25 de agosto de 2012

PROJETOR


 Nei Duclós

Tempo é lugar, hora é espaço
busco a planície do minuto
ponteiros de círculos em falso
sargaços do mar sem futuro

Acerto sons no compasso
desenho uma agenda mágica
Lua maior mergulha no ácido
condão de madrinha no surto

Tens o tesouro de rosto frágil
brusco luar numa vida escassa
molho final no sal da doçura

Já viste o filme, sou quem projeta
escolho a cena do beijo em sarjeta
urso polar no rasgo das rendas


RETORNO – Imagem desta edição:  Alida Valli.

24 de agosto de 2012

O URSO E A PRINCESA

Nei Duclós

O passo é o mesmo, a lenda se mistura
o reino é na lonjura, sob a neve
o andar é a busca de uma trilha

que devolva os dois para o castelo

Expulsos pela usura, a bela e o bicho
cumprem o destino do resgate
a majestade é como a luz, não morre
fica difusa e ressurge além do muro

É uma luta, que não exige fúria
só a magia que substitui a força
São iniciados, por isso há esse clima

que nos seduz pela composição do mito
A princesa que acompanha o urso
e o brilho de um amor que toma o rumo

SINTONIA VIGIADA



Nei Duclós

Foi de manhã que se soltaram todos os laços cortados à noite. Voaste para bem alto e depois voltaste lentamente para meu corpo.

Não quero te ferir, mas há o risco. Sou feito de espinhos e tua natureza é a seda. O bom é que aprendeste a nobre arte de dar uns murros. Assim nos mantemos em sintonia vigiada, belíssima.

Se quiser distância nem sequer tropece. Porque terás retaliação do teu objeto sem freio.

Não se aproxime do urso se ele estiver solto. Melhor ficar no conforto da tua gana remota.

Sei de onde tiro meu assíduo assédio sobre nosso jogo de pega e larga: das curvas que sugeres de longe, traiçoeira enjaulada.

Poesia é quando acordo com teu olhar saciado mas ainda guloso enquanto o amanhecer doura tuas rendas sobre a cama detonada.

Te acostumei à minha ausência. Depois me queixo.


DIVIDIR

Somei nossos momentos. Ficamos devendo.

Dividi tudo contigo. Disseste que eram só palavras. Peguei de volta.

Encerrei o expediente. Agora, em vez de poesia, contas.

O primeiro beijo é o primeiro encontro. O que veio antes não conta.

Estava passando aqui perto e lembrei que estavas longe.

Tenho até medo de dizer, mas o que sinto está ganhando um corpo físico, feito de nossos apertos em cantos, som de grudes, estalos de pêssegos, doce escorrendo. Parece loucura.

Foi tão perfeito que nos perguntamos o que fazíamos antes disso e porque custamos tanto a experimentar esse encaixe de íntimas sintonias

Puseste tudo no caldeirão mas esqueceste que és fada e o feitiço não funciona. És do sol, pátio luminoso da Lua nova. A noite te beija, por minha encomenda.

Nada vale o que dizes não fosse o mel que domina o coração ainda vivo.

Me chamas, me afogas, me acendes, me queimas. Tudo em ti é labareda, vulcão na correnteza.

A Lua Nova é o que restou de um mobile construído por algum deus com gana de seduzir a mais bela da terra. Ficou esse pingente no céu que volta sempre que existe esperança de um novo amor

Não posso mais abrir tua gaveta para tirar de lá os versos que te dediquei. Eles pertencem ao amor perdido. Preciso enxergar o que há de fervor na Lua Nova.

Fui deletando as mensagens como se estivesse rasgando as tuas cartas. Até que cheguei à primeira vez em que me disseste bom dia. Resolvi responder de novo.


RETORNO – Imagem desta edição: Rosie Huntington-Whiteley.

23 de agosto de 2012

SETE CHAVES


Nei Duclós

Amor te conto um segredo
guardado em lugar remoto
sete chaves de um relógio

A Lua nova encorpada
virou Crescente do nada
moça madura na estrada

Consiga a imagem mais forte
da mulher que virou barco
ao navegar sem as velas

Era um sorriso na abóbada
a luz que alimenta os olhos
deixou-a assim muito cedo

Profecia é a trajetória
que a Cheia leva para o norte
pulsando o sonho que morde

Amor não guarde segredo
do que digo em sobressalto
és uma estrela que sobra


RETORNO – Imagem desta edição:  Mariane Faithfull.

