16 de agosto de 2019

O SOPRO RECOMEÇA


Nei Duclós

Só fiz o bem
E o mal foi um conselho
Aprenderei
Conforme vai o tempo
E voltarei
O sopro recomeça

Só fiz o mal
E o bem foi um tropeço
Acertarei
Se houver a nova chance
Lá estarei
Se for a flor que sangra

Só fui amor
No mundo indiferente
Me plantarei
Rebento no deserto
Combinarei
Corcéis do vento leste



15 de agosto de 2019

A DOR E A GRAÇA

Nei Duclós


Tudo o que é sério provoca riso
Toda comédia é fruto de um drama
Todo choro soa falso
Toda gargalhada é mal vista

Chamam de humor quando o certo é a graça
Chamam de dor quando a verdade ataca
Gosto de ver o que faz o palhaço
com sua tragédia. Tropeça para alçar voo

A vida é um circo para exibir o trapézio
um salto bruto que a rede não segura
Fomos devorados pelos leões da jaula
A lona pegou fogo, garantiu a manchete

A morte parece estar sob controle
na arte que mostra os dentes e a lágrima
mas é só um treinamento que a Monstra
dança como bailarina nos cavalos

A memória captura as perdas
mas depois tudo some pelo ralo
Fica o poema, serragem de picadeiro
que a chuva transforma em lama tóxica



14 de agosto de 2019

A CARA E A CORAGEM DO MEDO


Nei Duclós

Medo e inevitável para quem está vivo e passa por radicais transformações do berço ao desfecho. Mas cara e coragem para enfrentá-lo ou aprender a conviver com ele são opções. Você põe a máscara para sobreviver, mas isso tem a ver com o mundo de fora. Dentro a carapuça não cabe, você se vê inteiro, enxergando a morte como uma longa sucessão de perdas desde cedo. A escritora Aline Bei, que ganhou o Prêmio São Paulo 2018 como Livro do Ano na categoria estreante, expõe no seu romance O Peso do Pássaro Morto (Editora Nós, 2017, R$ 36 com a autora, frete incluído) esse tecido que embrulha a infância numa embalagem pesada do mundo adulto, e a vida adulta num celofane transparente de sentimentos dolorosos.

A estrutura do livro, em que cada capítulo corresponde a uma determinada idade (8, 17, 37, 48, 49, 50, 52), com a linguagem apropriada a essa marca do tempo, é um monólogo de solidão, abandono, desespero em busca do amor, que sempre falta nas relações familiares e profissionais. Tem tudo para ser um livro pesado, mas é leve pela maneira encantadora que Aline imprime em cada solução de linguagem, sempre surpreendente, em que as frases são expostas nas páginas em peças interligadas, orientando a percepção que fazemos de tão rica narrativa.



Como o livro é mais inteligente do que a resenha, é preciso não ousar inventar a pólvora e deixar que flua a contundência estudada da autora, um texto fragmentado e ao mesmo tempo inteiro, num ambiente quântico em que as realidades convivem aos saltos, esclarecendo a alma da personagem, dividida entre a frustração profissional, a memória afetiva, o embate com as rotinas, o recolhimento autoimposto e a crueza de dizer o que não pode ser silenciado.

Grande livro. Um assombro de talento e trabalho com a linguagem. Vejam isso: “...uma casa empilhada no meio de tantas outras naquela rua feia que por várias noites a lua esquecia de passar.”

A vida não tem cura. Escrever poderia salvá-la, mas quem evita a carta perdida que some no quintal abandonado? Aline não nos dá esperança, a não ser na literatura brasileira contemporânea.




