17 de dezembro de 2008

OS MELHORES DE 2008


A tradicional lista do Diário da Fonte acumula algumas vitórias ao longo da sua história. Na última segunda-feira, por exemplo, na Noite do Livro, o Prêmio Açorianos de 2007 contemplou Marco Celso Viola e seu grande evento Porto Poesia, um destaque aqui do DF na lista de dezembro do ano passado. Esse é apenas um exemplo. Antes de irmos para os contemplados, mais uma vez quero dar os parabéns ao Marco Celso pelo trabalho que está realizando em Porto Alegre, a cidade da Cultura.

Esta é uma lista pessoal, circunscrita ao meu olhar, inspirada em meu ver, ouvir, sentir e até mesmo adivinhar. Ou seja, igualzinha às outras. Ela começa assim, mas pode melhorar ao longo dos dias, até o final do ano. Participe e dê sugestões.

POESIA

Rubens Jardim com “Cantares da Paixão”: primeiro livro em 30 anos do grande poeta que traz de volta a palavra unida às fontes do verbo abundante e radical das falas do Brasil revisitadas pelo tlento inovador.

Pedro Du Bois: seus poemas inéditos, enviados por e-mail são de grande qualidade e intensidade poética. Destaque obrigatório deste ano para um trabalho contínuo, persistente, ótimo.

ROMANCE

General Osório e seu tempo : o monumental livro de José Antônio Severo compõe um mural sobre as guerras de formação de fronteiras e resgata a coragem dos que ajudaram a inventar um país.

O detetive sentimental
, de Tabajara Ruas, lançado pela Record. O grande escritor continua a mil, apesar da mídia se ocupar com outras personalidades, mais carimbadas.

TELEVISÃO

Profissão: Repórter. O programa de Caco Barcelos, apesar da suíte de ontem sobre Sat Catarina, é o que há de melhor na TV brasileira. Pena que vá ao ar quando o programador do traço está na ativa, ou seja, aí pela madrugada. Esperar pelo Caco é sofrer com o Toma Lá Dá Cá, que jamais sai do ar.

MÚSICA

Coleção dos 50 Anos da Bossa Nova, da Folha, organizada por Ruy Castro. Um resgate do melhor da música inesquecível, que mudou o som produzido pelo mundo.

Oly Jr. e seu estupendo cd Milonga Blues, um trabalho que nasce clássico e ao mesmo tempo lembra e projeta sons.

BLOGS

Luiz Carlos Merten: posts magníficos sobre a Sétima Arte, imperdíveis. Merten está solto, costurando tudo, lembrando tudo, entregando todas, um banquete para os amantes do cinema.

Paulo Moreira Leite: o importante e talentoso repórter e grande editor mantém um blog sério, de primeira e cheio de análises, informações e provocações.
Clovis Heberle: memórias, artigos, viagens: uma trajetória fundada na força da vivência e na emoção do resgate.

Blogs familiares: meu filho Daniel implica com minha lista dizendo que ele ganha todos os anos, chegando inclusive a vencer na categoria Melhor Blog para Curso de Letras da USP. Implicâncias à parte, neste ano os blogs familiares detonaram.
A começar pelo internacional e carismático Ducs em Amsterdam, que Daniel e Carla Duclós (filho e nora) mantêm para a alegria dos amigos, familiares e viajantes à Holanda. O Ducs são já referência para quem quiser viajar para lá.
Miguel Duclós (filho), nos últimos tempo, detonou no seu blog (link ao lado) com vários posts de grande intensidade cultural, com insights provocadores.
Juliana Duclós (filha), com seu FreakMothers (link ao lado) está postando sobre arte e infância, um trabalho de grande repercussão na rede.
E Ida Duclós (esposa), depois de nos deslumbrar com sua pesquisa sobre as raízes italianas, foi buscar em Portugal as origens da família da Carla, provocando também grande alarido (link ao lado no Nada a ver).

INCENTIVO À LEITURA

Espaço Literário, do Comunique-se, editado pelo escritor e jornalista Pedro J. Bondaczuk . Cinco crônicas diárias, há mais de dois anos, com mais de cem colaboradores, entre os fixos e os que se revezam: eis um projeto de primeira água, fonte de mais criatividade e com um grande potencial para que a maior parte dos textos saia na forma de livro.

CINEMA

Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles. Um filme baseado em José Saramago, cacifado pelo dinheiro internacional, que tinha tudo para ser um blockbuster mas que, nas mãos de Meirelles se transformou em mais um filme brasileiro: como o Brasil é visto por quem enxerga sozinho o caos promovido pela cegueira geral. Um clássico emergente.

O cavaleiro das trevas (Dark Knigh), de Christopher Nolan: ele não é um herói, não é um vilão, é Batman, o cara. O filmaço que nos arrebatou em 2008.

Enquanto a noite não chega, de Beto Souza, com Miguel Ramos e Clenia Teixeira. Nem entrou em circuito comercial, mas já é um dos melhores do ano. Casal se recusa a sair da cidade condenada: a resistência poética e sem esperança no país terminal. Baseado em texto de Josué Guimarães. Como está aqui nesta lista? “Vi os cartaz” dizia meu irmão João Carlos quando perguntávamos como sabia tanto detalhes sobre filme do Zorro que nem tinha chegado ainda na cidade.

Netto e o domador de cavalos, de Tabajara Ruas. O resgate de uma lenda na véspera de uma guerra: o filme esnobado pelos festivais é, de longe, um dos grandes lançamentos do ano.

Carlinhos Hartlieb: Um Risco Fixo No Céu, de René Goya Filho – a volta daquele que se foi cedo demais e nos deixou um maravilhoso punhado de canções. Esse documentário foi o grande vencedor Prêmio Histórias Curtas 2008

ARTE

Ricky Bols e seu magnífico trabalho deubolsnalinha.

REPORTAGEM

Evanildo da Silveira, com suas matérias para a revista Problemas Brasileiros , no seu blog e em outros veículos. O fôlego e o rigor do grande repórter veterano dão o exemplo nesta época de notinhas e firulas.

FOTOGRAFIA

Omar Junior, de Porto Alegre: suas fotos no flickr são um arraso. Pena que não dá para reproduzir aqui, é impossível.
Irene Schmidt, do Rio Grande do Sul: a fotógrafa maior, quando mira a câmara, todo mundo senta para olhar.

RETORNO - Imagem deste post: janela/vitrine holandesa, foto de Daniel e Carla Duclós. Como explica Daniduc: " foto é a janela de uma casa em Utrecht, uma das grandes cidades da Holanda. Como é peculiar da Holanda, a janela é também uma vitrine."

BATE O BUMBO - MANIFESTAÇÕES SOBRE ESTA LISTA

Pedro du Bois (escolhido melhor poeta do ano, junto com Rubens Jardim): "Caríssimo Nei, agradeço emocionado pela inclusão. sinto-me honrado em participar da sua lista, entre tantas personalidades. Em outro email você me perguntou sobre livros: pois é, tenho um editado pela Scortecci, SP, por ter sido o vencedor do concurso literário da livraria Asabeça, em 2005, "Os Objetos e as Coisas". Tenho outros editados por mim, como editor-autor, artesanalmente (feitos em casa), com tiragens mínimas que distribuo entre bibliotecas, colégios e interessados".

Evanildo da Silveira (escolhido Repórter do Ano): "Gostei mesmo. Mas acho muita bondade sua. O coração deve ter pesado aí." (Nota do editor: Nada disso, Evanildo. Leio reportagens todos os dias. As tuas são as melhores).

Oly Jr. (músico do ano): "Bah... que beleza... é uma honra!!!Saibas que é muito importante esse teu apoio, Nei...!!!O artista faz sua arte independente da opinião das pessoas, mas um elogio sincero, uma crítica construtiva, sempre são bem vindos!!! Valeu, mesmo!!! Um grande abraço!!! "

16 de dezembro de 2008

VIVA SAPATO!


O QUE É O GÊNIO?


Nei Duclós (*)

O gênio é aquele que acerta sempre no exercício do seu ofício. Pode cometer falhas na vida pessoal, cair em armadilhas, promover injustiças, magoar, ferir, se arrepender. O gênio pode ser, em quase tudo, uma pessoa normal, mas se destaca por esse detalhe: tudo o que produz é perfeito, sem errar um só detalhe.

Hoje, a tendência é fazer faz tabula rasa das pessoas. A mediocridade triunfante fareja o talento, esse mistério da sabedoria, para esbagaçá-lo de alguma forma. É assim que mantém seu poder. Ninguém escapa. Quantas vezes não vemos alguém negar que Shakespeare realmente existiu? Ou que as grandes descobertas devem ser atribuídas ao cônjuge, ao amigo, ao vizinho de um autor? Ou que o pintor definitivo usava a capacidade dos seus alunos para produzir seus quadros?

Particularmente, implico com a palavra “menor” ao lado de um criador de obras-primas. É importante fazer um reparo: todo Kurosawa é maior. Não existe um só filme de Akira Kurosawa que possa ser classificado de outra forma. Nem vou falar dos mais explícitos, como Dersu Uzalá, Ran, Os Sete Samurais, Sanjuro, Yojimbo. Mas de O Barba Ruiva (1965), em que Toshiro Mifune interpreta o doutor dos pobres, um sábio que ensina, pelo exemplo, seu aprendiz arrogante.

Ele prova que por trás de uma doença incurável há uma desgraça provocada pela pobreza. A medicina é apenas coadjuvante e não protagonista nesse processo complicado, profundo, irredutível e impossível de ser solucionado de maneira simples. Pelo menos, enquanto forem mantidos os privilégios de casta, a soberba dos mais novos, o medo dos idosos, a crueldade e o cinismo dos bandidos, a insânia das vítimas.

Impressiona no Mestre a composição das narrativas, em que os personagens cruzam paisagens hostis de neve, chuva, vento e terremotos, vestindo apenas um quimono. É antológica a cena do desencontro do casal, que ao se despedir tenta reatar. Vemos, representadas visualmente, sem palavras, as idas e vindas, os olhares que não se encontram, as intenções que se anulam mutuamente, formulando uma coreografia dramática.

Assim se expressa o gênio, que tanto nos faz falta. Ele é gerado pelo humano para transcendê-lo. Criatura insondável, existe para nos salvar.

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 16 de dezembro de 2008, no caderno Variedades do Diário Catarinense. 2. Imagem desta edição: Toshiro Mifune quebra braços e pernas de alguns valentões em "O Barba Ruiva", de Kurosawa. Não existe Kurosawa menor. Outra cena impressionante é quando as mulheres do hospital berram e uivam na beira do poço para impedir que a alma do garoto que se envenenou junto com a família, morra. O chamado para o fundo da terra prende a alma que tenta ir embora. É de saltar da cadeira.

15 de dezembro de 2008

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA: NÃO VER É SENTIR


Nei Duclós

A crítica cinematográfica é cega. Não consegue enxergar um filme. Acharam “Ensaio sobre a cegueira”, de Fernando Meirelles, baseado no romance de José Saramago, deprimente, apocalíptico, azedo, óbvio. Se é para despejar adjetivos, para que a crítica? Uma análise precisa ver o que a obra mostra de maneira explícita, em todos os frames, cortes, formas, objetos, situações, diálogos, cores. E não o que o crítico acha. Não podemos achar nada sobre coisa alguma, apenas nos render ao que é evidente. E o filme é de uma transparência didática e cristalina: despojados da visão, as pessoas se desvinculam dos laços sociais, que regem a vida contemporânea por meio do massacre dos signos manipulados (os faróis do trânsito, as faixas de segurança, a indústria visual). Emerge então o que estava enterrado sob pressão, a barbárie e o sentimento.

