11 de março de 2019

SEM INOCÊNCIA


Nei Duclós

Tentei na hora errada
escapar do meu destino
Reescrever o que estava firme
Abrir sem base um caminho

Voltei ao que penso ser a origem
Da palavra sem desacerto
Inocência do verbo quando era moço
o olhar ainda sem acordos

Serviu a lição, parei no tempo
Hoje me procuram mas sou só um esboço
Risco na areia para que o mar leia
E ninguém mais, muito menos eu mesmo


ARBUSTO


Nei Duclós

Solidão
Teu nome é pampa
Último arbusto antes da viração
Água que engole o horizonte
Sede do meu olhar
 
/RETORNO - Poema sobre esta belíssima foto de Marga Cendón)

VIVO CALADO


Nei Duclós

Vivo calado, admirador do silêncio
Escuto teu rosto
Glória do gênero
Por nada me apaixono, vela ao vento


VERBO NOCIVO


Nei Duclós

Tudo o que for dito
de verdadeiro e digno
será distorcido
Fica intacto o pacto
do mal com a língua
A frase sem sentido
O verbo nocivo

O que vale vai para o lixo
Como coisa imprestável
Desvio de conduta
Crime jamais cometido
Punição de injustiças
Toda poesia é suspeita
Dirão os verdugos

Não entenda pelo avesso
O poema não é inocente
Por ser adulto, profecia
em praça pública
Levado ao cárcere
diz a verdade, seu jugo
No dia livre da liberdade


MIRAGEM


Nei Duclós

Nada me interessa
A voz correta
A urgência do fato

Único foco é a palavra
Oásis de pedra
Refém do deserto

Saio para buscar água
Áspera sandália
A fonte fica na miragem


À DERIVA


Nei Duclós

Embalagens de ouro
Na prosa imodesta
Literatura que não dá no couro

Esquecem do amor
Bóia dos náufragos
O sonho que resta
Aos que perdem a pátria

O mundo à deriva
Num mar de miséria
Roupa no corpo
Rasgada na pele

E a vaidade querendo o trono