14 de março de 2014

DECISÃO



Nei Duclós

Morrer é muito íntimo
não devia haver testemunhas
Morrer sozinho, igualzinho
à vida, em que ninguém
consegue chegar perto
de outra criatura

Todos devem virar o rosto
na hora do desfecho
ser datado parece destino
mas é livre arbítrio, o certo
é que embarcamos por natural
vontade

Essa é a vergonha na passagem
o de termos escolhido
a viagem. Mas como é segredo
é preciso fingir que sentimos
muito, para ficarmos
à altura de tanta lágrima

Aturar depois os chamados.
as velas, as barbaridades
que dizem sobre nós, distorcem
as histórias pela culpa
que nos atribuímos por ter ido
embora

Morrer não precisa de alma
basta evaporar-se
O mistério é essa decisão
de partir cedo, quando
poderíamos ainda cultivar
nossa vocação para o cinema

RETORNO - Imagem  desta edição: Orson Welles em Citzen Kane

LISO CÉU


Nei Duclós



Iluminou-se de azul
a sexta-feira de março
liso céu sem cadarço
lívido véu que transparece
o dia e suas promessas

A semana cumpre seu ritual
de esperas. Cultiva o outono
como se fosse a primavera
tenho-te em flor, gênero
que brinda com a diferença

Sou teu amor, na saúde
e na doença. Transmito calor
em canteiros à sombra
asas abertas sobre a cabeça
lua de dia, estrela com pressa
 

RETORNO -  Imagem desta edição: foto da Suzi, RJ.





BARRO



Nei Duclós

O que é a nacionalidade
uma identidade, um nome, uma raça?
ou são as palavras que se transformam
em carne, no mesmo corpo
solidário, amargo?

Uma bandeira serve de moldura
ou é a própria essência do quadro?
Duas, quatro cores, um sinal, um sol
uma lua. A faixa cruzada na esfera
o que é um pano sem tambores?

Será a memória, funeral da linhagem
papéis de letra morta, aula de História
cálices, cristais, móveis. Uma cidade
que não te reconhece, o tempo sóbrio
sob lençóis em casas demolidas?

Qual nação pertence ao teu exílio:
o que encontras depois da dor
ou o que nasce, árvore torta repartida
em galhos de solidão?  Compartilhas
já o infinito ou adias, em doses?

O que é o berço, ninho no penhasco
de onde te atiras, infância sem perdão
uma linguagem, um peso pluma, as vozes
de uma liturgia muda? Ou tua cama,
farol de ti, ilha cercada de paixão?

Vi nascer a cena no palco, personagem
sem roteiro, de ponto soprado
a recitar para o vazio. A costura vinha
de algo fora de mim, teu olhar, som
de um pêndulo posto sobre o teto

O que é um país senão a mesa posta
servida com o amor que se esvaiu
a família dos gestos impuros, a humana
biografia sobre ruínas e teu pulso
de veias e sangue, cria da divindade



RETORNO - Imagem desta edição obra de Sir Francis Bernard Dicksee.

10 de março de 2014

MIGUEL RAMOS



Nei Duclós

De todos os amigos, o amigo.
Escolhido pela essência da amizade
que dura toda vida

Dos que se foram é o que fica
porque foi feito de entrega
e sintonia.

Dos que fazem arte, o artista
a vocação profunda
o coração da biografia

Dos que sonharam, o mais firme
do amor, protagonista
do sonho, seu demiurgo

Todos confluem para a despedida
Vais com a roupa do corpo
e a eternidade em seu jugo

Encarnas o que somos, ator
da palavra aberta
humana flor que não volta

Dos órfãos de ti, sou ferido
do que perdi tão cedo
e ter nascido contigo

 
 

9 de março de 2014

CONTINGÊNCIA



Nei Duclós

Cruzei o ardor do deserto. Me multipliquei em viagens sem volta. Nada encontrei a não ser o verso. Passo necessidade sem maná no alforge.

Segui o rastro do vento. Enredei-me em temporais de areia. Vislumbrei teus desígnios, beduína que não me acena.

Me afastei por contingência, permaneço por preguiça, sonho com um novo espanto. Nasce o sol que estava exangue, a manhã clara dos poemas.

Sou uma persona da poesia, território ignoto onde o Tempo, para entrar, pede licença. Tenho idade para ser tua semente.

Hoje vivo à parte, entre urzes. Me alimento de raízes. Chuto tufos de gramíneas. Espanto passarinhos. Anoto o roteiro dos navios distantes, que me observam, tementes.

Não reparto, não convido, não convoco, não aceito, não confisco, não comento, não expludo, não me atenho. Perdi a humanidade com o vento.

Não gosto de te amar. Dá trabalho. Prefiro o vazio, que permite o sono. Acordar em ti é algo tremendo. O universo se precipita com teu beijo.

Depositei o amor na calçada. Pensei que estivesse pesado. Mas de repente ele foi colhido pela brisa e levantou voo. Foi-se até as nuvens, o tratante.

Pensei que já fosse domingo. Mas consultei o calendário e notei que era ainda um esboço imaginando o desenho.

Não acho que seja importante. Não fazemos parte do target. Medramos em muros sem cuidados. Emitimos som sem alarde. Jogamos limpo, verdade.

Fujo do que não me habita. Abraço o que te faz faceira. Quando precisas, violento, mas é só uma quebradeira de conchas na areia.

Na tua melodia sou a letra. Escrevo em meu gabinete, bairro oculto das estrelas.