22 de agosto de 2012

PASSAPORTE

Nei Duclós

Viajei para outros países. Lugares inóspitos,
de línguas incompreensíveis. Ferocidade
nas aduanas. Olho bruto em passaportes.


Todos com a mesma sina: ermos de ti,
de quem eu fujo, porque o amor
é mais assustador do que qualquer destino.



RETORNO - Imagem desta edição: Bogart e Bergman.

21 de agosto de 2012

RESPIRAÇÃO



Nei Duclós

Amor é eterno quando não guardamos para mais tarde.

Mergulhas na poesia sem levar oxigênio. Depois pede respiração boca a boca.

Nos misturamos, escondida. Somos o desvio da trilha, a meditação na beira do abismo. Levamos as mesmas palavras no embornal da poesia. Tem gente que torce o nariz, mas os amantes recitam.

Estendida como um canteiro úmido de fim de inverno, onde colho flor que sobrevive, quando exalas teu gemido.

Viajaste pelo mundo pelo gosto de partir, mas eu fantasiei que me buscavas. Por isso te recebo em cada aeroporto disfarçado de guia. Te levo para ver pirâmides, odalisca

Queria receber tua alegria de sair de casa misturada à exaustão da viagem. Te colocar no conforto do amor que guardo na bagagem.

A Lua Nova é redoma transparente de vidro que abriga uma neve falsa, uma poeira estelar, um granizo fino. É como teu beijo, dançarina.

Acreditei em todas as tuas mentiras. Apostei no que sinto.

Transgressão consentida, que finge resistência. Quando não há prejuízo, mas delírio.

Tiveste overdose de verso. Baixaste hospital de caridade. Lá te disseram que o poeta não existia. Mais calma, voltaste para minha cama.

Não guarde um urso na jaula. Ele mastiga concreto.


FILME ANTIGO

Perdi a pressa faz tempo. Isso não me torna lento. Meu ritmo é como carrossel de filme antigo, fixo na cena, mas múltiplo na memória.

Só depois de perder a esperança temos chance. É quando desarmamos o espírito blindado pela vaidade da sobrevivência. Quando nos entregamos ao desfecho, como cai em si a supernova.

Não posso pegar carona no entusiasmo. És sempre grave e sóbria como a caravana que cruza o deserto. Recolho bandeiras diante do assombro do tempo

Deixei escorrer o tempo para ver o que tinha no fim dele. Minhas mãos vazias, cheias de remorso. Teria sucumbido, não fosse você desprezar a perda com palavras generosas.

A vida é um vírus oportunista no mundo físico. Não era para existir no cosmo frio de pedras.

Há escritores com outras aventuras, todos focados em seu ofício. Eu prefiro ficar à mercê dos teus domínios, musa.

Cuidado, depois de cada verso há uma surpresa. Talvez seja o poeta fazendo o que não deve.

Sinceridade é como café forte: precisa de açúcar. Não para adoçá-la, mas para que ouça uma segunda opinião sobre seu sabor

Deixo rastros no deserto. Siga as pistas e descobrirás água, disse o peregrino.

A semana nos espreita na savana. Somos o rebanho.


RETORNO – Imagem desta edição:  Natalie Wood e Steve McQueen.

20 de agosto de 2012

MEDO


Nei Duclós

Tenho medo, portento, deste soneto
parece bobagem de poeta, mas é fato
medo de perder-te ao fim e ao cabo
quando enfim chegar ao último verso

Quero dizer o adeus que não mereces
depois de tanto amor e tanta entrega
sei que é covardia, mas já parti mesmo
escrevo porque cheguei neste deserto

Sequei o poema, minha flor do exagero
não posso recitá-lo sem sentir vergonha
é piegas, mas sofrer não tem mais jeito

Confirmo as rimas, ponho luto no verbo
levo para longe o sarau da Lua Nova
aguardo a Cheia e seu puxão de orelha


RETORNO – Imagem desta edição: Ava Gardner .

