21 de abril de 2006

OS LADRÕES DA ALMA






Nei Duclós

Uma redação é feita de fotógrafos, que sentam sobre as mesas afastando teclados, a querer provar que nosso ofício é moleza, basta ficar na cozinha a batucar o que nos vem na telha. Por absoluto desprezo ao mundo das letras é que eles jamais identificam as fotos. Gostam mesmo é de fazer corpo mole, dizer que tudo já existe no arquivo, nas agências, nos bancos de dados. E que pauta boa é a que inclui viagem e diárias e que no fundo esta é uma vida provisória e estão mesmo é montando um restaurante na praia.

Eles chegam com seus coletes à prova de bala, protuberâncias suspeitas, guarda-chuvas portáteis de alumínio, lentes e refletores, e sentem falta dos tubinhos de plástico preto com tampa, que não guardavam apenas filmes. Andam meio de lado, porque precisam de um arsenal para produzir essas coisas que tomam conta do espaço destinado às letrinhas. Com a pandemia da imagem permitida pelas câmaras digitais, eles acabaram cumprindo suas ameaças e hoje estão oficialmente em frente ao mar, mas basta chegar num restaurante lotado numa das capitais e lá encontramos o Leonid Strelaiev falando sobre mais um megaprojeto. Já nos acostumamos imaginá-los perdidos nos ermos do sossego quando irrompe na revista o Olívio Lamas, indo direto para o editor de arte, que tem a metade da nossa idade.

Conseguimos um livro perdido na poeira e lá está a foto de Assis Hoffmann estirado no chão, batido pela repressão que acabou com a Ultima Hora, como narra Jefferson Barros em Golpe mata jornal (Já editores). Estávamos acostumados a vê-los nos laboratórios, mas como são feras, jamais se restringiram ao mundo que escolheram. Queríamos confiná-los em espaços reduzidos, impedir que abrissem demais as fotos, mas como são completamente loucos, chegam diante do diretor de redação com um clic que demole dez quilômetros de texto. Os fotógrafos sobram e tomam conta do noticiário com o olho doentio que enxerga o que jamais notamos ao vivo, e que depois nos impactam por uma verdade que precisava deles para ser notada.

A realidade não precisa de nós, os escribas, precisa dos fotógrafos. Eles têm mais poder do que um presidente com acesso aos segredos nucleares. Por isso foram extintos em sua maioria, aposentados à força, empurrados para os relatórios de luxo, para os patrocínios ambientais e industriais. Eles eram presença excessiva nas redações, que os expulsaram. Ao jogá-los fora, o que entendíamos por redação foi junto. Hoje os fotógrafos sobrevivem como um punhado de bravos, porque não existem mais aqueles departamentos com cheiro de química e vazios de fotógrafos, que se aglomeravam todos ao redor dos repórteres, editores e principalmente, das mãos femininas que possuíam, segundo a visão daqueles canalhas, mais talento do que qualquer estrela da equipe.

O fotógrafo é um inconformado com a visão rasteira que temos da sua luta, por isso surgem cobertos de couro preto como Ricardo Chaves, motoqueiro explícito, que rebatia as observações maldosas sobre seu peso dizendo que tinha outro por dentro. Era a mais pura verdade. Eles eram outros, nós é que insistíamos em vê-los como os mesmos de sempre. E não bastava um, havia o amigo, tão bom ou melhor do que eles. Kadão Chaves tinha trazido para São Paulo esse outro talento avassalador e, por merecimento, eterno vencedor de concursos, o Antonio Gaudério. Falei para o Gaudério não beber água da torneira aqui em São Paulo, como ele fazia em Santiago, dizia Kadão. Por afinidade e admiração da minha parte, me aproximei de Gaudério que fez o impossível: conseguiu um dia colocar o açougueiro da favela no teto do seu estabelecimento sobraçando carnes e sorrindo para a câmara. Era uma matéria de negócios na favela, um assunto pioneiro que não mereceu destaque na época, mas certamente influiu pautas posteriores, pois o tema começou a ficar recorrente.

Se o fotógrafo é duro com seus pares, e pior ainda com os repórteres, nada pode ser comparado ao que fazem com as pobres fontes. Saímos de uma reportagem na Senhor e Helio Campos Mello bateu a mão na testa: Vamos voltar, disse ele. Para quê? perguntei. Esqueci de fazer o editor de Bíblias se ajoelhar. Foi difícil convencê-lo de que já tinha judiado bastante do abnegado entrevistado, que assumira todas as poses imaginadas e ditadas pelo malfeitor. Numa noite, o Ayrton de Magalhães cercou uma autoridade numa recepção, ao que foi impedido pelos guarda-costas, que gritavam: "O ministro não, o ministro não!". Ayrton tinha feito fama como o grande fotógrafo dos bastidores do submundo, se isso pode ser imaginado. Foi o primeiro a retratar os travestis de São Paulo, que o tinham como fotógrafo oficial. Ayrton ainda foi o autor da célebre foto de Marilia Pêra dando de mamar a Fernando Ramos da Silva, o Pixote, pois foi still do filme de Hector Babenco. Quando se aproximava de alguém, todos sabiam do que era capaz.

Mais tarde, achando já que a espécie tinha sido extinta, conheci o Hélcio Toth, que se celebrizou ao fotografar a cadeirada de um popstar na platéia que se aglomerava embaixo da janela do seu hotel. Hélcio Toth, quando mira o alvo, faz os edifícios perderem a forma, e os cachorros tornam-se estátuas sagradas em pedestais de xadrez. Por motivos pessoais, vive próximo a Regina Agrella, que nos deslumbra com pássaros transparentes bebendo de fontes invisíveis e traz para São Paulo paisagens que o interior esconde, mesmo para quem vive nele ou costuma viajar por suas paragens. Também me defrontei com Marcelo Min, que apelidei de O Olhar Absoluto. Thais Rebello, que por vinte anos foi diretora de arte da Editora Três, costuma dizer que Min não erra clic e dá sempre vontade de publicar tudo o que ele traz com seu jeito zen e sua presença implacável, que lhe rendeu uma surra de um segurança vizinho de Paulo Maluf.

A raça não some porque não se rende. Quando menos se espera, lá surgem eles aumentando a lista impossível de ser citada na íntegra. Com nome de profissional da Reuters, Tomás May é capaz de debulhar um assunto em cem mil fotos, dilacerando a escolha na hora de uma capa. Eles jogam pesado e não admitem rejeição de nenhuma espécie. Se sentem o centro do noticiário e acreditam na máxima de que os pixels superam o alfabeto. E jamais perdem a desfaçatez de ciscar no nosso terreiro, o que é uma experiência sempre enriquecedora.

Ouvir Edu Simões falar sobre literatura, por exemplo, ou Ayrton de Magalhães contar sua viagem à América espanhola, nos faz ver que algo se perde nessa divisão de tarefas em letras e imagens. Os fotógrafos optaram pela imagem porque alguém precisava fazer o serviço. No fundo, gostariam mesmo é de nos provar que as palavras não são nossa exclusividade e que podem fazer com elas o que costumam aprontar visualmente. Só não gostariam de ficar suando em coisas obsoletas como um lead. Contariam sua versão do jeito que gostam: com aquele ar superior dos artistas bem resolvidos, mal sabendo eles que nós é que somos os reis da cocada preta, nós, os tecedores de leituras, nós, os retratistas dos fatos. Esse é um conflito que se resolve numa viagem, com boas diárias, como as de antigamente. É quando temos a chance de nos afastar das redações, que nos confinam, e nos aproximar da nossa humanidade completa, que é invisível a olho nu, mas não para essas pessoas que empunham a câmara como quem roubam a alma.

RETORNO - 1. Close clássico de uma rosa vermelha, de autoria de Regina Agrella, citada nesta crônica publicada ontem no espaço Literário do Comunique-se. 2. Corrijo aqui o nome do Tomás May, que saiu Thomas, por absoluta distração do memorialista.

19 de abril de 2006

FORA DA ESTRADA





Down on the corner, out in the street, Willy and the poorboys are playin'; Bring a nickel; tap your feet. (J.C. Fogerty, do Credence Clearwater Revival)

Nei Duclós

Já conhecia aquele trecho de neblina bem no meio da estrada que liga Florianópolis a Curitiba. Era o que me preocupava enquanto forçava o golzinho além dos meus limites de velocidade, que variavam, para desespero dos outros motoristas e eventuais passageiros que se arriscvavam comigo, ente os 70 e 90 quilômetros por hora. Mas desta vez, chamado às pressas para resolver um assunto em Curitiba, eu era o próprio mestre de cerimônias da velocidade, ringindo pneu novo em cada curva, como se a montanha de caminhões que se despejavam na estrada não existissem.

RÉ - Sabia que na neblina espessa do trecho em questão eu iria me atrasar. Foi o que aconteceu. Parei atrás de uma tênue luz vermelha, que adivinhei ser a traseira de um tremendo Scania. Achava que não se fabricavam mais esses mastodontes da estrada e confiei no destino, que me colocara atrás de um portento, que abriria qualquer caminho para um motorista espisódico como eu. O problema é que lá pelo segundo quilômetro, equivalente a uns quinze minutos de sofrimento, a luzinha vermelha sumiu de repente e foi substituída por um farol enorme, que espalhava raios azuis por todo o lado, acompanhado de um bufar de dinossauro mecânico. Eu estava, sem mais aquela, no contrafluxo do trânsito!

Iria bater de qualquer forma, quando decidi, no último segundo, dar uma ré suicida, que cruzou a neblina de trás de maneira célere, às cegas, como se eu tivesse surtado de repente. Aproveitei o empuxe para dar um cavalo de pau, que me ensinaram no cinema e que eu jurara um dia colocar em prática. Fui seguindo em frente com aquelas luzes atrás de mim, como se fossem de uma nave espacial, enquanto o ruído aumentava. O estranho é que não havia ninguém mais na minha frente, o que significava que eu tinha sido o último de uma fila e agora ia em frente de volta a Florianópolis. Pelo menos era o que eu imaginava.

CANGOTE - O carro parou novamente, desta vez numa curva acentuada. O animal de lava continuava no meu cangote, impaciente, mas eu estava prestando atenção mesmo era na dissipação da névoa, que mostrava um céu azul pontilhado de nuvens branquíssimas. Quando cheguei ao fim da curva, o dia estava translúcido e eu me deparava com enorme placa na minha frente. Sou um péssimo leitor de placas ou avisos. Já cheguei a confundir "temos tempero para lingüiça" para "tempos de desespero para a lingüiça". Tudo é possível numa época de mau jornalismo. Mas aquela placa dizia outra coisa. Estava escrito: Ciudad Del Mexico, 30 km. Achei que era o nome de um restaurante, apesar de a placa ser daquelas enormes, oficiais, de letras brancas sobre o fundo verde, como mandava o figurino formatado em Los Angeles ou Nova York. O problema é que entrei num rio de trânsito de carrões, com placas de vários países, inclusive do México. Já tinha ouvido falar na história de abdução de um casal que dormiu dentro do carro na estrada e acordou exatamente num lugar como esse onde me encontrava. Não imaginava ser possível, ainda mais comigo, e não naquela ocasião, em que eu me dirigia para resolver um assunto urgente e inadiável. Pois tive que obedecer às sinalizações e penetrar na cidade monstruosa, coberto por fuligem, que era pior do que a névoa anterior. Para onde tinha ido a transparência que vira na estrada?

Tinha sumido, junto com meu bom senso. Eu estava com os olhos esbugalhados, debruçado sobre o volante para melhor ver os edifícios, as ruas, os sinais, as pessoas, o comércio e as praças. Era tudo monstruosamene real e eu, com meu golzinho, destoava do cenário. Isso acabou chamando a atenção de dois guardinhas, que eu sabia temíveis, pois por qualquer coisa dariam a célebre mordida, a propina para continuar trafegando. Um deles bateu com o nó dos dedos no vidro e fez sinal para abrir. Pediu documentos. Eu dei. Ele devolveu. Disse que não valia no México. Onde estavam los papeles, e esfregava os dedos para sugerir dinheiro. Nem lembro da conversa, pois, se tentar reproduzir, vou cair no meu velho portunhol, já que sempre me recusei a falar como os castelhanos, tão deslumbrados com sua lêngua, tanto que se enredam nela a toda hora.

