14 de fevereiro de 2012

CLANDESTINA


Nei Duclós

No Dia Internacional do Amor fiscalizo as fronteiras, clandestina.

No Dia Internacional do Amor abrimos mão dos registros. Somos só o coração sem batismo.

No Dia Internacional do Amor chamem a polícia. Todos os apaixonados caíram no abismo.

No Dia Internacional do Amor de um tempo sem brilho, apostamos no fogo dos nossos suspiros.

Trabalhe normalmente no dia de hoje. Te busco mais tarde. Levarei de presente a Lua.

Esse negócio de dia do amor é bobagem. Bom para o comércio. Por isso basta um cartão folheado a ouro dizendo o que não ouso dizer, rainha.

Acham que baixei a guarda. Preferem me ver no deserto dizendo alto lá para quem passa. Tirei a farda e cruzo o mar com uma flor em tua homenagem.

Você é tão pouquinha. Compartilha quase nada de ti, joaninha.

Macia e distante, és o contraponto desta vida sem sentido. Não dá sinal de vida para não gastar carisma. Me deixa entre as pedras enquanto voas, infinita

Tanto verão consolida teu coração mais acima: perto do mar nos ofícios, longe de mim quando brinca.

Ela passa voando. É uma boneca de pano na cauda de um novo quebranto, metade flor do sereno, metade quarto crescente .

Poeta não canta lamentações. Poeta chuta o balde.

Não sei, acho meio frouxo, disse o crítico. Vou trazer a chave inglesa, disse o poeta.

Só a tela é cinema. Só a palavra, poema. Só o que está dito é memória. Só o teu olhar meu mistério.

Você respira por guerlas nas grutas de coral, onde nem os mergulhadores chegam. Por isso estendo anzóis por toda a costa do Pacífico.

Peço segredo do que te escrevo. Há guardas em busca de prêmios. Quem descobrir meu verso para ti ficará rico. O poder não permite que eu te tire do sério.

Te excluem quando entras segurando a bandeja. Ninguém te convida. Vais então para um canto e me liga. Oi amor, dizes. Venha almoçar comigo.


RETORNO – Imagem desta edição: Ingrid Bergman em Por Quem os Sinos Dobram.

13 de fevereiro de 2012

DOMÍNIO


Nei Duclós

O sorriso é amostra grátis do teu balcão de delícias. Pago o mico para adquirir todo o estoque. Abusas de mim, absurda.

Para que segredo? Nosso amor é tão antigo que já é domínio público.

O dízimo do meu desejo é o beijo. O resto da dívida é na cama.

Não faço carreira de poeta, não me interessa. Escrevo o que eu quero. Sou livre para contrariar o hábito de leitura que decidiste para meu espírito.

Ainda é cedo? Não concordo. A manhã é apenas o momento em que a noite cansa do escuro.

Antes mesmo do café me pedes mais do que foi intenso na longa permanência dos nossos corpos. Sentiste saudade no intervalo de um segundo.

Estavas ocupada e pediste um tempo. Depois quis recuperar o estrago. Agora sou eu que decido a agenda. Me aguarde, eternidade.

O que faço contigo antes que amanheça? Talvez te diga que mudei de idéia. Em vez de viajar, fico.

Elementais existem na natureza. Quem defende o meio ambiente está cultivando fadas.

Não me enveneno com palavras alheias ditas a esmo. Moro num outro concerto.

O dia acabou. Não me respondeste.

Deus não joga dados. Joga pôquer. Com os ateus. Gosta quando blefam fingindo acreditar nEle. Poderia ganhar sempre, mas erra de propósito. E ri.

Alcanço a blusa, passo a mão no teu vestido, aperto teu laço de fita, amarro teu cabelo. Que mais queres de mim, magnífica?


É tudo mentira: o amor, o namoro, o romance. Então posso dizer como te vejo. És feita de carne e osso.

Estavas pronta para cair no laço. Aí contei a verdade.

Cansou de me ver? Peça demissão do poema. Somos uma corporação sólida.Não precisamos de ti, maravilhosa.

Agora me vou, junto com o vento. Levante a roupa na altura dos olhos, talvez eu vibre.

Não me peça nem me diga coisas. Não tenho onde guardar.

Já ameacei ir embora. Mas nem deste bola.

Sapato trocado, meias com fiapos, saia surrada, batom no queixo. Assim te apresentas para o expediente? Vai terminar de amar e depois volte.

Peguei uma virose, a solidão. Preciso de uma dose forte de você por dia.

Não se repita, disse ela quando falei pela milésima vez. Desse jeito vou ficar imune aos teus truques. Não quero entender a mágica.

Cansei e sumi. Foi quando ela voltou, por coincidência. Sorte que ainda lembrava do seu cheiro.

Ninguém ama o dia todo. Guarde para a happy hour, disse o conselheiro. Cada segundo é seis da tarde, respondi.


RETORNO – Imagem desta edição: Hillary Swank.

CAPRICHO


Nei Duclós

Me pedes um soneto, eu não tenho.
O que pega é o sentimento. O poema
é só um momento de fraqueza,
quando duvidamos da permanência.

Colocamos no verbo o amor eterno
por temor de vê-lo escapar nos dedos
como se fosse possível o esquecimento
de algo que nos conquista por inteiro

Por isso não escrevo, me transformo apenas
nas palavras que agora tens para sempre.
Sou eu que palpito, mas longe destes versos

Lá onde mora o perigo do que não dizemos
o lugar sem fim da vontade e do contato
muito acima do capricho da minha letra


RETORNO – Imagem desta edição: Audrey Hepburn e Fred Astaire em Funny Face (1957).

FOGO


Nei Duclós

Sinto saudade do fogo. O tempo é água salobra. Amor não bebe o que sobra.

Tenho tuas mãos de viagem. As que nasceram para o aceno. As que uma vez me tocaram se foram junto contigo.

Conheço o tom da pegada. Dançamos junto com a roda. Na hora de formar pares tens sempre alguém na tua saia.

Começo chegando perto. Depois me atiro no jeito. Levanto quando te mandas. Se houver um beijo me deito.

Não quero perder a hora. Virás quando houver carinho.

Não tenho bagagem. Ando sem estrada. Os poemas me seguem como pássaros em bando.

Tem pouso? perguntou o peregrino. Tenho só um quarto, disse a mulher da estalagem. Fica no sótão. A outra vaga é no meu coração.

Há tempos não me vias. Lembrei do nosso encontro. Depois partiste, andorinha.

O comboio do poema passou há tempos. Perdeste a cavalgada. Mas ficaram as pétalas pisadas e o cheiro acre do meu corpo em brasa.

Ainda sou teu. Tuas marcas não se foram.

Não te elogio mais, só serve para atrair predadores. Vou acabar com tua biografia em cinco linhas.

Podemos recomeçar como se não tivesse havido nada. Tenho uma borracha. Vou apagar a ferida que chamam de coração.

Rolamos o dia inteiro. O abismo não tinha fim. Acabamos num vale e havia flor por todo lado. Eram teus suspiros.

Fui viajar mas desisti, troquei as passagens. Comprei uma entrada de cinema, onde passavas em sessão dupla.

Fiquei vazio depois da nossa conversa. Preciso voltar ao lugar onde te vi primeiro. No fundo do mar, eu acho.

Naufraguei na ilha deserta, o lugar onde marcamos desencontro.

Tomo notas quando falas. São versos e desenhos: sóis, jóias, espelhos. E um brinco de ouro a prazo com sonetos sem data de vencimento

Leio em ti algo escrito a batom no vidro da janela que dá para o desassossego.

O que escrevo te acompanha pela noite adentro. De vez em quando a palavra tranca no peito. É quando te beijo.

Já disseram que poesia é perda de tempo, a maior viagem. Concordo. É preferível pontificar certezas com cara de paisagem.

Amadureça, me disseram. Não consigo, fico verde quando você está por perto.


