5 de novembro de 2015

LUTO, DO VERBO LUTAR



Nei Duclós

Tudo e suportável quando a vida não enfrenta a dor maior de uma perda de alguém tão próximo que faz parte do nosso corpo e do nosso sangue. Quando perdi minha mãe, o impacto foi tão fundo que prometi não comparecer mais a enterro nenhum. Não imaginava um funeral com meu próprio filho.

O luto tem sido insuportável, mas assim mesmo imaginava poder ter forças para cumprir meu compromisso com a Feira do Livro de Porto Alegre hoje. Peço desculpas aos organizadores, que abriram generosamente espaço para meu novo romance, ao patrono e amigo Dilan Camargo e a todas as pessoas queridas que iriam me abraçar neste momento difícil. Mas não consegui me mover do lugar onde sepultei meu amado Miguel.

Meu livro é sobre o sacrifício de vidas que procuram transcender sua passagem terrena numa missão, numa obra árdua. Protagonistas reais e inventados enfrentam a dor da perda e a luta permanente por uma nação aos pedaços. Assim é que sinto o Brasil, envolvido com a morte prematura de tantos jovens, completamente partido como país e comprometido em seu futuro. Só nos resta nos manter focado em nossa missão, carregando junto o amor insubstituível de alguém que vi nascer, crescer, se realizar e morrer.

Deus nos ajude a nos convencer de que isso realmente aconteceu. Por mais palavras de apoio, jamais vou me conformar. A vida segue numa luta sem fim.

Estamos de luto, que é a radicalidade da morte. E é também do verbo lutar, que é a radicalidade da vida.


4 de novembro de 2015

PRESENÇA DA SABEDORIA



Nei Duclós

Foi para fazer justiça ao meu filho Miguel Lobato Duclós (1978-2015), que colocou no ar o seu trabalho acadêmico e difundiu a produção de pensamento de inúmeros colaboradores, que postamos esta série de homenagens depois de sua morte no final de outubro. Foi para introduzir as pessoas a uma obra que, paradoxalmente, ficou oculta apesar de explícita, ignorada oficialmente mesmo com presença virtual forte e organizada. E também para nos sintonizar com todos os seus pares que com ele trilham esse caminho árduo do conhecimento.

Miguel percorreu as universidades brasileiras. Depois de se formar na USP, onde não encontrou espaço para fazer seu mestrado e doutorado, foi aprovado no vestibular para a Unicamp (que não frequentou), a UFPR (onde cursou um ano as Ciências Sociais), a Udesc (onde estava fazendo História e tentando encontrar um lugar para sua pós), a Ufrgs . Miguel era admirado e amado por muitos acadêmicos, e decidiu criar seu próprio caminho numa instituição complicada, a universidade brasileira. Fez isso com o sacrifício de sua vida.

Miguel sabia da importância do seu trabalho, sofria o preconceito contra o universo digital por parte de uma academia ainda presa a ferramentas antigas (isso já mudou, mas ele foi um pioneiro) e procurou se realizar nos estudos. Foi feliz porque conseguiu cumprir sua missão, mas o destino ceifou-lhe a vida moça em pleno voo. Estava cheio de planos e esperanças.

Minha intenção aqui é ajudar a esclarecer a vida e a obra de um filósofo contemporâneo, que lutou o bom combate sofrendo, como todos nós, com o obscurantismo que impregna o país. Insurgiu-se contra as asneiras que sustentam campanhas políticas e argumentava profundamente em sala de aula, servindo como referência e também provocando alguns desconfortos pela solidez de suas análises. Manteve-se íntegro o tempo todo.

Vida eterna aos heróis do conhecimento.
Miguel Lobato Duclós (1978-2015) vive dentro de nós.

RETORNO - A foto é da cadeira que ele usava para trabalhar, com alguns exemplares da biblioteca que leva seu nome e a coruja que o irmão Daniel comprou para ficar na nossa estante e assim podermos lembrar de seu símbolo favorito.

