23 de março de 2014

CARISMA



Nei Duclós

Segue meus passos por solidariedade
à solidão que desfruto. Por mero capricho,
entre seus inúmeros compromissos.
Concede atenção a quem está só de passagem,
 envolvido com míseros assuntos, da literatura
ao clima. Como se fosse importante ler
o que ninguém precisa. Mas saber-te vizinha
ao sono que compartilho nesta rede anímica
já me serve de consolo enquanto adivinho
a chance de usufruir teu carisma, pois sei
o quanto brilhas em remotas conferências
onde despejas sabedoria sem mexer uma linha
do rosto, levantando apenas a sobrancelha

Todos apontam teus estribilhos e cantam contigo
algo além da filosofia, o segredo de mecanismos
que incentivam os pássaros a inventar o crepúsculo
ou a curva das conchas quando viram fósseis
e são encontradas por crianças num certo domingo

Jamais chegarei perto do que compões com maestria
mas sinto que buscas em mim algo que te falta
essa vocação que eu tenho para o agarro súbito
essa firme decisão de ser impiedoso contigo
e despertar nuvens de tempestade onde há calmaria
Sou um fio de água que se deposita sem sentido
em teus musgos de rocha, montes lívidos de mel
grupos de insetos sobrevoando a vinha. e as uvas
que amassas com os pés enquanto urro, esturro
de fera cevado em gruta já sem húmus, pois tudo
foi dedicado à pintura das paredes, esses bisontes
cheios de vilania, corças sendo flechadas pela Lua


RETORNO -  Pintura na caverna de Altamira.

22 de março de 2014

DOIS LIVROS VOLTAM À ESTRADA




 

 Nei Duclós
 
Lanço em PDF dois ebooks: um de poesias, NO MEIO DA RUA, publicado originalmente em 1979 pela L&PM, e o romance UNIVERSO BALDIO, que foi publicado em 2004 pela Francis. São edições do Autor. Quem quiser adquirir, basta mandar um email para neiduclos@hotmail.com. Há duas opções: o preço básico, de 30 reais o exemplar, ou a colaboração em aberto (qualquer quantia, para que não haja empecilhos para quem quiser ler).

Vocês vão gostar. Mario Quintana e Raduan Nassar gostaram.


O primeiro poema que li, de Nei, assim começava: "Olhem o animal da palavra". Era eu. No tempo em que ele o publicou não pude agradecer-lhe. Pois foi quando se dera na Europa e nas Américas aquele histórico e súbito movimento de maturidade e independência dos jovens – os quais se apresentavam de longas barbas, não para imitarem seus venerandos avós, mas sim, creio eu, numa espécie de reencarnação do homem das cavernas -, visto que era preciso recomeçar tudo. Ora, como eu ia dizendo, não pude agradecer pessoalmente ao poeta, pois jamais conseguia diferençar um barbudinho de outro. Sei que agora ele está barbilampinho. Mas noutra cidade, onde diz coisas assim:
"Não posso deixar de trair o meu sossego".
(Do Prefácio de Mario Quintana para No Meio da Rua).

 


"A frase é sempre boa, as descrições precisas, a narrativa um tanto sincopada, sobretudo no Primeiro tempo, ainda que passe eficientemente ao leitor o quadro de comtestação à repressão e seus desdobramentos. No Segundo tempo, emerge o espectro do caudilho Honorio de Lemos, voluntarioso, portador de uma linguagem dura e asborosa, um homem da terra (do Sul), e a ficção acontece. Desconfio, meu caro Nei, que o teu romance comece no Segundo tempo."
(Raduan Nassar, em carta ao autor, sobre Universo Baldio).

20 de março de 2014

AGUARDO O VENTO



Nei Duclós

Sou menos do que escrevo. És mais do que te leio.

Aguardo o vento prometido, vindo de uma porção leste do teu conflito.

O amor é um lenço que deixas cair porque perdeste a pista das lágrimas. Alguém colhe do chão e te alcança, para que chores de novo.

Pisas no coração alheio por ser fiel a ti mesma. Solidão que cobra a conta enquanto o tempo te observa, princesa.

Pensei em te querer, mas talvez na outra vida. Por enquanto somos apenas folhas soltas no outono que se anuncia.

Nos movemos na cultura, no acervo, não na ruptura do verbo. Resgato cenas para podermos nos sintonizar na mesma melodia.

Tão bonita que sinto pena pela perda de tempo. Havia mundo antes de te conhecer?

