15 de novembro de 2008

A REPÚBLICA DAS LETRAS


As poucas horas que dediquei à Feira do Livro de Porto Alegre, a Cidade da Cultura, no dia 11/11/2008, valeram por mil. Primeiro, pelo lançamento de “General Osorio e seu tempo” (Editora Expressão, 848 pgs., R$ 89,00), de José Antônio Severo, feliz e elegante distribuindo abraços e autógrafos e fazendo um pequeno e significativo discurso sobre o projeto da Copesul, abraçado depois pela Braskem, empresa responsável pelo patrocínio do livro e da minha viagem, onde fui cumulado de mordomias.

Entendi a importância de Luiz Fernando Cirne Lima, a quem é dedicado o livro, no apoio de projetos que, como disse Severo na ocasião, ajudaram a formatar uma nova imagem do Rio Grande do Sul, pois dessa sintonia foram viabilizadas obras como “Netto perde sua alma”, livro de Tabajara Ruas que virou filme dele junto com Beto Souza; “Tragam a cabeça de Gumercindo Saraiva”, escrito por Taba e Elmar Bones; o próprio romance sobre Osorio, entre outros.

O evento maravilhoso contou com a presença de inúmeros jornalistas importantes, como Regina Etcheverria, atualmente mergulhada na biografia do José Sarney, Eneida Serrano, a fotógrafa antológica com o sorriso aberto e o olhar atento, Elmar Bones, da JÁ Editores, que me convidou para um projeto que por enquanto é segredo, Jorge Polydoro, da revista Aplauso e Amanhã, entre outras publicações, que eu tive a honra e o prazer de conhecer pessoalmente, o poeta Luiz de Miranda, que há anos eu não via, além de generais e coronéis, todos animados com o grande romance biográfico sobre o patrono da Cavalaria.

Depois, a conversa imperdível na roda de poetas, como Marco Celso Viola, Ricardo Silvestrin, Mario Pirata, Dylan Camargo, Jaime Medeiros Jr., onde falamos de tudo, cinema, livros e tudo o mais. Com Silvestrin, compartilhei uma mesa no Bistrô do Margs, ponto de encontro do evento, onde conversamos rapidamente sobre mercado editorial, gerações literárias, entre outros assuntos candentes. Marco Celso Viola me levou para conhecer o estande onde Guaracy Fraga apresentava um evento cultural maravilhoso: a confecção de painéis produzidos lá mesmo, por artistas de primeira linha, como Edgard Vasquez, Santiago, Hubert, entre muitos outros. Patrocinado pela Caixa, o projeto corre mundo depois, mostrando belíssimos trabalhos dos artistas completos, que desenham e pintam há décadas.

Houve o encontro com Vera Ione e Ricardo Peró Job, que lançou no dia 13, quinta-feira, seu livro de contos “A Sereia do Luminoso”, já resenhado aqui num texto que virou apresentação da primeira edição, e que agora sai pela prestigiada editora Movimento. Vera é quem tirou a foto que ilustra esta edição do Diário da Fonte. Falei que tanto Celso quanto Vera e Ricardo vão aprontar muito ainda, já que são grandes agitadores culturais.

Desse encontro, que tive o prazer de proporcionar, sairão seguramente novas idéias e realizações, pois essa turma não brinca em serviço. Celso é um dos responsáveis pelo Portopoesia, que vai para a terceira edição prometendo arrasar. Vera e Ricardo estão presentes em várias iniciativas na nossa terra, Uruguaiana, onde moram, como duas antologias poéticas, concursos literários de nível nacional e internacional, oficinas de literatura, exposição de versos e obras visuais e por aí vai.

A viagem não seria a mesma não fosse a recepção magnífica que Laís e Clovis Heberle me proporcionaram, com suas conversas cheias de planos e de resgate de momentos inesquecíveis que eles relembram a toda hora, me levando de carro do aeroporto para o hotel e vice-versa, chegando junto nos pepinos burocráticos e evitando surpresas que pudessem gerar ruído na minha estadia. Laís e Clovis fazem parte da linhagem clássica dos anfitriões do Brasil soberano, um hábito que vem de longe e que ajudou a fundar a solidariedade e a amizade neste país vazio de tudo. O convívio cheio de afetividade enche de alegria quem tem o privilégio de ser alvo de suas atenções. Clovis, jornalista de primeiro time, escritor que nos brinda com suas memórias e análises em espaços exclusivos na rede, esteve conosco na praça, repartindo suas experiências e insights.

Ou seja, fui, vi, venci. Que venha mais. Preciso correr mundo, correr autores, correr livros.

RETORNO - 2. Imagem de hoje: foto tirada por Vera Ione, onde aparecem Ricardo Peró Job, Nei Duclós e Marco Celso Viola. 3. Hoje fiz um título com a palavra República para comemorar o 15 de novembro. 4. Regina Agrella informa: documentário no you tube, de 46 minutos, completo, sobre mecânica quântica. 3. Paulo de Tarso Riccordi, jornalista, informa no Orkut em mensagem para mim: "Não lembro se te contei à época (aliás, acho que já não estavas em Porto Alegre): Quando fiz o caderno dos 70 anos do Mário Quintana, perguntei-lhe o que havia de importante na poesia brasileira então. Ele parou, me pareceu que sinceramente buscou na cabeça, e disparou: Nada. Só esse menino do Nei Duclós. E nós tínhamos 26 anos."

14 de novembro de 2008

COFRE



Nei Duclós

Amor não se manifesta
É cofre em remota estrela

Amor não diz a que veio
É chá de imprestável erva

Amor se casa em segredo
E parte sem que amanheça

Tem armadilhas de caça
Em mil quartos de despejo

Não celebra nem reitera
É quebra de juramento

Manda cartas da cadeia
Sai pela porta da frente

Amor, quem pode com ele
De carona no poema?

Amor, palavra que esconde
Os arranhões da refrega

Amor, que jamais responde
Quando, perdido, se entrega

RETORNO - Imagem de hoje: Parasol, de Goya.

MITCH MITCHELL: O SOM DO SONHADOR


Nei Duclós

O sonho não brotou, como querem os textos da memória fake da mídia, repetidos até a extrema exaustão, para manter no ar a intenção de assassiná-lo. O sonho foi sonhado (com perdão da necessária tautologia) por grandes artistas como Mitch Mitchell, baterista da Jimi Hendrix Experience (banda conhecida por todas as pessoas que permaneceram alertas numa época de sombras). Ele foi encontrado morto nesta quinta-feira, dia 13 de novembro de 2008, aos 62 anos, vítima de causas naturais, ou seja, desconhecidas. Tinha acabado de fazer uma turnê por 18 cidades americanas.

Estava vivo, mas disso nada sabíamos. Colocam na nossa frente uma procissão de nulidades que exigem ser celebradas pelo fato de abrirem as pernas enquanto rolam no palco no meio da gritaria pura e simples. Mitch Mitchell era um solista e seu instrumento não se limitava ao ritmo. Anti-baticum, era tão sofisticado quando um órgão, um violino, uma cítara.

Vemos e ouvimos o gênio de Hendrix acompanhando com a guitarra os solos do seu baterista. Nesses momentos, era Mitchell o protagonista de sua história musical. Quem foi devassado pelo seu som quando apareceu, de súbito, em Woodstock, viu que ele se diferenciava dos extremos. Numa ponta, a efusão do rock, tanto o tradicional das bandas quentes da época quanto da emergente latina, como acontecia nas performances dos percussionistas que acompanhavam Santana. Na outra, o desmaio infinito dos bateristas de jazz, solistas de primeira hora, mas diferentes da invenção de Mitch, que era do rock, portanto, da guerra.

O jazz é música de desarmados, de espirais que mergulham em continentes submersos. O rock é convocação e garra. Um concerto de hard rock é apenas a caricatura extrema de uma natureza que não foge a luta. Mas há um disparate: Mitch Mitchel, soldado nas linhagens incendiárias, era a reflexão performática, como se um garoto que estreasse no front fosse encarregado dos toques de clarim, apesar de dispor apenas de um tambor.

Avançar, recuar, montar: como emitir essas palavras de ordem contando apenas com a escassez dos couros estendidos em paisagens noturnas? Sua solução foi fazer como no jazz, mas com outra desenvoltura, com isso que chamam agora de pegada, e que era uma espécie de carga de brigada ligeira, que instrumentava as platéias abraçadas à sua determinação.

Um de seus toques era o hiato, a pausa, não o breque, que é apenas caudatário do ritmo. A pausa é como desistir completamente do que está sendo tocado, é o turning point, o ponto de mutação, em que uma frase respira para acordar rodeada de espíritos habitados no minuto seguinte, quando todos estão fissurados diante do artista e sua capacidade de mudar o mundo conhecido.

Escrevo de memória, pois pouco ouvi Mitch Mitchell. Mas basta alguns segundos para recuperar o Tempo estocado nos armazéns do limbo. Ele tocou para seu tempo, mas ficará mesmo atuante no futuro. Quando toda essa tralha que a ditadura financeira inventou para tontear as multidões escravas beijar a lona, haverá novamente a chance de escutar Mitch Mitchell, exatamente naquele instante em que ele some do ouvido para sempre.

Sabemos que retornará em frações microscópicas de anos-luz. É o que vai acontecer quando retomar seu som. O sonhador então reinventará a animação que fez nossa cabeça e que está guardada por enquanto, como um cão ainda vigoroso mantendo a vigília na noite gelada e interminável.

RETORNO - 1. Imagem de hoje: Mitch Mitchell, the dreamer drummer. 2. É tão importante o que Miguel Lobato Duclós escreveu nos comentários desse post, que vou reproduzir aqui, na seção Retorno: "O Jimi era a estrela mas não tinha estrelismo. Ele mesmo havia sofrido com o estrelismo do Little Richard, que o expulsou de sua banda, no começo de carreira, porque ele era grande demais. Jimi dava vez e espaço pro Mitch exercer sua virtuose na bateria, com seus solos determinados e inovadores, para em seguida retormar o controle de maestro com sua guitarra catártica, redentora da volição e da liberdade. E mantinha-se o sentido de banda, já que quando caiu o Experience, Jimmy manteve Mitch na lendária performance de Woodstock, com a Gipsy of Raibows. Uma mensagem perene que já está no futuro, e prova viva de que o mundo não é, não foi nem deve ser pouco." (Miguel Lobato Duclós).

13 de novembro de 2008

HÁ MEDO NO AR


Nei Duclós (*)

Há medo no ar. A intimidade está sendo devassada. Ninguém se sente seguro. Querem saber tudo de você. Na caixa do supermercado, como alertou uma leitora desta revista, aquele que ocupa um lugar atrás na fila se debruça para saber RG, CIC, telefone e endereço de quem está sendo atendido. Mesmo sem ficar interessado nos dados do outro, essa pressão significa que há vontade de ocupar o espaço alheio.

Nas casas a situação é idêntica. Você levanta o muro e sempre tem alguém que sobe ainda mais alto para poder espionar. É um desaforo que você se feche em copas. É preciso se entregar à bisbilhotice. Foi decretada a transparência total. Podem clonar um perfil. Podem telefonar com ameaças. Podem multiplicar os exemplares dos cartões. Você está distraído, mas todos sabem quais são seus hábitos, suas demandas.

