18 de janeiro de 2024

ILUSÃO

 Nei Duclós 


Não lembro mais o teu nome

Nosso tempo evaporou-se

Cada época tem seu jeito de querer

Antes eram raízes, amor para toda vida

Hoje é fumaça, neblina

Amasso de balada

Feito só de palavras

Os corpos que se revelavam

Agora permanecem ocultos


Diziam que os românticos viviam de ilusão 

Mas eram sonhos pautados por presenças 

Nossos namoros nem isso mais são 

Quem nos dera a doce ilusão 

Pelo menos os poemas eram melhores


Nei Duclós

15 de janeiro de 2024

SOMBRA

 Nei Duclós 


Procuro esquecer o sonho que tive

Não forço a memória na porta do outro mundo

O esforço poderá me trazer de volta

Algo que não tive e parece ter força


Cenas e personagens que se misturam na mente

Coisas bizarras, sinais ainda quentes

Vidas passadas e crimes possíveis

Nunca saberemos o que existe no éter


Prefiro a normalidade do sono profundo

Em que nada acontece e mergulho sem culpa

Moro num lugar onde não há mistério 

E ninguém interfere, barulhos ou truques


Acordo onde dormi, natural vagabundo

Não pesquiso o destino oculto e do avesso  

Não dependo de ti, presença da sombra

Basta ser um louco da minha literatura


Nei Duclós

13 de janeiro de 2024

CANTORES DO LEVANTE

 Nei Duclós 


Primeiros pássaros não adivinham qual é o dia da semana

Se vai chover ou o clima ficará ameno

Nem em que época do ano nós estamos


Só sabem que no amanhecer são eles que fazem planos

O grão que irão colher ou qual porção de grama

Vai abastecer o ninho ou o equilíbrio do voo


Nem podem adivinhar que a vida dure um só dia

E que não haverá mais a mínima chance

De novamente anunciar o sol que no levante

Acorda a terra para os pios de plumas flutuantes 


Pássaros da primeira hora não possuem poder de mando

Apenas cantam como se não houvesse mais amanhã 


Nei Duclós



10 de janeiro de 2024

CONFISSÃO

 Nei Duclós 


Tenho palavras profundas para a tua dor

Que tocam músicas de um altar

Tiro de ti quando me confessas

O que guardas de amor em teu lugar


Tenho um coração que te ouve chorar 

E aguarda que voltes de manhã 

Quando Deus sem saber o que dizer

Te deixa ir em minha direção 


Nei Duclós

3 de janeiro de 2024

SOMBRAS

 Nei Duclós 


Sombras que se movem

Capturadas no canto do olho

Algo os movimenta

Mundos ao nosso redor

Sem corpo


Tudo está aqui

Na moita 

Versos que perdi

Conversas

Vozes que não ouvi

Teus beijos

Que procuro por aí 


Nei Duclós

30 de dezembro de 2023

 TEXTO LIMPO, INFORMAÇÃO PRECISA


Jornalismo é entregar o ouro na primeira frase. A informação mais preciosa, a sacada mais importante, a revelação mais contundente.


Fazer suspense, fingir mistério, anunciar para mais adiante, jogar para o próximo bloco: isso não é jornalismo, é dramaturgia barata.


O texto precisa ser limpo, com informação precisa, e não seco, burocrático, duro, repetitivo. A leitura deve escorrer, mas não como incontinência verbal.


O texto precisa ser reescrito até se tornar claro em relação ao que o jornalista conseguiu apurar e esclarecer. Não se passa enigma ao leitor.


Aconselhamento jornalistico cai na tentação de fazer média com novas gerações malhando veteranos. Diga a que veio e pronto. Dá trabalho.


Dois neurônios seriam suficientes para costurar textos das hard news se eles interagissem. Mas Tico e Teco agem por conta própria em direções opostas.


O que há é empilhamento de frases que repetem a informação já dada no título. Fica uma gosma.


Precisa ter mestre dentro da redação. A linhagem rompeu-se com a soberba dos paraquedistas que pousaram no jornalismo.


