14 de agosto de 2012

MUTANTE


Nei Duclós

O Tempo são notas que tocam dentro
coral de espanto, catedral de ventos
o rosto engendra o som do comando
alma é instrumento, ouvido atento

o que vejo em ti jamais desconversa
dás banda sem mostrar os dentes
a guitarra é extensão do sentimento
o dia dedilha a corda que partiu-se

A tecla na clave emite confidências
idade é proveito, síntese de arranjos
Quando andas a estrada pede arreglo

Vieste de longe, ogro dos concertos
nos trouxeste juntos, platéia intensa
somos tua invenção, amigo mutante


RETORNO – Imagem desta edição: Muts Weyrauch.

13 de agosto de 2012

PAI PRESENTE

Nei Duclós

Foi um presente de viagem
rito de passagem, cartas
para sempre. jogo da sorte
Corte de ouro e de espadas

Um recado para a tua liberdade
que provavas no primeiro alarde
existirá espaço, disse ele sem falar
habite-se para o lúdico e a safra

Encontro de véspera, tu no futuro
ele de volta à sua origem. rodízio
de naipes e papéis trocados

Trazes no coração aquele instante
veio de longe o vínculo amoroso
pai que ensina, sem saber, a eternidade


RETORNO - 1. Poema inspirado nas memórias de Lilian Honda, que ganhou um jogo de cartas antes de partir, presente do pai, que se foi para sempre. 2. Imagem desta edição: Ricardo Darin e Irene Menéndez em O Segredo dos Seus Olhos.

UTOPIA


Nei Duclós

O que eu quero de ti guardas com carinho. Esse bibelô de gritos. Esse arrepio sem fim. Esse olhar de bicho.

A manhã rompe como um beijo. Abres a torneira do desejo.

É o que eu faço de mais explícito: o prazer de estar contigo. O resto pode esperar na fila dos tropeços.

Abandonei nosso sonho e só voltei agora. Não sabias porque, mas estavas à minha espera. Vim como a cidade sitiada que se liberta.

Utopia é um exercício. Datado. Nasce na esperança, se recolhe no conflito.

Teus passos ressoam em mim, deslizando sobre o que sobrou das nossas tardes.

Te escondes, feminina, no canto, colecionando suspiros. Te acho forçando a barra do vestido. Não pare de tremer, perdida.

Achas pecado o que tens de mais íntima. Deixe sua paixão fora disso. Voe, todinha.

Já vi tudo. Depois te cubro.

O mel na pele na perna, perto do porto, é doçura atraindo o impulso que não impeço.

Dizer olá sem dar um beijo é deixar para depois o que pode ser feito agora.

Dose de andorinha em teu voo arisco. Espero que pouses, dividida.


RETORNO – Imagem desta edição: Kate Winslet.

11 de agosto de 2012

CALHA

Nei Duclós

Teus lábios como folha amassada,
esmigalho o molho a que foi reduzida
a tua palavra.

Língua de loba enluarada, à míngua
no galpão de palha, no telhado,
espelho de um céu desfeito que me tolhe

Pulha, disse ela. Malhas até que me colhes




RETORNO - Imagem desta edição: cena de Um Violinista no Telhado, 1971.

REMOTO OLIMPO


Nei Duclós

Um pouco para as plantas
um pouco para os bichos
o mundo repartido no capricho
porções de ti em alguns minutos

depois pode ir, que me conformo
sou fruto da escassez do sonho
imagino uma ração de brilhos
que serves ao surgir no alpendre

palavras antigas versus neologismos
medo de ser e a servidão da entrega
tudo é contradição, semente e erva

Ganho de presente o equilíbrio
néctar sorvido em remoto Olimpo
onde moras, deusa do amor perdido


RETORNO  Imagem desta edição: Margareth Ruth Gyllenhaal.

10 de agosto de 2012

PLENA FLOR

Nei Duclós

Deslizas na memória, minha pastora
esplendor da criação em sua glória
nenhuma sombra no perfil sonoro
claro bastidor de nova ópera

Exageras, dizem, quando aponto
o que a natureza fez por vocação
o excesso é o poema, rubro verbo
íntimo chão onde repousa o esporo

Foste embora, mas ainda há o balanço
do teu corpo sereno, plena flor
ninguém tem o direito de esquecer-te

Muito menos eu, oculto camafeu
durmo em teu colar de sedução
de onde atiras teu olhar, que é Deus


RETORNO - Imagem desta edição: Shepherdess HF 1879.

RESERVA


Nei Duclós

Tenho outro por dentro, minha reserva, que também te ama.

Todo verso tem a tua imagem. Não coloco para não dar bandeira. Mas onde se lê doçura, se vê teu beijo.

Levaste cópia para o encontro: o meu poema. Quando começaste a recitar, ela completou. Já tinha lido nos teus olhos.