E não invente de deixar a porta do carro com um milímetro de afastamento do lugar certo, pois a humanidade cairá em cima de você gritando, desesperada: “A porta está aberta!”. Essa síndrome realmente me deixa intrigado. Por que mexe tanto com as pessoas? Elas não admitem que você trafegue sem que esteja totalmente trancado no automóvel. Talvez porque esse seja o último refúgio da privacidade. Como não há mais como escapar, só é possível cultivar o anonimato e a intimidade sentados ao volante, bem protegidos por uma película escura grudada no vidro. A porta aberta seria o caos, o sinal de que o reduto mais extremo estaria enfim nos braços do perigo.

O que mais espanta é ver até crianças berrarem para você apontando o estrago. Motoqueiros se jogam contra sua lateral para denunciar a ameaça. Está se sentindo isolado, ninguém dá bola para você? Bata com displicência a porta do automóvel e saia devagarinho. Verá então o pânico histérico diante do evento que significa a última coisa suportável sobre a face da terra. Há indiferença diante do seqüestro interminável que deságua no assassinato. Pode-se bocejar com a crise das bolsas, o sucateamento do crédito, o horror dos programas de auditório, as notícias mentirosas, as alegrias forçadas, as falcatruas. Tudo passa. Mas uma portinha quase entreaberta, assim, minimamente fora do prumo, faz com que o dilúvio, o apocalipse e o universo em desencanto se desencadeie como avalanche sobre você.

Basta você corrigir o defeito para que tudo volte ao normal. As pessoas fingem que não prestam atenção. Talvez até seja bom esse negócio da porta. Pois ela mostra o quanto estão atentos à sua vida. Deixe alguma coisa por fazer para ver como funciona. Esquecer o lenço no chão era o expediente das moças que queriam atrair os futuros maridos. Manter a manchinha na roupa impecável não falha. O detalhe expõe o olho fixo em você.

Escancarar as janelas da casa, quem sabe, poderá provar que não somos tão interessantes assim. Antigamente, ninguém fechava nada. Passarinhos perdidos entravam sôfregos, e se debatiam entre panelas. Vizinhos eram como pessoas da família. Visitantes esporádicos metiam a mão no trinco. Comadres andavam na ponta dos pés porque sabiam que alguém na casa sesteava naquela hora.

É que, talvez, tudo já se soubesse e ninguém sentia necessidade de se esconder. Nem existiam carros suficientes para mexer com a multidão. Era o tempo das carroças. O ploc ploc dos cavalos que carregavam leite ou verduras rebatiam no forro. Vivíamos numa eterna manhã de primavera. Acordávamos para a vida. Alguém jogava pedras na nossa janela. Era a garotada da vizinhança, mostrando uma bola de futebol. Sumíamos então nos terrenos baldios. Ninguém lembrava mais daqueles moleques enfezados, que atrapalhavam a vida da casa.

Morávamos no Mundo Perdido. Era quando fazíamos parte da Criação, próximos demais da divindade, que de vez em quando não resistia e vinha participar da pelada. Mas Ele não tinha domínio suficiente, não driblava direito, o que demandava certa malandragem de estilo. Preferíamos então colocá-Lo no arco, onde fazia defesas sensacionais, voando até as nuvens para segurar o chute que jogávamos nos eucaliptos. Era impossível furar aquele goleiro. Jamais deixava a guarda aberta.


RETORNO - 1. (*) Crônica publicada no domingo, dia 9 de novembro de 2008, na revista Donna DC, do Diário Catarinense. 2. Imagem de hoje: "O jogo", de Cândido Portinari.

12 de novembro de 2008

NADA MUDA


Nei Duclós (*)

Vejo rostos, gestos, expressões, idéias que pertenciam, quando eu era criança, aos mais velhos. Olho mais de perto e noto agora que todas essas manifestações são emitidas, de maneira idêntica, por gente bem mais jovem do que eu. Nada mudou. Foi como se os modelos estivessem esperando as novas gerações, para vesti-las com os hábitos formatados desde sempre. Não importa quem vem depois. Tudo se reproduz como se a dialética fosse uma ficção filosófica e não um flagrante nos mecanismos do mundo.

Para os longevos, fica estranho observar esse senhor provecto a dar opinião grave sobre a crise, já que ele mantém o tom e os argumentos da época em que nem era nascido. O garoto quarentão, vejam só, é um avô que lembra Tolstoi, mas sente saudades dos anos 80, que aconteceram hoje de manhã. A senhora que brincava de boneca na semana passada assume aquele ar de matrona empedernida, a desferir críticas, principalmente contra os homens, esses imprestáveis. O coronelzão de hoje jogava taco com outros moleques quando passei por determinada rua, há um mês. Isso sem falar nos sacerdotes aeróbicos, mães com cara de bebês, trintões cansados de guerra, aposentados de cabelos pretos que juram ser a fauna de uma idade avançada.

As barbas brancas recém postas querem usurpar nosso lugar, os veteranos de verdade, que não esperavam essa bizarra concorrência. Desconfio que os motivos são questões práticas, como pegar fila especial nos bancos. Assumem o visual dos provectos e nele acrescentam o charme do vigor juvenil, o que lhes dá uma aparência cool tão ao gosto de publicidade.

Ou será que os biotipos imutáveis são modelados por espíritos saudosos e cada vez mais apressados? Isso explicaria o guarda gordinho que mal saiu da adolescência, mas já levanta o dedo dando conselhos; a vizinha intrometida que nem sequer tem rugas; o malandro de bigodinho fino que usa celular, mas parece ilustração de reclame dos anos 20; o sujeito de cabelo engomado que, em plena era digital, clama por um microfone de rádio, daqueles que imitavam tijolos.

Seríamos manequins descartáveis assumindo personagens eternos. Um deles, o nosso, jamais se renderia à evidência de que tudo se transforma.

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada dia 11/11/2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem de hoje: Tolstoi. 3. Foi bom demais ter visitado a Feira do Livro de Porto Alegre deste ano e participado do lançamento do livro "General Osorio e seu tempo", de José Antonio Severo. Lá reencontrei pessoas queridas e só lamento ter passado tão rapidamente por esse grande acontecimento na Cidade da Cultura. Dou detalhes nas próximas edições do Diário da Fonte.

11 de novembro de 2008

GUERRA E MEMÓRIA


Nei Duclós (*)

Que lugar ocupa a guerra na história do Brasil? General Osorio e seu tempo, de José Antônio Severo, é uma resposta a essa pergunta e uma pá de cal no equívoco de que o país seria fruto apenas de artimanhas e escapatórias, de espertezas políticas e diplomáticas e não da vontade expressa no campo de batalha. Trata-se do levantamento minucioso do envolvimento da nação brasileira numa luta de vida ou morte, ao longo de um período em que se definiu primeiro como Reino Unido, depois como Império e finalmente como República. Os protagonistas desse embate deixaram marcas profundas na terra e no imaginário da população em armas.

O registro dessa trama complexa está confinado à memória oral, aos raros especialistas e aos curiosos que não se conformam com o cerco de silêncio sobre um tema básico para a formação do país. Nossa história militar, apesar de grandes e importantes trabalhos (muitos deles jogados num canto das estantes) amarga o preconceito, fruto do desconhecimento e muitas vezes da má-fé. O esquecimento que merece ser rompido por uma questão não só de justiça, mas de sobrevivência.

General Osorio e seu tempo se desdobra nesse terreno minado, somando narrativas da História e da Literatura. A vida do general Osorio, abordada como um romance épico, pertence a uma linhagem multidisciplinar em que a pesquisa se alia à imaginação para decifrar o que nos precedeu, procurando limpar a névoa que insiste em cobrir as mais significativas ocorrências.

Aqui convivem tanto a saga dos antigos narradores, o acervo de detalhes levantados por inúmeros estudiosos isolados em suas províncias, quanto as contribuições decisivas da moderna historiografia. A voz dos descendentes dos heróis conhecidos e anônimos se mistura à análise de processos beneficiados hoje por revelações inéditas sobre assuntos candentes como escravidão, monopólios, Forças Armadas, vida militar, guerras, colonialismo, Império, maçonaria, revolução, relações internacionais, definição de fronteiras.

Não se trata de um relato frio nem um resgate mecânico da sucessão de eventos que costumam freqüentar os manuais. Mas sim uma reincorporação dos fatos que definiram os contornos do Brasil no Cone Sul, por meio de seus principais personagens, tendo à frente o general Osório e seu séquito de ancestrais, familiares, companheiros, inimigos, protetores e desafetos.

Os detalhes ganham vida para ocupar o lugar devido na história. Como se movimentavam os exércitos, qual a estrutura das forças armadas em desequilíbrio e busca de eficácia, o que definiu derrotas e vitórias, o que se passa na cabeça de um guerreiro antes, durante ou depois da batalha? Qual o papel das minorias nessa luta? O que faziam as mulheres, os índios, os negros, no front? Qual a o armamento usado, as táticas, as estratégias, os cercos, os recuos, os avanços, as cargas?

O livro vai fundo nas questões que realmente importam para se entender o período e seus líderes, a época e seus soldados, o tempo e seus fantasmas. Qual a hierarquia de traições, decisões, barganhas, negociações nas lutas que se desenrolavam em períodos extremos, pontuados por tempos de paz ou de insegurança social, onde se procurava fazer negócios, prosperar, viver de novo? Como se configurava o quadro político em eterna transição, os egoísmos, as vaidades, a bravura, a mortandade, as doenças, as feridas, a febre?

General Osorio e seu tempo aproveita o fôlego para insuflar vida em temas pouco compreendidos e tão presentes como a situação dos escravos, as sintonias e brigas com as potências, os motivos de invasões, assaltos, violências e armistícios. Ao mesmo tempo, ousa penetrar no coração exausto dos guerreiros, em suas glórias e desesperanças, suas contribuições e prejuízos. Avalia a sorte dos combatentes, os que se foram no meio da refrega, os que ficaram para contar a história, os que se encantaram como herói ou mito.

Seria coisa demais para um livro só. Mas não para General Osorio e seu tempo, que tem a magnitude de uma saga, escrita com o ardor de um habitante nascido no miolo desse mapa onde se cruzam guerra e memória. José Antonio Severo teve o privilégio de mergulhar muito cedo a grandeza desse acervo que corria de boca em boca e que mais tarde descobriu por inteiro em muitas leituras e também na árdua pesquisa de campo, palmilhada com a força dos pioneiros.

Esta obra que engrandece o país, celebra a coragem e a paz, tira lições valiosas e contribui decisivamente para que todo esse tesouro não seja desperdiçado nem caia na vala comum do desinteresse. “Osorio e seu tempo” tem o ímpeto de uma carga de cavalaria, que começa na prudência do passo, aperta o ritmo no trote e avança sobre o presente a galope.

