12 de maio de 2009

LIMPINHO


Nei Duclós (*)

Sempre fiquei abismado com a vocação genética para o capitalismo. Muito criança, eu via como o dinheiro regulava as relações infantis e não atinava com a importância de moedas e notas. Lembro que recusei um prêmio paterno – uma fortuna diária em cobre legítimo – para deixar de lado o vício que trazia do berço, sugar um estéril pedaço de borracha em forma de bico. Abandonei o hábito naturalmente tempos depois, mas por decisão íntima. No cinema, dava sopa com a mesada pendurada na ponta dos dedos. Os espertos que frequentavam as matinês levavam vantagem arrancando-a para longe.

Quase na idade dos negócios, fui batizado na vida profissional atendendo o balcão do empreendimento familiar. Argentinos gostavam quando eu estava sozinho no comando. Faziam trocas lucrativas do peso supervalorizado contra o pobre cruzeiro indefeso em minhas mãos. Foi difícil aprender a driblar esses expedientes, pois jamais acreditei no poder fundamentalista da mais sagrada das instituições, a unidade monetária.

Não costumo comentar assunto tão polêmico, pois logo surgem os sacerdotes da religião dizendo que louco não rasga dinheiro. É verdade. Mas há espécies de loucos, como eu, que olham o maço de notas como uma criatura extraterrena, que teria sido inoculada entre nós como um vírus mortal. Não é apenas pose, é fato. Quando me via em dificuldades, os auditores da civilização financeira jogavam na minha cara a pouca prudência do sonhador em relação ao material sonante.

A obsessão pela grana tem motivos. Numa sociedade sem fundos como a nossa, que deve várias vezes o próprio patrimônio, todos estão profundamente envolvidos na chance de ganhar um extra. O ideal é fazer algo que renda um montante “limpinho”, ou seja, livre de custos, impostos e outras barbaridades. Essa é a palavra que tenho escutado mais ultimamente. “Dá para tirar tanto limpinho”, me dizem. E fazem um ar de satisfação triunfante.

Acho justo. Quisera ter essa habilidade. Mas ela me lembra apenas o tempo em que eu era exibido aos visitantes como um portento pela mãe aliviada, depois de uma semana longe do chuveiro: “Vejam como ele ficou limpinho”, dizia. Amor de mãe, todos sabem, é mais valioso do que o mais cobiçado conteúdo de um cofre.

RETORNO - 1. Crônica publicada nesta terça-feira, dia 12 de maio de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.2. Imagem desta edição: quando tinha 11 anos, muito sério, entrava para o Olimpo, o famoso Colégio Santana, de Uruguaiana.

11 de maio de 2009

SOMBRA E NEVE, O CLARO-ESCURO DE NICHOLAS RAY


Nei Duclós

Alguns arriscam que Casa das Sombras (On Dangerous Ground), de 1952, com Robert Ryan, Ida Lupino e Ward Bond, é a grande obra-prima de Nicholas Ray, melhor e mais importante do que seu famoso Rebel Without a Cause ("Juventude Transviada", péssimo título em português que deveria ser substituído pela tradução literal, "Rebelde Sem Causa"), de 1955. Talvez mais do que, pecado dos pecados, Johnny Guitar, de 1954. Impressionado com este filme, que descubro tardiamente, agora entendi a famosa frase de Jean-Luc Godard, “Nicholas Ray é o cinema”.

Não há mistério nem firula. Trata-se dos fundamentos do claro-escuro como obra de arte em movimento, por intermédio de uma divisão da narrativa em duas partes iguais: a sombra, ou seja, a metade da história que é integralmente filmada à noite, quando o protagonista amarga a solidão e a frustração no seu trabalho de policial, que abomina e o torna bruto com suspeitos e colegas; e a neve, a antológica caçada a um estuprador-menino em pleno inverno, em que a claridade fosca do campo deságua na casa fechada onde uma cega se revela como o espelho do sofrimento que levou o anti-herói até aquelas paragens.

Ward Bond, o ator da troupe de John Ford (que faz o xerife brutamontes de Rastros de Ódio, entre inúmeros outros papéis) é o pai enlouquecido que procura fazer justiça com seu rifle carregado. Essa postura violenta já tinha empurrado o policial da cidade (interpretado por Robert Ryan) para aquele ermo, já que foi punido com um caso fora da cidade para poder dar um tempo e deixar de bater nos suspeitos. Agora é a sua vez de colocar panos quentes nesse tipo de condenação prévia e punição ilegal. O impulso vem da mulher que habita a casa isolada, uma Ida Lupino inesquecível, a grande atriz que também foi diretora de nove filmes e que, dizem, substituiu o diretor Ray, que caiu de cama, por vários dias nas filmagens.

A sombra espessa e sem janelas é a parte sufocante e sem solução do policial solitário, que no início é apresentado em oposição aos seus colegas, todos com mulher e filhos. Ao mergulhar nessa sombra, ele gera o impasse. Seu chefe então o manda embora, para fora da cidade, para que possa pensar sobre a vida e ajude a resolver o caso do estuprador que matou uma garota do campo. Ao chegar no descampado, os rastros na neve levam à casa onde mora seu espelho, a cega de solidão que acaba confiando nele. “A diferença entre nós dois”, diz ela, “é que um policial não confia em ninguém e eu, que sou cega, precisa confiar em todos”.

Essa fé, que nasce em quem não tem mais nada a perder, é a prova que faltava para surgir o dia claro, o desfecho em que os dois se reencontram na esperança. Uma coisa recorrente nos filmes da época é que se acreditava na cura das pessoas. A psiquiatria e a medicina, segundo essa versão, tinham condições de tirar as pessoas do gueto e levá-las para uma vida plena. Havia a chance de mudança, o que não ocorre nos filmes de hoje, em que os papéis estão definidos e ninguém escapa de seus destinos de vilania e perdição.

Mas esse aspecto não importa. O que vale é a obra fundada na sua técnica, o claro- escuro como base da narrativa, como representação da vida dos personagens. A paisagem, o que é externo às pessoas é, no fundo, a identidade de cada uma delas: o policial sombrio que anda só pelas ruas e se confunde com a noite; o sitiante bruto que pisa na neve de seu coração seco e estéril; a mulher cercada pelas paredes que escolheu para viver, já que se recusara , por medo, a fazer o tratamento que salvaria sua visão.

Um dos grandes destaques de On Dangerous Ground é a perseguição de carro numa estrada precária tomada pela neve, em que a câmara segue o caminho do acidente, transformando a cena na visão terminal da câmara que tomba e é abandonada por quem a manipulava. Grande Nicholas Ray, o sujeito que deixa uma herança que pode ser usufruída hoje intacta, com a limpeza do trabalho bem realizado e a grandeza do destino cumprido até o último segundo de seus filmes antológicos.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: o perseguidor é a sombra na neve perigosa. 2. No Brasil, "On dangerous ground" ganhou o título de "Cinzas que queimam", como avisa o leitor e admirador desta obra-prima, André de Godoy. Preferi traduzir o título adotado pelos países de língua espanhola. Considero "Casa das sombras" muito mais apropriado.

10 de maio de 2009

O DEUS FUTURO


Nei Duclós

Depois da Quarta Guerra mundial, que segundo Einstein será a machado, o Hubble será redescoberto como um corpo celeste natural. Como a Terceira Guerra destruiu todos os vestígios das realizações humanas e a quarta foi apenas a disputa do que sobrou pelos sobreviventes, não existirão sinais de como o grande telescópio espacial foi parar lá, em órbita. O mais surpreendente é que o Hubble, amado desde que nasceu, vai se condoer da humanidade e resolverá assumir sua porção divina, para que continuem acreditando em alguma coisa.

Ou então é possível que tudo fique em segredo entre os astronautas/cientistas que hoje correm para abraçá-lo de novo, como diz o veterano John Grunsfeld na véspera de mais uma viagem de conserto ao gigante querido. Talvez eles resolvam, a certa altura, instalar nas suas dependências uma colônia permanente. Levarão suas famílias e aos poucos um punhado de gente irá viver em território neutro, no limite do universo conhecido, de olho nas grandezas para lá da Traprobana milenar. Serão os sacerdotes dessa religião estelar que irá dominar o sistema solar depois das hecatombes.

Eles virão, cheios de imagens novas, mas sem contar o segredo da criação desse Deus do futuro, dar cursos para os visigodos que agora se recolhem em cavernas comendo carne de avestruz transgênico. Mostrarão como as colunas mestras da estrutura do universo são facilmente visíveis, desde que contem com a ferramenta indispensável para enxergar o cosmo indevassável, o Hubble que nos guarda e governa. Haverá súplicas para os mensageiros, que levem para o espaço seus pedidos de uma vida nova, onde todos possam ver o tempo todo o que existe por trás do céu azul e da noite forrada de luzes.

Será enfim o reino da Poesia, a deusa inviável. Teremos relatos, lendas, narrativas, poemas épicos sobre a viagem incansável que o Hubble faz varrendo os confins do ignoto para que nossas mentes precárias e corrompidas pelas guerras possam enfim ver a luz. Boiar no espaço, essa impossibilidade terrena, será o sonho de todo habitante do caos pós conflitos, que ficarão siderados com a capacidade de os enviados do Hubble cruzar a atmosfera, enquanto o resto fica a sonhar o inimaginável.

Multidões irão se atirar de abismos, gurus solitários instalados em cavernas de himalaias tentarão voar batendo um pé no outro e acabarão sendo devorados pelas avalanches. Não importa. O que vale é a intenção de voar. O que pega é saber que existe algo fora de nós, que a vida não se resume a rogar praga nos contemporâneos ou fazer deles platéia para nossas neuroses.

É por isso que fiz, preventivamente, aquele poema, que reproduzo aqui:


HUBBLE

Nei Duclós

Sou um desses planetas soltos
sem sistema
Longe do abraço circular
da grave estrela

Acompanhado apenas pelo olhar
oblíquo Hubble
A desandar errante como cauda
de cometa

A me arrastar em velocidade
extrema
no cosmo sujo sem jamais
olhar para trás

A única chance de parar é você
levantar-se
desse banco de jardim e dar-me
um beijo

RETORNO - Imagem de hoje: John Grunsfeld em ação. Muitos são os candidatos, mas para mim John é "o cara". Olha o que ele vai fazer nesta nova missão, segundo a Folha: "Alguns trabalhos de reparos, como a instalação de um espectrógrafo (instrumento que separa a luz em diversas frequências e a analisa), serão relativamente fáceis, como retirar e recolocar uma gaveta. Outras peças, porém, como a fonte de energia de uma das câmeras, que quebrou, não foram feitas para serem consertadas no espaço, e os astronautas terão de improvisar. Além dos reparos principais, será preciso trocar baterias, repor giroscópios (sistemas que guiam o telescópio) e reinstalar escudos térmicos". Isso, segundo Grunsfeld, "está no limite daquilo que eu acho que as pessoas podem fazer".

