto, continua criança 

Pela memória comum, fruto de família 


E quando parte leva junto

O que fomos, o que seremos

Órfãos de uma sintonia

Herança bruta

Apenas irmãos 

Na terra onde pertencemos


Nei Duclós

24 de dezembro de 2021

GUARDA

 GUARDA


Para onde vão os sonhos depois que acordamos?

Ficam de plantão  como guarda noturno?

Somem  ou nos perseguem em becos e sombras?


Se escondem fingindo-se de mortos?

E reaparecem como os blocos de sujo

Nas ruas da vizinhança?


Serei o que estava só no deserto?

Na avenida lotada pedindo carona?

Terei asas? Homem  voa?

Sou Santos Dumond que pousa no pampa?


Para onde vou, navegador errante?


Nei Duclós

22 de dezembro de 2021

TERRA SECA

 TERRA SECA O tempo se esvai como chuva na sarjeta escoa seu espírito de correntes Vai diminuindo o fluxo que o alimenta E nos deixa na rua de terra seca Já que o perdemos por não poder retê-lo Olhamos para o céu: Quando voltará seu acervo Estamos com sede, Deus intenso Nei Duclós

AMARELO GRIS

 AMARELO GRIS Que nenhuma política nos divida Nem te afastes por qualquer motivo O tempo exige compromisso Teu coração no meu, prazeroso ofício Não falo de perdão ou o que demais exigem Para compor o laço indestrutivel Abraço no palco e câmara em rodízio Com gargalhadas mudas de orgasmo múltiplo Nosso vínculo não depende do show business Somos precários como antigo circo Sou palhaço e choro E ao cair do trapézio abres um sorriso Não importa tantas brigas Valeu o sacrificio Tomo banho no rio, moras na Bahia Teu cabelo amarelo, minha roupa gris Existe uma nação no arco- íris Nei Duclós

29 de novembro de 2021

PLUMAS

 Nei Duclós 

Sou o pássaro que escuta Ouvido PLUMAS Sou o pássaro que escuta Ouvido canoro de uma festa: Tua voz, trinado de canções ocultas Vivo de ouvido, cantora de violão em punho Pinho de plumas: notas aladas de um convite Sou o pássaro que escuta Teu coração é o pulso Da minha arte, a poesia Nei Duclós de uma festa: Tua voz, trinado de canções ocultas Vivo de ouvido, cantora de violão em punho Pinho de plumas: notas aladas de um convite Sou o pássaro que escuta Teu coração é o pulso Da minha arte, a poesia 

21 de novembro de 2021

BRIGA

 BRIGA Todos conhecem flores Sabem os nomes Batizam espécies Detectam nuances de perfume e néctar Cortam, colhem fazem arranjos Cobertos de papel celofane Exibem as pétalas de colarinhos brancos Mas só tu, fogo, pólen É flor de verdade, cada vez mais bela De olhar mais doce Pele de fada E não pode dizer que me ama Porque tem compromisso E desmaia Toda vez que se declara Aberta como um talho de adaga Depois de uma briga de foice Pelo amor que nega Nei Duclós

0 ADEUS

 O ADEUS O adeus tirou o que tinhas me dado O amor sem limite O sonhar acordado O adeus me levou a viver no passado O perfume da noite O corpo grudado O adeus inventou este rosto riscado O andar de mendigo O olhar sem um norte O adeus não costuma escrever uma carta O correio fantasma Envelope sem data O adeus não permite o muito obrigado Não há mais surpresa Para alguém solitário O adeus não passeia nos cantos da praça O inverno perene A mudez dos pássaros O adeus é o que resta Do teu beijo molhado O ar que me falta O calor da tua graça Nei Duclós

DESTINO

 Nei Duclós 


Morei no paraíso Gênesis da infância Quando o tempo não desanda Acolhido pela memória Tudo o que foi dito é repetido Nos cadernos de aforismos dos antigos Nascemos depois, sob artifícios De palavras escritas por reis líricos Não penso mais, perdi o brilho Quero apenas que voltes, amor perdido Só tu presta atenção ao meu comício E encara minha sorte por princípio Contigo fundo a filosofia Para discípulos do sentimento É o único jeito de ser feliz Entregar o destino à poesia Nei Duclós.

