24 de março de 2010

ATUALIDADE DE GUY DEBORD: REVOLUÇÃO CONTRA IDEOLOGIA



Nei Duclós

O livro A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord, lançado em 1967, foi a base para as ações da ala mais radical do Maio de 1968 na França. Trata-se um milagre teórico, pela sua extrema atualidade e clareza na abordagem de um tema complicado que costuma enredar os scholars. Escrito numa sucessão de aforismas precisos e geniais, Debord decifra o mundo contemporâneo gerado pela abundância e as contradições do capitalismo na era da mass media. Vi o filme de 1973 que ele produziu com o mesmo título, que é o seu livro ilustrado por imagens, filmes, publicidade, acrescido da experiência vivida na revolução operário-estudantil francesa de maio de 1968.

Nesse filme fica claro que aquela foi uma revolta não apenas contra o capitalismo, mas contra seus novos aliados: a ideologia de esquerda engessada em sindicatos e partidos comunistas ou socialistas (soa familiar?). Debord explica que a abundância da sociedade do espetáculo – que é uma relação social entre pessoas numa sociedade de classes e não um acúmulo de imagens - anexou a indignação como mercadoria. As instituições representativas do operariado também entraram nesse círculo, participando do sufoco de um sistema que provoca a divisão e o vazio. Os gestos dos concertos musicais para multidões, que representariam a revolta contra ao sistema, também fazem parte dessa impostura da indignação.

Debord acerta sempre pois usa (sem se deixar cegar pela burrice da leitura datada), de maneira lúcida, radical e criativa, as principais lições extraídas das obras de Karl Marx, uma fonte magistral do pensamento que hoje, por ignorância, é atacada como se tivesse a culpa da existência dos imbecis que a invocam. Reproduzo aqui alguns aforismas que tirei do filme e escrevi de memória: "A mercadoria fetichizada da sociedade do espetáculo perde seu valor quando entra na casa dos consumidores". Quantas vezes não nos encantamos com uma roupa na vitrine e quando chegamos em casa vemos que tudo não passava de ilusão? Também some a idéia de originalidade ao notarmos o uso massivo do que nos seduziu.

"Stalin foi descartado como mercadoria obsoleta da sociedade do espetáculo concentrado, o capitalismo burocrático". Entendemos assim como o stalinismo foi jogado fora para a Rússia continuar tendo o direito de invadir a Chechênia. Confirmamos também que os militares no Brasil foram colocados à margem do poder pelo mesmo motivo, já que a presença da farda não atendia mais aos propósitos do capitalismo da sociedade do espetáculo difuso, o do Ocidente. A nova situação se pautava pelo Consenso de Washington, o que inventou as falsas democracias atuais, totalmente dependentes da pirataria internacional e focado na derrubada das fronteiras nacionais.

"O capitalismo se apropriou de todo espaço urbano, que ficou tão sujo, feio e barulhento quanto uma fábrica". Sabemos agora porque não dá para passear nas cidades brasileiras, elas se transformaram num enorme esgoto industrial, principalmente da indústria imobiliária, que ocupou todo o território ou desvirtuou o urbanismo clássico para que coubesse o automóvel, a mercadoria fetichizada por excelência. Vemos também que foi exatamente esse nicho do supra-sumo do fetiche da mercadoria automotiva que surgiu o atual presidente do Brasil, que assumiu o papel atribuído a ele pela esquerda engessada nos sindicatos, denunciada por Debord. Claro como água.

Na França, o Maio de 1968 foi uma composição de forças entre os estudantes que se rebelaram contra o engessamento da cátedra e de um sistema educacional obsoleto, e os operários que se insurgiram contra a falsidade de suas representações. É esclarecedor o fato de os sindicatos dos trabalhadores serem a favor da polícia e da repressão às manifestações, que tomaram conta da França e incendiaram o imaginário do mundo, tornando-se referência de uma revolução legítima, que atacasse a totalidade do problema e não se deixasse enredar pela armadilha proporcionada pelo capitalismo mutante.

O tempo como mercadoria é uma das maiores sacadas de Debord. O eterno presente, que falamos sempre aqui, nada mais é do que a padronização do tempo da mercadoria e da produção, imposto para o mundo inteiro, à revelia dos tempos pessoais e comunitários ou nacionais. O tempo pseudociclico, ou seja, o turismo e as férias e as festas durante o ano apenas mascaram esse tempo único e hegemônico, pois funcionam como um carrossel do Mesmo que gera a insatisfação permanente e a revolta surda, que acaba um dia explodindo.

Aqui no Brasil,1968 foi essencialmente estudantil e como revolta estudantil se esvaziou. A insurgência operária foi falsa, pois manipulada pelos sindicatos. Gerou um líder falso, que acabou assumindo a presidência. Não há limites para a tragédia brasileira.

RETORNO - É possível ler o livro de Debord neste link, em português de Portugal.

PERSONA



Nei Duclós (*)

Somos personagens no teatro das percepções mutantes e, muitas vezes, inconciliáveis com nossa própria essência. Precisamos da aparência e seus sinais e, principalmente, de script. Ser autor do próprio roteiro requer fôlego e ajustes ao longo do tempo. Temos a ilusão de que publicamos nossas inúmeras versões nos eventos principais, mas elas se definem nos detalhes. Se você é visto num mau dia por alguém influente, assim será difundido para determinadas platéias. Por isso, dizem ser necessário nos preparar cada instante do dia, pois a Fortuna não avisa quando vai passar.

A forte intensidade das expectativas convive hoje com possibilidades reais proporcionadas pela tecnologia disseminada na sociedade do espetáculo (que inclui bem mais do que apenas a indústria cultural ou a do chamado entretenimento). Tudo parece estar à mão e nos vemos impulsionados para várias direções, certos de que seremos vistos conforme as máscaras que formatamos para cada ocasião, todas elas, acreditamos, girando em torno de um eixo imutável, a personalidade que adquirimos pelo hábito e com a idade.

O jogo é pesado e nos perguntamos então qual é nossa essência. Acredito que ela também dança conforme a música da época. Mudar de rosto nos anos 1960 significava sofrer o impacto de estímulos exógenos num ambiente coletivo formatado por uma herança educacional conservadora. Isso aconteceu de maneira mais ou menos igual para inúmeras pessoas. Quando lemos os depoimentos de quem começou a sentir e a pensar diferente de uma hora para outra, depois de ter acesso a portas até então desconhecidas do conhecimento, vemos as mesmas situações replicadas constantemente. Todos, no mínimo, acreditam ter apertado a mão de Deus.

Hoje, quando a proliferação de estímulos sobra, não existe mais aquela base que recebia e elaborava o choque. Há uma banalização geral, com resultados perigosos. O aceno de uma “cura” piora a situação. Isso nem é visto com nitidez e uma tragédia familiar pode destampar o caos obscurantista que permeia a vida nacional.

Para neutralizá-lo, nada como o bom e velho racionalismo. Temos a eternidade para sermos espíritos. Vamos aproveitar essa vida para formar uma concretude que nos falta. Precisamos ser reais, como um grande e portentoso jequitibá, e não enredados, como um cipó.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: obra de Ricky Bols da série "Some Girls na linha" 2. (*) Crônica publicada no dia 23 de março de 2010 no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

23 de março de 2010

ALICE ADULTA TROCA WONDERLAND PELO IMPÉRIO



Tim Burton projetou Alice in wonderland, seu mega sucesso deste início de ano, para a solução de um impasse: a menina que cresceu precisa revisitar suas fantasias para se jogar numa aventura maior, real e que esteja acima das representações da infância. É assim que ele mergulha no buraco de seu inconsciente para lembrar (fazer o balanço) do seu imaginário gerado pela orfandade, quando, ao perder o pai, o mundo virou pelo avesso e o absurdo tomou conta das cenas cotidianas.


Essa sessão psicanalítica nasce de uma fuga da mulher adulta que é pedida em casamento por alguém que ela detesta, um noivo que é a promessa de uma vida tranqüila e rica. Ela prefere navegar na lama do jardim atrás de um personagem animado, um coelho que fala e que a atrai novamente para o núcleo do conflito deixado para trás, sem resolução.

Esse conflito é uma luta do Bem, a rainha Branca, exilada pelo Mal, a rainha vermelha, a famosa que manda cortar cabeças. Trata-se de uma divisão entre a virtude e o pecado e a necessidade de reentronizar a virtude, derrubada por esse universo partido, inaugurado pela morte do pai. Sua participação no conflito é a mistura de História Sem Fim (1984), o clássico infantil alemão de Wolfgang Peterson (as viagens em cachorros gigantes voadores são idênticas) e filmes antigos de capa e espada, onde Alice vira um Errol Flyn misturado com Rainha Cristina, a Greta Garbo de vestes masculinas e de rosto impassível.

Ela conta com a ajuda de um pretendente, o Chapeleiro Louco, que á a transgressão usada para derrubar a rainha má, o mágico que a carrega para centro da arena. Feito o serviço, ela se livra desse outro noivo imaginário para colocar ordem no mundo real. Habitada por sua experiência, em que erradicou o pecado e o caos (não por acaso vermelho), colocando no seu lugar um reino harmônico e belo (não por acaso branco), ela parte para a definição dos papéis, dela mesma e de quem a rodeia.

É assim que se livra do pretendente rico e propõe uma investida colonial em terras distantes, assumindo a função abortada pela morte do pai, o da expansão do império colonial. Mas Alice vai extrapolar os planos antigos do pai morto, já que faz parte de uma novas geração, espichando as fronteiras da dominação britânica para os confins da China. Ela é o elemento que irá realizar essa ação pioneira, já que está livre das cartas marcadas do relacionamento previsível, o que seria um perigo para o Império, pois estagnaria. Ela parte para uma aventura de verdade, encarnando os princípios da dominação de sua civilização sobre o resto do mundo, por meio da navegação, do comércio e eventualmente da guerra.

