31 de agosto de 2020

É COMPLICADO

 Nei Duclós

 

Parece simples a flor que te ofereço

E mostro sem pensar em seu defeito

De ser singela como num país o povo

Sem sofisticação ou classe

 

Entendo pois não há segredo

Em algo que é  pétala e haste

E serve para enfeitar a saia

Ou alegrar a festa em bouquet ou jarro

Flores que fenecem num desmaio

 

Mas a que te dou tem outra natureza

É complicada como no divã o gênio

Colho do teu corpo, amargo e azedo

Vibro com o espinho que penetro

 

Não por ser bruto mas ameno

De um ira fecunda como as feras

Que arrancam gritos mas te defendem

Porque o amor é  humano, não bonito

 


FINAL

Nei Duclós 

 

Agora que falei senti remorso

Não pelo mau uso da palavra

Ou por expor o que estava oculto

Mas pelo vazio que isso provoca

É como o êxtase inoportuno

 

Conseguir no momento errado

Entregar-se sem nenhum futuro

Abandonar o local do crime

Devastado pelo arrependimento

 

É isso o que sinto

No final de um poema

que não faz mais sentido

 


DESAPEGO

 Nei Duclós


 Tudo em mim é  desleixo

A biografia, a aparência

Nada me importa e tenho dito

Nesse desapego que me joga fora

 

Se queres vencer faça bom proveito

Ou fracassar, da tudo no mesmo

Também não sirvo como exemplo

Não vendo transgressão pelo bom preço

 

O que tenho então que valha a pena

se nada me define ou contenta?

Sei lá, amor que jamais chega

Enquanto observo a vida sem sossego

 


PONTO DE APOIO

 Nei Duclós

 

O poema é  meu ponto de apoio

Quando a palavra balança e caio

Ele não deixa que eu desmorone

No chão ainda posso levantar-me

O verso me puxa, balde no poço

Água que banha o corpo pobre

 

Assim me recomponho

Acompanho a pé o comboio

Canto a vida contra a morte

 


LENÇOS

 

Nei Duclós

 

Agora sabemos como somos, está na rede

Algumas cadeiras, um sofá

Mesa com utensílios, louça para almoço e café

Um jarro no canto, estantes

A cama sob um pôster de amor

O criado mudo, um chuveiro com cortina

E janelas para quintais ou varandas

Salas sóbrias, cozinhas pequenas

Piso varrido e luminárias

 

Casas e apartamentos com nossa cara

E o isolamento, a solidão, a memória

E este aceno permanente no convés do destino

Para lenços vibrantes

Molhados de vontade e suor

 

ATENÇÃO

 

Nei Duclós

 

Coração de flor

boca de batom

Vontade de dizer

Mesmo sem saber

da tua atenção

que tento atrair

em vão

 


FÓRMULA

 Nei Duclós

 

Amor machuca, dura ao doer

Se for só flor murcha de vez

Amor é  ser

humano, quer ver?

 

Tente viver sem cair

Amor é andar, sucumbir

E não planar na platitude

É uma atitude: vamos dançar?

Posso pisar teu pé

Mas estou de olho em você

 

Essa é  a fórmula: perder

Única chance de sonhar

Ou queres a ciência de descobrir a pólvora

Depois que tudo explodir?

 


 

 

28 de agosto de 2020

ALDEIA

Nei Duclós

 

A maioria desistiu, foram embora

O que partiu de vez, foi tua história

O que foste perdeu -se em  confusão

E permaneces em ti, tua pior companhia

Convives apenas com os cães de rua

Que invadem as casas em busca dos donos

 

És o último carteiro, teu uniforme puido

A bicicleta  troncha, o boné  sujo

E essa pilha de envelopes selados

Contendo pétalas secas que ela te enviou

de uma aldeia perdida

Nos montes Urais

 


VIDRO

 

Nei Duclós

 

Quem está perdido grita por socorro

É o que acontece comigo com a poesia

Você que me desconhece não escuta

O verso não chega a Java Escócia Cuba

Sentes um ruído mas é  estranho

Quem adivinha a rota do pelicano

 

Jogo ao mar a mensagem no vidro

Estou por pouco, digo no pergaminho

Não precisa me buscar

Basta que saibas de quem é  o grito

 


 

21 de agosto de 2020

AGRADECIMENTO

 Nei Duclós


Somos instrumentos do prazer profundo

Nossos corpos são mensageiros do êxtase

Não devemos ter vaidade por sermos amantes

Apenas agradecimento


TEU OLHAR

 Nei Duclós


Qual dessas pessoas é você?