9 de maio de 2009

DEZ CONSELHOS ÚTEIS


Nei Duclós

Não adianta bater sem parar na indústria do aconselhamento. Ela vai continuar. Uma solução é formatar também alguns conselhos, para criar alternativas à quantidade enorme de bobagens que são despejadas em alunos de cursos variados de alto custo. Não que a gente não caia na tentação de dizer abobrinhas. Tudo e possível quando nos arvoramos a sabedores da coisa como um todo. A seguir, o novo decálogo:

1. Não suje sua biografia por dinheiro no fim da vida. Não vale a pena. Não haverá tempo para consertar.

2. Jamais use “em prol”. A palavra prol é um extraterrestre criado em laboratório alienígena.

3. Não debata com fundamentalistas. Idéias fixas são drogas exclusivistas, que amarram o viciado a um ciclo autista que ninguém poderá romper.

4. Não permita que te roubem o trabalho intelectual. Vá em cima, não sinta vergonha de exigir crédito. Nem sempre o roubo é feito de má fé e todo ladrão é covarde.

5. Jamais aceite a convocação de ir para a salinha, onde irão te destruir a auto-estima. Se insistirem, pegue seu boné e suma.

6. Diga o que sente e pensa e não tenha esperanças de cultivar harmonias duradouras. Todo vínculo humano um dia bate de frente com tua determinação de dizer a verdade.

7. Seja otimista. Para se queixar da vida não preciso de ajuda.

8. Coloque-se no miolo do furacão. É onde existe a chance de estabilidade num mundo em eterno movimento.

9. Jamais diga “eu, por exemplo”. Qualquer pessoa não passa de poeira de rua e ninguém presta atenção onde pisa.

10. Não publique seus conselhos. Eles se voltarão contra ti.

RETORNO - Foto desta edição: Praia, de Regina Agrella.

8 de maio de 2009

NOVO CHAT COM ALUNOS DE JORNALISMO DA UFSC


Nei Duclós

Graças ao jornalista e professor Fábio Mayer, com quem tive o privilégio de trabalhar por três anos na revista Empreendedor, aqui de Florianópolis, todo semestre tenho o prazer de conversar via chat com seus alunos de jornalismo da UFSC. O bom é que o exercício está me dando cancha, como se diz em Uruguaiana,e cada chat fica melhor, principalmente porque fico mais atento ao que me perguntam e estou mais preparado para responder (o hábito ensina). É uma conversa de mais de uma hora, que está integralmente reproduzida aqui. Fica como registro do evento e documento para quem se interessar pelo assunto.

NO PRINCÍPIO, ERA O RÁDIO

P - Vou apresentar a turma pra você...Mariana Porto, Karen Prestes, Sarah Westphal, Marina Lopes, Francisco Dantas, Cinthia Raasch, Larissa Almeida e o professor Fábio Mayer.

R - Boa tarde a todos. É um prazer estar aqui e uma honra.

P - O prazer é nosso! Como surgiu o jornalismo em sua vida?

Nei - Como interesse, muito cedo. Como profissão, só depois de entrar na faculdade. O que havia de jornalismo na minha terra era o rádio. Gostava do noticiário, principalmente das radios internacionais. Voz da América, Radio Pequim, Radio Moscou, BBC de Londres. Estávamos conectados com o mundo nos anos 50 e 60
Como tenho vocacão de conferencista, é melhor vcs me interromperem, pois é conversa para mais de metro. Direcionem, por favor, a conversa.

P - Rsrs, tudo bem

R - Tnhamos um bom noticiario local, regional e nacional, com radios da cidade, de Porto Alegre e do Rio.

P - Só gostaria de acrescentar mais uma pessoa ao chat: Denise Camargo

Nei - Olá, Denise. Pois então, haviam também as grandes revistas, como cruzeiro e manchete, que traziam excelentes reportagens. Dos jornais o forte era o Correio do Povo, mais tarde a Ultima Hora de Porto Alegre. Tudo isso configurou um interesse brutal pelo jornalismo. Lembro que aos 15 anos rodeei a rádio da minha cidade e cheguei a perguntar por uma vaga. Fui recebido, claro, com deboche. Fiquei escaldado e só resolvi pedir emprego quando entrei na faculdade.

Tinha fascínio não apenas pelo noticiário, mas também pelos programas culturais. Recentemente faleceu o Walter Silva, o descobridor da Elis Regina Eu escutava o Walter Silva todos os dias pela Bandeirantes. À noite, escutava jazz pela Tupi com o Fausto Canova. A Bandeirantes e a Tupi pegavam muito bem no miolo do pampa, terra sem obstáculos para as ondas curtas. Em cidade grande, como porto Alegre, perdi o hábito de escutar radio, que foi meu primeiro contato sério com o jornalismo. Mas profissionalmente nunca fiz radio, só uma vez, por três meses, na Gaucha. Mas não valeu. Perguntem.

P - Qual a maior dificuldade que você encontrou ao longo da sua trajetória?

R - O jornalismo não era considerada profissão. Hoje está em crise, mas na época que comecei nem entrava nas considerações, nas opções profissionais. Era coisa de pessoas com dois empregos, boêmios. Como disse meu pai quando deixei a faculdade de engenharia pela de jornalismo: vais ser tocador de violão? Quem me dera. Até hoje não sei tocar violão! Havia muita indiferença e preconceito. Depois virou moda e excesso. Tudo isso num curto espaço de tempo, só uns 40 anos. É pouco, me acreditem.

“O NYT VAI MAL, MAS O DIÁRIO DA FONTE VAI DE VENTO EM POPA”

P - Em sua opinião, a chegada da internet influenciou positiva ou negativamente o trabalho jornalístico? (pode citar exemplos?)

R - Acho que faço parte da primeira geração que encarou o jornalismo full time, como profissão mesmo. Apear de sempre ser mal paga e tirar o couro da gente em qualquer veículo. A rede é um terremoto. A internet desmoralizou uma série de equívocos, de opções que acabaram fazendo o jornalismo decair. Por exemplo, virou febre o tal jornalismo de serviços. Páginas e páginas de serviços, todos os dias, endereço de cinema, que sei eu. A internet simplesmente acabou com isso. os jornais ficaram com o pincel na mão.

P - Desculpe se te interrompi o raciocínio... pode ficar à vontade pra responder direito a pergunta anterior...

R - Esse troço de dicas e serviços é para o espaço virtual., O impresso deve ficar com o filé. Mas a internet é devoradora, cabe tudo nela, jornalismo de todos os tipos. Simplesmente o jornalismo vai ter que se reinventar a partir desse terremoto. A internet influenciou positivamente: acabou essa vaidade da exclusividade. Nada mais é exclusivo. Tudo vai ao ar ao mesmo tempo agora. Ao mesmo tempo, abriu espaços não só para um numero infinito de jornalistas, como eliminou a intermediação do jornalista, em muitos casos. Hoje, a fonte é mídia. Acho a internet a mídia das fontes.

P - Você poderia ser mais específico? O que seria o filé do impresso?

R - Obriga também o jornalista a caprichar mais e a radicalizar, no bom sentido. Mais qualidade, mais agilidade, mais talento, mais criatividade. A concorrência se multiplicou e os veículos estão em xeque. Costumo dizer: o NYT vai mal, mas o meu Diario da Fonte vai de vento em popa. rs rs rs

P - rsrsrs

R - Claro, não custa nada para ninguém. Esse é o desafio. Como fazer jornalismo sem remuneração?

O filé do impresso é a essência do jornalismo. A grande reportagem, super bem escrita, bem apurada, livre. Como existia mito em tempos idos e depois caiu em desuso. A grande reportagem sobrevive, mas muito amarrada. Acho que o NYT pode se livrar de toda a tralha e trolhas e ficar só no que é essencial, as grandes reportagens que lhe dão tantos Pullitzers. Para isso não precisa ter uma sede gigantesca.

Ou o impresso retoma seu caminho ou some de vez. Ninguém tem saco de comprar jornal impresso para ler abobrinhas ou saber onde vai passar o filme tal. Todo mundo sabe: o filme tal está na rede!

P - Pois é... Alguns pesquisadores acreditam que os jornais diários impressos vão desaparecer. Qual a sua opinião sobre isso?

R - Acho que não. Vão ficar só os melhores. As porcarias, que é o que mais tem, vão sumir, acredito. E vai ficar aquela maravilha de jornal que todo mundo espera para ler, folhear, pegar, cheirar. Isso vai continuar. Junto, paralelamente, com a rede. Hoje não existe jornal que você fica na banca esperando chegar, como acontecia com o Pasquim do Tarso de Castro, o Globo do Nelson Rodrigues, o Cruzeiro das grandes reportagens. Os jornais encalham porque são ruins. Não é culpa da internet, é culpa do jornalismo e das empresas de comunicação. Agora que dizem que o impresso vai acabar é que me dá vontade de dirigir um. Sem ab rir mão do jornal virtual, claro.

P - Se precisar de repórteres....... rsrsrs. A exemplo do NYT, você acha que no Brasil as grandes empresas jornalísticas, familiares, também seguem essa tendência de decadência e vão ter que repensar sua estratégia de comunicação?

R - Vão ter que repensar tudo, acabou a moleza, acabou a ditadura. Acabou o mesquitismo, o frianismo, os Tanure ou que sei eu. Os jornais precisam retomar sua essência, ou seja, ter jornalismo separado da publicidade. Repórter, talento, é que não falta. É um assombro o que temos de gente boa em todas as gerações no Brasil. Tudo desperdiçado. Os jornalistas precisam voltar a ser bem pagos, tem que acabar essa exploração de mão-de-obra absurda em que as pessoas ficam horas, dias, semanas apressados em frente ao micro tentando dar furo. O furo acabou. Hoje o furo está no Twitter. Jornalismo não é furo, é texto/talento/coragem.

Jornalismo também não é denuncia. Ficam achando que temos jornalismo porque temos denúncias. Estas, são manipuladas pelos interesses. E quando surgem as falcatruas, todos apontam o culpado: povo, claro, que elegeu os políticos! É de chorar.

A MEMORÁVEL PAUTA DE EDENILTON LAMPIÃO

P - O que o jornalista deve observar e fazer, hoje, pra se destacar, já que os furos não são mais nosso foco...?