ALAMEDA - Mas depois de alguns minutos de pânico, com a conversa aumentando de tom, decidi dar outra ré e outro cavalo de pau. Saí por um beco lateral que tinha visto minutos antes e caí numa enorme alameda cheia de carros e ônibus. Desviei do trânsito como um piloto veterano e acabei subindo a rampa proibida de um parque. Enveredei por uns trechos de flores, arbustos e pedrinhas coloridas e saí num circulo calçado que abrigava, bem no centro, uma estátua eqüestre. Contornei a estatua e comecei a dar voltas, completamente alucinado. Precisava voltar para a neblina, voltar para a neblina. Quem sabe acharia o caminho de volta?

Foi quando um mendigo se interpôs fisicamente diante do carro e me obrigou a parar. Sacudindo as mãos, desesperado, pedia ajuda, precisava ir para o hospital, pois estava tendo um ataque. Forçou o vidro e entrou de maneira abrupta, se jogando no banco ao meu lado. Fiquei olhando para ele com minha cara de louco quando ele puxou um trabuco 45 e me colocou dentro de uma das ventas. O mais gentil que ouvi foi hijo de puta. Tive que obedecer a suas ordens e me mandei por uma rua mais ou menos calma até chegar perto de uns sujeitos mal encarados. Era um grupo da pesada. Estavam sentados em cima de uns latões de lixo e ficaram me olhando de maneira cavernosa. Meu seqüestrador explicou que eu era um motorista de mão cheia e poderia muito bem dar conta do recado. Todos então entraram e se aboletaram no carrinho que naquela altura deixara de ser novo para virar um traste. Eu tinha batido a porta num coqueiro no parque, de raspão, quando quis desviar de um esquilo mutante, pois só animais mutantes poderiam viver naquela droga.

PALITO - Ao meu lado estava o ex-mendigo, que já tirara seu disfarce (um saco de aniagem e um chapéu rasgado) e envergava um terno azul, com camisa ocre e gravata preta. Era magro, alto, de rosto encovado e tremia ao segurar o revólver, que agora estava depositado no colo. Atrás estava El Gordo, que ocupava metade do banco. Tinha a cara de índio, um bigode espigado e uma barba rala. Equilibrava um palito nos dentes e falava com voz fina, que era subsituída às vezes por um ronco. Usava um chapeuzinho de aba curta, com uma pena pequena, colorida , atrás, tipo filhote de chapéu de Robin Hood. E ao seu lado, espremido, estava um fuinha baixinho, com tiques nervosos, todo coberto de jeans, uma ruga na testa, cabelo de milho, ralinho. Era chamado de El,Pibe. El Gordo era o próprio. E o seqüestrador era o Coiote.

A tarde já vinha caindo e me levaram para outro beco, onde se destacava na parede de tijolos à mostra enorme anel de aço com os dizeres de um banco. Parece que era bank de alguma coisa, era deposito de dólares, por supuesto. Eles pararam bem em frente ao troço e descarregaram as sacolas cheias de material. Coiote fazia a segurança, sem desgrudar o olho de mim, El Gordo cuidava dos detonadores, maçaricos e bombas e El Pibe era o artífice, o cara que colocava fio de aço dentro de fechaduras milimétricas. Na hora que conseguiram algo, o gordalhão deu uma forçada na tampa daquele cofre e abriu de um safanão. El Pibe mergulhou lá dentro levando um bolo de sacos plásticos vazios e logo colocou a cara para fora. O cofre só continha papeles. Os putos vinham para o beco depositar a papelada das empresas, jamais dinheiro, pois o lugar era meio sinistro e levantava suspeitas. Talvez tivesse sido construído quando ali era uma rua aprazível, lá pelo meio do século passado.

GOSMA - O gordo não quis nem saber. Se solo tiene papeles, ponhálo papeles em la botija (já falei que meu castelhano é execrável). Como Pibe não dava mais sinal de vida, o Gordo colocou a cara para dentro e descobriu o embrulho: os papéis estavam atrás de uma grade. Os pulhas do banco tinha encarcerado a papelada e ido hoder, assim com agá aspirado. O gordo então passou para o companheiro um naco de gosma plástica para detonar a porra. Pibe saiu de um salto quando El Gordo disse que ia detonar tudo. Ouviu-se um estrondo seco e o pibe voltou par dentro, saindo de lá com uns sacos chamuscados de papéis. Idiota, queimaste tudo, dizia para o gordo. O segurança nem olhava para a cena. Colocava um olho no final do beco, que aquela hora parecia a luz no fim de um túnel, e outro ainda em mim.

Entraram batendo porta e tive que sair na disparada. Duas fardas tinham adentrado o corredor bem lá atrás, no outro lado da ruela. Era a ronda habitual. Sumi derrubando lixo e voltei para a rua principal, enquanto ouvia as reclamações gerais, da bosta que tinha sido aquela idéia, aquele roubo. E ainda mais, com este motorista brassilenho, que só sabe jugar fubol, carajo de mierda, me cago em la leche de tu madre (isso tirei de Hemingway, que tem uma literatura cubana onde as pessoas vivem cagando no leite materno, seja isso o que for; serve para eu descrever a cena, real). Então me levaram para subúrbio, para um casarão mal assombrado, vazio de móveis e cheio de teias de aranha. Lá reviraram de novo o butim, e descobriram umas ações ao portador que valiam no mínimo um mijone de dôláres. Deram saltos de alegria, chegaram a me oferecer tequila e a me bater amistosamente nas costas, mas ficaram mudos de repente pois descobriram que teriam que se identificar no banco para pegar a bufunfa.

FRITO - Naquele banco no y no, disse El Gordo. Bueno, bamos en otro, disse El Pibe. Em outro, pero no nosotros. Bamos a convocar Ronaldino Gautcho aí, el brassilenho cagado, que les parecen? Eles me olharam fundamente e despencaram de tanto rir. Eu estava frito. No dia seguinte me colocoram à força um terno parecido com o do Coiote, e fui, vestido de mafioso cucaracho, num banco perto dali, poderoso pela altura, e horrendo pelas cores, guardas e clientes que estavam nele. O gerente verificou meus dados, pediu passapuerte, eu disse que não estava comigo nel momento, mas ele poderia pegar uma ventaja de diez por ciento de las aciones, o que deixou o infeliz esfregando as mãos de contente. Mas disse que eu teria que fazer um depósito na minha conta em outro banco com o valor das ações, pois ele não dispunha de cash no momento. Ouvindo isso, El Gordo despencou sobre a mesa, bateu nela e disse: dá-nos algo, cabrón.

O cara então consentiu em nos passar 80 mil dólares e o resto, uns 400 mil (era, claro, a metade do que tínhamos calculado) eu repassaria para outra conta, no caso, a do Coiote, que era o único que dispunha de uma vida regular. Tudo combinado saímos, eu com minha mala (para não dar na vista), eles com recibo do depósito. Em frente ao elevador modernoso que custou a aparecer, tinha outra porta, de um elevador daqueles antigos, com porta sanfonda. Os novos ricos estavam esperando o cadilaque quando tive a oportunidade de saltar para dentro do fusqueta que bruscamente abriu na minha frente e fechou nas minhas costas. Ainda ouvia os gritos de te voy a te matar, ronaldino gaudutcho, quando cheguei no térreo e disparei em direção ao meu golzinho. Saí na corrida com meus 80 mil dólares gritando alucinado: voltar para a neblina, voltar para neblina.

BARULHO - Parece mentira, mas consegui chegar na altura da estrada onde tinha se dado o evento. Peguei a mão certa e me aprofundei na espessa nuvem que cobria o caminho, situação agravada por ser já tarde e o sol de novo insistia em querer se por. Eu tinha ficado o dia inteiro naquela lida de novo. Quantas horas ficara naquele banco, sentado em meio a senhoritas nerviosas e cucarachos insanos, suados, dependurados numa dívida de num lugar que dava as perigosas mordidas? Só sei que voltei para o lugar onde estava e descobri novamente que as luzes de um latão medonho fazia barulho para eu sair da frente. Desta vez eu desviei para a direita, cruzei uma ilha coberta de mato e entrei na mão segura e correta. Consegui sair da neblina e ver a placa salvadora: Curitiba, 150 quilômetros. Decidi seguir em frente, pois me apavorava o fato de cruzar a neblina de novo.

Fique até a manhã seguinte na capital paranaense. Vendi o carro no primeiro pátio que depositava segunda mão e peguei um ônibus. Não ia arriscar. Deixava tudo na mão do motorista. De avião não daria certo, poderiam me revistar no aeroporto com meus valiosos dólares. A viagem rolou pela estrada até chegar ao trecho fatídico. Foi só dar 15 minutos naquele sufoco e vi da janela a cara do Coiote vibrando o revólver em minha direção. Abrite, ronaldino, dizia. N frente do ônibus, o pobre do motorista já era rendido e entraram então El Pibe e El Gordo, que me carregaram par fora da lotação. Entrei num cadilacc azul prateado, no banco de trás, sendo espremido por gordão. Na frente iam os dois outros meliantes, já contando o fruto do roubo. Quando viram que tudo estava certo, encostaram na estrada, pararam o carro e me olharam fixamente . Iam me matar, claro.

CONVERSA - Bom trabalho, campeão, me disse o Coiote, completamente sem sotaque.
- Te foste muito bem, disse El Pibe, com sotaque gaúcho.
- Não elogia muito o cara, seu plaquero, disse o gordo.
Plaquero? Sim, o pibe era o rei das placas, fazia qualquer uma. Tinha pesquisado na Internet e sabia imitar os dizeres do trânsito de qualquer lugar do mundo. Ganhamos, tchê loco, gritava El Pibe, ganhamos um montão de grana. Não t falei que era moleza, dizia El Gordo, com sotaque de manezinho da ilha de Floripa.
- Mas vocês são brasileiros.
- Claro, idiota. E mexicano tem alguma idéia de fazer alguma coisa?
E foram cantando down on the corner aos berros, acompanhando o rádio que esgoelava o Credence, enquanto eu afundava no mais completo abismo mental, pois tinha sido vítima de uma armadilha.
- Mas como vocês fizeram, como sabiam? Aquela cidade não era o México?
- Era Joinville, imbecil, tu não conhece Joinville. Ta cheio de banco de alemão e americano com grana.
- Mas Joinville é uma cidade limpa, sem poluição.
- É mágica do plaquero, disse El Gordo. Você vê a placa e acredita. Aí tudo fica sendo visto através da neblina.
No rádio do carro tocava: Não precisa ter um penny, basta um níquel para Willy and the poor boys. Down on the corner...
- E por que me escolheram?
- Tu vive dando banda na internet, seu besta. Contaste essa história do México, da nave espacial e nós bolamos o assalto. Tu é mesmo um abostado, dizia El Pibe.
- E os guardinhas, os guardinhas?
- São de lá mesmo. Acharam que tu era argentino e quiseram te dar uma sacaneada.
- Mas eles falavam México, México.
- É que tu é preconceituoso mesmo, disse El Plaqueador. Acha que todo castelhano usava chapéu de aba larga. Falou espanhol e acreditas mesmo que estás mesmo em Ciudad Del Mejico.
E se esborracharam de rir.
- Mas e a praça? Como foi que me encontraram?
- Tu foste levado para lá, sua mula. Não tem outro caminho. Todas as ruas daquela região dão no parque. Quando tu entraste no miolo da praça, o coiote correu no teu encalço.
- Pára aí. E o gerente? Ele me pediu passaporte. E falava espanhol!
- Porque tu tem cara de gringo, animal. Tem sobrenome metido a besta, por isso.
Eu não me conformava:
- E porque vocês não foram ao banco sozinhos?
- Porque até em banco bandido não temos chance. A gente precisava de um laranja.
- E o que vocês vão fazer comigo? Vocês já têm toda a grana.
- Toda não, só os 80 mil. O resto foi para uma conta inexistente. Não podemos correr riscos. Mas oitentinha já paga todo o investimento.
Eu estava com o horror estampado na cara. Vendo meu desespero, El Gordo tirou o palito da boca e me ofereceu, com o rosto consternado, cheio de piedade:
- Quer uma lasquinha? Esse é teu pagamento.