A que está na frente, ao lado

Ou a que mal aparece?

Talvez seja quem tirou a foto

Nesse caso, o teu olhar é  o meu

E não te enxergo


COURAÇA

Nei Duclós


 

Tem quem me ama e se afasta

Quem nunca vi e gosta à distância

Os que não me suportam

A maioria indiferente

 

Sou um cacto  no deserto

Orgulhoso da solidão como se fosse um prêmio

Com sua couraça de espinhos e carne amarga

Longe do oásis, providencio minha própria água

Que recolho em cântaros de barro

 

Recebo os peregrinos com piedade

Pois sei que sairão feridos

Pela decepção e o assombro

De existir alguém que de perto bate

Tendo a aparência de um milagre

A origem dessa situação é obscura

Pois sendo cacto nada enxergo

Mas desconfio que é  o meu coração

Que te dei em vão, beduína sem disfarce

Que eu não soube amar por ser confuso

 

Imaginei que poderias perdoar-me

Mas a chuva que não vem secou-me a alma

 


 

RESSACA DO AMOR

 Nei Duclós


Ressaca do amor quando me afasto

E tenho dúvidas que contigo não divido

Sumo de vista e me pergunto

Pode a paixão ser só um vício?

 

Aplacamos a sede e depois partimos

Há um poço em cada duna do deserto

Será você minha verdade sublime

Serei eu o teu sonho soberano?

 

Amor nasce fortuna mas logo cansa

Melhor é  ser avulso e não aflito

Levanto da cama e dás um grito

Acordas com cara de bandida

 


15 de agosto de 2020

DERRAMA

 Nei Duclós


 

É suave quando transborda

E roça  da cabeça aos pés

Derramando-se sinuosa

Rodeando cada acidente

Uma curva, um monte, o mato ralo em frente

As colunas do templo mais abaixo

Que sustentam as mãos

Em sérios procedimentos

 

Assim grudamos 

Para passar a noite

Terminamos expandindo o expediente

Durante o dia também  somos amantes

 


 

PERDIDO

 Nei Duclós


 

Você está por toda parte

Nos filmes e exposições  de arte

Na plateia dos desfiles de moda

e nas passarelas

 

Usas farda, toga, camisola

Atendes no comércio e advogas

 

Não para provar capacidades do teu gênero

Assunto retórico

Que de tão  óbvio já deu para bola

Mas porque só  tenho olhos para ti

 

Nas mulheres que perdi

Em minhas histórias

 


TUDO ISSO

 

Nei Duclós

 

Tem quem crie galinhas

E os que inventam palavras

Colecionadores de vinhos

Os pintores de paisagens

Gente que guarda amores

Caroneiros de estradas

Escritores de memórias

Cultivadores de fadas

Observadores de pássaros

Cozinheiros de pousadas

Navegadores de mares

Os  que azeitam as armas

Os que definem compassos

Os que vivem em silêncio

Os que publicam na praça

Os amantes da alegria

Os dramáticos palhaços

 

Eu prefiro a poesia

Que é  tudo isso

E mais nada

 


14 de agosto de 2020

SUJEITOS E OBJETOS

 Nei Duclós


Sujeitos são objetivos

Objetos são subjetivos

 

O par de meias vive brigando

e a toda hora um deles some.

O fone  de ouvido não  larga os óculos.

Toalha que precisa entrar na fila para ser lavada

sente  ciúme das que ficam limpinhas.

Temperos se atiram no chão

toda vez que procuro outra coisa .

 

Enquanto  isso

o motorista do táxi me informa:

São dez real.