R - Estamos rodeados de pautas. Pauta não precisa de gancho, quem precisa de gancho é açougue. Acho que a pauta bem sacada é meio caminho andado. Precisa prestar atenção.Vejam o caso do Edenilton Lampião, lá de São Paulo. O Lampião (tinha esse apelido porque era do nordeste e usava óculos redondos) passava todos os dias na avenida Paulista. Lá estavam aqueles casarões tombados pelo patrimônio, mas que os donos não queriam preservar, e sim por abaixo para vender caro (que foi o que aconteceu). Numa janela, o Lampião viu aquele velho, aprecia ter uns duzentos anos. Todos os dias estava lá. Um dia Lampião foi até a janela e quis saber quem era. Descobriu que era o psiquiatra que livrou o Nelson Gonçalves da cocaína. Colocava quilos de coca em frente o Nelson Gonçalves, que via aquilo e acabou perdendo o vicio.

Veja a pauta! O Lampião escreveu milhões de linhas e o Miltainho, o Mylton Severiano, o maior editor de texto do Brasil, transformou a matéria numa reportagem maravilhosa. Foi publicado no tablóide do Samuel Wainer, Aqui, São Paulo. Trabalhei lá com o Samuel Wainer mais tarde. Samuel me dizia: o Lampião ficou célebre com essa matéria. Não é uma maravilha?

P - O que você pensa da obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão de jornalista? Pode haver qualidade no meio jornalístico sem formação universitária?

R - Pode haver nos dois modos. Acho importante a formação universitária, mas não apenas especificamente no jornalismo. Acho que uma boa faculdade, uma boa formação acadêmica resolve. Depois, se aprende. Acho que não deveria haver obrigatoriedade do diploma. Eu mesmo tenho diploma de Historia da USP. Acabei não me formando em jornalismo. O AI 5 pegou meu curso de jornalismo pelo meio. Entrei em 68. Em 69, era clima de vazio na faculdade. Não deu para continuar.

P - Como foi pra você trabalhar com Samuel Wainer e Mino Carta?

R - São escolas de jornalismo. O SW tinha um olho clínico e grandes idéias. Me deu uma coluna sobre juventude para fazer, me colocou na reportagem policial, entre outras coisas. Era um cara dinâmico demais, um grande repórter que inventou um império do nada. Depois, com o golpe de 64 caiu em desgraça.

O Mino Carta tem a formação de país rico, faz jornalismo americano, todas as suas revistas são inspiradas no modelo americano, mas gosta de dizer que faz parte do jornalismo italiano. O Mino é um líder, e um cara de vanguarda. Na Senhor dos 80, tínhamos uma redação enxuta e um grande veiculo. Era um veiculo influente e super bem feito. Trabalhei pouco tempo com o Samuel, um ano no máximo, mas fiquei seis anos trabalhando com o Mino. Com o Mino aprendi a fazer um veículo a partir do nada.

P - Qual foi a influência da ditadura na sua formação como ser humano? E como jornalista? Como foi viver sempre vigiado, censurado? Essa experiência determinou em você a formação de uma postura mais crítica e engajada?

R - O mal que a ditadura nos faz a gente acaba descobrindo com o tempo. Enquanto dura o entusiasmo e a juventude, vamos levando. Depois vemos o quanto a gente precisou recuar, se acomodar. Sorte que com a internet foi possível cortar essa pressão e voltar o front. A posição critica eu ganhei na faculdade, militando no movimento estudantil e lendo autores da esquerda. Nas redações, éramos sempre os insubordinados, fazendo greve, saindo em massa, procurando driblar a censura. Foi barra. Saindo em massa: pedindo demissão em massa, como aconteceu várias vezes.

P - De quem você acha que é a culpa do jornalismo sem graça feito hoje em dia?

R - Das empresas de comunicação e dos poderes econômicos e políticos. O jornalismo é uma profissão perigosa, tem poder. É preciso esvaziar isso, manter o tacão, ficar de olho em cima do talento, da coragem, da liberdade de estilo. Vejo o sistema econômico como uma grande ditadura financeira mundial. O país está sintonizado com isso. Acho que continuamos na ditadura, apesar das aparências em contrário.

Acho impressionante as consultorias. Eles chegam, fazem a limpa, tiram as pessoas mais capacitadas, deixam apenas a mão-de-obra barata, padronizam tudo, levam o veículos à bancarrota e depois saem para fazer o mesmo serviço em outro lugar.
Os consultores não tem qualidade de texto pra passar numa peneira séria. Só isso dá a dimensão dessa sacanagem.

MUITA POESIA NA REDAÇÃO

P - Vamos falar um pouco sobre você agora... Todos introduzem Nei Duclós como poeta, jornalista e escritor. O que disso tudo você é mais (poeta ou jornalista) e quanto de poesia existe no seu modo de fazer jornalismo?

R - Acho que a literatura te fornece todos os recursos da linguagem. Isso pode ser aplicado ao jornalismo. Veja o caso do Ano da Peste, do Daniel Defoe, sobre a peste bubônica no século 18 em Londres (Artes e Ofícios, 2002, tradução de Eduardo San Martin). Ele inventou um narrador fictício e usou dados concretos da peste. O resultado, jornalismo literário, é magnífico, considerado a obra-prima do autor do Robinson Crusoé.
Sou essencialmente poeta. O resto veio depois. Comecei na poesia aos nove anos de idade, no jornalismo aos 20. Mas o jornalismo também influiu na minha poesia

P - Você já publicou seis livros. O que você busca transmitir através deles?

R - Só complementando a poesia e o jornalismo. Desculpem a auto-citação, mas vejam este poema

TODOS OS DIAS EU DIGO

Nei Duclós

Todos os dias eu digo:
escreverei um poema
Todos os dias eu falho
escrevo acontecimentos

O poema é a notícia
que não veio
que ficou no meio
censurada pelo tempo
(pela caneta
de um funcionário alheio)

Pois o tempo é exigente
e exerce o medo
como um cão no jardim
de olho azedo

Todos os dias eu pulo
no quintal seco
e sou mordido no ventre
(lugar onde o vento
não chega)

De mim nascerá um filho
talvez eu mesmo
que não morrerá tão cedo

Até lá
mil gerações
tombarão antes do tempo
(a eternidade não tem
a pressa que eu tenho)

P - Tá desculpado! rsrs... muito bom o texto!

R - A poesia é misteriosa, ela vem de algum lugar, nasce muitas vezes pronta, parece ser soprada. Mas o que eu busco é expressar a barra de estar vivo e lançar pontes para os contemporâneos. E também viver desse oficio de escritor, o que é muito mmais dificil. É a fase em que me encontro agora, tentando viver da profissão de escritor.

P - Você utiliza a poesia como um desabafo?

R - Não, como construção de linguagem, como obra que busca a permanência. Não como divã, mas como engenharia da linguagem. Poesia para ser dita em voz alta, para convocar, acontecer. É a minha pretensão e meu sonho.

P - Outubro, além de ser o mês de seu aniversário, é também o título de seu primeiro livro e nome de seu blog. Qual a sua relação com esse mês (ou com o que parece ser o estado de espírito)? Tem a ver só com seu nascimento ou vai além disso?


R - Outubro é mudança de estação, chegada de primavera. Também lembra a época das revoluções, a russa, a brasileira de 1930. Outubro é também uma bomba em termos de vogais e consoantes, palavra muito sonora, que se desdobra em muitas outras. Meus poemas, em sua maioria, estão na rede.

P - Sim, nós demos uma espiada antes do chat. hehe

R – Certo. A rede é o fim da gaveta. Faço um poema e imediatamente coloco no ar. Mas sempre fiz poesia enquanto trabalhava em redações. Escrevi livros inteiros na hora do expediente

P - Pode ter certeza de que vamos ser leitores mais assíduos dos seus textos depois desse papo!

R - Espero que sim. Um autor precisa de leitores, que também são escritores. É um círculo de grande poder cultural, ler, escrever, compartilhar a obra uns dos outros

P - Pra encerrar, gostaríamos de fazer mais uma perguntinha sobre jornalismo...Qual o conselho que você daria aos estudantes de jornalismo que desejam trabalhar em grandes jornais e sonham em ser bem sucedidos?

R - Diria: sim, é possível. Aposte alto. O lugar está te esperando. Vi isso acontecer comigo. Cheguei duro, sem lugar para ficar e de repente estava assinando matéria de capa na Ilustrada. Havia uma vaga de redator lá, estavam desesperados. Pois então, cheguei bem na hora. Tem gente demais e vaga de menos? Não acredite nisso. Os grande veículos são carentes de bons quadros. Acredito porque real. Aposte alto. Jamais diga: isso não é para mim. É, sim, para você. O sucesso é justo e deve ser alcançado. Não o sucesso a qualquer preço, mas o sucesso que chega a partir de escolhas sinceras, solidárias. A ética é o melhor caminho. Precisa é ter fôlego, paciência e determinação. Coloque-se no miolo do furacão. Assuma seu lugar. E prepare-se. Leia, escreva, ouse, informe-se, fique tento aos contemporâneos.

P - Nei, muito obrigada pelo papo! Foi um prazer conversar com você, saber das suas idéias... agradecemos muito pela atenção!

R - Acho que é isso. Vim de longe de uma pequena cidade do interior, sem nenhuma pessoa da família jornalista. Inventei o caminho. Numa época braba. Vi isso acontecer com muitos de nós.

P - Levaremos com muito carinho seus conselhos e um pouco da sua experiência, pra servir de exemplo, né...

R - Eu é que agradeço. Fico feliz e repito, honrado. Mantenham contato comigo.
Sempre que precisar, estou á disposição.

P - Nós podemos entrar em contato pra fazer mais algumas perguntas, eventualmente?

R - Claro, à vontade

P - Ok, então!

R - Maravilha, boa tarde a todos

RETORNO - Imagens desta edição: a foto principal é de Daniel e Carla Duclós, na sua recente viagem aos Alpes Suíços (o que tem a ver com jornalismo? Caminhos, penso eu, perspectivas; e também porque a foto é belíssima e tem a ver com essa produção múltipla na rede); as outras são, pela ordem: Walter Silva, NYT, Nelson Gonçalves, o livro Outubro.

7 de maio de 2009

O FIM DA ELITE


Nei Duclós

“Porque não!” deveria ser a resposta para a célebre pergunta: “Por que não?”, que foi a deixa para toda espécie de barbaridade ser cometida em nome da liberdade. Hoje, temos gentinha no poder em todo o mundo. Vejam o caso do Berlusconi e sua semsorte, lavando roupa suja em público. Aliás, a volta de Berlusconi ao poder já é um escândalo. Vejam o presidente francês com sua stripper como primeira dama. Vejam o caso Eduardo Suplicy-Mônica Dallari, inserido na farra das passagens.

Vejam o presidente argentino elegendo a esposa para a presidência. Vejam a família italiana do presidente de país gerenciado pelo “cara”. Vejam a Hillary pedindo desculpas em nome do governo Obama, como se “foi mal, aí” lavasse a desonra de matar mais de cem civis no Afeganistão, arrasar aldeias miseráveis, massacrar crianças. Obama , o “sem medo de ser feliz”, o “Yes we can”, é o culpado pelo morticínio. Obama não é afro, é americano. Não veio do Terceiro Mundo nem se identifica com ele, faz parte da gang que domina o mundo e que nada tem a ver com o conceito de elite, de liderança ungida pela meritocracia.