Nei Duclós

28 de dezembro de 2023

IMPULSO

Nei Duclós 


Poesia é o refúgio da palavra

Seu reduto antes da batalha

Do impulso que apaga o susto


Nessa gruta se crucifica

Implodindo em si mesma

Quando então se ressuscita


Poesia é quando a alma humana se cansa

E do próprio olhar se sustenta

Como águia no alto da montanha


De lá vislumbra o desespero em carne viva

Do teu passo torto na planície 

Que procura a superfície onde Deus respira


Nei Duclós

FICAR

 Nei Duclós 


Fico por ter dito coisas

Com valor ou não

Lembradas ou esquecidas

Mas terei um lugar 

Depois do dilúvio 

Que será de mar ou fogo 

Mas que virá 


Fico mesmo assim

Pois faço parte do vento e do pó das estrelas

Porque me dedico à criação 

Desde o princípio

E não será o fim que decidirá o destino


Fico porque essa é a missão 

De quem insiste

Em repartir o pão com toda gente


Fico porque ninguém e nada existe em vão 


Nei Duclós

23 de dezembro de 2023

JOGOS

 Nei Duclós 


Marcamos o tempo com a mutação do corpo 

Sabemos de que século somos 

Quantas estações navegam em nosso rosto

E a migração dos ventos batidos em antigas roupas


Tudo se cansa  com o avanço dos anos

Novas gerações são a cura para a idade doente da terra


Carregamos a herança que um dia recebemos

E passamos adiante

Como fazíamos na infância

Nos baldios jogos que nos treinavam para a vida


Nei Duclós

20 de dezembro de 2023

GERAÇÃO

 Nei Duclós 


Idosos ficamos todos com a mesma cara

O cabelo ralo a pele lavada

O corpo redondo

As pernas finas

Olhos mortiços granulados

Ombros caídos gestos escuros


Disfarçamos tudo com a mesma indumentária 

Bermuda e chinelo, camiseta regata

Óculos de praia pose de veterano


Lá vai o velho dizem os moços

Que perdem as garotas por serem brutos

Somos a última geração humana


Nei Duclós

18 de dezembro de 2023

AMANHECE

 Nei Duclós 


Amanhece o meu amor com seus olhos dormidos

Tanto tempo longe e agora está comigo

Serena dorme firme nos lençóis de linho 

Ocupa a nossa cama outrora tão vazia 


Amanhece o meu amor, já não corro mais perigo

De viver só de ilusão refém da poesia

Ela é real como tarde de domingo

Em que íamos ao cinema na sessão das cinco

Para ver as palhaçadas dos pares românticos 

Bobos como nós, de profundo visgo 


Amanhece o meu amor que reencontrei por descuido

Numa foto perdida no oceano das mídias

Logo vi que eras tu, beldade do abismo  

Que um dia foi embora com frieza de granizo


Choveram muitos anos até o apocalipse

E quando todos os sinais eram excessivos

Surgiste de repente sem nenhum aviso


Amanhece o meu amor, acorda já é dia

Diga que o sonho enfim se realiza

Aí posso sorrir o que jamais tinha esquecido


Nei Duclós

14 de dezembro de 2023

FORA DO CÂNONE

 Nei Duclós 


