Nei Duclós
Enfim falei o que estava trancado no peito. Recebi como
recompensa um sinal de que valeu a pena. Viver é essa perda maravilhosa de
tempo.
Este é um espaço de fantasia, prazer e sonho. Real como
qualquer outro.
Não vou permitir, entende? Sem amor, fica tenso. E pode
soltar o que nos deixa loucos.
Tinhas desistido do amor até que encontraste na calçada uma
porção de poesia sendo levada pelo vento. Foi quando viste a estrela diurna
mergulhar no mar invisível.
Quando nos encontramos, fazemos um brinde com a projeção do
que somos.
Mas não somos assim! me dizem. Claro que somos. Alguém nos
lê no Outro Lado do infinito quântico.
São teus olhos, que influenciam os meus.
Vai lá agora e dá um beijo nela, disseram todos. Tenho medo
de estragar tudo, disse o nerd.
Essa luz que nos enxerga e torna tudo liso e firme na
presença do frio, é a pintura do rosto claro do destino.
Agora, coração, se comporte. Tudo é frágil quando o mundo fica
iluminado.
QUIETA COMO NUVEM
Fomos de trem. Estavas quieta como nuvem. Ao chegarmos na
estação, agarraste meu braço e colocaste a cabeça em meu ombro. Foi quando
nasci.
Amor como explosão de supernova. Prazer em camadas, em
infinitos desdobramentos.
Fugiste de mim. Como castigo, ficaste grudada na parede,
ansiosa pela abordagem. Mas eu passei lotado, com tuas recusas em meu ombro.
Me escreva. Que eu lerei no exílio, quando sentar praça na
Legião Estrangeira.
Isso só se resolve ao vivo. Vê se aguenta.
Faz falta o poema. Vê se providencias um soneto. Preciso
para viagem.
Eu finjo que não quero para ficares menos tensa. Mas manténs
a defesa, que é a tua porção de fingimento.
Tudo é tão bonito. Tuas evasivas. Meus micos. E o destino
rindo de tudo.
Te ignoram, mas não importa. Deus tem um ouvido que só
vendo.
Fui devastado pelo silêncio. Não vivi, enquanto todos
compartilhavam a voz coletiva. Só os anjos sabiam e eles moravam em ti, musa
sem abrigo.
Venha me dizer o que pega. Que eu solto o que me trava.
BATOM E CÍLIOS
Faça o favor de vir, viração, fonte de conflitos. Venha,
batom e cílios.
Bati na porta da noite. Você atendeu.
Não há o que fazer, a não instalar-se nesse território que o
amor preparou de improviso. Ali acontece o melhor, à nossa revelia.
Demoras a aparecer porque estavas acostumada a não dizer.
Agora que está dito, venha, não se enrede tanto nas pétalas pingentes de uma
possível primavera.
O dia me chama mas não atendo. Estou ocupado ligando para o
poema que ainda não veio.
Não me leia, disse ela. Ainda estou me arrumando.
A palavra é o poder. Está trancada no palácio. Precisamos
resgatá-la montados no poema.
Quando nos tiram tudo, inventamos que pedrinhas comuns são
ametistas
Disfarças falando da Lua. E o meu beijo, arisca?
O risco que divide a Crescente de maneira perfeita perdeu a
forma e uma pequena sombra medrou no meio. É um aviso de Lua Cheia. Aí vem a
Rainha. Medo!
Crescente é Lua partida ao meio. Luz e sombra. Metade para
teu rosto claro, outra metade para teu sonho.
A Crescente está um exagero. Com pose de Cheia.
RETORNO – Imagem desta edição: Marylin Monroe.