Alice Kingsley já teve seu batismo de sangue ao derrotar o monstro em Wonderland. Foi ela quem cortou a cabeça do grande pesadelo que tinha se formado em sua vida. E se alimentou do seu sangue para voltar a si, ao buraco do jardim de onde tinha se enfiado. Tim Burton compõe essa metáfora da dominação, solucionando o pesadelo de Wonderland pela perspectiva da conquista de um mundo exótico, distante e lucrativo. Trata-se de uma artista a serviço da civilização que o gerou. Faz isso de forma consciente, usando um clássico da literatura, criado pela pedofilia platônica de um gênio da linguagem, Lewis Carrol, que inventou a história para as garotas que estavam aos seus cuidados.

Johnny Deep faz um Chapeleiro circense pós-moderno, que dança funk e tem um humor minimalista e cerebral. Mia Wasikowska faz uma Alice angelical, que fica nua ao crescer ou diminuir demais, colocando assim em risco suas virtudes ao experimentar drogas que a espicham ou a encolhem. Helena Bonham Carter, mulher de Tim Burton, onipresente em seus filmes, faz uma rainha má impressionável e, portanto, vulnerável. Sua queda do trono fica previsível, pois o espetáculo arma tudo para que o Mal perca a batalha.

Todos ficam felizes e vão para casa com os olhos cheios de efeitos visuais. Mas na essência, no núcleo vazio do espetáculo, que é a especialidade de Tim Burton, fica essa fidelidade ao poder dominador do império que é o seu berço. Ali, os estilhaços da linguagem são as ruínas da fantasia infantil que virou pesadelo e as frases contundentes no final são a nova cartilha que vai orientar as pessoas em suas novas responsabilidades.

RETORNO - Imagem desta edição: Alice (Mia Wasikowska), antes de mergulhar na viagem do seu inconsciente, a memória de um pesadelo infantil, provocado pela orfandade do pai.

21 de março de 2010

LOKI: UMA HISTÓRIA DE AMOR



As palavras rodeiam Arnaldo Batista, o gênio musical de Os Mutantes reconhecido tardiamente pelos ingleses e, de tabela, pelo Brasil (que o havia esquecido), mas jamais conseguem alcançá-lo: rock, psicodelia, pop, música brasileira. No documentário Loki, de Paulo Henrique Fontenelli para o Canal Brasil, até bossa nova girou ao redor da luz que emana de sua personalidade. Mas a palavra mais apropriada, e que cabe nele em todas as fases de uma vida criativa, explosiva, exilada, complicada e que encontrou a ressurreição e a glória, é amor.

O amor de Arnaldo por sua primeira namorada e esposa, Rita Lee, toma conta de uma bom trecho do filme e quase o confina num rodopio autista (tanta gente sem importância falando sobre o que se passou entre eles...). Mas o que se sobressai, se sobrepõe, se impõe, se destaca é o amor de sua atual mulher, Lucinha Barbosa, que o pegou no chão, na pós-tentativa de suicídio e o retirou da roda vida paulistana para fazê-lo reintegrar-se consigo mesmo num lugar isolado. Essa relação sustenta e costura o filme, provando que a mulher escolhe o homem e este, quando é escolhido, pouco ou nada lhe resta a fazer, enquanto ao tentar escolher, descobre quem dá realmente as cartas.

Mas a palavra amor tem uma amplitude maior, já que Arnaldo Batista colocou a busca da espiritualidade em primeiro plano, deixando de lado a carreira e nem querendo viver do que tinha feito na juventude. Só o que ele produziu junto com o irmão Sérgio, a mulher Rita, e os músicos que os acompanhavam, o colocaram no mais alto pódio da música internacional. “Melhor do que os Beatles”, disseram nos depoimentos dois músicos. “Querem escutar algo que os deixará abismados?” pergunta outro. “Os Mutantes sintetizavam todos os gêneros numa só frase musical, diferente dos Beatles, que faziam uma colagem de gêneros”, diz mais um.

Foi sorte nossa a existência desse amor tardio, mas providencial, da atual esposa, e desse amor eterno, do som que sai dele para o deslumbre geral. Fez com que voltasse à tona, depois que o Brasil tinha resolvido enterrar mais um dos seus grandes talentos, a sina do país que se auto-devora, como se a grandeza fosse nossa principal culpa. Dá dó ver figuras vazias fazendo caras e bocas para falar de Arnaldo, umas estrela que brilha além das arqueadas de sobrancelhas e o fechar de olhos para reforçar abobrinhas. Dá dó ver um dos músicos dos Mutantes achar graça do fim do casamento e da banda.

Ao mesmo tempo, é um alívio ver Kurt Cobain ou Sean Lennon falarem um tempão sobre a importância e a qualidade de um brasileiro que fez História. É uma vocação que não temos, o de admirar os outros, de reconhecer, de lutar para que sejam vistos e ouvidos pelo público. A tendência no Brasil é eleger meia dúzia de imbecis para gritarem décadas nos palcos como se fossem grandes artistas, quando não passam de contrafações. Enquanto isso, nossos criadores amargam o exílio interno, como aconteceu com Tom Zé (que trocou várias vezes de roupa nos seus depoimentos para o documentário para representar as muitas fases da vida de Arnaldo), até que de novo os estrangeiros vissem nele todo o valor que aqui tinha sumido pelo ralo.

O amor, em Arnaldo Batista, junto com sua formação (a mãe, concertista de piano, aparece pouco no filme, infelizmente) o leva por todos os gêneros numa só frase musical, e pontua sua obra melodiosa, tocante, profunda. Pessoa querida por todas, cruzou os umbrais dos preconceitos. Quem o chamava de louco, agora tem de enxergar o gênio. O criador sem carreira é o mais bem sucedido, pois é aclamado por onde se apresenta (as novas gerações brasileiras quiseram saber quem era esse músico que tinha feito tanto e estava no limbo). O que parecia psicodélico era apenas liberdade criadora. O que dizem ser rock era uma composição e interpretação sem rótulos. O que tem tudo para ser brasileira, é apenas a recriação do que há de mais forte no mundo todo, inclusive no Brasil. Por isso as pessoas se curvam diante do menino grande, com a cara marcada pela dor. Por isso quem fala sobre ele no filme diz que ama esse artista único.

Um dia fui ver um show dele em São Paulo. Estava a serviço da Ilustrada, da Folha de S. Paulo. Entrevistei-o em 1977 (ou será que foi 1978?), na época em que ele tinha uma banda, o Patrulhas do Espaço, que achei fraca. Elogiei a performance chapliniana no palco, pois ele fazia questão de surpreender todas as expectativas para mostrar algo silenciosamente hilário. Tocou pouco, e também falou pouco na entrevista no seu apartamento de janelas todas fechadas.

Estive frente a frente com essa mansidão reticente, esse invólucro que guarda o melhor de nós e às vezes sai para a rua a brilhar como uma supernova.

20 de março de 2010

A SEDUÇÃO DO OBSCURANTISMO



Pressionado pela censura do judiciário, da publicidade, do patronato, da política, o jornalismo aos poucos viu-se limitado e, junto com o país que degringola, estagnou. Os mestres do ofício foram afastados por motivos variados, mas principalmente porque incomodavam e não permitiam que forças externas fossem hegemônicas o tempo todo sobre a redação, que sob seu comando, ainda respirava. O sufoco gerou o ambiente ideal para medrar o obscurantismo, que aos poucos virou a conceituação oficial do jornalismo.

Vamos pegar algumas frases, confundidas com pensamentos. São flores do obscurantismo, mesmo à revelia de alguns dos seus autores, transformadas em carne de vaca da comunicação.

UMA COISA É UMA COISA, OUTRA COISA É OUTRA COISA – Significa que tudo pode ser cometido que não levantará suspeita, pois as coisas não interagem, não tem nada a ver uma com a outra. Serve perfeitamente para as negaças dos autores do mensalão, por exemplo, que não tinham nada a ver com isso, nada sabiam, apesar da Procuradoria Geral da Justiça apontar as quadrilhas. As coisas existem em si, não podem ser comparadas, não há conseqüências.

O JORNALISMO SEPARA O JOIO DO TRIGO E PUBLICA O JOIO - Atribuída a Adlai Stevenson, político democrata americano e dita, claro, em tom de blague, foi levada a sério por aqui. Justifica a publicação das tralhas e baixarias que vemos nos jornais, sob o álibi que estariam agradando o povo. Duvido que as pessoas hoje comprem jornal para ler baixaria. Tem tudo no you tube, na internet, na televisão. Para que perder tempo? Mas os jornalistas acham o máximo esse tipo de sacada e repetem sem parar, se achando o suprasumo da esperteza lúcida inteligente.

TODA UNANIMIDADE É BURRA - Nelson Rodrigues não tem culpa de sua frase virar instrumento obscurantista. Ele se insurgia contra os politicamente corretos, que impunham percepções, e procura abrir algumas janelas na inteligência coletiva. Mas não deu certo. Os mesmos criticados assumiram a paternidade da frase e repetem sem parar, confirmando assim a burrice da própria unanimidade. A frase serve para decepar a diversidade do livre pensar e tentar colocar todo mundo na canga ideológica. Você não pode contrariar que toda unanimidade é burra. Dizer por exemplo que a unanimidade de julgar assassinato crime hediondo é algo positivo.

É A ECONOMIA, ESTÚPIDO - Frase dita por um assessor de Bill Clinton na briga vitoriosa contra os republicanos, virou bordão do s articulistas, editorialistas, comentaristas de economia etc. É super usada porque assim chama-se o leitor de estúpido impunemente. Originalmente, quer dizer que a economia é decisiva numa campanha, só imbecil não vê. Mas serve para dizer que sem essa porcaria de política econômica da pirataria internacional não há salvação. Nem tente pensar diferente, você será chamado de estúpido.

CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA - O belo título de Garcia Márquez para um dos seus mais famosos romances já tinha overdose de uso há vinte anos, quando reclamei do excesso. Mas continua, porque os jornalistas acham que sua função é sacar tudo antes. A síndrome das Boneca Teresa, Eu Já Sabia atinge em cheio os jornalistas, que tudo preveem com seu tirocínio fantástico e por isso é que sacodem a cabeça afirmativamente depois de fazer a pergunta, pois já sabem a resposta. É a crônica da tua mãe sem calça anunciada. Jamais vão parar com isso, nem no ano cem mil.

RETORNO - Imagem desta edição: Mulher, de Ricky Bols. Nada a ver com o tema. Simplesmente acho o máximo o trabalho do grande Ricky.

19 de março de 2010

INJUSTIÇA E VINGANÇA: SIMONAL, UMA TRAGÉDIA BRASILEIRA


Vi o documentário Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei, de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal. Trata do sentimento de injustiça e sua conseqüência nefasta, a vingança. Sem ser vingativo, o filme tenta reparar a injustiça sofrida por Simonal, acusado de ser informante dos órgãos de repressão na época da ditadura Médici (1970), num episódio que o jogou no exílio interno para o resto da vida. Consegue, em parte, mas o que se destaca é a tragédia brasileira provocada pelos dois lados da injustiça/vingança, o de Simonal e o dos seus adversários políticos.

Simonal, na época no auge da carreira, se sentiu lesado pelo seu contador e resolveu dar uma lição no ex-funcionário, que tinha entrado na justiça por reparos trabalhistas depois da demissão, provocada pela desconfiança do cantor que descobriu-se quebrado. Localizados por detetives, o contador dá seu depoimento ao filme, contando que foi torturado no Dops a mando de Simonal, mais tarde identificado como informante dos órgãos de repressão, acusação que só 20 anos mais tarde foi negada por um processo no governo federal.

Simonal não soube fazer uma gestão competente do seu dinheiro e gastou a rodo. Esnobou o presidente da Shell fazendo-o esperar uma hora e meia num aeroporto, o que lhe valeu a cassação do contrato que segurava seus gastos. Só com o dinheiro dos shows, seu estilo de vida extravagante não agüentou e as finanças exibiram um rombo razoável. Sentindo-se injustiçado, já que teve infância pobre e achava que merecia esbanjar tudo o que recebia, colocou a culpa no responsável pelas contas. Como o acusado não admitiu o desfalque, entrou na roda viva da repressão na época, em que tudo se resolvia no pau-de-arara.

Isso é o que mostra e sugere o filme, ao mesmo tempo que lamenta o ostracismo que o lamentável evento provocou na meteórica carreira de Simonal. Este, pressionado pelas circunstâncias, boicotado pelos colegas de profissão, sem saída, acabou se entregando à mágoa, à raiva, à bebida. Deveria (e isso falamos agora, depois do desenlace, pois sua morte ocorreu em 2000) partir para o Exterior, se concentrar na sua carreira, na sua voz maravilhosa, na penetração que tinha conseguido no mundo todo fazendo seus shows. Mas ficou no Brasil. Deveria ter optado pelo desterro, mas acabou desterrado em sua própria terra, cumprindo assim o diagnóstico preciso de Sergio Buarque de Holanda em "Raízes do Brasil".

Sua reluzente performance junto com Sarah Vaugham apontava para essa saída honrosa, o aeroporto. Quem segura uma interpretação, junto com a diva, do clássico sucesso The Shadow of your smile, teria meio caminho andado num recomeço longe do Brasil. Poderia voltar depois, quando as feridas tivesem cicratizado. Mas a condenação foi perpétua e Simonal entrou numa espiral de perdas.

No outro lado do balcão, vemos o sentimento de injustiça dos que perdiam amigos e parentes na repressão e tortura se manifestar com tudo em cima de Simonal. O ídolo era um prato feito, um alvo fácil. Exposto de maneira escancarada devido ao seu enorme sucesso, negro, debochado, relações públicas de uma multinacional, exibindo riqueza com seus três Mercedes, confessando que não acreditava nas virtudes da pobreza em entrevistas coletivas, não houve perdão para Simonal, que caiu na besteira de dizer que estava sim junto com o governo e seus esquemas policiais. Declaração feita, a mando do seu advogado, segundo a versão não contestado no filme pelo contador.

Vemos então manifestações de racismo e cinismo por parte de quem o ataca e quem o defende. Chico Anísio chega a dizer que Simonal não precisava do paninho na testa, marca registrada surgida, segundo a entrevista de seus filhos no documentário, numa noite que estava com dor de cabeça e teria feito uma simpatia para conseguir alívio; e quando foi chamado ás pressas ao palco, foi com o pano na testa e tudo. Por que não precisava? “Porque seu cabelo jamais cairia em seus olhos”, diz Anísio, de maneira infeliz.

Nelson Motta também debocha ao levantar a falsa hipótese de um Simonal fino e coerente, que deveria ter chamado uma auditoria especializada para verificar suas finanças. “Chamou a Arthur Andersen? Não, pegou três sujeitos e resolveu dar uma surra no suspeito”. Para Motta, alguém inculto como Simonal só podia mesmo partir para a ignorância. Mas o mais chocante são as gargalhadas para dentro, sinistras, de Jaguar, que cinicamente diz que o assunto está encerrado. Puidera, o principal interessado numa solução morreu em função mda perseguição que sofreu!

As feridas continuam abertas. Vemos isso hoje. Basta você emitir uma opinião fora dos padrões do poliiticamente correto para um monte de gente cair em cima. A tragédia profisional e pessoal de Simonal, vista depois da corrupção dos ex-corretíssimos, serviu para desmascarar essa turma. Hoje, nem vem que não tem. Estamos mais soltos, mais livres para dizer o que pensamos. E não foi porque eles "lutaram" não, já que são tão algozes quanto os que combatiam. Ninguém sabe o duro que todos nós demos para falar com liberdade.

18 de março de 2010

UM PAÍS DE ALUCINADOS


Todo mundo sabe o que é a política brasileira hoje. Deveríamos sair às ruas para exigir um novo sistema de representatividade . O voto da capital tem muito menos valor do que o do grotão, é por isso que temos senadores com dois votos aos montes, enquanto candidatos cheio de eleitores são barrados. Deveríamos sair às ruas para impedir que quadros corruptos usassem as artimanhas da lei para se reeleger indefinidamente. Pois como pode o sujeito ser defenestrado por acusações de desvio do dinheiro público e depois ser tratado como grande autoridade nas CPIs da vida? Deveríamos fazer muita coisa, mas, ao contrário, vendemos nossa força de trabalho para segurar bandeiras ou fazer passeatas a favor dos candidatos sinistros impostos goela abaixo.

Estamos um país de alucinados. A ahuasca, droga poderosa retirada de um cipó amazônico, que causa alucinações e gera a certeza de que fantasmagorias são reais, é considerado patrimônio do país, graças à intervenção dos bebedores da gororoba guindados ao poder. Dão o troço até para criancinhas. O presidente sai pelo mundo a dizer sandices, com o apoio e o beneplácito de legiões de admiradores, ministros, empresários, líderes sindicais, militantes. A aprovação do governo chega perto dos 200 por cento nos institutos de pesquisa de opinião (sempre eles, desde sempre), o que permite um contingente de apoio de inhapa, talvez para as próximas encarnações.

As Ongs se dedicam a “proteger” a floresta e armam um poderoso sistema de intervenção em territórios brasileiros potencialmente considerados área de interesse internacional. Japoneses registram o veneno da jararaca enquanto perdemos as batalhas das patentes das plantas da selva. Ongs, religiosidades alucinadas, tráfico de drogas, compra em massa de terras, grilagem de territórios devolutos: tudo cabe na conjunção de ensandecimento, em que se organizam passeatas para garantir royalties do pré-sal, um troço que está a sete mil metros de profundidade e ainda não se dispõe de tecnologia segura para a extração.

Brigamos por ilusões, mas os tiros dados no coração das pessoas envolvidas pela loucura são reais e causam estragos em famílias, comunidades e sociedade em geral. Como não existem políticas públicas de apoio, tudo fica na mão de Ongs e de voluntarismos inconsequentes. Como alguém pode achar que é sacerdote e pitonizo de uma nova era e se dispõe a curar surto psicótico, que é uma epidemia séria que precisa de tratamento adequado da medicina? Na literatura, vemos autores elegendo casos íntimos a grandes cases de resultados, já que as editoras, com raras exceções, embarcam em todo tipo de sandice, menos a de programar a publicação de escritores sérios que explodem em gavetas lotadas?

Jogadores de futebol se apaixonam por travecos de vozinha afetada, participam de festas com gangs armadas, compram motos para traficantes. Na véspera da Copa do Mundo, o país sem soberania, sem grandeza e mergulhada num festival de idiotias exibe os cabelinhos amarrados de estrelas da bola sem nada na cabeça. São estimulados pela mídia monopolista e ridícula, que não faz reportagens, apenas exibe uma série de eventos frescos, transformando os jogos num bate bola de sacadinhas espertas. Mientras tanto, aumenta o número de times fake, desvinculados de clubes, na mão de empresas, coisa que foi proibida na época do Brasil soberano, quando até o Renner (originalmente, marca do comércio de roupas) gaúcho dançou, mesmo tendo sido campeão estadual.

É que a loucura é plantada, o ensandecimento dá lucro para meia dúzia, a gandaia é divertida para quem vive à custa do suor público. Prostituição, frescurada, miséria, assassinatos: quem quer comprar o Brasil a não ser os piratas internacionais, de olho no nosso patrimônio, ou o que resta dele, dos recursos que ainda possuímos? Dispensam a nós, o povo, porque de nós já cuidaram: transformaram todo mundo em zumbis a serviço do Mal.

A candidata a presidente Marina Silva se identificou com os na´vis, os habitantes da floresta de Avatar, filme de James Cameron, que virá junto com o gigolô do aquecimento global, Al Gore, para um evento na Amazônia neste mês. Não quero ser implicante nem faltar o respeito com ninguém, mas o fato é que os na´vis do filme tem focinho de fera e um longo rabo. Nada a acrescentar.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura. 2. A propósito: "Nova novela de Manoel Carlos mostra o submundo do Leblon", segundo Renzo Mora. Um texto antológico.