A poesia não existe sem tua beleza. As palavras travam se ficas de fora. Mas não sou bela, dizes. O poema discorda.

Me chama do que eu faço, não do que eu te faço. Mistura toque com ofício. Não sou adjetivo, substantiva.

Fadinha, disse ele. Não tenha receio, não quebro, disse ela.

Amor, devagarinha, quase imperceptível, não fosse a sombra que faz tua doçura.

Teus passos ressoam em mim, deslizando sobre o que sobrou das nossas tardes.

Já te arrastei porque consentiste. Agora pedes que eu repita. Estou com força, sou capaz de cometer um desatino. Tens fome, delícia.

Te escondes nessa devoção que tenta jogar água fria em quem se aproxima. Mas basta um movimento teu, um imperceptível requebro de tua natureza impiedosa, para que caia tua máscara e revele o escândalo da minha vontade absurda.

Quando ela fica muito compreensiva é porque não acha importante te compreender e passa por cima. A meta dela é outra. Só que para o truque funcionar, ela acaba realmente te compreendendo, paspalhão.


RETORNO – Imagem desta edição: Priscila Almeida.

9 de agosto de 2012

BARRAGEM


Nei Duclós

Marmanjo não percebe, mas é fácil
mulher não é brinquedo ou objeto
é barragem, com vezes de cascata
nuvem que só chove se lhe agrada

Tem segredo que ninguém acessa
conforme-se em ser arroz de festa
ela escolhe, você no canto reza
e dança se não souber a hora certa

Parece exagero tanta oferta
que existe na indústria do espetáculo
mas teu quarto fica no deserto

É porque não sabes o que de fato pega
quando és recebido em homenagem
ao prazer que ela vislumbra em tua barba


RETORNO – Imagem desta edição: Isla Fisher.

NO DESERTO


Nei Duclós

Alcaguete é o beduíno que entrega a localização dos poços de água do deserto.

Alface é o único habitante das areias do Nefud que participa das mídias sociais.

Alpaca é um árabe exagerado que usa casacos grossos sob o sol do Saara.

Almejar é querer emigrar do Oriente Médio.

Alpargata é um par de calçado especial para gatas.

Alcapone é iphone usada apenas nos países pertencentes à Alca.

Alpiste é um rastreador de passarinhos dos oásis.

Aloha é quando tribos nômades se cumprimentam.

Alligator é um jacaré clonado para assustar americanos em férias.

Álibi é o chefe do mensalão entre os neferditas.

Ali é guia turístico que acha tudo muito perto.

Alhures é um mágico de Qatar que virou chef de cousine ao alho e óleo em Paris.

Aluno é o único discípulo de nome Jesuino.


RETORNO – Imagem desta edição: Greta Garbo em Mata Hari.

SERESTA


Nei Duclós

Há tanta felicidade no primeiro encontro, que o coração parece sair da forma e pipocar na calçada como um balão vadio.

Ao te conhecer media as palavras pelo andar da tua escuta. Focado nos pássaros, teu ouvido capturava uma seresta. Eu treinava o violino da conversa.

Repartimos o mesmo sonho porque somos idênticos de tão diferentes. Vasos comunicantes, interação de gêneros. Fora da percepção viciada que só traz sofrimento.

Escute a vogal, soe a consoante. Forje o fôlego amante. Tens assim o poema, representação da beleza que te encanta.

Saimos do circuito, nos desvencilhamos. Inauguramos o campo um pouco antes da tempestade. Nos abrigamos num telhado coberto de primaveras.


ENTREGA

Mulher sonhada molha o pé na beira da própria lágrima. A real enxuga a palavra derramada em sua mesa. A que fica toca a nota musical da tua entrega.

Senti falta do acampamento no escuro, quando escutava tua respiração misturado ao barulho noturno. Eram asas de seda que zuniam no mesmo ritmo do mar, nossa loucura.

Teu olhar salta no meio da noite me dando um susto. Sou fisgado e fico mudo.

Queres cama não para se render às imposições, mas porque convidaste de um jeito que só a brisa adivinha e os corações agradecidos entendem.

Não para nunca esse amor que faz a cama enquanto não chegas, maravilha.

Me passas a limpo e me devolves a versão original. Ficas com a cópia, mulher perfeita.


FASES

Subo na superfície e tiro a cortina para ver o que tem dentro da Lua, mas só vejo o céu escuro forjando estrelas

Quando vais abandonar esta execrável fase do amor? perguntou o militante saudosista. Quando for subjugado pela farsa da ideologia, disse o poeta

Sente-se à direita, disse o reacionário. Sente-se à esquerda, disse o revolucionário. Sente-se no centro, disse o pragmático. Senta aqui comigo, ela disse.

Me indicaste para um monte de gente, e era só tu quem eu queria.