 


RÁPIDA

 Nei Duclós

 

É rápida a minha fantasia

Arranjo histórias com final feliz

É volto a jato ao início

O que perco me fascina

Recupero nas planícies da alma

Ganho só  solidão

 


POENTE

 

Nei Duclós

 

Atinjo o drama sem apoio do poema

A dor sem o testemunho

A lágrima não diz na hora incerta

Quando desisto de encher com pompa

A mala da literatura

 

Invento amores brinco de roda

Primeiro  na calçada no ritmo das meninas

Depois nos bailes de terno azul escuro

 

Sangra o peito do homem sem assunto

Porque prefere sofrer em silêncio

Até ouvir o que está  na frente

A mulher que o destino não  esconde

 

Mostre o que ficou no fundo

O amor que se acabou como um poente

 


RODIZIO

 

Nei Duclós

 

Planto milho onde colhi trigo

Verduras entre plantas vadias

Substituo folhagens por arbustos

E rosas junto às  margaridas

 

A terra é  generosa

nas margens do Nilo

Aguardo que as águas voltem ao rio

e os pássaros migrem

para que o clima, meu amigo

seja o verdadeiro agricultor

 

Quando os silos estiverem cheios

surgirão nas nuvens

e nos paredões de granito

os evidentes sinais do amor

 


TALVEZ

Nei Duclós 

 

Ninguém que me ama está acordada

Talvez não exista, página virada

E o silêncio seja a rotina

da eternidade

 


CONVÍVIO

 Nei Duclós


Tornas impossível o convívio

Quem te outorgou fazer tantos reparos?

Esqueces de onde vim e quem sempre fui

Arranje um funcionário

 


 

 

GUERRA

 

Nei Duclós

 

Tempo de remorsos e desculpas

Fonte deprê de um tempo mau

Em que a coragem virou pregação de moral

E ação é  cobrar bom comportamento

 

Há um enjoo sacerdotal

Uma revoada de falsos anjos

na porta principal

 

Na guerra ninguém  pede licença

 


CONSULTA

 Nei Duclós


 Repito o que fiz há pouco

Por puro esquecimento

Checo a porta já fechada

Tomo de novo o remédio

Custo a descer do táxi

Adio o tratamento

Não saio, posso voltar

para outro endereço

 

O que eu tenho agora, doutor?

pergunto alarmado

Idade, disse o esculápio

Com menos 30 anos você melhora

 


ABSTINÊNCIA

Nei Duclós

 

Quem te trata bem esnoba

Quem xinga te considera

Irmão dispensa provas

Quem conhece não faz teste

 

A distinção é armadilha

 consideração um álibi

Potro selvagem não se enreda

Só uma dose embriaga

Abstenha-se do néctar nobre

 


AS FERAS

Nei Duclós


Tenha cuidado  com as palavras

Não  é  conselho do bem, é técnica

Na prosa ou poesia elas podem zoar contigo

Parece que dizes algo

Mas elas te traem

Distorcendo os sentidos

 transbordando o sentimento

Lambuzando tua intenção com remendos ,

Te fazendo de bobo, tu tão sensível

Mas que não domina o tranco

das meliantes

 

São criminosas porque não servem

para os serviços legais

Vieram de outro tempo e vivem à  margem

Não se submetem como os animais

 

Entre em acordo com as feras

Elas ficam de tocaia

Devoram quem se arrisca do mar

pisando cegamente no cais

 


REBENTO

Nei Duclós

 

Rebento é a prova das juras de amor eterno

Em carne, sangue e herança

Jamais se afasta para sempre

Cresce diante do nós como planta

E nos acompanha até o desfecho

Quando nos encomenda a Deus

Com suas mãos cheias de doçura

 



AO REDOR

Nei Duclós

 

Permita que eu fique a teu redor

Mesmo à distância

Com meu amor obsoleto, romântico

E provoque riso quando apontam

O sujeito subjugado pelo sentimento

 

Permita que eu te faça a corte

Mesmo em silêncio

E digam que sou inoportuno

Cão sem dono

 

Ninguém tem o que eu tenho

Essa presença de flor dentro da gente

Esse vento numa praia vazia

Onde reina uma estrela do mar

Teu rosto moldado pelo espanto

O corpo que dispensa o defeito

E tua alma, linguagem que jamais decifro

 


NOTURNO

 

Nei Duclós

 

Cansei de dizer amei quando deveria calar-me

Palavras devem ser mantidas em segredo

E só dizê-las quando estiver perto

E estiver mudo como um bicho noturno

Que no escuro vibra em silêncio

 

Cansei de falar à toa

Flor da falta de sossego

 


PRENDA

 


 

Fiquei sozinho na cidade sem almas

Saio à  rua dominada pelos cães

Todos abandonados

 

Eu também fui solto da coleira

Sem treinamento

Fui buscar a prenda que jogaste longe

Coloquei na boca e corri de volta

 

Mas já  não  estavas

 

Nei Duclós