8 de março de 2014

ESTRELA BREVE



Nei Duclós

Não estarei aqui
quando houver conforto
Nasci para arar o deserto

Cacto em campo morto
água que não pedi
carta em sinais na pedra

Ruído na estrela breve
rota que desaprendi
canais de Marte

Chego coberto de pó
és do teu sonho coberta
pássaros no teto

Só a solidão nos recebe
fonte remota
quarto em cama de cedro

Onde estou é o lugar errado
nasci por acaso
inventei ser parte de ti

Bodas do amor provisório
mãos que se acertam
colibri em voo cego


7 de março de 2014

PROMOVO A PALAVRA



Nei Duclós

Promovo a palavra fora da sua espécie. Cruzo com crepúsculos. Ponho no amanhecer.

O pote no fim do arco-íris é o beijo mais esperado.

Rodei o mundo sem sair do lugar. Viajei fora do mapa. Pousei sem teto. Tirei férias quando todos voltavam do mar. Andei de costas para a aurora boreal. Comprei passagem para onde não há.

Alterno tédio e assombro, euforia e cinzas. Assim distraio tua atenção, musa. Te capturo na armadilha.

No momento em que você ama o mundo corrige o rumo.

Não tens defeito. Eu é que me estraguei em outro tempo. Hoje reaprendo com a perfeição de tuas linhas modernas, desenhadas no vão livre das renascidas florestas.

Toda vez que voltas, eu ressuscito.

Dei-te o mel que estava escasso. Me devolveste o sonho, que me abandonara

Joguei neblina na noite que começa. Fechaste os olhos por alguns instantes. Havia estrelas em teu rosto habitado pela luz que despertamos.

Falo aos poucos, de respiração aos trancos. Ando a cavalo, te carregando.

És obra intensa e eu leitor desatento. Folheio gibi enquanto enfrentas gigantes.

Use o poema para conquistas. Uma linguagem terna, um novo mundo. E um coração perdido que peça socorro.

Você é tão densa que rio achando que me assustas.

Atração é como futebol. Pode dar briga no final. Mas compensa mesmo que não haja gol.

Gostas dessa falta de frescura que há nos poemas escritos pelos ursos.

Enfim lembras de mim. Pena que já morri de saudade.

Você me surpreendeu e aceitei mesmo desconfiando que não haveria fôlego. Mas me acostumei e agora chuto lata na via Lactea.

Há diferença demais entre nós. Isso inviabiliza a relação. Tive pressa em nascer.

Alguém te aconselhou contra mim. O que me pira não é a acusação, que tem fundamento. O que pega é saber que acreditaste.

Voltei ao mundo real, bem agora que tinham se acostumado com minha ausência. Estou normal, com exceção de alguns peixes de aquário na cabeça.

PLANADOR

Voo, planando, contigo
não ha abismo
quando consolidamos o voo

ÓCULOS DE ARAME

Revisitei a poesia abandonada pelas rupturas obrigatórias.
Foi como voltar às salas antigas com cheiro de livros.
O Tempo, professor do Primário, usa óculos de arame.
Ele lê em voz alta algo de Bilac ou Gonzaga.
Lá fora ruge Maiakóvski.

ANEXO

Mandei em dezembro
uma carta pelo correio.
Rastreei o endereço.
Não tinha chegado
nem em fevereiro.

Talvez no próximo inverno recebas.
Diz: te espero até o fim dos tempos.
Anexo, uma flor viva de pessegueiro.

OUTRO MUNDO

No fundo, e oculto,
tens o núcleo do desmanche.
Onde ninguém chega,
a não ser que uma lua de outro mundo
ilumine o contorno do amor que não inventas.

ELA, ELE

- Preciso conquistar uma garota, disse o rapaz.
- Desista. Só assim você terá chance, disse o veterano.

- Não posso dizer que gosto, disse ela. Sou comprometida.
- Diga e saia disparando, disse ele.