MANHA - E me deixaram no meio da estrada, sem gol, sem grana e com muita raiva dos mexicanos, porque eu precisava naquele momento odiar alguma coisa.
Gritei no meio do nada:
- Não é Ronaldino, seus putos. É Ronaldinho, de manha, de fanho, de sanha. É o nhá dos índios seus jodidos.
Vinha um som de algum lugar. A letra dizia: basta um níquel que Willy e os pobres garotos vão te agradecer e continuar tocando.

RETORNO - Este conto é uma homenagem ao disco maior da minha banda favorita, que escutei por um ano inteiro, até furar o vinil.

OS BLOCOS DE MESTRE BAZINHO





A cidade é chão de terra que levanta poeira com as sandálias do povo em desfile. Eles chegam das casas na linha do trem para tomar a avenida Presidente Vargas, sob o comando dos mestres da bateria, dos batutas que ensinam o som e a dança. A escola é feita de lantejoulas e saias, de calças sedosas e cartolas de papelão amarelo, de evoluções em curva, de carros puxados à força pelos mais moços, que levam em seus ombros suados rainhas e princesas, enquanto as alas rodopiam diante da multidão sentada em cadeiras de vime, mais tarde de alumínio e hoje arquibancadas de madeira crua, reomontadas a cada ano sob o império das doações e incentivos. A escola era o chão dos maestros, mas não davam camisa. Era preciso migrar para os blocos, esses sim fontes de uma renda mínima, que garantisse a comida fora dos limites do carnaval. Isso era o território de Mestre Bazinho, convocado para equilibrar a concorrência entre os foliões, que imitavam as escolas só na aparência, pois eram mais soltos, menos formais, mas não podiam descuidar da qualidade do refrão.

RIO - Os braços levantados das moças dos clubes, caprichadas em seus paetês e miçangas, farfalhavam pernas e torsos sob o céu pouco estrelado devido às fortes luzes que jorravam dos postes. Era um passeio provisório, o das ruas. O momento decisivo era a entrada no salão, quando a platéia se levantava de uma vez só quando mestre Bazinho organizava o triunfo da canção-tema e dos acompanhamentos profissionais de pessoas sob sua guarda, gente de casas derrubadas sobre o rio. Havia sempre o sopro de instrumentos que davam o tom da cantoria, enquanto um surdo, um tarol, um tamborim, uma cuíca e um ganzá salpicavam o chão da elite com os passos do ritmo e da melodia. Entre os músicos, muitos eram dos quartéis, soldados da Brigada, do Exército, dos fuzileiros navais. Concentrados no seu ofício, só tinham olhos e ouvidos para o maestro, que dominava a cena com sua sabedoria instantânea que vinha de longe.

ENTRUDO - Não havia chance de arriscar diante do adversário. Por isso mestre Bazinho era convocado para todos os blocos importantes da cidade. Ele conseguiu essa façanha organizando a agenda como um mapa de guerra. Precisava do soldo que vinha daquelas vozes e corpos, e lhe dava prazer disputar o título com ele mesmo. Não que evitasse o confronto com seus pares, que existiam, mas com outras obrigações e objetivos. Eles não queriam se desvirtuar da religião das escolas, que demandava esforço o ano todo, incluindo aí a formação de novos músicos, escolhidos a dedo pelos olheiros dos mestres, que freqüentavam todas a s rodas em busca do trinado perfeito, do bater impecável sobre o couro de origens diversas. Não se podia deixar de lado esse tipo de providência, pois o carnaval era um sugador de gente, que vinha inapelavelmente e chegava com o estrondo do entrudo, quando a população enlouquecia, armada de baldes de água de tocaia nas esquinas. Sobre os muros, atrás das árvores, quem viesse ofender a folia com seus ternos de linho branco, seus penteados para a missa, seus véus de castidade, eram punidos com o jorro desmoralizador da bagaceira, que assim se vingava da situação a que fora condenada naquela fronteira entre o pasto e a honra.

NOTAS - Era chegar a bandalheira para que os músicos lembrassem aos cidadãos travestidos de mulher, às senhorinhas mergulhadas no lança perfume, de que existia uma civilização antes e depois do vendaval. Os músicos participavam de bandas sérias, envergavam fardas, tocavam nas comemorações da pátria, insuflavam vento à bandeira nacional que protegia o solo e acenava para o céu. Os músicos não poderiam faltar com suas notas, talento, força muscular e presença de príncipes num reino decaído. Eles herdavam a seriedade que antes pertenciam apenas às autoridades, aos professores, às mestras, às visitas ilustres, como o presidente da República que um dia deu um tiro no coração e que envergava roupa branca para refletir o sonho do povo em procissão pela História. Os aprendizes de mestre Bazinho traziam com sua arte a soberania do país em festa e rompiam o limite que havia entre pobres e ricos, entre analfabetos e eruditos, entre sonhadores e pragmáticos. Eles levavam tudo de roldão, sob o olhar de mestre Bazinho, o dono do evento, que nos bastidores era tratado como rei e que para o público era a garantia de que todos caprichariam para vencer, porque tirar o primeiro lugar era a medalha mais cobiçada. Ser destaque de evento sério é uma coisa, ganhar no meio do buchincho era outra, motivo maior de celebração pelo tempo afora.

BAÚ - Agora as fantasias estão perdidas, talvez alguma sobreviva em algum baú, se é que existem baús. Uma visita ao sótão, quando há sótão, e lá está a caixa onde se guarda o passado. A tampa está sem chave e basta vontade para tirar lá de dentro algo que faz barulho ao tocar. É um vestido, uma gravata borboleta, uma máscara, um frasco vazio de lança perfume. Quem quer saber de carnaval se já estamos no outono? Quem lembra o calor da festa no salão lotado, ao sabor das marchinhas eternas? Voltou o tempo de se aprumar, ir à solenidade, ouvir atentamente os discursos, participar de mesas com flores artificiais e coques altos, que coroam pescoços rodeados de pérolas. O ministro, o presidente, o governador, o prefeito estão presentes. De repente, no meio da banda oficial e vestida a caráter, cai no chão um clarim. É Argeu, da escola os Rouxinóis. Ele fica devastado pelo barulho que faz seu instrumento, e que atrai todos os olhares. Mestre Bazinho, sempre ele, olha o aprendiz com benevolência. Argeu se abaixa, pega o clarim, passo um lenço rosa sobre ele e, constrangido pela situação, faz de conta que vai dar um sopro. Será que sairá uma nota aguda, despropositada em meio ao silêncio majestoso de todos os presentes?

PALMAS - Argeu não sabe o que está fazendo. Quer se desculpar pela gafe, quer ser incluído como músico eficiente e sério. Não é um qualquer, desse que deixam cair as coisas, que não dão bola para as liturgias. Então ele dá um soprinho para ver se o bicho ainda funciona. Como tem força de dez leões no peito vasto, a nota sai límpida e alta, e toma conta do ambiente batendo no teto. A platéia então, automaticamente, esquecida da seriedade do outono, acompanha a nota como se estivesse ainda no início do desfile. Palmas ritmadas, acompanhadas pela voz uníssona do refrão daquela abertura dos bailes. Tará, tará, tará, tará, ta rarara ráááá. Aí ecoam as palmas de verdade. O carnaval temporão, como um raio tardio na tarde fria, cai nos rostos iluminados por aquela revelação: éramos o carnaval de mestre Bazinho, na fronteira do Brasil Soberano, quando havia nação e tínhamos a missão de manter aceso o fogo da nossa identidade, inventada pelos músicos e comandada pelo maestro que agora ria seu riso cheio de graça, que sempre fez a glória do folião número um daquela cidade, que era nossa pelo menos uma vez por ano - e quando Deus permitia, em qualquer estação da nossa infinita esperança.

RETORNO - 1. A foto pertence ao portaluruguaiana e é do carnaval de 2005. 2. O texto é inspirado em algumas informações de Miguel Ramos, que me falou sobre a existência de mestre Bazinho, o maestro de todos os blocos importantes da cidade. Mais não disse e por isso a crônica saiu assim, do jeito que a invenção gosta. 3. Depois de me chamar de "baita semvergonho" por não ter esperado mais informações sobre o mestre, Miguel Ramos escreve no orkut: "A tua imaginação é prima-irmã da verdade".

16 de abril de 2006

ARMADILHA POLÍTICA





Está tudo pronto para as eleições presidenciais de 2006. A ditadura já apresentou seus dois candidatos principais, que se revezam no noticiário, com eventuais entradas dos considerados nanicos pelas pesquisas. A imprensa vai a reboque, porque a imprensa pertence aos bancos e o sistema financeiro é o principal interessado na manutenção desta falsa democracia que garante seus lucros indecentes. Cuidado, não ataque os tucanos senão você será considerado conivente com os corruptos. Cuidado, não ataque Lula senão você será considerado de direita. É de uma tosca simplicidade, mantida a ferro e fogo pelo regime, que além da corrupção precisa da violência para ficar de pé. Atacar prédios de luxo faz parte do serviço mafioso de amedrontar os formadores de opinião, entre eles até secretários de estado, que ficam com as calças na mão quando um dimenor levanta a arma na direção deles. Na tempestade de merda que se abate sobre nós, a argumentação acadêmica a favor do horror é cada vez menos qualificada, como comprova o texto de Sergio Lírio, da Carta Capital.

VALE TUDO - Diz o sociólogo da Facha, Faculdades Integradas Helio Alonso, ao comentar o vício que jornalistas têm agora de chamar Lula de populista: "O termo descreve um período singular de países latino-americanos: substituição de importações, incorporação controlada de massas ao mercado de trabalho, criação de direitos sociais e surgimento de líderes carismáticos pela via eleitoral. Fora desse contexto, seu emprego é mero recurso retórico esvaziado de conteúdo. Serve apenas como propaganda ideológica". Ou seja, só vale o conceito que eles inventaram, para destruir o trabalhismo, claro, e colocar esse marionete do capital no poder. Pois é o oposto: populismo é o termo inventado pela direita para desqualificar líderes populares que a enquadraram (e por isso foram derrubados e mortos); é também o conceito que eles usaram para enganar o povo via contrafações de liderança como Jânio Quadros. E agora professor? De volta à produção livre de pensamento ou vai ficar atrelado às palavras ditadas por interesses?

TOC TOC - Nunca tinha ouvido falar na tal Facha, que é do Rio de Janeiro. O dono da coisa, professor Helio Alonso, respondeu assim a uma pergunta da Folha , que abordou o atual escândalo de o ensino ser 62% privatizado: "Teríamos, primeiramente, que analisar qual seria o papel do ensino superior nos últimos anos. Durante muito tempo se pensou que o ensino superior teria como finalidade preparar para o mercado. Realmente, quando alguém procura uma faculdade ou universidade é porque quer ingressar, qualificadamente, no mercado de trabalho, que é cada vez mais disputado. Mas esse conceito mudou um pouco. Hoje o curso superior prepara a pessoa, o cidadão". Ou seja, não há limites para a cara de pau. Ocorre exatamente o contrário: a universidade pública brasileira foi concebida para preparar o cidadão e a privataria educacional só pensa no mercado. Eles dizem essas coisas e saem lampeiros, impunes.

YUAN - Uma pequena nota da Folha Online diz tudo sobre o que significa dólar barato no Brasil, ou a tal valorização do real: "O governo americano vem fazendo pressão sobre a China para permitir uma valorização mais acelerada do yuan, alegando que a moeda chinesa, mantida artificialmente subvalorizada em relação ao dólar, prejudica a competitividade dos produtos americanos nos mercados internacionais. O governo chinês, por sua vez, já respondeu que irá permitir a valorização do yuan segundo suas próprias condições econômicas". Agora entendi tudo. A China impõe sua vontade para os americanos, nós baixamos as calças.

