6 de janeiro de 2014

O SONHO DA ARTE



Nei Duclós

Ler o que está escrito
seleções do infinito
objeto letra, concreto
livro. a língua cuida
de si mesma. a chave
é o limite, que ilumina
fora da dispersão
dos títulos, cada página
grita para dentro

Ler o que está dito
imaginar só quando finda
e a leitura é a única
companhia da mente
abandonada de sílabas
A trilha foi invenção
dos bichos em direção
à água. Nela vieram índios
e depois tua estrada

Ler só o signo, camadas
superpostas de sentidos
cavar a arqueologia
do que mostra a curva
do destino, configuração
de conflitos entre ação
e fantasia, a solidão
de quem decifra
e guarda o segredo

Ler o que finda
para não perder-se
saber o tom preciso
do já posto, posicionar
os olhos para a mosca
onde se debate o choque
entre ver e ignorar-se
Não entregar-se, a não ser
para o sonho da arte

 
RETORNO - Imagem desta edição: obra de Vermeer.


5 de janeiro de 2014

CINEMA MUDO



Nei Duclós

Aproximo o rosto do espelho
Enxergo um outro sujeito
que não me cumprimenta

Saia da frente, diz ele
veja o mundo lá fora,
tua imagem verdadeira

Esporo de açucena
o amor que se revela
cruza tua fronteira

Encontre o adiado impacto
da fuga em ti mesmo
a vida revela o avesso

Teu lado esquerdo
é o direito. Há paisagens
fora do eixo

Não se iluda que isso
também sabias. Esqueces
a confusão do entrudo

Misture-se aos vestígios
que o cinema mudo deixa
em tua sonora soberba



RETORNO - Imagem desta edição: Louise Brooks

LEQUE



Nei Duclós

Não resisto e me copio. Gosto do que escrevi antes de perder o rumo.

Pus as fantasias em leque para escolher uma. Descobri que nada tenho, flor de cacto.

Não sou invasivo, apenas te cerco. Quando menos esperas, estou dentro.

Uma hora a gente se enxerga, num aperto sem trégua.

Oculta nas plantas, olhas pelo poema, flor estranha.

Guardamos segredo, cheios de não sei o quê, talvez de vergonha da alegria.

Falamos de manhã, quando, sem noção, batemos asas.

O melhor da praia é a lisura da tua pele, ainda intacta de tão madura.

Finja que somos estranhos. Assim mantemos a vibração do primeiro encontro.

Tudo resolvido. Eu mostro minha queda, você aceita o pedido.

Apaixonada assim à toa. Por um verso apenas, incerto e solto. Escorregas fácil no confronto. Ou então tens a manha e eu tropeço.

Distribuir poesia é treinamento. Para um dia dividirmos o alimento.

Cansou de mim, apressada. Sou um verão que acaba cedo.

Não encontramos o caminho de volta. Tudo se fecha, como por milagre. Procuramos abrigo no inverno precoce.

Não vou deixar pistas da minha passagem. Fiquei invisível para que não finjas ignorar-me. Quando acordares, serei vento na tarde.

No teu caminho abre-se toda a diversidade do sonho, andarilha.

Fuja, fuja. O final da fuga é o seu início. Entregue-se, artista.

Palavra é divertimento. Jogue de volta por cima da rede.

Rima fácil está proibida. Esforce-se, querida.

Amor, só depois da chuva. Agora sue a dúvida de atirar-se na canícula do teu sonho.

Menos, agora. Prepare-se. O ano promete muitos dias de desmoralização dos sentimentos. Gele até a pose máxima da competência.

Não desistes, flor na inundação dos meus dias. Viajas até chegar ao porto supremo do amor correspondido.

Moras onde não te toco. No precário equilíbrio de uma sintonia. De onde jorra a fantasia em longa queda, como dos penhascos se joga a água em queda livre.

Te perco todos os dias, amor que nunca me deixa.


MAIS JACK E A SEREIA

- Como notas que eu choro, se estou cercada de água? disse a Sereia.
- O sentimento não se mistura, disse Jack o Marujo.

- Canto por códigos, truncando as sílabas, disse a Sereia.
- Adivinho o sentido imaginando teu beijo, disse Jack o Marujo.


- Abandonei as escamas, agora sou planta, disse a Sereia.
- Me enlaças de qualquer jeito, disse Jack o Marujo.

- Sou a Mergulhadora, disse a Sereia.
- Adivinho pelo teu canto submerso, disse Jack o Marujo. Sei onde ficas na maré.

- Só queres saber do mar, disse a Sereia.
- Mar é amor, onde moras, disse Jack o Marujo.


4 de janeiro de 2014

ESPESSA



Nei Duclós

Pinturas na parede da gruta
bisonte com flechas de Cupido
pedra polida sobre o urso
vestido que ardes na costura

Pensar só depois do almoço
garantir primeiro a vida bruta
coletores de flores de amianto
vagidos no jogo de cintura

Animais farejam partituras
procuram na lava a ametista
onças curvas em nossa trilha

Só depois haverá repouso
tu em meus braços, ninfa muda
mastigando espessa mel e soro


RETORNO -  Imagem desta edição: Monica Vitti


1 de janeiro de 2014

ENDEREÇO CERTO



Nei Duclós

Meu poema tem endereço certo: teu coração, onde estou perto das estrelas.

Não sei o que fazer com você, flor que eu não deixo de querer.

Amor não vence por prazo de validade, nem é erradicado por decreto. Ele se mantém firme, como rara flor no deserto.

Não esqueça que voltamos à ativa. Situação em que me tens cativo.

A brisa em tua saia fina em manhã de praia. Os corpos grudam em nossa alma.

Não pense que te esqueço. Faço intervalos de ausência sem motivo certo. Como pêndulo, volto ao lugar de sempre.

Quase tudo o que eu disse foi para o espaço. Ficou apenas um verso pulsando em teu sopro.

O crepúsculo manipula a nuvem como barro, artesão de formas bizarras, pintor de luzes terminais entre o azul e o ocre.

Gesto de cisne, rosto ao alto. Princesa do amor à arte.

A dança que tentaram matar em ti dorme nas dobras do teu sonho. Tudo despertará com um beijo do novo ano.

A dança é a cura, bailarina. Teu exercício ilegal da medicina.

Dançaste para mim e assim apertaste o laço. E eu achando que te cantava!

Exagero para ver se cai tua ficha.

Costure na bainha o poema secreto. Ele contém o que não posso sentir.

 Arrisquei um verso, mas não estavas mais aqui. Acho que gostarias de ouvir, aflita


RETORNO - Imagem desta edição: Ingrid Bergman.