25 de agosto de 2011

JACK O MARUJO NO COMANDO


Nei Duclós

“Como vivi até hoje sem conhecer Jack o Marujo? Genial, para dizer o mínimo”, disse @lilianbuzzeto, uma das mais veementes e indignadas escritoras brasileiras que navegam na internet full time. Isso incentiva este jornal e colocar aqui mais uma seleta de grandes tiradas do velho capitão. O fato é que o cara não para de falar, já que sempre tem alguém lhe fazendo alguma pergunta.

Respeitamos sua opinião, disse o capitão dos portos. Então passe uma vassoura no tombadilho, disse Jack o Marujo

Vamos confiscar o barco e o sr. vai para o Asilo dos Velhos Marinheiros, disse a autoridade. "Nosso asilo é o alto mar", disse Jack o Marujo

Cansei de navegar, vou ser funcionário público na capital, disse o Imediato. Melhor, oferenda ruim o mar devolve, disse Jack o Marujo

O sr. não tem mais condições de levantar âncora, disse o fiscal. Não se preocupe, disse Jack o Marujo. Quando quero partir basta um suspiro

Estou fazendo matéria sobre a revolução no comportamento dos anos 50 aos 70, disse o repórter. Elvis e Raul estão mortos,disse Jack o Marujo

Vamos combinar que você seja um idiota, disse Jack o Marujo. Tudo o que disser no Twitter será uma bosta. Isso não desqualifica o Twitter

O Sr. vai embora? perguntou a admiradora. “Um marujo é feito de partidas. O reencontro no cais é só mais uma forma de solidão”, disse o velho marinheiro

Fica com Deus, disse a crente. Deus tem outro compromisso, disse Jack o Marujo

O que causa as guerras? perguntou o estudante. Testosterona vencida fazendo pose, disse Jack o Marujo

Não tenho mais saco para midia social, disse o micreiro. Ótimo, disse Jack o Marujo. Vai lá no armazém e me traz uma garrafa de rum

Muito frio nas viagens? perguntou o meteorologista. "O problema não é o clima em alto mar, mas a dureza em terra firme" disse Jack o Marujo

O sr. já discutiu a relação?perguntou a conselheira.Já, mas não levo jeito.Por falta de argumento passo a mão nas coxas, disse Jack o Marujo

"Acho que ela gosta de mim. Sempre que me declaro, ela ri", disse o Grumete. Procure outra, disse Jack o Marujo

Já pedi desculpas,disse o Grumete. Fez bem. Agora vista a melhor roupa e a convide para dançar. Não vá contar sua vida, disse Jack o Marujo

Cante um poema, disse Jack o Marujo. "Morri, mas ninguém deu bola. Aí desmorri. O amor, que está acima de tudo, me despertou",disse a sereia

Quer dizer que amor é só imaginação? perguntou o Grumete. É mais do que isso, disse Jack o Marujo. É anzol, mas você precisa usar o arpão

Não quero ninguém, disse a narcisista. É bonito de se ver esse amor entre você e você mesma, disse Jack o Marujo

O consultor entra na sala para fazer a palestra e o primeiro da fila avisa: “Se falar em quebra de paradigma, morre”. Adivinhem quem foi

“Acham que sou importante e querem me conhecer. O que faço?” perguntou a celebridade virtual. Confesse que você é pobre, disse Jack o Marujo

"Sorte da surfista que foi salva pelo sr.! Rolou algum sexo no barco?" perguntou o repórter. Tua mãe não estava lá, disse Jack o Marujo


RETORNO - Imagem desta edição: o capitão Ahab, genial performance de Gregory Peck em Moby Dick.

UM POEMA QUE FAÇA COMPANHIA


Nei Duclós

Um poema que faça companhia
como irmão que volta do exílio
amante que faz a cama
pai que te dá colo

Um poema que faça companhia
como fada enviada pela Lua
aia em bodas de safira
faísca da estrela guia

Um poema que faça companhia
sobre os destroços e ruinas
sobre sonhos sinistros
campos de veneno

Que seja teu forte, teu corpo
no embate com o monstro
e óbvio feito açoite
estalando no breu

Um poema ao teu lado, criatura
de sopro e esforço
junto ao barro, o amor
que esconde o escuro


RETORNO - Imagem desta edição: safira. Tirei daqui.

24 de agosto de 2011

O ROLO DA SITUAÇÃO


Nei Duclós

Nem bem a maquiagem para pintar a cara saiu da gaveta e a faxina já deu sinais de cansaço. Era tudo mentira, claro, como diria Tarso de Castro. Base aliada não abre mão do sistema, que garante o acesso indefinido ao butim, da bufunfa desviada desde a merenda escolar municipal até o uso do helicóptero de 16,5 milhões da PM para o lazer. Mas as evidências não desarmam os espíritos aparelhados, contra os quais debato incessantemente no Twitter e Facebook. Vejo também nos blogs cabeças esclarecidas embarcarem na ilusão de que o Planalto estaria refém do esquema que capitaneia. Isso é tão absurdo quanto um unicórnio sendo devorado por borboletas asiáticas. Qual a fonte do rolo da situação?

A fonte dos equívocos é o diagnóstico que se faz da realidade. É a percepção formatada em linguagem que está atravessada por nós sem perspectiva de solução. Isso se reflete em todo o espectro social. Nem sei por onde começar. Podemos pegar o caso dos menores de idade. Para defendê-los, criou-se um estatuto que serve também para proteger o crime, já que o mandiocão de 17 anos, que estupra e mata, é considerado “dimenor” (corruptela de linguagem jurídica que reflete bem a incapacidade de lidar com o problema). E meninos são os aviões do tráfico. Qual o rolo?

A humanidade não nasce inocente, nasce zerada, o que é outra coisa. Se não implantar nela a cultura, brutaliza. Se a lei não pressionar, será criminosa. Crime, em qualquer idade, precisa de punição. Não adianta apenas enxugar gelo e trancafiar os meliantes mirins que aprontam sem parar, como já está acontecendo com gangs de crianças de 10 anos que apavoram hotéis e pedestres e quando presos destroem a delegacia. Precisa enquadrá-los cedo. E isso só pode ser feito por uma rede idônea de autoridades, o que não temos, pois o crime está instalado na cúpula e se dissemina por todo lugar.