A barbárie se manifesta na reprodução fiel da sociedade no microcosmo de um abrigo dos infectados pela epidemia (com um assustador Gael Garcia Bernal na liderança dos malfeitores). As pessoas chafurdam na sujeira, se submetem às maiores humilhações por comida, matam-se mutuamente, abrem mão dos vínculos familiares, se despedaçam. Quando ficam livres da prisão, encontram o Brasil, o país que não vê onde está realmente metido. As cenas de São Paulo imunda é o retrato do país entregue às moscas e aos cachorros. Numa das cenas, em que essa maravilhosa atriz chamada Juliane Moore entra num supermercado que está sendo saqueado, vemos exatamente as mesmas imagens que recentemente assombraram o noticiário, quando uma multidão entrou num supermercado inundado. As situações são praticamente idênticas.

O Brasil, no filme de Meirelles, é a metáfora do mundo entregue ao caos, por força dos que não conseguem mais ver o ambiente que produziram. É muito pior do que a favela carioca. No Rio, a brutalidade está confinada aos redutos da miséria. Aqui, é a cidade inteira, gigantesca, que está imersa no caos. Os cegos tentam sobreviver assaltando, aos berros, encontrões, empurrões, arranhões. Ao mesmo tempo, descobrem que podem sentir alguma coisa pelos seus semelhantes, os que estão mais próximos, que compartilham a saga e o martírio.

Não se trata de amor à espécie, que a simples eliminação da visão não irá despertar. Mas de algum amor, que se manifesta no velho (um tocante Danny Glover) que se declara à moça (Alice Braga, a estrela cresce), na relação de amantes isolados, no arrependimento das traições (Mark Rufallo, intenso, concentrado), na descoberta dos rostos antigos e distantes. Livres dos signos que decidem a vida social do dinheiro, dos carros, dos edifícios, dos papéis e funções profissionais, as pessoas se reencontram, emocionadas com o que podem tocar e ouvir.

A civilização em queda, em Meirelles, é o paredão de concreto que tolda a visão do próximo. O céu, a natureza, ou a tempestade branca, símbolo da cegueira, é o rito de passagem necessário para que volte o que perdemos. É por isso que Juliane olha para o alto e vê a representação da cegueira. Depois desce o olhar e vê o muro de edifícios de Metrópolis. São Paulo, a megalópole brasileira, encarna o pesadelo da civilização que não se enxerga e vai em frente com seu trem de insânias.

Todo filme é sobre cinema: Juliane, a única que vê, é o olhar do cineasta que acompanha a tragédia. Ela pouco pode fazer a não ser olhar a loucura tomando conta de tudo. Há impotência em sua expressão de dor diante da brutalidade. Há denúncia nesse desespero mudo, mas não cego. Quando todos perdem a visão, o artista é o único que enxerga. Se ningém conseguir ver o que ele mostra de maneira tão eloqüente, é porque o Mal venceu e pouco resta de esperança.

Ficar indiferente ao filme é participar do cerco a essas evidências. Fernando Meirelles, autor de grandes obras, compõe a dor de ver, e o que ele enxerga é uma janela para o que nos oprime. Vamos ficar atentos, descobrir o que nosso olhar viciado oculta. Para isso existe o grande cinema.

RETORNO - Imagem desta edição: Juliane Moore, talento e técnica de uma grande atriz.

14 de dezembro de 2008

ARTE É LUTA DE CLASSES


Nei Duclós

Estão pontificando adoidado sobre arte, pois o que está em jogo é a posse de verbas públicas: ganhar a parada teórica significa estar sintonizado com as exclusões promovidas pelo privilégio, e assim ter acesso aos recursos reservados para exposições, bienais, cadernos culturais etc. Se você conceituar na contracorrente, desmascarando o jogo bruto da luta de classes no miolo do universo artístico, então despeça-se daquela grana providencial vindo das generosas fontes arrecadadoras. Estou me referindo à recente Bienal do Vazio, em São Paulo, e a prisão de uma pichadora, episódio comentado por Jorge Coli no Mais! deste domingo.

Por que Bienal do Vazio? Porque os poderes se apropriam de todos os espaços, principalmente os que ainda estão vagos. É uma reserva de território: além de se locupletar com os terrenos tradicionais, é preciso assegurar o futuro, tomar posse do que ainda está à deriva. Não é outro o significado da grilagem de terras públicas: os maganos invadem terras do governo porque não podem deixar à mercê da população a posse desse vazio patrimonial.

A Bienal, sob o guarda-chuva da transgressão institucionalizada, pretendeu promover um insight perceptivo ao destacar espaços vazios naquele monstrengo do Oscar Niemeyer no Ibirapuera, um lugar insuportável, quente demais, cheio de concreto exposto, árido e estéril, como costuma acontecer com as obras desenhados pelo queridinho das empreiteiras (que se diz comunista!). Um grupo de artistas emergentes se insurgiu contra o desperdício. Uma jovem artista pichou um dos espaços vazios e agora pode pegar uma cana braba, de dois a três anos.

O ato, que é de vandalismo, justificado ou não, serviu para expor novamente os motivos nobres dos pichadores, que deveriam limpar tudo o que sujaram nos prédios que não pediram sua arte. Essa oposição no fundo reitera o que a produz. Os poderes da arte maquiam os conceitos, celebrando a superficialidade do descartável como se fossem arautos de uma revolução eterna (o que é uma besteira, pois toda ruptura é feita em cima de uma tradição, se você elimina a tradição não há ruptura, não há revolução). A garotada se insurge, dizendo que eles sim são a transgressão. Ambos estão errados, pois intensificam a anti-arte em nome de um avanço cultural teleológico, como se o espírito humano evoluísse assim como as lagartas se transformam em borboletas.

O espírito humano obedece aos ciclos, como a natureza. Ele não avança indefinidamente. Há sempre o retorno, a volta, a reencarnação, a recuperação, o resgate e assim sucessivamente, num movimento circular, em espiral, eterno. Não se trata de linha reta, pois se você coloca um mijador numa Bienal e diz que é arte, o que colocará na seguinte? Um cagador? A pichadora presa diz que sua arte é para o povo olhar e não gostar. Significa que ela olha o povo e não gosta. E, claro, inverte os papéis. Ela exibe um fundo aristocrático, natural num país da exclusão, de escravos, em que todo mundo é senhor.

Já elogiei várias vezes aqui o caderno Mais!, da Folha. Desta vez o destaque é Madona, aquela senhora que dissemina a obsessão pelos gestos sexuais enquanto se esganiça em músicas idênticas. Sem comentários. Ultimamente o Mais! está ilegível,ou seja, deixou de oferecer diversidade de talentos e opiniões para se concentrar todo numa espécie de consenso de celebração do baixo nível cultural. Na edição do domingo passado, destaca a idéia exagerada de que o cérebro é uma gambiarra da evolução e não essa supermáquina com que era vista até há pouco tempo.

O problema é que exageraram sobre o cérebro para criar uma falsa idéia do seu poder e agora, baseados, não no cérebro, mas nessa representação fake, oferecem o antídoto: calma lá gente, não é bem por aí! Irrita o modo como tratam a evolução, como se tudo fosse uma grande sacanagem da natureza, como se os processos naturais fossem o espelho da economia globalizada, cheia de truques e armadilhas. A evolução é séria demais para ser tratada como insumo impactante da mídia.

Em outro artigo, uma entronização do obscurantismo, pois a chamada psicologia experimental (sempre existe um nome pomposo para as novidades) ataca a noção de que a racionalidade é juiz imune a influências. Isso é uma asneira sem fim. A racionalidade trafega do simples ao complexo, ou do complexo precário para a complexidade mais completa. Nada é imune a influência, muito menos a racionalidade. O problema é que a razão foi usada para destruir a liberdade de espírito e agora que o serviço sujo está feito chega alguém e diz: calma lá, gente não é bem por aí.

Tem mais. Um filósofo emérito aborda o plágio na arte e detecta a tendência de que estão colocando em xeque a idéia da autoria. Isso sim é serviço completo. Como já fizeram todos os cânones, tudo o que é bom já está decidido, então nada mais resta para os emergentes. Jamais teremos de novo grande arte, grande literatura, pois tudo está pronto. Então o que deve ser destacado, nesse enfoque perverso, é exatamente a impropriedade do direito à autoria. É por isso que a moça foi lá na Bienal pichar. Para ser reconhecida como autora, para ser levada em consideração, para existir. Mesmo que ela defenda a arte coletiva, é a sua personalidade que está clamando por reconhecimento.

Há também um artigo de um inglês que visitou o Brasil e diz que as mulheres brasileiras deslizam como se estivessem dançando samba. Ora, vai cagar pedra. Seu editor brasileiro, ao lado dele, morria de vergonha das manifestações suarentas dos conterrâneos. Revirava os olhinhos, o sujeito. Quanta colonização, quanto mico. E o Mais! fica difundindo esses troços, de maneira coesa.

Menos, Mais! Há também, na Folha, a tragédia televisionada dos debates culturais. Num deles, Caetano usa a maior parte do seu tempo para gaguejar. Em outro, sobre os 50 anos da Ilustrada, o parâmetro é o caderno cultural dos anos 80 para cá. Em 80 começou a decadência da Ilustrada, quando as reportagens sobre fatos culturais foram substituídas pela difusão dos eventos do show-bizz (ainda se diz isso?), quando o marketing substituiu a notícia. Entre outras barbaridades, houve uma longa campanha mistificadora sobre o grupo The Smiths, que ninguém mais lembra. Era tudo muito forçado.

RETORNO - Imagem desta edição: o horrendo e desumano prédio da Bienal no Ibirapuera, obra de Oscar Niemeyer, o rei do concreto sufocante. O prédio já é o vazio absoluto.

13 de dezembro de 2008

A CHAMA E A SOMBRA


Nei Duclós

Pode ser coincidência, mas o significado do nome próprio dinamarquês Citronen pode ser, graças a uma variação etimológica, o mesmo da palavra francesa Citröen: “todos por um”, segundo especialistas em sânscrito. Citronen é o nome de um herói da Dinamarca da Segunda Guerra. Junto com Flammen (chama), fez parte de uma equipe de resistência ao nazismo, eliminando colaboradores no país ocupado. O recente filme Flammen & Citronen (2008), de Ole Cristhian Madsen, é uma revisita ao mito que se formou ao redor dessa dupla de matadores, enterrados com honras depois da derrota alemã, quando foram retirados de uma vala comum para serem colocados no panteon dos heróis da pátria.

O filme é uma apurada sucessão de imagens de alta intensidade visual e dramática. As cores carregadas em contrastes gritantes fazem dele um noir do século 21: lâmpadas fortes sobre escrivaninhas minuciosamente produzidas, paisagens maravilhosas de céu, mar e grama que duelam com automóveis de cores berrantes, Estocolmo e Copenhagen esplendorosas na sua frieza incendiada pela ação e personagens sinistros em armadilhas mortais fazem desse lançamento internacional um acontecimento importante, mesmo quem seja considerado longo demais, confuso muitas vezes e com situações forçadas em algumas partes.

O que vale é essa atualização do imaginário do país. A ultra-sofisticada e culta Dinamarca não poderia produzir um panegírico, já que se trata de uma democracia de verdade e lá houve uma guerra ferocíssima que marcou a população. A abordagem é sobre a omissão diante da humilhação, a necessidade de reagir, mas como? Os dois heróis se prestam ao jogo dos assassinatos, apesar de Flammen (interpretado por Thure Lindhardt) ser um brilhante aluno e Citronen (Mads Mikkelsen) um pai de família incapaz de matar uma pessoa. As contingências empurram os dois idealistas para o crime. Esse idealismo – a chama segurada pela sombra, a ação carregada pela idéia de nação, o tiro amparado pela resistência – é que faz reviver o heroísmo.