17 de março de 2010

PRECIOUS, A BARRA E O SONHO: ONDE ESTÁ O CINEMA?


O cinema está na confissão da mãe de Precious, a jovem obesa, grávida do pai pela segunda vez, analfabeta, soropositiva? Ou nas cenas de delírio de sucesso de uma vida alternativa sonhada por Precious, onde o professor e o enfermeiro participam como príncipes encantados de uma biografia totalmente voltada para o espetáculo? A resposta parece ser óbvia: é claro que está na história brutal filmada com a máxima crueza por Lee Daniels a partir de um romance de Sapphire de 1987, roteirizado por Geoffrey Fletcher, que levou um Oscar pelo seu trabalho.

Mas uma resposta mais completa seria: como está cada vez mais tênue a fronteira entre Hollywood e Festival Sundance (de onde saiu Precious), o cinemão aderiu à transgressão conceitual alternativa e faz a crítica de seu passado, enquanto seduz os espectadores, agora mais exigentes, com novos impactos, com uma história sobre a inclusão de uma cidadã marginalizada (interpretada por Gabourey Sidibe), que interage com um complicado sistema de apoio social na América.

O admirável nos americanos, pelo menos em boa parte deles, nos últimos tempos, é essa visão desassombrada sobre seus próprios problemas. Eles podem: contam com instituições e políticas públicas que cercam a população de alternativas, mesmo que não sejam as melhores. Aqui, o abandono do Estado leva as pessoas a cometer desatinos, de querer consertar o mundo e os drogados apenas por ações voluntariosas, enquanto do dinheiro que deveria ir para as práticas sociais vai mesmo para o ralo.

É tocante ver, em Precious, a professora na escola alternativa, a assistente social que quer saber sobre o caso de estupro, entre outros personagens cheios de coragem e humanidade, sem nenhum resíduo de falsas boas intenções. São vocações adotadas pelo Estado, com uma ação que obedece a critérios e a processos bem definidos.

Se houve um Oscar merecido em 2010, esse foi para a atriz e cantora Mo´nique, que faz o papel de Mary, a mãe de Precious. Ela está assustadora no seu papel dramático em que pressiona a filha até a insanidade total. A cena da confissão, em que narra como o marido e pai da sua filha seduziu a criança ao longo do tempo e estuprou-a, é o ápice de uma performance que começa e termina com extrema intensidade. Mary é a parede contra a qual se bate a filha desesperada, que é levada ao surto permanente, em que tenta escapar pelo sonho, quando só tem para si a barra pesada da vida no Harlem.

Mas a garota que sonhava em ser uma estrela qualquer da sociedade do espetáculo acaba sendo a protagonista da própria vida, conseguindo trabalho, avançando nos estudos e recuperando os filhos que antes não tinha condições de criar. O cinema glamouroso cheio de maquiagem e gestos estudantes e frases vazias cede ao impacto da câmara frontal diante de personalidades do nosso tempo, vistos em sua inteireza. Não tem como colocar para baixo do tapete toda a violência estampada no filme. E isso que a narrativa comporta apenas alguns tapas, socos e empurrões, além de uma cena mais pesada, da briga definitiva entre mãe e filha.

A violência é psicológica, é dos conflitos sociais, é da ignorância, da promiscuidade> isso Precious tem de muito forte. Mas tudo pode ser enfrentado, mesmo na baixa escala social. Isto o filme tem de mais precioso.

RETORNO - Imagem desta edição: Gabourey Sidibe e Mo'Nique numa cena de Precious.

WOODY ALLEN: E NO ENTANTO, FUNCIONA!



Whatever works (2009), de Woody Allen, pode significar “Funciona, apesar de tudo”, ou, como foi traduzido, “Tudo pode dar certo” (tudo no sentido de qualquer coisa). Misteriosamente, contra todas as evidências, isso acaba acontecendo. Desde que haja uma carga de ingenuidade, um pacto entre a escassez e desigualdade de protagonistas, coadjuvantes e o público. Um choque de diversidades, um acúmulo de bizarrices que deságuam em estuários poéticos. Uma sinceridade brutal que em vez de afastar, aproxima. Um escritor como poucos ou quase ninguém. Um cineasta raro. E pelo menos um ator excepcional, convivendo com uma equipe de grandes talentos.

O que funciona, apesar de aparentemente tudo ter a chance de dar errado? Primeiro, o cinema. O filme não aposta em si mesmo, parece algo fora da ordem, sem nexo. Mas é só aparência. O gênio conhece o seu lugar: está a um passo do ridículo, em que a sabedoria toma café com a idiotia.

Segundo, o personagem Boris, interpretado por Larry David (o responsável pelo sucesso da série famosa onde Jerry Seinfeld acabou levando toda a glória), que fala para a câmara, ou seja, para nós, o público. É o único da história que sabe que estamos assistindo. O seu entorno não toma conhecimento disso. Em princípio, narrar o filme para o espectador, não funcionaria. Mas dá certo.

Boris foi acusado de ser um personagem inverossímel. Impressionante como a crítica desconhece o básico do espetáculo. O que pega não é a verossimilhança, mas o mistério do it works. Boris é físico especializado em mecânica quântica, chegou a ser indicado para o Nobel, tem síndrome do pânico, separou-se porque tentou suicídio depois de uma discussão com a mulher super-inteligente, mas sobreviveu. Manca de uma perna e odeia tudo e todos. Acaba se envolvendo e casando como uma moça do interior que não sabe nada e tinha batido na sua porta em busca de comida e teto.

As relações humanas é o terceiro item das coisas que tem tudo para dar errado, mas acabam chegando a bom porto. O suicida que encontra a nova mulher na médium que salva, involuntariamente, sua vida ao interceptar o tombo proposital da janela; o interiorano, membro da Associação Nacional de Rifles, que se descobre gay; a perua provinciana que se revela artista e casa com dois homens; a moça que no início se encosta no veterano para sobreviver a e acaba descobrindo o amor da sua vida. Tudo isso tem uma carga hilária, desconcertante e ao mesmo tempo poética.

É admirável a capacidade frasista de Woody Allen. Quando a perua fala em mènage a trois, o ex-martido exclama: “Eu sabia que não podia confiar nos franceses”, o que é uma referência à “traição" da França de não mandar tropas ao Iraque, um problema americano, entre tantos outros, que Allen curte com sua verve fantástica. Quando a divorciada recém vinda do interior descobre que o bibelô da sua vida, a menina que fugiu de casa, casou com um velho, desmaia. Boris comenta: “Mas ela casou com o pescador do maior bagre da minha terra”. “Ela estaria melhor casada com o bagre”, replica a mulher. Mais: “Gostaria de visitar um lugar divertido, afinal estamos em Nova York”, diz a provinciana. “Por que vocês não vão ao Museu do Holcausto?” sugere Boris.

Tudo isso é dito de maneira largada, sem nenhuma ênfase, o que dá extrema graça às cenas. A intensa carga de achados do script convive com a limpidez das imagens, a Nova York querida de Allen. As ruas, os parques, os carros, o museu de cera, os apartamentos, os jantares, os bares ao ar livre, os pubs, tudo se sucede com uma riqueza de detalhes encantadora.

Woody Allen é para quem gosta dele. Eu gosto muito. Não queria considerá-lo gênio, mas está difícil. O cara se supera a cada filme. Toda vez que ele começa a filmar, começo a imaginar como será. Esse com Larry David eu aguardava ansioso. Valeu a pena. Woody Allen: que bom que o cinema ainda funciona.

RETORNO - 1.Imagem desta edição: Larry David em ação. 2. Em menos de meia hora depois da primeira versão deste post, modifiquei o início do texto. Acho que ficou melhor. No fim, dá tudo certo.

16 de março de 2010

RECONHECIMENTO


Nei Duclós(*)

Parece não fazer parte da natureza humana o reconhecimento dos méritos alheios. Acredita-se que tenha existido um tempo em que havia admiração sincera. Hoje, esse devotamento desprendido deu lugar à “inveja boa”, como se a inveja, que é a eliminação virtual do Outro, possa ter natureza benigna de alguma forma. Quem teve o privilégio de avançar na idade sabe que precisa desistir do olhar alheio agradecido e se conformar com o segredo das próprias qualidades, compartilhadas apenas com a divindade.

“Deus está vendo” é um consolo, mas fica um rescaldo, uma esperança vã de que a qualquer momento a justiça vá se manifestar. Mas isso não se limita aos velhos. Qualquer um pode ser esquecido em vida. Não é outro o motivo das conversas aos berros, em que as pessoas, desesperadas, puxam a sardinha para a própria brasa. Nesses casos, o silêncio é a constatação de que só seremos ouvidos de verdade em outras vidas, quando as lições destes tempos obscuros forem totalmente assimiladas.

Não sei porque as pessoas não gostam de admitir que admiram alguém. Talvez porque haja uma idéia preconceituosa sobre o elogio, visto como manifestação de falsidade ou o mínimo de ser um objeto descartável. Quem elogia precisa ter capital simbólico para isso, senão é encarado como puxa-saco. Cuida-se para não elogiar para não dar o braço a torcer na tal sociedade competitiva. Quando alguém se manifesta a favor de alguém, ou se desculpa sobre o que vai dizer ou exagera até a insanidade para que ninguém conteste.

Não deveria ser assim. Gostar do que alguém faz ou é, sem nenhum outro interesse do que o prazer do convívio com os contemporâneos, sem conotação oculta nem mesquinharia à vista, é sinal explícito de vida civilizada, a que perdemos com a sucessão de ditaduras e de falsas democracias. Não queremos nos comprometer, por isso moitamos sobre as qualidades dos nossos pares. Apontar alguém pode ser confundido com delação. Escondemos as amizades sinceras para que não sofra ameaças.