Podemos pegar a literatura. A situação é complicada. Toda a pressão exercida pelos autores emergentes (em cada região, milhares de autores) ou marginalizados (em cada geração, milhares de escritores) bate no paredão do cinismo instalado no poder, nos concursos nicados (como todos sabem, principalmente os que envolvem altas granas).

Como há incompetência para conviver com tanto barulho, costuma-se selecionar algumas cabeças coroadas e atribuir a elas tudo o que de importante ou interessante é escrito pela massa de escribas nolimbo. Por isso hoje temos Einstein autor de auto-ajuda, Mario Quintana injustamente sendo alvo de poesia de platitudes e a Clarice Lispector, coitada, assinando tudo que é abobrinha.

A culpa é da internet! dizem os famosos analógicos, os que não suportam a concorrência de milhões de novos escribas que a cada segundo emitem suas obras. O que era dito antigamente como pose – aquele tom democrático dos falsos gênios que falavam “ora, sou apenas uma pessoa comum”, mas ficavam sentados no trono - hoje é uma realidade incômoda para quem quer disputar lugares bem fornidos, como academias, diretorias, exílios dourados, aposentadorias régias etc.

Na política temos uma ditadura civil mascarada de democracia, como canso de falar há anos por aqui, uma evidência que cada vez mais é provada pelos fatos. O rolo da situação atingiu todas as instituições, já que a condenada, juridicamente, distribuição de dinheiro público para comprar votos no Congresso, o mensalão velho de guerra, prescreve nas fuças da nação indignada. Enquanto isso, continua a terceirização de responsabilidades para o eleitor acossado, que não tem opção senão as vetustas raposas, os burocratas novidadeiros, os palhaços introduzidos nas campanhas por dinheiro farto etc.

O que você fizer em qualquer nível de vida social terá sempre pela frente a negociata, o acordo pífio, a imposição bruta. Não há margem para a inteligência. Esta, só tem uma saída: desmascarar o discurso que segura as pontas da canalha, para criar condições de uma ação mais efetiva, que não caia na esparrela das caras pintadas ou das fichas limpas (que só servem para limpar a ficha dos fichas sujas). Convencer quem está envolvido por ela que o buraco é bem mais embaixo. Argumentar sem emitir “opinião”, já que não implica voluntarismo do pensamento e sim lógica e transparência, para usar uma palavra contaminada.

O discurso fajuto toma conta do sistema corporativo, todo ele envolvido pela especulação financeira, a entrega da soberania à China,o arrocho tributário, a exportação de proteínas e de recursos naturais, um regime que gera bilionários e miseráveis, enquanto as casinhas dos pombais da ditadura de sempre proliferam enriquecendo tubarões imobiliários e aimenta o discurso oficial, que se manifesta por campanhas publicitárias milionárias. Bandidos atacam postos policiais e estes fecham. Qual a solução encontrada? Propaganda cara mostrando montes de policiais fazendo continência.

É porque o discurso decide a parada, a formatação do imaginário é quem tem a chave da cadeia. Precisamos achar o segredo desse mecanismo e escancarar as portas para a liberdade.

RETORNO - Imagem desta edição: tirei daqui.

23 de agosto de 2011

AS RUÍNAS DO DISCURSO


Nei Duclós

Sobre o livro “Um copo de cólera”, de Raduan Nassar

A oposição fundamental que existe neste pequeno texto de Raduan Nassar não é entre um homem (desiludido e de meia idade) e uma mulher ( jornalista e liberada) È, antes, um duelo entre a linguagem e o discurso, entre o corpo e a cólera. São dois elementos que, aparentemente feitos da mesma matéria-prima, possuem rituais diferentes e evoluem em espaços desiguais.

O corpo ( a linguagem) é a redenção permanente, o desdobramento do prazer através da proximidade, do detalhe oculto numa vitrine de formas. A cólera ( o discurso) cabe num copo: sua arma é a transparência e o seu desespero é a própria limitação. Transbordar significa também apagar-se: por isso, a desproporção entre os inimigos define o desenlace. Para o escritor, a vitória da linguagem sobre o discurso é o único desfecho insubstituível. Pois vencer é cumprir o destino, é redefinir o drama, é render-se ao mito.

Uma rendição honrada que consegue também subverter a ideologia da guerra: as frases não são enxutas nem curtas, são úmidas e enormes; a palavra, mais do que um signo, é a mão, um braço; a pontuação não funciona apenas como recurso, são feridas abertas; os capítulos não compõem um jogo, não brincam de roda, nem obedecem aos caprichos da leitura: ao contrário, assumem um caminhar, criam a carne.

O casal criado por Raduan Nassar encarna a complexidade dessa trama múltipla, onde o texto, única realidade, procura a transfusão salvadora. Abre pacientemente as veias, irriga o território, modela as curvas, incendeia o sexo. Nada resta mesmo para o escritor, explorado e nu em seus segredos, do que insistir no sagrado, manobrar o silêncio, conviver com a dissonância, extrair o sopro.

O escritor sabe que a linguagem, para sobreviver à pulverização, ao ataque do discurso, recolheu-se às fontes e espera. Contrair suas águas, penetrá-la com a degradação da cólera, é provocar o debate. Seguindo no mesmo ritmo: é preciso substituir a mímica pela química, a ciência pelo feitiço, a emoção pelo esporro, o coração pelo toque.

Só assim é possível entender o abismo do casal de Raduan Nassar, separado pela linguagem em ruínas - o discurso -, mas unido pelas verdades do corpo. A narração - pólvora seca - acende o estopim: a cólera toma a maior parte do tempo, mas a carne encontra o seu caminho ao transbordar sobre si mesma. Ela assim define o forma, selecionada do escombro. Aqui, nenhuma rendição. Apenas o ofício de escrever e seu espólio: o livro, em plena forma; e o escritor, seu translúcido operário.

RETORNO - Publicado na revista SENHOR, em 17 de outubro de 1984.

RECITAL


Nei Duclós

Recito um verso por minuto
alimento o tempo que furto
urge o confronto maiúsculo

Reviro o acervo de sustos
herança que deixo nos muros
bicada por pássaros bruxos

Torço os arames dos vínculos
remo no rumo dos truques
solto os cachorros nas urzes

Preciso de verbo em cartuchos
disparo nos alvos ocultos
acerto em quem se descuida

Vogal de caneta esdrúxula
moral de almanaque futuro
rondó de teatro nas nuvens

Recebo uma carta de surras
percebo o momento da luta
recito este verso por último


RETORNO - Imagem desta edição: cartaz-poema de Alexander Rodchenko. Tirei daqui.

