Nei Duclós
Afasta o passado de mim
Sobrevivente
Que eu viva o presente
Sem lembranças
Passar a vida em branco
Longe da Terra
Para que nenhuma lágrima
Me doa
Blog de Nei Duclós. Jornalismo. Poesia. Literatura. Televisão. Cinema. Crítica. Livros. Cultura. Política. Esportes. História.
Nei Duclós
Afasta o passado de mim
Sobrevivente
Que eu viva o presente
Sem lembranças
Passar a vida em branco
Longe da Terra
Para que nenhuma lágrima
Me doa
Nei Duclós
Já escrevi coisas que não entendi de pronto
Só com o tempo amadureci o bastante
E o verso que era sem sentido se revelou
É assustador, meu pai
Pescar de barco na correnteza
Sob ameaça da Lua
Que promete segurar o sol
Para impor a eterna noite
Queira Deus que os anjos assoprem apenas palavras de amor
E não esses mistérios revoltos
Numa caixa de Pandora
Nei Duclós
A vida são as decisões que tomamos
Todas erradas
Por isso essa velhice braba
Esse afogar na mágoa
Esse remorso amargo
Essa dura memoria
Sal de um tempo torto
Por isso esse amor
Que não acaba
Nei Duclós
Não queres mais conversa
Transformas meu poema em prosa
E depois fecha a porta para as metáforas
Deste um prazo, foste embora
Amor virtual é fácil de cortar o laço
A falta de abraço não dói
Qualquer coisa dá um block
Só que o sentimento é presencial
Em qualquer plataforma
E sangra, mesmo sem provas
No fim o corpo é uma ilusão
Flor da minha alma
Levado de roldão
Na inclemência da tela
Nei Duclós
Despojar-se
Mas sem testemunhas
Nem mesmo tu
Olhando-se no espelho
Perder o hábito de expor-se
acumulando memórias
Viver fora do eixo
Na margem extrema
Ser visto só por Deus é um teste
Normalmente reprovamos
Pois o divino olhar, que é criador
vira-se para outras coisas
E o ego não sabe o que fazer
com os despojos
O que o mar devolve
junto com as flores
Nei Duclós
Um olho é curioso
O outro assustado
No pacote do rosto
Se salva o sorriso
Ninguém nota a extrema
Diversidade
Que emites na tela
Com tanta verdade
Mas eu me aproximo
Da tua imagem
Aumento um pouco
Para ver os detalhes
Tão bela e anônima
Perfil sem alarde
Só que eu gravei
Todo o conjunto
No meu sonho
Sem nenhuma
piedade
Nei Duclós
Nasceu num tempo em que todos os vivos estavam mortos
Trouxe motivos para continuarmos existindo
Se foi seguido não sabemos
Mas acredito que ainda estamos aqui
Graças a suas profecias
Que talvez nem se realizem
Mas são animações que despertam vulcões extintos
Não nos revelou o sentido da vida
Porque tinha limites
Sua força vinha de algum lugar aqui perto
O infinito
Depois voou
Levando junto a dor que acabou comigo
Nei Duclós
Aprendo a conviver com uma versão piorada de mim
Hoje sou minha banda cover
A pintura falsa do quadro que fui
O original está perdido no tempo
Em fotos que também são versões do que existia
Seria eu mesmo o que lembro
E define minha identidade para quem não me vê há tempos?
Ou a verdade é esse retrato mutante que não lamenta o passado
E enxerga pouco, ouve só de um lado
Mas te espera na estação abandonada
Com o último ramo de flor esquecido pela eternidade?
Nei Duclós
As semanas passam
Como os bandos de pássaros
No céu da minha infância
Alinhados no mesmo ritmo
Ainda estarão voando
No firmamento da memória?
Vão-se os sentimentos
Deixando um vazio de nuvem e de vento
Fica este eterno presente
Que o tempo embrulha
a cada inverno
Cruzo a existencia
Imóvel diante de tanto assombro
A vida é o beijo
que a morte não alcança
E o desespero é um peixe se debatendo
Na areia empurrada pela onda
De um mar que namora a lua
No fim do mundo
NEI DUCLÔS
Tudo conspira contra a publicação do relatório McNamara sobre o Vietnã pelo jornal da capital, o Washington Post. Primeiro, o massacre da concorrência, pois o furo era do New York Times. Depois, a situação financeira delicada do jornal, que precisou abrir o capital sem abrir mão da propriedade familiar. A viúva (Merryl Streep, monstra) não tinha credibilidade suficiente para convencer os investidores.