RETORNO – Imagem desta edição: Natalie Wood .

PARECE O VENTO

Nei Duclós

Parece o vento desenhando
o teu cabelo, mas é apenas
o espanto que vislumbras

de olho aceso.

Deste um tempo combinando
com o espelho e viraste
a imagem imaginada
no silêncio

Aguardas algo que não é
o mesmo e sim a original
compulsão da arte
espessa

A que te preenche ao viver
além do Tempo, lá onde
medra um coração
sem sofrimento

 
RETORNO -  Imagem desta edição: Juliana Biancato.

8 de agosto de 2012

VENENO


Nei Duclós

Todos os amores são possíveis
os que ficam para trás, os perecíveis
os eternos por um dia, ou toda a vida
os de carne e osso, ou só espírito

Amores que surgiram do nada
e para lá se foram. Ou cevados
por décadas de longo namoro
e rodeiam teu corpo feito mosca

Amor sem esperança está na lista
que provoca surpresa sendo cânone
teu vestido que brilha junto à aliança

Amor de abandono, de arrimo, apoio
que perdemos para sempre e retornam
Culpa de Cupido e sua seta de veneno


RETORNO – Imagem desta edição: Megan Fox.

METRÓPOLE


Nei Duclós

Minha saudade fareja teus passos
pelo dia complicado na cidade
cruzas a metrópole com bagagens
prazos, encargos, gente próxima

Pequena como imperceptível fada
tens olhos enormes e vestido sóbrio
passas ao largo dos assédios, moras
em tua determinação sem mácula

Carregas o mundo em teus ombros
e ele pesa menos do que esperas
 ganhas força enquanto desdobras

À noite, exausta, olhas para mim
teu distante amor que não desiste
Sou teu porto, sonho que te completa


RETORNO – Imagem desta edição: Natalie Wood.

ACORDAS EM MIM


Nei Duclós

Acordas em mim, amanhecer.

Estavas me esperando, firme, enquanto eu dava voltas ao redor da Lua

Leve contigo o verso que cultivo. Ele brotará à noite, quando tudo estiver dormindo, menos nossa vontade de atravessar o abismo.

Não tenho outro assunto. Puxo conversa só com teu sonho.

Vamos comemorar o sol de agosto. Traga esse início de suor em tuas dobras. Eu levarei espinho, que verga no roçar do rosto.

Águas internas, generosidade em cascata, fim das barragens. Salto da pedra num mergulho sem volta

Quanto mais evapora, mais brota.

Se eu conseguir agarrar os teus cabelos, morreremos.

Mal levantamos e já queremos cama

É impossível esse amor feito de estranhezas. Mas quem garante lógica no brinquedo bruto e prazeroso das mentes dominadas pelo suspiro dos corpos?

Deveria estar me ocupando com receitas, mas prefiro provar o bolo antes mesmo de colocar a mão na tua massa.

Maravilhosa criatura que não mereço, mas fica perto: basta um beijo teu para o dia sussurrar seu segredo.

Eles nos cobrem de palavras ditas inevitáveis. Mas nós tecemos uma vela para navegar no límpido mar do coração jamais saturado de paixão.

O que é eterno é esse motor de sonho que nos mantém despertos num outro espaço, o que inventamos para viver.

Amor é uma vez só. E depois acaba o mundo. Porque o mundo se dispensa, mas não o sentimento.


VIRTUAL VIRTUDE

Virtual está próximo da virtude, por mais transgressão que sugira. Planetas que não se tocam exercem mútua gravidade. Poema é movimento de elipse que gera fases diversas em teus redutos.

Cada clic é uma persona. Ninguém te captura, ninfa que aguarda, mas devora.

Fiz fantasias com a metade do teu rosto, mas isso foi quando eu ainda não estava completo.

Tinhas sumido. Tão bonita que até parece um crime deixar de ver o que tens de mais explícito: o espírito claro e sua imagem feminina.

Quando enfim nos conhecermos, passarei a mão na tua superfície, Lua distante.

Somos diferentes, ele disse ao partir. Concordo, disse ela. Eu sou do amor.


RETORNO – Imagem desta edição: Marylin Monroe.

6 de agosto de 2012

SERPENTINA


Nei Duclós

Já foste eleita, tens compromisso.
A mim resta o olhar comprido
e a submissão até da fantasia.
Espero que não venha a furo

o ímpeto que surdamente provocas,
rebeldia. Te reduzo ao soneto
para sobreviver ao que me suga:
teu olhar de musa, serpentina

Aspereza é a doçura da planície,
espinho assedia a pétala, arrulho
na montaria: viver precisa

do que é simples, sonho alimentado
no cruzamento de espíritos,
ungidos pela carne trêmula


RETORNO – Imagem desta edição: Ava Gardner, por Bert Pfeiffer.