INTENSO, ESSENCIAL, PROFUNDO



Neste curso avançado de filosofia que é o megasite Consciencia.org, Miguel Lobato Duclós (1978-2015) contribui com seus textos esclarecedores. Fiel ao cânone, ou seja, rigoroso ao estudar e citar o pensamento clássico, não deixa também de ousar nas costuras e propor ideias. Pensador contemporâneo, um filósofo do século 21, Miguel escreve com clareza sobre assuntos pesados. Quem quiser acompanhá-lo, sairá ganhando, pois no lugar de deitar regras ele simplesmente trabalha a trilha do pensamento, armado da leitura atenta e a palavra mais próxima possível do entendimento.

O MITO DE PROMETEU E EPIMETEU SEGUNDO ÉSQUILO, HESÍODO E PLATÃO.

por Miguel Duclós

1. Hesíodo e Ésquilo.

            O mito de Prometeu é descrito na literatura clássica principalmente em Hesíodo. Aparece nas duas obras do poeta, Teogonia e Os trabalhos e os Dias, sendo que na segunda ele  é recontado e complementado. Afora Hesíodo, outra obra importante, a tragédia Prometeu Acorrentado, é dedicada a ele. Porém nesta tragédia o mito não está completo, pois começa no instante em que Hefesto e Cratos castigam o titã, a mando de Zeus pai. Prometeu, em diversas partes da tragédia, se refere aos motivos que o levaram a ser acorrentado. A tragédia fazia parte de uma trilogia sobre Prometeu, mas as outras duas partes se perderam.

        Como explica Junito de Souza Brandão, o nome Prometeu, segundo a etimologia popular, teria vindo da conjunção das palavras gregas pró (antes) e manthánein (saber, ver). Ou seja, Prometeu equivaleria a prudente ou previdente. Embora, como afirma Ésquilo, Prometeu não supusesse o teor do castigo de Zeus ao desafiá-lo, ainda assim lhe é atribuído um caráter oracular, por ter proferido um vaticínio sobre a queda de Zeus, o governador. Alguns outros mitógrafos atribuem a teoria desta previsão a Têmis. A profecia diz que o filho da nereida Tétis e de Zeus destronaria o pai. Por causa disso, Zeus desiste de seduzir a nereida e se apressa a lhe dar um esposo mortal, que acabou sendo Peleu. Este cuidado de Zeus também se verifica quando ele engole a mãe de Atena, Métis (sabedoria, astúcia) – sua primeira esposa -, para que não nascesse dela um segundo filho mais poderoso que o pai. Zeus engole Métis ainda grávida, e Atena, deusa da sabedoria, nasce da cabeça do pai.

          Prometeu, que parece detestar Zeus –  como se observa na tragédia esquiliana pelo desprezo a seu mensageiro Hermes ou quando critica a arrogância de Zeus e diz abominar os demais deuses – era filho do titã  Jápeto e da oceânide Clímene. Apenas em Ésquilo a mãe de Prometeu é Têmis, a deusa da justiça. Tinha como irmãos Atlas, Menécio e Epimeteu, sendo que todos eles foram castigados por Zeus. Jápeto era irmão de Crono (Prometeu era, portanto, primo de Zeus)  e de Oceano, que em Ésquilo sai do seu reino e avança sobre a Terra para tentar dissuadir o sobrinho Prometeu de sua revolta e dizer a ele que intercederia junto a Zeus, uma prova ferrenha de sua amizade.” (Miguel Lobato Duclós, continua no link)


MIGUEL DUCLÓS ABORDA A LITERATURA




Na Universidade Federal de Santa Catarina, Miguel Lobato Duclós (1978-2015) cursou um ano de Letras, onde desenvolveu alguns trabalhos sobre literatura. O pensador aborda o gênero conto com a profundidade que trouxe de sua formação filosófica, uma superposição conceitural com grande poder de síntese. Um aspecto precioso do seu texto é a luz que lança sobre os mecanismos usados na sua análise, numa permanente revelação de como engendra pensamento a partir de vários autores e recursos teóricos.


