5 de março de 2018

REMESSA

Nei Duclós

É como a pintura, de fundo infinito
Que o pincel não consegue atingir o limite
E exaure os acervos diversos de tinta
Ao continuar sua faina imprevista

Assim o poema que faço no eito
Numa encomenda que não dá vencimento
Não porque exiges, por seres pastora
Mas porque existo a partir do que teço

Conheço esse ofício sem fim nem começo
Os dedos sangram no rompante da arte
Um dia te visto com a nobre remessa
De versos que cobrem de amor a paisagem


TRATANTE

Nei Duclós


Eu migrei, pulei o muro
Saltei fora do teu cerco
Você ficou, rosa mais bela
Permaneceu no dom do teu encanto

Hoje fecho os olhos e já não ouço
Para evitar o arrependimento
Mas basta te ver, posta em sossego
Com a flor na mão e a luz mais branda
A borrifar teu peito em porcelana
Feito de areia rara dos desertos
Para eu querer voltar como um tratante














4 de março de 2018

CHEGOU TUA VEZ

Nei Duclós

Chegou tua vez, mas já faz tempo
Chegou tua vez, mas foi por pouco
Achavas que a vez durava para sempre
Bastava usufruir a vez que veio pronta

Chegou tua vez e nem te deste conta
Não sabias o que fazer com a vez batendo à porta
Pediste para entrar mas ela evaporou- se
Ficaste sem a vez achando que ela volta

Mas ela migrou de vez para outros tantos
Que vivem da sua vez pois não são tontos
Não perdem a vez nem entregam os pontos
Como a vez que veio pousar em teu centro

Não tens vez nem de fingir ser posto
Fora da vez que esnobaste feio
Hoje não tens vez no palco do concerto
Ficaste preso à vez que jogaste ao vento


IMPRESCINDÍVEIS

Nei Duclós

Não fosse o amor, trégua da ira
Que a treva da dor clarifica
Flecha travessa de um deus imaturo
Que inflama o aceno do extremo convite

Não fosse a flor, álibi da poesia
Que rompe a linhagem da folha caída
E provoca os bichos no sono em casulo
Não existiria a cerimônia do espirito
Que casa sereno com o aviso da brisa

Não fosse teu toque de cor imprevista
Nada haveria no cosmo sem vida



IMAGINO

Nei Duclós

Tudo o que eu imagino
Não cabe no meu sapato
Meu passo de bailarino
Extrapolou o retrato

Palhaço dançou o fino
Cruzou a linha da graça
Para firmar compromisso
Com a trapezista polaca

Revistei os cavalinhos
Que circulavam na praça
Traziam doces no alforge
Enquanto o circo passava

Fui atrás batendo perna
Alcancei o trem de carga
Me contrataram na hora
Como furador de lona




UM PRESENTE



Nei Duclós

Estive em Paris, a teu convite
disse o viajante de praias distantes
Que não tem tempo de visitar o mundo
que a cultura erigiu, no drible do tempo

Comércio de grãos, negócios tratantes
Em portos sem mar, à beira de monstros
Conversas de bar, de rum e armamentos
Nenhuma pintura, um nu sem violência

Mas levo a moldura que vi num relance
Em rua do Oriente que um cego vendia
Talvez ela sirva como um presente
do bruto sem nome, que se refugia
no corpo que aguarda e me civiliza




3 de março de 2018

PESO PLUMA



Nei Duclós

Você se aproxima, de peso pluma
Põe a nocaute só com a presença
Desliza em tua pele a brisa marinha
Memórias do estágio em que foste sereia

Não havia mais chance na minha redoma
Pois és dona sem uso da tua chave
Gaivotas visitam minha remota praia
Vens pelo mar, improvável princesa

Não queres roteiro dos meus movimentos
Só a surpresa, material de que és feita.


SINAL DE VIDA



Nei Duclós

O amor se apropria.
Depois larga de mão
Como se nunca tivesse acontecido
É como relação na guerra
Migra conforme evolui o conflito.

Depois, em tempo de paz
nem dá sinal de vida
Até que numa esquina ele lembra
pelo que se sobressai de uma boca em meio ao ruído

É o teu nome que ela pronuncia
A combatente que deixou-se quebrar em teus braços
numa remota aldeia


A VEZ



Nei Duclós

Chegou tua vez, mas já faz tempo
Chegou tua vez, mas foi por pouco
Achavas que a vez durava para sempre
Bastava usufruir a vez que veio pronta

Chegou tua vez e nem te deste conta
Não sabias o que fazer com a vez batendo à porta
Pediste para entrar mas ela evaporou- se
Ficaste sem a vez achando que ela volta

Mas ela migrou de vez para outros tantos
Que vivem da sua vez pois não são tontos
Não perdem a vez nem entregam os pontos
Como a vez que veio pousar em teu centro

Não tens vez nem de fingir ser posto
Fora da vez que esnobaste feio
Hoje não tens vez no palco do concerto
Ficaste preso à vez que jogaste ao vento