Claro, dizem os reaças, foram eleitos pelo povinho, então são gentinha. Picas. São impostos pela ditadura camaleônica, que usa o voto e as fraudes das votações para colocar quem eles bem entendem. Manipulam a mídia, o marketing, compram tudo e o resultado é esse. O povo não é culpado, é vítima. O povo lutou pela democracia e foi enganado, envolvido pelos tentáculos de antigos e novos donos do poder, que se revezam no gerenciamento de inúmeros butins.

Não gosto mais de falar mais destas merdas que infestam as mídias e os blogs. Prefiro ver e revisitar os filmes que valem a pena. Revi ontem o início de O Leitor (2008) e notei a competência do diretor Stephen Daldry no uso das cores e nas referências aos clássicos. Kate Winslet colocando a meia é Marlene Dietrich em O Anjo Azul (1930), de Josef von Sternberg. O lugar onde a ex-nazista mora é um prédio do passado, que fica em frente a uma obra, o alcance da modernidade. O rapaz quando faz a visita fatal, quando se dá a primeira transa, está impregnado pela cor vermelha de paredes e cortinas. Quando briga com ela, tudo vira ocre, velho. Um show.

Ralph Fiennes tem a concentração intensa de um protagonista com cargas de tempo até os cabelos. É um tremendo ator. Kate impressiona por fazer aquela alemã brutalizada, de cadeiras rígidas, operosa, forte. E, nos momentos de fragilidade, encantadora. Mulher que não entende o conceito dos homens sobre a beleza feminina, que chora numa igreja lembrando pecados antigos, que se arrasta quando vê a esperança de enfim encontrar seu velho amor. David Kross, o garoto que interpreta o personagem principal nos anos 50, também é muito bom. Por ele ficamos sabendo como era o ensino naquela época: estudavam Homero, Goethe, Tchecov no secundário. Não tinha moleza. É assim que se produz uma elite de verdade, culta e responsável.

Bruno Ganz, o clássico ator alemão de tantos papéis importantes, faz o advogado que se invoca com o comportamento do aluno que guardava um segredo. O filme é uma abordagem da cultura ocidental, que seria toda ela baseada na posse de um segredo nem sempre revelado. São aulas sobre o Justiça numa época de lavagem de roupa suja em público. Quando todos perdem a compostura, o que fazem as instituições e, o que é melhor, o que fazem as pessoas diante dos impasses, preparadas para enfrentar essa barra desde criança, por meio de uma educação responsável, ampla, fecunda? Uma educação que, por oposição, pode gerar facínoras, que usam mal a formação tão apurada, mas jamais o tipo de merdinha que tem assumido o poder.

Ou pior: mesmo super formados, são incapazes de escapar do domínio dos bandoleiros que mandam matar civis em aldeias cheias de areia.

RETORNO - Imagem desta edição: o aluno David Kross é observado pelo professor Bruno Ganz, cena de "O Leitor".

MESTRE OZU, O MOVIMENTO NA IMOBILIDADE


Nei Duclós

Costuma-se chamar Yasujiro Ozu (1903-1963), o clássico cineasta japonês, de pintor, pelo apuro da composição visual, que faria de cada filme uma exposição de arte. Ozu deve ser enquadrado pelo que é e não pelo que a inteligência da crítica sugere ser. É cineasta, e como tal vive do movimento. Seus filmes mantêm a postura rígida imposta pela cultura, a tradição e a educação. Mas desfolham, como os cataventos, que ficam fixos no horizonte enquanto giram suas hélices para provar que tudo sopra ao redor.

Uma cena de O sabor do chá verde sobre o arroz ilustra essa síntese. O protagonista, funcionário de uma multinacional, viaja para o Uruguai a bordo de um avião. No aeroporto, colegas, amigos e parentes se despedem. Estão todos perfilados, fixos, de pé, rígidos. Mas seus braços e mãos giram no gesto de adeus. Pode ser encarado como uma metáfora do cinema do Ozu. O japonês mantém a postura, mas ele está mudando.

No final do filme que é considerado sua obra-prima, Viagem a Tóquio, o viúvo e a nora ficam em frente ao porto. Imóveis, contemplam os navios em movimento. É assim o tempo todo. Seu cinema é uma vitrine rígida que enfrenta a decomposição, a pressão do tempo, da idade, das mudanças. Aparentemente, nada acontece. Jamais os personagens mudam o tom da voz. Nunca deixam de sorrir, mesmo diante da mais completa tragédia. Mas há crueldade nessa sociedade tão arrumada e tudo indica que ela entrará em colapso.

Em Viagem a Tóquio, o casal de idosos que vai visitar os filhos e por eles são recebidos com indiferença, acabam ficando na rua, tendo que improvisar um pouso. Isso é fatal para o equilíbrio físico e emocional dos dois, que voltam para casa com as seqüelas da visita desastrada. Nada escapa da vista de Ozu. A vizinha invejosa que deseja toda a felicidade do mundo na vigem, as pessoas que não cansam de dizer como são sortudos, tudo isso é contrariado para realidade: um país marcado pelos massacres e pela guerra, em que as famílias enlutadas enfrentam a decomposição e a morte em meio a uma rotina brutal, de um país clássico que incorporou a modernidade e nela compõe uma transformação profunda.

Gostam de dizer que o cameraman de Ozu filmava de cócoras. Esquecem de notar que esse olhar, formatado pela postura do corpo que não usa cadeiras nem sofás nem camas, é o que define a cultura japonesa. Ozu não poderia filmar com o olhar acima da cabeça de seus personagens, que passam a maior parte do tempo no chão, conversando, comendo, rezando, dormindo. Nele, o cinema é mais embaixo, ou seja, fica abaixo do nível definido como “normal” pelo ocidente, que dirige filmes sentado na cadeira (e as câmaras rodopiando no alto), como não cansa de nos mostrar a foto clássica do diretor em frente à cena que está sendo filmada.

Cinema é o olhar do espectador formatado pela postura da câmara. Ozu enxerga a realidade com sua câmara ao nível do olhar dos seus protagonistas. Quando sentam em bancos altos, como acontece no bar, é para beber até cair, para experimentar a decadência. Mas suas constatações não compartilham do desespero da paisagem aparentemente imutável e dos personagens que enfrentam dor e remorso. Ele é poético, o que é sua salvação e sua glória.

Mestre Ozu: cinema obrigatório, didático. Fundamento da Sétima Arte, influência total em Wim Wenders e Jim Jarmush, entre outros. Ver Ozu é adotar o hábito de curvar-se em sinal de respeito.

RETORNO - Imagem desta edição: cena do funeral no filme de Ozu, "Viagem a Tóquio".

5 de maio de 2009

MEDOS


Nei Duclós

Tive um sonho “real” quando criança: caía dentro de um poço, ficava com a borda, onde me segurava, na altura do pescoço e aos poucos ia escorregando. Minhas irmãs corriam para me socorrer, mas meu corpo descia até o fundo e eu morria de verdade. Por muito tempo, fiquei invocado com o fato de estar vivo depois de ter acabado assim de maneira tão definitiva.

Minha segunda grande experiência com o terror foi algo que alguém me disse: que a polícia enterrava as pessoas vivas! Eu não conseguia ficar tranqüilo quando via um jipe cheio de policiais. Eles, claro, se dirigiam a um local deserto onde colocavam gente ainda respirando e cobriam tudo com terra. Houve também a visão assustadora do mendigo que um dia amanheceu na porta da minha casa. Entre inúmeras trouxas, ele carregava um pequeno sino que, diziam, era uma ferramenta que triturava crianças desobedientes ou simplesmente curiosas. .

Minha rua, sempre cheia de ruídos provocados pela molecada, tinha momentos de intenso silêncio quando alguém anunciava a proximidade do Louco, um cara calado, sinistro e mal encarado, não muito mais velho do que nós, mas que guardava facas na cintura e jogava pedras enormes nas cabeças dos outros. Era também uma fera, imbatível nos socos, mordidas, pontapés. Era capaz de matar, diziam.

Na escuridão das madrugadas, quando voltava altas horas na época de adolescente, eu escolhia o meio da rua onde me sentia mais seguro, pois, rente às calçadas, sombras guardavam lobisomens de tocaia e o reflexo da lua no perfil das casas assombrava as estrelas com acenos de cemitério. Antes de me mudar para a capital, soube do caso do espião russo, fantasiado de trapeira, que por rádio transmitia informações valiosas sobre a fronteira para além da Cortina de Ferro.

Um dos tormentos mais recorrentes era a ameaça de colegas para me pegar na saída do colégio. Sempre tive pavor de brigas e o único soco que acertei num sujeito me encheu de remorso por longos anos. Depois vieram os medos da vida adulta: da ditadura, do desemprego, dos assaltos, das doenças, das pandemias. Mas nenhum deles se compara aos calafrios da infância, quando estamos perto demais da fonte misteriosa que nos trouxe ao mundo.


RETORNO - 1. Crônica publicada nesta terça-feira, dia 5 de maio de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Escrevi recentemente o seguinte: "Sabiam que o Brasil é o país que tem mais "patrimônios da humanidade"? Daqui a pouco, todo o território nacional será tombado em nome do Al Gore". Não deu outra: ontem vi na TV um súcia de entreguistas sorridentes lançando a campanha para tombar todo o Rio de Janeiro, capital do Brasil soberano, como patrimônio da humanidade.

3. É bom lembrar Miécio Caffé, o artista e colecionador de música brasileira, que morreu aos 82 anos, em março de 2003: "Qualquer trabalho meu é o Brasil. Ao fazer uma caricatura, meu processo é o de extrair a alma do caricaturado. Tudo o que eu faço é Brasil. Foi por isso que recusei o convite de Walt Disney para ir à América."4. Imagem desta edição: Garrincha segundo Miécio Caffé, que foi o primeiro a fazer as caricaturas não só de Garrincha, mas também de Pelé.