20 de agosto de 2011

AMOR É RUPTURA


Nei Duclós

Amor é ruptura, do breu extrai
a ametista, a bruma mista
de capuz e Lua

Amor é crua dimensão da vista
quando apruma a coluna
sobre a proa

Amor é fria contenção de cítaras
palavras sem sentido
só balido e urro

Amor é composição de espinhos
ordem na fogueira
valsa de conflitos

Amor é duende quando sai da gruta
e assombra a profecia
com estampidos

Amor se ouve além de Júpiter
na viagem ultra-estelar
do nosso grito


RETORNO - Imagem desta edição: tirei daqui.

ALMANAQUE DE AGOSTO


Nei Duclós

O mês de agosto foi generoso na safra de boas frases no twitter. A seguir, coloco algumas, seguidas de outras que versam sobre dicas, economias e coisas quetais.



Refletir é para espelho. Gente diz na lata

Quem matou Norma foi a Exceção

Tudo se repete, com poucas exceções, que são a pior parte

O governo é uma droga. FHC quer liberar

Os outros são os outros. O inferno são esses aí

Hacker do Oriente Médio, baterista e defensor do meio ambiente, chama-se Al Goritmo

Os arqueólogos sabiam que aquele lugar exato tinha sido a Atlântida porque descobriram gigantescas estátuas de Anselmo Duarte e Eliana

Impressionante: garrafas PET serão usadas como garrafas PET

Pronto, acabou o Dia dos Pais. Devolvam os presentes

O Brasil não tirou milhões da pobreza. Transformou milhões de pobres em consumidores inadimplentes

O mais trágico é computar o montante da dívida da "nova classe média" como receita e especular em cima

Laranjas para pagar propinas agora serão fornecidas pela agricultura

Se a fala fizer muito sucesso antes de ser dado o crédito, o emissor se empolga e cala sobre esse detalhe

Liberam verbas, liberam suspeitos, liberam bandidos, liberam ministros, liberam governo. Deve ser o tal liberalismo

Tem gente que em vez de ir para um spa ficam fazendo spam sobre dietas

Orkut é castelo mal assombrado de parque infantil. Spam é pistoleiro de aluguel. E-mail é motoqueiro. Face é promoter. Twitter é repórter

Quando os atores da Globo desconfiam, eles mexem os olhos para a direita e a esquerda.Arregalam quando se surpreendem e apertam se querem saber

Em política, fazer o dever de casa é contar o dinheiro da propina depois do jantar

Transparência é quando todo mundo enxerga o roubo

Montante da dívida impagável da "nova classe média" é computada como receita pela especulação. Equivale ao crédito podre imobiliário de 2008

Mantenha distância e boas relações com desconhecidos. Finja que entendeu o que ele tentou lhe dizer tentando quebrar o gelo. Treine caras

Prepare bem o leitor para o que você vai dizer. Anuncie, encha-se de dedos e na última linha, diga! Essa é a abertura do seu texto. Refaça

Escreva cem linhas. Jogue no lixo e tente dizer, de memória, tudo aquilo em 140 toques

As falsas profissões medraram junto com a explosão da indústria financeira internacional. Governança de conteúdo. Gestor de biodigestor.

Agora, um bom médico ou um bom engenheiro está cada vez mais raro. Sobram auditores de rolhas impregnadas de bouqet rose

Pagando caro pela sobra da proteína exportada, brasileiros remuneram a quebra de preços dos produtos agrícolas provocada pela especulação

Se o sujeito não estiver sendo regiamente pago, não possui capital simbólico.A besta é convocada para pontificar porque a cama já está feita

O desprezo intelectual tem origem numa fonte remunerada. O dinheiro pago empresta esse ar de soberba de algumas cabeças em relação ao resto

"Mas este Foucault é edição recente!" disse o saqueador de livraria. "Na próxima roube Harry Potter", explicou o receptor do mercado negro


RETORNO - Imagem desta edição: Eliana e Anselmo Duarte, estátuas de Atlântida, numa piada exclusiva para veteranos.

O SOMBRA


Nei Duclós

Sempre que chega perto da meia noite,
os relógios sentem um calafrio.
Não é por nada. É que nesse horário
costuma passar o temível Sombra

Sombra gosta de entortar relógios,
fazendo-os andar para trás. Quando
conseguir reverter todos os que há
no mundo, amanheceremos de uma vez

Os relógios sabem que Sombra se dedica
a uma missão impossível. Poderiam apenas
achar que é um chato, mas existe
algo nele que mete medo

Talvez seja o jeito meio curvado.
Ou seu passo pesado, como betume.
Ele deixa marcas por onde pisa.
Os panos morrem tentando apagar os rastros

Sorte que ele aparece só à meia noite.
Seria impossível aturá-lo a cada badalada
Sorte, não. Agora é a sua hora.
Há pânico no Tempo

Agora! Relógios com ponteiros
são os que mais sofrem nas mãos do Sombra.
Os digitais também não escapam,
mas por qualquer coisa, apagam-se


RETORNO - Imagem desta edição: The Shadow, criação de Walter B. Gibson. Bom nome. Inspira novos personagens.

JACK O MARUJO PRONTO PARA VIAGEM


Agora é oficial: massa de admiradoras e admiradores lotam a caixa postal daquele barco ancorado à beira mar. Autoridades enviam mensagens convidando Jack o Marujo para eventos importantes. Tem uma agenda cheia para apresentações de norte a sul do país. Recebeu um gentil recado dos argentinos de Mendoza que querem vê-lo ao vivo e usufruir de suas tiradas. Jack até está caprichando no sotaque. Diaz cueca cuela como ninguém. Mas temo que ele desista da fama súbita e fuja para o alto mar. Está acostumado. E sente saudade das escamas. Não há sereia em terra firme. Enquanto ele está por perto, aproveito para anotar suas mais recentes declarações.

