25 de abril de 2013

JACK O MARUJO QUANDO MOÇO



Nei Duclós

Quando moço, Jack o Marujo naufragou  e ficou confinado dez anos numa ilha deserta. Ao voltar não reconheceu ninguém. Minha alma mudou, disse ele.

Sozinho na ilha, Jack o Marujo aprendeu a sobrevivência com os bichos e alfabetizou-se na língua dos peixes. Foi assim que pôde depois conquistar a Sereia.

Que língua fala a Sereia, de que país? Não entendo nada, disse o Imediato. A língua do amor, respondeu Jack o Marujo. O coração é a sua pátria.

Náufrago na ilha, Jack o Marujo cultivou o silêncio, irmão do horizonte. Venha almoçar, dizia a Sereia. Não pergunte mais o motivo da solidão.

Foram os corsários que capturaram Jack o Marujo na ilha deserta. Mostraram respeito,  mesmo ele estando aos trapos. Seja nosso capitão, diziam.

Com apenas uma calça e uma camisa surradas, Jack o Marujo, moço, desembarcou na sua aldeia depois do naufrágio. Sua mãe já não dispunha de lágrimas.

Ele voltou! gritavam nas ruas. Nosso marinheiro voltou! No meio do alarido das crianças, todas as mulheres desmaiaram.

Jack o Marujo só voltou ao mar como capitão. Tinha um pequeno grupo. Somos poucos, dizia. Mas, por mais vasto, o oceano é apenas um.

Na primeira viagem como capitão, Jack o Marujo, de rosto vincado pela longa espera na ilha, foi recebido em todos os portos com honras de chefe do estado.

Quero que seja Cavaleiro do Mar, disse o Imperador. Cavalgo o sem fim servido apenas pelo sentimento de honra, disse Jack o Marujo, aceitando o convite.

A primeira batalha de Jack o Marujo foi contra a invencível armada. Homens, disse.  Vamos vencer porque o Destino está no nosso convés.

A primeira vez que Jack o Marujo viu a Sereia foi quando descansava numa rocha vulcânica isolada no alto mar. Venha morrer, disse ela. Foi amor à primeira vista

A Sereia serviu-se do marinheiro porque seu coração lhe foi oferecido. Leve-me embora, disse Jack o Marujo. Não me pertenço mais.

Cumpra sua rota, capitão, disse a Sereia. Que eu jamais o abandonarei.

Estas são algumas histórias de Jack o Marujo, um homem honrado.









É TUDO URGENTE



Nei Duclós

É tudo urgente
as pazes antes do ciclone
o jarro deserto segurando a porta
o cabelo que amanhece em desalinho

É tudo urgente
a infância num laço do tempo
o corpo no pouso de sua alma gêmea
o germe do futuro em salas sem oxigênio

É tudo urgente
os procedimentos de cura
a decisão precoce que salva uma vida
o longo temporal da carne em sua conduta

É tudo urgente
o pão que tarda, o amor na semente
o joio sobre o trigo fora da mansarda
tua voz rouca de paixão no jardim escuro

É tudo urgente
o caderno perdido na memória
o verso que comanda a caravana   
o gesto que improvisas comigo dentro 

É tudo urgente
o sopro em espiral, o cosmo ainda quente

24 de abril de 2013

COLHI NO SERENO



Nei Duclós

Palavras doces estão na estante. Aqui na mesa tenho algumas espinhentas. Colhi no sereno, machuquei o dedo. Sopre que estão doendo.

Amor é só o que eu tenho. Mas ele gira na roda do sonho.

Não te dou trégua. Foi longa a espera

Em cada dobra repouso. Em cada gota alimento o amor que não tem remédio.

Acordaste sem contemplar o beijo. O dia se desdobra sem teu cheiro.

É muito amor para tanto silêncio.

Te amar não estava na agenda. Tive que rasgá-la.

Estou meio assim, disse a Crescente, bem no zênite.


Não sinto saudade, sinto vontade, o que é diferente.