10 de agosto de 2019

FIM DO DIA

Nei Duclós


Acumulei assuntos para dividir contigo
Mas estavas ocupada alimentando os bichos
Nosso quintal imenso já era domínio da lua
E as estrelas forçavam a entrada na arena

Aos poucos o galpão aquietou-se
E nosso pouco gado conformou-se com a cerca

Voltaste suada com os baldes e panos
Restos de ração nas botas de borracha
Eu tinha feito o fogo e esquentava a janta
Não pediste ajuda mas eu te dei o banho

Foi quando um pé de vento chutou o telhado
Chove esta noite, disseste entre bocejos
E dormimos juntos, como sempre fazemos

Deixei os assuntos para o dia seguinte
Depois do aguaceiro
O rádio pega bem as últimas notícias
Tem um chiado, mas ainda escuto perfeitamente
 

5 de agosto de 2019

BRANCO DE LINHO

Nei Duclós


Não esqueça do poema
Convite a céu aberto
Sem divisões de renda
Ou alguma preferência

O verso só junto à nuvem
Poeira que o corpo avista
Palavra que nos ensina
A compor sem instrumento

Maestro de sinfonia
Pião de eterno rodízio
Que giramos sobre a mão
Como no perdido tempo

Quando o tempo ainda havia
Na infância que se perdia
Roupagem de linho branco




OBRA DE ARTE

Nei Duclós


Vida é arte
Obra é o que fazemos dela
Expomos as formas e a alma
Impregnados pelas cores das horas

Embaixo a assinatura
Com tinta invisível

Deixe de lado, missioneira
Tua rotina longe das telas
E me desenhe

Eu, pássaro que se debate
Nas grades de tua astuta gaiola



SONORO ESPÍRITO


Nei Duclós

Falo perto quando posto amor
Longe se for desabafo
A palavra pousa ou atropela
Conforme o piloto, o poeta
Ou quem decide dizer o que lhe toca

Falo baixo para driblar o ruído
Se quero chegar ao privilégio, teu ouvido
Ou grito para anunciar a amizade
Do outro lado da rua

Escuto teu sussurro
Embalo teu discurso
Fica no ar o sonoro espírito
Como as nuvens que velam o precipício



31 de julho de 2019

CONDIÇÃO E OUTROS POEMAS


CONDIÇÃO

No fundo queremos companhia
Remorso por tanto tempo sozinho
Nascemos para nos projetar em luz e sombra
Acolher e ser acolhido

Chamam de amor essa emoção de arrimo
É a condição de abraçar o que evitamos
Sermos humanos

Nei Duclós

CHARADA

Para ti sou novo, me conheceste agora.
Mas não sou moço, tenho História

Para mim sou antigo, mas não me conheço
Quem sabe me dizes o que ignoro?

Nei Duclós

DENTRO E FORA

Não estou sorrindo
Mas isso não importa
Guardo o que não vês
Escondo o que sinto
E exibo a boca torta
De um rictus cevado pelo sofrimento

Mas estou contente
Com minhas provas
De que estou vivo na tormenta

Não estou chorando
Mas dentro medra a dor que não compartilho
Minha alegria é o espírito que me anima
A poesia

Nei Duclós


Não use nada
Só tua alma
Teu coração
Solitário
Tua porção
Do itinerário

Não pegue carona
No notório
Só tuas mãos
Vazias
Só teus dias
Nem mesmo
Tuas memórias

Enfrente o mar
Com teus braços
Finos
Teu peito de cão
Teu corpo tímido

Saia do chão
Com asas ainda úmidas
Presas na oficina

Só tens a poesia
Unico clarão

Nei Duclós


FÁBULA

Tirou-me a bala do peito
O cirurgião residente
Apostou que havia vida
No corpo já sem proveito

O coração se salvara
Por falta de pontaria
O gatilho obedecia
Ao tremor do assassino

Voltei à tona um dia
Depois desse desperdício
Quis a vingança do crime
Mas na hora me contive

Um anjo encarregado
Por Deus ou o seu pupilo
Para livrar-me do erro
Veio então falar comigo

Deixe a obra do destino
Diga sim à sua vontade
Disse a doce entidade
Com a voz de profecia

Tirou-me toda a maldade
Embora eu seja a vítima
Convivo agora com o tiro
Não permito que se espalhe

Nei Duclós

CENA

Na fresta do luar colhi a estrela
Que pousara seu corpo ainda quente
Na areia improvisada de uma praia

Eu era moço, feito de sistemas
Que permitiam viver sem ter acesso
À natureza íntima dos mistérios