20 de novembro de 2021

LENÇO

 Nei Duclós 


LENÇO Cortejar não é assédio Mas aproximação de comum acordo A diferença está na intenção A corte civilizada não é invasiva nem violenta É amostra do futuro amor E um pedido de clemência Do desejo preso pela distância Atenda meu gesto, bela criatura Sou feixe de nervos, barco sob o sol Alcanço-te um lenço que cedeste distraida Que eu te devolvo em beijos Na tua mão E o sonho de lençóis em nossa vida 

GOTAS

 Nei Duclós 

GOTAS Escapas das mãos como gotas amparadas por um amor sem reservas Que assim te perde Achei que por ter sido nuvem manterias a forma flutuando intacta no crepúsculo Mas veio a noite E veio a chuva Meus pés perdidos estão encharcados De estrelas cadentes E úmidas 

14 de novembro de 2021

TODA ARTE

 Nei Duclós 


Ninguém vive sem a arte A própria ou a feita de outras mãos Momento sonoro no chuveiro Qualquer borrão de lapiseira Brinquedo de vidro, pintura A madeira encaixada na moldura Os garranchos de amor no caderno da colega A fantasia, a bolsa de palha Toda arte é humana corrente De um rio sobrevivente Nei Duclós

SUSTO

Nei Duclós 


O orgasmo como autópsia em corpo vivo Cada órgão vibra em tuas mãos dilaceradas E os olhos roçam o teto Como Tupã troveja na tempestade Na aparência estás muda Sentas na mesa como a deidade desce à terra Depois de colocar a corte de Zeus De pernas para o ar Ninguém ousa perguntar o motivo do transtorno Nem mesmo eu, soldado que ficou de guarda E te viu através de mil cortinas Eras a bailarina na noite em que todos foram à guerra Impossível recusar teu convite Juno, Medusa, Afrodite Levei um susto que rasgou o céu E verteu a teia múltipla de estrelas Nei Duclós

13 de novembro de 2021

CAÇA

 Nei Duclós 

Visitar as palavras na prisão não gera um poema Soltá-las é uma ilusão Pois carregam a punição lá fora A solução é penetrar no mato Atrás do verbo selvagem Fique longe do noticiário Não engrosse a corrente de pensatas Nem faça laboratório atrás da panaceia Não debata, não desconverse Não advogue em porta de cadeia Vá à caça Busque a fera Encontre o canto solto e suas garras 

11 de novembro de 2021

NEVOEIRO

 Nei Duclós 


 O amor desce como nevoeiro depois do entardecer Nao chega a ser neblina, fog, fogo fátuo ou sei lá o que É mais uma chuva, uma paisagem de Monet Que cai em meu sobretudo sem se ver De repente estamos impregnados do bouquet Que teus lábios marcam antes de partir A lua sente pena desse amor que não tem vez E vinga-se soltando plumas, o amanhecer l

10 de novembro de 2021

PERFIL

 Nei Duclós 


PERFIL Todos sabem como eu sou Um rosto para cada verso de amor Todos sabem como és Mulher que nenhuma chega aos pés Não acreditas porque é verdade Arte de Inverossímel beldade 

9 de novembro de 2021

SÓTÃO

 Nei Duclós 

SÓTÃO Visitei o sótão de poemas Guardados numa vida em pensamento Estava vazio, sem serventia Dispersei como areia ao vento Teriam valor? Cedo me convenço Mas fingia a dúvida que já existia Desde o princípio O resto, perdi tempo Talvez fossem fortes num primeiro instante E ocupassem espaço, os tratantes No fundo eram apenas companhia Para a solidão do espírito sem habite-se Chega o momento em que não mais funciona O charme e a autocrítica infame A obra é um sonho no derrame Ficamos paralisados pelo medo O segredo é saber onde se situa A palavra afiada em terra bruta És pedra, me disse um anjo Voas no alto da montanha Toda vez que a águia soberana, os sobreviventes Pousam os olhos em teu encanto São as vitórias numa guerra perdida, a de ser humano Nei Duclós

1 de novembro de 2021

LUZ QUE TE DESENHA

 Nei Duclós 


LUZ QUE TE DESENHA Venha dizer, maçã e gerânio. Sopro macio, que cruza o oceano. Domar a vontade de perder-me. Mergulhar na luz que te desenha Dormimos ao relento de um amor no começo. Complicado jogo de cobertas. Acordamos em alto mar, mortos de espanto. Não há segredo. E quando houver, deixe. Fora do molde, longe do modelo. Apenas nós, criaturas precárias. A única força é esse sentimento. E, claro, o extremo cuidado com algum detalhe, para fisgar o beijo. Te escondes, tentação de fogo. Me queimo, diante do teu corpo. Falo cifrado para que não atentem, pitonisa de sonhos. Estavas quieta, contente. Fui mexer contigo, travesso. Lançaste uma flecha, veneno. Depois me queixo, em teu banho. Lanças uma ponte, o namoro. Difícil, com minha vocação de abismo. Te inventei, porque te foste. Depois que me desconstruíste. Arquiteta pelo avesso. Floriste, por hábito. Oculto riso sob o rosto imóvel. Ninguém viu a correnteza interna. Só eu, demiurgo do verbo. Não sei mais o que dizer, disse ele. Permaneça no beijo, disse ela. AGRADECIMENTO Tanto amor que nem mais cabe nos limites do dia. Extrapola, como estrela cadente ao contrário. Sai do fundo da terra para o espaço Incendeia-se em permanente viagem Tanto amor que vira ciranda na mecânica dos astros música das esferas constelação de abraços Nei Duclós Para todos que me felicitam neste 29 de outubro