Nei Duclós - Jornalista e escritor, graduado em - História pela Universidade de São Paulo

RETORNO - Este é o texto de apresentação do monumental General Osorio e seu tempo, de José Antonio Severo, patrocinado pela Braskem, Copesul e New Holand Agriculture, sob o estímulo das leis de incentivo à cultura do Minc e Governo Federal, que será lançado hoje, terça-feira, dia 11, no Memorial do Rio Grande do Sul, Sala dos Jacarandás, Rua Sete de Setembro, 1020, Praça da Alfândega, no Centro de Porto Alegre, no coração da Feira do Livro. Estarei presente, para dar um abraço no jornalista e escritor Severo, que está lançando o grande livro da sua vida.





10 de novembro de 2008

CAÇA NO QUARTO CRESCENTE

Nei Duclós (*)

A silenciosa imobilidade une cachorro e caça. As duas cabeças estão penduradas no mesmo olhar fixo. Uma espada invisível cruza as criaturas no instante decisivo da tarde, até agora muda. O fio reúne as atenções terminais da perseguição entre urtigas. O perdigueiro treme porque o tempo desanda e a impaciência começa a devorar sua certeza. Mais um segundo e a presa desatará o vôo rasteiro, que vibra abrindo um rasgo no campo.

A matraca da perdiz acorda então a fuga na estação. Abre um claro entre pastagens altas e espanta o susto preparado pelas cobras. Não há mais nada ao redor do que o troar de forças: meu pai de cartucheira cruzada no corpo; sua arma de extremo soco, que se dá o luxo de emitir o tiro arisco, capaz de extrair a cabeça da ave em pleno vôo; sua visão circunflexa e longa, como luneta de navegador. Eu estou um pouco atrás, sentindo o cheiro de rebanhos prudentes, gado afastado do miolo do drama, recolhido ao remanso de um tufo de umbus ocupando extremos, lá onde o sol irá se pôr, ao lado das corujas e sob o luar crescente.

Aquela terra não nos pertence. Fica atrás das cercas que ultrapassamos com nossas calças de brim, alpargatas rotas, chapéus de feltro. Somos feitos de palha, como os bois de festa. Roçamos as mãos no pasto para colher talos verdes, que mascamos enquanto os pés afundam em barros ocultos. Não é um passeio. Somos uma caravana de tormentos. Nenhuma carne está a salvo quando seguimos o pai concentrado na sua guerra ofegante. De vez em quando, ele concede o privilégio de uma bandeja, a ave muito próxima e desatenta, capaz de levar o tiro de um de nós, herdeiros sem treino. Basta apontar para a vítima em movimento. Desde que ela não fique imprestável para o forno, por força do chumbo espalhado a esmo, fruto de pontaria trôpega.

Prefiro não atirar. Estudo o mistério do rastreador, que cheira o caminho traçado pelo medo. Ninguém enxerga o que ele vê. Feito de bronze, aguarda a ordem de avançar. A voz do pai é um clarim de batalhão, identificada pelo tom de mando. Sob aquela guarda conheci as porteiras das estâncias, os arroios escondidos em matos, as corredeiras de dourados na madrugada sem estrelas. Aprendi a ficar quieto como um anzol forrado de piavas, à espreita do surubi gigante, o que irá afogar dez bóias do espinhel ao mesmo tempo.

A pele precária dos pés criados em asfalto conheceram a brutalidade dos barrancos, os charcos do inverno, os insetos do crepúsculo, as traíras onde todas as linhas tropeçavam, enredadas pela mão invisível de um destino feito de espumas. Aprendi a fazer fogo e a esperar os adultos voltarem com sua algazarra e assim poder dormir, sem a urdidura dos fantasmas. Vi tanto amanhecer que desandei. Descobri que as cidades são apenas acidentes e que nascemos todos em campo aberto.

Fomos recolhidos cedo às paredes. Viciamos em tetos, sofás, fios, talheres. Mas basta o fogo no chão em nossa frente, num dia qualquer da infância, para que ressurja o sopro da sementeira original da raça que negamos. Somos bugres de polainas, mas se topamos na raiz podre que desperta os marimbondos, saberemos como agir, em direção às sangas. Lá vamos mergulhar o nosso esboço. O que nos desenhou para sempre.

Nem é preciso mais o pai com a mão no cartucho feito na véspera, com pólvora comprada a granel, bucha improvisada, espoletas secas. Já sabemos o caminho da roça. Vestimos a farda dos acampamentos e vamos, reunidos, seguindo as pegadas do Tempo. Estamos de olho no horizonte. De lá virá o Quarto Crescente, anunciando a eternidade.

RETORNO - 1 . (*) Crônica publicada na última página da edição de novembro de 2008 da Revista Globo Rural. 2. Imagem de hoje: a própria.

9 de novembro de 2008

O DRAMA DE MARCOS


Nei Duclós

Futebol é, além da relação entre linhas retas e curvas, o conflito entre a bola e a expectativa dos jogadores. O segundo antes da falta, a paradinha do pênalti, os empurrões na área no momento do escanteio, o desespero nos minutos finais, a euforia no início, a espera da substituição, o corpo caído depois do choque. Quando não há conflito, essa briga entre a percepção (permanente, mas que não influi no resultado) e o fato (descartável, mas decisivo), não temos futebol. Temos comentaristas. Na tarde deste domingo, os narradores juravam que não havia jogo entre Palmeiras e Grêmio, porque a partida estava muito disputada. Não consegui atinar com esse raciocínio.

É exatamente o contrário: porque havia disputa de bola, havia jogo. Mas os comentaristas diziam que um time não deixava o outro jogar, portanto estava tudo muito travado. Não vi assim. Vi uma partida épica, com todos dando tudo o tempo todo. Nem dá para saber como conseguem fôlego para lutar até o segundo derradeiro. Tirou sangue de vários. No primeiro tempo, já se via um hospital em campo: alguém enfaixou a cabeça, outro o pulso, mais um teve que fazer curativo na testa. Quando será que vão criar um capacete transparente, fino e resistente de silicone ou o que for para que os jogadores possam trabalhar em paz, sem colocar em risco o patrimônio?

Por ter sido um jogo intenso, em que a relação dramática entre expectativa e bola chegou ao seu ponto máximo de tensão, é que aconteceu a tragédia. Pois quando a percepção coletiva foca demais num ponto, quando a cabeças, machucadas ou não, se voltam para aquela comunhão entre golpe de vista e chute no ângulo, fica de fora o improvável. É desprezada a surpresa que pode acontecer quando o lance escolhe o hiato entre a certeza de cada um e os caprichos geométricos do futebol.

Quem viu, sabe. Tcheco, do Grêmio, levantou a bola em elipse aberta e alta para o miolo da área. Seu objetivo seria colocar os adversários no sufoco, oferecendo a sorte para que seus companheiros conseguissem sacudir a rede. Defesa e ataque se concentraram uns nos outros, enquanto a bola evoluía no hiperespaço, no não-lugar, na estrada inexistente que corta em diagonal o universo conhecido. Ali ela encontrou seu rumo e foi despencando devagar, sem que ninguém percebesse suas intenções. Era uma criminosa disfarçada depois do roubo, um popular tentando escapar da revolução desencadeada em plena rua.

Mas bola não tem intenção, obedece ao impulso, o chute de Tcheco. Ela simplesmente cumpriu seu destino. Foi levantando vôo, enquanto os jogadores se estapeavam numa outra dimensão, a considerada real. E ali ela foi se aninhando, naquele caminho virtual que a levou, para desespero do goleiro Marcos, do Palmeiras, para o fundo do gol. Na trajetória, tocou em alguém? Não importa. Ela nem foi desviada. O goleiro não estava prestando atenção naquela evolução bizarra, no evento absurdo, que era a bola simplesmente indo em direção à vitória do Grêmio sem que ninguém, nem mesmo Wanderley Luxemburgo, que sabe tudo, visse na hora o que estava acontecendo.

Como tem sido natural fazer análises cheias de frases definitivas equilibrando-se em bases improváveis, é certo que Marcos caiu na armadilha e assumiu a culpa pelo estrago. Para compensar, rifou sua carreira indo várias vezes para a área adversária, tentando o empate. Cansou nesse devaneio e por pouco não sofreu um revés mortal, que o jogaria no exílio completo. Marcos fora substituído nos jogos anteriores e o substituto aproveitou bem a oportunidade, pegando sem parar. O time estava pertinho da liderança. Marcos voltou como titular absoluto e não contava com a improbabilidade da jogada esdrúxula que o desestabilizou.

Deve estar procurando explicações, o goleirão campeão do mundo e o algoz que tirou o Corinthians para sempre de uma decisão mundial no Japão. Só existe um motivo, craque: uma tempestade de olhares convictos, sem ostentar dúvidas, inclusive o teu olhar, goleirão, deixou a guarda aberta para que o futebol, esse jogo mortal que só pode existir como atividade de espíritos livres, aprontasse uma das suas.

Foi o desfecho clássico que costuma ocorrer quando todos estão virados para o mesmo lado e o Senhor dos Desertos resolve cavar o éter com suas mãos douradas. Ele brinca na areia do nada para que possamos aprender o que é bom para a tosse: a de que somos presas aleatórias da grande bagunça que é a vida além dos muros que cercam todos os estádios. Isso pode derrubar a alegria de alguns torcedores e incendiar outros. Mas todos saem ganhando quando vemos o chute sem jaça decidir um jogo inesquecível.

RETORNO - Imagem de hoje: São Marcos.

7 de novembro de 2008

O ANO EM QUE FOMOS À GUERRA


Se um dia me perguntarem o que fiz em 2008, eu responderei: fui à guerra, junto com uma tropa de criadores, tendo à frente o jornalista e escritor José Antônio Severo, que levou anos pesquisando em inúmeras fontes e nos locais dos eventos. Foi quando me convocaram para participar da preparação de um projeto que é um marco na literatura e na História do Brasil, e que agora está pronto e a cavalo. E do que se trata? Da longa guerra que começou na virada do século 17 para o 18 e se estendeu até o final do século 19, contado por meio da vida de um brasileiro. Quem participou dela? Os governos, as instituições, as Forças Armadas e população engajada numa luta decisiva.

Mas do que você está falando? Da consolidação das fronteiras, da defesa do território, da retaliação às invasões, da coragem, do medo, das divisões, das conquistas e das derrotas. Da cavalhada, das clavinas, dos sabres, das fardas, das mulheres, crianças e velhos no front, dos índios, europeus, negros, mulatos, mestiços no enfrentamento desesperado de todos os tipos de inimigos. Teve de tudo: briga contra os argentinos e uruguaios, invasão e cerco de Buenos Aires ou Montevidéu, batalhas no pampa dos dois lados do rio Uruguai, Farrapos, deposição do ditador Rosas, batalhas contra o Paraguai, cisões entre quem deveria comandar, interesses políticos torpes, miséria e dor, glórias efêmeras , sangue, suor e lágrimas. E muito mais.

