7 de abril de 2023

URGÊNCIA

 Nei Duclós 


Faço poesia como quem procura água em campo aberto

Com a forquilha da intuição e o passo incerto

Preciso matar a sede do rebanho

Detalhes de uma arte que não tem tamanho

Só a sorte poderá apontar a direção exata

Onde encontrar o rio subterrâneo


Tenho urgência pois temo o domínio do deserto 

Fatídico desejo de quem já é dono da montanha

Hoje tomada de urzes quando antes era festa


Nei Duclós

SEXTA-FEIRA

 Nei Duclós 


Águas de abril inauguram o friO

 verão é passado, o inverno por um fio

O ano avança numa procissão de horror 

Deus crucificado, a prece sem remédio 


A compaixão no andor da misericórdia 

A mãe chora pedra na arte da Pietà 

A morte é completa na gruta da fé 


As três em ponto da tarde 

O linho abrigou o corpo sem sangue

Começou assim o manto redivivo

A dor gerou o sonho e o amor veio da água


Nei Duclós

DESTINO

 Nei Duclós 


Fui escolhido por tuas mãos de seda

Teu olhar profundo como um crepúsculo 

Enlaçado por pernas de mármore 

Impregnado pelo perfume de fêmea 


Fui aplicado como obra do destino

Impossível escapar desse abraço nobre

Não previ o alcance de tanto rodízio 

Espiral do amor e do prazer livre


Fui ensinado a ser refeição e abrigo 

Homem de verdade, grão de uma conquista

Lavoura sem conflito,  colheita além da vida


Virei criatura no tempo do convívio

Por teu rosto de flor amiga

Pela mulher madura, sal, pote de açúcar 

Era para me perder, mas por ti fui escolhido


Nei Duclós

5 de abril de 2023

VIDAS

Nei Duclós 


Vida normal, afora a fantasia

Onde vivo o que não devia

Viagens sem destino certo

Amores em situações limite


Vida brutal, afora a poesia

Palavras cerzidas em parede fria

Vantagens de um falso heroísmo


Vida mortal, afora a biografia

Minha estátua de barro em rua mendiga

Tempo terminal, mas sem fim do caminho


Nei Duclós

3 de abril de 2023

CORREDOR

 Nei Duclós 


Levam a sério quando sou farsante

Tratam como se eu fosse adulto pronto

Pleno de uma identidade aceita 


Mas nem eu mesmo sei que tipo represento

Migro do sonho para outro mistério 

Diga o que vês e eu acrescento

Não existo nestes exatos quadrantes


Fugi dos limites do cânone 

Depois de nele entrar, corredor sem fôlego

E viver atirado não faz nenhum sentido

Tenho um pé na nuvem, outro no centro

Vivo de favor no mundo intolerante


Nei Duclós

2 de abril de 2023

DIA DE DOMINGO

 Nei Duclós 


Ĺevamos os ramos para benzer na igreja

E depois colocar atrás do espelho

Para afastar tempestades

E nos proteger dos raios

Mantendo a fé no poder da divindade


A cidade era inundada pela multidão 

Todos eram católicos

E a infância agradecida voltava para casa

Cada um de nós  com o ramo sagrado


Deus tinha chegado


Nei Duclós

CLARIM

 Nei Duclós 


Chuto o balde, mas ele está vazio

Sem nada que pudesse repercutir

O som é  oco, eco do grito que abafei 


Cavei a solidão por ser assim

Letra de metais em roupa de algodão 

Clarim que evoca o silêncio numa procissão


Falta fechar esta voz de baque surdo

Com a palavra terminal da poesia 


 Nei Duclós

ARMADURA

Nei Duclós 


Tirei da poesia o que ela tinha

Para ver o que havia dentro dela

Objetos diversos, quinquilharias

Letras de forma sem formar sílabas

E um ruído de cosmo antes do início


Optei por recolher alguns vestígios

Da arte que até então eu conhecia

Mas não pude armar qualquer sentido

Perdi a embocadura, vi-me no limbo 

Costurando a linha de uma crise


O tonel do poema estava cheio

Deveria aguardar o acontecido

E não sofrer com a abstinência

Própria dos pobres arrivistas


Agarrei-me a um soneto bem antigo

Romântico, que trazias na bagagem

E assim recuperei a epifania

De continuar a partir do que Deus fia

E não romper o selo da armadura

Que a natureza em nós providencia


Nei Duclós

NA TRILHA

 Nei Duclós 


A imaginação torna-se fato pela poesia

Invento assim a realidade que me foi negada

E vivo nela, como pássaro no ninho


Quem dirá que não existe esse registro

Se sou eu que cruzo a ponte e pulo o muro?


