Chegou o reparte de Autor. Edição caprichada!
Obrigado Deonísio Da Silva ! pelo trabalho primoroso de edição.
Obrigado Grupo Almedina!
Blog de Nei Duclós. Jornalismo. Poesia. Literatura. Televisão. Cinema. Crítica. Livros. Cultura. Política. Esportes. História.
Nei Duclós
Não me importo mais em enxergar
pouco. Ou misturar os sons
que já nem ouço. Ou ser chamado
de sonso. E não ter paciência
para o jogo que o dia obriga
na disputa do osso
No fundo é tudo esboço
de uma vida futura, pelo avesso
quando o mundo exaure enfim
seus hábitos e torna-se o que sempre foi
absurdo.
Por isso não se despeça quando eu estiver
morto. Não estarei no aeroporto
para te tratar de hóspede. Nem no funeral,
apenas o corpo. A alma também partirá
para um recomeço num lugar onde a memória
não possui passaporte
Estou pronto, aproveite que ainda sou
moço. E tenho esse dom à mostra
que é a palavra sem rebuços, arte
que aprimoro para dizer o que sinto
Nei Duclós
Nei Duclós
O corpo procura seu próprio caminho
O espaço de cura entre a flor e o espinho
A rima mais pura da sua poesia
O corpo reage no oculto cassino
Que rege a conduta de um jogo já visto
As fichas vendidas na sorte sem rumo
Talvez seja morte, talvez seja vida
E por milagre ele então ressuscita
Da coma na idade, sem assinatura
Aposta alegria quando tudo está sujo
Ou cede à medida que o tempo permite
O corpo é a palavra que dorme no fundo
E deixa que as falas façam tumulto
Um dia ela acorda no seu paraíso
E diz para Deus: sou tua profecia
Nei Duclós
Nei Duclós
O que eu guardo explode
O que mostro esqueço
Estou dividido
Entre a linha reta
E o labirinto
O que digo escrevo
O que apago começa
Em cada porta espio
No meio da estrada
me atiro
Refém do destino
Separo
Alguém me mostre
O caminho
Nei Duclós
Nei Duclós
Todos temos uma paixão secreta pela única estrela
Nem tanto pelo brilho que emana no tempo torto
Que a destaca perfeita no pobre firmamento
Feito de restos de corpos celestes e tristes satélites
Nem pela voz que entoa como anjo cantos gregorianos
Ou pela pele de seda que expõe em fotos nas praias remotas
Mas porque vemos nela a perdida e última chance
Do amor que nos devem
injustos pela vida inteira
E que nos negam por sermos ainda seres humanos
Desperdício de sentimentos anônimos sem pouso de aves que não voam
Nei Duclós
Nei Duclós
Há o risco de nada termos feito
No balanço de nossa vida inteira
A obra se esfuma junto aos dias
E o rastro, testemunha, não registra
Todo tempo serve para perdê-lo
Mas talvez seja essa a descoberta
O nada que fizemos é o que conta
Como adubo do plano para a esfera
Nei Duclós
Nei Duclós
Discuto o tempo todo com os objetos
A porta que bate com o vento e me encerra no quarto sem ar suficiente
As camisetas sempre do avesso por mais que você tente fazer certo
As roupas que nunca secam quando precisamos
Os talheres que caem no chão
O acúmulo de livros nas estantes
Os travesseiros desconfortáveis por vocação
O portão que não fecha
As janelas que não abrem
Os trincos que emperram
Os canos que pingam sem parar
O quintal que produz uma selva por mês
As paredes úmidas
As baterias que vivem no osso exigindo recarga
Os objetos são voluntariosos
Fazem o que querem
Sorte que não retrucam
Por enquanto
Nei Duclós
Nei Duclós
Enquanto houver lua
Haverá esperança
Mesmo que o rosto traia desconfiança
Mesmo que meu sonho ainda criança
Tenha medo de crescer
Se ela está firme no céu e se movimenta
Coordenando a desregrada rosa dos ventos
É porque assim está escrito nas estrelas
E nós pobres românticos
Somos reféns das marés e suas mudanças
Quando ela surge no quintal e tira um selfie
É porque ao mesmo tempo me garante
Que tudo está certo
mesmo que não aparente
Nei Duclós
Nei Duclós
Fazes ideia de mim pelo que escrevo
Sem saber o que guardo quando estou ao vivo
Portas fechadas, projetos suspensos
E brutais fantasias que não dão sossego
Flores do jardim são testemunhas
Que eu ignoro o cão e xingo os vizinhos
Ninguém me suporta no verão sem camisa
Nenhuma paciência com as mudanças do clima
Assim vives a ilusão do poema
Quem me dera ser esse ser tão seguro
Onde cada palavra evita a ruptura
Não deixe de amar o que diz a poesia