Havia ainda o medo da prisão, pois publicar os papéis do Pentágono que foram proibidos de serem divulgados pela Justiça de Nixon depois da bomba revelada pelo NYT. É ainda outros empecilhos como o envolvimento tanto da dona do WP quanto seu diretor de redação (Tom Hanks, perfeito como sempre) com os poderes máximos da República. Sem falar nas notícias superficiais como casamento da filha do Presidente, entre outras bijouterias. Havia má vontade da Casa Branca contra i jornal que o criticava mas ainda não tinha influência nacional.
O que faz o cineasta (Steve Spielberg, gênio) para que seu filme reporte a trajetória do jornalismo para atingir o osso da notícia, sua essência, sua razão de ser? Faz cinema
Ou seja concentra a ação no andar dos protagonistas. Hanks sai abruptamente das reuniões e anda apressado pela vasta redação em polvorosa. Merryl expressa a elegância e a fragilidade da sua posição de herdeira de um Império prestes a perder tudo com seus passos lentos mas decididos. O jornalista (Bob Odenkirk, de Better call Saul, ótimo) que acessa a fonte, corre para um telefone público ou tenta driblar em meio as mesas o advogado que quer impedir a publicação. O foca quase é atropelado quando cruza a rua correndo para espionar o NYT.
Mais cinema: o início do filme é Soldado Ryan e Apocalipse Now. A busca da informação é Todos os homens do Presidente. O clima e o desfeccho e puro filme clássico noir.
Há mais: o centro da trama e a coragem da mulher assediada que estava indecisa. Ela descobriu que deveria optar pelo jornalismo e não pelas amizades com os políticos. Para isso deveriaassumir a empresa herdada e seus riscos e respeitar a lei da liberdade de expressão, ou seja, a opinião pública e as decisões da redação. O dono de um jornal só manda se a liberdade for soberana. Sua saída vitoriosa descendo as escadas da Suprema Corte, filmada em meio a multidão de mulheres, é uma cena tocante desta obra prima ( não por ser perfeita mas por tocar no ponto exato da democracia) a cargo de Steve, Merryl, Tom, Bob e todos os envolvidos. É um privilégio sermos seus contemporâneos.
Nei Duclós
Nei Duclós
Há palavras que melhor definem
A ponte que liga as criaturas
São mais sinceras e limpam equívocos
Mesmo que sejam estranhas à primeira vista
E acabem rompendo o vínculo
pelo mal entendido
Por exemplo: amada é melhor que amiga
Aduba o que a outra esteriliza
Confessar amizade é pouco para almas aflitas
Significa afastar-se
da chance de salvar o dia
Enquanto isso, sugerir amor mesmo sem namoro
É de natureza mais íntima
E empresta graça ao desconforto
(quando evitamos o que está pedindo)
Ris das minhas especulações insones,
desconhecida
Não comente, ou estaremos fritos
Nei Duclós
Como haverá desejo se estiverem sempre nus?
perguntou o anjo que inventou a roupa
Atração é quando alguém se veste
E sugere a diferença que permanece oculta
O que é selvagem não basta ao bote
É preciso sedução acima da besta
Uma renda rasgada, a falta de um botão
Uma curva criada pela impostura da saia
E há o batom, a pele tatuada
Cabelo nos ombros e soutien
E o mais importante, a palavra
Não falo do gemido ou do êxtase silábico
Mas da sintaxe ou da gramática
Sujeita, predicada e verbo
Ação devotada em poema arcádico
Graças, mulher tão bela
Graças ao poeta
Vestido aos pés da tua estrela
Nei Duclós
Tus ojos tienen el frescor de las mañanas
Tu cuerpo es árbol, agua de montaña
Soy tu pájaro que sube hasta las nubes
Dices amor e el mundo se transforma
Es la primavera muy temprana
Nei Duclós
Os encontros só incluem despedidas
Chegamos tarde para os cumprimentos
Minutos que sobram não são de alegria
Viram as costas evitando o início
Talvez seja por erros cometidos
Quando havia tempo antes da pandemia
Não estávamos atentos, deixamos para outro dia
E agora que precisamos
a praça está vazia.