Estou me referindo à monumental e definitiva obra de José Antonio Severo, "General Osorio e seu tempo" (Editora Expressão, 848 páginas, R$ 89, 00). O lançamento desse livraço patrocinado pela Braskem, Copesul e New Holand Agriculture, sob o estímulo das leis de incentivo à cultura do Minc e Governo Federal, será na terça-feira, dia 11, no Memorial do Rio Grande do Sul, Sala dos Jacarandás, Rua Sete de Setembro, 1020, Praça da Alfândega, no Centro de Porto Alegre, no coração da Feira do Livro.

Se tudo der certo, estarei lá pessoalmente, para dar um abraço no meu amigo e conterrâneo Severo, o cara que sabe História do Brasil como um general conhece estratégia de guerra. Sobre esse livro, do qual participei como editor de texto e autor da apresentação (intitulada Guerra e Memória, que vou reproduzir aqui na próxima semana), só posso adiantar que você pega na primeira página e não quer mais largar.

Mais não digo, porque é muita coisa. Por enquanto, é só o anúncio. Preciso agradecer o convite feito pelo Severo, agradecer ao Tabajara Ruas, que me indicou para a empreitada, ao Antonio Carlos Coutinho, meu antigo editor da Ilustrada e que mora há décadas aqui na ilha e é dono da Editora Expressão, e a todos os meus amigos de lá: Luiz Acacio de Souza (diretor de arte), Sergio Ribeiro (secretário de Redação) , Cristina Soligo(gerente administrativa).

Escutem: a terra treme. "Pretejou o horizonte". Quem vem lá?

RETORNO - 1. Está nas bancas a edição de novembro da revista Globo Rural. No tradicional espaço reservado para a crônica do mês, na última página, desta vez está publicado meu texto Caça no Quarto Crescente. Vale a pena adquirir a Globo Rural para ter acesso ao belo cardápio de matérias produzidas pela redação capitaneada pelo jornalista José Augusto Bezerra. E, claro, ler essa crônica que escrevi especialmente para a revista. De quebra, uma foto inédita do autor, orgulhoso de estar presente em tão prestigiada publicação.

Entre os destaques da edição, está a matéria "A Segunda Invasão Holandesa", do nosso amigo e conselheiro aqui do Diário da Fonte, Geraldo Hasse. No dia 3 deste mês, Geraldo Hasse lançou novo livro, Navegando pelo Rio Grande, pela Já Editores. Meu exemplar já está reservado e vou recebê-lo das mãos do autor, se tudo der certo, na próxima terça-feira. Acompanhei o trabalho de Hasse, de longe. Ele foi me contando como navegou no tema, muito pouco conhecido apesar da importância histórica e econômica do nosso grande rio.

2. Neste fim-de-semana, está sendo publicada minha colaboração mensal para a Donna DC, do Diário Catarinense. O título é
Há medo no ar. Não se assuste. Esta, pode ser lida no Diarião do fim- de-semana, versão impressa, e também no site do jornal. A da Globo Rural, não está disponível on-line. Só no papel. Prestigie. Vá até o jornaleiro.

EXTRA: CLÁUDIO LEVITAN AVISA!

"Apareça e divulgue! A última sensação na Feira do Livro nesse domingo às 17, na CASA DO PENSAMENTO, estaremos autografando o livro mais moderno e mágico do momento! PÉ DE PILÃO EM QUADRINHOS COM UM CD GRÁTIS!Um livro sem texto, que não se lê, mas se ouve, que se olha as figurinhas enquanto se aprende as letras cantando, depois se escreve nos quadrinhos, ao final terás na mão, não um livro qualquer, mas do maior poeta de todos os tempos, Mario Quintana, com rimas em métricas perfeitas e com palavras escalafobéticas, como não se escreve mais hoje em dia, só no futuro! Um livro tamanho único, que serve em crianças pequenas, médias e grandes, com um, vinte ou noventa anos! Veio direto das ìndias Orientais, não tem na China nem na Sbórnia, só em Porto Alegre, um livro em que a pessoa aprende se divertindo. Um livro que retira a pessoa da frente do computador por 50 minutos sem dor nem sofrimento. Um jogo e um brinquedo. Perfeito para presentear crianças e adultos que gostam de música e literatura!"

CHAMA-SE REPORTAGEM

Os jornalistas Plinio Delphino e Willian Novaes, do Diário de São Paulo, fizeram a reportagem que nigém soube fazer sobre o assassinato da psicóloga na frente da sua casa em São Paulo. O crime foi ante das oito da manhã, dav\a tempo para cobrir o fato com a

6 de novembro de 2008

NEVER BEFORE IN THIS COUNTRY


Dizem que, lá como cá, “a esperança venceu o medo”. Então vamos imaginar uma gestão Obama inspirada em Lula:

Antes de assumir, manda o chefe a Casa Civil, Rahm Emanuel, viajar clandestinamente para Brasília, como fez José Dirceu em Washington em 2003, e pede licença para governar. Lula concede, mas levanta o dedinho e avisa: “O Pré-Sal é nosso. Vocês podem tirar até a última gota, mas não deixem o Diário da Fonte saber”.

A Casa Branca compra duas toneladas de creme de leite e 5 mil pacotes de bolachas cream cacker. É para o caso de receber visitas. É aumentada a capacidade do freezer, para que toneladas de picanha sejam armazenadas para futuros encontros.

Obama joga soccer em Camp David e convida a dupla country Shiton Zim and Tchou Roro. Aparece de barriga de fora e com a carinha rosada. Faz declarações de longe, cuspindo em direção às câmaras.

Obama orgulha-se de ter sido reprovado na escola primária do Quênia. Disse que passou em Harvard colando. Garante que jamais abriu um livro. Diz que não precisa. “Vejam meu caso, virei presidente”, e dá uma risadinha esperta.

O governo americano tira as tropas do Iraque e as remete para o Haiti. Manda atirar até em capacetes azuis. Perde o general comandante em condições misteriosas, mas ninguém dá bola.

Obama viaja para La Paz e se abraça com Chavez e Morales, que acabaram de privatizar todas as empresas americanas em seus territórios. Sargent Garcia, seu assessor para assuntos internacionais, aplaude.

Obama faz dois discursos por dia, sacudindo o dedo e berrando. Quando lhe perguntam sobre as próximas eleições diz: “Quando se vota para presidente, se vota para presidente e quando se vota para prefeito, se vota para prefeito.”

Obama orgulha-se da sua mãe, que “nasceu analfabeta”. E garante que, não fosse por ela, todas as suas irmãs teriam feito a vida.

Começa todos os seus discursos com “never before in this country”.

A Justiça descobre grande esquema de corrupção na Casa Branca, mas Obama diz que não sabia de nada. Prendem o publicitário-mór, demitem os ministros, expulsam 800 mil militantes do Partido Democrata e ele sai mais fortalecido do que nunca, graças à contratação, a peso de ouro, da multinacional de pesquisa I Bopes (pronuncia-se “ai, bopes”)

Obama mantém a política econômica de Bush, com as bolsas em queda e a quebradeira geral das empresas.

Obama é reeleito pra o segundo mandato. No fear to be happy. The hope wined the fear.

RETORNO - Chama-se reportagem, metodologia quase em desuso. É assim: acontece um crime às sete da manhã, você tem o dia todo para levantar alguma coisa fora do prontuário policial. O que acontece? Todos reproduzem infinitamente os mesmos dados, chupados do trabalho do pobre escrivão da delegacia. Mas há exceções. Os jornalistas Plinio Delphino e Willian Novaes, do Diário de São Paulo, fizeram a reportagem que ninguém soube fazer sobre o assassinato da psicóloga na frente da sua casa em São Paulo. Falta ainda enfocar com profundidade alguns antecedentes: o assassinato, anos atrás, de outro pesquisador da Unifesp; o clima pesado na Universidade, que teve um reitor expulso em agosto e uma invasão nas suas dependências. Fatos que fazem parte, tenham ligações ou não, do acervo da matéria. Uma coisa pode ser outra coisa.

Sabe o que são esses inúmeros sujeitos que ficam em fente ao micro o dia todo obedecendo ordens de medíocres e reproduzindo o já sabido, sem ter a mínima curiosidade nem a formação profissional para abastecer os leitores de informação? São idênticos às criaturas do filme Matrix, que fornecem energia para um mundo virtual suspeito. O grande crime hoje não é o tiroteio, é essa omissão em massa das responsabilidades do jornalismo. Repórteres, fora da redação! Nem precisa mais disso. Com a tecnologia, a redação é você.

Falando nisso, Caco Barcellos e sua equipe mostraram na terça-feira passada como funciona o porto de Santos. O programa
Profissão:Repórter é a máxima intensidade possível sobre um trabalho, o jornalismo, em decadência total. Reportagem dá problema. Pega mal na ditadura.

SIRIUS


Nei Duclós (*)

Aquela deve ser a estrela
que buscamos

Que pintou no sangue exposto
da tarde
No rastro do sol
devorado pela noite

Estrela que no milagre
do espelho
se espalha em tristes
luzes de festa
e ninguém atenta quando
surge
porque a esperança gastou
como um sapato sujo

Ela apareceu sobre o rio
como a vela de um navio perdido
por um minuto só
como quem vira a página
de um livro

RETORNO - (*) Poema do livro "No Mar, Veremos" (Globo, 2001). Vi ontem, num perfil do Orkut, uma adolescente colocando este livro e meu nome como únicas ocorrências da seção books. É a longa trajetória do lançamento ignorado pela grande imprensa, mas cada vez mais presente e forte entre quem interessa, os leitores, principalmente a meninada. Outro dia, uma garota de 12 anos me pressionou por e-mail perguntando pelo segundo livro do Diogo e Diana, já que tinha adorado o primeiro volume. Expliquei que atrasou, mas está bem encaminhado. Pode haver retorno melhor? Já ouvi várias vezes de pais agradecidos que Diogo e Diana é a primeira leitura completa de um livro feita pelos filhos. Deus é maior.

5 de novembro de 2008

SUA EXCELÊNCIA O DELEGADO


Não comentei as eleições americanas porque não entendo como funcionam, por mais que expliquem. Parece eleição de séculos passados. Na época do Império, votava-se no eleitor. Esse eleitor é quem elegia o candidato. Na República Velha, um colégio eleitoral partidário é quem decidia a vitória. O cara podia ganhar nas urnas, mas não levar.

Eleição americana é parecido com essas coisas, mas ainda é mais complicada. Não dá para acompanhar. Você vota num dos dois candidatos, mas elege o delegado. Ou o delegado já foi eleito antes? Quando? Esse delegado, seja lá quem for, elege o candidato que já foi votado nas urnas. Ou seja, o delegado, sem rosto, anônimo, decide sobre quem é conhecido, popular, espirituoso e ainda ganha da Hillary Clinton.

Vamos imaginar algo semelhante no Brasil. Cada estado tem um xiz número de delegados. Quando mais populoso, mais delegados. Isso contraria o atual sistema político, implantado pela ditadura e que serve para celebrar os grotões. No Caixa Prego, três votos elegem dois senadores. Em São Paulo, um milhão de votos não elegem um vereador.