Mas tenha cuidado e não se aproxime
A não ser que nada mais te assuste
Amor que eu cultivo quando não tenho saida
Nei Duclós
Nei Duclós
Faço café para me dar sono
Pão de frigideira e a doce stevia
Daqui a pouco amanhece e estou inteiro
O dia desperta na segunda feira
Reporto meus hábitos noturnos
No ritmo que dou aos procedimentos
Ninguém tem nada com isso mas compartilho
Talvez porque faça companhia aos outros
Navego isolado no tempo a refeição
Que são os momentos sem nenhuma pompa
Como um soldado que divide a ração
Porque só assim haverá sobrevivência
Nei Duclós
Nei Duclós
Quem me quer não entra
Quem eu quero não alcanço
Sou da Criação o caroço
Contra-mão no trânsito
Faltou educação, no laço
Cresci fora do norte
Esboço de um mata-borrão
Seco a tinta da canção
feita de louça
Nenhuma palavra vale o esforço
Digo isso para te agradar,
perfeita moça
Defeitos que te fazem a cabeça
Nei Duclós
Nei Duclós
Faço música na surdez do mundo
Sílabas que não escutam
Canções em estádios ocultos
Sou o flautista que promete o abismo
E jura que existe uma ancestral melodia
Que tudo revela no horizonte mudo
Profunda poesia na harpa dos minutos
A partitura se desfaz na pauta das nuvens
Morre o eco que poderia ter dito
A provar a súmula jamais escrita
Componho como quem surta
Sem voz apesar de peregrino
Só alguns pássaros adivinham
E cercam tontos de voo
Meu ofício que teclo teimoso
Num órgão misterioso em catedrais do divino
Nei Duclós
Nei Duclós
Faço do jeito que eu quero
Esse é o meu trabalho
E não é desaforo
Nem expediente
Para espantar o sono
É o que aprendi
No tempo em que vivi sobre a terra
Muito já perdi
Na descida do morro
Mochila ficou para trás
Casa sem nenhum adorno
Hábitos de monge
Virtudes jogadas num canto
Apenas a livre expressão de um veterano
Estive na guerra, digo quando canto
Nei Duclós
Nei Duclós
Não lembro mais o teu nome
Nosso tempo evaporou-se
Cada época tem seu jeito de querer
Antes eram raízes, amor para toda vida
Hoje é fumaça, neblina
Amasso de balada
Feito só de palavras
Os corpos que se revelavam
Agora permanecem ocultos
Diziam que os românticos viviam de ilusão
Mas eram sonhos pautados por presenças
Nossos namoros nem isso mais são
Quem nos dera a doce ilusão
Pelo menos os poemas eram melhores
Nei Duclós
Nei Duclós
Procuro esquecer o sonho que tive
Não forço a memória na porta do outro mundo
O esforço poderá me trazer de volta
Algo que não tive e parece ter força
Cenas e personagens que se misturam na mente
Coisas bizarras, sinais ainda quentes
Vidas passadas e crimes possíveis
Nunca saberemos o que existe no éter
Prefiro a normalidade do sono profundo
Em que nada acontece e mergulho sem culpa
Moro num lugar onde não há mistério
E ninguém interfere, barulhos ou truques
Acordo onde dormi, natural vagabundo
Não pesquiso o destino oculto e do avesso
Não dependo de ti, presença da sombra
Basta ser um louco da minha literatura
Nei Duclós
Nei Duclós
Primeiros pássaros não adivinham qual é o dia da semana
Se vai chover ou o clima ficará ameno
Nem em que época do ano nós estamos
Só sabem que no amanhecer são eles que fazem planos
O grão que irão colher ou qual porção de grama
Vai abastecer o ninho ou o equilíbrio do voo
Nem podem adivinhar que a vida dure um só dia
E que não haverá mais a mínima chance
De novamente anunciar o sol que no levante
Acorda a terra para os pios de plumas flutuantes
Pássaros da primeira hora não possuem poder de mando
Apenas cantam como se não houvesse mais amanhã
Nei Duclós
Nei Duclós
Tenho palavras profundas para a tua dor
Que tocam músicas de um altar
Tiro de ti quando me confessas
O que guardas de amor em teu lugar
Tenho um coração que te ouve chorar
E aguarda que voltes de manhã
Quando Deus sem saber o que dizer
Te deixa ir em minha direção
Nei Duclós
Nei Duclós
Sombras que se movem
Capturadas no canto do olho
Algo os movimenta
Mundos ao nosso redor
Sem corpo
Tudo está aqui
Na moita
Versos que perdi
Conversas
Vozes que não ouvi
Teus beijos
Que procuro por aí
Nei Duclós
TEXTO LIMPO, INFORMAÇÃO PRECISA
Jornalismo é entregar o ouro na primeira frase. A informação mais preciosa, a sacada mais importante, a revelação mais contundente.