RETORNO – Imagem desta edição: Clara Bow.

12 de fevereiro de 2012

POESIA, DE CHANG-DONG LEE: A DOR DA VERDADE


Nei Duclós

Flor vermelha na poesia romântica é confundida com amor, mas representa a dor. Na obra-prima Poetry (2010), do sul-coreano Chang Dong Lee, é a pista para a busca da verdade, que não se sintoniza com o sentimentalismo derramado ou o cânone do belo na arte. Fazer um poema é fácil, diz o professor de literatura no curso do centro cultural do bairro, o difícil é ter o coração preparado para escrevê-lo.

A protagonista, interpretada pela excepcional atriz Jeong-hie Yun, não consegue, por mais que se esforce, ocultar a verdade. Vai em busca dela, saber exatamente tudo sobre o estupro sofrido por uma jovem na escola do neto, que participou do crime junto com outros seis marmanjinhos cretinos. Nada mais doloroso, nada mais atual, o ocultamento do terror e a face inocente que ele adquiro por meio do medo do suborno e da conivência.

O ritmo da narrativa, acusada de lenta pela idiotia reinante – é o fluxo do rio, que abre e fecha o filme. A correnteza leve da aldeia traz boiando o corpo da menina que se suicida depois de ter sido atacada por seis meses numa sala remota, o laboratório de ciências da escola. Órfã de pai, e com 16 anos, não é considerada bonita, mas tinha a fragilidade familiar ideal para sofrer a covardia dos brutos, todos filhos de pais criminosos, pois estes se reúnem para abafar o caso junto com a direção do colégio e comprando o silêncio da imprensa. Esse ritmo é o da senhora de 65 anos que cria o neto porque a mãe dele é omissa e vive em outra cidade e jamais vem ver o estrago que é seu rebento - o mais asqueroso personagem adolescente da história do cinema, um execrável come-dorme.

Estupro em escola é lugar comum hoje no mundo todo, assim como seu abafamento. A impunidade decorrente disso é absolutamente cavernosa. Uma escola acaba se souberem de um caso desses, pois entregar os filhos num estabelecimento de ensino implica credibilidade e confiança. Se no ambiente escolar existe um crime consentido por um tempo razoável, que resta de confiança para os pais e alunos? Com seu roteiro magistral premiado em Cannes em 2010, o cineasta nos leva pela mão pelos olhos da protagonista, que estava querendo realizar um sonho da adolescência, a de ser poeta.

Só que ela não consegue escrever o poema que o professor estimula. A poesia romântica não cabe na realidade onde vive. Ela toma nota do que vê e sente, observando a natureza, flores, folhas e frutos e paisagens, mas jamais chega ao resultado final. Só quando decide fazer justiça e entregar o neto para um policial honesto, participante de um clube de poesia, é que consegue finalmente. O poema encerra o filme. É o diálogo com a menina morta e serve para nos matar do coração. Sim, poesia é amor, sem tirar nem por. Amor pela verdade.

Por que não fazemos mais filmes assim? Porque perdemos a guerra, somos uma nação derrotada pela criminalidade. Não há saída nesta terra sem lei, onde os ministros, em série, são flagrados em falcatruas e uma greve policial justifica a matança industrial de desafetos. Não há respeito aos mais velhos (logo na nossa vez!) e o crime impera em todas as esquinas, atividades e hábitos. Como fazer filme decentes se somos contaminados pelo Mal? A não ser que possamos reagir e fazer como na Coréia do Sul, onde a resistência contra o esgarçamento social produz grandes obras como esta.

A poesia costura o roteiro, a justiça se faz pela individualidade resistente e a ferida aberta não fica impune. A mulher envolvida no abafamento do crime é uma espécie de Hamlet o tempo todo. Fica em dúvida se deve ou não denunciar o crime que atinge sua família. A maçã que observa ou o damasco que colhe do chão (pisado e pronto para ressuscitar de suas sementes) é a vítima que a desafia a buscar a verdade apesar da dor.

E a verdade liberta: a avó chama a filha, mãe do adolescente criminoso, que acaba assumindo a casa. E ela, a mulher de 65 anos que estava presa a uma situação familiar injusta, assume sua identidade perdida, a de poeta. Seus sintomas iniciais de Alzheimer são a metáfora do esquecimento doentio imposto pela sociedade à cidadania. Mas ela se esforça, se exercita e lembra. Eis sua vitória.

Filme antológico e obrigatório. Veja.


RETORNO - Imagem desta edição: Jeong-hie Yun em Poetry.

OS AJUDANTES DE NETUNO


Nei Duclós

Quando entrar no ar, não faça pose arqueando os braços, inflando os ombros e jogando porções de água no corpo, como se o dominasse.

Netuno tem coadjuvantes que providenciam correntezas em remansos, buracos em rasantes e ondas gigantes em água pelo joelho.

Não desafie quem você não entende. Submeta-se ao poder do mar, que graças ao Verão permite que você entre. Não esnobe quem pode te levar.

Já causa estrago a barulheira das vozes estridentes, som de biroscas e motores. Sorte que há a noite, quando o mar se recupera do que se ressente

De manhãzinha ainda há essa clima de natureza intocada na praia perto do morro, junto às pedras de misteriosa origem. Vá devagar, escutando.

O mar conversa o tempo todo, mas não contigo. Não tente entender sua linguagem. Ele faz parte do cosmo e namora tempestades de areia, na Lua.

Só quem brinca realmente n o mar são as crianças, sob o olhar atento dos pais, e esses ajudantes, pequenos deuses mutantes.

Os adultos devem se comportar e não encolher a barriga para mostrar poder. Relaxe e torne-se confidente do mar, último reduto do Big Bang.

E não invente de achar que é o mar que sopra o poema.A palavra é tua, que tiras de tua vida sem descanso. O mar espera que recites o soneto.

Os ajudantes de Netuno são como duendes, ninguém vê, a não ser seus movimentos. O poeta sabe porque ouviu as sereias.


RETORNO – Imagem desta edição: Crianças no mar, obra feita em 1872 por Jozef Israëls (1824-1911).

11 de fevereiro de 2012

SISTEMA


Nei Duclós

Vênus roda devagar a órbita da saia
Marte esconde habitantes do satélite
Saturno tem mais luas do que parece
com tantos anéis onde estão as noivas?

Plutão já não nos pertence, é pária
Urano é ermitão que não se entrega
há um planeta na sombra além do sistema
asteróides são estilhaços de hecatombes

Mercúrio tem recados urgentes do Sol
Júpiter tomou o poder mas foi deposto
Netuno ficou decepcionado com o mar

A Terra é azul porque um dia se apaixonou
olhou de frente o cometa que veio e se foi
até hoje suspira por ele tsunamis e tufões


RETORNO – Imagem desta edição: cena de 2001, de Kubrick.

SINO


Nei Duclós

A noite chegou de repente, jogando o dia para longe. Ficamos abraços no escuro, com luzes insuficientes. Talvez tenhamos nascido antes que a Lua fermentasse a vida.

O som das esferas é de sino. O universo inteiro é um concerto de címbalos. O contraponto é teu sopro na flauta do meu ouvido.

Minhas palavras às vezes escorregam. Releve. Faz parte da compulsão da poesia. Aos poucos o verso volta ao normal, mais tímido. Quando assume teu íntimo, garoa.

Escrevi nas nuvens. Aproveitei que o tempo estava feio. Mas na manhã seguinte o sol brilhava sobre teu rosto indiferente.

Interrompeste meu choro com uma frase aleatória. Dispersaste minha atenção. Quando voltei a mim, estavas longe novamente.

Me segues, fragilíssima, pela rua do destino. Quando vem um carro te ponho no colo.

Não respondes quando te abordo. Desconversas. Mas não por muito tempo. Voltas, desnudando o ombro.

A culpa é sacana, cobra virtudes do prazer soberano.