Mas foi chegar na rústica morada
Que a onda construira sem alarde
Junto ao aglomerado de um rochedo
Depósito de astros em recesso

Para eu provar o bálsamo do enredo
A trama do convite a uma festa
Em que dancei patrocinado pela lua

Não faz sentido o gesto de Netuno
Que empurrou do mar uma sereia
Eu não estava a merecer aquele sonho

Ainda engatinhava no poema
Mas a cena me ensinou a transcendência

Nei Duclós

16 de julho de 2019

MIOLO DO DRAMA E OUTROS POEMAS


Nei Duclós

MIOLO DO DRAMA

Poesia é a percepção da palavra
O seu uso
Ela mesmo importa menos
Você pode fazer um poema com palavras mortas
Desde que você veja. Você enxergue

A palavra em si não leva a nada
Evite dizer amor quando se apaixonar na cama
Diga adeus e sofra como um cão
O destino, a poesia, te levará de volta
Ao miolo do drama



DEIXA ESTAR

Perdi o bentevi pousado no fio
Fui fotografá-lo mas já era tarde
Perdi o registro da imagem
Mas não a palavra sobre ela

Não vou descrever a cena
Pois poderão dizer: não é o pássaro que estás pensando
É outro, de peito branco e a cabeça amarela e preta
Vai estudar as aves, é o que dirão
Não é bem te vi o que ele canta ou pia
Isso é sua percepção
Sua poesia

Mas agora estou de tocaia
Para provar que tenho razão
Ele há de pousar de novo, o salafrário
E posso garantir: não era gorrião sabiá ou canário
Nem pomba rola ou quero quero
Deixa estar
Tenho a manhã toda para provar
Não importa o vento frio da varanda
Tenho o sol e o céu azul



CIRCUITO

Há tempos sai do circuito
Agora curto

O problema é a faísca
O choque mudo

A energia vai toda para o sonho
Estive na rua sem jamais ter saído

O tempo é um papel que voa baixo
E às vezes levanta num pé de vento



NÃO PARECE

Poema é quando não parece poesia
Não tem o clima
Nao força o estilo

Também não é quando sai no bate pronto
Como este poema
Não é suor nem lágrima

É construído para não ser o que se espera
É quando ninguém recita
Guardado porque não publica

Então do que se trata
Se não rima nem tem verso livre
E fica oculto junto com a lenha?

É só poesia que não se identifica
Bilhete de falso suicida
Palavrão escrito na areia
Pixação depois que esquecem o conflito

Fica a parede com frases perdidas
Como greve dos jornais, minta você mesmo
Ou algo além do enigma
Escrito por anônimos
Como catavento não gera poder central

Mas isso não parece poesia!
É como eu ia dizendo



SUBMARINA

Digo por dizer
Se eu disser mesmo posso me arrepender
No fundo calamos para sobreviver
Só depois vem à tona a palavra tonta de dor
Submarina versão do que evitamos de pior

No fundo a alegria é um nado livre na superfície
Driblamos o olhar assassino do destino
Tocaia do azedume

Rio de mim para que flutue a liberdade do ser



DUPLA JORNADA

Mulher, matriz de criaturas
não se limita ao cânone obscuro
É igual ao que pensas ser só tua
A vocação da presença e da conduta

Dupla jornada, a de ser e abster-se
Para que seu fruto no tempo se abasteça
Parece fácil para quem em si concentra
Os princípios que não trazem diferença
A ilusão de fingir que nasce único

Mas vá fazer o que Deus não experimenta
Por ser homem à imagem e semelhança

Vinga-se o poema confinado
A celebrar o romantismo já enterrado
E o verso pelo ourives em minúcias
É a vez da esgrima sem firulas

Pois é cama de gato que ela apronta
Ao surpreender o mundo com sua grua
De lá somos filmados como bichos
Numa obra que é de corte e não costura



7 de julho de 2019

DORSO DE LOUÇA E OUTROS POEMAS


Nei Duclós


DORSO DE LOUÇA

Não conteste o poema
Não porque seja fruto de certezas
Mas porque os anjos sopram
Suas sílabas sobre o vento

