Nei Duclós
Poucos gestos te definem
como o giro súbito do corpo na praia
quando o vento te surpreende e, seminua,
ris sem querer segurando a cabeleira
Poucos gestos te definem
como quando te espreguiças depois do banho
esperando que eu escolha a melhor forma
de me atirar em tuas pernas
Poucos gestos te definem
como a quebra do salto na pressa do samba
ou o arrastar de veludo da planta dos pés
na valsa que te deixa tonta
Poucos gestos te definem
como os lábios que espichas
quando não compreendes
acompanhados pelo olhar estranho
Poucos gestos te definem
como dizer não para minha esperança
e sim para ofertas por acaso
que me ocorrem entre o beijo e o colo
Poucos gestos te definem
como dobrar os joelhos para pegar a mala
sem desmanchar a maquiagem
e sair, miúda, pela porta afora
Poucos gestos te definem
como no dia em que voltas, de blusa aberta
sorrindo sacana essa vontade
de me comer a qualquer hora
Poucos gestos te definem
como tuas mãos navegando sem coreografia
os quadris radicais de tanto gozo
os seios explodindo sob a cara séria
Poucos gestos te definem
absurda mulher que me escolhe
e me permite viver depois de tanto exílio
dando de ombros para a eternidade
RETORNO – Imagem desta edição: Marilyn Monroe, em 1949.