Mas, se a regra mudasse e imitassem os americanos? Minas teria um monte de delegados. Decidiria todas as eleições. Aecinho sairia da balada direto para o Palácio do Planalto. Decretos determinariam que JK inventou a bossa nova, o Volks, o cinema novo. Seria eliminada a figura do Jânio Quadros, que foi eleito na seqüência numa campanha anti-corruppção.

O problema, num caso desses, é evitar os trocadilhos. Tudo que é delegado de polícia iria querer se candidatar com o apelo “Vote no delegado”. Sambista com esse apelido também. Inventaria mordomias. “Aqui é o delegado”, diria, para o restaurante mais próximo, exigindo buffê chic servido em casa. Haveria, enfim, uma tendência irresistível de delegar, coisa que as consultorias batalham sem parar junto aos empresários. Delegue, delegue, dizem eles, tentando convencer os caras a sair de cima e deixar os outros trabalhar. Já deleguei, diria o patrão. Conheço o meu gado, digo, meu delegado.

Está previsto na Constituição americana uma traição: o delegado pode não indicar o candidato votado, simplesmente porque ele é quem tem a palavra final. "Mas, seu delegado, o senhor vai me prender? Mas eu votei no seu candidato". "Não interessa, aqui quem manda sou eu. Guardas!" Seria o caos se isso acontecesse nos Estados Unidos. O sujeito dá uma lavada no outro e acaba nas malhas da Califórnia, com os votos sendo contados em cartões perfurados da IBM. Brutal.

Acho que os delegados deveriam eleger, não o candidato mais votado, mas o delegado mais carismático. Ou seja, a população comparece em massa nas urnas e quem vai para a Casa Branca é o Doutor Padilha. No primeiro dia de poder, ele decreta o fim do escrivanato. Nunca gostou mesmo desses caras que ainda usam a velha Olivetti em vez de algo mais moderno, como o IS Plus ou o Redator PC. No segundo dia, a ordem seria entupir as cadeias. Delegado precisa mostrar serviço.

O Doutor Padilha não viajaria, ficaria despachando na Delegacia Oval. "Chanceler de Tovalu, manda entrar. O que o elemento quer? Pensa que eu não sei que está usando a mala diplomática para contrabandear Ipods? Vai para o piano. Alemão, bota tinta nos dedos do suspeito. Vamos ver se tem prontuário. Toma nota de CIC, RG. Não dá moleza, não. Se reclamar, desce umas bifa na oreia. Ninguém se mete a engraçadinho no meu plantão".

Acho que o mundo tomaria jeito. A população iria se convencer que o Doutor Padilha fora a melhor solução. Todo mundo vai querer imitar seu cabelo lambido para trás, sua gomina no topete, suas costeletas e bigode. Doutor Padilha, o Delegado. Vai encarar? Os argentinos teriam vantagem. Chamariam Padilha de Tche Loco. E aproveitariam para falar mal do Brasil. "Lá tem delegado demais, Tchê Loco. Melhor dar um jeito nisso. Eles podem querer se candidatar por aqui".

RETORNO - 1. Apesar dos esforços da Globo, que seguiu seus velhos hábitos e tentou proconsultar os resultados, forçando a mão para o lado do candidato de Bush (na cobertura das eleições na "demoucracia mais pouderosa do plaaaneta", como disseram até a exaustão) , deu Barak Obama. Mas cuidado. Cansei de repetir aqui. Não existem raças humanas. Raça, na humanidade, é um conceito enterrado pela ciência. Insistem em usar por motivos políticos. Obama não é negro, é americano. Obama não tem nada de afro. O Havaí não é Burundi. E Harvard não é a Etiópia. Ele nem é mais democrata, é presidente eleito. Preparem-se. Prometeu recuperar o prestígio perdido dos Estados Unidos. Ou seja, sairá de onde fracassaram (Iraque) e vai apostar todas as fichas onde podem ter controle total, com mais lucro e menos desgaste, por aqui mesmo. Amazônia, Aqüífero Guarani, Tríplice Fronteira, etanol, tudo o que eles têm direito. Será mais pesadelo. À parte isso, haverá a velha lua de mel da mídia com o poder. Obama para cá, Obama para lá. Venha levar tudo, nos repartir em postas, que no fundo gostas.

2. Gostou do Doutor Padilha na Delegacia Oval? Então adquira para sua biblioteca, ou para dar de presente este fim de ano, meu livro O Refúgio do Príncipe - Histórias Sopradas pelo Vento, que contém algumas jóias do
Diário da Fonte. Custa apenas 20 reais, com frete incluído, para qualquer parte do Brasil (Correio normal). Envie um e-mail (neiduclos@gmail.com) dando seu endereço, que eu retornarei com um exemplar autografado e o número da conta para o depósito. Não se acanhem. Miguel Ramos, o maior ator do Brasil, repercutiu esta campanha no Orkut. Ele recomenda.

4 de novembro de 2008

VIAGENS


Nei Duclós (*)

Fico impressionado com a capacidade de certas pessoas de viajar a toda hora sem que isso mexa profundamente na postura, pensamentos, expectativas, sonhos. Viagem para mim tem a pompa de algo definitivo. Dias antes de embarcar já fico me preparando. Faço a mala um mês adiantado (vai que eu me atrase!). Exibo a sobriedade de quem parte para o exílio. Aguardo ansiosamente o momento de me dirigir ao aeroporto ou a rodoviária.

Poderia dizer, se ainda fôssemos um país civilizado: para a estação de trem, mas isso é uma impossibilidade, desde que trocaram a inteligência dos trilhos pela barbárie do petróleo. Assim mesmo, quando chego, me considero um passageiro daquelas plataformas de filmes antigos, em que as pessoas tinham ao ar solene de quem aguardava um camarote no Expresso Oriente.

Há muita sem cerimônia nas salas de espera e poltronas. Acho quase um sacrilégio encarar esse acontecimento como algo prosaico e sem importância. Cruzar os quilômetros como quem toma um cafezinho. Chegar numa cidade distante desatentos, buscando sinal do celular. Olhar os habitantes que moram praticamente em outro planeta sem se deslumbrar com a novidade de estar agora perto deles.

Não que eu deseje colocar um turbante e montar num camelo enquanto tiro as fotos da pirâmide. Mas, assim como não farei um diário desses eventos que nos levam a paragens remotas, também não admito que bocejem na hora de ocupar um lugar em direção à Via Láctea. Vá lá, Praga. Estar fora de casa é o mesmo que mudar de identidade.

Talvez por isso jamais serei um turista de verdade, embora tenha vontade de conhecer inúmeros lugares. Impossível colher paisagens como quem respira. Correria o risco de ficar uma vida em cada parada. Não pela consideração que teria diante do desconhecido. Mas porque minha natureza sedentária (deve ser esse o motivo) não permite ficar à mercê do vento.

Sou da terra firme. Daí, talvez, venha tanta atração pelo mar, território do movimento e da renovação constante e que nos traz nas ondas recados de náufragos esquecidos, ilhotas sem nome e arquipélagos que foram tragados pelas águas. Aguardo, quem sabe, notícias de Atlântida, onde deverei pousar, quando enfim chegar ao meu destino.

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 4 de novembro de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem de hoje: Hitchcock em "Strangers on a train", de 1951.

3. Ontem, um recorde: 245 pessoas acessaram o Diário da Fonte e 356 edições foram visitadas. Pelas nossas contas, o DF tem mais de 300 visitantes fixos, fiéis, por mês, enquanto os outros (média de seis mil/mês) chegam até aqui em busca de algum dos vários assuntos abordados. O Diário da Fonte é um grande livro aberto, com 1.459 capítulos (até hoje), postados desde 2002, à disposição dos leitores.

4. Meu livro "O Refúgio do Príncipe", que contém algumas jóias do Diário da Fonte, continua aguardando encomendas para este fim de ano. É um belo presente, um souvenir para homenagear este veículo. Ou seja, envie um e-mail (neiduclos@gmail.com) dando seu endereço, que eu retornarei com um exemplar autografado e o número da conta para o depósito. Não se acanhem.

3 de novembro de 2008

O AVESSO DO EXÍLIO


Nei Duclós

O presidente deposto Mauro Jindre Calvano Castro encontrou no Uruguai seu exílio dourado. Sentia-se no Brasil, para desespero de sua assessoria, que não conseguia explicar direito a confusão que o estadista fazia entre a antiga província Cisplatina, do tempo do Império, e o estado soberano que agora o recebia. Achava que os uruguaios eram riograndenses mais urbanos e cultos e, o que era melhor, habitantes de uma civilização que há muito no Brasil tinha sido destruída. Toda vez que o Doutor Mauro Jindre entrava num café e via aqueles garçons com guardanapos longos pendurados no ante-braço, começava a cantar Noel Rosa.

Mas a política, ou melhor, a percepção coletiva do jogo político, é um espaço virtual que subsiste com suas próprias leis. O presidente era prestigiado e tinha carisma. Conseguira, no seu curto governo eleito pelo voto trabalhista tardio, retomar alguns lances eliminados pela longa ditadura que tomara conta do seu país por seis décadas. Em 2024, assumiu o poder acenando com a volta dos trens, desta vez todos em aço inox, dos colégios públicos de qualidade, dos edifícios com no máximo três andares. Prometeu impor a calça curta para a meninada, o fim da MTV, fuzilamento de traficantes e consumidores de drogas, aproveitamento da madeira cortada da Amazônia para fabricação em massa de barcos de todos os calibres. E, o ponto focal da sua campanha, o Rio de Janeiro novamente como capital da República (Brasília iria virar uma cidade universitária e de alta tecnologia).

Tinha prometido dinamizar a Marinha, atualizar o Exército, colocar a Força Aérea na Lua. Deu certo. Foi eleito por uma lavada de votos. Mas as forças do Mal se recompuseram para destruí-lo e em apenas dois anos e meio de governo foi colocado para rua num golpe de estado que contou com a participação decisiva de um exército para-militar, privatizado, formado por solados de cinco continentes. Posto para fora do país, o Doutor Mauro deixou-se ficar no Uruguai, com a esperança de voltar rapidamente. Desta vez, teve o cuidado de não comprar nenhuma fazendinha.

Mas como poderia realizar seu intento se a nova ordem tinha retomado o que havia sido destruído no seu governo? Não apenas a volta dos clipes da MTV, mas o novo sucateamento dos trens, o câmbio paralelo, os juros altos, o tráfico de armas, a favelama, a cana-de-açúcar, a soja. Havia dinheiro no país, fartamente distribuído pelo governo americano republicano, que voltou com tudo depois de três presidentes negros, dois reeleitos e o último deposto com um tiro na nuca. Saíra tudo errado. O exílio, que no início prometera ser de pompa e glória, revelou-se frio, amargo e sombrio.

O Doutor Mauro, que antes recebia estadistas em sua limousine preta, colocada à sua disposição pelo governo socialista uruguaio, agora usava um velho Gol encardido, que mandara buscar de suas propriedades na fronteira. A toda hora ficava a pé, porque o carrinho afogava, batia biela, entupia. Esperando o socorro do mecânico, o presidente encostava-se no veículo lendo algum jornal popular, para disfarçar. Mas suas entranhas ardiam. O que mais o incomodava era seu biógrafo. Este, o jornalista aposentado Afrânio de Couto Magalhães Pereira, inventara de exagerar tudo o que o presidente fazia no exílio. Se tirasse uma foto em frente ao Rio da Prata dizia que era um gigante como Netuno. Se posava numa escadaria de shopping, falava em ascensão ao poder.