Talvez seja isso. Ou então temos mesmo essa vocação de negar quem nos cerca, por uma questão de sobrevivência num mundo predatório. O que é trágico, quando vemos talentos verdadeiros sofrerem num exílio injusto, enquanto contamos as feridas proporcionadas pelo longo sofrimento.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: Quem, de Ricky Bols. 2.(*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 16 de março de 2010, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

15 de março de 2010

CORRUPÇÃO E RUPTURA EM "SALVE GERAL"


A criminalização no Brasil atinge todas as classes sociais, o que elimina a ilusão de uma classe média fora desse circuito, vista como a base de um pretenso convívio harmônico. Essa situação é fruto da quebra de paradigmas na economia ( empresas falidas em massa pela crise) nas instituições (judiciário e polícia se misturam à bandidagem) e no comportamento (a promiscuidade dos corpos é a vala comum da nação jogada no lixo). Sergio Rezende, o cineasta maior do Brasil contemporâneo, mostra em Salve Geral como as pessoas trabalham esse ambiente de corrupção e ruptura por meio de histórias pessoais que se cruzam a coletividades em pânico (a população) ou em guerra (a repressão e o crime).

Rezende fala claro, uma raridade no pensamento obscurantista que atualmente nos domina em todos os estamentos e áreas de atividades. A cadeia em ruínas que amontoa pessoas abandonadas pelo Estado é a estufa onde medra a flor da insurgência organizada. Não se trata de uma justificativa, mas de uma evidência. O partido clandestino que trafega pelas celas dando ordens e que acaba incendiando as prisões e a cidade de São Paulo, tem a mesma prática dos partidos oficiais: ameaça, suborna, manda matar, rouba. São vasos comunicantes, o oportunismo político e a solução encontrada pelos condenados, que acabam forçando as autoridades a sentarem na mesa de negociações.

Rezende fala claro. A viúva professora de piano (interpretada por Andréa Beltrão, a atriz completa e segura, uma sobriedade clássica num universo dominada pelo falso talento), formada em Direito mas que não exerce a advocacia, é empurrada para a organização por motivos de sobrevivência. Ela não pode deixar o filho a descoberto num lugar onde todos são marcados para morrer. Também não pode ficar sem dinheiro quando todos os caminhos passam pelo Caixa 2. Ela acaba se envolvendo profissional e sexualmente com o mundo da prisão, levada pela mão da Ruiva, uma advogada do tráfico, interpretada pela excepcional Denise Weinberg, que praticamente engole o filme com sua performance.

Rezende fala claro. O partido nasce das necessidades dos apenados, conquista o coração dos jovens, que acreditam em suas grandes frases, se impõe perante o sistema carcerário e a cúpula de segurança, decidindo o terror na cidade que se descobre também abandonada, tanto quando os que foram para a cadeia. Ficou faltando a última ponta desse processo: a participação dos políticos de grosso calibre, que na época (2006) estavam em feroz disputa pelo butim via campanha eleitoral. Mas isso seria pedir muito para um filme, que trata, como todos os outros, de cinema.

E o cinema, nesta nova obra de Rezende, que nos providenciou Mauá, Zuzu Angel, O Homem da Capa Preta, Canudos, para que pudéssemos continuar sentindo orgulho do cinema brasileiro, é a cidade expropriada de sua identidade, á mercê das forças poderosas que medraram a partir da destruição da soberania do país. O filho que escapa das mãos da mãe está irado com sua queda social e encontra nos rachas de carros envenenados o treinamento para futuras transgressões mais pesadas. Mãe e filho se corrompem porque não há outro caminho, senão ceder ao rompimento de todos os pactos sociais.

Vemos então esse piano, representando o status social perdido, sendo jogado para o exílio do subúrbio e nessa trajetória é extraído de seu teclado o som da cidade que naquele dia acordou sabendo que todos iriam morrer. No fundo, ali morreu definitivamente o país que nos formou. Outro está em seu lugar e mergulhamos no pesadelo marcados por um novo pecado de origem, adquirido nessa saga sinistra de uma civilização assassinada. Resta a individualidade ferida, capaz de enxergar o drama com nitidez, como faz Sergio Rezende e sua brava equipe, mantendo a única virtude que nos manterá vivos: a coragem.

RETORNO - Imagem desta edição: Denise Weinberg (de óculos escuros) e Andréa Beltrão: duas explosões de talento num filme maior.

ABRAÇOS PARTIDOS: A GRANDE ARTE DE ALMODÓVAR


O cinema foi destruído, feito aos pedaços. Seus restos jazem na amargura da memória, mutilada pela dor e o esquecimento. Precisa ser reconstituído, mesmo tardiamente e às cegas. As pistas são as fotos rasgadas numa cesta, os negativos escondidos num armário, um making of rodado à revelia do diretor, um roteiro esboçado por alguém que ressurge do passado, uma cena fora de sintonia, o número de um telefone guardado na gaveta.

Take 1: Um diretor que já não enxerga busca sua identidade perdida ouvindo os clássicos e reencontrado a imagem em movimento do último beijo dado na mulher amada que se foi. Suas mãos enquadram a cena granulada e distorcida. Take 2: Um produtor espiona a amante gravando suas conversas de longe e pedindo para uma leitora de lábios que faça a dublagem. Seu rosto disforme é a senilidade traída. Take 3: Uma agente desvirtua o filme do pai do seu filho e esconde o copião por 15 anos. Sua confissão mostra uma vida desperdiçada.

O filme a ser resgatado é uma comédia kitsch, a exemplo dos primeiros filmes de Almodóvar. O drama do triângulo entre o produtor, o diretor e a estrela é puro Hitchcock e filme noir, o sintoma de sua maturidade, em que vê o cinema como um soberbo espetáculo de mistério e suspense. Os raros momentos de amor são referências a grandes filmes românticos. O mais impressionante é que não se trata de uma colagem, mas de uma narrativa orgânica, que assume todos os riscos, como já foi notado pela crítica.

A grande arte de Pedro Almodóvar estabelece as camadas deste filme sobre cinema. Você vê Abraços Partidos, que por sua vez produz Garotas e Malas, com filmagens capturadas por um documentarista onipresente. O filme dentro do filme é desvirtuado, por vingança, pelo produtor traído. Mas é recuperado no final pelo autor que perdeu tudo, menos a capacidade de continuar trabalhando. Por um tempo, ele assumiu a personalidade de um roteirista com outra identidade, mas as revelações o levam de volta ao seu destino.

Assim, a obra perdida, humilhada, é a representação do cinema fundamental de Almodóvar, que busca a realização apesar do assédio da mediocridade e da superficialidade, que mantém-se fiel ao que é, um cineasta de alta voltagem, capaz de se superar a cada lançamento. Penélope Cruz detona como a secretária pobre que sobe na vida por meio da entrega a um milionário e que busca no cinema a realização que o vazio da sua vida nega. É uma grande atriz, que faz passar por sua performance os rastros de Marilyn Monroe e Audrey Hepburn, sem se entregar às imitações. É uma performática com pleno domínio do seu ofício.

Veja Abraços Partidos. Faz parte do grande cinema do nosso tempo.

RETORNO - Imagem desta edição: Penélope Cruz nos braços de Lluís Homar em Abrazos Rotos.

14 de março de 2010

CLARO/ESCURO: O ESPORTE DESARMA O CONFLITO



The Blind Side, de John Lee Hancock, Oscar de melhor atriz para Sandra Bullock, e Invictus, mais uma obra clássica de Clint Eastwood, ambos de 2009, são dois filmes sobre relações raciais e esporte, no caso o chamado futebol americano e rugby, respectivamente, duas modalidades irmãs, mas não idênticas. As diferenças entre os dois filmes, afora a qualidade cinematográfica, que em Clint sobra, são importantes.

Invictus, que é título de uma belo poema do britânico William Ernest Henley (1849-1903), sobre a vontade que decide o destino, aborda a força política do perdão. Narra a costura do estadista Nelson Mandela da África do Sul, nação dividida e recém saída do apartheid, nos anos 90. A fragilidade da situação, em que tudo apontava para a vingança da população pobre que pela primeira vez era representada na política via voto direto, exigiu que o novo presidente adotasse uma postura reguladora das relações entre as duas facções. “Vocês me elegeram seu líder, me deixem que os lidere agora”, diz Mandela interpretado por Morgan Freeman, contrariando os que queriam destruir o time de rugby, que significava a hegemonia branca no auge da repressão.

The Blind Side (que se refere ao lado cego do atacante do futebol americano, que deve ser protegido por um player poderoso, de grande massa física) trabalha a favor da política de inclusão social estabelecida nos Estados Unidos por meio do esporte. Convidar atletas negros para as universidades que precisam reforçar suas equipes é um expediente exposto a inúmeras críticas, mas o filme cuida de justificar tudo. Sandra Bullock cresce ao longo da trama no papel da esposa do bem sucedido empresário de lanchonetes populares. Ela vive com a família sem conflitos numa mansão, mas não fica satisfeita sem ajudar os outros exercendo a caridade cristã. Republicana, chega a contratar uma professora particular democrata para que o filho adotivo, Big Mike (interpretado por Quinton Aaron), possa ser aceito no time da escola.

Clint prova que é o grande herdeiro dos mestres do cinema de autor da indústria cinematográfica americana ao iniciar seu filme com uma cena antológica: a passagem de Mandela libertado numa estrada que divide dois campos esportivos, um do rugby branco e outro do futebol negro. Em poucos segundos, ele mostra o apartheid representado pelo esporte e foca o filme na necessidade de romper a barreira, para que a nação “com fome de grandeza”, como diz Mandela, pudesse cumprir o seu destino. E esse destino era ganhar a copa do mundo da modalidade, que seria realizada na África do Sul em 1995. O filme é esse projeto de rompimento de barreiras por meio de costura valente e lúcida, empreendida por um herói do nosso tempo. A cena final, em que os negros jogam rugby, mostra o sucesso desse esforço.