Descobrimos, tardios, que todos os ídolos

eram falsos e a História era outra

e que desperdiçamos fé e vidas em ideias

que não vingaram. E que ninguém tinha razão

pois em cada evento havia apenas osso,

pele e sobrevivência, e a sesta intercalada

pelos latidos das tardes sem sentido


E o mais trágico é que não soubemos

o que fazer com essa súbita revelação

e decidimos escolher o de sempre, a ilusão

de nos enxergar como criaturas lúcidas

quando nunca passamos de seres unicelulares

estimulados por luzes elétricas

em telas assistidas por monstros


Esquecemos que poderíamos virar o jogo

amarrando os sapatos das nuvens

beijando o vento, pintando flor de modo preciso

como fazem os técnicos quando erguem pontes

Poderíamos apenas amar nossos ofícios

e não debater jamais com ogros, e se definir

por rodas de verbos em sintonia, como no cosmo


Descobriríamos a chance de ignorar as armadilhas

e dar crédito a quem foi escolhido gênio

mas jamais é reconhecido, aquele professor maldito

o peão que sabia mecânica quântica sem decorar

as fórmulas, ou mesmo um menino, escritor

de versos em asas de borboletas e que usava o pólen

para inaugurar a perspectiva fora do cânone


Nei Duclós

10 de dezembro de 2023

IMPACTO

 Nei Duclós 


Amor não tem conversa

Não discute relação 

Amor é tiro e queda


Projeto de trem bala  

Trilha na cordilheira

Lavagem de vulcão 


Você diz corta essa

Quando falo do futuro

Amor nunca se importa


Impacto de gigante

Lixo da solidão 

É namorador de rua


Amor fica por fora

Vive só por um instante

Depois passa pelo espaço 


Nei Duclós

4 de dezembro de 2023

CAVALEIRO

 Nei Duclós 


Só ao amor presto juramento

Por ser sagrado e precisa tempo

Não que eu vá assinar um documento 

Basta o dever de segurança 

a quem ponho debaixo do braço 


Ando miudinho com passo arisco

Atento à princesa, quase rainha

Não sou príncipe, não tenho berço 

E ser consorte não me reserva o trono

Melhor assim, vivo de brisa

Qualquer poesia é o meu sustento


Por isso ela me quer, entre tantos

Porque não faço questão de promessas

Basta o amor, a quem dou o exemplo

Primeiro entre os pares, sou firme veterano

Cavaleiro de letras e romance

Dono de si, mas servo de quem amo


Nei Duclós

DESCOBERTA

Nei Duclós 


Segunda feira de febre na cidade vazia

Tarde de domingo sem ninguém por perto

A não ser tua presença no mesmo quarto


Cama de suor, corpo em desalinho

Memória de um tempo de calor extremo

Sou o verão que passa tremendo

de olho o tempo todo

em teus íntimos recatos


Maiô inocente, convite à vontade

Saída do banho, toalha molhada

Metro e meio de pernas no moço covarde 


Poço de mel na descoberta

Depois da tesão a cara mais séria 

Uma aula de tango apertando a cintura

Do que é feita a mulher, delicia e tortura?