4 de maio de 2009

TRINTA REGRAS BÁSICAS DE CONVÍVIO


Nei Duclós

1. Se souberes a resposta, não faça a pergunta.

2. Não distorça o sentido da fala do interlocutor para desmoralizá-lo.

3. Em grupo, não faça súbito silêncio quando alguém chega.

4. Não note, com gestos explícitos, algo da aparência de quem está falando.

5. Não segure o braço dos outros para dizer algo.

6. Não use uma palavra ou mote da fala alheia para interrompê-la com sua intervenção.

7. Não desvie a atenção da conversa sugerindo outro foco quando alguém está com a palavra.

8. Não retome sua fala ignorando a intervenção alheia.

9. Não finja interesse excessivo para algo dito de maneira superficial.

10. Não olhe para o vazio enquanto sussurra algo para fazer pose diante das câmaras.

11. Não aborde desconhecidos, por mais célebres que sejam.

12. Jamais diga “falo contigo depois” para um conhecido quando estiveres num evento.

13. Não comente estas regras numa festa, alguém pode não achar engraçado.

14. Não xaveque a mulher dos outros nem exiba seu casos com beijos públicos.

15. Não beba além da conta nem fique apenas na água ou no guaraná.

16. Não use nem deixe usar serra elétrica sob nenhuma hipótese ou necessidade.

17. Não aproveite as festas do fim de ano para jogar bomba no vizinho.

18. Jamais se separe do seu fone de ouvido para ouvir seu próprio som, na altura que bem entender.

19. Não conquiste a amizade alheia para fingir solidariedade e poder dar rasteiras impunemente.

20. Respeite a hierarquia ao não se submeter a humilhações.

21. Não desrespeite a inteligência alheia ao aconselhar o óbvio.

22. Não mande flores se seu objetivo é apenas dar uma transada.

23. Num jogo, não levante as mãos depois de dar uma canelada no adversário.

24. Não faça confidências constrangedoras em nenhuma ocasião.

25. Não peça socorro quando todos são náufragos.

26. Não estenda a mão se não consegues te sustentar nas pernas.

27. Perca o hábito de fazer falsas promessas.

28. Não retome amizades antigas só para se sentir legal.

29. Não falte a um compromisso de espécie nenhuma e jamais chegue atrasado.

30. Lembre da tua infância, quando Deus sentava no portal de casa contigo.

RETORNO - Imagem de hoje: todo mundo conhece o casamento de Emília com o Marquês de Rabicó, assistidos por Pedrinho e Narizinho, no traço inesquecível de Le Blanc.

3 de maio de 2009

O TEATRO DOS OPRESSORES


Você liga a televisão a qualquer hora do dia ou da noite e aparecem três personagens, cantando, rindo, conversando, jogando, se abraçando, sacudindo os braços, atuando em novelas, shows, gincanas, bate-papos, sendo alvo de homenagens, virando personagens de filmes, conversando com Xuxa, Angélica, Faustão: Zezé di Camargo e Luciano e o cantor Daniel. Você jamais vê Edu Lobo, José Gomes, Claudio Levitan (que acaba de ganhar o Prêmio Açorianos de melhor cd infantil, com a opereta Pé de Pilão), Bebeto Alves (outro ganhador do Açorianos e super homenageado pela carreira de 23 discos). Aí, de repente, você fica sabendo que Augusto Boal morreu.

Ou seja, o Boal, autor de inúmeras obras, de peças magníficas como Arena Conta Zumbi (junto com Gianfrancesco Guarnieri e músicas de Edu Lobo), autor do Teatro do Oprimido, de renome internacional, que chegou a ser indicado para o Nobel da Paz, jamais aparece na programação, a não ser em forma de necrológico. A televisão brasileira, túmulo do país, é especialista em necrológicos que soam como vingança contra o talento.

Foi assim com Ingmar Bergman e tantos outros. Boal, nascido um ano depois da revolução de 1930, foi também escritor de romances e novelas, além de peças de teatro, poemas etc. Diante da gigantesca omissão, e em frente às câmaras na hora do funeral, Juca de Oliveira foi sucinto, falou pouco. Fez muito bem. Agora que morreu querem saber de Boal? Quem tem que escancarar as telas e microfones para pessoas de grande importância cultural são as redes de televisão, que ficam entupindo a população de porcarias, desses gritões que deveriam estar numa escola de música. Mas, contente-se: morto aos 78 anos de leucemia, Boal teve seus segundos de exposição na mídia. E tudo volta ao “normal”.

A publicidade, cada vez mais asquerosa, exatamente por ninguém peitá-la, exibe porcarias sucessivas. Não presto muito atenção nos comerciais, que vejo de vez em quando, pois me dedico a filmes. Mas juro que vi um comercial em que duas imbecis comentam a performance sexual do energúmeno que lê jornal no sofá e no fim do reclame o próprio pede para a empregada limpar a parte de cima da estante para poder ver-lhe os glúteos. Nas novelas, negras uniformizadas são achincalhadas pelas patroas, enviadas a toda hora para o “lugar delas”, a cozinha ou a faxina. As novelas são a representação da vida privilegiada do pessoal bem pago da televisão, rodeados de escravas.

O noticiário é um espanto. O Jornal Nacional dedicou uma semana de reportagens especiais sobre um nicho que eles faturam do dinheiro público há décadas, o ensino a distância. A atual ditadura, que tem a televisão como catarse e orientadora, sempre quis distância do ensino, daí tanto ensino a distância. O tal Telecurso vai ao ar às cinco da manhã, ou por aí, na hora que o trabalhador levanta para pegar no pesado. A veiculação é só para constar, a grana já está garantida.

Os noticiários são uma sucessão de eventos. A fulaninha famosa que faz um prato especial, a grande festa das pizzas napolitanas, a cervejada dos tedescos, a cavalgada dos xirus, o fogaréu dos mineiros, as procissões dos desesperados, as súplicas dos aflitos, as vendas dos shoppings em datas especiais. E alguns fatos recorrentes, como a crueldade dos pais que estrangularam a filha, a pandemia pandemônio, as torcidas loucas para serem campeãs. É tudo uma montanha de barbaridades e superficialidades e matérias de interesses, denúncias vazias e caras e bocas de politicamente corretos, com cenhos e dedinhos advertintes. Ora, vão cagar pedra.

Lembro quando tive o disco Arena conta Zumbi. Foi quando descobri Edu Lobo. Ontem, no you tube vi e ouvi um depoimento ótimo da Maria Bethânia sobre nosso maior compositor vivo. Bethania fala da segurança musical de Edu, da marca de suas composições, da delicadeza em tudo o que faz, da sua sofisticação. Num outro vídeo, um jovem músico toca Borandá na flauta e conta que os amigos perguntam de onde ele tirou aquela música. É Edu Lobo, diz, para espanto dos pobres despossuídos da cultura no país da ditadura e da bandidagem no poder.

RETORNO - Imagem desta edição: Augusto Boal em ação.

2 de maio de 2009

A CIA COMO SOMA DE TRAGÉDIAS PESSOAIS


Nei Duclós

O novo irmãos Cohen, Queime depois de ler, é sobre filme de espionagem filtrado pelo seu deboche, a famosa série de TV, Agente 86. “Fique esperto”, sugere o nome do protagonista da série, Get Smart, mas, diz o filme dos Cohen, agüente as conseqüências. É uma abordagem metida a politicamente correta da agência, feita por meio da comédia ligeira, das tragédias provocadas pela irresponsabilidade das chefias e do vazio da vida americana hoje. É uma dose de intenções que deságuam, em sua maior parte, num trabalho forçado e apelativo, salvo pela alta dosagem de talento de diretores, que sempre nos dão filmes excelentes; roteiristas (armações imbricadas num ritmo que chega ao delírio); e atores ótimos, como John Malkovitch, George Clooney, Brad Pitt, Richard Jenkins, junto com o arraso das atrizes Frances McDormand e Tilda Swinton.

O filme é um conjunto de qualidades que formatam uma besteira comercial. Vamos decidir que é algo proposital, que o foco dos diretores não escorregou na maionese de seus próprios exageros. O mais grave, me parece, é desprezar a CIA, como se ela tivesse perdido completamente suas funções a serviço da presença hegemônica da América no mundo. Sabemos que não é bem assim. Mas há uma tradição de falta de respeito, entre a intelligentsia americana, em relação à agência, como se a porção progressista da América se envergonhasse da sua espionagem oficial como forma de purgar os pecados da nação-império. Não tem como escapar: por mais que esperneiem, são todos coniventes e a CIA está mais atuante do que nunca. Por ser uma instituição gigantesca, que age no mundo inteiro há décadas, tendo feito um monte de barbaridades e sacanagens, é claro que se presta a equívocos. Isso abre a guarda para o achincalhe.

A indiferença e o despreparo dos agentes diante de um evento bizarro – a interferência de um casal comum, de amadores, nos negócios da espionagem – ousam segurar o filme. Os Cohen intensificaram a caricatura para arrancar gargalhadas e lágrimas – já que tudo é apenas show-bizz – e o resultado é confuso. A falta de sentido de vidas não solidárias, casadas com suas carreiras, nas mãos de advogados facínoras , às portas da bancarrota financeira pessoal, sem recursos ou capacidade para realizar seus sonhos (um livro, uma cirurgia plástica, um divórcio) permeiam as ações da CIA, que no filme acaba sendo a representação dessa tragédia coletiva.

A vida social da América estaria num beco sem saída depois da Guerra Fria, como ocorre com a agência. As pessoas se entredevoram (“todos estão transando com todo mundo”, diz um agente) procuram se preservar diante da idade, das traições, dos custos de uma vida artificial. De todas as performances, se sobressai a de Brad Pitt, como o personal trainer sem escrúpulos, burro e superficial. O cara que nos provocava medo com o silêncio de seu personagem Jesse James, atinge níveis de hilariedade perversa como o sujeito que tenta chantagear o agente Malkovitch. Este, no papel de um fracassado alcoólatra e neurastênico, é a implosão americana diante dos impasses nacionais.

George Clooney abre mão de sua imagem de maturidade bem resolvida e séria, presente em todos os filmes onde atua ou dirige. Ele faz um galinhão asqueroso, assumindo a facilidade do comportamento virando-se contra o indivíduo que pretensamente deveria usufruir da liberdade narcisista e brutal. Elizabeth Marvel, no papel de sua esposa, autora de livros infantis, seria o último reduto da fidelidade, sobrevivência de uma realidade conjugal que não existe mais, pelo menos no filme. Tilda Swinton é “a vaca fria” (segundo suas detratoras), que só pensa em seu patrimônio, no amante e na maneira de se manter à tona no mundo sem lei.

Se você me perguntar se gostei do filme, digo que não. Mas não posso simplesmente achar uma droga algo que expõe tanta coisa e possui tantas atrações. Mesmo sem salvar totalmente o filme, elas mostram um trabalho forte, acima do que existe normalmente na programação. Escrever sobre “Queime depois de ler” é resistir a tentação de dizer: “Esqueça depois de ver”.

RETORNO - Imagem desta edição: Brad Pritt, como o personal trainer trágico e hilário.

1 de maio de 2009

EM BUSCA DA ÁFRICA


Nei Duclós

Uma das coisas mais pentelhas que me atanazaram nesta profissão foi a obsessão. Quinhentos auditores caem sobre tua matéria como urubus antes da publicação. O editor te manda reescrever tudo na madrugada e no dia seguinte, quando voltas para casa barbudo e furioso, ele tira o que conseguiste produzir e coloca no lugar um anúncio de mídia interna. Sujeitos debulhavam teu texto como se fosse uma tainha e o expunham ao sol, para secar. Depois salgavam e iam vender na feira. Ou pior: guardavam, até começar a feder.