Tem sereia de coração partido que foge levantando vôo, diz Jack o Marujo. Ela procura o cara solitário do alto da gávea

Não gosto de matemática, disse o Grumete. Pois volta e avisa o cara que se errar o troco de novo eu penduro os dois no mastro, disse Jack o Marujo

Hoje é o Dia Mundial da Sereia, disse o Imediato. Bem que eu notei que estavam todas emburradas, disse Jack o Marujo. Esqueci da data

Deixei o governo, agora vou ser um sujeito ético, disse o oportunista. Impossível, disse Jack o Marujo. Você não cabe mais no personagem

Queria fazer stand up mas ninguém acha graça, disse o Grumete. Diga algo ofensivo, mas como se fosse um bom dia, disse Jack o Marujo

"Todas para o tombadilho!" disse Jack o Marujo. E os homens? perguntou o grumete. "Esses pra prancha.Tubarão precisa sobreviver"

O sr. então não vê o noticiário de TV? perguntou o foca. Não, minto por conta própria, disse Jack o Marujo

Foste à passeata contra os desmandos? perguntou a militante. Desisti, disse Jack o Marujo. Quem protesta não pode ser gordo. Não convence

Está lendo o jornal do século passado! disse o gari. É divertido, disse Jack o Marujo. Principalmente as notícias sobre o futuro

Meça suas palavras! disse o catequista. Já medi, disse Jack o Marujo. Tem as mesmas dimensões da minha adaga.

O sr. faz o maior sucesso com as mulheres, disse o Grumete. A concorrência anda fraca, disse Jack o Marujo

O Inferno são os outros, disse o intelectual citando Sartre. Os outros são os outros . O inferno são esses aí, disse Jack o Marujo

Você me entende? perguntou a bela senhora. “Não, mas não vem bem ao caso”, disse Jack o Marujo

"É só o querer", explicou Jack o Marujo para o casal."Independe às vezes até de corpo. É aquele pote de mel que sobe pelo sangue da vontade"

“Perca seu tempo com o que você realmente acha importante. Como desenhar nuvens ou imaginar naufrágios. Se alguém interromper, rosne” (JoM)


RETORNO - Imagem desta edição: tirei daqui.

19 de agosto de 2011

NOVO TESTAMENTO


Nei Duclós

Se Deus fosse um pesadelo
a chance de acordar seria o tempo
e o gosto de dormir a nossa igreja

Ninguém poderia combatê-lo
a não ser o sonhador e sua teia
cercando a neve em incêndio

Abraçado ao luar, viria o peixe
nesse ataque feito de surpresa
e pássaros voando sobre o gelo

Mas despertar não seria Deus exposto
em carnes penduradas pelo susto
ou asas condenadas à frieza

O levante se faria em outro plano
com o avanço da manhã de seda
desabando os materiais do sonho

Deus assim mostraria um novo rosto
aberto como alguém que vem de longe
oculto para não perder o fôlego


RETORNO - 1. Imagem desta edição: Cristo Redentor em reforma. Tirei daqui. 2. Poema do livro No Mar, Veremos, já postado aqui no Diário da Fonte em 2003.

16 de agosto de 2011

ARRIETTY, A CHAVE DO TAMANHO QUE ABANDONAMOS


Nei Duclós

Em 1952 a inglesa Mary Norton começou a lançar uma série de livros que no Brasil, quando traduzido mais tarde, ganhou no nome de Os Pequeninos . No original é The Borrowers, ou Os Emprestadores. É sobre seres minúsculos (4 cm) que moram escondidos nas casas e tomam emprestado tudo o que for necessário para viver. Fica assim defendida a ética desses personagens, que não seriam ladrões, mas pessoas decentes, pois não se apropriam do que pegam, apenas as usam. Para devolver mais tarde? Não faz sentido, mas o importante é não dar mau exemplo ao público infantil. A não ser que seja uma representação da dependência entre espécies diferentes, fundamental para a sobrevivência de todos.

Dez anos antes, em 1942, Monteiro Lobato lançou sua obra-prima, A Chave do Tamanho (sempre imaginei que esse livro daria uma magnífica animação) sobre como a humanidade ficou minúscula e teve que enfrentar a vida contra gatos, pássaros e outros predadores. É exatamente o que acontece na história inglesa, adaptada em 2010 de maneira genial pelo estúdio do mestre japonês Hayao Miyazaki. A direção de Kari-gurashi no Arietti (Arrietti Pega Tudo Emprestado), ou simplesmente Arrietty, a garota que vai completar 14 anos e mora com os pais e é descoberta por um menino normal, é do discípulo de Hayao, o jovem talento de 37 anos Hiromasa Yonebayashi, que trabalhou no departamento de animação dos clássicos Princesa Mononoke, A Viagem de Chihiro, O Castelo Animado e Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar.

Quando lembramos de Walt Disney,queu assinou tudo o que talentos da sua equipe criaram (só mais tarde ficamos sabemos de Carl Barks e outros criadores), temos de prestar atenção na seriedade e na ética do gênio Hayao, que assim repassa o crédito para quem o acompanha e aprende com ele no seu Studio Ghibli. Arrietty é sobre um tema recorrente, o rito de passagem da menina para a mulher, como acontece tantas vezes nessas obras-primas da animação japonesa. Para variar, o filme é um assombro visual e narrativo, com detalhes impressionantes e uma ação pautada pela perseguição aos pequeninos e como eles fazem para sobreviver. O foco é o amor, a vontade de viver e a fantasia.

O garoto normal que descobre a garota minúscula sofre do coração e está na casa da avó descansando, deitado a maior parte do tempo. É obrigado a se mexer quando a malvada empregada da casa, Haru, descobre a existência da mini-família e decide chamar os Exterminadores. A família dos pequeninos pode ser vista como fruto da imaginação do garoto confinado, que precisa de estímulo e apoio, já que sofre de uma orfandade brava, pois perdeu o pai e a mãe vive viajando. Essa fantasia, confinada no porão, aflora em forma de menina-moça, a garota corajosa que tenta romper os limites familiares estimulada pela curiosidade própria da idade e para cumprir seu destino de criatura amorosa em busca da realização.

O encontro e a despedida entre os dois são duas cenas antológicas, de fazer chorar as pedras. A impossibilidade do amor em dois mundos paralelos e incomensuráveis, ligados por um sentimento confuso e esplendoroso, jorra nesses momentos encantadores e toma conta da tela. Os dois ganham algo com o sonho que os aproxima: ele sabe que para se sair bem da cirurgia precisa acreditar em viver e ela descobre que para crescer precisa romper com a tradição e ao mesmo tempo manter-se fiel aos princípios que definem a decência de seu ambiente.