Nei Duclós

1 de dezembro de 2023

MAJESTADE

 Nei Duclós 


Quando te conheci

Fui habitado por um anjo

Não cometi mais meus erros comuns

E minhas palavras abraçaram a virtude 


Rias de mim

E isso te conquistou 

Princesa de um reino inexistente

Já que o poder fugiu da tua família 

És herdeira de um trono de sonho

E eu o consorte temporão 


A corte está em pânico, mas sem motivos

Não há mais nada a roubar a não ser o prestígio

E esse defenderei sem usar uniforme

Apenas sendo teu, majestade 


Nei Duclós

ESTRELA

 Nei Duclós 


Há tempos não via uma estrela

Estrela é um

sinal depois das tormentas

Dessas que duram semanas e esquecemos

Do teu brilho firme que existe

Desde antes da invenção do fogo 


São poucas estrelas

porque ainda há nuvens

E pontificam em pontos extremos

Lá no poente, onde o céu se curva

para tocar a terra

Ou a pino

seguindo a rota dos aviões de carreira


Muito prazer, digo meio tonto

Sou aquele de cabeça baixa

Envolvido em pesadelos


Olho para cima e te vejo

Estás distante, mas nunca indiferente

Iluminas nosso corpo 

te devemos um presente 


Toma, um poema

Ora, direis

Essa arte eu conheço 


Nei Duclós

27 de novembro de 2023

AURORA

 Nei Duclós 


Fiz por amor e isso me basta

Mesmo que digam tudo ao contrário 

E eu vire mendigo nas ruas da praia

E seja esquecido no ardor literário 


Fiz porque quis, teimoso ordinário 

Contra o destino seguro dos pares

Cruzei o mar em canoa furada

Beijei a lona ao cair do trapézio 


Fiz para ver o que havia de sério 

Fingindo sorrir na brutal plateia

Sou aprendiz de velhas escolas

Estudei latim nas cadeiras de lata


Agora estou pronto para entrar no baile

Onde me esperas ansiosa e tão bela

Contando nos dedos os dias que faltam

Para eu inventar o momento da aurora 


Nei Duclós

SOMOS O TEMPO

 Nei Duclós 


O tempo somos nós, precários datados

Por um tempo acreditamos na eternidade

Até que o tempo girou a aldrava

E fomos confinados no tempo sem volta 


O tempo são os outros, presenças de glória

Arroubos de portentos, geniais boquirrotos

Nada os derruba em sua fome maleva

Nem mesmo o vento que sopra do polo


O tempo é a infância moleque de feira

Que cresce e vira gente, tirano de aldeia


Agora estou sem tempo para tanta história 

Dizem que me repito mas é moeda de troca

Falo o que o tempo me dá em memória 


Sou do tempo que existia o

jogo de bola

No terreno baldio das calçadas pobres


Nei Duclós 


CÉU DA TERRA

 Nei Duclós 


Ganhamos a vida para perdê-la 

Lutamos por ela até o osso

Nos afogamos com água no pescoço 

Não desistimos de viver por nada

Achamos ser eterno plantar no sal grosso

Falamos de amor então ficamos velhos

Surra de relho, bruto ferimento


Só tu, que veio da terra que o céu promete

Faz valer a pena esse fuzilamento 


No último amanhecer é que sabemos

Diante dos algozes o quanto somos firmes

No tempo que nos coube em guerras de extermínio


Nei Duclós

26 de novembro de 2023

TROVA

 Nei Duclós 


Guarde segredo

Num lugar seguro

O frágil  brinquedo

Desse amor tão  puro


A trova é uma forma

De fazer poesia

Que o povo aprova

Para que todos entendam


Disfarce perfeito

Para quando o perigo

Ronda as palavras

Com a lei da censura 


Parece inocente

A crítica dura

O verso chocante 

Fazendo firula


Fica divertido

Dizer no ouvido

Aquilo que grita

E que foi proibido


Nei Duclós

23 de novembro de 2023

GIGANTE

 Nei Duclós 


De repente comecei a crescer 

Não falo do menino que vira adulto 

Mas do idoso que dobra de tamanho 

E precisa mudar de casa

Sair do subúrbio para se esconder no ermo   


Assim mesmo me cercaram

Criaram o turismo do gigante 

Jogavam-me frutas que não me satisfaziam

Precisava de proteína para segurar a barra


E assim vivi, atração num zoo de meliantes

Até que me reduzi ao velho metro e oitenta


Ninguém entendeu nem explica

Esse fenômeno besta

Acho que foi excesso de poema


Nei Duclós

PODER DAS PALAVRAS

 Nei Duclós 


Jamais ponha palavras na boca das palavras

Elas se seguram por si próprias 

São o que dizem e não arriscam

Armadilhas do sexto sentido 


Não se dedicam a transes mediúnicos

A valsas nas entrelinhas

Falam sem inúteis conflitos

Sem falsas intenções ou mera filosofia


Palavras não prestam contas

A fóruns privilegiados

Nem se sujam pela popularidade


Também não fazem parte

De ágapes exclusivos

Não apostam nas finanças 

Ou perdem tempo com a idade 


As palavras são palavras

São feras ao relento

Mordem a lua e te prendem

Com seu poder de sementes


Nei Duclós

20 de novembro de 2023

VIAJANTE

 Nei Duclós 


Basta a minha palavra

Para evitar teus cuidados 

Tuas sinceras dúvidas

em estado de dicionário 


Meus sumiço por um tempo

Te deixa cheia de dedos

Traição, dizes, ou então 

Trabalhas na espionagem 


É o excesso de cinema

Que gera a imaginação 

Não participo da guerra

Nem faço filmes de ação


Sou um caixeiro viajante

Pelos confins do sertão

Vendo roupa de senhoras 

Sob a mira de facão


São maridos desconfiados

Como se eu fosse ladrão 

Não tenho culpa se atraio

Com as rendas da ilusão 


Peço que me compreendas

Trabalho em pleno calor 

Por ti eu guardo dinheiro

Para casar por amor.