A merdalhada toda de dados hiper checados entre gestos de segurar os óculos, que costumam escorregar pela pele oleosa, jamais fica na mente dos leitores. Aos poucos, ao longo de décadas, eles foram abandonando essa produção insana que no fundo apenas justificava o avanço do capitalismo rumo à constelação gelada de Hércules, nos confins do cosmos sem Deus. Foi esse troço metido a besta, principalmente no Brasil, onde as estatísticas serviam para mentir sobre tudo, e carreiras gloriosas se fizeram esmigalhando a paciência dos nossos olhos, que jogou a jornalada toda numa sinuca de bico que, com internet, promete não ter solução à vista. A rede é pura vingança.

A não ser que façamos como Nelson Rodrigues, que não enxergava direito o jogo e confiava na Força. Ninguém esquece seus textos memoráveis sobre policia, esporte, comportamento. Mas repita uma só frase que os massacrantes editores de trolhas ilegíveis tenham produzido para o bem da humanidade. O jornalismo perdeu a graça porque os medíocres, mortos de inveja do brilho que exalava do talento, tomaram o poder, convenceram os patrões e se dedicaram a transformar a língua falada e escrita no Brasil num mural de insanidades pseudocientíficas ou uma avalanche de abobrinhas.

Não defendo a irresponsabilidade dos textos ou da apuração. Mas a manutenção de brechas, de geisers, de cachoeiras que brotem de pedras ou selvas densas. Não se trata de aberturinhas espertas, de repetições exaustivas (“é a economia, estúpido!”, haja) ou de fechos tipo “resta saber”. Mas de desamarrar o cão de Baskervilles que existe no coração do jardim proibido, fazê-lo urrar à meia noite, atraí-lo para o meio do nada e lá reportar o que ele apronta ao testemunhar um assassinato. Escrever uma reportagem é como voltar de casaco nas costas depois de um terremoto, em que você sobreviveu porque não era a sua hora. É quando você, herói anônimo, nem dá bola para a equipe de resgate que chega zunindo, mas atrasada.

Você chuta as pedras no caminho e é capaz ainda de tomar um café no bar recém aberto. Nessa hora, os bocós matadores do talento estão dormindo e só o madrugador fica alerta, o que arriscou sair para fora do mundo por algumas horas, e viu o anjo cara a cara, que trafegou em pontes levadiças sobre os Andes. Esse cara é o repórter que traz amassado no bolso o texto que irá navegar na rede ou ser impresso em algum veículo que ainda exista só por teimosia.

Por essa preciosidade a multidão aguarda, esperando que pinte na curva da esquina a van que trará a edição salvadora, que o site reproduza a inspirada intervenção da aventura. Haverá então um lento folhear de rostos, uma brisa ardida que levantará vôo como o primeiro lance de um bando migratório de pássaros. Para longe dos pólos, vamos, em direção à África da nossa claridade.

RETORNO - 1. Imagem de hoje: Picasso sabia onde procurar. 2. Sabe o golaço do Cleiton Xavier, do Palmeiras, nos últimos minutos, contra o Colo Colo em Santiago? Escrevi algo que, por intermédio de André Falavigna, foi publicado no blog Cruz de Savóia.

29 de abril de 2009

ILUMINAÇÕES DE “O LEITOR”


Nei Duclós

A massa crítica dos espectadores – vê-se pelos comentários nos blogs dos especialistas e pela proliferação de textos e autores sobre os filmes – cobre de desconfiança lançamentos premiados da indústria. É uma sinuca de bico: o Oscar é justo ou apenas faz parte do lobby? Os truques do cineasta funcionam e devem ser celebrados ou tudo não passa de armação de ilusionistas milionários? A carga brutal de obras que são despejadas no mercado funciona como uma armadilha da percepção. Gostar de um filme famoso significa render-se aos planejamentos dos executivos do ramo? Ou seria mais prudente invocar o cult para desmoralizar o megasucesso?

Como não sou crítico e sim um cronista de cinema – que às vezes consegue interferir com alguns aspectos do ensaio, ou seja, contribuindo com idéias originais sobre o tema – e publico numa mídia pessoal, este Diário da Fonte, já no oitavo ano de existência, não sofro as pressões de prazos nem de leituras. Fico assim mais à vontade para escrever sobre tudo sem me envolver nesse jogo. Pelo menos, assim imagino.

Quem comenta em espaços jornalísticos da Sétima Arte é também cinéfilo e possui, como muitas vezes acontece, alguns cacoetes dos críticos. Quais são eles? Tratar com um certo ar blasé todo filme muito bem embalado, bater em alguns consensos (como a performance de uma atriz ou uma produção caprichada) e despejar maldades usando comparações com outros que, são, em tese, muito mais importantes e melhor realizados.

O Leitor, terceiro longa de Stephen Daldry , que nos deu o magnífico As horas (que gerou o insight do título do meu futuro livro “Todo filme é sobre cinema”) encara esse cerco. Kate Winslet, vencedora do Oscar deste ano como melhor atriz, é elogiada, mas não a maquiagem que a envelheceu 40 anos e que considero perfeita. O tema do Holocausto e a lavagem de roupa suja depois da II Guerra é considerado “pano de fundo”. Implico com esse conceito, pois não há pano em cinema, muito menos de fundo. O que está aparentemente “no fundo” de uma trama é a sua essência, é sobre isso que trata a obra.

História, neste trabalho iluminado como se fosse um quadro da Renascença, é compromisso coletivo e culpa. O perdão, que é a proposta do filme, é um outsider do evento histórico, foi marginalizado pelos tribunais, os sobreviventes e os realmente culpados. A tragédia agora, depois da carnificina, é que não há remorso, mas sim o milésimo estágio da vingança. Quando uma sociedade procura se vingar não só dos estadistas que inventaram o horror, mas dos seus mais humildes subalternos, é preciso continuar procurando o bode expiatório, a pessoa indicada pelas evidências da lei, que vai carregar o peso do mundo. Essa é a chance de o resto (que compartilha da responsabilidade) poder se safar, ou pelo menos sair com menos arranhões.

A condenação da protagonista livra os outros da mancha. Mas, diante da lei, ela seria inocente, pois não assume um segredo e isso é sua perdição. Acaba arrostando todo o pecado, primeiro porque foi sincera e disse a verdade (não cometeu o crime sozinha) e segundo porque não contou seu segredo, que poderia salvá-la (ela não liderou o massacre). O ex-amante, que a conheceu oito anos antes, interpretado na juventude por David Kross e na maturidade por Ralph Fiennes, não interfere no julgamento, quando seu testemunho poderia salvá-la, pelo menos da acusação mais grave (a de responsabilizar-se pela mortandade numa aldeia).

A culpa assim migra da personagem para a coletividade e para quem a amava sem saber. Isso dá grande complexidade a um tema super-explorado e ilumina as decisões pessoais com a gravidade real dos eventos e não com seus escapes, suas argumentações falsas, suas fantasias. A vida não brinca com ninguém, muito menos com quem se considera imune a qualquer crime, já que pertenceria à porção virtuosa de humanidade. Não existem virtudes, mas leis. Não existe fuga, mas comprometimento, voluntário ou não.

E não há espaço para o amor, mas para a Justiça. Tanto a relação amorosa quanto o julgamento no tribunal fazem parte da escassez humana que acaba se impondo décadas afora. São engolidos pela secura do coração e a incapacidade de se olhar para a frente e reinventar o futuro. O amor antes do julgamento seria a chance perdida de uma sociedade que já tinha pago seus pecados.

Cinema é a arte suprema sobre seu próprio objeto. Que não são as pessoas, os sentimentos, as leis, as guerras ou as memórias. E sim, o cinema mesmo, iluminado pela competência técnica e a grandeza da cultura. “O Leitor” se presta a revelações importantes sobre como os envolvemos com pessoas e acabamos nos livrando delas. Para isso, usa a linguagem que lhe é própria, e que Godard, no tempo do celulóide, chamava de “a verdade a 24 quadros por segundo”.

RETORNO - Imagem desta edição: Kate Winslet e David Kross na descoberta do amor livre das amarras da História e da Justiça.

JORNALISMO


Nei Duclós (*)

Lembro o espanto que causei entre familiares e amigos quando disse que tinha optado pelo curso de Jornalismo. Na época, era só isso mesmo, nem tinha atingido o status de faculdade, muito menos ficava sob o guarda-chuva conceitual da comunicação, o que só ocorreu depois. E nem foi tanto tempo assim: só uns 40 anos atrás. Comparado com a milenar medicina, ou mesmo com a publicidade da era industrial, batucar nas pretinhas, como se dizia no tempo da máquina de escrever, era uma novidade espantosa, mesmo com a tradição da imprensa do Brasil, que vinha desde o século 19. O que não estava em voga era chegar à idade universitária e abrir mão de algo mais proveitoso, como advocacia.

Podemos então dizer que essa foi a última profissão, entre as tradicionais, a se consolidar. Hoje, ela é a primeira que ameaça ir para o espaço. A tecnologia da aldeia global, ideia que o scholar americano Marshall McLuhan disseminou como profecia bem sucedida, transforma cada cidadão em mídia. Onde fica o jornalismo, aquela atividade que corre atrás da notícia e a transforma em linguagem? Qual o espaço a ser ocupado pelo profissional que se dedica a reportar, escrever e difundir a confluência de inúmeros fatos? Qual o futuro da educação superior especializada que define quem pode ou não se dedicar ao ofício (pelo menos enquanto não se legisla de maneira definitiva sobre a obrigatoriedade do diploma)?.

Há ranger de dentes no ar, como se tivéssemos chegado ao fim do mundo. As revoluções, já está provado, jamais soterram nada. Antes, inauguram novas modalidades de convívio. Foi assim quando a fotografia ameaçou a pintura e o cinema assustou o teatro – depois ocorreu a mesma coisa com ele quando veio a televisão. A Internet não mata o jornalismo, nem sequer o jornalismo impresso. Minha neta rabisca no computador e folheia o livro de poesia infantil com o mesmo gosto.

O que muda radicalmente é a ilusão de que o jornalismo se presta a superficialidades ou deva se submeter a pressões. O entretenimento ou a distorção dos fatos fazem parte de outros departamentos, como o show-business e a política. O que vale é insistir na essência da profissão, que é a liberdade de estilo e a ética no relacionamento com as fontes e os leitores

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada no dia 28 de abril de 2009 no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem desta edição: foto de Ida Duclós de um exemplar do meu livro de contos e crônicas O Refúgio do Príncipe - Histórias Sopradas Pelo Vento, que hoje faz parte do projeto Bookcrossing, o livro itinerante. A viagem do exemplar (que passa de mão em mão) pode ser monitorada. 3. A performance de vendas de "O Refúgio..." vai de vento em popa. Várias encomendas pela internet e bela receptividade quando é oferecido ao vivo pelo próprio autor. As pessoas ficam sensibilizadas com o fato de a paisagem ao redor estar em forma de literatura, impreessa num livro.

