3 de abril de 2017

NO LIMBO



Nei Duclós

O esquecido não está morto
Há sempre a chance de ser vivo
Não que renasça só em espírito
Ou permaneça nos registros
Para consultas esporádicas
Quando lembram por um átimo
O que ficou no eterno limbo

O motivo é que brota no rodizio
Mudando a pele como cobra
E rasteja longe da armadilha
E se mistura aos convivas
Levando o susto nos eventos
Que logo se desvencilham
tirando a máscara explícita

Assim como o amor sempre retorna
Sem jamais ter ido embora


DEPURAÇÃO



Nei Duclós

Há urgência que depura todo dano
abas de excesso agora extinto
Fica o vórtice em denso movimento
a gerar na fricção a lava fria
que do repouso se atira no vazio
nas esferas repletas de granito

E não medra a hera, só o rosto liso
da palavra cinzelada em terra bruta
Carrossel que na espiral redime
o que perdemos em torpe simile
Sem criar a fresta que se expressa
pela flor acima do sublime


EXPOSIÇÃO



Nei Duclós

A nação não alimenta mais o sonho da cidadania.
O país testa o fôlego de todos quando se crucifica expondo as feridas

Negue seu nome antes que o canto do galo amanheça.
Mas não seria melhor resgata-la amorosamente 
como se faz nos acampamentos mendigos sob as pontes? 
Ou queremos briga amaldiçoando nossa herança?
Quanto mais precisa, a vítima é empurrada para o abismo.

Amávamos uma ideia confortável de Brasil. 
Hoje a temos nos braços, aos gritos.
Amor, essa palavra sempre em outra vida.


AMIGOS




Nei Duclós


Ficamos amigos mas não nos cultivamos
Às vezes nos debatemos no bate pronto
E só lembramos quando há algum apelo
Palavras virtuais que rolam pelos posts

Perdemos os amigos criados desde a infância
Sumiram, emigraram ou simplesmente se escondem
Aquela densa amizade de colégios e porres
Viagens de trem e brigas homéricas

Hoje somos luzes em dimensões tacanhas
Distraídos em salas de perfil anônimo
Nem vemos o velho amigo passar em direção a outro plano

ARMISTICIO



Nei Duclós

O ofício em estado de arte
É o que segura em tempo de guerra
O ourives com a aliança mais pura
O maestro a reger uma fuga
O escultor com a consciência do mármore

Ao poeta, por ser sem compasso
E não saber os pendores da trégua
por viver nos espaços intactos
os que sobram depois dos ataques
e por ter o dom da palavra
se encarrega dos atos mais pobres

Ele escreve urgente os recados
que o front acumula entre balas
e envia por sobre as trincheiras
a noticia temida e esperada
Os soldados que caem por terra
são por ele embalados em datas

Só depois do armistício é que leva
os poemas perdidos na mala
Por isso sua obra é a moldura
de uma cena na volta para casa
quando o filho retorna marcado
para a vida que o mundo estragara


PARA SOBREVIVER



Nei Duclós

Poucas palavras bastam
Para sobreviver um tempo
Um rosto, um pássaro
Algo sólido, um retrato
O vento que varre a varanda
A lua, sempre na frente
Pendurada numa nuvem

Poucas palavras bastam
Senti saudade
Eu te amo
E pronto

Já estás a pampa
Pleno de orvalho