25 de julho de 2013

INVASOR



Nei Duclós

Nem sempre venço
Perco nos intervalos
nos números pares
Nos ímpares vou ao pódio
farol da barra

Mas o recital da dívida
se recompõe como cabeça
de hidra reciclada
Jogo quando
não há estádio

No campinho tosco
chuto a bola de meia
palavra ainda em pedra
Cruzo o continente
com molambos de areia

Anunciam: lá vem
o invasor
em busca da sereia
Mestre canoeiro
da maré alta


OLHAR FIXO



Nei Duclós

Não posso me enquadrar
no teu olhar fixo
sobro neste ofício

Sou o pico inacessível
Nenhum alpinista cogita
chegar ao destino

Faço par com as estrelas
quando caem em si
e jamais me fitam

Não posso confluir
para o teu centro
estou além do sítio

Há neve onde palmilha
a indiferença do agito
Subo no ar limpo

Aceno de um balão
movido a sílabas
paisagem de signos

Sou puro fonema
não dito
Sou todo conflito


19 de julho de 2013

ESPIRAL



Nei Duclós

Só alguns rabiscos de um caderno sujo.
Espiral de um tempo irresistível.

Não tem importância. Guardo apenas
porque lá está teu endereço escrito
de próprio punho e que me deste antes
de te mudares para Londres.

Hoje é um departamento de compras.
Sei porque passo lá todos os dias.
Fica a uma boa distância
do lugar onde moro sem ti, espinho
de flor presa na lembrança


RETORNO - Imagem desta edição: Romy Schneider. 

18 de julho de 2013

PLUMA DE PÉTALA



Nei Duclós

Pluma de pétala, roçar de penugem, bóia no éter, louça de estrela: flutuas no beijo que componho.

Nada mudou, a não ser teu rosto crispado de amor diante do segredo que enfim nossos corpos revelaram.

Fico esperando que me fales no ouvido. Mas só escuto o mar, minha solidão ao vivo

Quando nos sintonizamos, na conexão funda, andar depois fica difícil.

Acordei com a palavra fazendo café. Cheiro de você rompendo o cerco do inverno.

Desconfias que fiz a esmo os versos que cultivo. Sou lavrador de sentimentos, flor púrpura.

Amanhecemos num terraço avulso. Próximos de um desatino, um beijo desencadeando chuva.

Dê uma volta para eu ver você em seu vestido. Depois desfaça em parafuso como se fosse uma valsa.

Amor é invasivo. Paradoxo de algo que depende de mútuo acordo.

Querer é livre. Chegar mais perto desde que consintas.

Você tão parecida com aquela estrela longínqua. Com a diferença que és minha

Já faz uma cara que pediste um tempo. Fico irreconhecível sem teu espaço.

Saudade é um elástico que te traz de volta em poucas horas.

Nunca estive perto de você, mas já estive mais perto.

Estou cada vez mais longe, olhos de violeta.

Só vou se me chamar. Senão volto para o mar.

Poesia é assombro. Por isso beijo teu ombro

É amor? perguntou-se.
Era.


EXISTIR-ME

A moeda brasileira é dívida. Sempre fui rico.

Tudo me inviabiliza. Construí um mundo à parte, onde possa existir-me.

A noite é quando o dia pensa.

O amanhecer é imaginado pela noite alta.

Do mundo bruto, temos a manha: aceitamos que seja real, desde que ceda depois da curva

Ficamos cada um numa ilha. Formamos um arquipélago de suspiros.

Fantasia, território livre, onde estabelecemos acordos inverossímeis. Maná que alimenta vigílias.

Não fosse o sol, estaríamos fritos.

Estamos de férias. Imaginamos uma viagem em cada esquina. Espere o sol, que vem de carruagem.

Daqui a pouco tudo passa: o frio, a madrugada, a saudade.

Isso não faz sentido, mas podemos imaginá-lo

Pense num diálogo. Sou o que te responde.

É simples. Basta impregnar a palavra com o que ela sonha.


RETORNO - Imagem desta edição: Nastassia Kinsky. 


16 de julho de 2013

PARADOXO DO MOVIMENTO APARTIDÁRIO



Nei Duclós

O paradoxo do movimento apartidário é que não pode ser representado dentro do sistema político que condena, de corrupção

Reforma política não pode ser capitaneada pelos líderes do sistema político, que tudo farão para se beneficiar da mudança.

Mudar o sistema sem o monopólio dos políticos é visto como golpe.Solução é abrir um claro no sistema, que permita novo tipo de representação

Podem coexistir a representatividade tradicional (que não representa ninguém a não ser a si mesma) e uma sintonizada com a pressão das ruas?

Paradoxo gera impasse, que se intensificará. Enquanto não há oposição dentro do sistema, o fascismo cresce via saudosismo e fundamentalismo

A volta a 1964 e a facção teocrático (que finge ser democrática antes de tomar om poder) são perigos reais advertidos pelo poder

O apartidarismo, que é fruto da incompetência da política tradicional, é acusado como parte dos perigos tirânicos em ascensão. Velho truque

A luta é no território da linguagem em ação.Desmascarar o discurso oficial e sua análise da pressão democrática apartidária é missão da hora