Fazer suspense, fingir mistério, anunciar para mais adiante, jogar para o próximo bloco: isso não é jornalismo, é dramaturgia barata.
O texto precisa ser limpo, com informação precisa, e não seco, burocrático, duro, repetitivo. A leitura deve escorrer, mas não como incontinência verbal.
O texto precisa ser reescrito até se tornar claro em relação ao que o jornalista conseguiu apurar e esclarecer. Não se passa enigma ao leitor.
Aconselhamento jornalistico cai na tentação de fazer média com novas gerações malhando veteranos. Diga a que veio e pronto. Dá trabalho.
Dois neurônios seriam suficientes para costurar textos das hard news se eles interagissem. Mas Tico e Teco agem por conta própria em direções opostas.
O que há é empilhamento de frases que repetem a informação já dada no título. Fica uma gosma.
Precisa ter mestre dentro da redação. A linhagem rompeu-se com a soberba dos paraquedistas que pousaram no jornalismo.
Nei Duclós
Nei Duclós
Poesia é o refúgio da palavra
Seu reduto antes da batalha
Do impulso que apaga o susto
Nessa gruta se crucifica
Implodindo em si mesma
Quando então se ressuscita
Poesia é quando a alma humana se cansa
E do próprio olhar se sustenta
Como águia no alto da montanha
De lá vislumbra o desespero em carne viva
Do teu passo torto na planície
Que procura a superfície onde Deus respira
Nei Duclós
Nei Duclós
Fico por ter dito coisas
Com valor ou não
Lembradas ou esquecidas
Mas terei um lugar
Depois do dilúvio
Que será de mar ou fogo
Mas que virá
Fico mesmo assim
Pois faço parte do vento e do pó das estrelas
Porque me dedico à criação
Desde o princípio
E não será o fim que decidirá o destino
Fico porque essa é a missão
De quem insiste
Em repartir o pão com toda gente
Fico porque ninguém e nada existe em vão
Nei Duclós
Nei Duclós
Marcamos o tempo com a mutação do corpo
Sabemos de que século somos
Quantas estações navegam em nosso rosto
E a migração dos ventos batidos em antigas roupas
Tudo se cansa com o avanço dos anos
Novas gerações são a cura para a idade doente da terra
Carregamos a herança que um dia recebemos
E passamos adiante
Como fazíamos na infância
Nos baldios jogos que nos treinavam para a vida
Nei Duclós
Nei Duclós
Idosos ficamos todos com a mesma cara
O cabelo ralo a pele lavada
O corpo redondo
As pernas finas
Olhos mortiços granulados
Ombros caídos gestos escuros
Disfarçamos tudo com a mesma indumentária
Bermuda e chinelo, camiseta regata
Óculos de praia pose de veterano
Lá vai o velho dizem os moços
Que perdem as garotas por serem brutos
Somos a última geração humana
Nei Duclós
Nei Duclós
Amanhece o meu amor com seus olhos dormidos
Tanto tempo longe e agora está comigo
Serena dorme firme nos lençóis de linho
Ocupa a nossa cama outrora tão vazia
Amanhece o meu amor, já não corro mais perigo
De viver só de ilusão refém da poesia
Ela é real como tarde de domingo
Em que íamos ao cinema na sessão das cinco
Para ver as palhaçadas dos pares românticos
Bobos como nós, de profundo visgo
Amanhece o meu amor que reencontrei por descuido
Numa foto perdida no oceano das mídias
Logo vi que eras tu, beldade do abismo
Que um dia foi embora com frieza de granizo
Choveram muitos anos até o apocalipse
E quando todos os sinais eram excessivos
Surgiste de repente sem nenhum aviso
Amanhece o meu amor, acorda já é dia
Diga que o sonho enfim se realiza
Aí posso sorrir o que jamais tinha esquecido
Nei Duclós
Nei Duclós
Descobrimos, tardios, que todos os ídolos
eram falsos e a História era outra
e que desperdiçamos fé e vidas em ideias
que não vingaram. E que ninguém tinha razão