JEITO


Nei Duclós

Vou te pegar de jeito, armadilha de desejos.

Não o deixe esperando, aceite meu beijo. Ele é alérgico ao sereno.

Meu tato te lê em voz alta.

És minha leitura favorita. Não falo das cartas nem dos poemas, mas da tua cintura.

Estamos num impasse. Te quero, por isso bato firme. Me queres, por isso me ignoras. Sinuca de bico.

Cliquei em tua imagem, não respondeste. Bem feito para mim, admirador sem pouso.

Continua magoada? Melhor deixar isso de lado. Esgotamos nossa cota de rupturas.

Na roda do tempo, imagine meu toque de presente. Só para te deixar passada. Coisa sem futuro, quando pedes água.

Cheguei fugido. Tiranos perseguem desertores. Decidi voltar para ficar contigo. Não se impressione com o ferimento. Passa rápido, como a vida.

Dei uma volta pelo sonho, estavas linda. Fiquei por lá, onde és minha.


ELEITA

A poesia não compareceu no batente. Foi dar um tempo, pensar em outra coisa. Aproveita o dia de agosto, solar, pleno de luz. Às vezes manda mensagens em versos ocultos.

Já foste eleita, tens compromisso. A mim resta o olhar comprido e a submissão até da fantasia. Espero que não venha a furo o ímpeto que surdamente provocas, rebeldia.

Aspereza é a doçura da planície, espinho assedia a pétala, arrulho na montaria: viver precisa do que é simples, sonho alimentado no cruzamento de espíritos, ungidos pela carne trêmula.

A violência no trato impede que se exercite a prazerosa diferença. O sabor, impedido de experimentar o delicioso choque entre opostos, submerge na brutalidade.

Um baque de improviso na rotina, vindo meio de lado em pleno começo do dia, desvia a atenção para o que interessa: a vontade que sempre tive de você pertinha.

Por esporte, te ofereces a distância achando que não te alcanço. Mas já estou com o pulso em teu rumo, portento.

Chega, disse ela. Eu cedo. Agora vê se não tarda.


RETORNO – Imagem desta edição: Michele Morgan.

ACESSO


Nei Duclós

Embaixo não existe portaria
no reino do pólen e seda fina
sonhar navega em superfície
o mergulho se dá em alto nível

Altura depende do respiro
que abres no telhado feminino
porão se fecha ao gesto impuro
é na sala que serás recebido

O bruto escandaliza e é bem vindo
dizes para aliviar tua pilhagem
Meia verdade no meio da viagem

O rasgo manifesta algo mais fundo
o amor que negas com teu álibi
gênero efêmero no toque mendigo


RETORNO – Imagem desta edição:  luar no Polo Norte.

5 de agosto de 2012

VENDAVAL


Nei Duclós

Bela como estrela de cinema,
desafio das lentes, beijo quente
Próxima com sua pele perfeita
a me empurrar para o óbvio

Digo jargões, assino repetências
prolifero lugares comuns a esmo
vendaval de cabelos, olhar trinta e três
a desafiar a multidão que te deseja

Somos obsoletos ao tentar superar
a crise instalada por tua grandeza
Tudo é superado quando te vejo

Esqueço o cânone, as consequências
o que deve ser dito pela carreira
quero apenas o amor, única chance


RETORNO – Imagem desta edição: Penélope Cruz.

AVANÇO


Nei Duclós

Jurei que seria sério, flor aberta
mas é de matar tua performance
essa arte no ângulo dos braços
mostrando escondida, puro golpe

Finges dar um laço, fazer coque
enquanto olhas sugerindo a sorte
como se não soubesses o estoque
de seios desenhados rosa choque

Sorris fazendo estrago pela tarde
linhas de fronteira para o espaço
sou o guarda que pede passaporte

Castigas o escoteiro com a vontade
de esquecer as lições da vida grogue
Vou avançar antes que passe a hora


RETORNO – Imagem desta edição: Isla Fisher.

DIÁLOGOS DO ANJO COM O SENHOR IV


Nei Duclós

Toda hora falam em Deus lá embaixo, disse o anjo. Por isso minha orelha está sempre vermelha, disse o Senhor.

Conseguiste? perguntou Deus. Fazer um olho? Difícil, disse o Acaso.

É verdade que o mundo foi criado em uma semana depois de uma grande explosão? perguntou o anjo. Teoria da conspiração, disse o Senhor.

Agora que o Senhor os expulsou do Paraíso, o que resta para o casal? perguntou o anjo,penalizado.Eles sempre terão o orgasmo,disse o Senhor.

Por que expulsou Adão e Eva do paraíso? perguntou o anjo. Não fui eu, foi o Getúlio Vargas, disse o Senhor.

O Senhor não dorme? perguntou o anjo. Facebook, disse Deus num suspiro.

