26 de junho de 2013

TUDO GRATUITO



Nei Duclós  

Tudo gratuito. O leite, o pão, o infinito.
O transporte ao teu círculo íntimo
a energia que me confirma, voto em ti
que me reapresenta, índole pacífica
do povo renegando o vandalismo
da bandeira protegendo o cachorrinho
a criança explicando para o guarda
a mulher abraçando a prontidão da farda
o choque de sermos de repente o alívio
da pressão que nos consumia, vamos fundo
no conflito, a oposição do sonho
retaliando o pragmatismo troncho
dos verdugos. O mundo caduco sendo visto
fugindo em pânico diante do novo
um rosto roto pela dor, mas limpo
o coração aos pulos pelas vertentes
chão em comunhão com gente
manifestante desejo da palavra livre
e o olho no futuro, daqui a pouco
quando o mundo mudo for substituído

RETORNO -  Imagem: ABC News.

25 de junho de 2013

SOU DO TEMPO



Nei Duclós

Sou do tempo em que os colégios públicos eram modelos de ensino.

Sou do tempo em que brincar era só no recreio e não em sala de aula no tal aprendizado "lúdico". O ensino era sério.

Sou do tempo em que existia avaliação semanal com posição na classe conforme o número de pontos e notas de comportamento e aplicação.

Sou do tempo em que o professor dizia "de pé quem está conversando" e os conversadores ficavam de pé até o professor mandar sentar de novo.

Sou do tempo do exame oral e de provas decisivas em onze matérias. Reprovava em uma, repetia de ano. Duas reprovações era expulso do colégio

Sou do tempo em que meu pai dormia na calçada no verão e as pessoas passavam e cumprimentavam.

Sou do tempo em que tinha mata mosquito uniformizado e fiscal sanitário com ficha colada na porta da nossa casa onde punha a data da visita.

Sou do tempo em que existia guarda noturno. Eles apitavam.

Tudo isso foi destruído a partir de 1964, um sucateamento consolidado na fase atual da ditadura.

Sou do tempo da sulfa, do cataplasma e da vacina antipiogênica.

Sou do tempo em que não dávamos um tempo, porque o tempo era todo nosso.


RETORNO - Imagem desta edição: Vintage Pictures of Doctors at Work

23 de junho de 2013

AMOR E PROTESTO



Nei Duclós

Gritávamos amor o tempo todo. Acho que escutaram.

No lado B da reivindicação expus um coração vermelho. Vinhas atrás de mim.

Me empresta teu cartaz? disse ela. É exatamente o que eu penso. Fica com o meu, ainda em branco. Escreva que me ama.

Nos cartazes pusemos tudo o que achamos errado. Nos bilhetes repassados um para o outro tudo o que precisava dar certo.

Escrevemos um romance nos cartazes expostos na caminhada. Começava com naquele dia e terminava com felizes para sempre. Da janela jogavam papel picado.

Vocês não deveriam vir para a rua num dia patriótico só para ficar assim grudados, disse um invejoso. O amor lidera, dissemos a uma só voz.

Fomos tomar um café para fugir do quebra quebra. Foi a primeira vez que ficamos juntos. Choravas de emoção, e não era por obra do gás lacrimogênio.

Apontaste a lente para mim para ler o cartaz que levei na manifestação. Amor agora, eu dizia.

É bizarra essa vontade de te dar um susto, de ser teu suspeito número 1 quando alguém cobre teus olhos pedindo para adivinhar.

22 de junho de 2013

UMA SÓ BANDEIRA, A LIBERDADE



Nei Duclós

Sob uma só bandeira, a do Brasil, a massa de indivíduos pode manifestar livremente sua diversidade de indignação. Só a nação soberana garante a liberdade de expressão

Patriotismo não é patriotada. Não é celebração oportunista de privilégios e sim a identificação com a necessidade de sobrevivência num território soberano

  Sem partido significa zerar o sistema partidário que sustenta a atual ditadura e refazer o tecido republicano hoje contaminado pela corrupção

Acusam os sem partido de fascistas, mas o fascismo era um movimento de um só partido, a exemplo da tendência do poder atual do Brasil.

Velhos fantasmas do passado foram revolvidos diante da explosão do novo nas ruas. Fala-se na iminência da “volta” de um golpe de 64, mas dele ainda não saímos

A falsa democracia é o regime de 1964 consolidado e legitimado. Daí vem a fúria da massa contra a traição às mobilizações que exigiram eleições diretas

A participação política da mocidade nas ruas, depois de ter sido caluniada de alienação e identificada com as drogas e o crime, é o grande impacto do movimento

“Verás que um filho teu não foge a luta”: sempre tem um verso do grande poema fundador de Osorio Duque Estrada para expressar o país que se afirma.

Os filhos são a nova geração, que nos surpreenderam com sua força e grandeza e nos devolveram o mais precioso dos bens: a esperança.

O movimento fez o balanço das inúmeras reivindicações. Mas a luta sob uma só bandeira tem um rosto: é contra a ditadura do sistema político que traiu o espírito republicano.. 

A massa na rua significa a massa de eleitores marginalizados pela política oficial, que impõe o voto obrigatório, a urna eletrônica suspeita e a repetição de quadros.

A ditadura só funciona por meio da corrupção. Lutar contra a corrupção é desatar o nó do funcionamento do sistema. É abrir um claro na agenda do país tornado insurgente. 

RETORNO -  Imagem desta edição: foto G1.

21 de junho de 2013

MÃOS QUE SE ACHAM



Nei Duclós

A noite nos abraça, avesso de pálida. Nossas mãos em pânico se acham. Acendemos o fogo sob o frio intenso

Trazes a diferença, o amor que voa longe.

O que digo é simples. Ligue no que nos ilumina.

Quero-te ao redor, armadilha de açúcar.

Quando me visitas a voo de pássaro vibro em cada pulo da tua tormenta.

Não te alcanço, por mais que te escreva.

De que adianta o amor se não estamos juntos?

Te foste, andorinha do pampa. Entraste no mato em voo rasante. Não voltas, combinação de encantos

Bonita demais o que me dás de espírito. Bebo na fonte de puro alívio.

Tudo o que sou de torto não te chama a atenção. Enxergas apenas meu coração quando não se esconde.

Pode levantar agora, disse o anjo. Você está morto.

Celebro a beleza, último lance do cosmo antes do sumiço das estrelas.

Foram-se os sonhos, em disparada. Mas bateste na porta, andarilha fogosa.

Fique só, só quando me aguardas

Porque estás próxima ganhei mais vidas. Quero gastá-las com teu toque.