No poema é a mesma coisa, todos buscam

Não a fuga, mas a cura, o fôlego justo

Onde se possa respirar um ar mais puro


Alienação! me acusam com virtudes

Mas sigo em frente abrindo bruto

Espaços na trilha selvagem e obscura


Nei Duclós

1 de abril de 2023

CRIME

 Nei Duclós 


Não tenho onde guardar tanto livro 

Eles despencam, não lidos

Se escondem, tímidos

Somem, fugitivos


Nos armários assumem bizarras serventias

São escoras de louças finas

Sustentam pacotes de farinha

Se espalham por quarto e cozinha


Joga fora, me dizem

Não posso, alguns foram escritos por mim

Só que não localizo mais

O ponto exato do crime 


Nei Duclós

MAQUIAGEM

 Nei Duclós 


Sem dar bandeira  você gosta do poema

Encontras nele pistas dos teus segredos

Podes posar direita em salas  cheias

Mas dentro de ti arde o que te escrevo

Na íntima solidão do teu desejo


Bastaria dizer-me o que eu já adivinho

Fantasia de amasso sem que ninguém veja

Consertas no espelho a maquiagem desfeita

E voltas para as tuas conversas


Alguém nota algo na sobrancelha

Disfarças dizendo que não é nada

De longe observo tua falta de jeito 

Fêmea em fogo, comprometida até o osso


Nei Duclós

29 de março de 2023

SOBERANO

 Nei Duclós 


Ainda está escuro quando os passarinhos começam a se manifestar

Acendendo pequenas fogueiras de pios nas árvores da beira mar

Sentem a proximidade do sol, soberano

Com seu plano de despertar na noite

O poderoso incêndio do seu corpo, monstro misterioso


O canto tímido emplumado sabe o seu lugar

Anuncia por vocação o dia que está por chegar

Tomado pelo movimento de um gigante de fogo

Que por misericórdia é brando

Depois da surra que deu na terra no começo do ano 


Até quando será bom a inventar a vida?

Junto com as aves rezo na vigilia. 

Piedade, Senhor

MADELEINE

 Nei Duclós 


Amamos de memória

No mapa dos corpos isolados

O sabor da madeleine

O doce cheiro que foi embora

Marcas do toque em tua flora

Trilhas jamais repetidas

Namoros que viraram pó


A brisa em tua penugem.