E as velas levantam em direção ao norte
Com o tempo fechado em todas as comportas

Deslize em seu dorso
Navio gigante que aporta numa louça
E consome a fome de perguntas



Se a política foi o motivo
Da ruptura depois do conflito
É porque não prestava o vínculo
Cultivado pelo sentimento

Dói assim mesmo, inconsequente

Não faço estardalhaço
Não chuto o balde
Nem digo que vou viver no anonimato

Não posso fugir
flor de cacto

Moro no sonho desfeito
no moinho abandonado

Tenho tantos livros
Um dia não estarão mais comigo
Farão parte do teu pão, teu abrigo
E nem lembrarás
que fiz sangrando

PASSAGEIRA

Você melhora a cada dia
Renova o sonho, fica na sua
Escreve ensaios e compartilha
Viaja ao Butão depois à India
Volta só para ver a família
Quer outro mundo e por ele briga

E eu?
Eu espero
De guarda chuva aberto o fim do inverno
Quando virás trazendo sementes
Que plantaremos em terras de conflito

Por enquanto leio tuas cartas
Passageira noturna




EUCARISTIA

Ficamos mais próximos de Deus conforme a idade avança
Não íntimos porque não existe espaço doméstico no paraíso
e ninguém toca a tunica da divindade para saber de que pano é feita

Ficamos como irmãos do Senhor a jogar dominó com os anjos
E imagino que ao chegar aos cem O trataremos como Filho

O filho que se foi na faixa dos 30 anos
Teu Filho, Senhora
Tende piedade de nós, almas desamparadas
Que roçam a heresia por viverem muito
E tudo se reduz à essência do Espirito

Desça com suas linguas de fogo
Terceira pessoa que conduz a Eucaristia
Ficamos mais religiosos
À medida que o tempo avança

Sobe aos céus a Poesia



O POÇO

Teu coração agora é de pedra
A política sepultou o teu poema
No fundo desse poço o verso grita
Mas não se salva, sonho nas correntes

Nem viste teu punho cortando as asas
Achavas que a razão te segurava
Mas és apenas um peão, uma aldrava
Fechas a ilusão sobre o penhasco

Diga uma oração, quebre o que mata
Volte à poesia, mãe de toda água
Sagrada comunhão que te resgata

Deixe o crime sem tua vocação a segurar as pontas
Veja como fogem quando despertas



TERRA FOGO ÁGUA AR

A Terra é plena
Plena de mar

O mar é a Terra
Solta no ar

O ar é o poema
Fogo de estrela



XANGRILÁ

Tua beleza me adoece
Não possuo acesso à cura
O que sinto convalesce
Nas curvas de uma aventura

Mantenho perto as bagagens
Para subir a montanha
Até a estação das neves
Xangrilá das tuas trilhas

Enquanto percorro as pedras
A tempestade do clima
Que manténs com tua conduta
Se abate em meus domínios

Ligo para alguém, o destino
Para descobrir a armadilha
Em busca de uma esperança
Que devolva a minha vida

Desça que o tempo está feio
Me diz o deus que me expulsa
Ela pertence ao império
Dos compromissos divinos

Embaixo do mau Olimpo
Toco a lira e te cultivo
Quem sabe a flor que carrego
Não me seja devolvida



BONECO DE PALHA

Você diz perdoa mas não se arrepende
Diz que não está e se esconde
Sarça ardente, leão de bronze
És personagem, cavaleiro andante
Na companhia de saltimbancos
Cuidas dos guizos, boneco de palha
Tua acrobacia é a palavra



MIGRAÇÃO

Migrei para ter outra vida
E a mesma foi na bagagem
Fugi mas precisei voltar
Ficar foi minha ruína

Fora disso
Vivi feliz onde tua flor
encontrou abrigo



MARESIA

Não importa o que digo
Mas a música que eu produzo
Palavra é melodia
Composta pelo uso

O conteúdo é datado
Pode ir para o lixo
Já a canção fica
Nova a cada crepúsculo

Cante
Aprenda a sonhar
De ouvido
Leia o som deste violino
Toco para ti, maresia




30 de junho de 2019

O MELHOR JORNAL DA REGIÃO


JACK O MARUJO NO BOM DIA FLORIPA

O melhor jornal da região dispara: há 200 anos jogamos esgoto no mar. E ainda falamos em qualidade de vida.