TROCADALHO - O programa da CUT, que tem como título o trocadalho Repercute, é propaganda ostensiva do governo Lula. Em horário nobre, aos sábados, pela Band, ontem uma autoridade pedia mais alguns anos de poder para "consolidar" as políticas públicas culturais. Aí aparece o Gilberto Gil, com aquela cara metida de intelectual a serviço da ditadura civil, dizendo que o repasse de verbas agora é mais horizontal, porque antes era mais concentrado em meia dúzia. Duvido que os ataques à gestão Gil, com Ferreira Gullar se destacando nas críticas, sejam infundados (nem vamos mencionar a baixaria entre o ministro da Cultura e o Helio Costa, da Comunicação; lembrar isso seria motivo para emporcalhar o domingo). Portanto, dizer isso assim no más é pura propaganda do governo em ano eleitoral. Já citei aqui o caso de Patrus Ananias, que no tal Repercute ficou um tempão fazendo propaganda explícita do governo. "Os tucanos fazem o mesmo!" dirão os ofendidos defensores do petismo. Pois ambos estão errados. Cacete! Ninguém se livra dessa armadilha política?

AMORES - Como alternativa, aí vem a Heloisa Helena, que pagou o maior mico no programa do Gilberto Barros falando de seus amores e conquistas, o Enéas, que é o falso nacionalismo de ultra-direita, o Garotinho, eterno presente no Canal Livre, da Band (não há limites?)e nem sei quem mais. Haja.

RETORNO - 1. Por que a foto do Norman Mailer neste post? Porque ele é o autor da frase profética: "Vem aí uma tempestade de merda". Acertou na mosca: os EUA, além de ensanguentarem o Iraque, estão loucos para repetir a dose no Irã. Eles não aprendem, perdem todas, mas insistem. É porque eles são criados pelo cinema americano, suibsidiado pelo Pentágono. Acreditam mesmo que são especiais e que fazem tudo para merecer aquelas musiquinhas ao fundo, nas imagens fundidas sempre com a bandeira estrelada tremulando. A mesma bandeira que serve de esquife para quem volta num saco plástico. A profecia de Mailer serve para o Brasil. 2. Sobre o Repercute, lembro aquele lider sindicalista gaúcho dos radialistas, segundo me contou um veterano, que gritou para a platéia no meio de um discurso: "Isso tudo recuperte muito mal. Recuperte ou não recuperte?" E a massa, em uníssono: "Recupeeeeeerte!

15 de abril de 2006

DEVE SER OS NERVOS




Nei Duclós

Fui procurar emprego em São Paulo. Por meio de um amigo comum, me dirigi à periferia da megalópole, num conjunto de prédios sem janelas aparentes e com tetos corcundas de cor vermelho viva. Na minúscula portaria, uma das poucas entradas que vislumbrei no edifício principal, me identifiquei e pedi para chegar ao departamento de comunicação. A pessoa que ia me contratar, ou me testar, pediu para não dizer o nome dela, só o local onde eu deveria me dirigir. O guarda me encaminhou para a recepcionista, que aos bocejos preencheu uma ficha e me ordenou pegar o elevador secundário, o que ficava na dobra do cotovelo do corredor. O ambiente era escuro e tive de tatear até o botão luminoso, que acionou o mecanismo para abrir a porta. Subi até o lugar onde deveria começar imediatamente a trabalhar, segundo me disse o sujeito pelo telefone.

O elevador abriu para um seriado de portas com pequenas placas onde se lia indecifráveis enigmas. Eram letras e números separados por hífens que talvez indicassem a especialidade do que se fazia atrás de cada uma das placas. Onde se lia XPTO-3, entrei. Era a comunicação, segundo tinham me informado. Lá dentro, na penumbra, estava o cara sentado atrás de uma mesa, meio que debruçado sobre ela, com as mãos enlaçadas nos dedos, com os ombros para frente, um mais para frente do que o outro. Me olhava com seus olhos castanhos vivos e me falou para sentar. Combinamos rapidamente o trabalho e ele me pediu os documentos para registro. Estava satisfeito só com a indicação e o currículo.

Achei fácil demais, mas me postei na saleta ao lado, que era tomado por enorme e tela de computador. Ali tomei conhecimento do projeto definido pelo chefe e passei a fazer o que me pedia. Era questão de arrumar os textos desconexos, meio técnicos, meio esdrúxulos, que ele me passara. As palavras se referiam a uma mudança em toda a organização e lá estava a palavra dos especialistas, da diretoria e, claro, do diretor de marketing, que deveria ser a fonte de tudo aquilo. Meu superior não era esse diretor, antes ocupava um cargo de responsável pelas informações corporativas, ou algo assim. Passei o dia na faina, sem parada para o almoço, pois o trabalho era urgente e precisava ser apresentado no dia seguinte. O que estranhei era a quantidade de informações que deveriam ser sigilosas, como demissão de pessoas importantes, reestruturação de departamentos inteiros, e até mesmo mudança do foco da empresa. Além de dados sobre faturamento, verbas que foram desviadas etc.

Imaginei que aquilo jamais seria levado a público, mas fiquei impressionado com a tranqüilidade com que todas essas informações foram colocadas para mim, um completo desconhecido. Falei para o sujeito das minhas preocupações, num momento raro em que ele tinha parado de telefonar e estava olhando para o vazio. Não se assuste, disse ele, confio em você e vamos publicar, sim. Isso tudo vai para a imprensa e amanhã mesmo. Voltei para minha mesa ainda mais invocado. Onde estaria me metendo?

Saí já tarde da noite e peguei um ônibus na estrada vazia que ficava ao lado da empresa. Custou a aparecer a condução e fui remoendo aquele dia absurdo pelo caminho. Teria que voltar cedo no dia seguinte. A remuneração estava acertada e só isso me deixava um pouco confortável com a situação. Mas essa sensação não durou no dia seguinte. Voltei preocupado, pois perdera tempo no trânsito e cheguei atrasado, lamentando minha falta de previsão, pois poderia ter saído mais cedo. Mas o cansaço me tomou conta e acordei num salto, com o sol já pleno de si na janela do quarto do hotel onde ficara hospedado. O que mais me angustiava era que precisa tirar uma adiantamento para poder continuar no hotel, já que não dispunha de um local para ficar.

Mas foi chegar na porta e vi que nada estava como antes. O guarda era diferente, a recepcionista era outra e comandava uma equipe que não vira no dia anterior. Repeti meu nome e ela me pediu os documentos. Mas eu já não estava no banco de dados? Ela estranhou minha observação e perguntou com quem iria falar. Disse o nome do departamento e ela não se satisfez.
- Esse conjunto de salas está fechado, disse ela.
- Como assim, ontem mesmo eu fui até lá.
- Ontem? Mas ontem foi folga coletiva, não tinha ninguém. O que o senhor veio fazer aqui?
- Vim para ser contratado para um trabalho no departamento de comunicação.
- Esse departamento foi extinto. Aguarde um instante.

Ela chamou o chefe da segurança, um sujeito quadrado, retaco, moreno, de olhos duros. - Com quem o senhor falou ontem? perguntou à queima roupa.
Disse então o nome do chefe. Foi um assombro. O segurança e a recepcionista se entreolharam e o cara me pegou pelo braço e me levou para uma sala na mesma dobra daquele corredor. No lugar onde havia o elevador, tinha uma porta comum, que se abriu. Lá, um piso branco de mármore abrigava uma única cadeira vazia, com holofote em cima.
- Agora repita o nome do cara e bem devagar, disse o guarda, já acompanhado por um grupo de asseclas.
Repeti e foi pior. Levei um estrondo na cara, uma cotovelada poderosa, que fez meu nariz sangrar.
- Você não pode ter falado com ele, seu merda.
- Como não? cheguei a gritar, o que provocou uma saraivada de socos.
- Vê se fica quieto, jornalista. O que você veio fazer aqui? Bisbilhotar?
- Eu vim em busca de trabalho...
- Quem te indicou?
Não quis colocar em arapuca o amigo que me arranjara aquela treta.
- Diz, seu bosta...
Como já não falava mais nada, o cara suspirou fundo e acendeu um cigarro. Me fez sentar no chão enquanto ele usava a única cadeira. Me observava como se eu fosse um gafanhoto na hora da morte.
- Pára de mentir, jornalista. O cara que você diz que falou ontem morreu a semana passada. Aliás, ontem foi folga na empresa porque todos foram convidados a assistir a missa de sétimo dia.
Um gelo me desceu pela espinha. Estava branco, como aquela sala.
- Vamos até o departamento onde você diz que ficou.
E me levou aos trancos, pela escada acima, fazendo barulho. Depois de todos aqueles andares, eu sendo carregado pelos mastodontes, chegamos ao tal XPTO e lá entramos todos. A sala estava cheia de flores e a minha saleta, fechada.
- O que você viu aqui, o que você fez aqui?
Entreguei tudo, então. O jeito do cara, o trabalho que fiz, o que nele continha. Talvez a verdade me salvasse.
O guarda abriu a porta da minha saleta num pontapé e me fez ligar o computador.
- Mostre os arquivos.
Rezei para que não estivesse lá, mas estavam todos. Fui abrindo um a um e imprimindo, a mando do carrasco.
Foi passar os olhos pelo calhamaço para ele puxar o celular.
- Temos algo aqui, venha depressa.
Chegou um sujeito mais mal encarado do que ele. Era o Supremo Diretor. Tinha um cabelo curto, ruivo, uns olhos azuis, uns vincos no rosto de ex-combatente. Musculoso, gigantesco. Pegou os papéis e foi lendo. De vez em quando me olhava, furibundo.
Estou enrascado, pensei.
-Você passou esses papéis para alguém, seu desgraçado. me perguntou o supremo.
- Não senhor.
- Até que horas você ficou na empresa?
- Até as onze da noite.
- É proibido ficar até essa hora. E depois foi aonde?
- Para meu hotel.
- Não tem casa, puto?
- Estou chegando na cidade, precisava de um emprego.

Eles se afastaram. Confabularam um pouco e depois me disseram:
- Pode ir embora. Vai.
Dei um salto e me mandei. Voltei pelas escadas, limpando sangue. Saí pela porta onde tinha entrada e voei para a estrada. Quando o ônibus se afastava olhei para trás. Não havia condomínio de edifício nenhum. Apenas um imenso terreno baldio, onde algumas vacas pastavam. Comecei a falar sozinho. De repente, duas mulheres do povo, sentadas no banco da frente, depois de me olharem longamente, viraram uma para outra.
- Coitado, disse uma, de lenço na cabeça. Deve ser os nervos.

Quando cheguei no hotel, minha mala estava na portaria. O encarregado me repassou um envelope.
- Sua conta já está paga. Pode ir.
Abri ali mesmo, diante da ansiedade do porteiro, que parecia assustado. Era um maço de dólares e uma passagem de volta ao lugar de onde vim. Junto, os meus documentos pessoais que entregara para o falecido. Já ia saindo quando o porteiro fez um psst. Atendi, voltando a cabeça.
- Eles disseram que sabem onde você mora e com quem. Boa viagem.

RETORNO - A imagem mais parecida com o clima do conto acima é esta,de Helcio Toth.

14 de abril de 2006

REDAÇÕES QUE CRUZAM O TEMPO





Hélio Campos Mello chega de uma viagem do Exterior para assumir seu posto na revista Senhor, coloca a cara para dentro da sala onde tensos jornalistas estão em atividade e faz seu comentário inesquecível:
- Conheço esta redação de algum lugar.


A imagem mais poderosa de pessoas reunidas em massa diante de máquinas de escrever talvez seja a do filme O Processo, de Orson Welles, em que Anthony Perkins entra no seu ambiente de trabalho e atravessa um mar de pessoas sentadas atrás de suas mesas, acompanhado pelo barulho da datilografia. É a representação de um pesadelo, o ofício burocrático de batucar nas teclas, pautado pela indiferença. Não era assim nas redações que o tempo engoliu.

À primeira vista, o impacto era de extrema desordem. Mas se via em cada rosto a concentração necessária para produzir sob o tacão do deadline, reportando a principal armadilha humana: o conflito. Bastavam alguns dias para o iniciante se acostumar ao ritmo e às pressões e fazer parte de uma comunidade que se estendia aos bares.

