16 de setembro de 2020

SOBREVIVENTE

 Nei Duclós 


Afasta o passado de mim

Sobrevivente

Que eu viva o presente

Sem lembranças 


Passar a vida em branco

Longe da Terra

Para que nenhuma lágrima 

Me doa



15 de setembro de 2020

PANDORA

 Nei Duclós 


Já escrevi coisas que não entendi de pronto

Só com o tempo amadureci o bastante 

E o verso que era sem sentido se revelou


É assustador, meu pai

Pescar de barco na correnteza

Sob ameaça da Lua

Que promete segurar o sol

Para impor a eterna noite


Queira Deus que os anjos assoprem apenas palavras de amor

E não esses mistérios revoltos

Numa caixa de Pandora


DECISÕES

 Nei Duclós 


A vida são as decisões que tomamos

Todas erradas

Por isso essa velhice braba

Esse afogar na mágoa

Esse remorso amargo

Essa dura memoria

Sal de um tempo torto


Por isso esse amor

Que não acaba


14 de setembro de 2020

VIRTUAL

 Nei Duclós 


Não queres mais  conversa

Transformas meu poema em prosa

E depois fecha a porta para as metáforas


Deste um prazo, foste embora

Amor virtual é  fácil de cortar o laço 

A falta de abraço não dói 

Qualquer coisa dá um  block


Só que o sentimento é presencial

Em qualquer plataforma

E sangra, mesmo sem provas


No fim o corpo é  uma ilusão 

Flor da minha alma

Levado de roldão

Na inclemência da tela



13 de setembro de 2020

NA MARGEM

 Nei Duclós 


Despojar-se

Mas sem testemunhas

Nem mesmo tu

Olhando-se no espelho


Perder o hábito de expor-se

acumulando memórias 

Viver fora do eixo

Na margem extrema


Ser visto só por Deus é  um teste

Normalmente reprovamos

Pois o divino olhar, que é  criador

vira-se para outras coisas

E o ego não sabe o que fazer

com os despojos

O que o mar devolve

junto com as flores 



12 de setembro de 2020

GRAVURA

 Nei Duclós 


Um olho é curioso

O outro assustado

No pacote do rosto

Se salva o sorriso

Ninguém nota a extrema

Diversidade 

Que emites na tela

Com tanta verdade


Mas eu me aproximo 

Da tua imagem

Aumento um pouco

Para ver os detalhes

Tão bela e anônima 

Perfil sem  alarde


Só que eu gravei

Todo o conjunto

No meu sonho

Sem nenhuma

piedade



O DESPERTAR

 Nei Duclós 


Nasceu num tempo em que todos os vivos estavam mortos

Trouxe motivos para continuarmos existindo


Se foi seguido não sabemos

Mas acredito que ainda estamos aqui

Graças a suas profecias

Que talvez nem se realizem

Mas são animações que despertam vulcões extintos


Não nos revelou o sentido da vida

Porque tinha limites

Sua força vinha de algum lugar aqui perto

O infinito


Depois voou

Levando junto a dor que acabou comigo



RETRATO

 Nei Duclós 


Aprendo a conviver com uma versão piorada de mim

Hoje sou minha banda cover

A pintura falsa do quadro que fui


O original está perdido no tempo

Em fotos que também são versões do que existia


Seria eu mesmo o que lembro

E define minha identidade para quem não me vê há tempos?


Ou a verdade é  esse retrato mutante que não lamenta o passado

E enxerga pouco, ouve só de um lado

Mas te espera na estação abandonada

Com o último ramo de flor esquecido pela eternidade?


PÁSSAROS

 Nei Duclós 


As semanas passam

Como os bandos de pássaros

No céu da minha infância 

Alinhados no mesmo ritmo

Ainda estarão voando

No firmamento da memória?


Vão-se os sentimentos

Deixando um vazio de nuvem e de vento

Fica este eterno presente

Que o tempo embrulha

a cada inverno


Cruzo a existencia

Imóvel diante de tanto assombro


A vida é o beijo

que a morte não alcança 

E o desespero é  um peixe se debatendo 

Na areia empurrada pela onda

De um mar que namora a lua

No fim do mundo


10 de setembro de 2020

THE POST: QUANDO O JORNALISMO ATINGE O OSSO

 NEI DUCLÔS 


Tudo conspira contra a publicação do relatório McNamara sobre o Vietnã pelo jornal da capital, o Washington Post. Primeiro, o massacre da concorrência, pois o furo era do New York Times. Depois, a situação financeira delicada do jornal, que precisou abrir o capital sem abrir mão da propriedade familiar.  A viúva (Merryl Streep, monstra) não tinha credibilidade suficiente para convencer os investidores.