Caiu em desuso o eu te amo. Por isso pus no sótão e só de vez em quando abro a tampa. Assim, a cada minuto.

Não vou abrir a porta. Estou mexendo em palavras. Só depois, debaixo das estrelas, naquela praça.

Tarde demais, a sessão já está a pleno. Espere na chuva que depois te beijo, eleita.

Me deito e mesmo longe murmuras algo. Levanto para ver. São aves noturnas, aos arrulhos.

Hoje choveu sobre o mundo. As cartas não foram entregues. Os pombos correio se recolheram em pousadas cheias de música

Quando acabou a guerra, enterraram todas as nossas cartas. Desde então sou o mendigo que revira o lixo atrás do teu endereço perdido.

Uso a imagem da sósia, assim escondo tua identidade. Já és estrela, para que açular a cobiça?

Me ocupas com teu rodeio. Preciso manter o exercício. Saia um pouco pela brisa e volte com pétalas nos cílios.

São dois toques no nosso acordo: um por todo o corpo, outro no céu da boca.

Basta ser o que me dizes: a extrema polidez no trato, o exagero absoluto no beijo.


RETORNO – Imagem desta edição: Dança dos aldeões, obra de Rubens, no Museu do Prado.

10 de fevereiro de 2012

MONEYBALL: GESTÃO DE COMPETÊNCIAS NO ESPORTE


Nei Duclós

Taylorismo estatístico com recursos digitais aplicado ao beisebol para conseguir a vitória com poucos recursos, mas com a gestão eficiente de competências. Parece até missão corporativa mas é apenas a síntese que encontrei para o filme Moneyball – O homem que mudou o jogo, de 2011, dirigido por Bennett Miller. O roteiro é do competente Seven Zaillian (Tempo de despertar, Lista de Schindler, Millenium, Gangues de Nova York, a Intérprete etc.), baseado no livro de um especialista no assunto esporte, Michael Lewis, "Moneyball: a arte de vencer um jogo injusto". Outro livro de Lewis já tinha nos dado o bom filme Um Sonho Possível (2009), ou The Blind Side, sobre o futebol Americano.

Moneyball contou com a produção de Brad Pitt, que também interpreta o gerente todo-poderoso Billy Beane, ex-jogador que acredita carregar a maldição de ser pé-frio, por isso não assiste os jogos do seu time. Ele é coadjuvado pelo surpreendente gordinho Jonah Hill no papel do formado em economia em Yale, Peter Brand, fonte da mudança de que nos fala o título. O scholar trouxe a idéia, as estatísticas, mais importante do que o carisma dos jogadores, o lugar comum da valorização pelas aparências e a visão unilateral do jogo.

Pois jogo é negócio e busca o lucro. Para remunerar o investimento é precisa vencer e para vencer só acumulando o maior número de pontos. Não importa o jogador, a performance na temporada, a experiência ou mesmo a riqueza do time. Importa é ser campeão. Não conta o tal espírito esportivo, nem entre os torcedores, que se o clube não vence dão as costas par ele nos estádios, ameaçam os jogadores e jogam tudo no gramado. Ganhar é o que conta. Então precisa saber que o caminho da vitória não são os craques ou a fama da camisa, mas os pontos ganhos. E isso se consegue coloca as pessoas certas no lugar certo para que cada posição contribua para o resultado final. Não se deve jogar toda a responsabilidade em cima de alguns craques, mas é preciso fazer com o que o time todo some até chegar ao nível esperado, o título.

Essa lógica enfrenta ruído. Os gestores tradicionais acreditavam que se tratava apenas de montar equipes a partir da valorização dos jogadores, fazendo os preços da temporada subir à estratosfera. Billy Beane não contava com muitos recursos, revelava jogadores bons que eram vampirizados pelos times grandes. Precisava de uma solução e ela veio por meio da teoria de que era preciso compor a equipe a partir do que cada um poderia render em função do resultado, fosse ele valorizado ou não. Numa pesquisa, foram selecionados alguns jogadores considerados “bondes”, mas eram apenas mal aproveitados, ou vitimas da maquina de moer carne do sistema formado pelas aparências e as idéias fixas.

Com pouca verba e jogadores tidos como problemáticos e ultrapassados, o time Oakland A's conseguiu chegar à final. Não venceu, mas provou que a teoria funcionava. “Os críticos acham que isso nada tem a ver com o jogo, mas eles estão apenas preocupados com seus empregos”, diz o executivo do Red Sox quando convida Bean para dirigir o time (ele não aceita, prefere ficar no Oakland, onde está até hoje procurando ser campeão). “Depois do que você vez, todo o time que fizer o contrário será considerado um dinossauro”.

Vemos no futebol como inflacionam os valores de jogadores em função da corrupção e da lavagem de dinheiro. Tudo isso é baseado numa mentalidade pré-Billy Beane. Além de se basear nas estatísticas, é preciso selecionar em função do rendimento de cada um, pegar o touro a unha, mudar de rumo quando necessário, fazer as trocas de craques, ousar. Gestão bruta de recursos e gente pesada que vive do esporte. Como o indiferente e defasado treinador interpretado pelo magnífico Phillipe Seymor Hoffman, que com Brad Pitt, George Clooney, Matt Damon e Ricardo Darin faz parte do cânone da interpretação de hoje, uma lista que talvez não ultrapasse uns dez nomes.

Brad Pitt se supera. Quando pressiona alguém em cena, mete medo, como aconteceu quando interpretou Jesse James. Tem um carisma impressionante e sabe o que faz diante das câmaras. Jonah Hill me parece um novo Dustin Hoffmann , o sujeito meio torto que se impõe pelo enorme talento. Achei que seria mais um filme chato americano de winners e loosers, mas é algo mais. O cruzamento entre matemática e administração num nicho inédito gerou uma excelente história e uma atualização sobre o que pega no esporte hoje.


RETORNO - Imagem desta edição: Brad Pitt e Jonah Hill viram o jogo.

FOLHA


Nei Duclós

A noite cai, inútil, sobre o poema, folha amassada no ventre do verão exausto.

Não sinta vergonha. Sumiremos no ar em pouco tempo. Ficará apenas esse gesto de amor, como nuvem suspensa no eterno

Sou teu alvo, Cupido. Onde guardas as setas para alguém que compartilho?

Virou o tempo e o calor acabou em vento. Fim da tarde neste fevereiro tão grudento. Nuvens intensas prometem não ter Lua novamente. Só dentro de nós o amor tempera o clima mais ameno.

Vem que tarda coração de manteiga. Te prometo tesouros, até os falsos, do meu sentimento, já que deixas escorrer os dias sem teu beijo. Faço qualquer coisa para ter teu abraço esplêndido.

Não tem mistério a palavra de amor posta no bolso. É como moeda antiga sem serventia. Todos conhecem mas ela nada compra. É uma espécie de sinal coletivo de chamegos.

Não sou brilhante, sou tua bijouteria.

Já perdi, agora aguardo com meu sentimento. É uma pomba que me ensina o vôo quando se lança sobre a noite incalculável de estrelas.

Sopro teu rosto para ver se piscas. Estás no meu colo, indiferente, seriíssima. Como último recurso, em vão, choro, matriarca de delícias.

Sumiste de vez. Fiquei a ver navios em plena seca. O mar foi tragado pela saudade. Não voltará a ventura de ser teu.

Estou aqui, disse ela, em outro planeta.

E sabe então o que ela falou? Nada.

Por que sonhamos? Para projetar a vida que não deveríamos perder.

Não fugirás do que amo. Não que estejas presa, mas porque assim combinamos, sem sequer saber onde estivemos.

Tão bonita, de tão poucas palavras. Elas me bastam e me ensinam pelo corte enxuto e o passo trêmulo na calçada forrada de flor.

Você passou por mim e tive coragem de dizer. Se não deu certo, não foi culpa do poema, mas do destino, esse pregador de peças.