Hoje vejo consultores definindo a pauta de veículos em coma, dizendo que não se pode voltar atrás, quando ?loucos apaixonados? (esse é o batismo do talento hoje) se reuniam em espaços normalmente apertados e com pouco oxigênio, para fazer o que os leitores adoravam. É preciso limpar essa mancha do jornalismo, dizem os RTs (Ruins de Texto), que no fim assumiram o poder. Um auto-ajuda desses jamais passaria pelo crivo de um chefe de reportagem, um secretário, um diretor, um editor.

Lembro meu primeiro teste, em que fui reprovado. Ansioso com a perspectiva de me tornar profissional, rabisquei o lead à mão, achando que ninguém estava vendo. Ainda não estava acostumado a pensar ao sabor das teclas e imaginava ser esse o expediente mais seguro para se chegar a uma boa abertura.
- Aquele lá, não, disse o chefe. Vai me atrapalhar o fechamento. Demora para desovar o texto.

É que eu tinha vindo de uma experiência híbrida. Minha primeira máquina, uma Smith Corona inglesa (presente do meu pai), era de tipos manuscritos. Eu passava para o papel datilografado o que tinha produzido a caneta. O resultado era parecido, como se um bamba em caligrafia caprichasse no resultado final. Aprendera por minha conta a usar os dedos, de forma errada, claro, na minha redação pessoal. Herdara uma escrivaninha dos irmãos mais velhos, que precisava de livros empilhados no suporte, à medida que eu espichava naquela difícil adolescência.

Eu era o responsável pela ata das reuniões do nosso Grêmio Literário, na quarta série ginasial. Fazia uma espécie de reportagem, puxando pela memória, e provocava desconfiança dos colegas, que não acreditavam no meu poder de narrar uma reunião mais ou menos bocejante, com uma descrição de detalhes que tinham escapado a todos na hora em que foram produzidos. Isso não foi tu quem fez, me diziam (na fronteira tu é tu mesmo). Foi com esse vício, o texto datilografado com jeitão de manuscrito, que estreei no ofício, e paguei caro por isso. Tive que aprender na marra a bater direto o original sem passar pelo crivo do lápis.

No curso de jornalismo da Ufrgs, o veterano Ernesto Correia, nosso professor, nos apresentou ao que ele chamava de maquininha mágica, o telex, que tinha a manha de, aparentemente, funcionar sem interferência humana. Pelo menos nenhum redator estava à vista e isso criava o deslumbramento, motivo de ironia dos alunos, que já possuíam aquela arrogância up-to-date, como se a tecnologia tivesse chegado ao auge e estivéssemos acostumados com isso.

Na universidade ainda passamos pelas visitas das oficinas movidas a chumbo, mas quando chegamos à profissão o off-set já fazia estrago nos velhos métodos. Foi quando as redações, acompanhando o ritmo das gráficas, começaram a assumir esse aspecto clean que é hegemônico hoje. Mas, veterano que teima em não se aposentar por enquanto, notei que muita coisa sobrevive, mesmo no silêncio dos teclados e a luminosidade insistente das telas. Nos corredores, no cafezinho, no happy hour, ainda saem as melhores pautas. O Google que nos perdoe.

O ideal é fazer como um repórter da revista onde trabalho. Belo texto, disse, como você conseguiu? Escrevi essa matéria em casa, me respondeu Wendel Martins, um dos talentos da nova geração. Escrevi de bermuda e de vez em quando abrindo a geladeira. Foi a maneira de driblar a atual fantasmagoria do jornalismo, as falas corporativas, que assombram as páginas impressas com monstros terríveis como os verbos alavancar e disponibilizar. À vontade, o espírito do bom jornalismo desce no novo repórter como um anjo.

Levamos aquelas redações junto conosco, como um braço. O perigo é se transformar num contador de histórias antigas, assustando os estagiários. ?Nos anos 50?, disse uma vez Granadeiro Guimarães para uma pobre iniciante, numa de suas lembranças, quando interrompi. Anos 50 é uma impossibilidade, disse, não dá para pessoas que estréiam na idade adulta imaginarem um tempo que faz parte da História no ensino fundamental.

Descobrimos, nesses causos que servem para matar um pouco o tempo que nos aluga a vida toda, que as pessoas com quem um dia compartilhamos mesas são hoje objeto de estudo. Era normal que Hamilton Almeida Filho e o Pena Branca aportassem para colocar na roda uma de suas inesquecíveis reportagens. Ou que Tarso de Castro viesse contar como distraiu sua nova conquista lendo os versinhos do poeta jornalista. Ou que Samuel Wainer olhasse debaixo de grandes sobrancelhas brancas e perguntasse:
- Você é editor?
- Sou, menti.
- Sim, porque eu preciso aqui de um editor. Você é editor?
- Claro, insisti.
- Então veja esta matéria sobre o General Inflação.

Wainer era de um tempo de guerra, da época do General Inverno, tão achincalhado mais tarde pelo Pasquim. Contava como desceu com Getúlio Vargas no Nordeste, com as pessoas que pareciam ter saído de um quadro de Portinari. Coisas que mais tarde Augusto Nunes imortalizou na autobiografia do Profeta, ?Minha razão de viver?. Mas eu precisava sair cedo e ele reclamava:
- O que é isso, meu filho? Não quer escutar História do Brasil ao vivo?

Queria, mas ficava para outro dia. Tudo aquilo iria durar mil anos. Durou pouco e ficamos diante da meninada com a cabeça cheia de histórias. Nenhuma completa, pois passei rapidamente pelas redações que se esfumavam, perdiam a batalha, se transformavam. Elas cruzam o tempo andando meio de lado, ou de banda, como dizia Drummond, com o peso dos que se foram.

Por isso, diante de tanto jornalista novo, com os quais aprendo muito e tento repassar alguma coisa que aprendi, costumo desistir da herança.
- O senhor é jornalista? me perguntaram um dia.
- Não, respondi.

Fui sincero. Não sou mais o que hoje se espera de um jornalista (abaixo dos 35 anos, formação em MBA, trilíngüe). E pensando bem nunca estive totalmente impregnado dessa luta, como aconteceu com tantos profissionais do primeiro time. Tive a sorte de conviver com eles.

E se insistem que eu faça alguma coisa, e sempre acabo fazendo, inicio minha arenga indignada com um insistente bordão:
- Vocês querem que eu tecle?

RETORNO - 1. Este foi o terceiro texto para o espaço Literário do Comunique-se. Desde a estréia, "Véspera de linguagem", tenho colocado todos os tempos que convivem em mim, incluindo aí o tempo presente.2. A imagem deste post é uma fotaça de Helio Campos Mello, que saiu recentemente da IstoÉ para retomar seu ofício de repórter de campo, fazendo dupla com Ricardo Kotscho. 3. Leia Jesús Gómez no La Insignia sobre o 14 de abril.

13 de abril de 2006

O SENTIMENTO SEM NOME





Nei Duclós

O que chamam de amor é um grupo infinito de sentimentos incompreensíveis, que formam um conjunto batizado por essa palavra. São como fibras de um cabo de luz ótica, visto depois de um corte. Você olha o perfil e vê uma série de pontinhos, cada um fazendo parte de uma fibra. Como são intensas e vivem unidas, confundem os conceitos. É costume chamar, indiscriminadamente, de amor uma série de sensações, unhas cravadas no coração indefeso, ou apenas rios de lava que percorrem o corpo, uns de maneira mais tépida, outros abrindo caminho com fúria. É impossível separar cada fibra do feixe todo, por isso há tanta má vontade, na prática diária, em relação ao amor. Ou se abandona o sentimento (aquela fibra sem nome, que faz parte do conjunto, mas não é o amor, condomínio poderoso de inúmeras habitações) ou se convive muito mal com ele. Como posso saber dessas coisas? Sei lá, às vezes a lua cheia está plena de recados.

PRESENÇA - Ao acordar, existe uma sensação. Pode ser arrependimento, ou simplesmente continuação de um sonho. Estás só, mesmo que haja presença alheia. É contigo o embate: alguém plantou dentro de ti uma fibra ótica que cruza, como um neutrino (partícula que existe, mas não deixa marcas) teu corpo todo e te faz tropeçar no piso encerado (ou no chinelo, mas esta é uma palavra pouco apropriada quando se fala dessas coisas). Basta conhecer alguém e uma outra fibra não te abandona. Como podes se nem conviveste com aquela vida? É apenas um fisgar. Quando te revoltas com alguém pedindo comida num país que exporta proteína, desabafas para alguém desconhecido, teu coração está cheio de revolta e calor. O momento passa e ninguém lembra de mais nada. Volta para ti um cheiro, uma lembrança, uma cena, e lá está, plantada como um salso chorão (aquela árvore que se derrama em folhas e galhos sobre o chão), como um tornado invisível, a parte do feixe que deixaste de lado como um lixo industrial. Vais até o quintal da tua vida e vês, atirado, enrodilhados como cobras mortas, o conjunto de brilhos agora foscos, que deixaste de lado.

ESPELHO - A vida é um eterno assassinato dos sentimentos sem nome. Como não podem ser identificados, não há batismo. Chamamos de paixão, amor, empatia, todas as palavras, mas não se trata disso. É algo completamente desconhecido. É território inexplorado, que fazem a riqueza da psiquiatria. Não se trata de batizar, mas de identificar como algo próprio, que faz parte de um conjunto maior. É mais do que a arqueologia do coração e da mente, é trabalhar com um universo desconhecido, que está dentro de nós, mas estamos ocupados com outras coisas. Como há completo desconhecimento, os livros de auto-ajuda fazem a festa. As pessoas correm para as livrarias para tentar entender alguma coisa, mas existem apenas palavras. O sentimento sem nome (um olhar, uma esperança) está fora delas e continuas no terreno baldio da tua história. Então, se instala o hábito. Ou as pessoas se rendem aos argumentos falsos dos autores que nada entendem do incognoscível, ou continuam à parte de tudo. Aos poucos, tua cara toma a forma de uma máscara de horror.

MURO - Pois é preciso estar protegido contra qualquer tipo de sentimento. Tens mais o que fazer. Precisas sobreviver, fazer os outros se enxergarem, ordenar, contrapor, vencer. Para que serve isso que está agonizando como uma cobra de luz dentro do balde de tua indiferença? Serve para serem depositados em animais de estimação, em viagens inúteis, em poses estudadas. Serve para o vazio, enquanto sonhas com o amor tornado impossível, pois se não consegues entender uma só fibra do conjunto, como poderá lidar com uma cidade, uma nação, uma estrela inteira de grandezas infinitas? Idealizas o grande amor enquanto perdes o contato com que o tenta se salvar dentro de ti. Basta saber que isso existe, que não tem nem terá batismo, e acolhas em tua casa como um viajante sem pouso. Dê-lhe comida e água e um teto, para que possa ficar, ou parta um dia sem remorso. Serás assim a hospedagem de sentimentos desconhecidos, mas reais, e serás visto como alguém que sabe honrar o compromisso maior com a vida: a de existir para que todos possam encontrar seu destino e conseguir chegar ao portal divino com um feixe de fibras que se retorcem.

PERFUME - Será teu presente ao Deus que te aguarda, essa ramo de flores ainda incógnitas, mas vibrantes. O Paraíso precisa desse gesto, para que haja perfume na morada eterna e algo mais do que lágrimas na terra em conflito.

RETORNO - 1.Foto maravilhosa de Marcelo Min, o Olhar Absoluto, numa loja de luminárias da Consolação. Passei anos por lá e jamais vi algo assim. Min enxerga. 2. Bebeto Alves comemora os 30 anos da inesquecível banda Utopia e inicia celebrada turnê pelo país. Muts Weirauch e o Alphagroup se apresentam em Porto Alegre com clássicos antigos e modernos da música que ele adora e nos faz a cabeça. Delmar Marques lança livro e video sobre os minuanos em espaço cultural da praça Benedito Calixto em São Paulo no dia 20. 3. Hoje é dia da minha crônica semanal no espaço Literário do Comunique-se. 4. Muts informa sobre seu novo show: "O repertório (são dois momentos)tem no primeiro lance, uma coletânea de rocks e baladas e blues e countries da longa estradada da vida. São títulos dos Beatles, The Doors, Rolling Stones, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Eric Clapton, Jimi Hendrix, The Who, Led Zeppelin e Steppenwolf. Agora começa a segunda parte, com a banda mais entrosada..vamos pegar as 18 músicas que tenho guardadas(Duclós - Muts, naturalmente). Daí, começaremos a gravar no estúdio Believe, onde ensaiamos direto, ao vivo, como nos velhos tempos dos anos 50-60, quando as máquinas gravadoras não tinham mais que dois canais.O título, 1967 da capo", diz da anotação musical:começar novamente desde o princípio: 1967. Vou te dando notícias no decorrer da epopéia.Grande abraço.muts". 5. Meu texto " É de trem que eu preciso" foi publicado no La Insignia.