A música, maravilhosa, do filme foi composta pela francesa Cécile Corbe. Arriety foi lançado há poucos dias na França e na Inglaterra e está para chegar ao Brasil e aos Estados Unidos. O Brasil já tinha o plot, mas vocês sabem o que fizeram com o Sítio do Pica-Pau Amarelo: destruíram tudo na TV. Tínhamos estatura, tínhamos tamanho e dispúnhamos da chave. Mas foi tudo abandonado. Pior para nós. Os estrangeiros sabem o que fazer com uma idéia brilhante, que é clássica na literatura, a começar pelas Viagens de Gulliver.

Depois de ver, emocionado, a história da menina que guarda para sempre o amor do garoto que a descobriu e protegeu, liguei na TV aberta. Passava um filme asqueroso, numa cena de banheiro,alguém travestido fazia caretas sentado no vaso. É assim que a bandidagem funciona no Brasil: desabitam o espírito da coletividade com toda sorte de baixaria e deixam no limbo as maravilhas produzidas na nossa época, que tentam exatamente reverter a avassaladora onda de barbárie que toma conta do mundo.

RETORNO - Algumas informações para este artigo foram tirados do IMDB, o grande portal de cinema mundial e deste site.

15 de agosto de 2011

JACK O MARUJO PESA A BARRA



Nei Duclós


Jack o Marujo rola numa birosca do cais quando não está com as sereias em alto mar . Lá se junta a más companhias, os que se refugiam do mundo politicamente correto, onde acaba escutando conselhos perversos para incrementar seu acervo de barbaridades. Às vezes chega a desconfiar daquela conversalhada e leva a mão à adaga. Mas o papo regado a rum falsificado em Bertioga inspira Jack numa série de respostas a todos os tipos de visitantes. A seguir, uma seleta das coisas que ele tem dito nessa fase mais barra pesada.

"O sr. já achou uma ocupação?" disse o delegado numa visita surpresa. Já, disse Jack o Marujo. Fui contratado para matar seu cachorro

Sou turismólogo, disse o corrupto. “Achei que isso só desse em rabo de girafa”, disse Jack o Marujo

Não quero mais viver! disse o suicida amarrando uma pedra no pescoço. “Há melhores maneiras de impressionar uma sereia”, disse Jack o Marujo

Sou promíscuo, confessou o grumete, dividido entre o orgulho e a vergonha. “Como assim?” perguntou Jack o Marujo.”Te apaixonaste por um cardume?”

Por que sereia não gosta do sol? perguntou o grumete. “Porque tem medo de amanhecer sendo colocada na brasa”, disse Jack o Marujo

O que o Sr. acha da corrupção? perguntou o comunicador. Deixar o dinheiro público na mão dessa canalha é abandono de incapaz, disse Jack o Marujo

As coisas nunca mudam no mundo, disse o grumete. Mudam sim, disse Jack o Marujo. De repente você bate as botas e o mundo desaparece

Enfurnado no Hotel dos Marinheiros o sr. perde o espetáculo feminino lá na praia, disse o grumete. Tenho minha luneta, disse Jack o Marujo

Fiz uma cirurgia para aumentar os seios, disse a vaidosa. Fez bem, disse Jack o Marujo. São providenciais na hora de boiar

Para onde foram todos? perguntou o micreiro. Abandonaram as mídias sociais? "Parece que dançar coladinho voltou à moda", disse Jack o Marujo

Vou voltar para o orkut, disse o grumete. Isso aqui está virando um Titanic. Vai, vai, disse Jack o Marujo. Aproveita e brinca de fazendinha

Quero o sim sem compromisso e o não longe da dor, disse o noivo. Tarde demais, disse Jack o Marujo. Me convidaste para padrinho. Agora casa

Se o sr. não mergulha e a sereia não sobe no barco, o que acontece entre vocês? perguntou a curiosa. Trocamos e-mails, disse Jack o Marujo

Porque o sr. tem esse nome estrangeiro? perguntou o grumete.Nasci no alto mar,disse Jack o Marujo.Terra de ninguém,lugar sem porto.Sou vento

"Está tudo funcionando. Podemos zarpar?" Não quero mais sair já,disse Jack o Marujo. Crie uma nova versão dos preparativos, que assim atrasa

Sou um zero à esquerda, disse o garoto. Permaneça assim, aconselhou Jack o Marujo. Si se mexer, vão dizer que foste para a direita

Meça suas palavras! disse o catequista. Já medi, disse Jack o Marujo. Tem as mesmas dimensões da minha adaga.


RETORNO - Imagem desta edição: tirei daqui.

13 de agosto de 2011

A MANHÃ SEGUINTE (tradução)


A MANHÃ SEGUINTE
(The Good-Morrow)

Por : John Donne
Tradução: Nei Duclós

Minha fidelidade faz um balanço e pergunta:
o que você e eu fizemos até nos amar?
Usufruimos prazeres do campo e da infância?
Dormimos numa caverna como os sete cristãos
por anos, perseguidos pelo imperador romano?
“Foi assim”. Mas desse jeito prazer é só fantasia;
Se por acaso alguma vez vislumbrei a beleza
foi graças à projeção de um sonho nascido de ti

E agora no despertar das nossas almas
quando nos vemos sem um pingo de medo;
amando plenamente com todos os sentidos
num quarto onde cabe o mundo inteiro;
vamos deixar os descobridores irem embora
com seus mapas que mostram outras terras
e apenas ocupar o lugar que nos pertence
como sempre acontece a cada amante

Meu rosto no teu olho e vice-versa
e os corações a pleno fazem o resto;
Onde encontraremos dois hemisférios
tão perfeitos, sem a soberba do norte
ou o declínio do oeste?
Se um de nós morrer, não nos dividiremos
pois nossos amores são um só, ou você ou eu
amor tão unido que jamais se rompe e ninguém some


THE GOOD-MORROW.

by John Donne

I WONDER by my troth, what thou and I
Did, till we loved ? were we not wean'd till then ?
But suck'd on country pleasures, childishly ?
Or snorted we in the Seven Sleepers' den ?
'Twas so ; but this, all pleasures fancies be ;
If ever any beauty I did see,
Which I desired, and got, 'twas but a dream of thee.