Eles podem ainda ser lembrados de maneira solene, apesar de terem caído em todas as arapucas, matado inocentes sem saber, se prestarem a um serviço sujo enquanto os facínoras do serviço secreto inglês, entre outros comerciantes, dividiam os lucros. Os campos se confundem na luta desigual entre a individualidade e a corporação. A dúvida é encarnada na figura da mulher (a personagem Ketty Selmer, interpretada por Stine Stengade), a agente dupla que acaba delatando o amante procurado a peso de ouro. A traição feminina e a solidariedade encarnada pela dupla masculina são recorrentes no cinema europeu e americano. Como a confirmar a função de Eva seduzida pela serpente e o trouxa que acaba provando a maçã envenenada. Mas esse lugar comum não tira o mérito do filme.

Citronen usa capa preta, chapéu escuro enterrado na testa, enquanto o cabelo loiro de Flamme navega pelos corredores e ruas, armado de chispas de uma revolução que ficou inacabada. A chama e a sombra convivem com seus equívocos até o fim, sem conseguir mudar nada. O objetivo era matar todo nazista que tivesse invadido a Dinamarca e seus colaboradores. O projeto não deu certo. Os heróis se enredaram na própria cegueira diante da complexidade do conflito. Isso é recuperado de maneira poderosa pelo cineasta Madsen, que foca o heroísmo possível nesta época de transparências.

Não cabem mais na cultura de hoje heróis vistos como antigamente, impolutos, sem nenhuma mancha, sem sua natureza humana, escassa e precária. Ao mesmo tempo, não podemos sucumbir ao jogo de achincalhes diante dos que arriscaram a vida em nome de uma idéia fundamental da sobrevivência, a nação.

Longa vida aos heróis da pátria. Mesmo com todos os defeitos, eles se destacam no mundo com sua natureza dupla, entre iluminação e a névoa, entre o ideal e a prática, entre a certeza e a dúvida.

12 de dezembro de 2008

COLT É IRMÃO DA WINCHESTER




Nei Duclós

Em dois filmes irmãos - Cão Danado (1949), de Akira Kurosawa, e Winchester 73 (1950), de Anthony Mann - Caim e Abel se defrontam depois de uma perseguição implacável. O que liga os protagonistas em cada filme são armas de estimação, importantes, raras. No Japão do pós-guerra, um colt roubado vira instrumento de crimes sucessivos, enchendo de culpa seu dono, o policial (Toshiro Mifune), que depois de muita luta, recupera a arma. No velho Oeste, a Winchester perfeita, considerada “uma entre um mil”, é disputada pelos dois filhos de um rancheiro e acaba passando de mão em mão até o duelo final, quando o filho bom (James Stewart) a resgata ao eliminar, no meio das pedras de um penhasco, o irmão assassino.

Existe sempre um Kuroswa maior para assistirmos. Cão Danado é noir criado pelo pai da matéria (o cinema). Todos se inspiraram, chuparam, copiaram o Mestre japonês, principalmente os americanos. Quantas vezes você não viu uma investigação se desenvolver em meio a um calorão que faz todo mundo, principalmente os perseguidores, passarem o lenço no rosto e na cabeça a cada segundo? Quantas vezes você não seguiu uma narrativa em que entram apenas as pernas em movimento dos atores? Quantas vezes não viu um filme que começa com um animal torturado? Detalhes que intensificam visualmente a obra e se transformam num espetáculo à parte.

O faroeste refilmou várias realizações do Mestre (John Sturges, Sergio Leone, entre outros), mas não desta vez. Os dois filmes irmãos percorrem leitos comuns da narrativa, mas não se trata da mesma história. O que notei são os pontos de contato, poderosos. Além dos apontados acima – irmandade (virtual, no filme japonês, e real, no faroeste) e as armas roubadas – o que une os dois filmes é a vingança. O policial quer vingar os crimes praticados pelo ladrão com seu colt e o rancheiro quer vingar, armado de sua winchester, a morte do pai pelas costas, um crime cometido pelo próprio irmão. A revanche se cumpre em pleno calor, mas em ambientes opostos. Em Kurosawa, num ermo florido, onde os duelistas se dilaceram e quase não são percebidos pela vizinhança em bocejo. Em Mann , no meio das pedras e do pó, com os dois contendores sós, sem ninguém ao redor, a não ser a História da Sétima Arte e nós, os admiradores confessos e obecados por cinema.

Como já foi apontado pela crítica, o policial e o ladrão são como faces do mesmo rosto. Ambos lutaram na guerra, foram roubados na volta para casa, só que um escolheu o Bem, o emprego, e o outro o Mal, a vida fácil e ressentida, sem trabalho mas com dinheiro alheio. Seriam como irmãos com objetivos diferentes, que acabam se cruzando na obsessiva trajetória compartilhada entre um, que quer solucionar os crimes, e o outro, que quer agradar a namorada com presentes caros. Os dois irmãos de fato, no faroeste, foram treinados pelo pai, morto depois que o filho tentou se esconder em sua casa fugido dos xerifes.

A convivência é impossível quando os crimes são imperdoáveis. O desfecho é obrigatório: um precisa eliminar o outro. A sombra que essas histórias projetam são vividas por nós, hoje. Os criminosos são vocacionados para o Mal ou fruto de situações de colapso? Como diz um trabalhador do filme de Kurosawa, cunhado do ladrão: ele tem muita raiva, culpa o Japão por tudo. Conhecemos essa história, não? Quantas vezes ouvimos ou dizemos a explicação definitiva: “É o Brasil!” A culpa é do país, por isso todos podem cometer qualquer crime.

Esse tema é debatido em diálogos importantes. O veterano inspetor Sato, interpretado por Takashi Shimura, não acredita em vítimas do sistema, mas em ruindade mesmo, ao contrário do novato interpretado por Mifune, que vê na barbárie da guerra entre nações a origem do comportamento do ladrão. Debate que nos consome aqui no Brasil, com pessoas divididas entre a recuperação e a pena de morte. No faroeste, James Stewart explica que o erro do pai foi ensinar a técnica, mas não a ética.

O que dizer mais desses dois filmes imperdíveis, sumidos do mapa e que deveriam ser obrigatórios , pelo menos uma vez por ano, nos canais de televisão aberta e fechada? Podemos apontar a esplêndida pradaria de dia e de noite no filme de Mann, com cactos irmanados com a lua; e as seqüências sufocantes de Kurosawa, intercaladas por grandes janelas, como o jogo de beisebol no estádio lotado ou a dança das coristas no bas-fond suspeito. Tudo é solene e sublime quando há arte, quando existem cineastas, atores fundamentais, quando o cinema diz a que veio.

Um colt e uma winchester: o talento puxa o gatilho. Alguém vai morrer no final. Se segurem nas cadeiras, porque ninguém está na terra a passeio.

RETORNO - Imagens desta edição: James Stewart na primeira foto e Toshiro Mifune e Takashi Shimura na segunda.

10 de dezembro de 2008

AKI KAURISMÄKI: O GESTO ENGESSADO



Nei Duclós

Cineasta finlandês faz filmes dramáticos hilários: o drama se expressa pela imobilidade do gesto, que provoca situações de humor terminal, aquela risada antes do fuzilamento. Os diálogos são escassos, como as ações dentro das narrativas (que, paradoxalmente, são dinâmicas). As conversas pontuam essa situação limite: “Se quiseres falar consigo mesmo, fale finlandês” diz um dos personagens de Segure seu cachecol, Tatiana, de 1994, um road movies que toca em algumas feridas básicas daquela estranha nacionalidade. Parte do antigo império russo, do qual se separou depois de algumas guerras, e por muito tempo dentro da área de influência sueca, o país exibe índices razoáveis de qualidade de vida, mas o isolamento e a falta de sabor da sociedade finlandesa tornam-se explícitas nos filmes de Kaurismäki.

Isso, claro, é apenas um truque. O cineasta aparentemente filma a imagem que o país faz de si mesmo, e em conseqüência, projeta para o resto do mundo. Mas ele é um arqueólogo e procura até achar, cavando na mansa mornidão que contamina tudo, a erupção de graça, humanidade, poesia, solidariedade, medo, esperança dos seus memoráveis personagens, encarnados por mestres da interpretação. Só a presença constante da professora de teatro de Helsinki, Kati Outinen, em todas as suas obras, faz dos filmes de Kaurismäki um modelo dessa difícil arte, pois vá criar algo convincente sem se mexer, sem mover linhas de rosto, sem “dar”, sem violência, sem nada.

Basta uma cena, em que Kati enfim convence o imbecil do adolescente tardio que estava muito a fim de um relacionamento. Sua personagem Tatiana conviveu com o cara dias e noites numa viagem. Ele consegue entender o assédio amoroso e senta ao lado dela numa parada da viagem. Kati/ Tatiana, então, vagarosamente, coloca a cabeça no ombro dele, ao som de música comovente. É de despedaçar o coração. Alta intensidade dramática em apenas alguns segundos. Pessoas sem a mínima chance enfim se encontram, e abrem a possibilidade de uma vida a dois.

Aliás, a presença da música é fundamental na obra deste cineasta. Bandinhas perdidas da Finlândia profunda, que se apresentam em palcos improvisados, pequenas orquestras que animam bailes em restaurantes, rocks estranhos do fundo do baú, músicos antiqüíssimos tocando acordeão, vozes obsoletas e encantadoras pousando nas cenas, além de performances magistrais como o solo de piano no início de Nuvens Passageiras.

Kati, prêmio de melhor atriz em Cannes de 2002, por Um homem sem passado (já comentado aqui no Diário da Fonte) é impressionante em todos os sentidos. A travadíssima gerente de restaurante no maravilhoso Nuvens Passageiras (1996), é um papel antológico. Sua seriedade, determinação, força, imobilidade, tristeza profunda fazem parte da paisagem extraordinariamente colorida, num ambiente pcitórico over, como se o contraste de cores básicas fosse a exacerbação que falta para fazer deslanchar o gesto preso dos personagens. Trata-se de pintura exercida por um mestre: cada filme do grande cineasta é uma exposição visual de primeira grandeza.

Markku Peltola é outro ator básico em Kaurismäki. Em O Homem sem passado (que analisei como uma denúncia do sucateamento econômico da nação provocado por esses flibusteiros que deveriam estar na cadeia, para usar a indignação de José Saramago), Markku nos conquista exatamente por não esperarmos nada dele. O cara é meio troncho, desajeitado, inexpressivo, duro em tudo. Como consegue reproduzir personagens tão diferentes quanto nesse filme, do sujeito que perde a memória, e o cozinheiro alcoólatra em Nuvens passageiras? É porque interpretação é trabalhar intenções e não dar ou comer em cena.

Um aspecto interessante do engessamento do gesto em Kaurismäki são os diálogos decorados, que denunciam a natureza das invenções do roteiro. Não são conversas naturais, a não ser que a falta de brilho das pessoas seja confundido com uma outra natureza. No curto episódio de Ten Minutes Older (The Trumpet), Dogs have no hell (2002), Kati e Markku fazem o jogo de cena de um casal que foge da Finlândia para a Rússia, mas antes, por exigência dela, ficam noivos. Eles conversam como se fosse num teatro de escola amador. Parece, mas não é. Kaurismäki compõe a artificialidade das situações para deslocar a cena para a autenticidade, por mais estranho que isso possa parecer. Funciona!