11 de abril de 2006

É DE TREM QUE EU PRECISO





Cada batida da roda no trilho é uma paisagem nova que a janela improvisa. Não nova no sentido de novidade, mas verde quando é pampa, azul quando é serra, infinito quando é água. O tranco da locomotiva leva o vagão para a curva do destino. A fila de imagens que não canso de olhar é o cinema que me falta. Amanhecer ao lado da grande tela de vidro embaçado é antever o sol que ainda não veio, e basta uma lufada de mão na neblina cristalizada para ver um raio que atinge o pássaro ao pé de um riacho, a ponte inútil de madeira comida, o gado esparso na grama cercada. Mais um pouco de luz e tudo se descortina, principalmente a viagem que talvez agora chegue ao fim, depois de uma noite mal dormida, em meio à população que se dirige a algo que não entende, a vida passada em trajetos sem sentido. Ao meio dia é hora do almoço na estação antiga e de conviver com o cheiro de panela de ferro, arroz de outras vidas, talvez com o gosto de infância ou de liberdade. A carne que só existia naqueles lugares ermos, para onde jamais voltaremos, mas que ficam no corpo como sinais incompreensíveis. O refrigerante em garrafas escuras, que guardavam licores abandonados, e as prateleiras onde se divisava um rádio de ondas curtas, que pegava a guerra distante e a música que sumiu totalmente do mapa.

ESTRADA - É de trem que eu preciso, para chegar ao tempo que me absolve. Não se trata de fugir ou de puxar a memória como um elástico frio. Mas de viajar de novo, enquanto o país desmoronado nos permite uma trégua e haja homens de chapéu e senhoras de véu na cabeça e adolescentes como nós, empertigados em nossas roupas providenciadas pela mãe que nos deus adeus no ponto de partida. Ela ficou lá plantada, enquanto, ingratos, sumíamos para o futuro, aquela mãe que não nos abandona e reza por nós enquanto fazemos alarido nos bancos esfolados de couro velho. Passeamos pela serpente enferrujada, apertados em corredores de bancos ou de dormitórios precários, até chegar ao restaurante onde arriscávamos uma cerveja fabricada na beira daquela estrada, porque o mundo se localizava no lugar onde estávamos e não era essa confluência de nadas, em que não nos deciframos, mesmo que tenhamos certeza de que é assim que seria, e nada poderíamos mudar com nossas calças curtas, nossa camisa de jersey, nosso cabelo engomado, nossa escassez de criaturas datadas.

MALA - Queríamos saber o que o arco-íris nos reservava, sem atinar que o trem era o que passaríamos a vida buscando. Não era nossa intenção ficar fixos neste eterno presente, em que não se tolera reminiscências, e quando elas existem é para mentir sobre o que fomos um dia. Por isso faço a mala, ponho meu terno azul marinho, e envergado sobre mim traço a viagem de volta. Aguardo junto com outros passageiros que, como eu, voltam para reencontrar o que deixamos para trás. Estamos novamente enganados. Não é no fim da linha que teremos novamente o café com pão da família perdida, nem na cidade que deixamos por mero capricho. É esse retorno que nos incomoda, porque há desconforto, apertos entre desconhecidos. E talvez o trem atrase outra vez, já que ele não existe mais, mas teima em ficar parado algum tempo embaixo da lua cheia, enquanto ficamos aflitos à espera do reinício do impulso que nos carrega.

TETO - Nunca vamos aprender que andar é o caminho, e que os destinos, no começo ou no final da jornada, são mais precários do que qualquer sonho despertado no meio da noite, quando vemos o teto do vagão sumir para que possamos ver as estrelas. Isso tem me acontecido ultimamente. Deito e olho para cima e vejo novamente o céu que deixei há poucos instantes. Com todas as estrelas e fiapos de nuvens, o que torna a visão ainda mais verossímel. É como acampar sem barraca, contar estrelas cadentes, seguir o risco de satélites que usam as constelações como parada. No fundo da madrugada, o trem pára novamente. Olhamos pela janela, que também dorme. Uma luz cercada pelo fogo fátuo das mariposas nos diz que ali é um ponto conhecido, por onde passaremos mais uma vez em direção ao que não nos consola. Crianças se agitam, senhores do povo conversam baixo sobre pescarias e negócios. Há um cheiro de cabelos engomados, de chapéu de feltro, de xales de lã. Onde estou? me pergunto.

TALISMÃ - Estou no meio do meu ofício, que é tentar entender a passagem obscura pela terra envolta em mistério. Estou só, como a criança que adormece no crepúsculo e acordo na boca da escuridão com um solavanco. Ela vê o homem fardado passar com seu boné de autoridade máxima da viagem. O homem recolhia passagens quando todos se aboletaram pelos bancos. Agora ele vigia o sono de quem escolheu esse momento para percorrer a trilha insana de uma vida. A criança fecha novamente os olhos e o embalo da serpente emplumada o leva para longe. Para lá, onde a poesia dorme e as palavras soltas como um rebanho pastam no esplendor de uma revelação. Nada nos salvará desse enigma. Por isso agradecemos a Deus quando o dia firma e alguém oferece um café recém feito, uma bolacha dormida ou um jornal comprado na corrida numa parada qualquer. Entre um gole e a mordida do trigo providencial, vemos estampada na primeira página nosso rosto adulto, a nos olhar com ar sagrado da santidade. Para esse rosto rumamos, carregando a infância como um talismã. Ela está dentro de uma pequena caixa, que guardamos no sobretudo. Da tampa aberta, salta a bailarina, ao som de uma valsa tocada por cristais e acompanhada pelo brilho de diamantes de um filme que vimos no cinema lotado, quando havia cinema e quando éramos a alegria da criação em desencanto.

8 de abril de 2006

A INDIGNAÇÃO TARDIA




Não há indignação on-line (a não ser quando Brizola estava vivo), sempre fica para depois. Matam o prefeito nas fuças de todo mundo e vai a autoridade e diz que é crime normal, não tem nada de política ou corrupção nele. Ninguém vai checar o sujeito que anunciou o disparate. Tudo é tratado como a coisa mais esperada do mundo. Dois anos depois, explodem as manchetes: enriquecimento ilícito de quem abafou o crime!! Aí já é tarde. O ministro é pego com a boca na botija, mas faz que não é com ele. Jura inocência e faz caras de exaustão de tão decente que é na reunião com a elite. A imprensa se cala, todos tratam o ministro como a grande figura que é. Dali a pouco se descobre o óbvio: sim, ele se comportou como chefe de quadrilha ao tentar desmoralizar a testemunha que o flagrou no puteiro. Como fica aquele salamaleque todo no dia em que se devia fazer a pergunta certa?

CANDIDATO - O PDT precisa de quadros próprios, legítimos. Não aprenderá nunca? Quase venceu as eleições presidenciais em 1989 e passou o resto da vida comprando passe de sobras alheias. Chega, PDT. Escolham um bom candidato, que terá chance.

RETORNO - Foto de Brizola chorando quando perdeu a sigla PTB. Desconfio que a ditadura civil foi fundada nesse dia.

7 de abril de 2006

LAUDAS DA VIDA INTEIRA




Nei Duclós


Não faz tanto tempo assim. O objeto tinha um carrilhão em forma de cilindro, que avançava para a esquerda sempre que nos aprofundávamos naquele ofício escolhido contra todas as evidências e conselhos. Os espaços entre as frases eram definidos por uma seqüência de estalos, ruídos mínimos nas redações barulhentas. Eu preferia os três espaços, que podem ser comparados à atual uma linha e meia do editor de texto. Sempre dava para acrescentar alguma coisa, corrigir, voltar atrás, riscar, sem comprometer a integridade da lauda. Era preciso economizar esforço, aproveitar a penosa colocação da folha no rolo compressor, não encher o cesto de frases mal começadas, palavras toscas, rabiscos.

As teclas pediam determinação funda. Dependiam da força dos dedos, desobedientes às lições de datilografia. O hábito transformava cada aperto num atalho para o objetivo maior: o fim do compromisso e o início da liberdade. Catar milho era a radicalidade dessa distorção. A maioria ficava na linha intermediária, compondo tabelinha entre três dedos, como se escrevêssemos de trivela, com efeito, para que o texto atingisse a maioridade da folha seca e quando chegasse ao ápice caísse miseravelmente no canto indefensável.

Definido o espaço, colocava-se a lauda amarelada e pautada, com cabeçalhos do jornal da hora. Tenho coleção preciosa desses exemplares de uma civilização perdida, não que costumasse guardar meus originais que, como todos os outros, sumiam pelo buraco negro da revisão e da gráfica. Mas porque as usávamos para tudo, especialmente para, nas costas delas, abraçar o que tinha nos levado àquela situação: a literatura. Escritores que adiaram por mais de uma vida seus livros, acumulávamos pilhas de laudas escritas de poemas e pequenos contos, que formavam pastas. Outros tinham preferências diversas. Guardavam recortes de jornais, que ficavam empilhados pela casa, para futuros projetos e balanços, para desespero da faxina e das mudanças.

Fazíamos parte de uma estranha civilização que acreditávamos eterna. Éramos seres acumulativos e nossas gavetas eram a cultura marginal e perdida. Só uma parte dessa produção veio à tona ou sobreviveu para participar da grande rede. O resto ficou esquecido, guardado para um futuro alternativo, o tempo imaginado de uma época que no fim não se realizou.

As laudas nos identificavam. Um dia fui convocado para entrevistar o David Drew Zingg, o fotógrafo-filósofo, que eu, com minha indiferença vocacionada, não conhecia pessoalmente. Sempre cultivei, por inércia, essa percepção apartada do que chamam realidade. No miolo de todos os furacões, imaginava ser redundância ter que prestar atenção em cada detalhe, saber quem David era, o cara que levou a bossa nova para os Estados Unidos. Talvez isso eu até soubesse, mas não atinava com o rosto do artista.

Marcamos a entrevista num restaurante, desses sérios, que se freqüentam no horário do almoço. Não era nossa intenção beber o que fosse. Como não sabia quem era meu objeto de reportagem, dei meia volta depois de viajar num plano geral pelos comensais. Foi só eu me virar para ouvir alguém gritar meu nome. Como você me reconheceu? perguntei, curioso. Foram as laudas, disse ele. Esse maço de papel que você colocou no bolso de trás da calça.

Era um recurso inútil, pois por mais que eu caprichasse em meus garranchos nas conversas com minhas vítimas, jamais os decifrava quando chegava à redação. Fazia tudo de memória, pois a matéria se desenvolvia enquanto eu escutava, mais do que perguntava. Sempre gostei de ouvir e até hoje acho a pergunta desnecessária, a não ser quando o entrevistado é chato e é preciso intervir por pura vingança.

As janelas que se abriam nas rotinas das redações eram as personalidades que nos visitavam, o que nem sempre rendiam matérias. As redações eram espaços de convivência e de lobby. Como eu não atinava nos verdadeiros objetivos da visita, sempre achava que vinham me ver pelo que eu um dia escrevi nas costas das laudas. Mas eram visitas sinceras. Recebi na Folha o Cacaso, na Senhor o Paulo Leminski (com quem compartilhei uma cerveja com conhaque no meio da tarde em plena Lapa de Baixo) e houve uma época em era interrompido da minha faina (fechar, fechar, fechar) pelo mímico Ricardo Bandeira, que gostava de falar como ninguém. Gostei muito do teu livro, Outono, dizia Bandeira olhando para o infinito. É Outubro, eu corrigia, mas ele prestava atenção em algo mais profundo.