Cabelos que descem aos pés, ninfa gloriosa

E a falta que faz teu rosto proximo

Em minha inútil obra


Nei Duclós

DOCUMENTO

 Nei Duclós 


Eu já fui uma pessoa

Hoje sou tombo de Outono

Poema escrito no joelho

E publicado à toa

Antologia de riscos

Rosto de rua tardia


Eu já fui e hoje sou

Folha do vento morno

Enquanto segue no arranque

De uma estação esquecida

Do verão que a antecede


Não serei mais o verbo

Que inaugurou novo espaço 

Ocupo o centro do drama 

Vivo de alegorias

Animo o fim e uma festa


Sou pessoa na essência 

Não tenho o que identifica

Veja no docunento

As sobras da poesia


Nei Duclós

26 de março de 2023

SORTE

 Nei Duclós 


Você fala por flores

Não importa nome, cor ou perfume

Você fala por flores


Amor no lugar do ciúme 

Gesto em vez de palavra

Na entrega e não na conquista

Força do abraço suave


Você fala por flores

Guardas a dor e o teu luto

Queres viver sem ter medo

Sem trair o sentimento

De perda e corpo em conflito


Você fala por flores

Modo alto da alegria 

Todos entendem

Não precisas do discurso 


Já preparei o jarro

Já revolvi o canteiro

Adubei com a esperança 

Reguei com água de cheiro


Você fala por flores

Que sorte, Deus, que eu tenho


Nei Duclós

25 de março de 2023

OUTONO

Nei Duclós 


Outono chega, mesmo que o verão, irmão mais moço 

Espiche a estação do sufoco 

E torne tardio o clima doce

O frio que nos liberta do calorão em pele e osso


Outono é o coração do ano

Sua pulsação, seu abandono

Encontro que vira adeus

Janela de trem em cais do porto 


É quando vens, no colo do sonho

Braço de mim, saída de banho

A dormir comigo, depois do tombo

Da fruta que cai ao desistir da planta que a sustenta

E se aninha em fogo brando 


Nei Duclós

ESFORÇO

 Nei Duclós 


Você chega lá, mas a que custo

E nem usufrui os frutos 

que são teus

E somem em mãos alheias


O semeador anônimo 

Só tem Deus por testemunha

Do cultivo feito por vocação e sem retorno

A não ser ver que seu esforço 

É caroço em ti e polpa em outro sitio 


Nei Duclós

TRÊS PRINCESAS

 Nei Duclós 


Três princesas prisioneiras

Em idade para casar

Tem um pai que é uma fera

Que se chama Valdemar


Marina, Flor e Teresa

Não conseguem namorar 

Cuidado quem por lá chega

Com intenções de pousar


Não bula com meu sossego

Diz o guardião do solar

Não importa que as morenas

Estejam cheias de gás 


Três princesas prisioneiras

Abertas de par em par

Aguardam dias de festa

Enquanto estão a rezar


Nei Duclós

MISTÉRIOS

 Nei Duclós 


Será que levamos as dores para o outro mundo?

Chagas da Cruz em corpo ressuscitado?

Gemidos no escuro, feridas da memória?

Citaras de anjos consolarão enfermidades

da alma impura pela passagem terrena?


Sentiremos necessidades de medicina?

Um leito no paraíso, uma temporada nas nuvens?


Quem trocará os curativos onde não há mais sangue?

E qual bisturi cortará a falta de corpo?

Quem gritará conosco pela cura que tarda?


Nossos passos em corredores escuros 

Evocarão mistérios? 

E quem dará alta para enfim chegarmos a Deus

Como garotos de rua que se atrasam para o almoço 

Sujos e suados, mas com fome ?


Nei Duclós

24 de março de 2023

ROMPER

 Nei Duclós 


Separação também é luto 

Vestir preto por um longo tempo

Depois do adeus, quando o tempo para

Sem túmulo para visitar, como na pandemia

A vala comum do desperdício

A vida sem força para ir em frente

A dose de paixão socada na estante

E o amor, o amor...