É o que eu já disse sobre o faroeste: coisas que jamais acontecem e que são absolutamente verdadeiras. Serve para Kaurismäki, o criador dos velhos roqueiros finlandeses bebedores de vodka e café que não conseguem se relacionar com as mulheres; o casal que perde emprego e móveis e acaba dando a volta por cima num negócio próprio; o cara que esquece tudo e recompõe a vida numa outra dimensão pessoal e coletiva; o casal que se compromete numa aliança antes de abandonar a pátria.

Eis Kaurismäki, um cineasta essencial que só aparece por aqui em mostras de cinema e em algum ou outro dvd. Mas que deveria estar em horário nobre, em televisão aberta, para que todos possam aprender com ele, se emocionar, estranhar e viver um pouco a arte de transgressão e talento que corre pelo mundo sem que a gente tome conhecimento.

RETORNO - Imagem desta edição: Kati e Markku imóveis, um diante do outro, em "O Homem sem passado".

BATE O BUMBO - Miguel Duclós divulga mais uma Atualizações Consciencia: "Publicamos no site um trabalho acadêmico sobre Immanuel Kant, de Francisco Nunes de Carvalho, estudante de filosofia. BLOG - Postei vários ensaios curtos sobre filosofia e literatura no meu blog. Para ler (e comentar, claro), visite. ARGOS - O sistema Argos de filosofia foi modificado. A indexação e pesquisa não é feita mais através do nosso sistema interno, que estava desatualizado, mas agora por uma busca personalizada google. Configuramos o Google para pesquisar somente nos sites, selecionados, que são os que estavam anteriormente contemplados. O endereço para acionar o serviço continua o mesmo".

9 de dezembro de 2008

UM LANCE DO BRASIL PROFUNDO


Um dos vícios do jornalista é achar que está a cavaleiro da realidade, por cima da carne seca, por dentro do movimento, conhecedor dos detalhes da coisa como um todo, o que o torna, em tese, uma espécie de rei da cocada preta, pontificador absoluto sobre tudo. Um jornalista metido a coisa acerta todas as previsões, pois ele confunde sua profissão, que é procurar saber, em achar que sabe tudo de antemão (ou por meio de fontes super exclusivas, dessas que acabam em CPI).

Jamais se entrega ao acaso, tanto é que vive a repetir “não é por acaso”, como se a sorte, o incomensurável, o mistério, o sonho, todas essas coisas que fazem parte dos fatos, não existissem. Ainda mais quando surge um lance que tem tudo para ser, arrá! te peguei!, marketing, sacanagem, apelação. Ou seja: a volta de Ronaldo para o futebol brasileiro, nos braços do povo, a torcida corintiana.

Precisamos navegar no significado desse acontecimento, que nasce pelas contingências e talvez nem tenha sido imposto por comerciantes vis ou algo que o valha. O que há de comum entre Ronaldo e o Corinthians? Óbvio, a segunda chance. Tanto o timão quando o cracaço estão chegando de momentos complicados. Corinthians ficou um ano na segundona, enquanto Ronaldo imobilizava-se, machucado. Um, felizmente, com a faixa de campeão, agora em escala ascendente depois de ter amargado a humilhação de sair da série A. O segundo, fora de forma, afastado dos gramados há tempos, saindo de episódios pessoais lamentáveis. O que pode acontecer quando há essa sintonia de situações?

Acho que o futebol é capaz de nos surpreender quando tudo parecia se repetir indefinidamente. Pode-se argumentar: o cara está no fim da carreira, gordo, flácido, lento, bobo, preguiçoso. O que vai fazer no timão, que está a mil, cheio de jovens talentos, pronto para dar um salto? Não vai atrapalhar, não vai afundar de novo a equipe que está tinindo? Por que sacrificar o certo pelo duvidoso? E se ele claudicar, como enfrentará a Fiel? E se não fizer gols, se machucar novamente? Essas considerações seriam até pertinentes, não fossem fruto da falta de fé. Ora , fé, dirão, que bobagem. Fé não ganha campeonato.

Não falo em fé fundamentalista, aquela que diz fica com Deus ou distribui beijos no coração (bleargh!). Mas na fé do Brasil profundo, soberano, que existe à revelia dos ditadores, dos pessimistas, dos derrotados, dos vencedores, dos espertos, dos desonestos, dos gente boa. O Brasil é uma criatura tão poderosamente real que acaba ditando suas leis por mais que tentem desmoralizá-lo. É possível que não aconteça nada do previsto, nem para o bem nem para o mal.

Mas se não houver vitórias, haverá derrotas, pois não? Não acho isso importante. O que pega é o sinal que esse acontecimento emite. O que acontece no futebol brasileiro? Caos absoluto. Nossos craques estão sendo levados ainda no berço, ou seja, o extrativismo está levando o veio de ouro, a mina, a terra arável, não mais o produto. Estamos nos desfazendo de território, patrimônio, talento, futuro. Tem craque nosso encostado na Eslobóvia Meridional, que aluga para nossos clubes a riqueza construída aqui. Já importamos estrelas de outros países, como se precisássemos. Entregamos tudo para a bandidagem e depois vamos garimpando alguém que saiba chutar a bola.

Ronaldo se revelou muito menino e cedo se foi. Faz parte desse gigantesco movimento de entrega do país. Mas Ronaldo é um grande e fenomenal craque. É responsável por pelo menos uma Copa do Mundo. Criou lances de gênio ao longo da carreira. Sua volta ao futebol brasileiro, mesmo depois de tantos anos, sem o físico adequado, cheio de incertezas, significa que podemos sonhar com o grande talento entre nós. É como uma história de aventura contada ao redor do fogo.

O herói partiu, tornou-se um mito e voltou depois de muito tempo, amargurado por tantas injustiças. Rico, realizado, mas ainda falta o último lance. Exatamente aquele que cria o desfecho de uma narrativa. Seu retorno costura um texto, já que futebol é linguagem e cada jogador é uma biografia que se cruza nessa peça infinita de um teatro de massas. O cara voltou. Ninguém sabe o que acontecerá. Mas se trata de Ronaldo. Estamos falando do Corinthians.

É verdade, acabou o longo licenciamento. Voltei ao timão. Volto, junto com Ronaldo.

RETORNO - Imagem desta edição: um lance do futebol corintiano dos anos 30, quando o Brasil inventou seu destino.

REVOLUÇÃO


Nei Duclós (*)

Escravidão é implantar, por qualquer meio, a submissão de corpos e mentes. O exercício da tirania, combatido há séculos pelos espíritos livres, consegue se superar modificando seus métodos, conforme vão mudando os paradigmas. São intermináveis cabeças ressurgidas da Hidra, o mito helênico da eternidade de um monstro. Hoje, exsite tecnologia suficiente para libertar a humanidade, mas esse conhecimento está sob as ordens da servidão.

A produção de alimentos chega ao auge de oferecer sementes estéreis em frutos modificados. Plantar e colher, assim, são exclusividade das corporações. No lugar de um colar infinito de propriedades conhecedoras da complexidade do manejo orgânico, temos os ganhos de escala de processos agrícolas perversos. Há pressão para que isso mude, pois as populações aos poucos acordam para a brutalidade do envenenamento. A demanda cresce, enquanto aqui sobrevivem os latifúndios para a monocultura e outros hábitos condenados pelo bom senso.

Os arqui-bilionários da atualidade são os que se apropriam de uma tecnologia que pode democratizar o acesso ao saber. Criminalizar a livre circulação dos produtos culturais é um aspecto revelador da falta de competência para lidar com a nova realidade. As leis deveriam se adaptar aos avanços tecnológicos para resolver o impasse. Não se deveria deixar que alguns privilegiados exibissem suas megafortunas ao colocar sob suspeita, ou na vala comum do crime sem perdão, todos os que preferem usar as conquistas a seu modo.

No fundo, quem procura alternativas para cumprir suas metas prefere a institucionalização, jamais a marginalidade. É empurrado para ela de maneira burra pelos poderes constituídos, que insistem em manter os modelos de opressão herdados de uma época em que a tecnologia estava a serviço de poucos. Plantar, colher, acessar aquele filme perdido e distante, recuperar a música do passado, se atualizar são ações que não podem ficar à mercê dos que não se contentam em mandar no mundo. Querem interferir em destinos, sugar almas, fazer a cabeça da massa.

É quando se renova a necessidade da palavra revolução. Pacífica, esclarecida, insistente, decisiva, democrática. Desde que tudo isso não se transforme em mais uma ONG.

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 9 de dezembro de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem desta edição: foto de Juliana Duclós, onde aparecem suas mandalas cercando meu livro O Refúgio do Príncipe, entre outros exemplares da biblioteca aqui de casa. Está chegando o Natal. Sabe aquele sobrinho, o cunhado, a avó, o irmão, que você precisa dar um presente no lugar de uma lembrancinha? Algo que os emocione, que os surpreenda? Pois dê de presente este livro. Basta me enviar um e-mail (neiduclos@hotmail.com) me dizendo o endereço, que eu digo qual a conta para o depósito. Por vinte reais, com frete incluído (correio normal) para todo o Brasil, você terá em mãos o seu exemplar (se for o caso, autografado para a pessoa que você quiser presentear). Descontos especiais para quem levar mais de um. Participe. Esta é uma campanha do Diário da Fonte, jornal que existe desde 2002 e exercita a liberdade de expressão numa época de ditadura. Poderão dizer: mas você insiste, não? Claro que sim. Insisto: essa é a melhor forma de retribuir a oferta gratuita de textos diários aqui neste espaço. Diga sim ao livro selecionado pelos espanhóis para fazer parte do catálogo da mais recente Feira do Livro de Madri. Tenha na mão o que a Espanha recomenda.

8 de dezembro de 2008

PARA QUE SERVE O CINEMA?


Nei Duclós

O cinema, soma de todas as artes, serve para humanizar o espírito exilado do talento (esse mistério da sabedoria). Imersos na barbárie, na luta pela sobrevivência, dedicados ao esporte de se eliminar mutuamente, vocacionados para a indiferença, centrados no egoísmo, os povos acumulam fome de transcendência, que só o cinema pode atender. As ditaduras costumam expulsar os seres humanos completos, os cineastas, normalmente vindos da estiva do teatro, da demência literária, do exílio das artes plásticas, que buscam refúgio em outros sistemas políticos, onde podem exercer sua grande arte até que novamente os grilhões de voltem contra eles, podando-os, destruindo ou desvirtuando suas obras ou implantado neles a desesperança que enfim vence, renegando o que fizeram para o limbo absoluto.

É o que aconteceu com alguns alemães refugiados do nazismo em Hollywood. Como Max Ophuls (que mais tarde voltou a filmar na Europa, sempre em busca da liberdade), autor de inúmeros filmes consideradíssimos, como Le Plaisir, de 1952, baseado em contos de Guy de Maupassant. Ou Ernst Lubitsch, o serial realizador de filmes inesquecíveis, que chegou a ter sua grande obra, Trouble in Paradise (Ladrão de Alcova), de 1932, submersa na censura até 1968, graças à perseguição promovida, a partir de 1935, pelo famigerado Código Hays (aquele que impunha a separação dos corpos no leito conjugal, o que me levava a acreditar que os americanos não dispunham de cama de casal). O DVD saiu há apenas cinco anos, em 2003.

Vi ontem Ladrão de Alcova e chovo no molhado, já que o filme é tido como um dos grandes até hoje: trata-se de trabalho maduro, hilário, encantador, radicalmente inovador, que denuncia a falsidade das elites, não só pelos costumes, as roupas, os gestos, as conversas, mas principalmente pelo que fazem para se tornar elite, ou seja, falcatruas, desvios de dinheiro, roubo puro e simples. A história é sobre um casal de ladrões que surrupia jóias e dinheiro de gente rica. Poderia ser apenas a abordagem cínica de uma evidência, a de que as pessoas são tungadas para garantir o luxo e a indolência dos milionários. Mas é muito mais.