O presidente não suportava mais Afrânio, escoadouro de recursos, pois insistia em ficar num dos hotéis mais caros do Uruguai, enquanto ele, presidente, se entocava num quarto barato de pensão no subúrbio. Tudo pelo marketing, dizia o indigitado.

Afrânio chamava o hall do hotel onde se hospedava às custas das doações que amealhava passando o chapéu pelos nichos culpados do mundo, de Catetinho, pois o Doutor Mauro realmente tinha mudado a capital para o Rio e talvez esse tenha sido o fator principal de sua deposição. Ninguém mais estava acostumado a suportar os cariocas como centro do universo. Era preciso voltar ao normal, a Niemeyer, a Delfim Netto, a Jarbas Passarinho. Quem agüentaria uma parada com a banda dos fuzileiros navais tocando Cisne Branco? Era preciso impor novamente o tunc tunc eletrônico, o sertanojo, o heavy metal.

E assim foi feito. O Doutor Mauro até se reacostumara ao país que decidira desconstruir. Via normalmente as novelas da Igreja Interestelar, brasileira e multiplanetária. Precisava era dar um jeito em Afrânio, o único que acreditava na volta do presidente deposto ao poder. Quem sabe mandava colocar umas trouxinhas de fumo no bolso do vagabundo para que apodrecesse na cadeia? Ou o acusasse de assédio? Já sei! disse um dia o presidente, Doutor Mauro. Vou mentir que o convidaram para ser correspondente em Montevidéu do New York Times. Arranjo até passagem para ele pagar esse mico. Do jeito que é trapalhão, será preso quando passar por Miami.

Doutor Mauro Jindre era um estadista e tanto. O problema é que ele estava gostando da sua vidinha. Tinha até colocado o olho numa uruguaia formosa, que passava todos os dias na frente da janela de seu quarto barato de pensão, e que Afrânio jurava ser uma espiã. Talvez pudesse até dar uma bimbada. Tudo é possível no mundo da política.

RETORNO - Imagem de hoje: edifício Palácio Salvo, situado na Praça Independência em Montevidéu. Foto de Rubens Montardo Calliava Junior.

VIA LÁCTEA


Nei Duclós

Quando o cristal se quebra
E risca o céu de mármore
E o verbo verte o vírus
Que recompõe a treva

Quando a torre enterra
O sino. E a ponte
cruza a mesa incerta
de borra e vinagre

Quando o sal carrega
a praia de migalhas
E o torpe enredo ganha
Status de refrega

E tudo se atrapalha
No atalho sombrio
do canudo em pane
entre o frio e o ferro

Quando tudo mata
O minuto inabitável
Do amor que enfim
No corrimão se molha

É hora do poema
Ângelus sem asas
Murmúrio de sargaços
Travo ao fim da tarde

Épico de alarmes
Arames de morcegos
Alho inodoro no portal
A espantar mortalhas

É hora do poema
E do catador de palhas
O que acende lampiões
Na Via Láctea


RETORNO - Imagem de hoje: A origem da Via Láctea, de Jacopo Tintoretto.

2 de novembro de 2008

CULTURA, RECEITA CONTRA O MICO


Tenho sorte de receber e-mails cheios de boas notícias. A principal delas é sobre a publicação, no site da revista Sagarana, do Oitavo Seminário sobre literatura em língua italiana, promovido pelo escritor Julio Monteiro Martins. É um banho de informação e cultura. É preciso ler, num italiano fluente e bem dito/escrito, e portanto fácil de entender, o debate sobre os milhares de escritores que chegam na Europa de todas as partes do mundo e se engajam na militância literária nas línguas dos países que adotaram, como aconteceu com o próprio Julio, importante escritor brasileiro que publica hoje em italiano. Na foto do seminário, acima, uma das conferencistas, Silvia Bernardi, da Fondazione sulla storia della migrazione italiana Paolo Cresci.

O poeta Sidnei Schneider (*) e o escritor Christian David (que lançou dia 29 seu livro "O rei e o camaleão") me mandam notícias de suas atividades na Feira do Livro de Porto Alegre, que já está bombando a mil. No ano passado participei de quatro eventos - três mesas redondas e uma sessão de autógrafos. Neste ano, estou mais devagar, mas não faltarão novas oportunidades. No próximo dia 6, Tony Monti lança seu terceiro livro, Exato Acidente (os outros são O mentiroso, que ganhou prêmio Nascente da USP, e O menino da rosa, que eu resenhei aqui), na Livraria da Vila, depois das 18 horas, em São Paulo (outros autores estarão também autografando seus novos livros).

Cultura é a melhor receita contra o mico. Quando começo a fazer bobagens demais, me recolho num livro. Atualmente, passeio por intenso ensaio sobre poética dos séculos 19 e 20, onde aprendo um monte sobre coisas que exerço e não conheço direito, ou sobre coisas que li há tempos e esqueci, ou sobre aquilo que desconheço profundamente.

Vou elencar alguns micos recorrentes a que estamos acostumados a cair (pelo menos eu): fingir intimidade com quem não possuo; dizer barbaridades achando que está sendo engraçado; responder de modo malcriado mensagens generosas; pontificar sobre coisas que conheço superficialmente; esquecer de intervir na hora certa sobre assuntos que domino; manter-se imóvel quando deveria seguir em frente; avançar quando deveria ficar quieto; cobrar injustamente. Entre outros crimes e pecados.

Espero que os contemporâneos me perdoem e de vez em quando se lembrem de retomar contato. Pessoas excessivamente auto-centradas e que vivem querendo dizer alguma coisa sobre tudo são assim, cheias de tropeços. Mas, venceremos.

RETORNO - (*) Ontem, dia 1° de Novembro, aconteceu o evento sobre Gravura e Poesia, com 12 poetas e 12 artistas plásticos, com curadoria da artista plástica Anico Herskovits e do poeta Sidnei Schneider. Os poemas geraram gravuras, que serão sorteadas para o público visitante da exposição, mediante cupom a ser preenchido pelos interessados e depositado em urna. Os poetas são: Neli Germano, Jorge Rein, José Antônio Silva, Laurene Veras, Élvio Vargas, José Eduardo Degrazia, Telma Scherer, Alexandre Brito, Jaime Medeiros Jr., Liana Timm, José Weis e Sidnei Schneider. Os artistas plásticvos: Miriam Tolpolar, Arlete Santarosa, Marta Loguercio, Paulo Chimendes, Mabel Fontana, Rodrigo Pecci,Raquel Lima, Inoi Elizalde, Fernanda Soares, Jane Machado, Marcelo Monteiro e Anico Herskovits.

1 de novembro de 2008

GENTE MALDOSA, UM CLÁSSICO OCULTO


Vou criar uma ocorrência totalmente inédita no Google com este post. É sobre Gente Maldosa, gravada por Elizete Cardoso (foto acima) nos anos 50 ou 60. Não, não é o sucesso de Zezé Gonzaga e talvez nem o de Luciene Franco (que seria composto por Glauco e Fernando Ferreira), que é um fox-trot, enquanto o "meu" Gente Maldosa é um tremendo samba-canção. Não sei ainda de quem é. Mas a letra não me sai da memória. Diz assim (notem como é rasgada, um lamento no velho estilo, impregnada com a cultura da época):

Pobre,
dessa gente maldosa
que pensa que fez
nosso amor terminar

E
foi seguindo os seus passos
venenos pequenos
a me torturar

Que
me levaram ao lugar
onde vi que não eras
um ser somente meu

Pois,
para um outro entregaras
o que um dia juraras
para sempre ser meu

Mas,
foi o tempo passando
e essa gente falando
do que aconteceu

Foi
a velhice chegando
e com o pranto lavando
o erro que foi teu

Mas,
como a flor que não morre
tão divino ocorre
tu procuras por mim

Volta
posso te perdoar
iremos começar
pelo fim

O sentido desta edição especial do Diário da Fonte é: quem tem esta música? De quem é? Quem compôs? Onde está o MP3 dessa faixa? Cartas urgentes para a redação. E olha que mandei ver no Google. Não tem como achar. E cisquei no Orkut, em vão. Quero ver quem consegue. Quem conseguir, ganha um livro de presente.

31 de outubro de 2008

A CHINA É VIZINHA


Não lembro quase nada do filme La Cina é vicina, que cheguei a ver no cinema, quando eu ia ao cinema, mas posso dizer com propriedade, graças ao Google, que é de Marco Belochio e de 1967. Tomei emprestado o título para comentar Still Life, ou Natureza Morta, ou Em busca da Vida, do novo cineasta cult chinês, Jia Zhang-Ke, nascido em 1970 e um veterano de boas produções. Esta, ganhou o Leão de Ouro de Veneza de 2006. Muito já foi dito sobre esse grande filme, que aborda o esgarçamento das relações sociais em meio à lenta submersão de uma cidade histórica em função da megausina Três Gargantas, projeto maoísta inspirada em Itaipu, e que será inaugurada no ano que vem. Prefiro enfocar as coincidências explícitas com o Brasil.

Nunca o povo chinês mostrado na tela foi tão brasileiro. O mineiro que se engaja nas demolições, as rodas de cigarro e aguardente, a aparente passividade, a malandragem ingênua, a afetividade navegando na frieza, os corpos suados e detonados em meio às ruínas. Zhang-Ke filma lentamente, como Wim Wenders em Paris, Texas, e revela a grande paisagem do interiorzão do país se transformando junto com seus habitantes. Os subúrbios sujos, os edifícios encardidos, os terraços favelados, as salas aglomeradas, as pensões baratas, as conversas intermináveis sobre dinheiro, o barulho, a tristeza sem fim.

É tão desumano o que está sendo feito, é tão deteriorado o ambiente, é tão imóvel a mente das pessoas, é tão armadilhada a situação em que se meteram, que nenhuma ponte iluminada, nenhuma tecnologia de massa, como os celulares na mão de todos, nada, absolutamente nada poderá redimir tamanha tragédia. Mas o impressionante é que tudo isso tem o tom de um poema épico, jamais de uma agonia. É uma dissonância do discurso cinematográfico, essa força transmitida pela imagem em confronto com a fragilidade humana e das águas,montanhas e vegetação que submergem sob a pressão das decisões políticas e econômicas.

É um privilégio ver essa China que nada tem de milenar (idéia soterrada pelo comunismo de resultados maoísta e que segue firme na atual maré alta do capitalismo chinês). É um assombro ver que toda a tradição dá lugar à precariedade do eterno presente e só o que sobrevive como sinal de grandeza é essa busca pelos entes queridos e desaparecidos, esse esforço de reatar casamentos e filiações, essa força que empurra as pessoas de volta para os grupos destruídos pela avalanche da época. Filme de alta dosagem dramatúrgica, feita com atores amadores, para que tudo esteja livre da intervenção dos clichês e se sobressaia a grande arte desse diretor magnífico.

