28 de março de 2017

PROVISÓRIO

Nei Duclós

Não me deixo levar pela amargura
Só por um trecho, fardo provisório
Depois me liberto de um fel impróprio
Embora fique o rescaldo sem nenhum açúcar

Memória da dor gravada em velho muro
Ficou para trás, alma sem consolo
Ficou para trás... por que então o choro?
Por que não sigo leve depois de tanto voo?
Talvez porque esse seja o único vínculo
que eu tenha com a vida que eu decidi ser minha



25 de março de 2017

RESPEITO EM VOZ BAIXA



Nei Duclós

O que se infiltra na hora do crepúsculo
Na entreaberta porta entre a escuridão e o dia
Não é o que usa a nuvem e se maquia
de rosa , laranja ou uva

É o poema, asceta no reino do arco-íris
Balanço sem delirio, verdade pura
dita em voz baixa em respeito à lua


OPOSIÇÃO E FARSA



Nei Duclós

É um truque a prisão pela palavra
Papel timbrado, aviso ou fé de ofício
armazenam data em compromissos
A letra na base de uma farsa

É mágica a seleção num outro estilo
quando descubro oculta, seca, amarga
a doce sonoridade de uma chuva
que desenha o limite da parábola
dominando a desavença sem escrúpulos

É de flor a boa nova
anunciada em tom de profecia
Transforma em jardim a inútil fala
Opõe à falsidade a poesia


SONÂMBULO



Nei Duclós

Preciso de um relógio quântico
Para ver as horas de trás para diante
E ficar em dois lugares ao mesmo tempo
Vivendo cada segundo como partícula ou onda
E me desdobrar em personagens simultâneos
Para desempenhar os papéis da comédia
Soldado ou saltimbanco
E fazer a mágica sumir desafiando as crianças

Quero de presente
Ponha no meu sonho
da noite sonâmbula

INVENÇÕES



Nei Duclós

Palavras que combinam luz e água
como é o caso de orvalho

Nem sempre em uso
Pertencem a reinos perdidos
Irmãs de naus ou frutos
moldados em grutas abertas para o mar absoluto
Invenções de uma arqueologia do verbo
Quando batizaram porções do Paraíso

Palavras que me escutam
como conchas marinhas isoladas por séculos
numa praia de vidros
refletidas no espelho
de poemas não escritos