É uma comédia ligeira, de diálogos cortantes, de ritmo alucinante (o roteiro, elogiadíssimo, é de Samson Richardson), que mostra (sem se entregar totalmente) como os princípios e sentimentos humanos podem atrapalhar os planos e objetivos da racionalidade a serviço da bandalheira. O ladrão é tão charmoso que faz a milionária apaixonar-se. A ladra é tão apaixonada, que finge renunciar ao butim. Os velhos são tão patéticos, que tentam confinar a juventude a seus hábitos preguiçosos. O dinheiro é tão fundamental que acaba ocupando um lugar coadjuvante na trama. Lubitsch nos mostra que a humanidade pode sobreviver no ambiente mais hostil e corrupto possível e que existe grandeza mesmo num servo (que para existir precisa renunciar a tudo) ou num larápio.

O que encanta no filme é essa sobrevivência da emoção em território arrasado. É possível encontrar representações do amor em jóias encontradas no lixo, é possível recolher o produto do roubo de cima de uma cama apenas para fazer uma desfeita amorosa, jamais para se locupletar na riqueza descartável. O que importa não é o produto do roubo, mas a vivência do coração nos redutos da superficialidade, da inveja, da falta de escrúpulos. O humanista Lubistch, como bom turrão, não dá o braço a torcer. Mas se trata de um sentimental, o que tenta fazer emergir de si, furando as camadas de decepção, a beleza do ser humano, vilipendiado por suas contingências, mas capaz de driblar destinos e reinaugurar algo parecido com a inocência, que tem a mesma graça e o mesmo sabor: exatamente o cinema, lugar onde somos infantes, amantes, levados, galantes.

Em Le Plaisir, Max Ophuls filma, em três episódios (ou contos) a relação que pode existir entre o prazer e o amor, o prazer e a inocência e o prazer e a morte. Imaginem essas cenas: na igreja lotada do interior, a câmara desce dos anjos do teto e cai sobre a multidão em prantos, que chora de emoção induzida pela presença chorosa de prostitutas, tocadas pela cerimônia da primeira comunhão da sobrinha de uma delas; o camponês que se apaixona pela garota do bordel se despede dela na estação, corre para seguir o trem e volta cabisbaixo, com sua carroça carregada de flores colhidas no caminho por ela e suas amigas; na praia prateada, um pintor leva na cadeira de rodas sua esposa, ex-modelo que tentou suicídio quando foi dispensada pelo marido, agora pagando o preço do sua culpa e arrependimento; enquanto isso, ao fundo, o mar, a areia e as crianças que levantam pipa compõem um quadro surrealista de grande impacto visual.

É pouco? É tudo. Do jeito que vai o cinema comercial, que não contrata nem sombra dos talentos que se desperdiçam no anonimato, daqui a pouco vão começar a distribuir filmes que metralham as platéias, para garantir audiência. É só o que falta. No lugar de enfrentar a indiferença natural dos seres humanos com arte, talento, inovação, eles se entregam às obviedades de suas sacadas marqueteiras, como se o povo gostasse de ser ludibriado. As grandes obras primas do passado, como essa duas que citei aqui, atraíam o povo para os cinemas. Mas a mediocriade invejosa destruiu tudo, para que ficássemos à mercê da brutalidade, sendo obrigados a considerar o que nos faz vítimas, dentro da atual lógica do estupro, em que você, além de ser violentado, ainda tem que dizer que gosta.

RETORNO - Imagem desta edição: cena de Le Plaisir, com Jean Gabin fazendo o papel de um campônio, pai de família, que recebe a visita avassladora de algumas mulheres da cidade grande, que vêm visitá-lo no interior.

BATE O BUMBO - Cidadãos exemplares atendem aos reclames do poeta e adquirem exemplares autografados de O Refúgio do Príncipe - Histórias Sopradas pelo Vento. De Uruguaiana, a poeta Marina Fagundes Coello (que fez um poema a partir do conto principal do livro: "meu Príncipe é Rei/ recria seu reino/ com os fios invisíveis/ dos sonhos dos deuses/ e a terra e os homens/ do abismo/levitam/ um sopro que é brisa/ do todo e do nada/ renascida" ); de Piracicaba, Jacqueneide Santiago, além do atencioso leitor Paulo Renato, são os pioneiros da campanha. Basta me enviar um e-mail (neiduclos@hotmail.com), me dizendo o endereço, que eu digo em qual conta devem ser depositados os vinte reais, com frete incluído para todo o Brasil. Não se acanhem, sigam o exemplo. Aqui no centrinho da praia de Ingleses, na simpática e competente Livraria Mar e Letras, O Refúgio entrou em ritmo de Natal e está sendo oferecido neste preço de promoção (vinte reais). Agora é a hora. Faça um escritor sorrir e delicie-se com a prosa poética dessa seleta de mar e pampa.

7 de dezembro de 2008

MIUDEZAS


Nei Duclós (*)

Minha mãe mantinha em cima de sua cômoda, no quarto, em lugar de destaque, o único presente que lhe dei na vida. Era uma pequena cesta de vime, com tampa, que trouxera da viagem que fiz pela primeira vez ao mar, quando tinha nove anos de idade. Nela guardava um retrato meu e outras lembranças. Era seu pequeno tesouro, a saudade do filho que fora, entre tantos outros, cumprir seu destino na capital.

Os maiores tesouros existem dentro de pequenos recipientes. Não falo em diamantes, o preferido dos exilados ricos, que consegue refazer a vida do outro lado do mundo só com o que trouxeram escondido no forro do casaco. Mas daquela pedra lisa, fina e transparente, de duas cores (amarelo e marrom) que coloquei numa pequena caverna que a chuva formara na parede da cozinha do lado de fora, rente ao quintal. O reboco cedera com a umidade, mas um pedaço dele, com a tinta externa ainda intacta, funcionava como a tampa de uma gruta criada ao acaso.

Uma brincadeira qualquer, exercida em lugares ermos, me revelou o segredo. Bastou retirar com cuidado aquela parte que se deslocara naturalmente do resto da parede, cavar um pouco a massa esgarçada pela chuva e tampar tudo de novo, como se ali não tivesse acontecido nada. Aproveitei os dias seguintes para observar se havia perigo de descobrirem a mutreta.

Como a armação permaneceu intacta e desconhecida, lá comecei a colocar os objetos mais caros, os que jamais poderiam cair em mãos inimigas, ou seja, irmãos ou vizinhos. O primeiro era a pedra rara, colhida na beira do rio, e que se destacava das outras, normalmente redondas e opacas. Essa era retangular e deixava passar a luz transformando-a, de branca, em ouro puro. Eu carregara a preciosidade por meses em todos os bolsos, e acreditava que era obediente ao tato, como se sua forma fosse mudando conforme eu esfregava o dedo ou a colocava entre as mãos postas.

Eu tinha predileção por cantos, afastados de todos, onde podia imaginar a realidade que habitava minha timidez. Cheguei a ficar um ano, na escolinha do pré-primário, nesse anonimato, refugiado na pequena mesa situada longe da agitação geral. Como não tinha ainda idade para a alfabetização, fiquei mais um período e tentei recomeçar no mesmo lugar que abandonara antes das férias. Mas a professora não permitiu. E me incluiu na mesa principal, onde dividíamos jogos, desenhos e brincadeiras. Aprendi a compartilhar os momentos, mas em casa, mesmo convivendo com multidões de crianças que habitavam e freqüentavam a esquina onde morávamos, arranjava um jeito para desenvolver minha guerra particular.

Foi por isso que coloquei no esconderijo o revólver de madeira que fabriquei de maneira tosca, já que nunca fui vocacionado para o artesanato, mesmo o mais simples. Era constituído de um cabo, um falso cano e um elástico, que servia para arremessar objetos em direção aos bandoleiros. Toda vez em que me via em perigo, eu abria a batcaverna e de lá extraía a ferramenta necessária para enfrentar a bandidagem.

Hoje é proibido ter arma, assim como desapareceram miçangas e lantejoulas, que eram as esmeraldas e pérolas das meninas, colecionadas em caixas coloridas. Era proibido invadir essas arcas, mesmo em época de carnaval, quando precisávamos confeccionar fantasias para achacar a rua com nossos estandartes. Pedíamos licença então para as irmãs costurarem algum mimo no pano sujo que empunhávamos em mastros improvisados. E saíamos batendo lata, acobertados por máscaras de pano da pior qualidade e enfeitadas pelo brilho supérfluo dos bordados. Voltávamos com o dinheiro para o sorvete e até mesmo, às vezes, para as revistas.

Os recursos arrecadados com o auxílio das miudezas femininas, que garantiam a credibilidade do nosso bloco (pois denunciavam um certo cuidado no improviso) nos ajudavam a adquirir novos tesouros, que escondíamos para nos preservar. Era uma garantia para o futuro, essas coisas insubstituíveis que ficaram para sempre. Elas projetam lembranças de uma infância eterna e tão sagrada quando uma prosaica cesta na cômoda da família numerosa.

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada neste fim-de-semana na revista Donna DC, do Diário Catarinense. 2. Imagem desta edição: foto de Juliana Duclós da caixa confeccionada pela amiga Nely Garcia e presenteada para minha neta Maria Clara.

6 de dezembro de 2008

A VOLTA DA PALAVRA


Primeiro livro de Rubens Jardim em 30 anos, “Cantares da Paixão” rompe com os diques aparentemente sólidos de um tempo mau. (Atenção: leia abaixo, na seção Extra, a bela carta enviada por Rubens Jardim comentando esta resenha).

Nei Duclós (*)

A essência da tirania é interromper o fluxo do pensamento, último reduto da liberdade. As falas internas, as que se formam espontaneamente antes de serem expressas, são substituídas pelos arremedos de linguagem. O jingle que não sai da cabeça, a palavra de ordem jamais esquecida, a frase bem sacada que costura conversas, os jargões corporativos, os apelos políticos, as evidências históricas: eis um conjunto perverso que habita esse vácuo provocado pela interrupção do livre pensar.

A ele se soma a poesia, que continua cumprindo o papel de adorno de luxo, de emoção barata, de sabedoria-minuto, como costuma acontecer no atual estágio em que o trocadilho foi entronizado como insight esperto das mercadorias mais descartáveis, as pessoas. À custa, inclusive das grandes obras poéticas, que o deslumbramento sob medida transforma em lixo graças à repetição vazia, como é o caso do binômio passarinho/passarão. No mesmo recinto, suam os corpos ansiosos dos poemas metidos a besta, passaporte para notoriedades e até mesmo verbas públicas.

Esse acervo trágico é o escolho trazido pela maré alta do capitalismo de farol, o sistema que tenta se safar ao definir como bolha o que era tido como mercado até a véspera do colapso. De farol porque obriga o cidadão despossuído a lutar pela sobrevivência na instabilidade dos cruzamentos, e não na solidez do trabalho bem remunerado. No Brasil, a ciranda financeira, que a tudo reduz a pó, se aliou à longa presença de governantes apartados da cultura. Como vasos comunicantes, elas alimentam o esquecimento programado, que esvazia e reparte em postas a identidade da nação desconstruída.

Contra isso se insurgem, reduzidos ao silêncio, os poetas que mergulham na poesia com a gana de romper esses diques, mesmo que o reconhecimento fique no limbo, a obra submerja no esquecimento, se confunda no excesso de ofertas da rede virtual, ou o livro tarde. É o caso de Rubens Jardim, que lançou “Cantares da Paixão” (Artepaubrasil, 159 páginas), seu primeiro livro em 30 anos, um arsenal poético fartamente ilustrado e que vem em socorro dos que não se entregam às imposições das falas oficiais. Apesar da auto-imagem do poeta ter sofrido o impacto da indiferença, tanto é que se considera “menor” (vício da crítica literária inventado por Antonio Candido), este livro é um conjunto de assombros.