Na última página: Jack, O terraplanista do mar. Jack o Marujo implica e estoca quem se atreve a fazer perguntas.


POEMAS PARTIDOS

Nei Duclós


Esses poemas partidários
Cúmplices de tiranias
Cegos pela ideologia
Solidários com os crimes

Esses poemas datados aparelhados
Desperdiçam a grandeza do poeta
Que se foi antes que os verdugos
Aproveitassem sua obra para obter eterno poder

Esses poemas desamparados pela utopia traída
Moram em meu coração
Eu os recito levantando o punho

O sonho se realiza quando tudo estiver perdido




DIGO TANTO

Nei Duclós


Digo tanto que nem acredito
Desconfias que o principal eu guardo
Que economizo para o fim do inverno

Pode ser verdade
Costumo esquecer os melhores versos
Depois descubro que eles te cercam
Mas não escutas, feminina seda


DESLUMBRE

Nei Duclós


Desejo que extrapola gera desconforto
Ponha-se ao alcance do meu beijo
Vivo nos limites fisicos do querer-te
Mss só quando consentes invado o terreno

O prazer mantem-se no banco da espera
Navegue seus ombros para o deslumbre sincero


VI DEUS

Nei Duclós

Vi Deus, finalmente
Suas faces de ferro
Suas mãos de granito
Seu corpo de gelo

Ou foi apenas um deus
O Tempo


BRINCADEIRA


Nei Duclós 

Para você foi tudo uma brincadeira.
Nossos pés expulsando o inverno.
Beijo mais intenso
do que uma tempestade.
Os gritos de amor noite adentro.

Foste embora como lufada de vento
 que vibra a rede na varanda.
Nem viste a lua despencando
 no canteiro que cultivamos.




27 de junho de 2019

OSCURO OLIMPO


 Nei Duclós

 Te quiero, diosa
Como quiere un diós la más hermosa
En este Olimpo sin mitologia
Con todo amor
Y su oscura geografia

Quiero tu cuerpo
Que es la vida que jamás
tendré un dia



PITONISA, A LENDA

Nei Duclós


Um cavalo pasta a nuvem
E revela a lua
Monto na garupa
Tuas costas noturnas

Multidão de estrelas
Caem sobre o dorso
Em que habita o rosto
De selvageria

Inventei a lenda
Flor oferecida
Debruças o corpo
Sonho que adivinho




DEUSES INVISÍVEIS

Nei Duclós


Do nada fez-se o mundo, provam os cientistas
Deus providenciou tudo, acreditam os fiéis
O Acaso define-se pelo capricho, notam os curiosos
O Criador é o artista maior, basta ver o crepúsculo

Não resta ao poema senão dedicar-se a assuntos menores
Como a flor no quintal, o desagravo do herói
A multidão que cruza o mar por uma nova vida
O amor que tarda, o sonho impossível

O poema é o que ocupa o Tempo em sua odisséia
Rezando a deuses invisíveis
que se manifestam nos trovões
e no grito dos recém nascidos




PÉS DE BARRO

Nei Duclós


Tentei chegar na rua
Mas foi- se tempo
em que eu pisava estrelas
e me encantava com a surpresa
de encontrar a lua

Mantenho-me quieto
como adivinho à espera
de um anjo que trará escrita
a canção ainda não composta

Tudo é armadilha do poema
tua flor oculta
meus pés de barro



24 de junho de 2019

ZERO


Nei Duclós

O óbito zera tudo
Os diplomas, os salarios
Até mesmo a memória

O universo não sente falta do que devora

Fica apenas esse pio de pássaro no entardecer da eternidade

E as mãos do sol sumindo no abismo
Puxando a noite pela rede de estrelas
A única que te consola