And now good-morrow to our waking souls,
Which watch not one another out of fear ;
For love all love of other sights controls,
And makes one little room an everywhere.
Let sea-discoverers to new worlds have gone ;
Let maps to other, worlds on worlds have shown ;
Let us possess one world ; each hath one, and is one.

My face in thine eye, thine in mine appears,
And true plain hearts do in the faces rest ;
Where can we find two better hemispheres
Without sharp north, without declining west ?
Whatever dies, was not mix'd equally ;
If our two loves be one, or thou and I
Love so alike that none can slacken, none can die.


RETORNO – 1. Este poema foi postado no Facebook por meu amigo Mark Fox, de Illinois, recitado por Richard Burton. Decidi traduzir. Há antecedentes do título, pois um poema anterior fazia homenagem ao Rei no dia seguinte à sua recuperação de grave doença. Donne pegou o mote para colocar um amante homenageando o amor maduro e verdadeiro, indissolúvel, que despertava de um tempo de ilusão e fantasia . 2. Imagem desta edição: John Donne's Cottage at Pyrford. Foto de Suzanne Knights

12 de agosto de 2011

O TRUQUE DA BLINDAGEM


Transportes, Agricultura, Turismo: o rastro da corrupção se espalha pelo primeiro escalão do governo, mas, como no mensalão, o truque é blindar quem ocupa o Planalto. É simples: primeiro se diz que chefe não é chefe e que subalterno (que nada tem a ver com o chefe) é quem faz toda a besteira. Depois se prova, com o tempo, que não houve besteira. Vimos o que ocorreu no mensalão.A Procuradoria Geral da Justiça e o Minsitério Público provaram que existia uma gang que distribuía propina para comprar votos no Congresso. Primeiro,o presidente era uma vestal, inocente, não tinha nada com isso (apesar de livros como o de Ivo Patarra tenha mostrada que era ele quem liderava o esquema). Mas parece que o crime miou, prescreveu. No caso do tsunami de lama que cerca atualmente o Planalto, estamos na fase da blingagem da presidente. Depois virão os desmentidos (e soterrar o pedido de CPI faz parte disso).

O raciocínio está exposto nas mídias sociais, onde há debate sobre o assunto. O PMDB é culpado pela corrupção e o governo não tem nada com isso, apesar de serem ministros do governo, do vice presidente ser do PMDB e o Congresso ter como presidente um peemedebista. Fizeram alianças espúrias que agora explodem na cara do governo. O que faz o Planalto? Tenta se preservar. O PMDB pressiona, pois é fisiológico e não quer perder a boca, já que ajudou a eleger a chapa. Os militantes então saem a campo pregando a faxina, como se lixo fosse saneamento. Não há limites para a cara de pau.

Lamento que esse tipo de raciocínio esteja sendo assumido por pessoas que prezo e a quem dava o crédito de inteligência política. Mas como é um truque óbvio demais, só posso entender no campo da psicanálise. Como Dilma faz parte dos torturados e presos nos anos de chumbo, parece que existe um vínculo eterno com ela, não racional, apenas emocional ou memorialístico, como se criticá-la fosse desmerecer toda a luta anterior. Isso passa por cima das evidências, pois ela se elegeu com apoio de coisas como o Sarney e Collor e no governo continuou a política de sabujice à indústria financeira internacional, a que jogou milhões de pobres na inadimplência, processo conhecido como ascensão da nova classe média , coisa que merece até um premio Nobel da Paz (quá quá quá).

Com a crise comendo os calcanhares das nações, aqui tenta se blindar a opinião pública com esse tipo de dado fajuto, enquanto vemos exatamente o contrário: milhões na miséria, na violência e no desespero de não poder pagar as contas, já que além de tudo, et pour cause, além dos juros cavernosos a inflação já está comendo. Ter capacidade de comprar em mil prestações um Land Rover e perder para a agência o material rodante voltando à condução não é subir na vida, é ser usado em sua inocência para a gula da indústria financeira. A mentira é tão bem pregada que todos repetem a esmo, como se fosse cânone. O fato é que o Brasil não tirou milhões da pobreza. Transformou milhões de pobres em consumidores inadimplentes.

Não há como separar o Planalto de sua equipe. Foi um toma lá dá cá explícito e funesto, que acabou rebentando, pois existe ainda imprensa, não muita, mas há e também porque gente de dentro do governo, de olho nos cargos, quer se livrar da concorrência. Acho até que o objetivo é o partido único, como aconteceu com o PRI mexicano, que ficou 70 anos no poder à sombra de Zapata e Pancho Villa.

Aqui medrou essa súcia sob a proteção dos chamados anos de chumbo, aquela ditadura que contava com Sarney e Delfim Neto, mas esses saíram ilesos, vivinhos e cheios de poder. Quem perdeu foram as Forças Armadas, que acreditaram que o regime era militar e acabaram ficando com o Celso Amorim.

Conseguiram no mensalão. Desta vez não vai colar. Oposição a isso tem. Não nos partidos, mas no espírito livre e desaparelhado da cidadania indignada. O problema é que a situação está se mexendo. Está querendo fazer manifestações de massa contra a corrupção e a favor de Dilma. Ou seja, transformar oposição em situação.


RETORNO - Imagem desta edição: cena de Lebanon, de Samuel Maoz.

11 de agosto de 2011

PARAÍSO PERDIDO


Nei Duclós

Desde que acabou a moleza do Paraíso, somos obrigados a pegar no batente. Mas fica a saudade, o vestígio: sempre sonhamos em nos recolher a algum tipo de lugar edênico, para voltar ao bem bom. Nunca dá certo, claro. Não existe lugar intacto, pois por toda a parte carregamos a nós mesmos, fonte de todos os conflitos. Os descobridores no século 15 acharam que tinham encontrado esse mundo perdido, como mostra, de maneira magistral, a maior obra da erudição do Brasil, “Visões do Paraíso”, o livro obrigatório de Sergio Buarque de Holanda, em que cada capítulo equivale a um livro à parte.

O que deslumbrou os europeus foram os bons ares (uma expressão que serviu para os hermanos argentinos batizarem sua ofuscante capital), a generosidade da terra e as provas de que realmente se tratava do ninho bíblico, formador da humanidade a partir do primeiro casal. O maracujá com seus sinais crísticos estaria no rol dos candidatos ao fruto proibido, entre outras “evidências”. Da mesma forma que naquela época remota, continuamos nos enredando em especulações, mesmo com a feérica desconstrução de mitos, baseadas em investigações pesadas.