Agora repousa e sonha. Sou o confisco do teu corpo em movimento de águas. Mergulhe no que parece não existir, mas é só o que temos.

Boa noite, coração ao vento. Pássaro é o verso, que te alcança.

Moro no poema, exílio de esperança. Ame.


RETORNO – Imagem desta edição: Berenice Bejo no papel de Peppy Miller em O Artista.

9 de fevereiro de 2012

ALVORADA


Nei Duclós

Todo dia o poema é deserto
não tem portas nem jardins
nem habitantes ou pérgulas
Sopra o siroco mau por perto

Verso é design de arquiteto
paisagista amador de concreto
pedreiro de nuvens, solo de insetos
Verbo é chuva de remotas terras

Soneto é como João de barro
construtor de um abrigo sem glória
os predadores atacam como loucos

Tudo por um fio até que despertas
e levantas o busto no lençol revolto
Voa então meu coração de poeta


RETORNO – Imagem desta edição: obra de Władysław Czachórski.

THE HELP E THE FLOWERS OF WAR: O CLICHÊ FUNCIONA


Nei Duclós

Dois filmes diferentes – The Flowers of War, do bom Yimou Zhang e The Help, da estreante Tate Taylor, ambos de 2011 - se identificam no uso do clichê, recurso quase obrigatório na narrativa da indústria cinematográfica, que depende do sucesso para sustentar sua caríssima produção. O clichê funciona e por isso é tão usado. Yimou Zhang, que já nos deus grandes filmes quando não estava a serviço do império predador chinês e do lucro americano, oferece a clássica situação do sujeito meio bruto e desqualificado que se humaniza ao assumir um papel heróico, o de salvar meninas adolescentes de um convento em Nanking na guerra contra o Japão nos anos 30. Já vimos isso em vários filmes, inumeráveis, desde a época em que Robert Mitchum salvava Debora Kerr nos confins do Pacífico em Heaven Knows, Mr. Allison (1957).

Ymou mostra como os japoneses são malvadíssimos e os chineses essas flores que se cheiram, desde o soldado que se sacrifica até as prostitutas que adquirem virtude ao se entregarem para o inimigo e assim salvarem vidas. A China tocou o puteiro da carnificina no Tibet e em outros lugares, mas no seu cinema são essas preciosidades milenares que todos conhecem. O filme escorrega para o dramalhão com cenas arrastadas de choro diante da presença nefasta dos inimigos, destacando as qualidades de caráter dos protagonistas. Christian Bale, como sempre, convence no papel do maquiador profissional e falso padre. Ator de talento e gana, carrega o filme, com ajuda de excelentes coadjuvantes, como a bela o Ni Ni no papel da prostituta Yu Mo.


Em The Help, todas as mulheres brancas do Mississipi dos anos 60 são horrorosas megeras falsas e coquetes que torturam suas exemplares, sábias e magníficas empregadas domésticas negras – ou afro-americanas, como quer o vocabulário politicamente correta. Só se salva a aspirante a escritora e jornalista Skeeter Phelan interpretada por Emma Stone. Viola Davis no papel da empregada Aibileen Clark e Octavia Spencer como Minny Jackson detonam protagonizando as fontes de uma história de crueldade e que vira best-seller. O filme é uma espécie de Casa Grande e Senzala americana, pois os gringos enfim admitem que foram criados por suas escravas domésticas, como sempre soubemos por aqui desde Gilberto Freyre.

Por que o clichê funciona? Porque é preciso marcar no espectador as balizas da história para que não haja confusão. Várias vezes noto, em filmes de emergentes, o problema de saber exatamente quem estava fazendo o que, por falta exatamente dos recursos consagrados do cinema. Devem ser usados, mas não podem contaminar totalmente a narrativa como nessas duas obras. Somos levados à emoção plantada, tão evidente e explícita que chega a ser desdramática, pois sabemos que produção e a direção estão dizendo: agora chorem, trouxas. Só um grande texto e uma grande interpretação poderão salvar o clichê, como acontece na antológica despedida de George Clooney da mulher em coma em os Descendentes, de 2011 e já abordado aqui.

Há uma cena especial em Flores da Guerra, graças ao script. Vou te levar para casa depois que tudo isso acabar, diz o americano. Meu corpo não vai mais me pertencer a partir de amanhã quando eu for distrair os japoneses, diz a prostituta. Leve-me para casa agora. E começa a cena de amor e sexo. Maravilhoso. Mas o resto são o sangue espirrando por todo lado (cenas sensacionais de guerra), adolescentes sendo estupradas brutalmente e momentos poéticos sussurrados. Clichês que fazem do filme um bom espetáculo, mas não sobrevivem a um olhar mais exigente.

The Help escolhe um foco raro no cinema americano, o da vida doméstica sendo protagonista da cidadania (normalmente é a vida exterior que determina as ações e os sentimentos). Inova quando destaca as babás negras e seu universo crítico e sofrido. Poderia ser um grande filme se evitasse ser tão marcado em suas intenções de manipulação do espectador. É difícil sugerir sem mostrar com clareza. Isso quem sabe fazer são os gênios da Sétima Arte, que não existem mais. Má notícia para os comerciantes: nós não esquecemos e fomos formados pelos mestres. Seremos sempre assim duros na hora de ver, com parâmetros de infinita competência, que colocam no chinelo o que se faz em massa hoje.


RETORNO - Imagens desta edição: na foto de cima, Christian Bale e Ni Ni em "The Flowers of War"; na de baixo Emma Stone, Viola Davis e Octavia Spencer em "The Help" (no Brasil, Caminhos Cruzados).

CAMAFEU DE OURO


Nei Duclós

Já pensei na Lua cheia antes que surja. Antecipo o principal da noite, seu camafeu de ouro.

Com o vestido bordado de estrelas a noite aguarda em seu camarim de seda. Talvez não a chamem para o palco e seja mais um abuso do coral das nuvens

Não devia ter saído para ver a Lua. Ela nem tinha nascido. Lembrei de um verão, há tempos.

É sangue que existe na Cheia. Vem do amor que sente toda semana quando surge a pleno. O rosto rubro da brasa acesa. Tonta de devaneio.

Não vamos perder tempo com a Lua. Ela que fique sapateando sua dança enquanto o eco responde bêbado.

Agora sim a Lua resolveu brilhar. Estava só retocando a maquiagem. E providenciou que as estrelas mais brilhantes ficassem longe dela

A Lua cheia seca as roupas esquecidas no varal, que ficam impregnadas de paixão.

A Lua cheia é teu espelho. Ficas diante dela com tua grandeza feminina. Montas em meu olhar, cavalgada de Walkirias.

No recital de poemas, a Terra entorna o rosto para abarcar o sopro que lhe traz o verso. Não quer chorar, só tremer antes de liberar o dia.

Por aqui, custou a aparecer a Lua. Ela está meio tímida, moeda de luz que se encaixa no cofre de céus cinzas. Como visitante apenas, não rainha. Pelo menos, assim lhe parece quando me engana.

Quando voltas, o que sempre esteve oculto se abre. E de lá sai a luz que me prepara , diamante.


COLARES


Você acenou porque estava ocupada. Fazes questão de me dizer que sou apenas passagem.

Os amores são colares que se rompem. Colho conchas no chão veloz do tempo.

Desisti da tua oferta. Comprei à vista o sentimento que um dia perdi por inadimplência.

Ah, estavas a passeio? Por isso me deixou esperando? Entendo. Me procure quando estiver chorando.

Ela ficou muda. Talvez esteja ruminando meu convite. Ou então deixa o tempo passar para ver se eu esqueço. Mas eu faço plantão porque o amor não permite outra coisa.

Não adianta dizer que está a caminho. Conheço a dúvida quando azeda o vinho.

Não corra o perigo de deixar o coração seco. Abasteça com a ilusão, pelo menos. Não haverá ressaca se houver escuta.

Cada letra preparou o ninho. Mas em vez de livros, teremos gritos.

