15 de abril de 2018

A DETETIVE


Nei Duclós

O dia só tira
Fica um resto
que decide a poesia

Em vão tentamos preencher o vazio
soltando a língua

Mas a cortina se fecha
Olhamos através do vidro
Alguém de campana na esquina

É a oculta detetive
Ela investiga as pistas
que deixei na cena do crime

São frangalhos de poemas
Inútil teimosia.
Ela procura uma carta perdida

Lá eu confesso:
Não soube terminar um verso
E te liguei, musa convicta


FELTRO


Nei Duclós

O melhores poemas são de feltro
Suavidade que adivInha a pele
Conforta no clima dos conflitos
Protege a atenção com algum carinho

São palavras apropriadas, não sedosas
Tem a rudeza de fibras ainda cruas
Cobre o piso com seu liso arrulho

São poemas para depois da guerra
Quando voltas para casa lastimado
E te recebem numa cama limpa
E uma colcha tecida pelo amor exausto


GRAVAÇÕES

Nei Duclós

O segredo, perdemos
confundidos no silêncio
Não deixou pistas
o que nos formou primeiro

Mas carregamos esse lance
cegos de vivência
esquecidos o quanto devemos

Mas basta uma voz, um canto
gravados no couro espesso
para que o sangue submerso
Emerja


11 de abril de 2018

DESPERTOS


Nei Duclós

É bizarro o perfil do velho louco
Pudera, vejam o que aprontam
com seus hábitos, plenos de deboche

Ninguém está livre de chorar na chuva
Nem de ler no escuro ou observar corujas

Tudo sumirá na voragem do crepúsculo
A insanidade é própria do que vive

A idade é a mistura sem princípios
Os cães conversam, as pedras ouvem
E as nuvens inventam as tardes tontas
Em que amamos sem nos dar conta

Estamos despertos porque o tempo existe


10 de abril de 2018

NAS MÃOS DO MILAGRE


Nei Duclós

Não se trata de mentira ou fingimento
O poema é outro departamento
É a verdade que todos desconfiam
A franqueza no mundo mesquinho

É a diferença da água para o vinho
Nas mãos do milagre sobre a mesa
Na vida onde entramos sem convite


SOPRO DE PÁSSAROS


Nei Duclós

Alguém do Alto toca sem querer na superfície do mundo
e carrega teu arquivo.
Não dá para reverter.
Rodas até o fim, quando se esgota o algoritmo.
Depois voltas ao estado liso de espelho
misturado ao repouso coletivo.

O que existiu no ser e seu destino
é um sopro de pássaros armando o arco-iris.