Sentas no banco do inverno medonho
As árvores gostariam de fugir
Mas ficam te fazendo companhia
Até os cães passam ao largo
Os automóveis nem sequer buzinam
Não há reuniões na cidade morta
Bebes a solidão de um vinho antigo
Alguém te dá a mão, anjo adventicio
Passa anotações que fizeste na vida
Lá está teu coração que tinhas perdido
Nei Duclós
Empresto a musa que não me pertence
Porque mulher é dona de si mesma
Menos do sonho da sua presença
Onde ela anda conforme combinamos
Empresto mas devolva pois eu vi primeiro
Tenho precedência com meu jeito insano
Acho que apito em jugo de princesa
Sou só a plateia em outro planeta
Não ache que pode dizer besteira
Ela não existe para ouvir teus chistes
Sua arte é a beleza aliada ao talento
Personagem de deusa de nobre inteligência
Conforme-se em admirar em papel idêntico
Ao que desempenho nessa corrente
Ela nos civiliza, brutos arrogantes
Homens sem carisma e de coração ardente
Nei Duclós
O pensamento como arquitetura do poema
Sustentado pela palavra e seu sistema
Interna mas como chuva lá fora
Que provoca o fogo na lareira
Achei que tua leitura fosse amena
Porque gostas das luzes indiretas
Sobre papéis ainda em uso
Mas é só abuso do teu conhecimento
Procuras nos livros o que te sobra
De pura inteligência, ser feminina
não vem ao caso
A não ser quando te preservas
Fingindo ser burra
Para que fiquem em paz com suas loucuras
Enquanto mergulhars na literatura
Nos ensaios e todo tipo de cultura
Para depois me ensinar na minha preguiça
Pois nada leio, só faço poesia
Para te encantar quando fechas o livro
Nei Duclôs
Quando fingem que não estão sendo filmados
Quando denunciam a presença da câmara achando que isso é a realidade
Quando a imagem nasce da palavra e se desprende da sua origem ao entrar em movimento
O que fica na mente depois que o filme acaba
Quando o ator assume o personagem sem fingir
Quando vamos ao cinema
Quando é diferente do texto sobre cinema
Quando tem um único foco, o próprio cinema
Quando a disposição do cenário em função da narrativa é confundida com reconstituição de época
Quando não é teatro, portanto não tem pano de fundo. Tudo o que aparece na tela é o cinema
Quando tentam, em vão, defini-lo
Nei Duclós
Quando nos reencontramos
Não sabia o que fazer com as mãos
Se continuavam ocupadas com as malas
Se eu devia te pegar de alguma forma
Tocando teu braço ou rosto
Ou se deveria procurar a passagem do avião
Que nos levaria para o mesmo destino
Apesar da falta de combinação
Foi só coincidência
E quando enfim o abraço nos grudou
No aeroporto pasmo diante dos amantes rompidos
De repente redescobrimos o amor
Cão farejador que se recusa a ocupar o bagageiro
E senta conosco a lamber-nos a cara machucada pela solidão
Nei Duclós
Sentes vergonha mas não devia
Fecho meus olhos talvez ajude
Assim ficas livre e eu me poupo
De ver tua carinha se desmanchando
Quando bate o sino
Gosta mas nega a mulherzinha
Jogo de presa e predador faminto
Tens um nome a zelar, uma postura
E receias que eu diga aos quatro ventos
Eu me contenho apesar do orgulho
Não acho vantagem entronizar o êxtase
Basta que durmas em meu ombro enorme
Depois de arrepender-se da refrega
Sentes vergonha mas não aguentas
Tua pele sem as mãos do bruto escriba
Por isso voltas ao sofá da sala
Exibindo a saia até o umbigo
Nei Duclós
Matilde cruza o deserto do México
Com toda sua equipe teatral, que dirigia com mão de ferro
E dois Josés
O marido dramaturgo e diretor
e meu avô ainda no berço
Precisava chegar a Vera Cruz e lá pegar um navio rumo ao Peru
Sentia-se expulsa do pais
Devido a uma desavença com o governo
Naqueles tempos obscuros
Migrar para longe era sua única saída
Já que não podia voltar a Cuba onde perdera o pai Gregorio, ator, de uma doença tropical
Ou à Espanha onde maus empresários a aguardavam
Mas foi assaltada e sequestrada por bandoleiros
Que levaram tudo
E resgatada a peso de ouro
Conseguiu chegar ao navio que no trajeto enfrentou um motim da marujada contra o capitão
Grande atriz, convenceu os rebeldes a baixar as armas
E foi assim que ela inaugurou no Peru sua saga nos países da América do Sul