Tudo já foi dito. Agora vale o escrito.

Fiz uma declaração por escrito. Mas você leu na areia antes da viração.

A felicidade não dura. Essa é a sua sina. Por isso o choro convulso que adivinha o desfecho mal a descobrimos no primeiro momento de cama

O estranho gigante apagou tudo o que estava escrito nas mídias sociais e foi dormir.


PARTITURA


Chove spams sobre apimentar relações ou ponto G. Não se dão conta que as palavras que usam são brochantes, portanto, anti-comerciais, para usar a linguagem deles. Mesmos as mais "ousadas". Palavras são criaturas vivas, caprichosas, incorporam sentimentos, desencadeiam paradoxos. Obedecem à sinceridade, ao amor embutido na letra inventada, que se sintoniza com os mistérios do corpo e da alma. E são uma partitura, se manifestam pela música. Você não fala de prazer sem dominar a linguagem. A não ser que trema no bilhete apressado, jogado na sacada onde a beldade pontifica com sua majestade. É quando a declaração gaga tem chance de derrubar um monumento ou abrir caminho na mata fechada só com um gesto ditado pelo coração.


RETORNO – Imagem desta edição: Marilyn Monroe .

8 de fevereiro de 2012

MALHO


Nei Duclós

Melhor assim, separas a palavra
nicho a qual pertence meu ofício
e mexes na rotina desta mágoa
avesso perfil de solitário artífice

Manobro o verbo de jeito ríspido
aprendido nas dobras do meu vício
os mestres decidiram esse destino
que cumpro no malho em ferro frio

Armas mortais em corações aflitos
são meus instrumentos de suplício
choram por nada na ponta do marfim

Mas enxergaste o homem e não a forja
o joio longe do trigo. Sou o que sobra
resto de palha grudado em tuas costas


RETORNO – Imagem desta edição: Moça de Pé na Janela, obra de Salvador Dali.

ABRIGO


Nei Duclós

Vou moderar na linguagem. Falar só no teu ouvido.

Poesia completa é quando até o mar recita.

Esqueci meu verso mas o recolheste no abrigo. Ele veio no teu colo me olhando meio sentido.

É segredo o que digo. Mas os passarinhos escutam e levam o poema no bico

Ninguém me ensinou, só ela. Quando joguei o barco na corrente da chuva, lá estava a poesia, de vestido curto e pés descalços.

Nunca a procuro, ela me acha. Por mais que eu tente a palavra me segura e joga para o alto.

Não ganhamos prêmios, nós e a poesia. Jamais incentivam vícios. Preferem suas virtudes, cheias de firulas.

Eram tão mesquinhos. Abandonaram o poema ao seu destino. Encontrei-o na calçada, juntando bitucas. Vendia para os mendigos.

JOGO

Rodeiam nosso abraço como moscas. Mas aprendemos alguns truques. Fazemos marola quando é onda, redemoinho quando há vento e escapamos pelos becos como nos filmes de suspense.

Tua liberdade me escolhe. Ninguém tasca.

Queres uma lista do que me interessa. Moito, para te deixar invocada. Gosto que insistas, auto-centrada.

Pior é quando silencias e voltas de surpresa. Somes imediatamente se não estou desperto

Me contrarias, implicante, desconfiando de tudo, querendo explicações que não tenho e não há maior carinho.

Não notei que tinhas ido. Só quando o eco me respondeu vi que o amor estava mudo.

Fico feliz quando me xingas com teu jeito doce, posto que assumes só para me agradar, domadora de urso.

Esse jogo de empurra é puro divertimento. Nosso amor nasceu antes do primeiro encontro. É uma espécie de vocação que deixa as pessoas de cara

Os dias tem sido intermináveis. O verão se demora em torrar calçadas. Derreto na hora da caminhada. Só a noite traz esperança de um milagre.

É abominável que não tenhas respondido. Deixei um recado bomba e duvido que não exista para ti, falsidade.

Chegaste tarde, meio com fome, mas desabaste. De manhã recolhi os cacos. Antes de sair, preparei teu banho e pus uma flor no vaso.

Você quer de derrubar? ela perguntou, surpresa. Não, respondi, e empurrei-a até o veludo da sua beleza.

Ligue quando chegar da praia. Esnobe o poema que deixei na sua cama. Eu nem me importo.

Não implore. Não vale a pena. Mantenha a serenidade que só faltam mil horas para ela voltar das férias.

Meu olho cansado pede um tempo, falei. Deixe sua voz que eu continuo enxergando, disse ela.

Promete que volta? ela perguntou quando fui atender o telefone na sala.

Vou levar minhas palavras embora, eu disse antes de partir. Nem pense nisso! gritou. Suma daqui e me deixe os poemas

LUA

A Lua me viu atrás da neblina, quando olhou para baixo. Tentei me esconder, mas até a sombra ela adivinha.

Pus tudo na mochila. Peguei carona. A Lua aproveitou e deu uma uma canja. Brilhou todas as noites até chegarmos ao miolo do soberbo deserto.

A lua branca transparente praticamente cheia parece jogada para o alto e se confunde com as nuvens na visão súbita do fim do dia.

CENA

Ela está lendo uma peça de teatro americana embaixo de uma castanheira em praia isolada. Foi de moto. Desligou o celular. Espiões elementais leem por cima do seu ombro. Sinto daqui alguns ruídos telegráficos da cena. Eu me vingo: faço download de um filme com Greta Garbo e não mando mensagem nenhuma.


RETORNO – Imagem desta edição: Claudia Cardinale.

7 de fevereiro de 2012

CHORO DE PEDRAS


Nei Duclós

Sigo os russos do século 19, a era do esplendor da literatura e das artes, tão vilipendiada pelo século 20, irmão mais novo e cheio de inveja. Na seleta que tenho comentado aqui, lançado pela Martins Editora em 1964, seleciono mais duas obras primas. Uma delas é de Tchirikov, “Fausto”, sobre o casal pequeno burguês que vive vida vegetativa , ele bancário viciado em jogo de cartas que odeia sua casa, ela a esposa ressentida e frustrada que lamenta a perda da juventude e da beleza. Mas ao quebrarem a rotina e irem ao teatro ver a peça de Charles Gounod sobre o homem que vendeu sua alma, eles recuperam o viço e resgatam a emoção de viver. Descobrem que são invejados pelos amigos e se flagram mais próximos do que nunca.

O teatro que reaproxima o casal por meio do drama e da música é um dos fundamentos da civilização. Não se pode viver sem ele. Há décadas que não vou a um, mas houve uma época em que eu viajava sem dinheiro e de carona só para assistir as grandes peças de São Paulo e Rio. Foi assim que vi Cemitério de Automóveis, Gracias Señor, O casamento do pequeno Burguês, Mockinpott (que deu prêmio de revelação da APCA para nosso Miguel Ramos), entre outras preciosidades. Manter um teatro permanente, como tínhamos no século 19 em Uruguaiana, o Carlos Gomes, que trazia espetáculos de Buenos Aires, Montevidéu e das capitais brasileiras e européias, é um luxo que hoje não dispomos. Por que?

O outro conto também tem a ver com Uruguaiana, pois fala de via férrea. Assistir à derrocada da estrada de ferro no país continental, ao contrário de outros países que transformaram o trem no mais moderno meio de transporte do mundo, é de uma tristeza só. Nossa cidade tinha o perfil definido pelos trilhos. Era nosso contato com o mundo, viajamos para terras importantes vendo pela janela o esplendor do pampa. Foi pela via férrea que conheci Porto Alegre e todas as outras cidades do caminho. Destruíram tudo por burrice e traição à pátria. Mas eu falava do conto O Sinal, de Garshin, autor que morreu cedo demais, com 33 anos.