“O CONTO: DIFICULDADE DE DEFINIÇÃO DO GÊNERO

E ABORDAGEM DE ALGUNS TEÓRICOS.”

Miguel Duclós             



Originalmente apresentado no CCE/UFSC



Seminário escrito baseado na leitura do texto “O conto: uma narrativa”, capítulo 2. do livro Teoria do Conto de Nádia Gotlib.

“ O conto é notoriamente um gênero literário de difícil definição, e as teorizações por parte de escritores e críticos acerca desse tema atingem grande número e diferentes graus de complexidade, principalmente se considerarmos o problema em diferentes contextos – a evolução da concepção do conto no tempo e nas diferentes culturas e países, por exemplo.

Qualquer tentativa de abordar a questão, portanto, poderá fracassar se não considerar a diversidade e as diferentes possibilidades de abordar a problemática. Esta abordagem é não raro feita de forma pessoal e autoral, e talvez por isso parcial ou idissiocrática, e isto nos traz algumas frases bem humoradas, como a do escritor paulista Mário de Andrade, que afirmou "conto é tudo aquilo que o autor quiser chamar de conto"[1]. O escritor argentino Júlio Cortázar, porém, adota uma abordagem mais cautelosa já no título de seu escrito “Alguns aspectos do conto”, onde afirma:

“É preciso chegar à idéia viva do que é o conto, e isso é sempre difícil na medida em que as idéias tendem ao abstrato, a desvitalizar seu conteúdo, ao passo que a vida rejeita angustiada o laço que a conceituação quer lhe colocar para fixá-la e categorizá-la. Mas, se não possuirmos uma idéia viva do que é o conto, teremos perdido nosso tempo, pois um conto, em última instância, se desloca no plano humano em que a vida e a expressão escrita dessa vida travam uma batalha fraternal, se me permitem o termo; e o resultado desta batalha é o próprio conto, uma síntese viva e ao mesmo tempo uma vida sintetizada, algo como o tremor de água dentro de um cristal, a fugacidade numa permanência.” [2]

A questão da definição do conto como gênero literário passa ainda pela própria evolução da forma de narrar que o gênero sofreu. Nosso objetivo neste trabalho limita-se somente a apontar a dificuldade desta definição – e não tentar abarcar o problema em uma visão geral. Alguns subterfúgios podem ser úteis para trafegarmos por esta via de difícil acesso. Um deles é o de perseguir a perspectiva dos grandes autores que, como afirmamos, não raro fizeram reflexões e assertivas sobre suas obras e o caráter geral do gênero conto. Nesse escrito de Cortázar, por exemplo, é ele próprio quem, a partir de sua experiência como contista, postula alguns princípios que julga como fundamentais para a configuração do conto como gênero literário. Apesar desta perspectiva que parte de uma experiência particular, Cortázar preocupa-se em destacar os aspectos constantes que caracterizam o gênero na sua manifestação realizada por diversos autores. Notável é a influência do poeta e contista estadunidense Edgar Allan Poe (1809-1849) na literatura de Cortázar, e isto é um indicativo de como a presença da produção literária de grandes autores, como Poe, Tchecov, Tolstói, Guy de Maupassant, Voltaire etc., ajudou a fixar o gênero literário conto na sua forma contemporânea e em diferentes correntes. [3]” (Miguel Lobato Duclós, continua no link)




2 de novembro de 2015

MIGUEL LOBATO DUCLÓS E AS UTOPIAS



Percorro o vasto cabedal de conhecimento de filosofia comparada e comentada no site criado, desenvolvido e mantido pelo meu filho Miguel Lobato Duclós. E o que era admiração vira assombro, pois em tudo ele extrapola com seu trabalho de infinita capacidade de estudo e ensino.