Nei Duclós

18 de novembro de 2023

UTOPIA

 Nei Duclós 


De tudo me afastei, filho da tempestade

Obedeci a lei de quem criou o mundo

Varreu-me o vento fora da cidade

Em frente ao mar soltei minhas amarras


Não fui eu quem compôs as profecias

Nem guardei os textos em antigos jarros

Nas grutas do deserto por pastores de cabras 


Mas soube desde sempre ser predestinado

A esquecer o mundo perdido na utopia

Para repor a palavra da grave humanidade 

A mesma que acordou antes que fosse tarde


Sou o sujeito sem História 

Meu alimento é o grão e a pura água 

Escute se quiser, ainda há margem

Traga um coração, que está fazendo falta


Nei Duclós

16 de novembro de 2023

A HORA

 Nei Duclós 


Quando não sentir mais conforto em me deitar

E nenhuma fantasia me satisfizer 

E perder o sentido ao acordar 

Sem ter motivos no entardecer

E os dias repetidos em rotinas de dor


Saberei que chegou a hora, meu amor


Vou fazer as malas para te buscar 


Fique onde está,

Que eu chegarei,

gloriosa flor


Nei Duclós

12 de novembro de 2023

DESPERTAR

 Nei Duclós 


A Criação não é medida em dias da semana

Mas em rodízio de infinitos

De um tempo randômico desumano

Entre pedras, água, areia, luz, vento e bichos.


Manhã clara e cristalina

Convite ao convívio

Céu limpo, mudos ruídos

E a lua de dia transparente

Pingente, que assina

Um novo armistício


Novembro começa para valer 

Alma de menino


Nei Duclós

VERDADE

 Nei Duclós 


Contarão esta história mil vezes

Mas não da minha maneira

Que é a verdade à vontade verdadeira

Sagrada e secreta

Para ser lida agora, no futuro

 

Pode parecer mais uma mentira

Uma versão sem vez na arena

Mas é o que eu sei

Do final dos tempos


Ora, direis 

Ouvir profetas


Nei Duclós

PROMESSA

 Nei Duclós 


Nada pode o poema contra a bomba

O verso não impede a ação do fogo

Soneto não resgata a esperança 


Talento não cicatriza os pontos

A inspiração foi posta fora de alcance

Literatura não serve de consolo

Profecias são tragadas pelo incêndio 


Abaixo do chão, roemos as raízes

De uma danação de loucos testamentos 

Não faz falta a canção amiga

Só existe o show da indiferença 


Os anjos que sopravam poesia

No ouvido de quem acreditava

No poder da palavra ainda viva

Estão hoje todos ocupados  

Em salvar o que sobra do destino


Tudo queima, as cidades, a mata e o Atlântico 

O mar sofre a crise de confiança 

A justiça foi chutada para o lixo


Não me peça estrofes sorridentes

Nem me cobre por não fazer denúncia 

Sou da massa de sobreviventes

Guardo na memória um novo tempo


Promessa que não se realiza

Mas espera no ventre o que se cumpre


Nei Duclós

8 de novembro de 2023

BRINQUEDO

 Nei Duclós 


A palavra é meu brinquedo

Chocalho ainda no berço 

Trem andando no tapete

Futebol entre paredes


A palavra é meu coelho 

Cartola em circo mambembe

Gibi trocado em cinema

Revólver que mete medo


A palavra fica à margem

No caderno de poemas

Posso inventar as paisagens

Falsa história de mim mesmo


A palavra impressiona

Parece real e ter peso

Mas basta um gesto mais tenso

Para sumir para sempre


Fica um verso, um soneto

No ar como pluma ao vento

Para gerar nova gênese 

Feita por Deus, que é poeta


Nei Duclós