Bom Dia Brasil vai entrevistá-lo,disse o anjo. Não estou preparado,não posso concorrer com aqueles penteados e cruzar de pernas, disse Deus.

O Senhor é muito dualista: dia e noite, inverno e verão, água e fogo, disse o anjo. É para o pessoal da auto-ajuda contrariar, disse Deus.

Eram apenas palavras, me disse o algoz antes de assinar a pena. Não, respondeu o anjo. Era o rosto de Deus dizendo as horas.

Para que tantos anjos? perguntou o Acaso. Aplicativos, respondeu o Senhor.

Vácuo gera energia no embate entre duas manifestações espontâneas, matéria e anti-matéria, disse o Acaso. Briga de casais, disse Deus.

O Acaso faz um olho, disse o Acaso. Deus faz o par, disse o Senhor.

És Deus por acaso, disse o Acaso. Verdade, disse o Senhor.

Adão reclama que o Senhor ainda não entregou a encomenda em troca da costela, disse o anjo. Ele que espere, disse Deus. Estou curtindo.

Salvando muitas almas? perguntou o anjo? Não, disse Deus. Não dá para carregar o twitter.

O sr. criou o mundo e ninguém deu bola. O que está faltando? falou o anjo. Marketing, disse Deus. Chama os caras da trombeta.

RETORNO -  Imagem desta edição: Drummond, estátua, ouve. O povo fala. Link para os Diálogos anteriores:




DIÁLOGOS DO ANJO COM O SENHOR III


Nei Duclós

Demitiste o arcanjo chefe,disse o anjo.Apenas consolidei a natural evolução sem prejuízo para a continuidade dos trabalhos, disse o Senhor.

Deus capricha nas curvas e o anjo pergunta: Tudo isso é para a reprodução? Sim, por que, pode ser mal interpretado? diz o Senhor.

O Senhor não dorme? perguntou o anjo. Facebook, disse Deus num suspiro.

Bom Dia Brasil vai entrevistá-lo,disse o anjo. Não estou preparado,não posso concorrer com aqueles penteados e cruzar de pernas, disse Deus.

O mundo acabou, enfim, disse o anjo. Apenas consolidei uma nova fase da nossa produção, disse o Senhor.

O Senhor é muito dualista: dia e noite, inverno e verão, água e fogo, disse o anjo. É para o pessoal da auto-ajuda contrariar, disse Deus.

Adão reclama que o Senhor ainda não entregou a encomenda em troca da costela, disse o anjo. Ele que espere, disse Deus. Estou curtindo.

Parabéns pelas pedras, disse o anjo. Duram eternamente. E o resto da Criação? O resto obedecerá ao paradigma chinês, disse o Senhor.

Já soei a trombeta. Nada de Apocalipse? perguntou o anjo. A lista de patrocinadores é gigantesca, disse o Senhor.

O casal expulso está lá fora pedindo cobertor, disse o anjo. Não avisei que o  fogo da espada do arcanjo era só até a porta, disse o Senhor.

Salvando muitas almas? perguntou o anjo. Não, disse Deus. Não dá para carregar o twitter.

Não conheço esse homem, disse Pedro para os soldados romanos. Só dei uns RTs de suas parábolas.

Já terminou a criação do mundo? perguntou o anjo. Já, disse o Senhor, vou descansar. E a Sabrina Sato? perguntou o anjo.

Quanta perfeição no mundo que o Senhor criou, disse o anjo. Não tem nenhum defeito? Insetos, murmurou Deus. Mas providenciei as joaninhas.


RETORNO -  Links para os Diálogos e os Diálogos II

ARRULHO DE NEBLINA


Nei Duclós


Não sou porto nem ilha, mas o que passa sem ser o tempo, o que fica pedindo auxílio.

Sozinha, tens a companhia do inseparável sentimento. Fonte sem proveito, arrulho de neblina.

Um dia perfeito de agosto se despede. Prévia do verão, tom de primavera. Dizem que vem friaca de novo. Valha-nos

Invento que és minha e sentes, à revelia, um tremor nas pernas. Será o vento?

Me visitas, esquecida do amor que havia nas palavras. Mas resisto e te espero na próxima curva.

Vestes uma saia, do verbo sair. Uma blusa, do verbo bulir. Um sapato, do verbo tirar. Uma luva, do verbo luar.

Te peguei pela palavra. O resto veio abaixo.

De novo foste embora, reincidente. Vão prendê-la por desacato. Amor é autoridade no pedaço.

Te esperei no aeroporto até o século seguinte. Tinhas mudado de rota, à revelia da minha esperança.

Escancarada. Palavra rota e suada. No auge, reparte. Na ressaca dá remorso, mas depois pede de volta

Quando pegaste aquele avião, minha vida foi embora.


AGIR É VERBO

Deus é obra do acaso, mas nunca foi forte em arqueologia.
 
