11 de outubro de 2017

MESMA SINTONIA



Nei Duclós

O que passa na cabeça não é literatura
O acaso não é Deus nem o reflexo a criatura
Invenção não é a obra, mas sua sombra
A forja é a natureza do que o fogo apronta

Fazer, com mãos imaginadas
O que não existe, um vento que perdura
que se opõe à luz nascida para o nada
É um arco de neon, rústica quimera
Algo fora do tom, tinta em casa suja

Aprenda com os bichos na mesma sintonia
Fazem o que parece ser bom
mas é outro lance
Braço no alcance, bruta poesia


9 de outubro de 2017

MÁXIMAS DE UM VETERANO



Nei Duclós

Jornalista é aquele que não sabe, por isso vive perguntando.

O jornalista não é especialista em assuntos gerais, é especialista em jornalismo.

Jornalismo é o que a comunicação omite.

Reportagem independe da versão oficial, a não ser como coadjuvante, aquele sujeito que quer aparecer como protagonista e leva um tranco.

O que condena os jornais não é a internet é a incompetência de fazer jornalismo.

Salvar um jornal não significa reduzir o nível da informação a pó para ganhar quórum, ao contrário, é colocá-la no front, de cara com a encrenca para ter credibilidade, fonte do sucesso.

Kafka não pediu para queimarem o que ele escreveu, mas o que ele não reescreveu. O jornalista deveria seguir seu exemplo para não virar Gregorio Samsa.

Jornalista é mídia, precisa saber reportar acessando as fontes e veicular com competência. Não é a estrela da notícia. Deve evitar provar coisas ao vivo e dizer hum, está muito bom.Ou subir no paraglider para ser encoxado pelo personal trainer.

Toda vez que um veterano entrar por acaso numa redação, todos devem ficar de pé, em sinal de respeito. As cicatrizes contam.

Veterano orienta a partir da experiência e da lucidez sobre o momento presente. Continua aprendendo ao exercer o hábito de escutar antes de dizer. Não merece consideração se for enviado pela direção para cagar regra e demitir gente sem nenhum critério.

Os jornalistas hoje escrevem mal não porque escrevam mal, isso qualquer um pode fazer. Mas porque não exercem sua profissão, que é se convencer que precisam reescrever.

ESPELHO NO PALCO



Nei Duclós

Diálogos imaginados por monólogos
dualidade compulsiva da solidão
Eco de um adão com vocação
de repartir-se como duas cascas
Permissão de Deus exausto da Criação

Ponte entre sons não identificados
Libertos da linguagem, óvulo aberto
Violenta armação do que foi carne
E hoje é verbo, drama e liturgia
de personas no espelho do palco


3 de outubro de 2017

F0RA DE FOCO



Nei Duclós  
 

Enxergar pouco tem suas vantagens
compomos imagens só com os vultos
pistas do que dizem ser de verdade.

É uma forma de conviver com cenas
do olho exausto, imerso em manás falsos
Quem disse que é alucinação, ou viagem?

Talvez seja um exercício para ver de perto
o que se esconde nas dobras da conversa
mundos paralelos, saltos de quântica barra

O que vejo são perfis de sonhos encobertos
os que me acordam com a respiração presa
É a Imaginação liberta de lentes de contato


1 de outubro de 2017

SOBRE A MUSA



Nei Duclós

A musa migra, como a lua
Às vezes suja, outra hora pura
Cresce depois de nova, cai após a cheia

Volta diversa a cada semana
Não dá conta de tanto verso, a pitonisa
Cansa de escoltar a nuvem, ronda de rua

Em cada bar que fecha
a embocadura escapa
da mão da poesia

Musa é teimosia
Acorda a solidão na noite alta
Salta num rompante ao meio dia
Escreve na sarjeta, sopra confusa
A palavra em fuga é o seu domínio


POR POUCO TEMPO



Nei Duclós

Perdi, por culpa do destino
que me apronta toda vez
que acerto o rumo

Só venci quando em ti me contrario
Sendo feliz, mas foi por pouco tempo
Obedeceste a ordem da fortuna