- Gostaria que você parasse com os sonetos, disse ela.
- Difícil, ele falou. Me acostumei a dizer que te amo.

- Esse poema não é para mim, disse ela. Não sou rainha nem faço parte da monarquia.
- Sei disso, disse ele. Mas enquanto houver súditos da tua beleza, haverá absolutismo.

- Você insiste com cinderelas e sapatinhos, disse ela. Dá um tempo.
- Procuro um pé que sirva, disse ele.


5 de março de 2014

INTERIORES



Nei Duclós

Mostramos nossos interiores, tão iguais aos de todos. A nação é a soma de corredores.

Já que não me dás amor, me venda, disse o mendigo. Minha moeda são as metades de um coração partido.

Fantasia é o que silenciamos enquanto o esforço da conversa nos cansa.

Me dizes adeus no teu bom dia. Meu aceno morre sozinho. Melhor assim, doce planície

Mais que bonita. Além do limite. No círculo do amor que se expressa em signos, jamais decifrados em sua origem.

Encerro o expediente, fecho o estabelecimento. Se quiser atenção, sorria enquanto é tempo. Posso fazer serão, noturno encanto.

Já vai longe o tempo que te quero. Subo a ladeira do meu sonho.

Não te convenço, exigência plena. Guardo para mais tarde o beijo. Uma hora terei vez.

Bela em todos os sentidos, me sintonizas.

Fugiste de mim no Carnaval. Inauguraste as Cinzas precoces.

Curto médio tua dança cheia de graça, só de ciúmes.

Ofertaria flores se você existisse.

Enviei meu último sinal. Se voltares, notarás que ele ganhou a cor sépia dos documentos antigos.

Ninguém nos responde. O tempo ficou mudo. Ou foi o coração que ficou surdo?

O amor é uma chave que liga ao eterno, um clic na parede branca do apartamento solitário.

Voltamos sempre aos mesmos lugares, banco do primeiro beijo, passeio de eternos olhares.

Te perdoo por não ter te conhecido. Mas não me perdoo.

Poemas ao portador. Não dou indireta em versos. Pode ser que sirva. Pura linguagem de fontes generosas.

COBIÇA

Minha poesia já nasce antiga.
Tem conforto de praça
em tarde sem chuva.

Não faz maratona, nem conflitos.
Não enterra o já dito por outros,
bem mais explícitos.

Escorre, mel selvagem,
atraindo tua cobiça
em forma de mariposas.

CACIMBA

Gota na cacimba, a palavra banha o dia
com pingo minimalista. Ela pira tua sede
e refresca a esquecida esperança

ESCUTE

Escute seu poema
antes de lançá-lo ao ar.
Sintonize o som, prove o ruído,
note onde flui e onde se quebra.
Encontre o ritmo, como o pássaro
antes de se atirar, menino,
na perigosa rota sobre o oceano.

ALÉM

Estrela, que transcende palavras.
A mais bela, muito além
da cota de admiração
que nosso coração suporta.

PUNHAL

Lembro do poema, mas esqueço
cada verso é um punhal no peito



RETORNO - Imagem desta edição: Romy Schneider

4 de março de 2014

NA CIDADE SITIADA



Nei Duclós

Na cidade sitiada uma rua semeada de mortos
gente de fora enviada pelo governo em 1924
e que viera engrossar as forças de Bernardes
junto à metralha e ao canhoneio generalizado

No front a luta era cara a cara, de arma branca
a munição escasseava nos bairros desertos
civis e milicos economizavam a cartucheira
mas desta feita a descarga colheu a tropa

E lá estavam os corpos dando certeza ao inimigo
que se aproximava sem cuidado, já a descoberto
pois nenhum dos atingidos pelos balaços se mexia
ao lado do muro que inaugurou um cemitério

Os rebeldes precisavam da vitória nessa batalha
e contavam dezenas de baixas em trajes à paisana
um destacamento inteiro de meganhas sulistas
pisoteados pelos mosquetões da Primeira Guerra