No site Consciencia o visitante fica sabendo não apenas o básico sobre Maquiavel, Rousseau, Nietzsche, Thomas More, Aristóteles, Platão, entre centenas de outros gênios, mas tem acesso à produção de pensamento que cruza conceitos e cria janelas para uma percepção mais ampla do que existe nos livros. O autor do site e seus inúmeros colaboradores ousam pensar sobre os temas mais relevantes. Nenhum assunto é estranho ao Consciencia, que tem ainda on line uma biblioteca de apoio, com textos completos de filósofos antigos e contemporâneos, e de autores de outras áreas, que funcionam como um impressionante mural do que se escreve no universo da cultura. O link da biblioteca do Consciencia é este: http://www.consciencia.org/biblioteca.shtml

Nestes posts logo depois de sua passagem para o Outro Lado, seleciono alguns textos que ele apresentou em sua graduação. O menino brilhante que não teve acesso a títulos, hoje tão disseminados, de mestrado e doutorado, deixa o legado precioso do saber sem nada ter pedido em troca.

Paz, meu amado filho.

(A imagem é de René Magritte, que Miguel colocou no seu espaço aqui no face.)

"CERTAS SEMELHANÇAS ENTRE UTOPIAS"

Miguel Duclós

Trabalho originalmente apresentado para a cadeira de Filosofia Geral III – FFLCH-USP

" Embora a palavra Utopia só tenha sido cunhada a partir da junção do advérbio grego ou com o substantivo topos por Thomas More em dezembro de 1516, na ocasião da publicação de seu livro, o tema a que se refere sempre foi rico de construções e alimenta a imaginação humana da antiguidade até hoje. Na Antiguidade, há algumas obras sobre as quais passarei a vista, tentando extrair semelhanças em conjunto com os três grandes clássicos da Renascença. Quem se detém neste estudo logo percebe que a utopia é um tema recorrente tanto no campo da filosofia – na esfera da crítica e teoria política e social – quanto no campo da história, literatura e outros. O subterfúgio para propor a existência de um estado ideal parte de dois motes principais: o primeiro é a consciência do autor acerca de algumas injustiças, iniqüidades e imperfeições de sua própria sociedade, o segundo é o desconhecido ou o estranho, que existe em outro espaço indeterminado – como a Atlântida, a cidade de Utopia, a cidade do Sol, a Nova Atlântida de Bacon – ou em algum tempo diferente, assumindo assim a forma de lenda ou de profecia – como também é o caso de Atlântida ou dos mitos milenaristas cristãos.

Os conhecimentos geográficos dos gregos eram limitados, como sabemos, e isso possibilitou imaginar Atlântida além do Grande Oceano, das duas colunas de Hércules do estreito de Gibraltar. Com as grandes navegações na Renascença, o mundo volta a existir em sua vastidão indeterminada de outrora. As façanhas e os relatos dos viajantes, e a descoberta de terras e povos desconhecidos fermentam de novo a imaginação dos europeus, em particular dos nossos três filósofos, More, Bacon e Campanella. Aliás, tais relatos continuaram alimentando as gerações dos escritores nos séculos seguintes, como se observa em parte do Cândido, de Voltaire, que conta a utopia de El Dourado; ou nas Viagens de Gulliver; de Charles Swift, ou no Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens de Rousseau; ou na utopia brasileira A cidade Perdida, de Jerônimo Monteiro.

Porém, temos em tais obras e romances que contam relatos de viagens duas vertentes distintas. No gênero utópico, o viajante chega, freqüentemente saído das garras da morte, e é muitíssimo bem recebido pelo estranho povo, não cessando então de admirar a nova forma de organização social. Assim é Nova Atlântida de Bacon, onde o sentimento de inferioridade dos europeus é extremo, e onde sua admiração pela magnitude do povo de Bensalém se mostra em vários pontos. Na outra vertente, temos a figura do colonizador. O colonizador traz consigo as virtudes de sua própria civilização, e impõe aos povos bárbaros sua superioridade e valores. Tal é o caso, por exemplo, de Lord Jim de Joseph Conrad ou de tantos outros, mais próximos da realidade." (Miguel Lobato Duclós, continua no link)

http://www.consciencia.org/utopia.shtmlutopia.shtml