Vives de poesia, pão que sempre te falta por mais que sirvas. O único sustento são os olhos de quem escuta teu som de veludo

O desamor arma a calúnia. Não finja entrega quando sua intenção é ferir no momento em que atrai a doçura.

O amor nos faz falar a verdade.

Não me aproximo para o mundo permanecer intacto, detonadora de fôlego

Achas que me repito quando digo o que não cala. Não faço exercícios antes de navegar em tuas águas.

Ligamos na tomada. Não precisava, já tínhamos eletricidade.

O amor, paguei caro. O adeus foi de presente.

Provocas fazendo cara de paisagem. Desconversas quando a avalanche desperta. Dás dura porque nada tens a ver com isso. Por dentro gargalhas, deliciosa. Finges não ter noção, arraso de comportas..

Delicada presença, inaugura o mundo terno. Prudência da beleza, vocação de espanto.
Doçura compartilhada, visão suprema. Lembro quando vejo a comunhão de um cosmo livre de tormentos.

Rodeada por quem te admira, amigos, família, tens uma falta mordendo como isca. É a lembrança daquele dia em que fizemos arte.

A cama vazia suspensa na imaginação em ambiente cinza. A espera de um raio de luz, que nem vem da manhã, mas da tua alegria.

Células que se avizinham, tocam paredes permeáveis, se modificam e criam algo mais denso, o sentimento tomando forma na neblina.

Essa amizade em direção à planície. A fonte da montanha que se adapta como rio. Esse toque profundo como se nada existisse. Esse enigma, o amor que não é dito.

Mergulhas nas águas infinitas do teu dia. Eu fico só na superfície. Não atino respirar onde realmente vives.

O trapezista tirou a bailarina para dançar. Equilibrismo no arame virtual da poesia.

Liberei o sonho dos compromissos. Ele foi atrás de ti, omissa.

Me descubra por baixo do pano. Sou o saltimbanco ainda se preparando. Leve embora o script que eu improviso.

Não me deixe com os braços vazios. Nem o mar caberá nesse vale sombrio.

Nem o mísero sol te compensa, beleza posta em glória. Te bastas com esse ar de vitória.

PLANTA SEM SERVENTIA

Tirei férias de mim. Volto quando voltar.

Meu gesto não faz parte da biografia. Ele está solto, como planta sem serventia, que medra no penhasco diante do mar em fúria.

Fui deixado para trás, por prudência. Preferiram o centro do salão enquanto eu compunha, anônimo, a próxima sinfonia.

Perdi tantas vezes que acabei em ganho. Reduzi o espaço da desesperança.

Não me diga quando não escutas. Não se ache quando te procuro.

Meu desejo é quando consentes. Fora disso, impera a distãncia.

Água fria contamina o clima. Mas serve, para evitar o drama.

Os laços são os que criamos no convívio, seja ele qual for.

Viajei para a remota constelação de origem, lá onde funciona a forja do céu noturno.

Sou o que sinto e falo e não o que diz o registro. Somos criaturas em permanente batismo.

O que fizeste da vida? Fizeste a ti mesmo. És tua própria obra que deixarás de herança
para a memória


JACK O MARUJO EM FORMA



Nei Duclós
 
- Gosto quando fica assim, rude, disse a turista.
- Eu também, disse Jack o Marujo. Economizo boas maneiras para depois da guerra

- Sua sabedoria me encanta, disse a deslumbrada.
- É pura ignorância, mas digo com barba, disse Jack o Marujo.

- O sr. precisa entender que vivemos num processo, disse o scholar.
- Não preciso entender nada, disse Jack o Marujo. Processo eu ponho no anzol para pegar tubarão.

- Gostaria de vê-lo em minha recepção, disse a duquesa.
- Não posso, disse Jack o Marujo. Não sou receptivo.

- O que vais fazer com tantos admiradores? disse a sereia.
- Vou pô-los na prancha, disse Jack o Marujo. Senão acabam me levando para o Jô.

- Achei que tinhas te curado dessa barbárie, disse a viajante.
- É a minha natureza, disse Jack o Marujo. Alguma coisa tem de permanecer tronco quando tudo tende a virar pétala.

- O amor pela sereia te deixou brando, disse a repórter.
- Engano seu. O açúcar é do alvo, não da seta, disse Jack o Marujo.

- Sempre te achei com cara de quem abandona, disse a sereia.
- Deus poupou-se da morte do sentimento, disse Jack o Marujo.