O heroísmo da rica dona de casa americana, que se destaca entre suas amigas indiferentes e vazias por meio de atitudes corajosas, é de outra natureza, já que faz parte do voluntarismo pessoal e não de uma ação política (embora tudo seja político, como todos sabem). No fundo, o filme coloca Big Mike como uma força da natureza, com deficiência de entendimento, e que só compreende as coisas por meio de demonstrações explícitas, como gestos e frases curtas. O nível infantil do personagem gigantesco é representado pela grande amizade com o novo irmão branco, que é um décimo da sua altura e um terço de sua idade.

O gesto solidário da protagonista é colocado em cheque por uma investigação que cede à primeira frase sorridente do investigado, mostrando que a narrativa tem a clara intenção de justificar a política de inclusão por meio do esporte contra todas as críticas. Esses defeitos podem colocar o filme para baixo, ainda mais que usa o velho expediente do clip na fase de treinamento do atleta. Mas o aspecto aparentemente bizarro da história intensifica a carga dramática do filme, que começa chocho e sobe para um patamar emocionante. É uma grande qualidade que não deve ser menosprezada.

O esporte é a representação do conflitos que, nos dois filmes, serve para desarmar os espíritos. Esse paradoxo é o que os torna interessante, no caso de The Blind Side (traduzido aaqui pelo batido Um Sonho Possível), e magistral, nas mãos de Clint. Li algumas reparos de que o grande diretor usou uma série de clichês. O que Clint faz, em alguns momentos, é o uso pessoal de soluções cinematográficas consagradas. O ponto final filmado em câmara lenta e arrancando o delírio esperado da platéia é um deles. Funciona, emociona. Quem resiste?

Isso não significa que devemos justificar truques de cinema. É preciso estabelecer diferenças. No claro/escuro das relações raciais intermediados pela representação do conflito via esporte, vale a competência de fazer cinema. Ambos os filmes não caem nos vícios da edição da câmara nervosa e são enxutos, limpos, com uma narrativa consagrada e objetiva. Isso destaca a grande performance dos atores. Morgan Freeman, costumo dizer: vejo tudo dele, o cara é um imã. E Sandra, depois de tantos papéis ótimos, merecia seu Oscar, mesmo que possamos duvidar das boas intenções do filme. Vale o que aparece na tela: a frágil falsa loura enfrentando preconceito para adotar seu gigante e a alegria de vê-lo bem sucedido.

São duas histórias reais que inspiraram obras com um encantamento raro hoje, quando tudo explode e os scripts obedecem a gambiarras narrativas toscas. Você pode não concordar com o que esses dois filmes, muito bem amarrados, querem dizer, mas não pode deixar de se encantar com o que eles mostram e são.

RETORNO - Imagens de hoje: Sandra Bullock e Quinton Aaaron, Morgan Freeman e Matt Damon: interpretações que fazem o encanto da Sétima Arte.

13 de março de 2010

O QUE É MICROCONTO?


O microconto é a literatura da era da nanotecnologia.

A palavra microconto já é a metade de um microconto.

Acordou cedo e deu de comer aos microcontos.

Toda vez que ouço falar em microcontos eu puxo a minha garrucha.

Cuidou de queimar os rascunhos pois desconfiava que seriam confundidos futuramente como ninho de microcontos.

Os autógrafos dos livros de microcontos ganham dimensões de verbetes de enciclopédias.

Microconto mentiroso tem perna muito curta.

MicrocontoSoft cobra royalties pelo uso de suas ferramentas.

Tinha potencial, mas não fez carreira literária. Tropeçou num microconto.

O prefácio do microconto só suporta uma vírgula.

O microconto não parou no ponto. Estava lotado.

No microconto de fadas a Sininho só dá meia badalada.

No microconto infantil os monstros são os percevejos.

O microconto pode ser feito dormindo. Mas é tão enxuto que não provoca sono.

Quem conta um microconto aumenta um microponto.

O pequeno vigarista aplicou um microconto do vigário.

No microconto policial o BO tem uma linha e meia.

Levou pela coleira os microcontos para passear. Esbarrou num crítico, que tossiu uma microresenha alérgica.

Não sou microcontista. Não tenho estatura para isso.

Uma caixa de fósforos é a única estante de uma biblioteca de microcontos.

Com a inflação, um cafezinho vai custar um micrconto de réis.

Por comparação, Guerra e Paz deve ser um macroconto.

Antigamente, microconto chamava-se título.

A vantagem de uma antologia de microcontos é que entram todos.

Colocou o microconto no microondas. Em um minuto estava pronto.

Os microcontos são escritos à sombra das árvores anãs.

Microconto é literatura de bolso de colete.

Os microcontos gostam de se reproduzir em microchips.

Os microcontos aleijados usam alfinetes como muletas.

Oficina literária de microconto tem fole curto.

Nos microcontos épicos, os heróis carregam flâmulas.

O grande microconto oculto ainda não veio à tona É que o Shakespeare do microconto não consegue crescer.

Só cabem versículos nos livros em papel Bíblia de microcontos.

Na China, cada família só pode ter um microconto.

Comadres corocas tricotam microcontos nas grotas.

Há orgasmos de formiga em microcontos eróticos.

O que trazes aí nessa cesta? perguntou o Lobo para a Chapeuzinho. Microcontos, respondeu a menina. Hummm, parecem apetitosos.

Foi deitar tarde e esqueceu os microcontos lá fora. Quando amanheceu, tinham se misturado ao sereno

O microconto é a edição dominical do Playmobil

Os microcontos evaporam quando narrados ao redor do fogo

Escondi uma pedra transparente lisa, um pião e um pedaço de madeira num vão do muro do quintal. Fui reaver, só encontrei a poesia

bra a porta! gritou o Lobo. Nunca! respondeu o leitão Prático. Esta casa feita com microcontos você não derruba!

Pôs a mão no bolso, contou os microcontos. Dava para comprar a ração dos alevinos.

Respirar fundo já é um microconto.

No meio da viagem,recontou os microcontos. Faltava um. Mandou o trem voltar.

O microconto argentino ainda não nasceu nem vai nascer.

No Pantanal, os microcontos servem de alimento para os jacarés.

Microconto baiano destoa do ambiente devido às microsestas.

Microconto nordestino vende miniaturas de jangadas fabricadas pelos chineses.

Microconto mineiro jamais se candidata quando se candidata.

O microconto carioca tem guerlas e sabe extrair petróleo ao som de tamborins.

O microconto gaúcho pesquisa a criação de micropôneis em laboratório para participar das cavalgadas nativistas.

O microconto da Amazônia constrói megalóples num folha de Vitória Régia.

O microconto de Itu faz sombra nos congressos da categoria.

As ferramentas de busca são imãs de microcontos.

Quando o microconto deita na rede, todo mundo reclama. Não sabem o duro que deu.

Microconto japonês faz parte da indústria de miniaturas.

Não esqueça de alimentar os microcontos. Eles ficam agitados quando a ração custa a chegar.

Depois de fazer uma palestra de cinco segundos, o microconto puxou a cadeira de lado e foi dormir.

Coffe Break de microconto é meio expresso com farelo de bolacha.

Quem faz workshop de microconto pela manhã dispõe do dia todo para se dedicar aos esportes.

É obrigatório ter diploma de Hotelaria e Turismo para hospedar microcontos.

Reduzido a menos do que 140 toques, para permitir RT, o microconto viu-se despossuído de seu microônibus.

Siga aquele twitter, disse o microconto. Mas teve de parar 140 toques adiante.

O microconto apaixonou-se. Mas reclamava da falta de espaço.

Microconto é troco na loja das letras.

Guardou os microcontos numa caixa de bombons. De vez em quado abria e comia um.

Escamas de tainha são pranchas de surf para os microcontos da ilha.

Microcontos gaudérios mateiam em dedais.

Microconto contigo.

RETORNO - O surto acima sobre um gênero literário que não exerço foi desenvolvido no Twitter. As novas frases estão sendo incorporadas conforme vou perdendo seguidores devido ao frasismo obsessivo sobre o mesmo assunto.

11 de março de 2010

CAMPANELLA: TRÊS VIAGENS NUM CARROSSEL


O segredo dos seus olhos, melhor filme estrangeiro no Oscar 2010, de Juan Jose Campanella, é a composição de uma peça clássica em três movimentos. É um filme de amor dentro dos parâmetros conhecidos, ou seja, um casal próximo demais que não consegue se tocar durante o filme todo e só encontra uma solução no final. É um filme policial seguindo os trilhos do filme noir, onde um investigador solitário procura saber algo que todos querem esconder. E é um filme político, na linhagem das grandes obras do gênero, pois denuncia a origem da injustiça nas tramas do poder, e não na natureza humana.

A demonstração de força de um assassino estuprador diante de dois funcionários da Justiça, num elevador fechado, é a cena mais assustadora do filme. O bandido foi descoberto numa investigação criminal, mas está solto graças aos bons serviços de deduragem para a ditadura argentina. Quem treme não é o criminoso, mas as pessoas pagas pelo Estado para fazer valer a lei. Essa é a fonte da tragédia: o país condena as vítimas e estimula os algozes. O resultado é uma sociedade amordaçada, amores frustrados, casamentos partidos, processos arquivados.

Essa três viagens estão imbricadas de tal forma que não se distinguem os limites de cada gênero funcionando na trama. Assim como não existe hegemonia de um vetor cinematográfico sobre o outro, não existe também o vício fatal de focar tudo num só protagonista. Mesmo que a sobriedade, a seriedade, a gravidade e o carisma desse ator fundamental que é Ricardo Darin, no papel do investigador Espósito, costure todo o filme, ao lado da performance avassaladora de Soledad Vilamil no papel de sua chefe Irene, cada personagem ganha status de protagonista no carrossel de Campanella, que gira o prato diante da câmara e nos revela o quanto vale o indivíduo numa sociedade onde ele costuma sumir.