28 de abril de 2009

CHE, PARTE II: A LUTA DEPOIS DA MORTE


Nei Duclós

“Para vencer nessa selva, é preciso lutar como se já estivesse morto”, diz Ernesto Guevara para o companheiro que sonha em deixar a guerrilha. Ou seja, é preciso entregar-se não porque exista o sentimento de perdição e derrota, mas porque a esperança de manter a vida que se pretende soterrar atrapalha o foco da ação revolucionária. Se você quer mudar o mundo, precisa mudar sua vida, morrer para o que está acostumado e se reinventar. Sonhar com o impossível: viver no futuro com uma outra persona, construída ao longo da batalha.

Livre das amarras, o soldado da ideologia se transforma no demiurgo de sua própria saga, no mágico capaz de reinventar o mundo. Foi assim com o médico argentino Ernesto Guevara, que na luta virou o herói cubano Che. Mas ele não tinha fôlego para o empreendimento que tomou conta da sua vida, o de libertar a América Latina da servidão. A asma, que é o esforço de respirar, intensifica a percepção e escancara as portas do sonho: para contrabalançar o delírio de interromper 500 anos de história colonial, Guevara lançou mão da lógica do materialismo dialético, a filosofia pragmática em luta contra as armadilhas da ilusão.

“Vim para cá e daqui só saio morto”, dizia, advertindo pelo exemplo os que queriam se engajar sem pensar nas conseqüências. “Só existem duas opções: a vitória ou a morte”. Não era, portanto, uma aventura. Obedecia à evidência de que a luta armada estaria a serviço da população oprimida. Como acontecera em Cuba em 1958/59, com uma diferença: na Bolívia, onde se deu o desfecho trágico do herói andante, não houve a mesma costura política, nem as armas expressavam o momento maduro da ação revolucionária.

Para Che, não importava. Quando o representante do partido comunista lhe avisou que não existiam condições objetivas para a luta armada, Guevara replicou com estatísticas: a maioria dos mineiros não chegava à idade dos 30 anos, por exemplo. A miséria e a brutalidade eram as condições objetivas que lhe bastavam. Outro argumento ele brandiu para Fidel Castro: “Se esperarmos, só iremos agir daqui a 50 anos”. Instrumentado por essa lógica, o guerreiro partiu para o isolamento, sendo caçado até ser preso e depois fuzilado com três tiros, antes de ser exibido ao mundo como um troféu.

A selva não tem nada a dizer: a câmara de Sordenberg percorre o vazio da paisagem até encontrar algum sentido nela, a luta. As batalhas deste filme admirável são opostas à facilidade sanguinolenta do espetáculo americano da morte virtual, nos blockbusters mortíferos. A paisagem só faz sentido quando há presença humana: os guerrilheiros em contato com os desconfiados camponeses, as tropas do exército fechando o cerco, os tiros arrancando pedaços de quem tenta se esconder em árvores ou pedras. As tropas bolivianas treinadas pelos americanos, que trouxeram sua experiência do Vietnã, são essa varredura de extrema intervenção no território disputado. Enquanto os guerrilheiros se confundem com a natureza, os soldados do governo se destacam com suas ferramentas e em massa assombram o horizonte no anoitecer.

Dividir a saga de Che em duas partes, uma sobre a revolução cubana vitoriosa e a outra sobre a guerrilha derrotada na Bolívia, significa que o diretor Steven Sordenberg conseguiu fazer um épico clássico sobre um personagem histórico, mas a indústria não comporta mais longas como tínhamos antigamente, quando entre as duas partes havia um intervalo de dez minutos. Preferiram lançar dois filmes, mas é um só. Um filme sobre cinema de guerra. Com tiros esporádicos, diálogos incisivos, ação o tempo todo sem apelações inúteis, Che, de Sordenberg, é uma narrativa didática sobre uma idéia, a revolução, e de como seus soldados enfrentaram o front sabendo que estavam mortos para a vida que já estava decidida antes de nascerem.

Che, interpretado por Benicio Del Toro, é obra antológica e permanecerá, não por mitificar o heroísmo, mas porque é um trabalho que honra a Sétima Arte. Longa vida ao talento. E à coragem de entregar-se à missão de não permitir sua derrota.

26 de abril de 2009

VINTE LEIS QUE PEGARAM


1. Todo réu primário tem direito de matar uma pessoa.

2. Todo condenado deve dispor de um celular.

3. Todo flagrante no butim é tratado de Excelência.

4. Toda crítica ameaça a democracia.

5. Todo asfalto equivale a um posto de pedágio.

6. Todo voto é de cabresto.

7. Todos os serviços básicos serão privatizados.

8. Todo político pode gastar a verba que bem entender.

9. Todo escândalo vira pizza.

10. Todo dinheiro roubado jamais será devolvido.

11. Tudo será embolsado, inclusive o que sobrar.

12. Todos trabalham meio ano de graça para o governo.

13. Todo bom senso será desmoralizado.

14. Toda mudança está a serviço do retrocesso.

15. Todo transporte é lixo transformado em ouro.

16. Toda lei pode cair.

17. Toda falcatrua é fundada na ética.

18. Toda impunidade é possível.

19. Todo bandido pode ser solto.

20. Todo talento é pecado.

RETORNO - Imagem desta edição: máscara do filme "De olhos bem fechados", de Stanley Kubrick.

RUAS DO ENCONTRO


Nei Duclós (*)

Eternidade é o tempo que você espera para abrir o farol, me disse certa vez um amigo. O conceito se estende a todas as ações do dia. No sacolão, quem está atrás deposita suas compras na balança antes que eu consiga contar o troco. Na hora de recolher as frutas, confusão: o que estava na balança quase é aderido ao meu acervo. O sujeito é bruto e reclama, pegando de volta o que lhe pareceu ter sido surrupiado. Quando tento argumentar, ele nem me olha. Sou suspeito. A certeza de que é um modelo de honestidade (sua pressa e atropelo são justos) e eu, um biltre (o distraído que quase recolhe o que não lhe pertencia) se expressa por gestos e caras. Saio pra evitar conflito.

Civilização é a tolerância em relação às desvantagens. Se a pessoa estiver manobrando para estacionar, é lógico que ela precisa de compreensão ao redor. Não dispõe de espaço para ir em frente, está dando ré ou cruzando em diagonal, tentando acertar entre o balizamento, quase invisível, do chão. Se alguém atrás decide ser impaciente, surge o impasse. Esperar que o contemporâneo ocupe legalmente sua vaga, mesmo que isso vá prejudicar a pressa de quem vem depois ou até mesmo sua possibilidade de achar um lugar disponível, é sinal de que temos chances de sobreviver.

Os veículos são caricaturas de quem está dirigindo. O velho, a perua, o garotão, o bronco na posse do volante são personagens criados pela intolerância, que xinga de passagem. O trânsito hoje é o único lugar permanente de convívio, afora os shows de rock e as platéias das inúmeras tragédias. Assistir um incêndio, levantar os braços para alguém que assassina notas musicais e fazer ultrapassagens são alguns dos poucos gestos coletivos compartilhados. O resto é a solidão televisiva ou internética. Como não há convívio real, substitui-se a civilização dos encontros pela barbaridade dos comentários desaforados. O xingamento é o cumprimento pelo avesso na urbanidade sem lei.

Existe, claro, os grupos nas escolas, trilhas, férias, viagens, cursos, elevadores, shoppings, corredores. Nos sítios de relacionamento, a imagem pública de pessoas identificadas por idade ou hobbies, posa para o celular sempre à mão. Os sorrisos proliferam, mas sinto que falta alguma coisa nessa exposição coletiva. A amizade explícita e celebrada em excesso, os abraços e beijos de todos os gêneros, os olhinhos fechados de felicidade, tudo isso faz parte de um acervo que contradiz a quantidade enorme de eventos trágicos em ambientes familiares ou corporativos.

O matemático brasileiro que fazia pós-graduação nos Estados Unidos, e foi colhido logo por quem, por um vietnamita armado que tinha dificuldades em aprender e trabalhar, é o exemplo típico de confrontos cada vez mais freqüentes. Parece haver um esforço para a criação de soluções individuais, fruto da vontade que todos têm de dar certo na vida, de fazer acontecer, de ser feliz. Mas não parece haver um esforço para resolver problemas coletivamente. As nações não oferecem mais a segurança para uma vida plena. Os sistemas políticos acabaram tomando caminhos perversos, desamparando a cidadania. O indivíduo se recolhe nos estudos, por exemplo, e é atingido pela tara, a frustração e a vingança de um outro que não consegue uma saída.

Nesse vácuo, surge o aconselhamento dito correto. Como as escolas são arena de massacres, as empresas são alvos de ex-funcionários irados, ou os parques de diversões armadilhas ditadas pela ganância e a falta de escrúpulos, então sempre resta uma igreja na esquina, uma academia de ginástica, um curso. Há vagas para mestres de todos os tipos, já que as platéias se reúnem espontaneamente, tentando escapar do pesadelo.

A esperança é que o exercício libertário da individualidade responsável se una a experiências semelhantes e encontrem canais diferentes de conciliação. Existe tecnologia, riquezas, conhecimento e vocações suficientes para que a amizade prolifere sem máscaras. Falta talvez vivência, vontade, fé no próximo. Mas isso a humanidade dá um jeito. Basta esperar que seu semelhante estacione. Ou deixar que o outro tenha prioridade na rua estreita. Ou então, dar o braço para determinada senhora cruzar a rua e atingir o outro lado com um sorriso, daqueles que duram uma eternidade.

RETORNO - 1.(*) Crônica publicada neste domingo, dia 26 de abril de 2009, na revista Donna DC, do Diário Catarinense. 2. A ilustração é a original, publicada na revista, de autoria de Felipe Perutti.

CARTAS SOBRE ESTA CRÔNICA

"Caro Nei Duclós, quero parabenizá-lo pelo artigo do Donna desse domingo - 26/04. Fiquei impressionado com a forma como você conseguiu condensar num espaço curto um sentimento dos dias atuais que é tão difícil de descrever, mas que transparece realmente uma certa descrença nas pessoas.

Sinto a mesma aversão à superficialidade dessas modernidades, apesar de estar na idade propícia para estar entre elas, e a falsa felicidade também me lembra os problemas escondidos nos sorrisos das pessoas, se é que entendi direito toda a mensagem intrínseca.

