27 de maio de 2016

BOCA FECHADA



Nei Duclós

O que guardas ao não dizer
palavra é o segredo que preserva
tua vida datada. Resistir à fala
elaborada sem testemunhas
dentro da caixa toráxica
projeta um ar de mistério
e credibilidade. Impede a criação
da inimizade e com o tempo
descobres que não era importante
ter dito o que se cala

Resta a ética de não usar o silêncio
como arma ou intercalá-lo
com maledicências em conta-gotas
quase surdas, inoculadas como forma
de compensar tua aparência perfeita
com amarga reclusão que no fim
se trai no perfil cínico da correção
falsa. Boca fechada só vale se houver
um coração iluminando a cara
lavada pelo dom da consciência


RETORNO -Imagem desta edição: Auto-retrato de Edward Hopper

25 de maio de 2016

SE FOSSE SÓ ISSO



Nei Duclós

Se fosse só isso, o detalhe de uma cena
de um certo dia, tudo na superfície
e ficássemos quites com o desejo
e assim mesmo duvidaríamos
que existisse algo mais profundo
sabendo que é impossível viver
só com o que temos e devemos contar
com o impossível, nosso sonho

Mas o fôlego exige o esforço que justifica
sua exigência, a respiração mais longa
e o corpo que se estende por enigmas
além do inverno e do outono, quando o verão
renasce sem seguir o calendário e surge
a visão do amor, essa ilusão provisória
a nos fustigar as pernas cheias de preguiça
para sair do limite imposto pelo desperdício

Não é só isso e custo a entender os gestos
Nem desconfio porque ficas, insistes
depois que todos foram embora e me pergunto
até quando vai demorar esse rodeio, a dança
das cadeiras das palavras que me cercam
vindas da tua boca, aos goles de um mergulho
até cair a ficha e eu me demorar em teus olhos
e enxergar então o que há muito estava escrito


RETORNO - Imagem desta edição: Cécile de France no filme En Équilibre (2015), de Denis Dercourt.

SOBREVIVENTES



Nei Duclós 

Não importa o destino, estarás
sempre contigo. Viagem é companhia
Quem junto se transporta
com outros olhos compartilha
mais do que a paisagem, a vida

Visitamos um país: o espírito
que se habita em comum acordo
Fomos a museus, mas nada existe
fora do teu rosto contemplando
a pintura. Arte é criatura

Cruzamos de trem serras remotas
nos abraçamos em túneis
vimos estações fora do mapa
Nada escapa às anotações
do teu caderno

Depois voltamos exaustos
de tanto mudar em cada esquina
Reencontramos o passado
a antiga despedida. Éramos
agora sobreviventes do exílio


RETORNO - Imagem desta edição: Joan Fontaine e Louis Jourdan em Carta de uma desconhecida (1948),de Max Ophüls.





23 de maio de 2016

A GRANDE AVENTURA



Nei Duclós

Aventura maior é o conhecimento
poder chegar além da aparência
cruzar espinhos para ver inteiro
o assunto que parecia impossível

Uma vida apenas é insuficiente
para aprimorar-se no mínimo
por isso renascemos para seguir
em frente, anexar acervos

Penúria verdadeira é a ignorância
Mendigos cheios de ouro são tiranos
que não compartilham o esforço
da consciência sem nenhuma perda

Atingir a sabedoria, mesmo que falhe
a percepção completa de tanto verbo
O detalhe de atingir o miolo do tema
entender o que parecia ser obscuro

Para que serve conhecer? Vivermos
brilhar como estrela além do tempo
ser recebido pelo eterno movimento
da palavra e seu oposto, o silêncio


RETORNO - Imagem desta edição: Palas Atena.

O ESCOLHIDO


Nei Duclós 



Não foi por nada que os anjos
te escolheram para dizer
o ouro encruado na pedra
e iluminar as vozes do tempo
com a forja da palavra certa

Sopram em ti todos os segredos
vindos da Criação ainda em uso
porque o divino renova o mundo
e precisa dos arautos na oficina
os que malham o ferro em brasa

Não por acaso receitas o remédio
mistério maior que a medicina
não atenta. Curas as doenças
que as almas cevam na tormenta
costuras as feridas de guerra

Nasceste assim, com tua estrela
grudada na testa e no teu berço
que navegou em águas sagradas
e foi colhido pelas mãos das fadas
e o povo que te ungiu o primogênito

Crias uma linhagem em cada verso
herança que na vida se projeta
rodízio de sóis e glória eterna
A cidade inteira veio ver-te
flutuas num mar de estandartes


DESTERRÓPOLIS



Nei Duclós 

A cidade é mais mar
do que terra
O que lhe falta de solo
compensa em montanha

O resto é pesca e banho
praias que o ar impregna
de sal e cheiro das fontes
ocultas de água doce

Roubaram do mar
porções sem tamanho
para alargar o estreito
território urbano

Assim as gaivotas
perderam o rumo
Não moram mais nos muros
do centro histórico

Há também os fortes
espalhados em ilhas
que são a companhia
de canhões na ferrugem

A cidade é mais memória
do que nuvem. Há uma física
líquida no tempo bruto
nossa passagem sem vínculos

Aqui vivemos o desterro
no início de um século
Somos ainda o fôlego
em ruas que o mar engole