Guillermo Francella no papel do companheiro de Espósito, o bêbado Sandoval, é o “escada” que toma as rédeas da trama quando decifra o código do esconderijo do assassino. É o companheiro desesperado e fiel que assume a identidade do amigo tanto para escapar da vida insuportável como para livrar o outro de um assassinato. Pablo Rago como o viúvo Morales é o alter ego de Espósito quando este se aposenta e resolve escrever um romance sobre o caso da bela esposa violentada. Assume o comando várias vezes no filme, quando desperta em Darin a intensidade da sua concentração, em momentos de grandeza inigualável no cinema contemporâneo.

Javier Gondino como o criminoso Gómez é o bruto que, por vaidade, se entrega na hora do interrogatório, quando Irene, de propósito, faz pouco de sua macheza. Ele se trai quando mostra, nas fotos, sua obsessão pela vítima, pois os olhos falam e fazem Justiça quando tudo mais falha. José Luis Gioia, como o vingativo Inspetor Bañez, o corrupto que se beneficia da ditadura, assume a cara monstruosa da repressão no momento em que mais se precisava da lei.

Cada momento do filme, que se desdobra em três caminhos entrelaçados, ganha assim a riqueza de personagens diferentes, assumidos por grandes intérpretes. Os olhos são a pista que atrai o investigador, pois é a radicalidade do amor revelada no rosto do viúvo que o leva a perseguir o assunto até descobrir tudo sobre si mesmo.

Mas devemos abrir um claro para falar mais de Darin. Notamos como os mais notórios atores de hoje transparecem o esforço que fazem para trabalhar. De Niro extrai suas expressões no fórceps. Brad Pitt tem valor, mas basta se distrair um pouco para sua massa física se diluir na tela. Bem Affleck é um dos milhares bonecos de Hollywood que somem junto com o que faz. Phillip Seymour Hoffman é brilhante, mas deixa a afetação tomar conta dos seus papéis.

Em contrapartida, vejam Ricardo Darin neste e nos outros filmes, como Nove Rainhas ou O Filho da Noiva. Parece fácil fazer o que faz, mas tudo é fruto de vocação, talento e intensa elaboração. Quando medita, quando vê, quando aguarda, quando está indeciso e, especialmente, quando se ilumina, ficamos em frente ao grande ator do nosso tempo. É difícil de provar essa afirmação, num universo que tem Al Pacino entre outras estrelas. Mas voto em Darin. Nunca decepciona e sempre comparece com o melhor de sua arte. Não é pouco, neste mundo vazio que clama por espíritos habitados.

RETORNO - Imagem desta edição: Soledad Vilamil e Ricardo Darin em "El secreto de susus ojos", de Juan Jose Campanella.

9 de março de 2010

DESPLANTE



Nei Duclós (*)

O comportamento agressivo é fruto da indiferença. O mau exemplo vem de cima e se espalha até atingir o episódio mais ordinário. A pessoa que atravanca o caminho fazendo cara de paisagem, enquanto ao redor todos se esforçam para manobrar, mostra que o tecido social ultrapassou o limite do egoísmo. O que temos é algo mais intenso, uma crueldade endêmica, que coloca no mesmo reduto a gang incendiária e o sujeito convencido de sua boa índole, enquanto exerce seu direito de colocar o som hediondo para atormentar a vizinhança.

Temos muitos suspeitos na origem do drama. Prefiro destacar a ausência do remorso. Não há mais culpa, base de uma vida espiritual consciente do ônus de compartilhar com o próximo o mesmo espaço terreno. Identificada pela psicanálise, a culpa acabou sendo erradicada pela sociedade do espetáculo, que precisa da falta de cidadania para empurrar toda tralha de consumo. Não há mais amargura depois da maldade, estimulada para que todos possam devorar o mundo em busca da realização ou do gozo.

O desplante atinge todas as idades e congestiona o tráfego das ações humanas. Usa-se o que está aparentemente disponível e joga-se os resíduos fora. O álibi perfeito para isso é o sentimento de injustiça. Como as autoridades estão sendo investigadas por desvio de dinheiro, as famílias se estraçalham por motivos variados e a educação marca passo entre o discurso politicamente correto e o caos na sala de aula, então tudo está permitido. Agir errado é a vingança dos que encaram o mundo como a prova definitiva de uma perseguição pessoal.

Vemos assim o chamado motivo fútil assomar no noticiário cada vez com mais freqüência. Um deslize de alguém ao lado pode significar a soma de todos os erros detectados ao longo de uma vida. Nem precisa de uma arma para desencadear a ocorrência. Uma janela que não fecha direito, um olhar atravessado, um empurrão involuntário, tudo é motivo para que o muro entre as pessoas desabe sobre corpos expostos à hostilidade triunfante.

Essa constatação assustadora não pode gerar desesperança, que também é insumo para atos desumanos. O único cuidado é não dourar a evidência com a ilusão. Basta entender como o processo funciona e, munido pela racionalidade, investir sentimento no convívio com o semelhante.

RETORNO- (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 9 de março de 2010, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

CAMERON E BIGELOW: CÓDIGOS DA DOR, A BOMBA LACRADA




O Oscar 2010 terminou com a vitória de Kathryn Bigelow, diretora de The Hurt Locker, que tinha sido desprezado, lançado direto nas locadoras e tardiamente incluído no circuito dos cinemas, de onde pulou para a seleção e a dupla vitória (filme e direção). Seu ex-marido, James Cameron, diretor de Avatar, grande promessa da noite, saiu lambendo as feridas. De que tratam as duas obras? Sobre a dor provocada pela sinuca de bico onde os americanos se meteram com sua civilização voltada para a guerra. Duas abordagens opostas, que invadem a reflexão contemporânea, já que reflexão não precisa de convite.

The Hurt Locker significa uma dor intensa impossível de ser adiada. O filme trata dos esquadrões especializados em desarmar bombas na guerra do Iraque e a demência que isso provoca. A câmara no ombro e diálogos obsessivos revelam personagens insanos palmilhando o território conflagrado e tentando justificar a invasão, como se a liberdade estivesse fazendo uma visita ao fundamentalismo obscurantista. Mas sabemos do que se trata: do armário lacrado (locker) onde a dor, o ferimento, a mágoa (hurt) estão encerrados. Trata-se de uma bomba que não pode ser desmontada. Não há especialista que dê conta.

Por ser completamente tomado pelo seu ofício, o oficial que desarma bombas torna-se prisioneiro da atividade e dela não consegue sair, mesmo depois de ter voltado para a família. A vida doméstica não faz sentido para quem está treinado para não deixar que os artefatos expludam destruindo tudo ao redor. Ele testa a adrenalina metendo a mão na massa de maneira desassombrada, surpreendendo e enlouquecendo seus companheiros. Quando um dos seus parceiros é gravemente ferido, o acusa de espichar o limite até o extremo só para satisfazer a vontade de ação compulsiva.

A história desse soldado louco é a representação da ação americana no Oriente Médio. Massa de manobra da política e da indústria petrolífera, as Forças Armadas desenvolvem no front uma percepção corporativa do conflito. Tudo se resume a bombas, explosões, tiros, luta pela sobrevivência. Não há enfoque político, território pantanoso onde a farda aparentemente não se mete. Há o envolvimento institucional com a tal liberdade, mas o que impera é o espírito de grupo, ou de corpo, onde a obediência cega às ordens é o único valor diante de um inimigo que se mistura a uma população pacífica.

Avatar é sobre o fim do militarismo tradicional americano, que por sua vez é retratado no filme de Bigelow. Propõe a substituição por outro tipo de conflito, fundado na transfusão genética, nas ciências ecológicas, na devoção à natureza, mas sem abrir mão do poder destrutivo das armas modernas. No fundo, quer que o velho coronel turrão que adora mandar queimar tudo e promete pagar a primeira rodada depois da batalha seja substituído pelos jovens voluntariosos que engrossam as fileiras ecológicas da luta contra o desmatamento e a o aquecimento global. É uma maneira de escapar do lugar onde estão metidos hoje: uma arena onde, por comparação, o inferno não passaria de uma colônia de férias.

O inferno de James Cameron é fazer parte de uma nação imperial que invadiu o mundo matando o Outro. Lançando mão de todos os chlichês do vídeogame, da série Guerra nas Estrelas, do faroeste (como a doma de pássaros gigantes), ele tece sua aventura fazendo sonhar quem que está acorrentado, a civilização em estado terminal representado pelo mariner de cadeira de rodas. No seu lugar está o mestiço capaz de façanhas heróicas e que dispõe do corpo de maneira renovada, pois chupa toda a energia dos nativos, os hominídeos com orelhas de morcego e rabo.

Os avatares são criaturas hibridas usadas para invadirem o núcleo adversário que detém a força dos recursos naturais, futuro para civilizações doentias que precisam de terra, planta, água e tesouros minerais. O exército que aparece destruindo tudo é o americano, mas Cameron finge que é uma tropa mercenária, como se fôssemos acreditar nisso. Os hominídeos seriam seres moralmente superiores, mas não passam de sub-raça (“baratas”, diz o coronelão) dedicada à magia e que imita a ferocidade dos bichos.

Os animais que aparecem em Avatar são inventados, já que os tradicionais - leões, rinocerontes, elefantes – estão no index politicamente correto. A saída foi criar bichos que cruzam aparências distintas para que a saga mantenha a rotina dos filmes americanos, em que a natureza é sempre ameaçadora, e seus habitantes precisam ser exterminados, ou no mínimo devem obedecer a um líder branco, tenha ele o disfarce que tiver.

Ambos os cineastas trabalham a dor encerrada em casulos indevassáveis. Sabemos que por mais bombas que sejam desmontadas, ou por mais fofos que pareçam os habitantes da floresta, prevalecerá a dor de participar do extermínio. A dor tem um código ainda não decifrado. Quem sabe eles começam admitindo a existência de outros países? Eis aí um bom caminho para deixar de ver a Terra como o lugar nefasto que precisa ser enquadrado.