Não apenas pelo lugar que Rubens Jardim ocupa, de fato, na literatura brasileira, desde os anos 60 ao participar como protagonista da movimento Catequese Poética, liderado por Lindolf Bell, que inaugurou no País o evento cultural de massa em praça pública. O poema manifesto, tornado tradicional pelo tempo transcorrido e resgatado agora na memória impressa, é apenas um aspecto de seu trabalho. O mais importante não é sua “pertença”, sua biografia poética, mesmo que o núcleo de onde surgiu seja de citação obrigatória. O fundamental, em Ruben s Jardim, é o deslocamento do poema para fora da linguagem, o que é feito com maestria, no uso da palavra conhecida e na eventual quebra silábica do discurso.

O poeta reconhece: “Parca é a palavra./ Este é o celeiro-livro/ na livre escolha/ esquálida/ das espigas.”A colheita escassa no inventário do verbo sem nenhum poder empurra o poeta para longe do poema, transformando-o num catador de estilhaços, os restos de algo irreparável.

Impossível reproduzir numa resenha o impacto do trecho final do livro, que homenageia o primo tragicamente morto na queda de uma janela. O título é “Estrepitoso estrepe” e podemos selecionar alguns momentos, sem reproduzir o design dos versos na página: “Tenho velado nestes 50 anos a tua queda e não consigo remover do chão as marcas do teu corpo nem comover os degraus na escalada da tua morte. Hediondo instante. Você me deixou mais só diante do raio da rua e adiante de mim mesmo, irretratável realidade”.

Um soneto admirável na página 78 é mais um exemplo desse jogo que ele prefere decidir na arquibancada, ou na várzea, enquanto o campeonato corrompe o meio do campo: “Toda mulher é uma viagem/ ao desconhecido. Igual poesia/ avessa ao verso e à trucagem,/ mulher é iniciação do dia,/promessa, surpresa, miragem./ De nada adiantam mapas, guias,/ cenas ensaiadas ou pilhagens./ Controverso ser, mulher é via/de mão única, abismo, moagem./ É também risco máximo, magia,/ caminho íngreme na paisagem./Simplificando: mulher é linguagem,/ palavra nova, imagem que anistia/ o ser, o vir-a-ser e outras bobagens”.

Fica estranho dizer que o poeta se coloca fora da linguagem para lá encontrar a essência, a origem, o sabor, a história e, agora sim, o pertencimento da palavra. Mas essa é a solução encontrada pelo talento, esse mistério da sabedoria. O que vale é fazer parte de um povo e não de um grupo, mesmo que um seja representação do outro. Misturar-se ao caos primordial onde o verbo tem a força da criação e faz parte das rotinas é talvez do sonho de todo poeta, um árcade por excelência, pois sabe que da natureza flui o poema. No convívio com a terra, esse universo não literário, é que a poesia se salva. Em Jardim, há inclusive uma Marília de Dirceu: “Anarda era imprevista como as provisões, o pasto, o repasto. Prato bipartido Anarda se unifica: seu próprio rosto é um retrato.” Ou : “Anarda era uma viagem dentro do tinteiro. Cor e acorde, Anarda era uma âncora dentro do tinteiro. Antes marco e agora traço, Anarda é signo, insígnia, dentro do tinteiro.”

A consciência de que perdemos a batalha da linguagem, que as falas impositivas imperam na paisagem da cultura em ruínas, faz do poeta um outsider inclusive de si mesmo. Não que renegue o que fez ou tenta fazer. Mas porque insiste na busca e descobre que ao retirar-se, encontra. Nessa luta se desloca, sai para fora do mundo reconhecido. Como Jardim consegue ser um poeta do eu, como dizem, confessional a maior parte do tempo (seu grande poema para o pai expressa essa opção), se ele abandona a casa conhecida da poesia?

Sua escolha é consciente, a ruptura é fruto de árdua reflexão e exercício. E o deslocamento acontece como resultado desse esforço. No livro, uma longa entrevista foi incluída, demonstrando a complexidade de sua reflexão. Ao se manter fiel ao trabalho poético, sem vislumbrar nele nenhuma utilidade, Jardim reencontra o impulso do papel do poeta, mesmo sem usar a máscara que deveria defini-lo. Encontrar um lugar comum (de todos) fora da mesmice é uma contradição bem ao gosto da máxima de Torquato Neto: “Leve um homem e um boi ao matadouro. Aquele que berra é o homem, mesmo que seja o boi”.

Ao contrário de quem se entregou à tirania da falsa linguagem, Jardim exercitou o berro. Sorte de quem lê ou ouve: sua voz é melodiosa, e tem a vibração de uma passeata, aquele movimento coletivo de rua, que era aclamado nas sacadas da nação ainda esperançosa. Com “Cantares da Paixão”, a palavra, que tinha sido expulsa, voltou, como se ainda fosse possível reinaugurar o milagre.

RETORNO - 1. (*) Resenha publicada neste sábado, dia 6 de dezembro de 2008, na página 4 do Caderno de Cultura, do Diário Catarinense. 2. Imagem desta edição: Rubens Jardim lê um poema na 1ª Bienal Internacional de Poesia de Brasília (foto e legenda originalmente publicadas no Cultura). 3. O livro Cantares da Paixão, do poeta Rubens Jardim, será lançado na Livraria Martins Fontes (da av. Paulista), no dia 9 de dezembro, a partir das 18h30 até às 21h30.

BATE O BUMBO - O poeta e cronista Olsen Jr. me envia a seguinte mensagem: "Olá, Mr. Nei, salve! Acabo de ler, em um café aqui na Lagoa, o teu texto sobre o Rubens Jardim...Já havia esquecido desse poeta, grande poeta, belos poemas e excelente texto o teu, (re)apresentando-o ao público...Talvez o que resta para o escritor seja isso mesmo, restituir o verdadeiro Sentido às palavras, sem perder a ternura pelo que significam e a indignação por não Podermos "abrir a guarda"...Camarada, bom saber que a sua pena continua afiada e cortando só o que interessa para a refeição imediata, sem prejuízos, sem esbanjamentos... Abraço fraterno, do viking auto-exilado na Lagoa, e colorado, acrescente-se!"

EXTRA : RUBENS JARDIM LÊ A RESENHA:

"Nei, meu caro. Nunca na minha longa trajetória poética, alguém escreveu algo semelhante. Não sei explicar, mas você tocou em pontos sensíveis da minha alma. Gostei muito da contextualização da tua análise. Também sinto esse acervo trágico da emoção barata e da sabedoria minuto. Mas nunca havia pensado que os meus poemas estivessem alinhados na luta para romper esses diques e as imposições das falas oficiais.

O certo é que esta tua resenha é que é um conjunto de assombros. Desde o título, A VOLTA DA PALAVRA, até seus afinados desdobramentos,você conseguiu me remeter de novo ao grande Jorge de Lima. Ele já escreveu, em poemas inesquecíveis, algo bem aparentado com o teu brilhante e afiado discurso:

"As palavras envelheceram dentro dos homens
separadas em ilhas,
as palavras se mumificaram na boca dos legisladores;
as palavras apodreceram nas promessas dos tiranos;
as palavras nada significam nos discursos dos homens públicos...
E, por acaso, a palavra imortal há de adoecer?
E, por acaso, as grandes palavras semitas podem desaparecer?
E, por acaso, o poeta não foi designado para vivificar a palavra de novo?
Para colhê-la de cima das águas e oferecê-la outra vez aos homens do
continente?
E, não foi ele apontado para restituir-lhe a sua essência
e reconstituir o seu conteúdo mágico?" (Jorge de Lima)

Não tem tudo a ver com essa tua magnífica abordagem na resenha? Receba, meu caro Nei, a minha eterna gratidão por momentos de altíssima emoção. Abração comovido. Rubens Jardim."

5 de dezembro de 2008

O SPARTACUS DE MIZOGUCHI


Nei Duclós

Vi O Intendente Sansho (1954), de Kenji Mizogushi, um filme sobre a luta contra a escravidão. Não sei se alguém notou, mas este filme foi completamente copiado pelos americanos em Spartacus (1960), dirigido por Stanley Kubrick e roteirizado por Dalton Trumbo. O roteiro do filme do mestre japonês é de Fuji Yahiro, que se baseou em conto publicado no início do século 20, de Ogai Mori (1862-1922), que por sua vez se inspirou no conto popular conhecido como Anju e Zushio. É difícil saber quem bolou as situações que coincidem nos dois filmes, mas o que foi feito depois se espelhou totalmente na seqüência dramática do antecessor. Quais são essas coincidências (Picasso dizia que artista rouba)?

1. A visita do representante do Império na mansão do escravista Sansho é a mesma cena da visita do potentado romano Crassus (Lawrence Olivier) à casa de Batiatus (Peter Ustinov), o proprietário da escola de gladiadores. Revela a ligação do poder imperial com o escravismo.

2. A revolta dos escravos que incendeiam a casa do Intendente é igual à cena em que os gladiadores destroem a casa de Batiatus

3. O governador bondoso em Mizoguchi é o mesmo senador interpretado por Charles Laughton: ambos libertam escravos, ambos caem em desgraça frente ao poder imperial.

4. O escravo que é obrigado a martirizar seu colega é uma situação que existe em ambos os filmes. No de Mizoguchi, é a tortura, em Spartacus é a luta de vida e morte na arena.

5. O emocionante reencontro final entre mãe e filho, no filme japonês, é reproduzido com a mesma intensidade no final do filme americano, no encontro terminal entre Spartacus crucificado e a mulher com o filho nos braços. Nas duas cenas, a mesma miséria, a mesma emoção dilacerada.

6. A família seqüestrada e dividida em Mizoguchi paira também em Spartacus, por meio da escrava interpretada por Jean Simmons e do escravo interpretado por Tony Curtis.

E daí? poderão dizer. Um é sobre a separação de um casal de filhos da mãe e outro é sobre a grande revolta dos escravos. Menos. Kubrick/Trumbo copiaram Mizogushi/Yahiro sem dó nem piedade. Encontraram no ilustre filme lançado seis anos antes as soluções que usaram até o osso. Se deram o crédito, desconheço. Uma pequena pesquisa no Google não resolve. Mas costumam moitar, por mais genais e brilhantes que sejam .

À parte isso, o filme de Mizogushi é estupendo, com cenas in esquecíveis, imagens maravilhosas, uma tensão brutal. Está nas melhores listas dos melhores filmes feitos até agora (não gosto da expressão “de todos os tempos”; não podemos falar pelo futuro). Spartacus também está entre meus filmes favoritos. Dois grandes espetáculos de artistas que provaram a escravidão (Mizoguchi teve que fazer filmes de propaganda durante a II Guerra; Douglas, que produziu Spartacus, vivia sob o tacão de Hollywood), mas dela se desvencilharam.

Houve uma época, crianças, em que a arte se insurgia e denunciava a tirania. Diferente de hoje, em que a razão cínica tudo justifica. Vejam, portanto, essas obras que são fruto da coragem, que precisa ser resgatada. Os caras estão muito mal acostumados conosco, poltrões inomináveis desta época de sombras.