Realidade é a incorporação e manifestação da palavra. Agir é um verbo. Poesia, portanto, não é devaneio. É invenção do real, concorre com o poder.

Poesia é palavra, realidade. Como o resto da realidade, pois estamos cercados de palavras.


RETORNO – Imagem destga edição: Cristiana Carvalho.

THE LADY: BIRMÂNIA PARA BOI DORMIR


Nei Duclós

Birmânia era uma Shangri-lá cheia de belezas e riquezas onde o povo vivia feliz, mas aí vieram os malvados e a destruíram. O fato de o país ter virado colônia britânica no século 19 nem  vem o caso. A malvadeza é toda atribuída à raça malaia, mulata, ditadora e truculenta, que tiraniza seus próprios iguais e persegue a sofredora dona de casa birmanesa filha de general líder da independência que tinha sido assassinado. Por sua linhagem, serve de imã para o movimento democrático que se arrastou por décadas sem impedir que os generais da atual Mianmar dominassem o tempo todo.

A Orquídea de Aço abandonou família para abraçar esse sonho que lhe caiu no colo depois de uma vida pacata no exílio. Guindada ao primeiro plano diante das massas, envolveu-se na luta e nunca mais saiu dela. Ficou afastada dos filhos e do marido, que conseguiu colocá-la como candidata vencedora do Nobel da Paz em 1991. A comunidade internacional nunca pressionou de fato a ditadura da Birmânia, tanto é que ela se eternizou. Mas posa de politicamente correta no filme The Lady – Além da Liberdade (2011), do mentiroso Luc Besson, um cineasta de ação/ficção que omitiu o principal na sua hagiografia, como bem definiu a crítica: a de que a origem do mal da Birmânia veio do Ocidente, que não pode posar portanto de vestal do processo.

Enquanto a tirania é parda, a civilização do Nobel e da música é branca. A Lady faz parte da elite birmanesa e casou com professor de Oxford (que morre de câncer depois de anos de sofrimento com a prisão domiciliar da esposa que virou líder).  O eurocentrismo bizarro que pontua o filme é um escândalo ideológico. Separa o mundo entre os bons, de pele branca e seus coadjuvantes nativos orientais, e os maus, a pele escura ou de marfim cercando olhos puxados frios.

Não escapa de seu painel de horrores cenas de tortura apelativas para reforçar essa divisão clássica e bem fornida do mundo em convulsão, mas sob a liderança das potências bem intencionadas. Dentro da rigidez do enfoque, o general presidente é um místico (avesso à razão, portanto) e os traficantes uns monstros assassinos (e não soldados, como acontece no ocidente).

Se existe um povo criminoso é o formado pelas nações européias. Saquearam o mundo, transformando-o na joça que está. Mas como a brutalidade é muito explícita, então eles dançam o minueto da alegoria bem comportada, quando sabemos que podem destruir o mundo tantas vezes quanto lhes der na gana. É como se tivéssemos de admirar o carcereiro só para nos manter vivos.

O que mais irrita neste filme indecente é o abuso de jargões cinematográficos. Dez mil vezes a família se abraça. Uma cena de greve de fome repete sempre a comida intocada e o gesto desolado de quem vai servir. A boa atriz Michelle Yeoh (no papel da Lady Aung San Suu Kyi), de O Tigre e O Dragão, se desmancha em caras e bocas em cenas de canastronice aguda. O ator David Thewlis, que faz o papel do esposo Michael Aris então é um assombro de gestos repetidos metidos a significativos, de acenos com a cabeça.  A embaixada britânica (logo quem) é um nicho de resistência e civilização. Tenham paciência. E a toda hora alguém está lendo um livro sobre Ghandi. São de uma obviedade sem fim essas soluções cinematográficas, típica de cineasta sem recursos de criatividade.

Mas você não é a favor da luta do povo da Birmânia pela Independência e nega o papel de Suu?  Viva e democracia, abaixo a tirania e viva a luta dos povos contra a opressão. Não pode é achar que os britânicos são bonzinhos a ponto de lavar a culpa do passado comportando-se com tanta decência no episódio Suu, que no fim viu sua família ser destruída, o marido morto e a democracia adiada até o osso. Houve enfim abertura política e ela se elegeu deputada. Quando foi eleita primeira ministra no século 20, deixou-se apanhar. Deveria emigrar para Londres e de lá pressionar a ditadura. Apesar dos esforços do filme para tratá-la como impecável, ela aparece como a ingênua que caiu numa armadilha.

Aung San Suu Kyi .Mulher de valor e coragem, mas que não mereceu um filme à altura da sua sofrida biografia. Criado por um mito narrado pelo pai, o da civilização perfeita perdida , que tenta em vão resgatar. Uma fábula trabalhada para emocionar a adesão absoluta ao eurocentrismo.