Havia ainda o medo da prisão,  pois publicar os papéis do Pentágono que foram proibidos de serem divulgados pela Justiça de Nixon depois da bomba revelada pelo NYT. É ainda outros empecilhos como o envolvimento tanto da dona do WP quanto seu diretor de redação (Tom  Hanks, perfeito como sempre) com os poderes máximos da República. Sem  falar nas notícias superficiais como casamento da filha do Presidente,  entre outras bijouterias. Havia má vontade da Casa Branca contra i jornal que o criticava mas ainda não tinha influência nacional.


O que faz o cineasta (Steve Spielberg, gênio) para que seu filme reporte a trajetória do jornalismo para atingir o osso da notícia, sua essência, sua razão de ser? Faz cinema

 Ou seja  concentra a ação no andar dos protagonistas. Hanks sai abruptamente das reuniões e anda apressado pela vasta redação em polvorosa. Merryl expressa a elegância e a fragilidade da sua posição de herdeira de um Império prestes a perder tudo com seus passos lentos mas decididos.  O jornalista (Bob Odenkirk, de Better call Saul, ótimo) que acessa a fonte, corre para um telefone público ou tenta driblar em meio as mesas o advogado que quer impedir a publicação. O foca quase é atropelado quando cruza a rua correndo para espionar o NYT.


Mais  cinema: o início do filme é Soldado Ryan e Apocalipse Now. A busca da informação é Todos os homens do Presidente. O clima e o desfeccho e puro filme clássico noir.


Há mais: o centro da trama e a coragem da mulher assediada que estava indecisa. Ela descobriu que deveria optar pelo jornalismo e não pelas amizades com os políticos. Para isso deveriaassumir a empresa herdada e seus riscos e respeitar a lei da liberdade de expressão,  ou seja, a opinião pública e as decisões da redação. O dono de um jornal só manda se a liberdade for soberana. Sua saída vitoriosa descendo as escadas da Suprema Corte, filmada em meio a multidão de mulheres, é uma cena tocante desta obra prima ( não por ser perfeita mas por tocar no ponto exato da democracia) a cargo de Steve, Merryl, Tom, Bob e todos os envolvidos. É  um privilégio sermos seus contemporâneos.


Nei Duclós

9 de setembro de 2020

ESCOLHA

 Nei Duclós 


Há palavras que melhor definem 

A ponte que liga as criaturas

São mais sinceras e limpam equívocos

Mesmo que sejam estranhas à primeira vista

E acabem rompendo o vínculo

pelo mal entendido 


Por exemplo: amada é melhor que amiga

Aduba o que a outra esteriliza

Confessar amizade é pouco para almas aflitas

Significa afastar-se

da chance de salvar o dia


Enquanto isso, sugerir amor mesmo sem namoro 

É de natureza mais íntima

E empresta graça ao desconforto

(quando evitamos o que está pedindo)


Ris das minhas especulações insones,

desconhecida

Não comente, ou estaremos fritos 



VESTES

 Nei Duclós 


Como haverá desejo se estiverem sempre nus?

perguntou o anjo que inventou a roupa

Atração é quando alguém se veste

E sugere a diferença que permanece oculta


O que é  selvagem não basta ao bote

É preciso sedução acima da besta

Uma renda rasgada, a falta de um botão 

Uma curva criada pela impostura da saia


E há o batom, a pele tatuada

Cabelo nos ombros e soutien

E o mais importante, a palavra


Não falo do gemido ou do êxtase silábico

Mas da sintaxe ou da gramática

Sujeita, predicada e verbo

Ação devotada em poema arcádico  


Graças, mulher tão bela

Graças ao poeta

Vestido aos pés  da tua estrela 


TUS OJOS

 Nei Duclós 


Tus ojos tienen el frescor de las mañanas

Tu cuerpo es árbol, agua de montaña

Soy tu pájaro que sube hasta las nubes

Dices amor e el mundo se transforma

Es la primavera muy temprana



ANOTAÇÕES

 Nei Duclós 


Os encontros só incluem despedidas

Chegamos tarde para os  cumprimentos

Minutos que sobram não são de alegria

Viram as costas evitando o início 


Talvez seja por erros cometidos

Quando  havia tempo antes da pandemia

Não estávamos atentos, deixamos para outro dia

E agora que precisamos

a praça está vazia.