RETORNO - 1. Imagem deste post: cena de O Intendente Sansho, de Kenji Migozuchi, mais um mestre do cinema. 2. Claudio Levitan informa: "PÉ DE PILÃO, ÚLTIMOS DIAS NO RENASCENÇA SÁBADO E DOMINGO 16 H - Quero reiterar o final da temporada da opereta e de um ano histórico e maravilhoso, afinal, depois de 30 anos sem desistir, conseguimos realizar o sonho de gravar as canções do PÉ DE PILÃO em cd com a história em quadrinhos (sem texto) para as crianças preencherem e se divertirem aprendendo um texto antológico do grande poeta Mario Quintana. Além disso, tem a versão ao vivo da pequena ópera para crianças de 1 a 100 anos em que, além de mim como ator, cantor e músico, tem outros quatro queridos e jovens artistas auxiliando nessa divertida empreitada". Em Porto Alegre, cidade da cultura. O Teatro Renascença é na Avenida Érico Veríssimo, 307.

BATE O BUMBO - Comentário de Adriana Godoy sobre meu ensaio A Trilogia de Máximo Górki, publicado no Digestivo Cultural: "Que análise fantástica a respeito da vida e da obra de Górki. Às vezes, nos esquecemos de gênios como ele. Esse texto nos arrebata, nos envolve e nos leva a querer rever a obra desse mestre da literatura. Parabéns!"

4 de dezembro de 2008

ESSA BRAVURA COLORADA


Nei Duclós

Vamos a um exemplo da miséria jornalística. Saiu hoje na Folha:
“Nilmar acertaria pouco depois a trave em uma cabeçada, porém estava impedido. No outro lado, saiu gol de quem não estava impedido. Boselli desviou de cabeça para o gol após uma cobrança de falta. Ele estava em posição legal, mas o bandeirinha anulou o lance equivocadamente porque outro jogador do Estudiantes que não tocou na bola estava impedido.” Quer dizer, vai escrever mal assim no Caixa Prego, seja lá isso onde for. Em quatro frases toscas, três vezes a palavra impedido. Depois reclamam que não compram mais jornal, que sobra na banca. A conquista ontem do Internacional, sobre o Estudiantes, da Copa Sul Americana, no Estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, merece algo à altura do jogo, não para celebrar ninguém nem nada, mas porque é uma chance de mergulharmos nessa cultura desconhecida, o futebol.

Vamos pensar assim: foi, até o gol decisivo, na prorrogação, com todas as letras e terrores, um Maracanazo (aquela vitória fatal da cultura hispânica nas fuças do Brasilzão cheio de si). Sim, o otimismo colorado defrontou-se com a barreira argentina e quase foi tudo por água abaixo. Não fosse o lance de sete toques, a história seria outra. Escrevo de memória: o chute veio do escanteio, surge a cabeçada, sobra para o atacante, que chuta sobre o goleiro, obrigado a fazer uma defesa impossível, quando a bola, para desespero da nação colorada, raspa no travessão; mas, felizmente, ela despenca no miolo da área tomada pela guerra declarada, no território minado de todas as fraquezas e bravuras, no lugar onde os corpos se misturam porque se estraçalham na vontade de vencer a qualquer custo, mesmo que seja o último grito sobre a terra.

Mais dois toques e pronto, Nilmar coloca para o fundo do gol. Foi épico, foi emocionante, foi uma lavada de alma. A torcida, que tinha embarcado no buraco negro formado pela implosão do jogo no tempo normal, desencadeou-se como uma tempestade, um tornado, um tsunami, uma inundação. A maré vermelha sangrou na pátria em chamas, varreu as arquibancadas e depois derramou-se sobre o campo, num choro de vitória que já se contava perdida.

Mas como não torço atualmente para time nenhum, a não ser para o Uruguaiana e o Guarani lá da minha terra, não vou alimentar o preconceito de que escrever sobre futebol precisa de hipérboles e emoções à flor da pele. Nada disso. Quero falar sobre o Maracanazo passageiro, pois aprendi que o futebol é jogado fora de campo. Isso mesmo. Nada a ver com psicologia de massa nem nada. Simplesmente faz parte da natureza do futebol. É quase parecido com aquela insistência de Parreira de que o Brasil precisa aprender a jogar sem a bola. O estranhamento fica maior quando vemos que o Brasil precisa aprender a jogar fora do campo, que é onde se decidem os campeonatos.

Pensem comigo. O que faz um time ser grande? O dinheiro, em primeiro lugar. Tem dinheiro rolando na grama? O patrimônio, o número de torcedores, a qualidade dos jogadores. Tudo isso existe antes de começar a partida. Não quer dizer que não faça parte do futebol. Ao contrário. Isso é o futebol. O resto, os noventa minutos, é lance de dados, senão o Fluminense estaria entre os primeiros, já que decidiu a Libertadores e não, como está agora, na zona do rebaixamento. O Fluminense perdeu fora do campo. Não foi o fato de dançar no último segundo. Foi dançar depois do último segundo, foi ter morrido depois daquela partida. Ou seja, depois, fora do jogo.

Ontem, a mesma coisa. O futebol, em tese, tinha se decidido antes do jogo. O Internacional tinha a vantagem. Merecia levar a taça, para completar sua série de troféus. Precisava dar o troco no Grêmio, que está na cola do São Paulo na decisão do Brasileirão. Tudo isso muito lógico. Ou seja, o Colorado estava jogando futebol fora do futebol. Esqueceu que os argentinos são craques nesse assunto (e, tempos atrás, os uruguaios, campeões do mundo em 1950).

Os argentinos são especialistas em dar cama-de-gato no gigante. Contam com sua ferrenha unidade nacional, sua determinação, sua certeza de que são os melhores do mundo em tudo. Nada pode contra essa avassaladora cultura argentina, que está sempre certa, sempre dentro da lógica, sempre acima, sempre melhor, maior e não sei mais o quê. Quando perdem, sempre há uma explicação, pois jamais abandonarão sua natureza hegemônica. Esse é o lance decisivo do futebol argentino jogado fora de campo, onde se decide o futebol (tanto é que têm mais títulos disputados no continente). Eles se armaram para estragar a festa (pode-se argumentar: mas isso todo mundo faz; só que os argentinos são mestres desse ofício). Eles criaram uma rede de intrigas dos corpos que iriam entrar em movimento. Contavam também com a sorte, que costuma se entregar às almas determinadas. A sorte tem medo de quem a desafia.

Há sempre um demiurgo nessa cultura estraga-prazeres. Em 1950 foi Obdulio Varella, ontem foi Verón. O demiurgo chama para si a responsabilidade e atrai a falta de sorte adversária assumindo o papel imaginário de herói. Verón caía como se estivesse num filme de capa e espada, jogava para a platéia, o time colorado. Os brasileiros prestam atenção demais nos heróis adventícios, numa espécie de complexo de culpa compulsiva de que não merece ser o maior, já que é, de fato, o maior. Já que o Brasil é mais, e isso não é justo, então os outros reivindicam esse papel. Jogam fora do futebol. Dizem: “Não, mais somos nós! Quer ver?”

E aí acontece a implosão. O time, os torcedores, a crônica esportiva, a diretoria, todo mundo brilhava como uma supernova. De repente, diante do time adversário,descobriram que eram uma estrela anã, estavam prestes a implodir, cair em sim, gerar um buraco negro. E foi o que ocorreu. O estádio murchou enquanto os argentinos celebravam o gol como se tivessem cometido um assassinato. Sorte que o futebol se decide fora do jogo. Sim, fora. Porque a prorrogação não é mais o jogo, é o plus, é a oportunidade de revanche. Funciona como fresta para mundos desconhecidos, como o crepúsculo.

A bola, como o sol que se recolhe, decide, no último minuto, desencadear uma torrente de luz. Foi aí que o Internacional voltou a brilhar. Merecidamente. Contrariou a previsível derrota, a perspectiva dos pênaltis, entre outros pesadelos, e venceu com o que tinha em campo: a garra, a coragem, a sorte, a insânia. Foi assim, meus queridos abnegados do futebol, que o Colorado meteu a mão na taça e Nilmar foi carregado em triunfo. Porque, no final dos 120 minutos, ficou provado que esse foi o melhor time do torneio e portanto deve, com todas as honras, sair às ruas vestindo sua camisa vermelha.

Assim é que é: quando achamos que pegamos a embocadura do futebol, ele nos escapa e cumpre à risca a percepção tradicional sobre esse jogo, um exercício que só pode ser praticado e assistido pelos espíritos livres.

3 de dezembro de 2008

O GRANDE SUFOCO


O título é uma tradução livre de The Big Heat, filme de 1953 de Fritz Lang, que vi ontem na Cinemateca Diário da Fonte. Mas também se reporta ao crime hediondo que é ficar à mercê de gigantescas porcarias que são produzidas em série pela indústria audiovisual bandida, enquanto maravilhas, jóias do filme noir e de todos os gêneros dormem no esquecimento ou rodam apenas na mão dos cinéfilos. Temos pouca noção do Mal que nos fazem ao nos apartar das obras-primas como The Big Heat, que foi lançada no Brasil com o título de Os Corruptos. Nada mais apropriado para o Brasil de hoje: investigador honesto enfrenta a máfia que domina os altos escalões da polícia e da política e paga um preço caro para provar sua inocência e recuperar o cargo perdido.

Não gosto de dar ficha de filme, já que a rede está aí para isso. Prefiro fazer um texto impressionista sobre o que vejo e ouço. O filme de Lang chama-se solidez. O texto, do celebrado roteirista Sydney Boehm , coadjuvado por William P. McGivern (escritores em dupla, bem sob medida para o cinema, que é trabalho de equipe), não tem as sacadas antológicas dos grandes filmes do gênero, aquelas ditas com um mínimo de movimento nos lábios, rosto de metal e olhar sampacu. Mas oferece uma narrativa segura, jamais redundante, com uma lógica encantadora e cenas que se encaixam perfeitamente numa sucessão ascendente de suspense e violência.

A brutalidade se manifesta contra as mulheres e também nelas. A magnífica Gloria Grahame, que faz a debochada e louca amante do gangster interpretado por Lee Marvin, atrai a fúria machista ao ter uma das faces queimada por café quente. Isso gera a mais brilhante fala do filme. Gloria e o herói, o policial interpretado por Glenn Ford, estão frente a frente, com a câmara de olho neles, de lado. Aparece apenas a face sã da mulher, que sugere: “Poderíamos viver apenas de perfil”, diz, num lance de meta-linguagem hilário.

Nenhuma mulher do filme é de brincadeira. A esposa do policial, Jocelyn Brando, mistura sexo e cozinha, vida conjugal tranqüila com cenas sensuais quentes, inteligência e coragem (ela é o parâmetro para o comportamento ético do marido).A viúva interpretada por Jeanette Nolan chantageia a máfia e ironiza a Justiça. E a Outra do veterano policial que se suicida, interpretada por Dorothy Green, levanta o véu da corrupção com seu depoimento. Todas as quatro principais protagonistas femininas acabam mortas. Fritz Lang, o gênio homenageado por Godard em O Desprezo, não veio ao mundo a passeio.

Enquanto as mulheres são fortes, os homens são uns poltrões, com exceção de Bannion, o good guy (dizíamos “mocinho”) que enfrenta todo mundo para vingar a morte da esposa. O cara que se mata, os chefes da polícia que comem na mão do mafioso, o brutamontes que se encarrega dos assassinatos, seu assecla que faz tudo errado, os colegas investigadores que tentam convencer Bannion de que não pode ficar isolado. Em Lang, o homem é o ser adaptado, covarde e mesquinho, enquanto as mulheres jogam pesado em favor do casamento, ou do dinheiro, ou da vingança.