Matilde é minha bisavó
Heroína de toda uma vida dedicada aos palcos
Foi rainha, mãe, esposa, empresária
Mulher de veludo e aço
Coração que abraça a coragem
Nei Duclós
Foi o que restou da tua companhia
Esses poemas que guardo no acervo
Testemunhas de um tempo vivido
Na beira do sonho
E ele era abismo
Nei Duclós
Você diz que some
Mas é coincidência
Logo agora que cheguei bem perto
Você usa sua poção mágica
O silêncio
Desconfio que é só um expediente
Para evitar minha dança da chuva em teu deserto
Tens outro sítio onde festejas com os outros
Viajante a pé espio pela janela
Lá estás, gargalhando
Ao cansar dessa viagem voltarás
Para molhar-te
Nei Duclós
Tenho pressa
O amor passa pelas frestas
Por debaixo da porta como sombra
Como vento vindo da floresta
Como grito sufocado atrás do monte
Não detecto a fonte desse passo
Talvez seja tu ou minha mente
Que inventa sentir em horas tontas
Atrapalhado no projeto
Perco a chance de capturar a folha
Desgarrada que em espiral me tenta
Tenho pressa de amor
Mas ele escapa
Nei Duclós
Sempre digo
amei para não dizer amém
Assim não me
confundes com devoção
Amor não
é religião, se fosse eu estaria de joelhos
diante da
tua imagem
E teu corpo
seria meu templo
Amor é
exemplo da Criação
Gênesis
cheio de defeitos
Que começa
no prazer e enfrenta o conflito
Arcanjo da
separação com espada de fogo
É jogo de
emoção, humana contingência
A divindade
se retira e descansa
Ficamos sós
com a árvore da ciência
Entre a
pomba e a serpente
Nei Duclós
Jogaste fora
o amor, comigo dentro
Já era um
traste comido pelo tempo
Marcado
menos pela dor do que pela indiferença
Os hábitos
de deixar de lado a cura das ausências
Agora estou
no limbo onde mora a esperança
De sair dele
e precipitar-me
Não em
busca do sonho mas da confidência
Repartir
contigo, nova amiga distante
o impossível
namoro e a carga da noite
Não temos
mais jeito de seguir em frente
Ficamos na
praia, solidão em ondas
O mar nos
ensina a cair no poente
E a levantar
com a brisa da manhã serena
Nei Duclós
Não sei a
quem amar e a que horas
O corpo está
vazio, copo da aurora
Onde verte o
mel no dia frio
Palavra que
não há
jogo de
esgrima
Para estocar
o fel
E a
purpurina
Mistura de
abandono e rima pobre
É só a
sóbria solidão do cabra
Armado de
facão e ordem escrita
Por um
escrivão cego e convicto
A cumprir
pena por não fazer sentido
Não sei se
me perdi
Ou se estou
vivo
O fogo
roubado em Prometeu
É meu alívio
E aguardo a
ave de Afrodite
Comer-me o
fígado
Nei Duclós
Cuidas da
cura da tua alma
Ferida funda
que te deixa amarga
O tempo não
cicatriza nem consola
Sabes onde a
dor conserva
o alimento
que te desespera
Nada posso
dizer
Já tens quem
repartir o desabafo
Posso apenas
postar em
tua pele de tormentas
o verso que
cultivei te achando solta
Como folha
em dia de vento e flor formosa
Nei Duclós
Viver é uma
questão de três refeições por dia
Um teto e
roupas
Água para
beber e o banho
Depois
disso vem a segurança
A educação e
os livros
As canções e
viagens
A História e
a glória
As festas e
conversas
A saúde e os
conflitos
O futuro e a
família
Só por
último vem Deus
Que estava
ali
desde o
princípio
junto com a
Economia
Nei Duclós
Acordar
renova
O dia começa
sem memória
O sol
esqueceu e lava a cara
A palavra é
o amor na mesa posta
Depois você
lembra mas já é tarde
A vida traz uma
outra história
Estás no
próprio tempo, o presente
E na hora do
almoço ela te espera
Nei Duclós
És feita de
unhas roxas e arranjo de flores
Mas essa não
é tua arte
Feita de
amores variados e amizades drásticas
Todas
fantásticas
Mas essa não
é tua arte
És feita de
pele mediterrânea e cabelo de ouro
Cultivada em
viagens pelo mundo
Jerusalém
Mar Morto Monte Carlo
Jamais Paris
que em ti não cabe
Pesas na
maquiagem para ir à ópera
mas essa não
é tua arte
Tua arte é
quando sou o alvo
Ao te querer
sem desconfiar
Que entre
tantas de ti és única
Com teu
jeito de touro ariano
O que chega
primeiro em Pamplona
E rasga o
ventre do infeliz palhaço
Mas sou
resistente
E aguardo
que canses, açúcar demerara
Disfarçada
em mulher má e impaciente
Sei onde
pousa teu pé no sofá da sala
Lá permaneço
em guarda, miserável gato