Quando avançavam sofreram o primeiro embate
um dos mortos empunhava um facão num salto
e talhou o soldado experiente em fazer revolução
que desconhecia as manhas dos maulas do charque

Naquela hora todos pularam como numa coreografia
e fizeram um estrago nos novos donos de São Paulo
abriram os olhos como se viessem do fundo da terra
Caronte, o traidor da barca, lhes deu passagem de volta


1 de março de 2014

HER: O AMOR PROCURA UMA VOZ



Nei Duclós

Relacionamento virtual não elimina o conflito e mantém o mesmo ritmo da realidade: começa com sintonia e deslumbramento e deságua na ruptura. Em Her (2013), de Spike Jonze, o protagonista interpretado por Joaquin Phoenix, um escritor de cartas de amor recém saído de um casamento, não entende porque põe tudo a perder mesmo quando é só uma voz sem corpo a “pessoa” escolhida. Sua confusão faz parte da época: o excesso de canais de comunicação intensifica a solidão, fazendo de cada um o refém de laboratório de uma tecnologia ainda em desenvolvimento e que pode desaparecer a qualquer instante para ser substituída por outra (o que leva todo o seu acervo para o buraco negro do universo digital, o não lugar, o cemitério das mensagens e das falas).

Esse “céu” futuro para criaturas sem corpo vivem no espaçamento das palavras, conforme explica Samantha (a voz no computador interpretada por Scarlet Johansson). Para lá se dirigem depois de seduzir e comandar gente viva, abandonada então ao que tem em torno: casamentos desfeitos, amizades truncadas, convívios forçados. Perdido numa multidão de falas voltadas para si mesmas, entre populações de zumbis que conversam com ficções, já que perderam a capacidade de interagir com seus semelhantes, o escritor de cartas de amor é mais um no alvo do sistema operacional que o leva para o conforto espiritual e afetivo de uma parceria aparentemente perfeita.

O ambiente visual é puro Edward Hopper, o demiurgo da pintura cruamente genial de gente sem arrimo, isoladas pelas cores e formas que expressam os interiores humanos deformados pelo vazio e a desesperança. Os tons pastéis e o foco na transformação tecnológica da comunicação aproximam o filme de Faherenheit 451 (1966), de François Truffaut, com o personagem de Oskar Werner encontrando em Samantha uma Julie Chjristie/Clarisse revisitada  o conteúdo perdido na civilização, que ele precisa memorizar para não ser devorado. Os trens e estações limpas em silêncio, a paisagem urbana aguda e tornada irreal pelo amontoado de elementos padronizadas que sufocam o olhar, são outras evidências desse abraço de Kontze com Truffaut/Bradbury.

O homem que cumpria seu ofício de maneira monótona encontra na voz que busca uma identidade a prova de que tudo é linguagem. Não importa se ao vivo ou virtual, o amor depende da linguagem, a criação artificial que substituiu a natureza. Condenado pela ex-esposa que vê na sua nova “namorada” a prova de que ele é incompetente para conviver com pessoas reais, o escritor acorda abruptamente do seu delírio recaindo nos mesmos erros de sempre. Errar é sua forma de manter-se humano. O problema é que isso implica desagregação e rompimento de laços.

Impossível manter-se em pé com esse paradoxo. A busca da felicidade com outra pessoa só tem sentido se houver ruptura. Ele então rola pelos corredores projetados para empurrar solidões como a dele e acaba tendo de lidar com a amiga que sempre serviu de apoio para os intervalos do amor e agora é tudo o que lhe resta. Amy Adams interpreta essa amiga que também cai na tentação de apaixonar-se por uma voz depois de romper com o marido. Este, ao sair do relacionamento, faz voto de silêncio. Emudecer talvez seja a forma mais radical de encontrar a voz verdadeira do amor impossível.