19 de agosto de 2012

EXPEDIÇÃO NO ABISMO


Nei Duclós

Agora chega de poses românticas Diga a que veio, expedição no abismo.

Feita de vidro, como os perfumes, te pus nos ombros com teus suspiros. Tenho bronze, carinho.

Mistura de amor e neblina, tempestade de areia. Grãos e gotas formam tua fantasia de miçangas que imitam poeira.

Só digo se for sincero, só falo se vale a pena, só amo se houver perigo de decretar teu dilúvio na porção do paraíso.

Viajaste pelo mundo pelo gosto de partir, mas eu fantasiei que me buscavas. Por isso te recebo em cada aeroporto disfarçado de guia. Te levo para ver pirâmides, odalisca.

Não precisas de nada por ser linda. Disfarças com teu choro fingido de fada. Caio com gosto, patinho n´água.

O que mata é tua atenção distraída em direção oposta ao que me deslumbra. Nunca deixarás de ser esse choque de liquens.

A peça mínima marca o nível da beleza no perfil da tua postura. Acima disso é estado de alerta.

Gostas quando falo em público. Quando me aproximo para o sussurro, insistes em falar mais alto do que as buzinas. Qual é a tua, capricho?

Faça um teste. Pense em me dizer adeus, por exemplo. Depois se afaste alguns milimetros. Quero ver se aguento.

Cruzaste a ponte rígida que estendi em tua direção. Demoraste não para me assustar, mas porque desmaiavas sem resistência no meio da travessia.

Jamais duvide quando digo que és minha. Mesmo que eu tenha partido para os confins. Fui em busca do que é mais íntimo para dividir contigo.

Vire este rosto para quem te quis desde o primeiro minuto. Amor à primeira vista

Virás me ver, flor do fim do inverno? Estarei exausto, mas direi algo que te devasse inteira.

Estavas sozinha contando pedrinhas enquanto o lago ria de ti. Vim do fundo e te trouxe junto, pertinha

Voltei e te vi conversando como se nada tivesse acontecido. Não atentas para o molho perdido que ladra em teu caminho.


INTENÇÕES

Se eu repetir um verso, é porque te quero. Lembre disso

Não sabes minhas intenções. Adianto: são as piores. Vamos para o próximo capítulo.

Deixei um recado em tua cama. Ele se mexeu, mas não acordaste. Quando o sol estiver alto, ele vai virar um pássaro e voar para longe.

O que conta é o dia seguinte, quando te arrumas para ir-se definitivamente.

Quis te impressionar com a sabedoria, mas lês nas entrelinhas, desvãos do saber que tenho e nem desconfio.

Quando desconfiam do que dizes, esclareça que é aquilo mesmo que a pessoa entendeu. Queima etapas e economiza tempo.

Perdemos tempo distraídos com diferenças. Mas o que pega são as sintonias, espinha dorsal do convívio múltiplo, prazer da nossa inteligência.

Estás acostumada aos meus exageros. És abrigo do meu vento, barca prudente. Guardas meu impulso em teu seio

Te cantei em francês para ver se melhorava a melodia. Acho que deu certo, vestida de flores.


NATUREZA

Era a ponta de uma nuvem superoposta a outra, que refletia o último raio rosa do crepúsculo. Depois sumiu no cinza.

As nuvens se debruçam sobre nós. Levam o céu oculto nas costas. Prendem as estrelas. E aproveitam o crepúsculo para sugerir coisas

A natureza é sempre solene. Aprendemos com quem a mesquinharia?

Hoje só tem natureza? disse ela, trêmula, com crise de abstinência. É só uma chuva passageira, disse. Penso em ti, molho de beijos.

Minha mensagem estacionou por dias sem que viesses fazer a vistoria. Dormi ao volante e fui acordado pelo barulho dos pássaros que te anunciam.

São só imagens, você disse, deslumbrando a tarde com seu rosto de milagres.


RETORNO – Imagem desta edição:  cena de The passionate friends, 1949, de David Lean .