Ele conta a história de um camponês que foi pra a guerra e lá exercia atividade subalterna de servir samovar para os oficiais. Pegou reumatismo nos rigores da campanha e não podia mais lavrar a terra. Saiu pela estrada de ferro afora atrás de emprego e encontrou um veterano a quem servia no front, que lhe deu o emprego de guarda-trilhos. Uma cabana onde poderia plantar e viver com a mulher e enfrentar o inverno e pronto, lá estava ele feliz e orgulhoso com sua lanterna e suas ferramentas. Quis fazer amizade com vizinho, que era muito revoltado e acabou cometendo um crime: arrancou um trilho na iminência da chegada de um trem cheio de famílias pobres.

Nosso herói foi para o meio da estrada e como não tinha jeito de avisar a tempo, cortou profundamente o braço e embebeu um pano de seu sangue e o colocou na ponta de um mastro como bandeira. O maquinista viu e freou. Como saiu muito sangue, ele desmaiou no meio da sua ação, mas a bandeira foi assumida pelo próprio criminoso. “Amarrem-me. Eu arranquei um trilho”, disse o culpado.

Grande literatura. Faz chorar as pedras.


RETORNO - 1. Crônica publicada no jornal Momento de Uruguaiana. 2. Imagem desta edição: Garshin, morreu cedo, escreveu para ficar.

ESPARRAMO


Nei Duclós

Tudo é mistério e delicia, doçura,
tudo é prazer na diferença.
Barba antiga no batom vermelho,
rouquidão na seda. Beijo traiçoeiro.

Garra que afunda até ficares trêmula.
Colar de desejos. Posta sem sossego
cheiro de pêssego. Ombro no cabelo
umbigo de extrema consistência

Agora sem complexo. Ardor que configura
o gesto esparramado pelo ermo. Lá onde
morava a desventura de estar preso

Rompemos o relento com a mão no meio
penugem em curva, floresta de espelhos
sonhas concêntrica, pétala de joelhos

6 de fevereiro de 2012

AMOR É O QUE VOCÊ SENTE, NÃO O QUE VOCÊ AMA


Nei Duclós

Amor é o que você sente, não o que você ama.
Muda o alvo da fogueira, a essência mantém a chama
Quem te adora vai embora, o coração não reclama
porque a seta de Cupido já faz parte da tua trama

O amor não abandona, ao contrário do poema
prometido em noite alta, ilusão que se esparrama
só tua pulsão fica firme como saiote em arame
da equilibrista imodesta em seu abismo de manhas

No lugar de quem querias virá o encanto de novo
importa é que tenhas vivo o sopro do teu espanto
aprendeste com as brasas o que aquece sem feridas

A solidão não te pesa pois tens a força por perto
abres caminho onde passas com o dom da tua alegria
que o sentimento cultiva onde um dia foi deserto

BANHO


Nei Duclós

Lavou-te o mar, beldade urbana
cultivada no ácido do trânsito
o banho moldou-te o mármore
gotas na taça do champagne

Umbigo que prova o sal, vândala
vinda de fomes e jogo de ânsias
teu gesto endurecido cede à onda
e o corpo ganha ritmo no balanço

Estás pronta, como noiva do Oriente
que busca no olhar a face lânguida
e ondula os braços como serpentes

Desça da carruagem e descalça alcance
o que te dou de graça, neste recanto
de pedra e fendas que sem dó afundo


RETORNO - Imagem desta edição: Deborah Kerr.

5 de fevereiro de 2012

THE IRON LADY: A DAMA DE LATA


Nei Duclós

Algumas conclusões podem ser tiradas do filme de Phyllida Lloyd , A Dama de Ferro (2011), escrito por ela e a premiada dramaturga Abi Morgan, com a Monstra, Meryl Streep, no papel de Margaret Thatcher, coadjuvada pelo excelente veterano Jim Broadbent no papel do marido bobão . Primeira conclusão é que os homens são fracos e deixam para as mulheres tomar as decisões mais difíceis. Segundo, que mais vale o gênero do que a ideologia. Terceiro, que a Primeira Ministra britânica por 11 anos tinha uma vida amorosa e sexual. Quarto, que o conservadorismo é a ausência da dúvida. E quinto que privatizar tudo, sucatear os empregos e destruir os sindicatos fez bem para o mundo. À parte esses desacertos, é um bom filme, competente nos cruzamentos entre o resgate via ficção e as cenas de documentário.

É sobre a mulher famosa por ser como o Homem de Lata do Mágico de Oz, que não tinha um coração. Considerada de ferro pelos soviéticos, o metal que o identifica na política sugere sacanamente uma virgindade de nascença e eterna. É contra essa idéia que o filme se insurge. Por incrível que pareça, Tatcher era mulher ! Isso a Monstra deixa bem claro com seus vestidos vermelhos,seus sapatinhos mimosos, seus trejeitos soberanos com os seios diante dos ministros apalermados, sua vida conjugal na viuvez e na Terceira idade, quando enfim encontrou o marido, já morto, em espírito, no dia a dia, coisa que jamais fez quando estava na política.

Tatcher decretou o fim da Guerra Fria assim como os ditadores aqui no Brasil decretaram o fim da ditadura. Ela simplesmente lutou para manter a hegemonia dos países ricos. Para isso sucateou a economia desregulamento-a, abrindo portanto a guarda para a crise interminável em que se encontra hoje o mundo. Desnacionalização da moeda e da indústria, enfraquecimento da representação operária, política externa imperialista e agressiva, indiferença social são apresentados no filme como obra de uma mulher de coragem que mudou o mundo. Trata-se de uma hagiografia, mas muito bem feita. Somos tentados a concordar com o filme até que ele, de repente, termina.

Voltamos então à luz. Tatcher encarnou uma necessidade britânica de manter-se à tona num mundo em transformação. O Império britânico é um sobrevivente e age como tal. Não mudou de rumo para beneficiar a mudança, antes radicalizou os processos em favor de uma hegemonia perdida, mantendo o topete do leão que pode ser comparado aos penteados da sua Primeira Ministra. A Dama de Lata encontra seu coração no fim da vida, segundo o filme, ao repartir seus momentos com um fantasma, mas é desmascarada por ele na hora da despedida. Ela implora para que fique, depois de jogar todos os seus pertences fora. Você sempre esteve por sua conta, diz ele, e desaparece.

Tatcher não precisava da família (escorraça a filha que está perto, apesar de lamentar a ausência do filho distante) , mas de si mesma. Está só, como na cena em que fica isolada na sala vazia depois de humilhar seus ministros. Meryl treme, em favor da biografada. Mas sabemos que por trás de uma grande mulher está a mesma mulher. A que vimos em ação, defendendo o império, matando argentinos e tirando do estado inúmeras responsabilidades sociais. Foi imitada por países trouxas como o nosso, porque privatizar virou um grande negócio. Pior para nós, pior para o mundo.

O que sobra do filme é a Meryl Streep, sempre perfeita. Ninguém pode com a maior atriz da atualidade. Ela sim, é imortal, não sua homenageada, que vai virar pó na esteira da História.

PANO


Nei Duclós

Manobramos por baixo do pano. Ninguém nos vê como somos. Mas as bibliotecas do subúrbio, os cafés antigos sobreviventes e os cinemas prestes a serem demolidos são testemunhas.

O amor foi proibido há tempos. Por isso nos damos as mãos só quando nos misturamos às multidões sem rosto. Somos os únicos sorridentes.

Prometi esquecer tudo. O tempo impõe os seus venenos. Mas esse perfume, esse doce gesto no abandono joga um balde de água morna sobre nossos ombros.

Viajaste de uma hora para outra. Fiquei perambulando pelos lugares ermos. Tudo inútil. Joguei nossos passeios no desemprego.

Estava passando e resolvi dar um alô. Já fiz isso ontem? O mês inteiro? O ano? Puxa, nem tinha me dado conta.

Gastei de tanto amar. Agora resolvi recarregar com um reforço. Para durar mais de uma vida.

