4 de setembro de 2012

NOVELO



Nei Duclós

A toda hora sumo
no teu casulo invisível
teço o fio de Ariadne
no átrio atrás da coluna

Reapareço de chofre
se te ausentas de tudo
tenho o segredo do cofre
chaveiro de muito embrulho

Vais no Louvre por descuido
querias ir ao cinema
pintas o olhar do urso

Faço pose na moldura
és a guia que me estuda
borrão que me passa a limpo



RETORNO - Imagem desta edição:  Kim Novak.

2 de setembro de 2012

RESISTÊNCIA



 Nei Duclós

Sabor da língua brasileira
exercida por mestres do talento
chega a nós como um documento
do que podíamos e já não temos

Autores nacionais ou forasteiros
são inúmeros os exemplos
tudo é essencial nos ornamentos
profundidade sem nenhuma pose

Essas letras que dormem ao relento
da Pátria agora abandonada
é o maná que me serve de alimento

Não é passado, nem mesmo presente
ou o futuro sonhado com grandeza
mas a alma que resiste ao tempo


RETORNO – Imagem desta edição: Leila Diniz.

DIGA



Nei Duclós
 

Passei o dia sozinho, conversando contigo. Cavas distância, amor infinito.

Livre-se da armadilha. Diga que me ama.

Olhas de lado para o Tempo, que se esconde, mas contigo se entrega, como alguém que ama de longe.

Fico confuso e desisto. Pego o trem para o limbo.

Estás ferida de amor, espinho. É choro o amor que sangra, pétala.

Esqueça o que te digo. Fique apenas com o que sinto.

Te quero mas não digo. Te digo quando quero.

Tua falsa dúvida é um poço que me esvazia. Peça um beijo, mas não finja

Hoje é sábado, tens uma cota de algumas horas para amar. Depois volte ao normal passando por mim com ar de janela fechada.

Não podemos dizer tudo. Onde está a compostura? O certo é ficar mudo, como o sol em teu vestido.

Não sou gato de rua. Sou o urso que temias. Hiberno quando te espio. Desperto se vier a Lua.

O que eu digo é segredo, charada de poema. Só nós temos a chave

Somos em peças, como as casas antigas. Algumas dão para a varanda, outras para a rua. Quartos nos acomodam, salas nos espiam. Choramos na cozinha, rimos no chuveiro. Somos em partes, sob um teto. Nosso amor nos chama, na poltrona.

Amor é na hora. Como na entrega. Sentiu, pousou, beleza.

Não vou falar mais nada. Meto os pés pelas mãos. Preciso aprender com teus silêncios de fada.

Arrependida do que dizes quando o falha o norte? É normal quando o amor explícito não se entrega.


RETORNO – Imagem desta edição: Ann-Margret.

O QUE PEGA



Nei Duclós
   
Gênero é desconforto
lugar sujeito no berço
feito de descoberta
caroço solto no corpo

jogo no descompasso
fareja o risco da régua
viver é quando crescemos
e vemos o que nos pega

É como a pólvora seca
que de fogo se alimenta
e se espalha à flor da pele

Simples porém complexo
batalha, luz, exagero
destino misto de escolha


RETORNO – Imagem desta edição:  Maria  Sharapova.

1 de setembro de 2012

ALMA NO ESCURO



Nei Duclós

Olho oculto de brilho,
num horizonte de sombra,
nossa alma no escuro,
noite que não termina.

Lua que me perdoa
por eu ter ficado longe
me acena com sua écharpe
que venta no fim do sonho

Um dia faço de conta
um colar só de perguntas
para que digas o quanto
vivo de fantasias

Bela que não me ama
suspira quando anuncia
guarda num rolo de trança
sua escada de atropelo

Por ela subo ligeiro
quero beijar teu cabelo
e te apertar na varanda
enquanto choras de linda


RETORNO -  Imagem desta edição: foto de Marili Benthien.

31 de agosto de 2012

ESTRONDO



Nei Duclós
 
Pela primeira vez te chamei de querida. Houve um estrondo mudo nos confins da tarde. Era o sonho saindo do casulo.

Que amor é esse que desperta sem esperança, só pelo prazer de acordar e fazer festa?

Eras minha antes de ser vista. Estavas em mim como dentro da pedra bruta, a ametista.