RETORNO -  Imagem desta edição: Luc Besson orienta mal a estrela Michelle Yeoh.

4 de agosto de 2012

FAMINTA


Nei Duclós

És faminta de verso, não te basta
o tanto que publico por tua causa
talvez queiras ser a personagem
dona de um império de palavras

Fico devendo com a obra escassa
sem nenhum exagero nas estrofes
preferes ir mais fundo com o verbo
letra de pedra, gramática da carne

Sugas, esponja, a lavra do poeta
que pontifica imaginando o alarde
que exibes nesses recitais baratos

Afogado em vão no próprio ofício
preciso fôlego de inumeráveis gatos
pânico de fila indiana em precipício


REETORNO – Imagem desta edição:  Louise Bourgoin.

DO VERBO LUAR




Vestes uma saia,
do verbo sair.

Uma blusa,
do verbo bulir.

Um sapato,
do verbo tirar.

Uma luva,
do verbo luar.


Nei Duclós


RETORNO -  Imagem desta edição: Grace Kelly. 

AMOR NO ESCURO


Nei Duclós

Não fosse o cinema
que tenho aqui dentro
jamais iluminaria teu rosto
até a exatidão da beleza pura

Sorte que passas despercebida
pelos que confundem com realidade
a percepção crua, sem imaginação,
e ilusória como qualquer outra

Saio ganhando: a mais esplêndida
beldade fica comigo. Feita de linhas,
volumes de luz e sombra sob a Lua

Na escada que o soneto pontua,
sem querer, diante do que és de fato
subo até o extremo, amor no escuro


RETORNO – Imagem desta edição: Rooney Mara.

3 de agosto de 2012

LIÇÃO


Nei Duclós

Flor no gerúndio, particípio presente
teu nome de batismo me beija
lembrança de um tempo a dois
únicos amores na cidade grande

Me afoguei em teus olhos
tão próxima e distante
o toque era palavra quente
compartilhada em dias plenos

Fui na chuva ver teu amanhecer
e eras o despertar de um sonho
um século depois, sinto teu cheiro

Voltas com teu misterioso encanto
nunca chamei de amor, e me arrependo
bastava te dizer, mas nunca aprendo


RETORNO – Imagem desta edição:  Rossana Podestà.

DOBRA


Nei Duclós

Mulher não tem mistério,
esqueceu onde guarda.
Só quando sai do sério
usa essa arma

Procure por esporte
quando ela se acha
na dobra de uma perna
brinco de pérola

Decifre a charada
de polichinelo
finja que não sabe
cara de paisagem

Ria da soberba
excessos de fada
vale pelo ardente
corpo de mármore

Depois não se queixe
da algema sem chave
em que ela te posta
conto do vigário


RETORNO - Imagem dedsta edição: Laura Antonelli.

MEL E SOMBRA


Nei Duclós

Só tu, perfil perfeito. Só teu corpo supremo, tua voz sem concorrência. Só tu, inteira, amor que jamais vence.

Tens o dom da palavra cheia de mel e sombra. Um ruído rompe o luar tão perfeito. É a lembrança do amor que se foi para sempre.

Quebras o gelo com teu roçar de pernas. O clima desanda em direção à primavera.

Tantas vezes falei essa palavra. Só em ti tem sentido.

Ultrapassei o limite da saudade. Vivo no limbo, que é a Queda provocada por tua ausência.

Não estamos mais juntos. É como se o universo tivesse fechado para balanço.


LOBO ORDINÁRIO

Achavas que estavas com tudo. Mas ela te deu um nó e ficaste sem nada. Hoje uivas na sua porta, lobo ordinário.

Pode me chamar de amigo o quanto quiser, amor. Não cola.

Mais madura, e linda como nunca, dás um mergulho no amor da poesia. Escuto o barulho do teu corpo caindo nas águas da palavra cheia de veneno.

Anos sem te ver e assomas como ninfa, de perfil, olhando para além de mim. Semente de deusa, nem sabes do impacto que provoca a tua beleza.

Cada palavra jogada no mundo voltará crescida cobrando a conta

Construimos um planeta de poemas. Lá moramos sem sustos. Nossa força de gravidade é o espanto.

Treinei tua fala em poemas. Recitas a minha fonte. Renovo assim com tuas águas. Que trazes na nossa boca.

Vamos pensar em outra coisa. Há tempos não vejo de perto aquela curva. Chega aqui para eu saber se ela ainda tem meu beijo.

O inverno é um teste, para ver se o coração congela. Quem mantém a chama ganha de presente a primavera

Perder a esperança é decidir o futuro na véspera. É o fim da espera, perder a fé no que o destino apronta.

Inverno é quando a Lua esconde o Sol debaixo das cobertas e só solta acompanhado pelas nuvens espessas.