17 de agosto de 2012

PARTIMOS DE MANHÃ NA COLEÇÃO ORIGINAIS DO IEL


Título: Partimos de manhã
Autor: Nei Duclós
Ano de Publicação: 2012
Co-edição: IEL / Corag
Valor (R$): 22,00

LANÇAMENTO DIA 28/08. Em Porto Alegre. 


DO BLOG DO IEL



"IEL lança os primeiros livros da Coleção Originais


  A partir das 19h do dia 28 de agosto, terça-feira, o Instituto Estadual do Livro (Rua André Puente, 318) recebe o público para o lançamento dos quatro primeiros títulos da Coleção Originais: Exercícios espirituais para insônia e incerteza, de Lourenço Cazarré (conto); Caminhos do fruto, de César Pereira; Lenhador de samambaias, de José Weis; e Partimos de manhã, de Nei Duclós (poesia). As publicações são uma realização da Secretaria de Estado da Cultura (SEDAC), por meio do Instituto Estadual do Livro, em coedição com a Companhia Rio-grandense de Artes Gráficas e com apoio da editora Modelo de Nuvem.

A Coleção Originais cumpre uma das mais importantes missões do Instituto Estadual do Livro: incentivar e reconhecer a qualidade de nossos autores, revelando talentos, trazendo à luz a primeira obra de um autor, bem como incentivar a edição de trabalhos que, antes de mais nada, se pautam pela criação com a palavra, independentemente de geração, modismos ou tendências do mercado editorial. As obras foram escolhidas pelo Conselho Editorial do Instituto Estadual do Livro após abertura de edital para seleção.
O quê / quem: Lançamento dos quatro primeiros livros da Coleção Originais, do Instituto Estadual do Livro. A série reúne poesia, contos, novelas e quadrinhos. Os quatro primeiros títulos são: Caminhos do fruto, de César Pereira; Exercícios espirituais para insônia e incerteza, de Lourenço Cazarré; Lenhador de samambaias, de José Weis; e Partimos de manhã, de Nei Duclós. Haverá sessão de autógrafos.
Quando: dia 28 de agosto (terça-feira), a partir das 19h

Onde: Instituto Estadual do Livro (Rua André Puente, 318)

Quanto: Lenhador de samambaias – R$ 15,00.
Caminhos do fruto; Exercícios espirituais para insônia e incerteza e Partimos de manhã – R$ 22,00.
Promoção no lançamento: os quatro livros por R$ 60,00.

Contato:
Instituto Estadual do Livro – iel@sedac.rs.gov.br
(51) 3311.7311

CLIQUE AQUI para acessar os livros na livraria virtual

OS AUTORES 



César Pereira

Nasceu em Taquari (RS). Foi professor do Senac. Publicou Carrossel de cinzas (1960), Dardos de ajuste (1974) e Porta de emergência (1989). É um dos precursores da poesia visual, tendo lançado, a partir de 1965, o poema visual POENIGMA. É membro da Academia Rio-Grandense de Letras.


José Weis
Nasceu em Porto Alegre (RS), em 1958. É jornalista diplomado. Publica poemas em periódicos e outros veículos desde 1980. No início dos anos 90, participou com Celso Gutfreind e José Antônio Silva do Grupo Vício & Verso. Em 2007 e 2010 teve poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus e no Trem.


Lourenço Cazarré
Nascido em Pelotas (RS), em 1953. Escreveu mais de 40 obras, entre novelas juvenis, livros de conto e romance. Venceu, por duas vezes, o maior certame literário dos anos 80, a Bienal Nestlé. Um de seus livros para jovens, Nadando contra a morte, recebeu o Prêmio Jabuti em 1998.


Nei Duclós
Nasceu em Uruguaiana (RS), em 1948. Jornalista e graduado em História, publica diariamente em mídias digitais. Sua poesia amadureceu no ambiente universitário no final dos anos 60. Depois de participar do movimento editorial alternativo de obras coletivas, lançou seu primeiro livro, Outubro (IEL/A Nação, 1975).