Chega doçura, não há mais tempo. Querem o nosso couro. Vá para a reunião enquanto embarco neste navio em direção ao caos.

Tua cintura é intermediária entre os andares de curvas. Subo e desço por ela, musa.

Fiquei firme te aguardando. Virei figura carimbada em anúncios de voo. Sou o cara que te ama: assim me identifico.

Todos acham exagero. Por isso secaram o sonho, única porta para o dilúvio do corpo

Meu olho tentou te adivinhar em cada janela de avião, trem ou ônibus. Não estavas em nenhum. Sou teu coração na estação ou aeroporto.

Cansei de cultivar o amor com minha espera. Vou chutar o balde, beldade.

Abriste o relógio para entender o tempo. Não viste nada a não ser um coração disparado diante de ti.

Cabelo de fogo, estás aonde? Brilhas no horizonte, não brinque de esconde esconde.

São coisas simples, não sustenta uma conta. Mas sim isso morreremos, tesão sem conserto.

Não me dizes tua cidade. Deve ser em Marte. Já providenciei o oxigênio.

Atingiste aqui, no alvo. Agora aguente.

Devíamos ser mais corajosos. Ponha seu vestido vermelho que eu vou te ver montado num corcel branco.

Não vou te dar o comando. Não preciso abrir mão do que acredito só para ficar contigo. Acostume-se a isso. E me passe a ordem, agora!


RETORNO - Imagem: My Wife, Emeline, in a Garden (1890), obra de Edmund Charles Tarbell (1862 – 1938).

4 de fevereiro de 2012

TRAÇO


Nei Duclós

Uma floresta se insurge e estende as ramas por toda a cama no momento em que existe o esplendor da trama por muito tempo tecida.

Sou traço quando somes da minha tela.

Leia-me. Não me refiro às palavras.

Queria achar o ponto onde o choque prazeroso assina o toque. Mas estavas ocupada. Eu também só estou de passagem.

Me chama para um canto e depois desconversa. Até quando? pergunta o eterno aspirante.

Fala comigo em segredo na pré-estréia do beijo.

Pensei em ti, mas é segredo. Não conte para ninguém. Faz de conta que não imaginei umas coisas.

Disse para ti, não reages. Assim vou fugir.

Crescente é como adolescente que fez o corte errado do cabelo. Se esconde para não verem o estrago do brilho pela metade. Mas em dois toques, está a pleno.

O céu limpou e a Lua deu as caras. Apareceste? perguntei, meio de lado. Ela me mandou uns meteoros, só pelo desaforo.

Tudo passou. Mas ainda temos a Lua.

Quem te beija entrou na minha lista. Melhor providenciar o exílio

Não vou fazer silêncio. Vou bater o bumbo

Perdi a vontade de tudo. Me recolhi ao poema e palmilhei cada letra como num passeio. No fim, era apenas um solfejo de pássaros ariscos

Boa noite, Lua, que está atrás da nuvem. Lembra de nós?

Já soei a trombeta. Nada de Apocalipse? perguntou o anjo. A lista de patrocinadores é gigantesca, disse o Senhor.

Olho grande deveria ser punido com solitária.

Não interessa tua rotina, planos, vitórias, vida. Só a palavra que usas interessa


RETORNO – Imagem desta edição: The Blue Veil, obra de Edmund Charles Tarbell.

CULTURA


Nei Duclós

Calo quando te abraço
fecho a boca da palavra
falo se o descompasso
me joga além do teu colo

Meu calo é o teu pedaço
de coração sem consolo
mexendo mel confiscado
falso álibi do rolo

Não morro se não permites
não vivo sem teu convite
sou teu só se corro o risco

Nasci bruto e te mastigo
tens curvas, não civilizam
Há uma cultura, a delícia


RETORNO - Imagem desta edição: Marilyn Monroe.

TOCATA


Nei Duclós

Amor é instrumento de sopro
mecanismo no ritmo dos pratos
pipocar de chuva no plástico
tambor misturando as cordas

Amor está nas mãos do maestro
o sentimento deságua no gozo
correntes de ar batem de frente
botam pavor no solo da virtuose

Primeiro violino impregna o concerto
concentração de fada no rosto de seda
lábios de oculto mel, longas pernas

Todos notam como sacode os ombros
gravetos secos entre oboés e címbalos
Choque na patéia, paixão de morte certa



RETORNO - Imagem desta edição: Giuletta Masima em La Strada, de Fellini.

3 de fevereiro de 2012

IMPROVISO


Nei Duclós

De repente, ficamos sem assunto. Foi uma espécie de tontura do amor.

Ela voltou, mas com reservas. Estou em observação. Preciso evitar o improviso.

Fui-me embora da conversa. Não tinha mais o que dizer. Passou da hora de agarrá-la.

Delícia, que palavra bonita. Assim como doçura. Um abuso.

Bem no ponto, onde há o toque. Mesmo que não toque de fato, apenas chegue.

Uma floresta se insurge e estende as ramas por toda a cama no momento em que existe o esplendor da trama por muito tempo tecida.

Só em dizer já fico sereno. Tua respiração me aguarda, suspensa. Tenho um som grave de trilhos ainda mudos. Preciso do teu vento no sino.

Foi me aproximar para ela fugir. Tem medo que eu fale o que não devo. Mas amor é segredo que nenhuma voz atende.

Dê um tempo. Meu sonho cabe nele inteiro.

Não te entendo. Teu palavrão não cabe em tuas virtudes. Talvez sejam meus ouvidos, treinados em confessionários. Ou então és pagã e só comigo és santa.

Não me fale em Deus se tens curvas, disse o ermitão em seu atraso.

Ela faz o contrário, para te manter no azeite quente. Te frita e depois te põe a secar.

Voltei no tempo. Vinhas avançando, mas não me viste. Foi rápido demais, não deu tempo.


CARÊNCIA

A carência faz faltar algo básico na hora decisiva. Assim mantém o jugo da demanda crônica.

Tudo o que você fez para atender a demanda será diagnosticado como errado ou inútil pela carência, que assim renova o jugo.

Sempre que você consegue o que a carência pede insistentemente já não serve mais.

Não ofereça opções para a carência que ela vai querer todas, o que é impossível atender e isso a levará para a recusa do pacote inteiro.

A carência precisa de ti em off e te esnoba on line.


RETORNO - Imagem desta edição: Kim Novak.

IDOS DE MARÇO, DE CLOONEY: DISCURSO É PODER, NÃO BASTIDOR


Nei Duclós

“Invada o Oriente Médio, mas não coma a estagiária” é a lei eleitoral americana imposta por quem manda, o marketing político. Não se trata de bastidores, é o próprio poder, se entendermos o poder como linguagem. O discurso que manobra a nação é formatado pelos idealizadores da campanha. Esta, é a origem, a fonte e a fórmula do texto que manipula o voto, que é o que menos conta. Esses princípios estão em “Idos de Março” (no Brasil, Tudo pelo poder) , do diretor George Clooney, também co-roteirista junto com o autor da peça em que se baseia o filme, Beau Willimon, além de um dos principais intérpretes.

O assassinato de Julio Cesar em 44 a.C por um grupo de conspiradores, em que a surpresa foi a participação do filho Brutus, é o mote da trama, que inclui uma traição pesada numa campanha que se quer moralista e renovadora. A surpresa do poderoso diante do crime que envolveu seu protegido tem a ver com o impacto do pragmatismo escroto da política americana no coração dos ideais da nação. Clooney não brinca em serviço,coloca a mão na ferida democrata, humilhando o próprio partido que nada aprende com os republicanos, estes sim exímios artistas do jogo bruto pelo poder. O que importa é chegar no cargo, e não o que é dito e feito para isso.