pois em cada evento havia apenas osso,
pele e sobrevivência, e a sesta intercalada
pelos latidos das tardes sem sentido
E o mais trágico é que não soubemos
o que fazer com essa súbita revelação
e decidimos escolher o de sempre, a ilusão
de nos enxergar como criaturas lúcidas
quando nunca passamos de seres unicelulares
estimulados por luzes elétricas
em telas assistidas por monstros
Esquecemos que poderíamos virar o jogo
amarrando os sapatos das nuvens
beijando o vento, pintando flor de modo preciso
como fazem os técnicos quando erguem pontes
Poderíamos apenas amar nossos ofícios
e não debater jamais com ogros, e se definir
por rodas de verbos em sintonia, como no cosmo
Descobriríamos a chance de ignorar as armadilhas
e dar crédito a quem foi escolhido gênio
mas jamais é reconhecido, aquele professor maldito
o peão que sabia mecânica quântica sem decorar
as fórmulas, ou mesmo um menino, escritor
de versos em asas de borboletas e que usava o pólen
para inaugurar a perspectiva fora do cânone
Nei Duclós
Nei Duclós
Amor não tem conversa
Não discute relação
Amor é tiro e queda
Projeto de trem bala
Trilha na cordilheira
Lavagem de vulcão
Você diz corta essa
Quando falo do futuro
Amor nunca se importa
Impacto de gigante
Lixo da solidão
É namorador de rua
Amor fica por fora
Vive só por um instante
Depois passa pelo espaço
Nei Duclós
Nei Duclós
Só ao amor presto juramento
Por ser sagrado e precisa tempo
Não que eu vá assinar um documento
Basta o dever de segurança
a quem ponho debaixo do braço
Ando miudinho com passo arisco
Atento à princesa, quase rainha
Não sou príncipe, não tenho berço
E ser consorte não me reserva o trono
Melhor assim, vivo de brisa
Qualquer poesia é o meu sustento
Por isso ela me quer, entre tantos
Porque não faço questão de promessas
Basta o amor, a quem dou o exemplo
Primeiro entre os pares, sou firme veterano
Cavaleiro de letras e romance
Dono de si, mas servo de quem amo
Nei Duclós
Nei Duclós
Segunda feira de febre na cidade vazia
Tarde de domingo sem ninguém por perto
A não ser tua presença no mesmo quarto
Cama de suor, corpo em desalinho
Memória de um tempo de calor extremo
Sou o verão que passa tremendo
de olho o tempo todo
em teus íntimos recatos
Maiô inocente, convite à vontade
Saída do banho, toalha molhada
Metro e meio de pernas no moço covarde
Poço de mel na descoberta
Depois da tesão a cara mais séria
Uma aula de tango apertando a cintura
Do que é feita a mulher, delicia e tortura?
Nei Duclós
Nei Duclós
Quando te conheci
Fui habitado por um anjo
Não cometi mais meus erros comuns
E minhas palavras abraçaram a virtude
Rias de mim
E isso te conquistou
Princesa de um reino inexistente
Já que o poder fugiu da tua família
És herdeira de um trono de sonho
E eu o consorte temporão
A corte está em pânico, mas sem motivos
Não há mais nada a roubar a não ser o prestígio
E esse defenderei sem usar uniforme
Apenas sendo teu, majestade
Nei Duclós
Nei Duclós
Há tempos não via uma estrela
Estrela é um
sinal depois das tormentas
Dessas que duram semanas e esquecemos
Do teu brilho firme que existe
Desde antes da invenção do fogo
São poucas estrelas
porque ainda há nuvens
E pontificam em pontos extremos
Lá no poente, onde o céu se curva
para tocar a terra
Ou a pino
seguindo a rota dos aviões de carreira
Muito prazer, digo meio tonto
Sou aquele de cabeça baixa
Envolvido em pesadelos
Olho para cima e te vejo
Estás distante, mas nunca indiferente
Iluminas nosso corpo
te devemos um presente
Toma, um poema
Ora, direis
Essa arte eu conheço
Nei Duclós