8 de março de 2010

REPRESSÃO E PERMISSIVIDADE CONTRA A DISCIPLINA



Dois filmes opostos dizem a mesma coisa. A Onda (2008), de Denis Gansel, baseado no livro de Morton Rhue, por sua vez inspirado num episódio real acontecido em Palo Alto, na Califórnia, quando o professor de história Ron Jones tentava explicar o nazismo para seus alunos, em 1967, é sobre a necessidade da permissividade para evitar a repressão. Harry Brown (2009), de Daniel Barber, é sobre a necessidade da repressão para evitar a permissividade. Ambos são contra a disciplina, base da liberdade.

Os alunos de A Onda, criados no caos do excesso de liberalidade, tanto em casa como na escola, ficam fascinados pelos lugares comuns que formaram a juventude até a minha geração, ou seja, a ordem integradora e o respeito à coletividade. Mas isso, segundo o filme, leva ao fascismo. O velho fuzileiro aposentado Harry Brown, farto dos assaltos no gueto onde mora, resolve fazer justiça com as próprias mãos. Isso, segundo o filme, leva à diminuição da criminalidade. A solução, no primeiro, é manter o caos na formação dos alunos para não cair na tentação nazista. E no segundo é tocar fogo no gueto para que os cidadãos possam cruzar livremente o túnel para pedestres.

Sentar-se em aula como se você estivesse no sofá da sua casa é um vício de comportamento que estimula a preguiça e a arrogância. Vi isso quando, tardiamente, freqüentei a faculdade de História. Um dos alunos rodeava-se de cadeiras para colocar os pés, a pasta, o casaco, os braços, enquanto se estendia quase como numa cama no lugar feito para sentar. Como um sujeito desses vai levar a sério a educação? Cansei de falar aqui: se você transforma o ensino em algo lúdico, o que a meninada vai fazer no recreio, dar tiros?

O professor que dá um curso sobre autocracia confunde tudo em A Onda. Ele corrige postura, comportamento e exige disciplina. Era o que acontecia no meu colégio. Tínhamos também uniforme, não farda fascista nem nada, apenas uma camiseta com o logo da instituição e calça a gosto. Mas a uniformização eliminava as diferenças sociais, como é dito no filme. Mas isso jamais levou à formação de gangs e a Hitler. O que leva às gangs e Hitler é exatamente o oposto, a permissividade. Quando você aceita que meia dúzia de bandidos uniformizados imponham comportamentos para a massa e acha tudo muito bonito até que multidões comecem a ser levadas em trens imundos para a câmara de gás, a culpa não é da disciplina.

Trata-se de um crime contra a juventude incentivar a promiscuidade, o desleixo e a falta de cobrança. Quem está em formação precisa de parâmetros e isso só se consegue com disciplina. Não se pode deixar a meninada à mercê de traficantes, como acontece em Harry Brown. Racismo, indiferença e políticas públicas de exclusão levam ao desespero as novas gerações, que reage contra tudo e todos, de maneira caótica, sem ideologia nem finalidades. O “remédio” usado é a brutalidade policial, a incompetência das investigações e a vingança pura e simples. O filme poderia ser encarado como uma denúncia da situação, mas não cola. Celebra o que mostra e que deveria condenar.

Mas disciplina não é fascismo? Claro que não. As gerações criadas na disciplina lutaram não pela anarquia, mas pela seriedade no ensino. Fomos às ruas em 1968 não porque queríamos nos locupletar, mas porque faltavam vagas nas universidades públicas, porque a educação brasileira estava sendo pautada por um acordo com os Estados Unidos (o MEC-Usaid). Queríamos a disciplina com que fomos criados e víamos a traição impetrada pela ditadura. O resultado está ao nosso redor hoje: analfabetismo geral, evasão escolar, violência em sala de aula, decepção dos professores.

A solução não é a repressão nem a permissividade, mas a boa e velha disciplina, a que nos ensinava desde cedo a respeitar os outros e a entender melhor como funciona o mundo. Se alguém é criado como se não houve qualquer limite para nada, o resultado forçosamente é o tiro a esmo que atinge crianças, mulheres e idosos, como vemos em Harry Brown.

RETORNO - Dez horas antes da premiação do Oscar 2010 escrevi o seguinte no Twitter: "Oscar 2010, meus favoritos: Guerra ao terror, Jeff Bridges, Sandra Bullock, Kathryn Bigelow e O Segredo dos seus olhos". Acertei 100%! Apostei em Jeff e Sandra porque são grandes atores traídos pela imagem que se faz deles. São concentrados, talentosos, sem afetação, mas costumam ser vistos como superficiais e maneiristas, o que não é verdade. Era a hora deles. No filme argentino, porque o cinema argentino é hoje o melhor do mundo. E em Kathryn porque vi esses tempos The Hurt Locker, que significa um período de intensa dor, impossível de ser evitada. Nada a ver com o título brasileiro "Guerra ao terror". O filme aborda o horror e o fascínio da guerra e como vivem nela as vítimas - soldados e civis em conflito permanente. Um grande filme, que não justifica a Guerra do Iraque (isso não está em pauta), mas revela o grau de demência pessoal e coletiva da violência no Oriente Médio.

5 de março de 2010

OS PIRATAS USAM MÁSCARA


De que é feito um refrigerante? De água, naturalmente. Onde está a água? Nas florestas! O que é preciso para garantir a água consumida na produção do xarope, que é na base de 2,21 litros para cada litro de Coca-Cola, por exemplo? Tomar posse das regiões onde ela existe e intervir no entorno dos reservatórios, para não haver desperdício do recurso. Mas isso pode gerar controvérsia. O que faz o marketing? Coloca a máscara no monstro, para sugerir uma identidade de falso heroismo. Entra de sola no tal mercado de créditos de carbono e promove a celebração étnica, para provar que a corporação luta a favor dos direitos dos povos da floresta, que são os negros, segundo o paradigma triunfante das histórias do Fantasma (imagem acima).

O que é o mercado de créditos de carbono? É uma negociata internacional que começou a ser formatada na Eco-92 do Rio de Janeiro e que basicamente diz o seguinte: cada tonelada de emissão de CO2, a que em tese causaria o aquecimento global, culpado de todas as barbaridades climáticas da terra, equivale a um crédito. Se você polui, e uma fábrica de refrigerante polui, e a indústria petroleira idem, então você tem que ser multado. Mais barato do que a multa é comprar créditos de carbono, que em tese vai financiar a recuperação do meio ambiente danificado pelas indústrias. Trata-se de um desplante total: você paga para poluir. Mas há um problema na raiz desse troço.

Quando piratearam os e-mails de cientistas, descobriram que eles manipulavam os dados climáticos para provar o aquecimento global e assim justificar a tonelada de negociatas que está se fazendo em nome da teoria. Como provou Thomas Kuhn no seu clássico sobre as revoluções científicas, só com a morte de quem fez carreira com o paradigma haverá a aceitação das mudanças dos conceitos. Hoje estamos em plena maré alta do dinheiro arrecadado pelo aquecimento e toda insurgência fica parecendo apoio à poluição. Vejam a sacanagem. Os caras poluem, assaltam as fontes dos insumos básicos via programas especiais e ainda xingam quem denuncia.

Vejam o caso do “Programa Água das Florestas Tropicais Brasileiras”, da Coca-cola. O álibi é “promover a recuperação de bacias hidrográficas através do reflorestamento de matas ciliares”, numa base de 3 mil ha, com investimento R$ 27 milhões até 2011. A fase inicial está sendo realizada na Serra do Japi, Alto Tietê, estado de São Paulo.

“O programa foi desenhado seguindo as regras do Protocolo de Kyoto para ser elegível ao mercado de carbono, que contempla a recuperação de áreas de florestas devastadas. Com isto, o Água das Florestas já nasce com uma possibilidade adicional de recursos para a sua sustentabilidade. Para tanto, a implantação do programa foi precedida por fases de estudo, pesquisa e planejamento, incluindo análises físico-químicas da água dos rios, realizadas pela consultoria Plant Inteligência Ambiental. Para desenhar e planejar o programa, a empresa identificou as necessidades da região e a disponibilidade de recursos materiais e técnicos para a sua realização. A Plant também foi contratada pelo Instituto Coca-Cola Brasil para efetuar os plantios e fazer seu acompanhamento, com apoio conjunto de instituições de pesquisa e universidades.”

O programa conta com o patrocínio também da Coca-Cola FEMSA (que é a porção latino-americana da The Coca Cola Company), fabricante autorizado na região de São Paulo e Mato Grosso do Sul. A maior fábrica de Coca-Cola em capacidade de produção no mundo está sediada no município de Jundiaí, em região próxima à Serra do Japi, e pertence à FEMSA.

Pois muito bem. Agora vejam essa outra notícia. A água da Amazônia está sendo roubada por ações de biopirataria. Navios estão silenciosamente levando a água embora, ou nos seus tanques ou em grandes sacos que são arrastados pelo mar afora, para ser engarrafado e vendido na Europa e no Oriente Médio.

“Estima-se que o retorno de cada tanque com aproximadamente 5 milhões de litros de água do rio Amazonas. Para as empresas de engarrafamento, é consideravelmente menos dispendioso para tratar a água doce do que para consegui-lo através da dessalinização. O jornalista Erick Von Farfan foi um dos primeiros a apontar a exploração contínua de água da Amazônia. Ele diz que os cientistas e as autoridades brasileiras foram informadas de que navios petroleiros estão reabastecendo seus reservatórios no Rio Amazonas antes de sair das águas nacionais, de acordo com EcoAgencia, mas faltava a "queixa formal" necessária para solicitar qualquer ação.”

“Farfan salienta que a hidro-pirataria tem ligações diretas com empresas multinacionais”. O que uma coisa tem a ver com outra? Sei lá. O que vocês acham? Procuro entender a visita de Hillary Clinton à clareira étnica em São Paulo, patrocinada pela Coca-Cola, a embaixada americana e o sistema financeiro, um nicho político que substitui algo muito perigoso: a noção de identidade nacional, de nação soberana. Floresta é terra de ninguém, pode ser apropriada pelos espertalhões. País é mais complicado. Contraria a idéia de que existe um só império com acesso a tudo, cercado pelo Resto do Mundo.