O filme mostra a corrupção súbita de pessoa chave da campanha, o jovem bem sucedido interpretado pelo canadense Ryan Gosling, que se envolve com a belíssima Evan Rachel Wood, a estagiária, filha de político influente, grávida do governador. A gravidez fora do casamento é a vilania do discurso político. O aborto é a ruptura, que causa estrago se deixar pistas. Como deixa, abre a guarda para a chantagem, que é no fundo a grande vitoriosa da campanha. Por meio da chantagem, é demitido o chefe do marketing, interpretado magistralmente, como sempre, por Philip Seymour Hoffman.

Aliás, o elenco sobra. Há ainda Marisa Tomei como a repórter que tudo pergunta e portanto acaba descobrindo, e o assessor do candidato adversário, o excelente Paul Giamatti, que consegue estragar a vida do seu principal concorrente por meio do convencimento, da sedução e da fraude. Tudo passa pelo discurso. O marketing treina as palavras em cenários previamente acertados e as coloca na boca do candidato. Este, tenta manter a coerência do discurso, que acaba se deslocando da ética. Os aliados intensificam a corrupção. Não é que o sonho de uma política ética tenha acabado, ele nunca existiu.

Estaria Clooney dando um recado ao seu partido, tradicional perdedor de eleição presidencial por falta da necessária crueldade e isenção ética? Seria uma denúncia ou uma celebração? Clooney lava as mãos, com seu cinismo exuberante de grande ator, que abraça papéis formatados para mostrar sua maestria minimalista e contundente. Trata-se também de um grande diretor, como nos provou em filmes como Boa Noite e Boa Sorte, que é também sobre linguagem, a mídia.

O cinema é o texto escrito pelos roteiristas, cineastas e atores. É uma arte totalmente voltada para si mesma. Todo filme mostra o que o cinema é ou faz. Neste, exibe as vísceras de sua mais radical performance, que é o de escrever a História por meio da mentira bem posta e objetiva.


RETORNO - Imagem desta edição: Ryan Gosling dizendo ao candidato como a coisa funciona.

2 de fevereiro de 2012

MARCAS


Nei Duclós

Jurei que estava imune, que não consideraria. Bastou amanhecer para eu dar bom dia.

Decidi esquecer, já que não houve nada. Mas por que estas marcas na carne intocada? De onde este gosto amargo do beijo não dado?

O amor é um contrato não escrito em papéis do nada. Há cobrança, há estrago, mas no fundo é tudo névoa. Ondes estás, criatura alada?

Perdi, reconheço. Deveria ter mentido. Mas o que fazer com a verdade, pit bull no canteiro em obras?

Ela foi pondo em dia a poesia. Seguiu meus passos como a nuvem segue o dia. Depois se recolheu, serena,enquanto eu explodia num mergulho.

Nossa música acabou, entrou no vão estreito formado pelo mar e o horizonte. Vibra no subsolo da nossa desavença. Quero de novo arrancar tuas escamas.

Venha, quem se arrepende é o tempo de ter passado. Nós, não. Somos adoráveis para além da conta.

Falei a verdade. Perdi a parada. Agora aguardo um milagre.

Estavam ocupados. Por isso parti cedo, quando o sol ainda estava de conversa com a Lua. Apontei o navio para as estrelas. Hoje contorno Saturno.

Por que divides nosso sonho? perguntou. Porque ele não tem forma, respondi. E se espalha como cardume em época de piracema.

Chegaste ao limite, disse o anjo. Agora volte. Não posso, respondi. Ela se esconde onde jamais alcanço.

Passe o batom nos lábios finos. Tua boca é minha usina.

Leia o que está dito. Depois me sopre ao ouvido outra coisa, bandida.

Foi tão homenageado que sentiu vontade de morrer para merecer

Visitei minha cidade em sonho. Vi alguns espíritos, que me olhavam sérios. Guri! diziam.

Fechei a janela e tocou toda a escala musical. Está faltando óleo na dobradiça! alguém gritou. Incrível a surdez coletiva.

Tudo passa tão rápido que eu nem me importo mais com isso. As coisas voltarão a nós, âncoras do infinito

Mulher bonita precisa do séquito, dos exércitos fiéis, da corte dos cavaleiros que se curvam diante da realeza. Porque a beleza feminina é a única majestade legítima


RETORNO - Imagem: Elizabeth Taylor. Sempre.

DESFECHO


Nei Duclós

Acabou. Não ficou nem a sujeira.
O último gari limpou o suspiro
que insistia em se juntar ao resto.
Não me acorde amanhã, realejo.

São jóias que te dei, esses versos.
Por que devolves? O que fazer com eles?
Não cabem em mim, não me pertencem.
Guarde no quarto de despejo

Vou visitar os lugares onde fomos felizes.
O lago com barco de um só remo
que ficava meio troncho na hora do beijo
O banco molhado de sereno

Sei que não virás mais, mas estou a passeio
Recolho o coração aos pedaços
são folhas de um sentimento partido ao meio
que até os pássaros recusam quando brincam

Nada mais recordo, só o momento extremo
em que o adeus aconteceu por um acaso
Nós dois em frente ao mar, imensa lágrima
e nossas mãos afastadas pelo pânico


RETORNO – Imagem desta edição: obra de Frederik Leighton.

1 de fevereiro de 2012

OUTRO MUNDO


Nei Duclós

Tenho visões de um outro mundo. Sonho
que estou perto de ti, nada mais louco
Não faz sentido, estás aos gritos em roda
e brigas por nada num retoço feminino

Não me parece ser nada conhecido
uma praça, gente feliz e pipoca na esquina
um alto falante com as mais lindas melodias
deve ser um planeta distante em outro espaço

É a saudade, me dizem, mas eu nunca vivi
o que enxergo: tua pele macia tocando em mim
enquanto ris florindo, jardim em pleno viço

Deve ser o resultado dos remédios que tomei
receitados por médicos feitos de metal e lixa
neste ambulatório terminal, onde agonizo


RETORNO – Imagem desta edição: Dita Von Teese.

CORPO


Nei Duclós

Teu patrimônio é o limite do teu corpo. E até isso devolverás.

Lua nova, botão branco de flor pregado no desmaiado firmamento da despedida de janeiro. Diga que estou perto do fim da solidão e do seu corpo.

Vou ficar uma semana longe de ti. Vou medir a saudade para ver se eu agüento.

Deito, esfolo, viro do avesso. Se quiser mais detalhes, peça.

Acabou janeiro. Agora só o ano que vem para ficar a pelo embaixo do sol a pleno. A não ser que outros meses sigam o exemplo e tirem tua roupa, modelo

Acordei um problema. Tens a solução ou ligo para a emergência?

Acho que ela não volta mais. Nem com poesia. Sua última mensagem virou estátua de sal

Sem um coração pipocando na tua frente, adeus poema. Volte para suas anotações, guarda-livros.

Finjo que não importo e me concentro no trabalho. Quem dá importância para o ruído dessa flor que desabrocha no outro lado da montanha?

Preferes que eu faça conferências em vez de ficar tecendo sonetos na tarde morna. Assim me ocupo sem perder teu tempo, atenta.

Espalho versos na planície dos teus olhos. Catas alguns para me dar um recado. Tento decifrar a charada, mas só tu tens a chave

Nada vai trazê-la de volta. Nem unicórnios selados, carruagens de pássaros, redes de seda, sonetos. Ela se esconde na gruta avessa ao meu verso.

Tua beleza escandaliza. Não é possível ver normalidade numa manifestação divina. O pior é ter que admitir tua humanidade, sob pena de ser por ti excluído.

Me arrependi do que não foi dito. Quando calei travei o tempo em meus pruridos. Por isso agora me escancaro, asas assombrosas a fazer ruído.

Coloquei a porção de amor em cada porta. À noite, fui recolhendo os guizos. As estrelas torciam, rindo para a última nuvem do crepúsculo.

Ela foi sumindo, devagarinho, como nuvem azul desmaiada no fim do dia. Depois se dissipou quando me distraí. Varri o céu e nada encontrei. Foi um sonho, andorinha.


RETORNO – Imagem desta edição: Patricia Arquete.