9 de março de 2016

MURO



Nei Duclós 
 
E agora que descobres meus segredos
E sabes quem eu sou, cacto no deserto
Uivo de coiote em busca de alimento
Da família dos ventos o maior desassossego
E que refuga ajuda por mais que haja tombo
Rombo humano sem amor que aguente
Jogo duro em tempestade de areia
Muro de uma cidade sem defesa
Verás que tenho a flor guardada como herança
De um passado feio mas cheio de esperança


7 de março de 2016

PERFIL DE SAL



Nei Duclós

Arranco do mar minha conduta:
perfil de sal, água insalubre
gaivotas no meu ar
conchas grudadas no farol

Ilhas de coral, dança de cardumes
salto de navios singrando o céu
rotas desafiando o temporal
proa com máscaras rituais

Convés borrado de luar
velas ao sabor do vento estelar
ondas em direção ao cais
submersos tesouros sem valor

Do mar arranco meu espaço
margens fisgadas pelo anzol
rastro de corcel, dorso de espuma
o tempo que o sonho captura






4 de março de 2016

PREMATURO



Nei Duclós 


Não é de paz que o verso é feito
desfile de pomba e lençol branco
gesto de pompa pela caridade
jogo de sofás sem desconforto

Também não é de luta sua vontade
quedas no front e ordens de bastilha
fogo de mísseis misturado ao sangue
rodízio de balas em ponte levadiça

O verso não serve como par romântico
lisura de pele cevada no crepúsculo
verbo não exerce a missão de amante

Não insista, a palavra não compactua
não serve de insumo para platitudes
Poema é um tranco, corpo prematuro


RETORNO - Imagem desta edição: obra de Sir Francis B. Dicksee

2 de março de 2016

AO REDOR DO FUTURO



Nei Duclós

O futuro desapareceu porque mergulhamos nele. Tínhamos imaginado esta estação terminal e a profecia está sendo cumprida à risca. Tudo se intensifica e cada porção dos grupos humanos cobra a conta. O convívio se esgarça como um tecido exposto demasiadamente ao sereno. Apodrecem os vínculos, as linguagens se partem.

Ao mesmo tempo, como resposta ou efeito colateral da situação limite, a literatura se multiplica, se diversifica, se espalha por milhões de vozes de repente assumidas em mídias pulverizadas. Há vários níveis dessa produção gigantesca, não apenas em relação a gêneros de escritas ou falas, de fontes dispersas por continentes, mas de talentos variados que se cruzam em combinações abertas ou fechadas.

A literatura assim posta, em prosa ou poesia, ou nos estilhaços da linguagem em conluio com todas as artes, é um vetor, uma baliza, um imã, um instrumento na paz e na guerra, sendo exercida como ofício ou não, neutra ou engajada, espalhando-se ou implodindo, impregnada de um poder variável, que pode ser um petardo ou um sussurro. A literatura faz parte da natureza em declínio, ocupa espaço junto às folhas mortas, aos desertos, aos territórios poluídos ou devastados pela barbárie, junto ao rodopio dos tornados, à varredura dos tufões, aos detritos levados pelo tsunami, às contorções assombrosas do alto mar.

Não há inocência porque nada escapa ao terror da vida em radical transformação, mas pode haver limpeza de espírito, não a da vestal ou do fundamentalista, mas a do rosto claro e sem lágrima diante da tormenta. Falando por metáforas ou esgrimindo tecnicamente cada sílaba, na revoada de vogais em espinhos de consoantes, criar faz parte de um esforço coletivo, anônimo, espontâneo, muitas vezes involuntário de costura do mundo em pedaços. Missão fora de todas as molduras, pura concentração de raios e brilhos, de foscos caminhos, de trilhas ocultas, de minas soterradas.

Em qualquer lugar ou momento nasce a luz espiralada, o fogo em duelo com a chuva ácida, o amor entre as pedras, o voo cego, o pouso em horizontes riscados por deuses e enigmas, sujos cataventos movidos pelo sonho nunca alcançado de sermos melhores do que o destino.


1 de março de 2016

REPITO A FLOR






Nei Duclós

Repito a flor como retorna o dia.
Março que a luz frontal inicia.
Branca na soma de cores profundas.
Provisória manhã na permanência
da vida. Registro a fuga na teimosia.
Volta o que sempre parece perdido.