6 de junho de 2017

ÁLIBI DO POEMA



Nei Duclós

Tudo é permitido no álibi do poema
Qualquer crime em nome da liberdade
O uso perverso das palavras
O verso a distância do poeta

O pior são os argumentos, a máscara
aposta ao rosto verdadeiro
A vida chinfrim metida a épica
O romantismo de quem não se importa

Pode ser que a obra dure, pois gera renda
para quem participa do sistema
A literatura é apenas a muleta
das viagens ao exterior do nada

Ninguém vai atrás do autor anônimo
O que fez obra prima e se afasta
Quem compôs o que todos cantam?
O talento inventa e depois mata


4 de junho de 2017

O REPÓRTER QUE DESCOBRIU O INCÊNDIO



Nei Duclós

Wagner Carelli me contou esta história numa das muitas noites no Bar Redondo. Ele era novo no jornal e foi cumprir uma pauta num lugar perto da sede do Estadão, em São Paulo, naquela época situada no centro da cidade. Mas mudou de assunto, pois viu que o edifício Andraus, na esquina da São João com a praça da República, estava pegando fogo.

Ligou para a redação informando sobre a tragédia e que estava a postos para fazer a reportagem. Ficou no prédio em frente acompanhando o trabalho dos bombeiros e o desespero de quem se aglomerava na cobertura do Andraus tentando escapar da morte certa. Viu quando o governador chegou de helicóptero para falar com as vitimas.

Voltou para a redação e começou a narrar os fatos. Uma colega veterana veio ler por cima do seu ombro e falou. Ei, por que a cena do governador está no pé do teu texto? Você deve abrir com isso. Carelli, obedeceu. Abriu com o pé do governador pisando na cobertura.

Assim começou a carreira brilhante deste jornalista em início de carreira em 1972, gênio confirmado depois ao inventar a revista Bravo! (comprada e destruída mais tarde pela Abril, que tinha medo da concorrência), e escrever textos antológicos como o Precoce Verão dos 80 na IstoÉ, que causou um terremoto no jornalismo dominado pelo deslumbre aos anistiados, e hoje entrevistador no filme bomba O Jardim das Aflições,

Wagner iria escrever um texto tradicional mas foi alertado para a possibilidade de fazer melhor e diferente. Isso num grande jornal, sinal de que havia espaço para a criatividade inclusive nos fatos mais urgentes. Só porque é notícia de última hora não precisa ser escrita de maneira tosca.

Dizem que as antigas redações eram românticas, mas ninguém cometia obviedades e burrices como acontece hoje a três por quadro, pois havia um corredor polonês de cascudos e orientações dos escribas veteranos. Ao chegar num jornal, você era adotado pelos mestres e se encaminhava para a vida.

No caso do grande incêndio, não tiraram o crédito do estreante, antes o incentivaram a fazer o melhor e mais importante texto de sua vida. Assim se comportavam as pessoas com coragem e talento daqueles tempos.


CÓDIGO SECRETO



Nei Duclós

A palavra como código secreto
O sentido pelo avesso
Proposta de uma charada
Senha entre combatentes
Mapa feito em pedaços
Gesto que não se emenda
Refeição de acampamento
Cobertor partido ao meio

Palavra ainda no berço
Águia no primeiro voo
Flor precoce pantaneira
Pétala marcando página
Poema dito na infância

Palavra como um espelho
Teu rosto a torto e a direito
Ramo por trás do aço
Para evitar que os raios
Caiam matando tempo

Palavra, dom de si mesma
Inventa o próprio começo


2 de junho de 2017

ESPAÇO PEQUENO



Nei Duclós

Poema ocupa espaço pequeno
é vento, sopra sobre a luz da lua
inventa eco para prover tormenta
no poço torturado pela seca

Poema colhe flor fora da moldura
É desavença, encontro demorado
Joga pesado quando há confronto
Pega leve, farol bordado pela seda

Amor só existe em canteiro
com raiz, caule e espinheiro
entre ervas, sob sombras
toque de visgo e de sonho



AGULHAS



Nei Duclós

O balanço do dia é feito em segredo
Agulhas riscam o papel de seda
Inventário de azulejos, frias letras
E um tambor que bate no ermo

Perdi tempo, é a verdade evidente
As mãos não obedecem a sequência
E tudo se perde, junto com o sentido
Há pilhas de papéis e discos quebrados
Um começo de inverno, um jardim suspenso

A hera não medra no muro de arrimo
Empilho o tijolo dos desafetos
Estaríamos livres não fosse esse medo
Impossivel viver quando a vida é um crime


UM SOPRO




Nei Duclós


Não quero deixar-te com a palavra amarga
Ser substituído por pesada carga
Deixar insolúvel a vida precária
Em teus braços de vidro num deserto de sal

Quero deixar-te pássaros que libertei em vida
Um sopro de brisa que colhi contigo
Patrimonio comum de um amor que vibra