A mediunidade ainda não foi elevada à categoria de ciência, nem a literatura pode se arvorar a ser História, mas acredito que talvez os mistérios estejam decifrados na nossa frente e não nos damos conta. Toda vez que vou à praia, aqui em Florianópolis, admiro as construções arqueológicas, as pedras empilhadas, algumas do mesmo jeito que são vistas no interior da Inglaterra. Lá, os menires são isso mesmo, aqui não passam de pedras na praia. Somos avessos à História, que dirá a arqueologia, que busca o conhecimento ainda mais oculto. Mas talvez as causas, os motivos, estejam explícitos.

Uma lenda antiga dos indígenas brasileiros fala de um gigante que se prevaleceu de uma formosa humana e por isso foi castigado, transformando-se na Serra do Mar. As nossas montanhas são gigantes deitados e dentro das ruinas do passado, que são a própria paisagem, há te tudo. Já descobriram ouro, ferro, pedras preciosas, nióbio. São os tesouros ancestrais que continuam sendo pilhados, mais do que nas pirâmides do Egito. Lá, os acervos são ainda recentes. Os nossos, são multimilenares. Valas geométricas no Acre, monumentos perdidos na Amazônia, incluindo pirâmides cobertas de selva etc. estão à espera da curiosidade nacional.

Uma batalhadora da arqueologia alerta há anos para a destruição das Sete Cidades do Piauí, conjunto arqueológico valiosssimo e ainda não decifrado. Dão tiros em pinturas rupestres. Usam jipes envenenados para destruir os sambaquis aqui no litoral catarinense. Mas há também inúmeros estudiosos que procuram entender a complexidade da ocupação das terras brasileiras, as mais antigas do mundo, antes da chegada de Cabral. Estudam o que um dia foi encarado como Paraíso, mas que não passa de território hostil e amigável ao mesmo tempo, como qualquer outro. Onde se formaram as gentes que receberam os invasores, foram dizimados por eles e também se misturaram.

Tudo habita dentro de nós, em forma de linguagem.


RETORNO - 1. Crônica publicada no jornal Momento de Uruguaiana. 2. Imagem desta edição: um menir no litoral catarinense, um vestígio arqueológico, uma obra humana. No mundo inteiro, quando descobrem algo parecido, fazem o maior estardalhaço. Aqui não passa de pedra de praia. Ara, dizem.

CULTURA E FUTEBOL: A LÓGICA DO IMPROVISO


Nei Duclós

O futebol brasileiro é fruto da cultura da escassez, conceito usado pelo poeta Mario Chamie quando assumiu a secretaria municipal de Cultura de São Paulo nos anos 70. A cultura da escassez define o perfil dos brasileiros que, ermo de recursos e de incentivo, acabam superando com a criatividade o que lhe falta no entorno. Como conta Mario Filho, o povo que assistia os jogos dos esnobes ingleses esperavam a bola sobrar para ir chutando sem parar até os confins da várzea. Depois, com as políticas públicas que organizaram a bagunça, fomos tão longe que conquistamos uma Copa do Mundo em 1958, nas fuças dos europeus. Repetimos a dose quatro vezes mais, mas sempre longe da Europa. Nunca mais nos deixaram humilhá-los daquele jeito.

Ontem , contra a Alemanha, vimos como o autismo do improviso fundado na exacerbação do ego, e não nos desafios impostos pela cultura da escassez, unido a um técnico que está na mão da mídia monopolista e da cartolagem sem freio (e por isso deve pedir para sair), levaram a seleção brasileira a um beco sem saída. A vitória da Alemanha por 3 a 2 em Sttugart nesta quarta-feira foi a vitória da lógica contra o improviso sem base, aquele que é fruto não da escassez, mas do excesso, da soberba. Aquele que perde por não ter tido dificuldades para se consolidar, já que é resultado dessa mixórdia suspeita em que se transformou o esporte.

A lógica obedece à natureza do futebol, que é coletivo. Não é tênis nem jogo de dardos, em que existe isolamento dos protagonistas. Alemanha é time em que as individualidades se sintonizam, graças ao trabalho do técnico e à postura adotada pelos jogadores. A partir dessa sintonia, que serve como base, os talentos podem se desdobrar, manifestar, compor um acervo de jogados objetivas. Já o Brasil é um tecido descosturado, onde indivíduos tentam cobrir o grande furo da falta de consistência coletiva. Perdemos a pista da lógica do improviso: este sem manifesta quando a criatividade é convocada e se alia ao planejamento e à técnica, como aconteceu na seleção brasileira de 1970. Naquele momento, levamos o gênio nos ombros da estátua, que até hoje está lá, na cidade do México.

Vimos nossos erros várias vezes no jogo. O zagueiro que tenta driblar e acaba perdendo a bola para o atacante, que cruza para o companheiro completar nas redes. O drible repetido no miolo da área sem objetividade, apenas fazendo zigue zague entre a defesa para não chegar a lugar nenhum. A falta de chutes a gol, fruto dessa indecisão que confina cada jogador a um papel sem apoio dos outros. Perdemos a embocadura da cultura da escassez que nos gerou. Sucumbimos diante da lógica tradicional, representada pela tenacidade alemã. Não impomos mais a lógica do improviso em estado de arte (que é também fruto da força) que encontrou soluções originais. Mas improvisamos concentrados no ego dos jogadores, como o Pato, que em vez de se contentar em fazer golzinhos, sonha em fazer golaços.

Por que acontece isso? Acredito que é a falta de grandes cabeças no comando do futebol (o que acontece também em todas essas áreas, na atual fase de desconstrução nacional). Cito o caso Mario Chamie como exemplo. Quando uma grande cabeça se manifesta e está na maré alta da sua atuação, é comum virarem-lhe as costas, como aconteceu com ele, naquele início de gestão frente à secretaria municipal de Cultura, quando Reynaldo de Barros iniciava seus trabalhos à frente da Prefeitura. Reynaldo era conhecido como o preposto do governador Maluf e isso bastou para que recaíssem sobre Chamie aquele olho branco cavernoso que conhecemos bem. Claro que a biografia, a trajetória, a obra e os grandes feitos do poeta na sua brilhante gestão sepultaram as maledicências. Hoje, quando não está mais entre nós, todos adoram citá-lo e homenageá-lo, mas naqueles meses terríveis em que ele começava sua vida pública na política cultural, fui pioneiro e decidi entrevistá-lo para o caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo. Deu capa, graças à editora da época do caderno, Helô Machado.