Nenhum país, a não ser o nosso, perdeu a noção do épico. Pois a radical mudança das nações clama por um cinema desse tipo, que chega ao delírio de sugerir discos voadores na impessoalidade cética dos habitantes, a brincar de surrealismo quando um edifício vira um foguete e sobe aos céus. Nós ficamos na pontualidade estéril, na exposição criminosa dos corpos, enquanto pessoas como Zhang-Ke encontram, no povo ao qual pertence, essa saga que se desdobra aos borbotões. Aqui acontece o mesmo na prática, mas nossos cineastas, em sua maioria, estão com as costas voltadas para esse mural de acontecimentos.

Precisamos seguir esse exemplo, precisamos nos emocionar com nosso país, ver com os olhos livres, enxergar o que está acontecendo conosco, criar/encontrar histórias em meio ao caos. Sob pena de submergirmos como a cidade de Fengjie em Still Life. A vida resiste por mais que o sertão vire mar e o mar sertão. O sopro monumental do povo diante do seu destino: eis a China de Zhang-Ke, eis o Brasil que precisamos ter em nossas retinas tão cansadas.

RETORNO - Imagem de hoje: cena de "Em busca da vida", de Jia Zhang-Ke. Um épico sobre a China contemporânea, obrigatório em todos os sentidos.

SERVIÇO DE ATENDIMENTO AO CLIENTE ORGANIZADO (S.A.C.O)


Os SACs, Serviços de Atendimento ao Cliente, foram feitos para deixar bem explícito o objetivo das corporações: levar o delas e te deixar na mão. Antes dos SACs, você duvidava se faziam isso de propósito. Se não entregavam o produto pago por algum descuido, jamais por má fé. Se te vendiam porcaria chinesa como se fosse indústria brasileira por um erro no sistema de tributação. Ou se te empurravam coisas estragadas por desconhecimento e não, como se descobriu por meio dos Sacs, que fazem isso porque gostam.

Pois tente “recramar”, como eles dizem (“ué, mas ninguém recramou até agora!” ). Você vira a serpente mordendo a própria cauda. Pois um te manda para o outro e o outro para o um. O expediente sacana que usam é abrir, indefinidamente, o chamado protocolo. Você “recrama” e eles abrem um protocolo. Aí fica tudo por isso mesmo. Você liga de novo e abrem novo protocolo. No décimo você desconfia que estão te fazendo de trouxa. Ou seja, o problema não é o gerundismo, isso é só sintoma da doença (“vamos estar te devolvendo o dinheiro” ha ha ha ha ha) . O problema é a bandalheira, mesmo.

Por isso criei o SACO – Serviço de Atendimento ao Cliente Organizado. Aqui, você aprenderá qual o verdadeiro sentido dos SACs, o que eles dizem entre si, com todas as letras, o que escondem nas entrelinhas e nas vozes agradáveis. Com esse acervo, você poderá usufruir melhor a quantidade de vezes em que é enganado e poderá assim mandar tudo para o saco sem precisar ir ao Procon. Você se organiza para enfrentar a cara de pau dos SACs. Não vai precisar mais dormir ao lado do telefone esperando o momento em que, enfim, ameaçam te ouvir e aí cai a ligação. Vamos aos itens:

SAC boa tarde. Rosicreide falando. Estamos aqui para atendê-lo. Enquanto isso, aproveita para ir tomar no teu cu.

O produto não chegou? Que pena. Deve ter sido desviado. É, sim, roubaram o caminhão. Aonde? Em Portugal. É verdade. Os portugueses agora deram para isso.

É produto americano, sim senhor. Não, não é chinês. Estragou na hora de abrir? Culpa sua. O senhor abre sem cuidado. Vamos abrir um protocolo.

Isso mesmo, não vamos entregar. Por que? Porque a fábrica faliu, ué. Aqui somos apenas um número de telefone.

Ah, a senhora recebeu o produto que dissemos que não ia ser entregue? Agora é problema seu. Comprou outro? O que vai fazer com o nosso artigo? Vende para o ferro velho.

Quer que a gente “busca”? A gente busca. Mas não vá querer receber de volta o dinheiro ou ganhar outro artigo substituto. Roubar a gente rouba, devolver, nunca. Não costuma ver o noticiário político não?

A senhora quer agradecer? Pelo quêêê? Ah, gostou do atendimento? Posso lhe garantir: foi descuido. Na próxima vez, e haverá próxima vez, já que a senhora está tãããão satisfeita, a gente provindencia uma sacanagem, entendeu? Vai agradecer quem te pariu. Saco.

RETORNO - Imagem de hoje: tecnologia de ponta de faca. Ninguém "recrama".

30 de outubro de 2008

CHEGA DE CLICHÊS


Aniversário tem tudo para ser um clichê, mas não foi isso o que aconteceu, pelo menos é assim que vejo neste caso. Foi bonita a festa dos meus 60 anos. Mais de 60 mensagens no Orkut. Por telefone a presença do litoral gaúcho, representado por Laís e Clovis Heberle (que estão prontos para passar temporada aqui em Floripa), Sueli Orsini Lobato (firme nos seus 90 anos bem vividos) e Geraldo Hasse (prestes a lançar seu novo livro, agora sobre a navegação no rio Uruguai); São Paulo por Dorival Jesus Augusto (sempre agitando novos projetos) e Daniel del Fiore, o piloto de aviões e de artes gráficas; sul da ilha por Virson Holderbaum (feliz com todos os filhos talentosos); Lagoa da Conceição por Tabajara Ruas (que está lançando novo e portentoso livro pela Record); Florianópolis/Curitiba por Luiz Carlos Duclós (também muito orgulhoso das filhas, me dando notícias sobre sua filha bailarina clássica Rita, que faz sucesso nos Estados Unidos). Por e-mail, vários, como Muts Weyrauch, prestes a gravar novo dvd, onde vai incluir o nosso Blues da Casa Torta. E minha irmã Védora, que lembrou minha infância, ela que foi testemunha do meu crescimento.

Exagerei na dose: anunciei o aniversário no Diário Catarinense (de onde veio mensagem magnífica do editor Dorva Rezende), no Comunique-se (onde novos e fiéis leitores mandaram abraços), aqui no Diário da Fonte (com o vídeo que arrancou elogios do ator maior Miguel Ramos) e no Orkut, onde durante todo o dia recebi parabéns. Assim fica difícil começar no dia seguinte! Dá vontade de fazer 60 anos todos os dias! Aqui em casa, muitos abraços das pessoas queridas e chegadas (esposa, filha, neta e filhos). Ida Duclós, no Orkut, resgatou os beatles e seus lendários futuros sixty four. Juliana Duclós, animada com seu blog Freak Mothers, fez homenagem com foto de Maria, a arteira impossível.

De Amsterdam, Daniel e Carla Duclós (prontos para conhecerem Londres no feriadão) me enviaram cumprimentos d´além mar. Daniel é destaque no site WTF Brasil, especializado em histórias bizarras de TI. Aos poucos, o talento do daniduc ganha seu merecido espaço. E ainda ganhei presentes! Miguel Duclós (a mil com seu site consciencia e com seus estudos nas Letras da UFSC) me brindou com maravilhosa garrafa de vinho do porto, outra de finíssimo azeite de oliva grego.

Mas precisamos voltar ao batente. E nada melhor do que voltar a bater. Tenho, ultimamente, escolhido os blogueiros da grande imprensa para receberem algumas saraivadas. Fico pasmo com a arrogância dos textos-pílulas (claro, são blogs! precisam ser bem enxutos!), por isso comecei a encher. Nada demais, já que ninguém lê mesmo, nem eu. Bueno, hoje voltamos a atacar os clichês, aqueles que nos atormentam. Pois não agüento mais a repetição do maravilhoso verso do Mário Quintana (“eles passarão, eu passarinho”) como se fosse a panacéia suprema da auto-ajuda. Entre outras barbaridades. Para desconstruir os trilhos do Mesmo, vamos arriscar novas fórmulas:

Não, o meio não é a mensagem. O meio é o meio e a mensagem, a mensagem. Senão haveria só um jeito de dizer vai-te catar.

Nem toda a unanimidade é burra. Se fosse, seria sinal de burrice.

Eles passarão, tu minhoca.

Toda crise é crítica. As oportunidades só surgem quando não há crise. As honestas, pelo menos.

A globalização não é irreversível. O que é irreversível é a mania de dizer esse tipo de coisa.

Aldeia global não existe. Uma aldeia é uma aldeia mesmo. O ermo não mora em Nova York.

O sonho acabou e Elvis morreu. E 1968 terminou. O que não tem fim é a elasticidade do saco de ter de ouvir sempre essas sacadas.

Quem paga para ver perde dinheiro. E ainda pode levar uma surra.

Mais vale dois pássaros voando, que dão uma bela foto, do que um na mão. O que você vai fazer com um pássaro na mão? Eu falei pássaro.

Um beijo no coração sai sangue. É crime.

O problema não é comigo, é contigo.

Eu não sei como você se sente.

Tudo o que é sólido nem tchuns para o ar.

Não, o Brasil não fez a lição de casa, foi reprovado.

Economia robusta é a que tunga o dinheiro aplicado sub o guarda-chuva da produção de pensamento.

RETORNO - 1. Imagem de hoje: Mario Quintana, o poeta que advertiu, quando fez 70 anos: "Por favor, não me chamem de septuagenário".

2. Como no Orkut foi um assombro de tanta mensagem, fica difícil agradecer aqui um a um (o que já fiz lá no orkut mesmo). Mas não posso deixar de agradecer aos meus amigos e amigas de Uruguaiana, Ricardo, Rubens, Vera, Alice, Regina, Nanni, Vicente; jornalistas amigas como Julia e Francis; poetas como Selmo, Sidnei e Orlando; escritores como Urariano Mota; atores como Julio Conte; meu irmão maior, Elo, autor da melhor mensagem (Elo escreve como poucos); gurizada nova como Angelo e Clavio; e muito, muito mais, que não cito porque sempre acabo esquecendo alguém e isso não é legal.

3. Antonio Kleber de Araújo, carioca, não me deu os parabéns, mas abriu um precedente nesta pré-estréia de verão: comprou três livros meus, diretamente de mim! Muito bom exemplo. Tenho em oferta "O Refúgio do Príncipe", que pode ser solicitado via e-mail, como já foi anunciado aqui. Um conto assustador e crônicas de mar e pampa. As jóias do Diário da Fonte: Leitura no Elevador, Os Blocos do Mestre Bazinho, O Vigia do Mar, A Volta na Quadra, Bumba Meu Boi de Mamão, A Fazenda Azul, entre outros textos favoritos.

29 de outubro de 2008

DIA NACIONAL DO LIVRO

Decidi comemorar, na rede, meus 60 anos. Considero um feito, o fato de ter chegado até aqui. Como meus amigos mais próximos estão no mínimo a uns 30 quilômetros de distância, sem falar os que estão acima dos 500 até dos mil quilÕmetros, e ainda os que estão na Europa, a milhares de milhas daqui, minha vida social, eu que nunca fui de clubes, é a rede. Decidi então assustar os transeuntes colocando minha caratonha no video para recitar um poema meu que gosto demais, que é o Tarde, o primeiro poema do meu livro No mar, veremos. O resultado assustador pode ser visto aqui. Está também no you tube.