Tua ausência me inspira, é só o que eu tenho.

Volto ao limbo, junto aos duendes sem poder de mando.

Sei que prometeste não mais me escutar. Mas anjos me sopram, não há como fugir.

A noite foi só um treino. Ainda vamos entrar em campo conforme for despertando.

Fugiste, ou nem sequer te foste. Foi tudo fantasia dos meus olhos.

Não assine o que escrevo. Deixe para os anjos, que são a fonte.

Pensas que exagero. Mas passei a vida me acostumando ao desencontro. É um defeito de nascença.

Não vou insistir, espanto. Recolho-me ao cultivo de raros insetos, meus sentimentos.

Jamais atingi teu endereço. Estavas em outra cidade, encoberta pelo tempo.

Nada consta do amor que não houve. Improvável peça de um teatro abandonado no subúrbio.

Nada acumulei no ofício do verso. Sou mendigo na tua porta de sonho.

Varreram o que te disse para baixo do tapete. Quando veio a mudança, tudo foi para os ares como poeira

Faz tempo que tivemos a chance. Hoje perambulamos por ruinas de momentos.

Te dedicas ao que não me diz respeito, tua vida fora do que mais desejo.

Cada um num canto, você no solo eu no coro.

Curto todos os rostos, porque gosto de almas.


RETORNO - Imagem desta edição: Noomi Rapace.

FLOR PRESENTE



Nei Duclós

A flor foi um presente, veio de um outro reino

Quando ela foi embora, joguei os versos no mar. Não mais serões no convés. Apenas esse vento em bandeiras rotas.

Que importa se estiver doendo. Cicatriza logo que morremos.

Aqui já veio a Cheia. A ilha tem preferência.

O amor tem muitas moradas. Em todas deixei um recado.

Te escrevo de memória para a carta fazer sentido.

O presente é oportunista. Na hora de passar, ele terceiriza.

Estamos livres do futuro. Vimos seu rosto humano. Não era feito de sonho.

Nos afastamos naturalmente. Deu certo o esforço de desistir do amor.

Fui no supermercado comprar tempo. Estoquei na dispensa. Todo dia tiro uma dose de presente e sirvo com esperança.

Concordo com o adeus e todos os acordos. Só guardo teu coração, que é meu, e não devolvo.

- Sou feia, ela disse.
- Não tinha notado, ele falou. Estava distraído te querendo.

Não me procurem. Vou sumir no mundo. Só o que eu sinto por ti virá à tona.

Não se ache, senão não te procuro.

- Quando ela volta? perguntou o Imediato.
- Numa outra vida, disse Jack o Marujo. Uma em que ficaremos juntos.

Sou caçador de Lua. Ela te esconde entre as nuvens.

Me escreves em pétalas. Respondo em consentimento

Usei tua flor na lapela. Juntou mel de abelha.

Me aqueça antes que anoiteça.

Entendi. Era tudo um número de mágica. Pombas saíram da cartola, mas não voltaram.

Foste embora pensando que assim me ferias. Me deixaste um lenço caso houvesse necessidade. Mas há tempos sou caule seco na entrada do deserto.

Brincam de ausência comigo, como se adiantasse alguma coisa.. Esquecem que me graduei em solidão.

20 de abril de 2013

LUA EM CADA LINHA



Nei Duclós

A lua caiu em si, quebrou-se no azulejo
eu estava de passagem e a lua foi exagero
Bati a lua minguante, ela me disse num choro
não conte para lua cheia que eu estava no namoro

Me distraí com os versos para a lua de um galante
sou feita de porcelana, lua irmã da prataria.
Quem pode com sentimento, disse lua no improviso
escolhi dez mil diamantes, nenhuma lua com brilho

Não suporto o romantismo de luas em poesia
falou a lua ferida cortando a pele num vidro
prefiro a lua da Nasa que nunca foi iludida

Costurou toda enredada a lua estava jogada
mas a lua logo encontra como não ter recaída
esquece os mandamentos bota lua em cada linha