- Não tinhas um compromisso esta noite? perguntou a sereia.
- Senti saudades de ti antes de partir, disse Jack o Marujo.

Vou me enfeitar de lua para que me colhas na rede, disse a Sereia.
- Minha única felicidade é a tua entrega, disse Jack o Marujo.

- Posso te seguir na próxima viagem? perguntou a sereia.
- O amor não pede licença, disse Jack o Marujo.

- O sr. volta para o alto mar? perguntou o Almirante.
- Só no horizonte faço sentido, disse Jack o Marujo

RETORNO -  Imagem: Maureen O´Hara, candata número 1 para o papel de Sereia.

15 de março de 2014

OUTRO TEMPO



Nei Duclós

Toca o sino ao longe. Num outro tempo.

Poesia não tira pedaço. Só junta corpo no mesmo abraço. Distribui o sonho nos intervalos do rolo. Peita o mal só com a palavra.

Somos o que você imagina. Esse teatro em peça íntima.

Digo qualquer coisa para te convencer. Só quando desisto me dás colher.

Teu coração se perdeu no deserto. Por isso dizes que não existe.

Provas porções de mim e desaprovas. Junto os pedaços na Lua nova.

És perfeita porque a arte não existe mais. Fica a memória, grudada em nós.

Me varres para fora do farol e apagas a luz. Fico só no horizonte do mar.

A Lua emite o brilho que escondi. Sou o lado escuro de ti.

Impossível representar o sentimento. Sempre falta algo, coração que sobra.

De vez em quando me dizes. É quando pulo na cachoeira.

Submerja comigo, escama sonâmbula. Pinte no coral onde o amor se banha.

Roupa é a pele, com ela nos encontramos no mundo. A pele mesmo é a perdição.

Tua graça é meu presente. Recebo com o olhar ardendo.

Só de vez em quando te toco. Para que não percas o hábito de tremer que me despertas

É feita de matéria escura a sensação de espanto que experimento quando brilhas.

Estou dormindo. Você está me amando?

Hoje não teve serão contigo. Fiquei na esquina, com um assobio perdido

Somes por encanto. Fico no mesmo plano, te procurando.

Não falo em rendas porque ficas desconfiada. Falo em poesia. Tecida em tua pele.

À meia noite estás com as defesas de lado. Hora daquela falta de cuidado.

Precisamos do excesso em tudo o que fazemos, para compensar a ausência eterna antes e depois desta passagem.
 
Você deixa passar o verso mais invasivo e disfarça nadando em águas prudentes. Mas há sempre um mergulho agendado pelo teu corpo.

Diga oi para mim. Não dói.

Deitamos no campo de olho nas estrelas. Somos cadentes de tanto abandono.

Virá aquele sentimento de querermos alguma coisa, indefinível. Um beijo demorado, que dure um século. Ou algo parecido.

Volta a chover. Chuva enxovalhada, depois de nuvens de ameaça. Cortinas viram velas de navios. O vento quer te molhar.

Não se assuste, estou de saída. Podes me substituir, mas teu coração me espia.

Já ficamos. Depois fomos. Agora estamos, já que não voltamos.

Na tua pesquisa sou traço. Mas amplio o espectro do abraço para caber mais dados.

Voltas do verão com a pele em fogo. Deitas em meu outono de branda chama. Dura mais, até o próximo milênio.

Não me vês, não precisa. Basta que sinta.

Cedo estou no front, alma minha. Cedes atenção, carta que chega limpa, borrada de coração.

Saber é cair em tua percepção madura. Entender o mecanismo da diferença que nos conquista.

Duelamos com as palavras enquanto o corpo espera. Foi um esbarrão que desencadeou essa faina.

Não devia recompor o que parece ser para sempre disperso. Nada sabemos do que virá desse gesto que inaugura espaços.

É cedo para a poesia. É preciso deixar que suma o desconforto das notícias.

Quis dizer de novo o que teu perfil de flor e brinco me permitem. Mas já estavas dita, lírica armadilha.

ESPARSAS

Ninguém tira o que temos de mais fundo.
Nunca mudamos o que nos faz inteiros.
Temos essa essência possível,
superfície que parece espuma,
que nos identifica e cruza qualquer tormenta.

- Por que és tão malvado? ela perguntou.
- É a minha natureza, disse ele.
- E isso não tem cura?
- Só piora.

Quando olhamos nossa imagem
em tempos de tristeza,
nos perguntamos por que às vezes
perdemos o senso de eternidade.