Bem, já contei demais sobre o filme. Podem ir atrás ou pressionem as televisões para colocá-lo na programação (ha ha ha ha, como se isso desse resultado). Quem sabe o Programador do Traço, aquele cara que anda sumido e que colocava grandes filmes quando todos iam dormir, se sensibiliza. Talvez até o Programador do Traço tenha sido compulsoriamente aposentado. “Shane às três da matina? Pirou, vamos colocar Máquina Mortífera 15, isso sim”. Mas esse post ficou grande demais para o que eu queria fazer. Assim mesmo, arrisco um travelling (quem escreve sobre cinema faz travelling): vi O Invencível, do grande diretor indiano Satyajit Ray, de 1956, absolutamente verdadeiro e encantador. O garoto órfão de pai que ganha a oportunidade de estudar em Calcutá é uma das obras de sua famosa Trilogia Apu (nome do personagem), baseado na literatura de um escritor do início do século 20. Filme de impacto, limpo, seguro, belíssimo, com a grandeza que falta à maioria do cinema brasileiro hoje.

E tem também o conjunto de curta-metragens Ten Minutes Older - The Trumpet (que se diferencia da série Cello, com outros diretores) onde cineastas como Wim Wenderes, Spike Lee e o finlandês Aki Kaurismaki (autor do maravilhoso Nuvens passageiras, que também vi recentemente) exibem sua maestria durante os dez minutos propostos. Wenders é mestre, em pouco tempo compõe, baseado em experiência pessoal, uma trama audiovisual de arrebentar (o sujeito que toma sem querer uma dose de peyote e procura desesperado um hospital no deserto americano). Lee mergulha nos bastidores da derrota de Al Gore para Bush, num mini-documentário sobre os bastidores daquele trágico final de campanha. E Kaurismaki é o minimalista genial, quase um gerador de sessões de slides, pintor absoluto do cinema contemporâneo, com um humor poético que roça o bizarro. Há ainda Chen Kaige, que aborda a perda de identidade de uma China que pisa na tradição e opta pelo consumo por meio de uma refilmagem poética da fábula sobre o Rei nu: um equipe de mudança atende os apelos de um cidadão que enlouqueceu e carregam móveis e vasos imaginários de uma casa invisível situada no terreno baldio que outrora abrigara um bairro.

Mas haja espaço para comentar tanta coisa boa. O importante é destacar a necessidade que temos de sair do grande sufoco vendo filmes essenciais. Precisamos nos livrar do açougue a que nos submeteram com a difusão da crueldade, da violência gratuita, do esvaziamento do espírito, da pobreza mental, entre outros malefícios. Cinema de primeira grandeza: é disso que nós, o povo, gosta.

RETORNO - 1. Imagem de hoje: Gloria Grahame tenta seduzir Glenn Ford, o incorruptível, em "The Big Heat". 2. Ida Duclós aponta algo que me escapou sobre a personagem de Gloria: sua grande cicatriz numa das faces é a representação de uma pessoa dividida, entre o mundo do crime e a crítica aos mafiosos, entre a vida fácil e a vontade de ter uma família, entre a honestidade e a falta de ética. 3. No Profissão: Repórter de ontem, terça-feira, Caco Barcellos e sua equipe chegaram juntos na hora da onça beber água. Duplas de jornalistas e cinegrafistas entraram no supermercado saqueado em Itajaí, ficaram junto aos militares com lama até a cintura, entraram nas áreas de risco em Blumenau, Ilhota, Morro do Baú, falaram com as vítimas isoladas, feridas, desesperadas. Foi um up-grade do melhor da grande cobertura que a televisão fez tragédia. Eu me emocionei várias vezes. Santa Catarina, estado onde moro, partiu o coração de todos. O Brasil inteiro esteve aqui, ao nosso lado. Somos ainda uma nação.

BATE O BUMBO - Recebo o seguinte e-mail: "Caro Nei, Só agora li o que você escreveu sobre a coleção de Bossa Nova da Folha, que ajudei a organizar. Muito obrigado por suas palavras. Abraços, Ruy Castro."

2 de dezembro de 2008

MORROS


Nei Duclós (*)

Casa e morro são mistura de pedra e barro, só que nenhum deles foi feito para suportar o dilúvio. Menos ainda quando as imposições da laje e do concreto substituem a cobertura vegetal, oferecendo ao relento as piores perspectivas, confirmadas pela tragédia que despencou em Santa Catarina. Aqui é a terra dos morros e das casas do Brasil profundo, aquelas vistas à distância que despertam a vontade de morar nelas. O aspecto bucólico, silencioso, pacífico dos recantos que bordam as estradas desta paisagem é o alvo dos sonhos produzidos pelos estressados da hiper-urbanidade.

Quem vem de São Paulo, por exemplo, abandona um pesadelo de fuligem e metais, cruza a BR-116 por uma serra hostil, e enfim é recepcionado pelas rendas enfileiradas de cordilheiras baixas. Essa pintura derreteu quando os laboratórios da água conseguiram separar poeira e brita e jogaram uma parede de espantos na cidadania em pânico. O morro, símbolo do ambiente amigável, tornou-se sepultura de gente, casas, ruas, bairros, cidades inteiras. Pois não houve apenas inundação, enchentes. Houve a grande surpresa: uma parte importante do cartão postal implodiu, e rolou sobre pessoas e pistas.

No lugar de um terreno, um brejo; de uma edificação, ruínas; de um caminho, paredões surgidos do nada, com estrondo. Como se as entidades que segurassem os morros cometessem suicídio coletivo. Como se fosse uma emboscada, em que os atentados seriam de espíritos sinistros de outras dimensões a fazer tabula rasa da geografia, eliminando um por um esses sentinelas de vales, esses seguradores de vilas, esses guardiões de praias.

Morros que segredam trilhas, conduzem barcos, escondem ninhos, geram vagalumes. Morros que servem de refúgio, onde os duendes meditam, as fadas se inspiram, os poetas se abrigam. Por trás dos morros existia a imensidão do mundo desconhecido. Em muitos pontos do estado marcado pela dor, agora não existe mais nada. Nasce um novo temor, o do morro que ameaça, a prometer avalanches quando deveria apenas reproduzir o eco de nossos acenos.

Sobram ainda muitos, que merecem tratamento melhor, à altura do que enxergamos neles: a paz, que nos falta, a emoção, que foge para longe.

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 2 de dezembro de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem de hoje: pescador solitário, foto de Miguel Duclós. Praia ao entardecer, morros ao fundo: a paisagem que devemos preservar.

BATE O BUMBO - Recebo o seguinte e-mail sobre meu texto Galo Inventa a Manhã, publicado originalmente no Caderno Variedades do Diário Catarinense e reproduzido aqui, no meu site e no portal cultural Cronopios (cada vez melhor): "Professor, belíssimo o seu texto no Cronópios. Um aula de ficção-não-ficção. Aprendo sempre. Um abraço de estima". Germano Xavier. Iraquara-BA.

1 de dezembro de 2008

DEZEMBRO, O SUSTO DO TEMPO


BATE O BUMBO - Minha resenha sobre a trilogia de Máximo Gorki, que publiquei no caderno de Cultura do Diário Catarinense e reproduzi aqui no Diário da Fonte e no meu site, está bem destacado, a partir de hoje, no prestigiado Digestivo Cultural, na seção Ensaios. Estou muito bem acompanhado, por grandes escritores. Agradeço a Rafael Rodrigues pela gentileza da publicação e pelo cuidado e a competência com que encaminhou esse processo.

Nei Duclós

Vi dezembro chegar nas luzes da vizinhança. Elas piscam, insistentes, o susto do Tempo. Tentam surrar a lembrança da véspera, trágico novembro. Prometem festa, quando há dor. Vagalumes fixos de cores berrantes, estão deslocadas neste final de anti-primavera, quando no lugar de flores, colhemos luto. Quanto mais antigos somos, mais dezembro nos aproxima daquele choro derramado, posso dizer: de criança. Ainda mais agora, quando as cicatrizes do paraíso nos lembram o quanto somos pobres aqui no Sul tão celebrado. A pobreza quase oculta ficou ostensiva. A paisagem derreteu e o morro veio abaixo, levando junto o sonho de felicidade.

De repente, o Brasil inteiro descobriu que aqui, lugar de alegria no verão, quando todos nos visitam, é também um espaço de escassez e desperdício. Vidas sumiram, terrenos deixaram de existir, cidades foram riscadas do mapa, bairros inteiros engoliram seus habitantes. Quem consolará o brasileiro deste quadrante, que custa a acordar do pesadelo, enquanto milhares de abnegados heróis trazem a comida e a água, e permanece nas mãos de Deus o único consolo?

O ano não prometia esse desfecho. Tínhamos a ilusão de que todos os equívocos, cada vez mais intensos a cada temporada, como o volante arrogante, a irresponsabilidade coletiva, a ansiedade geral, a brutalidade possante expressa em motores cada vez mais hegemônicos, poderiam ser manobrados pela paciência, a perseverança, o otimismo e o prazer, enfim de viver na praia. Mas com a pressão das águas, tudo ficou insuportável. Não é possível achar normal ter que jogar o carro para a calçada para dar vez ao mastodonte que o pressiona com roncos, luzes e o olhar feroz.

Não queremos mais correr no estacionamento para que o animal, que veio zunindo do cruzamento, possa imediatamente colocar sua carruagem na vaga inexistente. Não queremos atravessar a rua de coração na mão. Não queremos ouvir o som alto, o vozerio gritado, as conversas bisonhas, a beberagem, a comilança, a confraternização visigoda numa época que pede civilização e respeito. Queremos um verão equilibrado entre a perda que aqui todos sofreram e a necessidade de recompor as forças, sonhar um pouco, antes que tudo rebente.

Existe a certeza de que o Tempo deva ser aproveitado, como se viver fosse sugar de canudinho a caipirinha que some por entre pedras de gelos. Que, se nos entregarmos a todos excessos cevados pela imaginação ao longo de um ano duro de trabalho, seremos recompensados por uma satisfação que jamais virá. Não tem outra saída. A paz de espírito vem da certeza na vida eterna. Se você se acha mortal, datado, finito e acabado, se não compreende que sua alma volta para a eternidade, então não há remédio. As férias serão sempre esse rosnado de feras, essa catinga de brutos, essa sedução primária.

Não que você vá se entregar à carolagem ou dizer “fica com Deus” a cada instante, como acontece com os fundamentalistas. A fé ficou tão desvirtuada pelos catequistas analfabetos, que a religião voltou a ser de foro íntimo, do tempo das catacumbas. Você reza, mas não faz um carnaval com suas orações. Você pede proteção, mas não fica advertindo os outros sobre sua correção. Somos precários, cometemos faltas. Devemos nos insurgir contra a barbárie, mas não virar pastores de Evangelhos mal lidos.

Rezemos pelas almas dos nossos mortos. E vamos ao mar, que o mar lava o sofrimento e nos prepara diante do irremediável. Saudemos o mar. Que fique em seu leito e que suas bênçãos sejam o único excesso deste início de dezembro, em que ficamos mais frágeis e com noção mais exata do quanto dependemos uns dos outros para sobreviver. A solidariedade deve ser também exercida pelos viajantes, que aportam aqui à procura da natureza, expulsa dos seus locais de origem.

Fica, penhasco, em guarda na praia posta em sossego. Mantenha-se, montanha, com suas trilhas e segredos. Voltem, cardumes, para nossas redes de espera. Que o pão e a água sejam repartidos, sempre. Porque assim ordenam os mandamentos do Alto, os que nos transcendem e por isso nos libertam. Chegue, dezembro, com seu abraço profundo. Traga redenção, traga de volta essa criança eternamente recém nascida, a esperança.

RETORNO - Imagem de hoje: Luzes, Cores, mais uma fotaça de Sérgio Saraiva.

"A Trilogia de Máximo Górki" - 1/12/2008 - Digestivo Cultural - Nei Duclós - Ensaios

"A Trilogia de Máximo Górki" - 1/12/2008 - Digestivo Cultural - Nei Duclós - Ensaios