REGAÇO


Nei Duclós

Voltei ao sol, minha pastora
no campo, amor é dia claro
somos tradição nesse rebanho
retomar a conquista fica fácil

Esperaste na chuva o momento
em que eu aportava do mar alto
graças a ti a safra hoje é farta
eu apenas colho o que me abraça

Senti saudade de abrir teu vestido
e devagar ir manejando a obra
orientado pelo amor que nos devora

Teu corpo é escravo do meu toque
mas és livre para manobrar o gado
sonhos que pastam em teu regaço


RETORNO – Imagem desta edição: Jessica Chastain.

QUERO AGORA


Nei Duclós

Ainda não abrimos, disse o anjo. Mas fiquei sem poesia, disse a bela.

É muito cedo. Desse jeito vai bagunçar tudo, disse o sujeito da portaria. Não importa, disse ela. Quero agora.

Ok, vamos distribuir os primeiros versos. Mas cuidado. A poesia precisa de tempo para não esfarelar-se na primeira hora.

O bom é que o poema pode ser criado em todo coração amoroso. Não tem centro essa arte generosa.

Te beijei em todas as línguas. Traduziste dizendo sim.

Voa, meu amor, no céu da tua vontade. Acompanhe a nuvem que te acalma. Suba até o beijo e depois pule no abismo do que somos.

Não sou chegado em saudade. Fechei o portão das partidas. Agora é obrigatório pousar em meu convívio.

É dificil acertar. Só acontece porque permites, e assim mesmo me manténs no escuro. Tua arma é a dúvida.

Há tempos que não nos cruzamos. Na última vez foi difícil desengatar o frêmito. Será que ficamos ressabiados?

Faz tempo que não te dou uns beijos. Não desses de cumprimentos. Mas daqueles...

Pintei eu te amo no granito. Sempre que passo dou um grito.

Repito teu nome até perder as forças. Não é mais saudade, é calamidade.

Você vem à tona quando eu te contava perdida. Trazes uma mensagem no coração de vidro. Quebre o lacre, me dizes, para ler o que está escrito.



RETORNO - Imagem desta edição:  Caterina Murino.

16 de agosto de 2012

POEMA É BEIJA FLOR



Nei Duclós

Poema é beija flor, sacia
sua sede nas palavras
e depois produz um voo

Parado no ar, sua casa,
mora ao vibrar as asas
Foco no mesmo ponto:

o amor e seu entorno
a pluma que pega e solta
o jogo preso no sorvo

Aprendo a base da arte
beber o verbo de novo
riscar o céu com alarde

Distribuir pão sem retorno
esquecer o bem que fazes
provar o doce que sentes

Beija flor, cor do meu sonho
pouse o rosto no meu ombro
vamos nos dar de presente

RODÍZIO

Nei Duclós

Tua vocação é o mergulho
Respiras no fundo líquido
Mas te atrai a superfície

como um abismo

Voas quando é infinito
pousas porque decides
enredado em tua trama
mil gaivotas de convívio

O sagrado sentimento
tempera a doçura tímida
Tua tessitura marítima

Porção a mim distribuída
completou-se nesse ciclo
Repito o sonho em rodízio


RETORNO - Imagem desta edição: Audrey Hepburn.

15 de agosto de 2012

VAIDADE


Nei Duclós

A bela não precisa da vaidade
espelho é para aquela insatisfeita
o cânone se basta, e apenas prova
o que outras possuem e desprezam

Digo com firmeza, pois no Olimpo
o poder da tua aparência gera lágrima
deusas cortam os pulsos com teu rosto
que de Homero reescreve toda a obra

És perfeita e inauguras novas sagas
recompões as relações mais poderosas
transgrides a História das contendas

Mas isso é só a bainha do vestido
há muito mais em teu porte, generosa
disseminas o caos com teu sorriso


RETORNO – Imagem desta edição:  Grace Kelly.

14 de agosto de 2012

CULTIVO


Nei Duclós

Poema é amor cultivado
por tua música de fundo
valsa, choro ou dobrado
eu apenas toco o bumbo

Acolhes, flor, a mais bela
gota de orvalho mudo
vibra o escarlate da perna
que existe em cada segundo

Não combinaste a conversa
mas o que pega é a penugem
que a brisa mostra sem pressa

Musgo eriçado na véspera
da nossa dança da chuva
Pedimos mel que nos grude


RETORNO – Imagem desta edição: Natalie Wood.