A frase "a esperança é que o exercício libertário da individualidade responsável se una a experiências semelhantes"... é simplesmente fantástica. Bom, parabéns pela inspiração novamente, quem sabe nos encontramos qualquer dia, você no seu carro e eu no meu, e deixarei você balizar com calma, ainda que dure uma eternidade!

Rafael de Mendonça Steiner"


Nei, Tudo bem contigo? Continuo acompanhando teus trabalhos pelo DC. Neste "Ruas do Encontro" com felicidade descrevestes o carater descartavel da vida nas cidades. A política que nos rege se encaminhou para o objetivo de não mais formar pessoas que saibam pensar. Todo o esforço de nossos políticos é no sentido de formar consumidores (até as imagens de campanha servem como consumo para os eleitores). Vê que os cinemas, teatros, museus e os cursos que envolvem arte estão diminuindo sua oferta cada vez mais. Por outro lado, crescem os investimentos em Shoppings Centers,redes de supermercados, telefonia, tv e lazer/ a eles todas as facilidades do poder público.Dá para concluir o porquê de nunca ter sido feita uma campanha para diminuir o índice de natalidade irresponsável dos povos de 3ºMundo. A quem interessa limitar o nascimento dos consumidores?

Ainda bem que existe um pequeno canal de comunicação entre as pessoas acostumadas a pensar, por conta dos livros e jornais (até quando?, pergunto). Termino com um convite a ti e aos teus familiares e amigos, para a palestra do professor Ozampin Olafajé, sobre o tema Kabbalah, na Livraria Catarinense do Shopping Beira Mar, no dia 20 de maio(4ª feira) as 19:30h.Se não o conheces será uma oportunidade de ter contato pessoal com ele, um senhor muito idoso, totalmente dedicado a mais antiga das tradições, de cunho não religioso. Sabe Nei, nas aulas com o professor chegamos a um consenso de que religião sempre é porto, e a Kabbalah é o oceano sem fim. A entrada é gratuita. Um abraço fraterno da

Maria Teresa

25 de abril de 2009

CHE, PARTE I: REVOLUÇÃO É LINGUAGEM


Nei Duclós

Che, o Argentino, primeira parte do filme de quatro horas do cineasta Steven Soderbergh, com Benicio Del Toro no papel principal, pode ser comparada a Queimada, de Gillo Pontecorvo: é uma obra didática sobre a revolução. Queimada é marxismo clássico – a tomada do poder pela burguesia, que vence a aristocracia intensificando as lutas populares e delas tirando o melhor proveito. Che é guerrilha: o núcleo rebelde define uma ação que aglutina as oposições e convence o povo a derrubar o regime, no caso a ditadura de Fulgencio Batista. Ambas são linguagem: as armas obedecem à ordenação e difusão das palavras, o texto que se impõe por todos os meios.

Antes de ser ação, a linguagem revolucionária é um exercício de auto-convencimento por meio da argumentação lógica, ou melhor, por meio da composição de um discurso dialético, que faz interagir condições objetivas para a guerra com decisões acertadas pela clareza das posições dos combatentes. Fidel Castro é um emissor principal dessa sedução dos argumentos. Ele escuta a própria voz para que obtenha sucesso, ou seja, chegue aos receptores. Fidel é política: “Se tomarmos um caminhão, o inimigo dirá que foi um acidente de estrada; se tomarmos um quartel, provocaremos um impacto psicológico na nação”.

Che é estratégia: quando necessário, cuida da retaguarda; investe sem ajuda dos reforços, porque acha menos perigoso do que ficar parado; reúne as forças de oposição por meio da centralização do comando no front. E se coloca na vanguarda, onde corre bala, conseguindo com isso duras advertências do seu líder. Baseado no livro de Che, “ Passagens da guerra revolucionária”, o filme trabalha o envolvimento do médico argentino que vira guerrilheiro cubano. Divide-se em guerra rural e guerra urbana. A primeira é o início, a base: a falta de fôlego, a dispersão, a fraqueza e a organização. A segunda é a cúpula: os tiros dados casa a casa, a marreta que cruza cinco paredes até chegar à igreja onde se esconde o inimigo; o tiro certeiro no companheiro que sobe no terraço para espiar; o morteiro estraçalhando um tanque.

Nos dois ambientes, sempre, a catequese. Na selva, a fala à tropa, o combate às defecções, às traições, aos abusos. No meio da natureza e das plantações, a semeadura da ética, para diferenciar revolução de golpe e luta de carnificina. Nas cidades, o aceno aos soldados do governo para que deponham as armas, as negociações duras com os oficiais do regime, o pronunciamento por meio da rádio, as aclamações populares. Do mato ao tijolo, a linguagem costura os atos e em cada episódio há uma lição.

Se você monta a guarda, deve cuidar para que funcione; se você assume a tropa, se prepare pois ficará dias sem comer e dormirá embaixo da chuva; se desertar, deponha as armas e não permaneça mais do que 30 minutos no acampamento; se a igreja é o lugar mais alto, deve ser tomada imediatamente; se não houver rendição em uma hora e onze minutos, o oficial renitente será responsabilizado pela matança; se não souber ler e escrever, ficará à mercê dos ditadores; se lutar sem amor, não verá sentido na luta.

Fiquei estarrecido com a ridícula jornalista de Miami que ficou torrando o Benício Del Toro sobre Che, dizendo que ele encarnava um assassino odiado por seus atos. Del Toro travou, não respondeu nada. São falas incomensuráveis. A comunicadora de araque que confunde cinema com posição ideológica; e o tremendo ator que ao desistir de imitar Che encontrou o caminho para interpretá-lo. Só a arte salva. O filme que permanece fiel a um texto, acaba convencendo. E a mídia obcecada com idéias fixas, perde a credibilidade.

Che Loco. Baita filme.

24 de abril de 2009

PODER, CORAGEM E PERDÃO EM CLINT EASTWOOD


Nei Duclós

Clint Eastwood vem sempre em dose dupla, às vezes batendo uma no cravo, o cinema de autor - como o já comentado aqui Gran Torino - e outra na ferradura, a megaprodução de estúdio, como Changeling (A Troca), de 2008 e lançado no Brasil no início deste ano. O bem sucedido Ron Howard quase filmou este drama sobre o desaparecimento do filho de nove anos de uma mãe solteira, que trabalha na companhia telefônica, interpretada por Angelina Jolie. Nas duas faces da mesma moeda, Clint não abre mão de seus temas recorrentes: poder, coragem e perdão.

O poder é o das armas, das instituições, da corrupção oficial, representado em A Troca pela polícia de Los Angeles, que dispõe de esquadrão da morte e, para se safar diante da imprensa, substitui a criança perdida por um impostor. O poder normalmente está desvirtuado das suas funções e os filmes de Clint servem para recolocar as coisas no lugar. São obras de denúncia sobre a perversidade de quem manda a cidadania para o matadouro e entrega os inocentes para a máquina de culpa e perseguição instaurada como defensora dos direitos dos inocentes.

A coragem é o do pastor que denuncia os crimes oficiais, interpretado por John Malkovitch, felizmente livre de seus maneirismos, fruto de sua certeza de que é um grande ator (é, mas se estraga alimentando a megalomania). Ver um filme com Malkovitch sem que ele faça aquela boquinha esperta e túmida de muxoxo cheio de nojo-de-nós é um privilégio. Talvez tenha levado um tranco de Clint.

A coragem é também o da mãe desesperada, do detetive que vai fundo na investigação, das pessoas do entorno dispostas a testemunhar, das prisioneiras que enfrentam a brutalidade do hospício. A coragem existe em rede e migra do indivíduo para a comunidade, do profissional para o fórum. Ela se manifesta no garoto que volta para libertar o companheiro da armadilha onde foram encarcerados, da mulher que enfrenta o psicopata na véspera da execução, da ex-prostituta que peita os enfermeiros para defender alguém de uma injustiça.

O perdão é o desafio de Clint. Em Gran Torino, o ex-herói da Coréia só confessa os pecados considerados graves pelo puritanismo americano, como um lance de sonegação de imposto ou um gesto de traição à esposa. Os protagonistas dos filmes de Clint jamais pedem perdão pelos crimes cometidos em nome da nação ou da justiça. Sofre com o peso da culpa, mas não acredita no perdão. Em A troca há inclusive um deboche contra o perdão religioso, quando o réu diz que está se comportando bem depois de ser apanhado e de ter matado vinte meninos.

Um crime hediondo jamais será perdoado, esteja ele do lado que estiver, da nação ou do bandido. O herói americano não conhece o perdão católico que lava a culpa e deixa livre os criminosos para repetir seus erros. Não perdoar, em Clint, é manter acesa a vigilância contra a covardia, é não esquecer. Se a memória carrega a vida com seus fantasmas, também pode gerar esperança. É a lembrança física do garoto que sumiu que mantém alerta a mãe que jamais desistiu de procurá-lo. “Ele pode estar em algum lugar, escondido, com medo de se apresentar”, diz a personagem Christine Collins, construída por uma, à primeira vista, irreconhecível Angelina Jolie (que está bem a maior parte do tempo, só escorrega quando exibe sorrisinhos de vitória ou não sabe direito o que fazer com tantos lábios carnudos em meio a tanto sofrimento).

Para que haja esperança, é preciso que o poder esteja sob o tacão da Justiça. Só assim a coragem tem condições de se manifestar e obter algum resultado. Desde que não esqueça, ou seja, não perdoe e permaneça fiel à dor provocada pela perda. Clint não brinca em serviço, não está no mundo a passeio. Faz cinema, e faz bastante. Para alívio e alegria dos espectadores.

O filme, "uma história real", segundo Clint, foi escrito por J. Michael Straczynski (jornalista que redescobriu o caso na véspera de uma grande queima de arquivos), e financiado pela Imagine Entertainment e a Malpaso Productions através da Universal Studios. No elenco, destacam-se Jeffrey Donovan (o abominável policial de Los Angeles), Gattlin Griffith (o garoto sumido), Michael Kelly ( o detetive Lester Ybarra) e Colm Feore (o Chefe James E. Davis).

RETORNO - Imagem de hoje: o abominável Jeffrey Donovan apresenta o garoto impostor para a desesperada Angelina Jolie.


BATE O BUMBO: CITAÇÃO NA UFSC

Meu prefácio para "Cartas a um jovem poeta", de Rilke, publicado pela Editora Globo em 2003, foi citado no trabalho do professor Jair Zandoná "De Orpheu ao Hades: itinerário bio/gráfico em Mario de Sá-Carneiro", da Universidade Federal de Santa Catarina. É uma dissertação apresentada como requisito à obtenção de grau de mestre em literatura para o Curso de Pós Graduação em Literatura do Centro de Comunicação e Expressão da UFSC. A orientadora é a Professora Doutora Simone Pereira Schimidt.