Sentas no banco do inverno medonho

As árvores gostariam de fugir

Mas ficam te fazendo companhia 


Até os cães passam ao largo 

Os automóveis nem sequer buzinam

Não há reuniões na cidade morta

Bebes a solidão de um vinho antigo


Alguém te dá a mão, anjo adventicio 

Passa anotações que fizeste na vida

Lá está teu coração que tinhas perdido


8 de setembro de 2020

ADVERTÊNCIA

 Nei Duclós 


Empresto a musa que não me pertence

Porque mulher é dona de si mesma

Menos do sonho da sua presença

Onde ela anda conforme combinamos


Empresto mas devolva pois eu vi primeiro

Tenho precedência com meu jeito insano

Acho que apito em jugo de princesa

Sou só a plateia em outro planeta


Não ache que pode dizer besteira

Ela não existe para ouvir teus chistes

Sua arte é a beleza aliada ao talento

Personagem de deusa de nobre inteligência 


Conforme-se em admirar em papel idêntico 

Ao que desempenho nessa corrente

Ela nos civiliza, brutos arrogantes

Homens sem carisma e de coração ardente


6 de setembro de 2020

LEITURA

 Nei Duclós 


O pensamento como arquitetura do poema

Sustentado pela palavra e seu sistema

Interna mas como chuva lá  fora

Que provoca o fogo na lareira


Achei que tua leitura fosse amena

Porque gostas das luzes indiretas

Sobre papéis ainda em uso


Mas é só abuso do teu conhecimento

Procuras nos livros o que te sobra

De pura inteligência, ser feminina

não vem ao caso

A não ser quando te preservas

Fingindo ser burra

Para que fiquem em paz com suas loucuras

Enquanto mergulhars na literatura

Nos ensaios e todo tipo de cultura


Para depois me ensinar na minha preguiça 

Pois nada leio, só faço poesia

Para te encantar quando fechas o livro


CINEMA Ê...


Nei Duclôs 


Quando fingem que não estão sendo filmados


Quando denunciam a presença da câmara achando que isso é a realidade


Quando a imagem nasce da palavra e se desprende da sua origem ao entrar em movimento


O que fica na mente depois que o filme acaba


Quando o ator assume o personagem sem fingir 


Quando vamos ao cinema


Quando é diferente do texto sobre cinema


Quando tem um único foco, o próprio cinema


Quando a disposição do cenário em função da narrativa é confundida com reconstituição de época 


Quando não é teatro, portanto não tem pano de fundo. Tudo o que aparece na tela é  o cinema


Quando tentam, em vão, defini-lo


5 de setembro de 2020

NO AEROPORTO

 Nei Duclós 


Quando nos reencontramos

Não sabia o que fazer com as mãos 

Se continuavam ocupadas com as malas

Se eu devia te pegar de alguma forma

Tocando teu braço ou rosto

Ou se deveria procurar a passagem do avião 

Que nos levaria para o mesmo destino

Apesar da falta  de combinação 


Foi só coincidência

E quando enfim o abraço nos grudou

No aeroporto pasmo diante dos amantes rompidos

De repente redescobrimos o amor

Cão farejador que se recusa a ocupar o bagageiro

E senta conosco a lamber-nos a cara machucada pela solidão 


VERGONHA

 Nei Duclós 


Sentes vergonha mas não devia

Fecho meus olhos talvez ajude

Assim ficas livre e eu me poupo

De ver tua carinha se desmanchando

Quando bate o sino


Gosta mas nega a mulherzinha

Jogo de presa e predador faminto

Tens um nome a zelar, uma postura

E receias que eu diga aos quatro ventos


Eu me contenho apesar do orgulho

Não acho vantagem entronizar o êxtase 

Basta que durmas em meu ombro enorme

Depois de arrepender-se da refrega


Sentes vergonha mas não aguentas

Tua pele sem as mãos do bruto escriba

Por isso voltas ao sofá da sala

Exibindo a saia até o umbigo


4 de setembro de 2020

MATILDE

 Nei Duclós 


Matilde cruza o deserto do México 

Com toda sua equipe teatral, que dirigia com mão de ferro

E dois Josés

O marido dramaturgo e diretor

e meu avô ainda no berço 

Precisava chegar a Vera Cruz e lá pegar um navio rumo ao Peru


Sentia-se expulsa do pais

Devido a uma desavença com o governo

Naqueles tempos obscuros 

Migrar para longe era sua única saída 

Já que não  podia voltar a Cuba onde perdera o pai Gregorio, ator, de  uma doença tropical

Ou à  Espanha onde maus empresários a aguardavam


Mas foi assaltada e sequestrada por bandoleiros

Que levaram tudo

E resgatada a peso de ouro


Conseguiu chegar ao navio que no trajeto enfrentou um motim da marujada contra o capitão 

