2 de junho de 2016

ACORDO CEDO SEM MOTIVO



Nei Duclós 

Acordo cedo sem motivo
café com leite longa vida
o pão caseiro amanhecido
o forno a lenha muito antigo
a rosa em véspera colhida
na mesa ainda sem capricho

Trago de volta a poesia
para quem acha graça nisso
inverno ensaia seu início
notícia velha sobre o clima
calor interno em conflito
sob as cobertas sinto frio

Balanço de uma estranha vida
tempo em que nada acontece
aguardo o sol no seu aprisco
a pincelar o céu de roxo
Sofro um intenso paradoxo
tarde demais quando amanhece


  

1 de junho de 2016

É TUDO INVENÇÃO



Nei Duclós 

É tudo invenção, tempo estranho
ponho na roda o que ainda sonha
mostro o que tens, caras e bocas
em troca de uma criação maior

Faço por onde, como dizem sempre
o gesto é merecedor do espanto
diga a que veio, recado em rabisco
depois devolva tua fala no grito

Não te conformas com o veredito
ao decidir dizer que não decifro
Não acredito, repetes à toa
perdeste a fé, escravo convicto

Depois querem que eu explique
forneça a chave do grosso ruído
esqueço a balbúrdia, coloco o disco
no lado B há um duelo de esgrima

Prefiro seguir, cavaleiro andante
esquecer a sinistra cartomante
da janela pende a ultima trança
voe para mim, palavra de vidro










LAVOURA



Nei Duclós

Não sou profundo nem raso
sou pouco caso, verbo espúrio
pelos anjos soprado, que levam
a culpa pela escolha. Tivessem
outro alvo haveria jogo e não o joio
de uma lavoura abandonada
no momento da semeadura

O que medra nela vem da chuva
lágrimas de um mero acaso
trigo de alimentos futuros
ainda não catalogados
Ando de barco recolhendo tudo
peixes saltam do barro
são os poemas salvos por indulto


RETORNO - Imagem desta edição: obra de Coleman. 


SÁBIA REVOLTA



Nei Duclós

Não é para interagir com o gênio
porque ele vem completo e se pauta
pela música das esferas.
Você o acolhe no escasso espaço
da sua casa e aguarda que se rompa
o limite da obra, quando se espalha
o milagre do qual você não discorda
nem concordas. É apenas o rastro
do passo que o gigante elabora
e ergue diante do céu, como Apolo
que protege Gaia e nos ameaça

Não se trata de servidão, mas de toque
te alimentas do que ele nos traz
sem misericórdia. Esse reflexo mudo
de uma tempestade de luz, o raio
que rasga o infinito exposto em nuvens
a louca mansidão de uma consciência
profunda, as camadas atingidas
até a última gota do orvalho misturado
ao mel das horas. O coração que se renova
sem que o dia dê um pio sobre os fios
dependurados numa árvore de sábia revolta


RETORNO - Imagem desta edição: Apolo, no Louvre. 

COLÔMBIA E ETIÓPIA: A LEI DO CÃO E A JUSTIÇA



Nei Duclós

Uma das minhas cenas favoritas de A Vida de Brian (1979, TerryJones/ Monthy Pyton ) é a reunião clandestina dos guerrilheiros com os judeus oprimidos: Vamos expulsar os romanos. O que nos deu o Império Romano? diz o agitador. A coleta de lixo, diz alguém a plateia. Sim, a coleta de lixo. Mas só isso, o que mais? As estradas e o policiamento noturno, diz outro. Sim, sim, mas nada mais que isso. O Direito Romano, diz finalmente mais um.

Longe de justificar a opressão, mas desmascarando quem tenta jogar fora a água suja do Império junto com o recém-nascido, as conquistas legais, o filme mostra que civilização é uma árdua construção que merece ser entendida para que não se renovem os equívocos. Nenhuma ideologia deve servir à barbárie. Junto com a mudança deve vir o entendimento e também o perdão. Isso me ocorre ao assistir dois filmes excepcionais lnçados em 2014. Um é Manos Sucias, do americano com raízes no Japão e na Polônia Josef Kubota Wladyka, que brilhou no festival alternativo de cinema Sundance e aborda o envolvimento de dois pescadores no tráfico pesado de drogas. E outro é Difret, dirigido por Zeresenay Berhane Mehari e produzido por Angelina Jolie, com a jovem Tizita Hagere (foto) no papel da garota estuprada pelo pretendente cheio de razão, pois estava amparado na tradição.

Depois desse caso abordado no filme, o sequestro da noiva virou crime na Etiópia e dá cadeia de cinco anos para quem pretender agir sem atentar para a nova lei. Mulher assim deixa de fazer parte dos móveis, rebanhos e utensílios dos homens, graças ao trabalho de uma advogada amparada por uma Ong que presta auxílio gratuito para as meninas perseguidas. É de arrepiar a cena em que os lavradores pedem a pena de morte para a menina de 14 anos (uma idade sob suspeita dos policiais por ser ela desenvolvida), que ao se defender do crime sexual atirou no sujeito, que acabou morrendo. O ancião da aldeia decreta uma indenização à família do morto e o exílio da mulher que atirou em legitima defesa, arrancando urros de indignação de quem defendia a pena de morte..

Na Etiópia, o idioma oficial é o amárico, uma língua semítica com cerca de 26 milhões de falantes nativos. Não se deve confundir com o aramaico, falado em partes do Oriente Médio , embora ambas sejam línguas de origem semítica.A palavra em amárico do título do filme, "difret" tem um duplo significado. Em seu uso mais amplo significa coragem e a tradução em Inglês mais próximo aponta para o verbo "ousar". Mas, em amárico, ele também tem um-duplo sentido que significa "o ato de ser estuprada".Nessa confluência de significados, somos transportados para a sinuca de bico deste caso em que o direito romano, com testemunhas, júri, juiz, sentenças, se impõe sobre os hábitos e certezas milenares.

No outro lado do mundo, mas sintonizado no mesmo diapasão do terror social, Manos Sucias foi feito graças a uma bolsa fornecida pela instituição fundada pelo Spike Lee. Aborda a lei do cão na selva colombiana, onde a favela fornece mão de obra barata para os chefões do tráfico. A sequência de perseguição e fuga em motonetas sobre trilhos é de nos arrancar da cadeira. Os moços pescadores são levados ao crime brutal com armas de fogo e com as próprias mãos para poder fazer a entrega de um grande carregamento, que é acoplado ao seu barco com um cabo, para despistar a polícia. A inocência dos protagonistas que se enlameiam na culpa dos assassinatos, sendo eles próprios vítimas dessa situação (um deles perdeu um filho com um tiro na cabeça) contrasta com o clima de um ambiente em que a natureza adquire tons sinistros, contaminada pela maldade humana.

Dois tremendos filmes. O colombiano no Netflix e o etíope no Telecine Cult. Cinema é o que pega.