Mas o melhor era a convivência com escritores que existiam nas redações. Humberto Werneck olhava desolado para a paisagem suburbana que se avistava da Editora Três e ao som dos trens me dizia: Nei, você conhece algum lugar chamado Lapa que seja bonito? Veja o caso do Rio de Janeiro. E um como esse, que é Lapa de Baixo? Num almoço numa das biroscas que rodeavam a editora, um dia José Onofre, autor do melhor romance policial brasileiro, Sobra de Guerra (L&PM Editores), tascou essa diante de um horrendo prato feito: Já pisei nisso, comer é a primeira vez. Onofre proferia a máxima e dava crédito: era a frase de um filme de guerra.

No fundo esse era isso: estávamos em guerra. Nossa vocação lutava com o deadline. As palavras tinham lugar fixo e não são como agora, que somem pelo espaço virtual para reaparecer mais adiante. Éramos esgrimistas de uma língua estrangeira, que se tornou nossa por tradição e insistência. Submetíamos os textos aos mestres, que muitas vezes gargalhavam. Mas tudo acabava no bar.

- Nei, vamos lá embaixo parar de tremer? me dizia Markito (Marco Antônio de Moraes), depois de um fechamento pesado na Ilustrada. Colocávamos refrigerante na parte de cima do balcão e vodka na parte debaixo. É que às vezes éramos flagrados pelos capitães do jornal, que vinham bebericar algo. Cumprimentávamos com a cara lavada e mandávamos ver no destilado, depois temperado com cerveja. Essa era a rotina dos jornalistas do eito, os que seguravam a barra dos jornalões.

No dia seguinte, recomeçávamos colocando uma lauda na máquina e definindo o espaço. Mas no fundo, queríamos apenas rabiscar o que nos ocorrera na viagem até ali. Uma frase, um poema, alguma idéia perdida. Fomos assim, escritores ambulantes em lugares em que a literatura era proibida. Sem querer, adquirimos o vício da escrita diária, pois por trás dos textos que publicamos, existiam outros, ocultos. Os dois tipos cruzaram o tempo e podemos nos orgulhar hoje da maioria deles. Como irmãos gêmeos, que brigam o tempo todo, jornalismo e literatura foram a nossa faina diária, num tempo de guerra.

Nada parece verossímel, nesta época tão distante. Faz sim muito tempo. Mas o que é o tempo diante dos loucos que decidiram escrever para viver num país ágrafo? Parece que fazemos parte de um tesouro sem mapa, aterrado por milhões de palavras, que ao invés de nos sufocar, nos revelam.

RETORNO - 1. Este é o segundo texto para o espaço Literário do Comunique-se. Está publicado também no La Insignia.

2. Foi o paraibano, criado no Recife, Padre Francisco João de Azevedo, quem inventou a máquina de escrever, num modelo copiado pelos americanos. Informações neste endereço.

6 de abril de 2006

A SOLIDÃO DOS AUTOMÓVEIS





A pior publicidade chegou ao "seu melhor auge" como diria aquele maratonista. Erradicou todo o conflito da paisagem urbana e rural e lá colocou, solitário, o objeto de desejo dos auto-suficientes: o automóvel aparentemente de luxo. Já não existem motoristas nos comerciais que se digladiam em mostrar a mágica que é rodar num mundo de sonhos: sem a realidade brasileira atrapalhando. Nem se trata de reproduzir cenas de Primeiro Mundo, já que aquelas avenidas vazias, aqueles edifícios espelhados, aquele ermo de luxo que se descortina da janela dos novos modelos, não existem em nenhum lugar. São o ápice da exclusão. Se você comprar, ou seja, investir seu poder de endividamento na carruagem encantada, você será o espectador privilegiado nessa viagem pelo não-lugar, o paraíso inventado pelo marketing fajuto, que não contente em mentir sobre o fato de que as cidades não suportam mais automóvel nenhum, ainda colocam os lançamentos em cenários do Mágico de Oz, como se fosse possível transformar o pesadelo num conto de fadas. Mas isso tudo é considerado "normal".

CARGA - É proibido falar mal da publicidade. Vejam os sites poderosos das empresas de comunicação. Cada notícia é ilustrada por um comercial. No lugar de colocarem imagens fixas ou em movimento para fazer par com o texto, usam sofisticados recursos visuais para os reclames, atrapalhando a leitura. Sempre desconfiei das demissões em massa, que se justificam pela contenção de despesas, segundo a versão oficial. No fundo é outra coisa: para manter a superconcentração de renda, que paga salários de reis para meia dúzia e arrocha a mais valia dos outros, é preciso passar o passaralho continuamente. Bastaria voltar o veículo para os leitores e não para o marketing, distribuir a grana para a equipe toda, que o jornal, revista, site se salvam. Mas os comerciais ilustram essa realidade: os big shots da comunicação formam esse time perfeito de privilegiados que cruzam o ambiente falso inventado para a solidão dos automóveis. Não reclame de tudo isso, senão te acusam de inveja. É a maneira de amordaçar a crítica, que ao se manifestar, tanta é injustiça, acaba se transformando num chororô. A solução é peitar os grandes poderes com a tranqüilidade de um motorista de carreta. Você está com toneladas de razão e a playboizada que saia do caminho.

ÓLEO - No Carnaval, o governo gastou os tubos para o Luis Fernando Guimarães gargalhar da nossa cara promovendo a camisinha, esgrimindo piadinhas infames como a troca de óleo. Brasil, um país de todos os cretinos. E essa campanha milionária do programa educacional que, segundo a propaganda capitaneada por um barbudinho cabelonzi, vai gerenciar a verba das escolas? Fundeb ou coisa que valha? O garoto propaganda é a imagem que se tem do militante bem sucedido: à vontade, sério, tipo gente fina ou sanguibom (expressão nazista) com um papo cheio de atrações. Peguem a verba da veiculação e coloquem nas escolas. E quando vejo ministro do governo terminal ocupando vários minutos de cadeia nacional para dar algum recado, tiro o som. Eles não têm mais o que dizer. Já disseram tudo, como prova o relatório da C PI dos Correios aprovado sem cortes ontem.

TABEFES- Um dos apelos recorrentes da publicidade é o desrespeito aos mais velhos. A criança se esbalda fazendo pouco dos veteranos. A idade é o passaporte para o achincalhe. Há manifestações de exclusão em massa nos comerciais. Esposas batem nos maridos, ou gozam quando ouvem falar em crédito (pelo menos essa mensagem tiraram do ar), filhos fazem pouco dos pais. Tem também o apelo populista para os RM (Ruim de Mulher) que, diz o filminho, faz o maior sucesso com as gatas. É para atrair os nerds que não conseguem nada. O ursinho que é o cara, o corcundinha que vende bolachinha doce, esses troços que infestam a televisão, jornais, revistas, out-doors. Os reclames politicamente corretos são os que mais dão asco. Vamos mudar essa realidade, diz um, mostrando mulher pobre com filho. Se queiser mudar mesmo essa realidade, pega o dinheiro da campanha publicitária e investe diretamente lá. Já escreveu Vinicius de Moraes: "o homem que diz sou, não é".

ISENÇÃO - Vejo nas colunas sociais que os mais salientes são os publicitários. A bordo de iates, ao lado de gatas disponíveis, com copinhos de vinho, os destaques dos reclames curtem a boa vida enquanto muitos profissionais do ramo, acredito, pastem a sua grama para que os homens de bem usufruam da vida. No relatório da CPI, tudo gira em torno da verba publicitária do valerioduto. Tudo "normal". Eles mentem nas fuças de todo mundo e deixam pouco espaço para a publicidade necessária, a que ajuda a sustentar veículos sérios, numa parceria que promove o bem comum. A informação isenta sem a contaminação da mensagem paga pode conviver com a mensagem paga desempenhando sua função legítima de divulgar as atividades humanas. Mas isso é uma anormalidade.

RETORNO - Meu segundo texto para o espaço Literário, "Laudas da vida inteira", já está postado no Comunique-se (link ao lado).

4 de abril de 2006

QUARTO DE DESPEJO





O título acima, do diário de Carolina de Jesus (foto), catadora de papel descoberta por Audálio Dantas, serve para definir a situação reportada por Cidade de Deus, o impressionante e premiado filme de Fernando Meirelles, que passou na Tela Quente da Globo nesta segunda. Com uma diferença: a pobreza se multiplicou junto com a barbárie Os motivos para o quadro exposto veio logo a seguir, no noticiário, que é a perda de tempo de sempre: os políticos envolvidos na disputa do butim. Eles não cuidam de suas obrigações pois estão profundamente ocupados em arrancar todo o dinheiro público para colocar em cofres, sótãos, cuecas, Suíça e novas campanhas. Os bairros, batizados de populares, são as sobras sociais onde se acumula o horror.

Ambientado nos anos 60 e 70, Cidade de Deus mostra um bairro que é a típica obra da ditadura, que construiu favelões compostos de casas alinhadas como se fossem um pombal, e batizaram isso de política pública. Lá abandonaram os migrantes, os despossuídos, os desempregados, os mortos vivos. O resultado é a fábula de Meirelles, cineasta maior, que fez uma obra impecável, onde se destaca a linhagem implacável do crime, que migra cada vez mais para as crianças, restos do massacre que empunham a morte cedo demais. O destaque é a seqüência dramática da festa de despedida de um traficante. O fim de uma longa amizade, destruída pela vontade de cair fora e pelo amor de uma mulher, é a devastação entrevista nas luzes de um delírio coletivo. O drama deságua na ruptura: acaba o pacto, começa a guerra total. É o lugar onde hoje nos encontramos.

Cidade de Deus é filme de mão cheia, perfeito. A tentativa de fuga é sempre abortada pela impossibilidade de uma saída. A população se perde no labirinto sangrento intensificando a violência, interagindo com o resto da sociedade de dois modos: pelo meio da troca de droga por dinheiro com os consumidores, e de dinheiro por arma com os policiais corruptos. A ausência da polícia é a sua presença ostensiva errada: a perseguição que inutiliza a chance de mudar, a parceria que poupa inutilmente a vida do bandido para o faturamento continuar; o interrogatório brutal que expressa o ódio de classe. A chamada sociedade normal também aparece no banco assaltado ou no bordel onde acontece um massacre.

Por ser sobre a guerra total, todos contra todos, Cidade de Deus é sobre a irresponsabilidade do Estado. A degradação humana é o dique que se rompe no bairro condenado. A destruição da família representa o fim daquilo que Marx e Engels notaram no Manifesto de 1948: como os laços familiares são fruto das laços econômicos, se não há mais emprego nem inclusão social não há mais família. O pai não sustenta o filho, que se solta no crime. A mãe tenta fugir em vão e toda a família seguirá pela mesma trilha. Ao mesmo tempo, a tentação facinorosa dos bandidos em formação reflete a falta de lei na sociedade normal.

A imprensa é apenas parte do mundo que exclui a favela. A exceção é Buscapé, o inesquecível personagem-fotógrafo, que protagoniza o impasse. Diante dos co-habitantes da favela, e de costas para a polícia, Buscapé conta apenas com a máquina fotográfica. É por ela que faz a opção, pois não pode compactuar com a violência dos dois lados. Ele foi atraído para essa situação quando tentou resgatar a galinha que tinha fugido do almoço. No cinema, como formataram os americanos, a galinha representa o Terceiro Mundo. Diante de um ato corriqueiro, pegar o bicho para ser comido pela quadrilha, Buscapé se vê entre dois fogos: a sociedade que exclui e mata, por trás, e seus parceiros de desgraça, à sua frente. Ele escolhe ser mídia e sobrevive para contar a história.

Filme de país sério, que decide se olhar de frente e falar tudo, com todas as letras e imagens. Foi por temor à concorrência que a Globo escolheu Cidade de Deus para a Tela Quente. Poderia aproveitar o embalo e erradicar as besteiras que costuma passar nesse horário. Por que não torna cativo este espaço para o cinema nacional? É a Caixa que está patrocinando o programa!