Eu de sonho estou lotado. Vens para derrubar as ilusões da temporada. Viajas em mim como pássara de seda. Zeras minhas fantasias e ocupas teu espaço, eliminando o vazio enorme do coração exausto.

Só mesmo tu, bela, para me devolver a poesia, nova como gota de orvalho em pétala. Estava cansado de mexer nos arquivos, mortos de tédio.

O mar te beija pelas costas. A areia te pega de jeito. Tudo sou eu e meu delírio supremo.

Tens o cuidado de ficar sem companhia nas imagens que me mostras. É uma sugestão para que eu faça parte da foto.

A bandeira venta, estou perdido. Faça de mim instrumento da tua vontade.

Está combinado. Te quero de verdade. Não sei o que farás com esse toque. Coloque em teu seio, majestade.

A extrema beleza é o recado explícito da divindade, que resgata o Paraíso, quando sentimos pela primeira vez o calorão que nos devasta.

O amor estava de tocaia em teu sorriso esplêndido. Quando me aproximei, vi que ele era o detalhe da tua personalidade, perfeita dentro, fora, de cima a baixo.

Que fazes longe de mim, inigualável? Te vi primeiro entre as beldades. Agora o sol já vai alto. Desista de pedir trégua.

És tão bonita que corro o risco de repetir o erro, só de pânico: o de tentar escapar depois do laço.

É amor, novamente. Que posso fazer? Cometemos sempre o mesmo desatino. Armadilha desse evento bizarro, a vida.

Teu nome é pedra preciosa no fundo do regato. Sou o barulho da corrente que desce até o vale.

E depois? me perguntas. Não sei. Só tenho o mapa do sentimento, não da profecia.

Vou te esperar na praça. Sou o cara da flor, um pouco alto. Esperei muito e o vinho foi farto. Mas releve. Direi o que sei. Te amo, desesperado.

Estou contigo em toda tua viagem. Embarcas, voas, descansas e minha voz te beija, amor que nem começa.

Não te conto nada. Só te peço um tango, bem cruzado.

Estreei uma sinfonia em tua homenagem, mas abandonaste a sessão no segundo movimento. Mais tarde, quando tudo terminou, fui no teu camarote sentir o perfume.


RETORNO – Imagem desta edição: Priscila de Gustin.

AMOR O TEMPO TODO



Nei Duclós
 
Amor o tempo todo. Para não ficar deserto
Amor tarde da noite. Para acender a estrela
Amor que não se prende. Motor de tempestade
Amor jamais se rende. Te pega nos costados

Amor porre de sempre. E não finja cuidados
Amor fica de frente. E fere ao dar recado
Amor doçura plena. Comece antes que tarde
Amor que nos resgata. Da sede em mar aberto

Amor cheio de verve. Palavra de concreto
Amor que não dá certo. E que jamais se dobra
Amor volta e repete. No drama e na comédia

Amor sonho do corpo. Espírito em desacerto
Amor vira soneto. Depois canta por perto
Amor venha que eu quero. Teu beijo cor violeta


RETORNO – Imagem desta edição: Elizabeth Taylor.

27 de agosto de 2012

EXAGERO


Nei Duclós

Mulher é o exagero, veja as roupas
sobrepostas em pilhas de estocagem
saias de mil folhas, pontas no penteado
caudas de vestidos soltos pelo espaço

Mesmo quando falta há overdose
e junto ao nada sobram os babados
extravagância nos mínimos detalhes
nuvens de acessórios mais escassos

Seríamos bichos não fossem as pinturas
sabem os índios misturados com a selva
a invenção de um rosto propõe a criatura

Homem não se enxerga, vive opaco
sem atinar para os detalhes da miragem
Mulher é de outra espécie, a humanidade


RETORNO – Imagem desta edição: Nancy Novak.

26 de agosto de 2012

CHOCOLATE


Nei Duclós

Gesto sem futuro, ficar só na vontade
registro de sonho que não faz sentido
passo lotado em teu portal de chumbo
deixo para trás o impulso racionado

Escapo do óbvio, retribuir tua carta
letra formal de um aceno coletivo
que fantasio ser o convite exato
quando é resguardo, área de limite

Poderia te beijar em qualquer palco
para que saibam o quanto quero amar-te
Mas fiquei amargo, essa é a verdade

És como a barra de chocolate ao leite
que espero me servir em mesa farta
Finja que é doce, quando é dor suspeita


RETORNO – Imagem desta edição: Juliette Binoche.