Grande atriz, convenceu os rebeldes a  baixar as armas


E foi assim que ela inaugurou no Peru sua saga nos países da América do Sul


Matilde é  minha bisavó 

Heroína de toda uma vida dedicada aos palcos

Foi rainha, mãe, esposa, empresária 

Mulher de veludo e aço

Coração que abraça a coragem


TESTEMUNHAS

 Nei Duclós 


Foi o que restou da tua companhia

Esses poemas que guardo no acervo 

Testemunhas de um tempo vivido 

Na beira do sonho

E ele era abismo  

UMIDA

 Nei Duclós 


Você diz que some

Mas é  coincidência 

Logo agora que  cheguei bem perto 

Você usa sua poção mágica 

O silêncio 


Desconfio que é  só um expediente

Para evitar minha dança da chuva em teu deserto

Tens outro sítio onde festejas com os outros

Viajante a pé espio pela janela

Lá estás, gargalhando


Ao cansar dessa viagem voltarás

Para molhar-te


PROJETO


Nei Duclós 


Tenho pressa

O amor passa pelas frestas

Por debaixo da porta como sombra

Como vento vindo da floresta

Como grito sufocado atrás do monte


Não detecto a fonte desse passo

Talvez seja tu ou minha mente

Que inventa sentir em horas tontas


Atrapalhado no projeto

Perco a  chance de capturar a folha

Desgarrada que em espiral me tenta


Tenho pressa de amor

Mas ele escapa


3 de setembro de 2020

DIFERENÇA

 Nei Duclós

 

Sempre digo amei para não dizer amém

Assim não me confundes com devoção

 

Amor não é  religião,  se fosse eu estaria de joelhos

diante da tua imagem

E teu corpo seria meu templo

Amor é exemplo da Criação

Gênesis cheio de defeitos

Que começa no prazer e enfrenta o conflito

Arcanjo da separação com espada de fogo

 

É jogo de emoção, humana contingência

A divindade se retira e descansa

Ficamos sós com a árvore da ciência

Entre a pomba e a serpente

 


 

SERENA

 Nei Duclós

 

Jogaste fora o amor, comigo dentro

Já era um traste comido pelo tempo

Marcado menos pela dor do que pela indiferença

Os hábitos de deixar de lado a cura das ausências

Agora estou no limbo onde mora a esperança

De sair dele e precipitar-me

Não em busca  do sonho mas da confidência

 

Repartir contigo, nova amiga distante

o impossível namoro e a carga da noite

Não temos mais jeito de seguir em frente

Ficamos na praia, solidão em ondas

O mar nos ensina a cair no poente

E a levantar com a brisa da manhã serena

 


ALÍVIO

 

Nei Duclós

 

Não sei a quem amar e a que horas

O corpo está vazio, copo da aurora

Onde verte o mel no dia frio

 

Palavra que não há

jogo de esgrima

Para estocar o fel

E a purpurina

Mistura de abandono e rima pobre

É só a sóbria solidão do cabra

Armado de facão e ordem escrita

Por um escrivão cego e convicto

A cumprir pena por não fazer sentido

 

Não sei se me perdi

Ou se estou vivo

O fogo roubado em Prometeu

É meu alívio

E aguardo a ave de Afrodite

Comer-me o fígado

 


1 de setembro de 2020

FORMOSA

Nei Duclós 


Cuidas da cura da tua alma

Ferida funda que te deixa amarga

O tempo não cicatriza nem consola

Sabes onde a dor conserva

o alimento que te desespera

 

Nada posso dizer

Já tens quem repartir o desabafo

Posso apenas

postar em tua pele de tormentas

o verso que cultivei te achando solta

Como folha em dia de vento e flor formosa

 


PRINCÍPIO

 

Nei Duclós

 

Viver é uma questão de três refeições por dia

Um teto e roupas

Água para beber e o banho

 

Depois disso  vem a segurança

A educação e os livros

As canções e viagens

A História e a glória

As festas e conversas

A saúde e os conflitos

O futuro e a família

 

Só por último  vem Deus

Que estava ali

desde o princípio

junto com a Economia

 


DESPERTAR

 Nei Duclós


Acordar renova

O dia começa sem memória

O sol esqueceu e lava a cara

A palavra é o amor na mesa posta

 

Depois você lembra mas já é  tarde

A vida traz uma outra história

Estás no próprio  tempo, o presente

E na hora do almoço ela te espera

 


 

31 de agosto de 2020

TUA ARTE

 Nei Duclós


És feita de unhas roxas e arranjo de flores

Mas essa não é tua arte

Feita de amores variados e amizades drásticas

Todas fantásticas

Mas essa não é  tua arte

 

És feita de pele mediterrânea e cabelo de ouro

Cultivada em viagens pelo mundo

Jerusalém Mar Morto Monte Carlo

Jamais Paris que em ti não cabe

 

Pesas na maquiagem para ir à ópera

mas essa não é tua arte

 

Tua arte é quando sou o alvo

Ao te querer sem desconfiar

Que entre tantas de ti és única

Com teu jeito de touro ariano

O que chega primeiro em Pamplona

E rasga o ventre do infeliz palhaço

 

Mas sou resistente

E aguardo que canses, açúcar demerara

Disfarçada em mulher má e impaciente

Sei onde pousa teu pé no sofá da sala

Lá permaneço em guarda, miserável gato