AGOSTO DE LUA

Agosto começa com sabor de Lua Cheia, surpresa depois dos dias de ressaca, aceno de amor que vem sem pressa.

Não podemos falar mal de agosto. Sol a rodo, amor que volta. Pré-estréia de uma possível primavera.

Dia claro, noite de Lua cheia, um poema por hora, a mensagem que te recebe ainda com sono. Ela te ama. Dale, agosto.
A Lua cheia é a obra prima da curva. Tem até um sorriso de Gioconda.

Me chamas para a Lua, mas já estou na garupa da rainha há vários minutos, desde o momento em que ela me deu um susto de tão bonita.

Hoje notei o dia mais comprido, como se fosse a preguiça de um menino levado que não atende o chamado do crepúsculo e brinca no colo da Lua ainda por vir

A mais perfeita Lua que o céu noturno pode suportar é onde meu olhar cruza cheio de esperança.

Somes como a estrela da manhã depois que o sol se instala. Te procuro em vão na trilha do céu claro. Espero a madrugada quando voltas. Mas te escondes atrás da Lua, majestosa.

O sol voltou. Acabaram as desculpas. Tira tudo. Só não me aplica aquela história de que neste ano não fez frio.

RETORNO – Imagem desta edição: Corinne Calvet.

1 de agosto de 2012

ZERO HORA DIVULGA MEUS LANÇAMENTOS

O repórter Carlos André Moreira, da Zero Hora e clicRBS publica excelente matéria no Segundo Caderno desta terça feira, dia 31, sobre os meus lançamentos. Reproduzo a seguir:
 
"Do mimeógrafo à era digital 31/07/2012 | 16h37

NEI DUCLÓS LANÇA QUATRO LIVROS EM FORMATO DIGITAL

Além de três trabalhos inéditos, poeta e jornalista relança sua estreia, "Outubro", de 1975
Nei Duclós lança quatro livros em formato digital Ida Duclós/Divulgação
Nei Duclós lança quatro livros digitais: três inéditos e um relançamento. Foto: Ida Duclós / Divulgação

Carlos André Moreira

Expoente local da mais tarde apelidada "geração mimeógrafo", o poeta e jornalista Nei Duclós sempre fez da tecnologia mais à mão ferramenta para levar seu trabalho ao público. Blogueiro de primeira hora, ele agora se aventura com o lançamento experimental de quatro livros em formato digital, três inéditos e uma reedição.

Duclós começou a mostrar sua produção poética no fim dos anos 1960 e início dos 1970, levando seus poemas para a rua em forma de cópias mimeografadas. Não por acaso, seu segundo livro de poemas, de 1979, chamava-se No Meio da Rua. Agora, o autor lança-se a uma aventura semelhante na ágora do século 21, o universo digital. Duclós está lançando três livros inéditos, um de poemas, um de crônicas e uma paródia de romance de aventuras, e republicando seu livro de estreia, Outubro (1979), em formato PDF, para venda direta online.

– Graças aos meus filhos, sou bastante pioneiro do ambiente digital. Mantenho um blog há 10 anos, com mais de três mil posts. Quando chegaram as mídias sociais, aproveitei a interação com o público. Eu me sinto muito à vontade nesse ambiente – diz Duclós, residente em Florianópolis, em entrevista por telefone.

A inspiração para a iniciativa também veio de um dos filhos – Daniel Duclós, fotógrafo e escritor, autor de um guia online sobre Amsterdã. A comercialização, por ora, é feita diretamente com o autor, nos sites outubro e www.consciencia.org/neiduclos/ebooks-de-nei-duclos, e pelo e-mail neiduclos@gmail.com. A escolha das obras foi pautada também pelas manifestações de leitores, incluindo a reedição da obra de estreia.

– O pessoal me mandava e-mails e mensagens perguntando pela edição esgotada, virou minha obra cult.

De acordo com o autor, mesmo que os livros estejam saindo diretamente em e-books, ele não descarta a hipótese de publicar o material em papel.

– Se alguém se interessar em publicar e fazer um livro de bolso, compacto, maravilha. Esse e-book é também uma proposta para as editoras, não estou chegando com a ideia de um livro ou um original, estou chegando com um livro pronto.

A experiência não significa, contudo, o abandono da publicação em papel. Tanto que Duclós deve lançar até o fim de agosto outra coletânea de poemas, Partimos de Manhã, em edição do Instituto Estadual do Livro. É o quarto livro impresso de poemas do autor, e o primeiro desde No Mar, Veremos (Editora Globo, 2001)."


RETORNO - As edições impressas do dia 1 de agosto de 2012 tanto da Zero Hora quanto do Diário Catarinense deram destaques ao meus e-books em seus cadernos de Variedades, com direito a chamadas de capas dos suplementos.Agradeço ao repórter Carlos André Moreira e às redações dos dois jornais que me me receberam com tanta consideração.