28 de outubro de 2008

UM POEMA DE COMEMORAÇÃO



Decidi comemorar, na rede, meus 60 anos neste 29 de outubro. Considero um feito, o fato de ter chegado até aqui. Como meus amigos mais próximos estão no mínimo a uns 30 quilômetros de distância, sem falar os que estão acima dos 500 e até dos mil quilômetros, e ainda os que estão na Europa, a milhares de milhas daqui, minha vida social, eu que nunca fui de clubes, é a rede.

Decidi então assustar os transeuntes colocando minha caratonha no video para recitar um poema que gosto demais: Tarde, o primeiro do livro No mar, veremos, que lancei em 2001 pela Editora Globo. O resultado pode ser visto acima (está postado no
you tube). Aviso que ao vivo sou ainda pior.

Ontem, dia 28, tive o privilégio de participar de uma mesa junto com o professor e poeta Alcidess Buss, na Biblioteca da Universidade Federal de Santa Catarina, sobre o tema livro. Buss levantou uma série de tópicos fundamentais, como a necessidade de aprovação urgente da Lei do Livro, que dorme nas gaveas do Congresso há cinco anos. Falou da sua experiência na Alemanha, onde compareceu na Feira do Livro de Frankfurt, anunciando o avanço dos e-books.

Buss chamou a atenção da necessidade de as bibliotecas se transformarem em centros culturais importantes e leu trechos de um abecedário sobre estratégias do livro, escrito há mais de vinte anos e de grande atualidade. Entre muitas outras coisas. O poeta Alcides Buss é um autor atuante, um intelectual brilhante e um mestre muito considerado.

Hoje, 29 de outubro, Dia Nacional do Livro, celebro autorias e leituras nesta rede de relacionamento que vai gerar ainda novas realidades culturais. Pois é no excesso que acabamos acertando. É difundindo nossos textos, poemas, comentários, análises, desabafos, é quando nos cumprimentamos, por mais en passant que possa parecer, aí é que mora a lenta a prazerosa construção de uma sociedade atuante e viva.

Agradeço a todos os que me visitam e principalmente os que comentam. O Diário da Fonte vai continuar, olhando para frente, os lados, para trás, para cima. Somos um veículo completo e viajamos como as naves da obra máxima de Stanley Kubrick, 2001, Uma Odisséia no Espaço, com o chão que inventamos, com o espaço infinito diante de nós e com a sintonia perfeita entre seres apartados, mas em permanente comunhão.

27 de outubro de 2008

ENCOSTO


Nei Duclós (*)

Palavra é como gente, possui mediunidade e, portanto, está propensa ao encosto. Sessentão, por exemplo, que serve para me definir a partir deste final de outubro, sempre traz ou trazia o adjetivo sacudido na garupa. Eu sabia (ou confiava) que chegaria aos 60, mas jamais imaginei ser um sessentão sacudido. Por muito tempo, a pobre da palavra portuguesa vinha, obrigatoriamente, acompanhada pela expressão “com certeza”. Não era só para rimar, era para definir uma identidade. Tudo o que é portuguesa ─ casa, família, mulher ─ tem ou tinha o com certeza junto. Hoje o com certeza tem vida própria, já que existe uma lei que obriga todo mundo a usá-lo.

Por décadas, não existia americano que não fosse tranqüilo, graças a um célebre livro de Graham Greene. Nem velha senhora que não fosse indigna, graças a Bertold Brecht. Morte, nos tempos áureos de Gabriel Garcia Marquez, era sempre anunciada , numa reprodução de massa que provocava a desconfiança de que todos os tituladores tinham surtado de vez. O pior era a cara de grande descoberta quando alguém “bolava” algo como “crônica de uma morte anunciada” para qualquer reportagem.

Já tivemos surtos de sonhos que acabavam todos os dias; e de anos que, ao contrário, jamais chegavam ao fim. Há casos graves que soterram conjugações de verbos toda a vez em que são invocadas. Diga-se, por exemplo, jamais poderá vir sozinha. É fundamental que seja acompanhada com o “de passagem”. O uso é tão excessivo que importante diretor de redação costumava bradar para as paredes: “Ninguém diz nada de passagem, as pessoas simplesmente dizem!”

O que impressiona é a resistência desses vícios, que voltam à tona ciclicamente. Quem chega aos 60 pode se desesperar se for identificado com algo como sacudido, dito por alguém de passagem, numa tirada de humor anunciado, o que nos faz querer fugir para o além mar, para uma casa portuguesa com certeza que irá nos acolher. O pesadelo maior será alguém chegar de microfone na mão e perguntar como é que “você se sente” chegando aos sessenta, e como é “essa coisa” de ficar assim, digamos, velho. São ameaças que devemos nos prevenir criando respostas rápidas e malcriadas. Espero não ter de usá-las.

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 28 de outubro de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem de hoje: em 2002, quando fez "O Americano Tranqüilo", Michael Caine, nascido em 1933, ainda era um sessentão sacudido. Continua em plena forma, como vimos recentemente em "O Cavaleiro das Trevas".

O LIVRO COMO INSTRUMENTO DE LIBERTAÇÃO


Dentro da programação da Semana Nacional do Livro, a Biblioteca Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina promove nesta terça-feira, dia 28, no auditório Elke Hering, três palestras: às 8h30 - “Acesso e organização da Informação: publicações eletrônicas” - professoras Ursula Blattmann e Rosângela Schwarz Rodrigues (CIN - UFSC); às 10h - “Para gostar de ler...” - poeta e professor Alcides Buss; e às 11 horas, “O livro como instrumento de libertação” – que é o meu tema. Atendi o convite gentil da professora Roberta Moraes de Bem, depois que fui indicado pelo carismático Paulo Clovis, o PC, jornalista querido aqui da ilha e um dos editores do jornal Notícias do Dia. Sobre o assunto que escolhi vou falar um pouco aqui no Diário da Fonte, pensando alto já para o evento.

A servidão é fruto das relações econômicas, que geram as classes sociais e os sistemas de dominação, pelo pouco que entendi da literatura marxiana. Para rompê-la, é precisa que essas relações sejam transformadas. Não adianta falar em libertação, nessa ótica, sem que haja essa mudança. Passam-se os anos e por mais que sejam prometidas as tábuas de salvação, somos surpreendidos pelas crises cíclicas, que é, no fundo, o velho sistema em constante reacomodação para não mexer no principal. A solução leninista é a guerra, a luta revolucionária liderada por uma vanguarda esclarecida, que ao intensificar a luta de classes cria condições para uma intervenção política. Tudo isso é sabido. Mas tanto a guerra quanto a solução pacífica (outra saída que a prática apontou) precisa ser exercida com a cabeça feita. Ninguém luta no escuro.

Hoje, há uma percepção poderosa de que a guerra não leva à libertação, mas a mais servidão. A mudança sem o uso das armas precisa, mais do que todos os outros caminhos, de instrumentos como o livro. Pois a pressão escravista acontece hoje, na sociedade do espetáculo, por meio da manipulação das linguagens. Estamos impregnados de linguagem corporativa, de auto-ajuda, política, religiosa. A diversidade do livro, os redutos que representa de livre pensamento, a sedução que oferece por meio de obras de qualidade, exercidas pelo talento e pela sabedoria, é uma grande vantagem sobre a superficialidade dos outros veículos, todos eles às ordens de interesses variados. Não que não hajam interesses expressos no livro ou que seus conteúdos não sirvam para manipulações. Mas o livro, acredito, é que o oferece a margem maior de tráfego do pensamento sem as amarras. Ele pode libertar nossa percepção das armadilhas montadas em todos os cantos.

Qual o papel do livro nos momentos de transformação? Roberto Darnton, em suas teses, lançou novas luzes sobre o carisma do livro como instrumento principal da revolução iluminista. Antes de Darnton, achávamos que os grandes livros dos grandes autores tinham sido responsáveis diretos pela luta desenvolvida no front revolucionário contra a aristocracia. Sabemos agora que foi a disseminação, e até mesmo a diluição, da literatura essencial iluminista, por meios panfletários de autores que intermediavam as novas teses com a leitura da época, que ajudou a fazer a cabeça das pessoas engajadas nessas mudanças.

Recentemente Darnton tem se dedicado a fazer a difusão dos estudos de História por meio de uma linguagem mais acessível, pois sabe que os historiadores não trabalham para a leitura de massa. Ele se preocupa com o rumo que as teses universitárias tomam ao chegar ao grande público e por isso está engajado num esforço, idêntico aos antigos intermediários pré-revolução francesa, de fazer com que a cabeça do público chegue às esferas dos altos estudos. Lembro que aqui no Brasil Monteiro Lobato fez algo parecido com a cultura grega. De tabela, ele nos levou para leituras mais intensas, ao teatro grego, por exemplo. Lobato, com sua obra infanto-juvenil, formou sucessivas gerações de leitores e, mais importante ainda, de escritores. Quando leio e-mail de garota de 12 anos comentando nosso primeiro livro da trilogia Diogo e Diana (escrita em parceria com Tabajara Ruas) fico entusiasmado. Soube de fontes insuspeitas que esse livro – Meu vizinho tem um rottweiler (e jura que ele é manso) - foi o primeiro lido inteiro por vários adolescentes. Só isso já me enche de esperança.

A intermediação entre leitor e autor precisa ser bem resolvida. Gosto de citar Mario Quintana, que respondeu a uma professora que perguntara sobre o que deveria ler para entender Shakespeare. “Leia Shakespeare”, foi a brilhante resposta. A experiência nos ensina que, quando vamos direto às fontes principais, temos mais chance de entender os assuntos do que os grandes explicadores ou diluidores. Mas acredito que, no início do processo, quando começamos a nos familiarizar com os livros, a intermediação fundamental é a do professor. É no sistema de ensino que aprendemos a ler os grandes autores, graças ao apoio, ao auxílio dos professores. Não que eles sejam especialistas em grandes assuntos ou grande autores, mas são especialistas em leitura rica e proveitosa. Mais tarde na universidade, os professores são a base para a seleção e orientação sobre livros. Mas isso só vale quando o mestre nos deixa à vontade para ler com os olhos livres.

Com o e-book, e os conteúdos multiplicados na internet, como fica o livro impresso? Acho que ele continuará tendo sua função, pois nada substitui uma boa biblioteca. Muita coisa não está ainda na rede e levará algum tempo para que o universo digital possa competir com as ofertas existentes nos livros. Mesmo depois, quando tudo estiver na rede, abrir um livro continuará sendo um prazer renovado. Para olhos exaustos, então, que não suportam o cansaço gerado pelas luzes das telas de computador, uma página impressa é um alívio.

Acho que esses são os vetores principais do que vou dizer nesta terça feira na UFSC. Não muito mais do que isso.

RETORNO - Imagem de hoje: Monteiro Lobato. Sempre ele, quando se fala em livro.