Deixa para lá 


Nei Duclós

22 de março de 2023

NO ESTÁDIO

 Nei Duclós 


Só então eu notei

Teu rosto todo voltado para mim

Teu olhar como um céu estrelado

Sentada na fileira da frente do estádio 


Minha atenção era nas provas

Nos jogos do gramado

Mas súbito por um instante

a multidão silenciou

E eu vi o que o amor aprontou 

Enquanto eu virava para o lado


Tínhamos em comum

A vida em eterna observação 

Eu distraído com as palavras

Tu sozinha como vítima de um temporal 


O dia desceu sobre nós 

Como um pássaro azul depois do incêndio


Nei Duclós

VIDA

 Nei Duclós 


Vida é o que esquecemos

E ressurge pontual

Em alguns momentos


Vida é o que não temos

Na memória morta 

e seus venenos


Vida é o que não vemos

O amor que assassinamos

Por sermos cegos

O tempo todo


Vida é o que resta

Este poema

E teu corpo úmido 

De desejo


Ainda assim conservo

Essa vontade seca

De viver mais longe

Porque a alma cava no escuro

Por destino manifesto


Vida é o tesouro

Que depois de viver

Em vão procuramos


Nei Duclós

ESCAPE

 Nei Duclós 


Não cabe o poema na abordagem alheia

Não por incapacidade de quem não compreende 

Mas porque o verso sobra e dribla o esquema 

Não por genialidade de quem escreve

Mas porque o verbo sempre escapa pelas reticências 


Não há mistério 

É apenas arte fora da encomenda


Nei Duclós

PERSONAGEM

 Nei Duclós 


Sinto vergonha do papel que desempenho

Neste drama de erros em teatro de segunda

Vilão a maior parte do tempo

Tropeço na biografia de dispersa rede

Precoce terminal, vândalo do tempo


Um dia fui herói, mas era só um roteiro

Aprovado previamente pelo ego pleno

Tudo é um mal entendido, fechem as cortinas

Foge o personagem diante do espelho


Nei Duclós

11 de março de 2023

O MELHOR DE MIM

 Nei Duclós 


O melhor de mim está na madrugada

Salas escuras quintais com lua

Fantasia no lugar das armadilhas

Deita comigo o acervo da doçura


O dia ainda não voltou da rua

Está na balada tomando todas

O tempo adia o toque da alvorada

O amor aproveita o breu e sonha


O melhor de mim pousa no silêncio

Para ouvir teus passos mas recusas

Único defeito que comete a musa

Levar o coração e sumir para sempre


Nei Duclós

10 de março de 2023

GARIMPO

 Nei Duclós 


O amor é uma promessa 

Das garimpeiras do ouro

Cavocam com saias rotas

No barro das amazonas


Procuram o veio mais fundo

Onde se esconde o tesouro

Corações que já se foram

Alianças de um tempo novo


Elas descartam palavras

Que formam um pedregulho

Lavam montanhas de sonho 

Com as mãos sujas de sangue


Garantem com seu orgulho

Momentos de corpo humano

Que ainda ficam ocultos

Em barrancos do futuro


Nei Duclós

PEDIDO

 Nei Duclós 


Só sou feliz contigo, ela me disse

Pedindo para eu ficar


Aceitei, sem noção do perigo


Mulher é sentinela de um anjo caído 

O amor, que nunca faz sentido


Nei Duclós

CAVALO BRANCO

 Nei Duclós 


Estou disponível para o amor que me acompanha

Seja qual for a idade, rústica fantasia

Embrulhada em poesia ou notas ao pé da página 

No corredor ou na sala, no quarto ou na cozinha

E no cenário imaginado de um roteiro absurdo

Onde sou o autor e o mestre de cerimônia 

Que dispõe os convivas conforme dá na telha

E se serve da vida alheia sem nenhuma vergonha


Mas não sou invasivo, fico entre quatro paredes 

Lá fora me aguarda o cavalo branco 

e uma voz me chama de principe, rei de uma terra estranha


Nei Duclós

8 de março de 2023

MINHA MÃE

 Nei Duclós 


Minha mãe se foi cedo, aos 62

Para mim, que hoje sou dez anos mais velho

ela era uma anciã, de lentes grossas devido à catarata

E ficava em pé cada vez mais frágil

Nunca vi minha mãe correndo

Andava devagar e a tudo observava

Parada e só como árvore isolada no pampa


Criou sete filhos, sendo quatro marmanjos que lhe deram trabalho

e cada um jura que era o favorito

Levava as gurias para os bailes e a todos encaminhava nos estudos


Lecionava multidões de alunos que iam dividir o café da tarde conosco

Só sei até o ginásio, dizia

E isso bastava


Tecia puloveres com mangas enormes pois cresciamos e a lã durava mais de um inverno


Decifrava charadas dos jornais usando dicionário Lello

E foi a primeira leitora das minhas poesias

Aos dez anos eu já era um intelectual e dizia para ela

Fiz um poema mas acho que tu não vai entender

Ela achava a maior graça e contava para as amigas


Foi assim que eu não sendo nada virei coisa

Pela mão de quem representava a divindade na terra


Nei Duclós

4 de março de 2023

O ANJO

 Nei Duclós 


O anjo que sopra o poema

Anônimo perfil de um sistema

Cansou de ser coadjuvante 

Invisivel e sem reconhecimento


Quer brilhar, dizer sou eu mesmo

O cara que seduz com a palavra

E se confunde com quem na aparência

Incorpora mas não reinventa

Recita a refeição que vem pronta


Nesse ofício cumpro uma pena 

Estou preso sem assinatura

Sou aquele que não se revela

o anjo que ainda nos  resta 

Das antigas hostes celestes


Sou o exímio flautista da lenda

Que atrai sentimentos e sonhos

Sou a verdade que enfim se liberta


Nei Duclós