3 de abril de 2006

SUBMISSÃO EM MASSA





Sabem aquela risadinha dos apresentadores do noticiário, depois de uma materinha humana com algum detalhe engraçado, um final fofo, essas coisas? Ou a cara séria e admirada do âncora depois de alguns minutos de pseudo-reportagem que encerram alguma lição de ética? São caras feitas de propósito, fazem parte do programa de imposição do imaginário babaca para padronizar e submeter as mentes da cidadania. Parece um exagero, mas vivemos numa ditadura que, por existir há mais de 40 anos, chegou ao requinte do detalhe. Você primeiro mostra o sujeito declarando como ele é um cara de sorte por estar agora, por exemplo, preservando os besouros ruivos das pedras ocultas da Mantiqueira Central. Ou então que está ensinando cachorrinho velho a atravessar a Avenida Brasil.

TREINO - Tem outros focos, como o abraço em câmara lenta entre o babacão RM (Ruim de Mulher) e a vizinha carente, ambos fazendo parte do programa Amigos Para Sempre, uma obra conjunta entre dois bilhões de dólares de dinheiro público e um endereço falso na periferia de Pirituba. Depois desse espetáculo, corta para o apresentador, que dá a risadinha muda, mas iluminada (são tão bem vestidos, todos), que inclui um leve inclinar para a frente e um sacudir de cabeça, como a convocar o telespectador a se emocionar ou achar graça também. Normalmente essas coisas estão no fim do noticiário. É a hora da emoção. Hora da submissão total, pois você é treinado a achar que esta vida escrava tem lá as suas vantagens.

SHOW - A direita brasileira é um show de variedades. Seu principal disfarce foi se fantasiar de politicamente correto, depois de esquerda e agora se aprofunda na idéia de que estamos vivendo um momento único, de fortalecimento das instituições. Nada se fortalece com a confirmação continuada de que todo dinheiro do Tesouro Nacional vai parar no bolso e na conta dos espertalhões (e nem pense em ter uns 15 paus estocados que vem o Ministro da Fazenda e quebra o teu sigilo, seu, seu, seu...pobre!). A cara lavada de membros dos partidos que já tiveram sua vez no butim chegam com o velho discurso da ética. Vi esse filme mil vezes. Os que se dizem os mais éticos são os que mais roubam. Se alguém disser que é inocente e que tudo isso é uma barbaridade, desconfie. Porque a bandalheira vai continuar, com as instituições solidamente ancoradas na corrupção.

ROMY - Todos são culpados. Isso não quer dizer que ninguém mereça uma chance de sair dessa arapuca. Mas não vai ser se acostumando aos gestos estudados da TV que criaremos algo fora da ordem, uma solução. Resumindo: você abre o armário, dá uma olhada nos seus esqueletos, liga a TV e desconfia. Na hora de votar, não se enrede. Não reclame inocência: quantas vezes por dia você diz sim para sobreviver? Assim é a idade adulta: você se enxerga, mas também vê com mais clareza o que está pegando na política e na economia. E não se trata de fazer aquela cara de um apresentador, que enruga a testa, dá um sorrisinho de lado e faz um tom de voz tipo você é tão canalha quanto eu. Não somos canalhas, somos sobreviventes.

E saia de frente das câmaras que eu quero ver uma matéria sobre o baterista Dom Um, que morreu sem que ninguém tenha dito nada. Por que nenhuma TV passa O Processo, de Orson Welles, com Anthony Perkins e a magnífica Romy Schnneider (foto deste post)? Porque precisam dar aquela risadinha.

2 de abril de 2006

E LÁ VAI NOSSO CRAQUE DA CORRIDA ESPACIAL





Estava assistindo o jogo na RBS, quando o locutor interrompe para narrar a subida do astronauta brasileiro para a glória. Não foram exatamente estas palavras, mas o clima sim: "E atenção, foi dado o apito inicial, nosso craque se prepara, ele está pronto com a bandeira do Brasil no ombro, o foguete está subindo, subindo, vejam um foguete caiu, mais outro, é emocionante torcida brasileira, o Brasil chega ao espaço, faz parte da seleção mundial dos craques do espaço, vamos lá, atenção, vai entrar em órbita, é muita glória para nosso país, você que está em casa pode bater no peito". Melhor foi ainda o Gilberto Barros, na Band: "O Brasil é tão privilegiado que até em foguete espacial ocupa a janelinha". No fundo, temos a profundidade de um narrador de futebol. Sei porque vocês estão no Haiti, disse o embaixador chileno numa solenidade para o embaixador brasileiro. É para garantir que o Haiti cresça menos do que vocês. Ronaldo do Real Madri chuta e é gol do Brasil. Ronaldinho do Barcelona partiu e o Brasil faz mais um. Que maravilha. Como somos espaciais, digo especiais!

MÁGICA - E eis que, crescendo um pouco mais do que um paisinho em guerra, saltamos do décimo quinto para o undécimo lugar na economia mundial. É a mágica do dólar barato, que aqui abunda (literalmente) graças aos juros extorsivos que pagamos, à custa de mais arrocho nos impostos. A TV noticia isso sem ninguém corar de vergonha. Assim como ficamos exultantes por ter nosso programa espacial destruído, e passarmos por cima do fato, como notou o cientista Rogério Mourão na Folha, de que nosso astronauta ficou oito anos esperando porque não cumprimos nosso compromisso de fabricar peças para a estação orbital. E por isso tivemos que pagar dez milhões de dólares pela carona, já que a viagem sairia de graça se cumpríssemos o que estava combinado. O maior desplante é chamar isso de comemoração do centenário de Santos Dumont. Pobre Santos Dumont. Brasileiro, tinha certeza de que o homem podia voar. Conseguiu arrancar o mais pesado do ar do chão, diante da civlização em Paris, mas foi tungado pelos espertos irmãos Wrong, que tinham inventado apenas o jeito de o avião, inventado por Dumont, poder fazer manobras. Dumont queria o avião disseminado por todos, por isso nem patenteou o invento, que foi usada primeiro para a guerra.

ARA - Essa expressão, "ara", é típica para expressar desconfiança e indiferença. Já foi muito usada, hoje não sei. Homem voa? Ara, pára com isso! Veja, voou! Mas a invenção não é tua, é dos americanos. Ara. Imaginem que os gringos iam deixar essa barato. Foi por isso que a Remington, que fabricava armas, quando recebeu ao descrição do invento da maquina de escrever, de um brasileiro, imediatamente patenteou o invento. Sem falar que Marconi veio aqui deslumbrar os índios com um invento do padre Landel de Moura, do Rio Grande do Sul, sobre o uso das ondas herzianas. Ara.

RETORNO - 1. Primorosa crônica hoje, domingo, de Urariano Mota no La Insígnia, sobre um jogo de futebol na infância. Imperdível.

2. José Onofre, autor do melhor romance policial brasileiro, Sobra de guerra, dá um sinal agradecendo minha resenha sobre seu magnífico livro: "Cliquei e vi surgir o rosto há mais de trinta anos conhecido. E um ensaio sobre meu livreco, escrito e publicado há mais de 20 anos. Li, emocionado, feliz, as palavras narrando a experiência da leitura. Um abraço e um gracias do Zé Onofre".

3. "Amei este lugar... vejo com clareza e liberdade o impulso da leiture em mim...a expressao em mim...mara vilha este lugar ...parece uma caverna de tesouros e misterios... amei este: o ultimo duelo, na verdade me fez chorar pois foi como ver um retrato de minha infancia e adolescencia...imensamente grato Eu Sou."
Adilson | 04.01.06 - 2:07 pm | # Sobre post O Último Duelo, que aborda o bom e velho jogo gol a gol.

4. "Sobre texto da série JK: Também sem Brizola, sem a Cadeia da Legalidade que ouviamos atentos no interior de São Paulo, o que é isso? estão brincando com os melhores momentos da nossa História,passam a borracha em tudo e reiventam um" novo passado" para que tenhamos sempre aquele "velho futuro"? Outubro neles! Parabéns pelo texto indignado, que sugere algo além do núcleo da falsa história do Brasil,sugere que já tivemos um Fio na História que podemos e devemos retomar um dia.Até lá..."
raquel | 04.01.06 - 1:09 am | #

5. "Caro Nei, já indiquei Outubro para minha filha. É sempre reconfortante voltar e voltar e voltar a vê-lo.Nossa indignação não tem limites, o grande jornalismo não se interessa mais pelo país e pelos brasileiros:plantam notícias absurdamente sem nenhum interesse como se fossem" Manchetes" decisivas para os rumos do país,tipo "Edmundo apronta mais uma das suas"!!???Pergunto: é essa a grande inquietação e angústia do brasileiro? Enfim,voltemos a Outubro e sua indicações. Ps: Suas observações sobre filmes são todas interessantes, mesmo que discordando dá vontade de ver de novo para atentar mais a detalhes que são abertos em seus textos. Se o jornalismo político está muito ruim, o crítico de cinema então nem se fala: ele simplesmente pontua... esse é bom,aquele voce não deve assistir, e por aí afora. Então voltemos a Outubro.Comovente as palavras sobre as primeiras palavras de um bebê,no caso sua neta. Parabéns aos dois!"
raquel | 04.01.06 - 12:40 am | #

6. "Não conhecia o trabalho do colega. Não conhecia o colega, confesso! Mas enquanto há vida, há! Dei contigo neste canto virtual e já adianto que vou voltar sempre". Gilberto Gonálves/ Homepage | 03.31.06 - 8:53 pm | #

7. "Sei lá por quê - mas bem de acordo com a estranha mania que tenho, de ler jornal de trás para a frente - li primeiro o Comunique-se de sexta-feira, e só agora me deparo com o de quinta. No primeiro (segundo?), reencontro Albino Castro Filho, queridíssimo colega de redação na Bloch. Neste, tenho a felicidade de saborear mais um delicioso texto de Nei Duclós, grande companheiro na precocemente falecida TV Guia, da Abril, também na década de 70. Sabem de uma coisa? Deus é muito bom comigo". Macedo Miranda Filho [01/04/2006 - 00:19]. (Diretor-Arte & Fato - RJ). Nota: postado no Comunique-se. Respondi que também tenho essa mania de ler de trás para frente e que deve ser a desconfianá profissional dos compulsivos do texto como nós: o fato de sempre o lead estar no pé.

8. "Fiquei sinceramente emocionado ao ler seu poema intitulado "Onde fica o coração". Como gaúcho, sabes que nosso peito pulsa juntamente com o coração da terra, com a força da terra que nos cava mapas na carne. Mas sabes, acima de tudo, que de nada adianta um compasso se a melodia que o permeia não for livre como ar, livre como vento que corta pampas e faz nós sermos o que somos. E então, temos sim de erguer nossas utopias em meio a esse rol de ideologias descabidas que nada fazem de nós. Pois, no dizer de Dante Ramón Ledesma, 'não me basta sonhar ser pássaro e acordar assoviando misérias'.Um forte abraço."Eduardo Frizzo.

8. "Camarada, Adorei o texto Véspera da Linguagem". Abs Paulo Paiva.

9. Esta frase..."Quem precisa de palavra quando o espírito é vasto e o amor rege nossas vidas fora dos esquemas poderosos que tentam nos esmagar com suas leis?" Me emocionei... Carla | Homepage | 04.02.06 - 1:55 pm | Disse para minha nora Carla Alonzo Duclós que essa é também minha frase favorita na crônica.

1 de abril de 2006

ONDE FICA O CORAÇÃO?





Nei Duclós

Sabemos onde fica o coração
Dois dedos abaixo do perdão

Sabemos onde fica o nosso frio
Nas margens devoradas do Ibicuí

Sabemos onde fica tanta guerra
No cavalo quieto por mil décadas

Sabemos onde fica esse segredo
Na água que não mata nossa sede

Sabemos onde ficam os chacais
No medo que cercamos nos currais

Sabemos onde fica a viração
Nos ventos anunciados da estação

Depois não digam que nos venceram
Depois não digam que nos venderam

Quando cruzarmos o Ibicuí, será tarde
Com esse grito que chamam liberdade

RETORNO - 1. Foto de Anderson Petroceli, sobre cavalgada ecológica a favor do rio Ibicuí, que inspirou este poema. O título é a famosa pergunta de Getúlio Vargas, dois dias antes de seu último ato. 2. Meu texto "Véspera de linguagem" está também a partir de hoje no La Insignia , diário independente ibero-americano editado por Jesus Gomez.