O INCRIADO


Nei Duclós

Os antigos estavam mais perto de Deus
E O representavam em monumentos talhados nas montanhas
Seus altares ainda sobrevivem em forma de pedras maciças
Indecifráveis vestígios de uma civilização fundada na arte
Que é a fé exposta ao toque dos descendentes

Somos depositários do que não compreendemos
E por isso devemos ficar contritos diante do mistério
Que é o Incriado, fonte do que somos
Humanos de olhos em pânico
Voltados para o infinito



A FACA NA ÁGUA

Nei Duclós


A poesia não está na palavra
Mas não há outro caminho
A não ser o canto estilhaçado
De quem busca o voo no ventre da asa

Esses versos que se espalham
E se concentram sugerindo vozes
O som das vogais no verbo "sonora"
A vida consoante o silêncio

A infância autentica, que não mais lembramos
Mas que a poeta captura
Pelos vestígios
De uma arqueologia como cerração
Espessa para quem acorda
Linha de fio da faca na água
Para ver o que tem dentro

A dura liquidez pingando num livro aberto
Em que a linguagem passa e deixa nos espinhos da trilha
Um fiapo animado pelo vento
Uma confluência de inúmeros achados e perdas
Um reencontro sem as velhas vestimentas



RETORNO -Sobre o livro ÁGUA DURA, de Juliana Meira
( Artes & Ecos, 73 pgs.)

É SIMPLES

Nei Duclós

É simples ser mulher, ela me disse
Complico para evitar abuso
E nisso acabo acostumando
Fico triste só de implicante
Acho graça quando ninguém está vendo

Não quer subir? ela me disse
Na hora em que eu estava desistindo


MURALHA DE GELO

Nei Duclós


É um vício te fazer companhia
Eu poderia abandonar-te, como fizeste um dia comigo
Mas imagino que uma aventura não tem limite
Há terras além da muralha de gelo
Há mapas que mostram o desapego
Entre a lógica e o Tempo

Basta saber o que fazer
Com esses domingos de inverno
Em que caminhas em ruas tranquilas
Sob um céu de primeira missa




SINAIS DE PANDORA

Nei Duclós


Esses versos que visito
E nunca mais participo
São minha porção da desmemória

Algums ficam
Como as ruinas depois da tempestade
O vento não é o momento
Mas sua travessia

Escuto a poesia que foi embora
E recito os sinais que se soltam
Da caixa de Pandora




PELE ARISCA

Nei Duclós


Não há motivos para tanta poesia.
Guarde-se para os piores dias
Faça contas e veja
Quantas manhãs ainda te restam
Escreva sobre a dor, poeta
Já que perdemos o dom da alegria

É o que dizem
Quando passam a toda
Pela minha janela
Mas eu encontro só o que vibra
Desejo e sonho em tua pele arisca



20 de junho de 2019

NAVAJO

Nei Duclós


Não fugi para um rancho no México
Fiquei no desfiladeiro segurando o fogo
Todos os companheiros se salvaram
Menos eu
Mas levei para o buraco um batalhão de inimigos

Nunca fui índio
Mas me chamam de Navajo
Hoje meu corpo faz parte das pedras do deserto
e alimenta as ervas cultivadas pelos lagartos

Eu nada tinha a perder
depois que ela levou um tiro
e caiu dos meus braço




RETORNO - Imagem: Kody Dayish, ator e diretor de “Unbroken Code” em Santa Fe

10 de junho de 2019

ATLAS

Nei Duclós


O tempo é feito sem relógios
Mas com os dentes que formam as montanhas
O sol se põe depois das dez
Seus raios penetram a pedra na véspera da noite

Tudo é obra dos gigantes que sustentam a terra
Atlas tem ombros de mármore
O mundo está estacionado
Como navio imóvel em calmaria

Só o vento forjará o movimento
É quando a eternidade convoca os ponteiros



PALAVRAS

Nei Duclós


Tem palavra perigosa
Que marca data
Para o desencontro

Tem palavra que escorrega
Te deixa esperando

Tem palavra sem sentido
Um bilhete que se desmancha na chuva

Tem palavra que se entrega
Esse rosto que se cobre com tua lágrima

Tem palavra fina
Tem palavra bruta