E eu nem era repórter, apenas um copy, mas tinha sido liberado por Helô para fazer matérias especiais e fui a campo. Na nossa conversa com Chamie, ele transcorreu longamente sobre seus planos e os conceitos que iriam norteá-lo. Ele trouxe os resultados dessa cultura da escassez, os processos e os protagonistas para dentro de sua grande obra, o Centro Cultural Vergueiro, que mais tarde, depois de ter sido duramente criticado pelos oportunistas que bem conhecemos, foi encampado em todos os seus cargos. Mas naquela época, em que o secretário vinha me buscar em casa para mostrar sua obra, vi como foi feito aquele Centro que somava todos os vetores da cultura e era ao mesmo tempo teatro, cinema, biblioteca, lugar de debates, escola e área de lazer. Foi quando nasceu a semente do chamado multiuso,que hoje serve para múltiplas falcatruas com o dinheiro público.

Criticaram até o lugar onde foi instalado o centro, perto da estação Vergueiro do Metrô, mas Chamie argumentava: “O pipoqueiro não erra o ponto”, dizia, apontando para a carrocinha já instalada no local logo que foi inaugurado. Claro que também bateram nele porque a inauguração não flagrava a obra em sua totalidade, ainda havia muito o que fazer. Mas o que interessava a Chamie eram os processos e como eles, pela transparência, poderiam acumular e incentivar os autores dessa cultura da escassez que, com o apoio do poder público, poderiam passar por cima das precariedades endêmicas para fazer cultura.

Somado ao seu celebrado trabalho de professor e seus livros de ensaios (tão importantes quanto os de sua poesia), Chamie é uma inteligência luminosa num país tomado pelas trevas, onde o conhecimento está amarrado a mil aparelhamentos burros, a começar por ideologias mal assimiladas e adaptadas ao jogo bruto da política. Precisamos dede cabeças assim no comando das políticas públicas, especialmente nas de educação e cultura. Não podemos mais continuar virando as costas para quem, independente dos esquemas ideológicos e partidários, tem muito a contribuir. Mas se continuarmos na mão da burrice e da malandragem, continuaremos rolando precipício abaixo.

Nem é preciso convocar um poeta para o comando de futebol. Basta uma inteligência agressiva, uma ética granítica e um sentimento de nacionalidade explícito. Pouca coisa.


RETORNO - Imagens desta edição: quadro de Fulvio Pennachi e foto do poeta mario Chamie.

INTEIRA


Nei Duclós

Você disse que viria
não veio
fiquei no banco
traseiro
preso ao meu corpo
feio

Imaginei
teu dorso
em alto mar
barbatana
sob a estrela
maior

Sonhei
que perdi
o desembarque
e lá fiquei
até fechar
o século

Acordei
ao teu pé
direito
Sou forro
que a flor
sujeita

Primeiro
pus amor
na reta
barulho
no coração
de feltro

Depois
mergulhei
num anel
de pedra
Não perca
a Lua cheia

Aguardo o navio
perfeito, correio
da tua beleza
Quero-te inteira
mesmo que seja
só o poema


RETORNO - Imagens desta edição: obras de Paul Chabbas.

9 de agosto de 2011

STATUS E SOBERANIA EM MY FAIR LADY


Nei Duclós

O rigor da língua falada, fonte e ao mesmo tempo estuário da escrita, define soberania nacional e também status social. Só quem tem recursos consegue acesso à formação plena. Isso em tese, no espaço virtual euclidiano da linguagem, já que no Brasil até gente rica está falando errado e mesmo em países tradicionais essa história está bem misturada. Diferente do tempo de My Fair Lady, em que as ameaças eram nascentes, tanto no início do século 20, quando Bernard Shaw escreveu a peça Pigmalião, quanto nos anos 40 e 60, quando a peça foi levada à tela. O problema não estava consolidado como hoje, mas o autor detectou com maestria no momento em que se manifestava.

A história do professor de fonética escandalizado com o pouco caso que a educação inglesa dava à formação escolar dos seus cidadãos, e seu esforço de transformar uma vendedora ambulante numa lady, se reporta ao uso da língua como afirmação imperial (a inglesa), externa, e a conseqüente afirmação interna, da nobreza. No caso do professor Higgins, essa nobreza não era bem a da aristocracia, mas a da elite intelectual. Higgins é um pária da corte, uma espécie de insurgente contra os maus hábitos dos chamados sangue azul. Seu status é o conhecimento e para afirmá-lo usa a fonética - a excelência da fala, que deve se equivaler à majestade da língua escrita de Shakespeare.

O filme de 1964 dirigido por George Cukor e com Rex Harrison como o professor e Audrey Hepburn como a florista é um assombro vencedor de oito Oscar (inclusive o de melhor ator para Harrison). As músicas, de Frederick Lowe e Alan Jay Lerner, são todas maravilhosas. O filme mostra o desprezo intelectual do professor pelos guinchos da mulher pobre, seduzida pela possibilidade de aprender a falar melhor para subir na vida. A ascensão social é uma impossibilidade na Inglaterra (o filme é americano e um escracho contra as manias britânicas). Que o diga Charles Chaplin, que voltou para lá célebre e milionário e foi tratado como sempre tinha sido, um pobre ( e por esse e outros motivos se recolheu na Suíça).

Em conluio com um dos seus pares, Colonel Hugh Pickering (interpretado por Wilfrid Hyde-White), o inglês que estuda fonética na India, a jóia da Coroa, o professor faz uma aposta de intelectuais que podem enganar os toscos aristocratas apenas pela aparência: vestindo sua florista como uma princesa e a ensinando a pronunciar o agá aspirado entre outros truques. Eliza Doolittle era sem berço e filha de pais pobres separados. O pai, interpretado por Stanley Holloway ( indicado ao Oscar de melhor coadjuvante), é um convicto representante da working class que se entrega à bebedeira e odeia quando sobe na vida, pois precisa cumprir os rituais da desprezível classe média.

O professor é vitorioso no seu intento, mas cai na armadilha da relação, pois se apaixona pela mulher que desprezava. A Cinderela acaba conquistando seu príncipe, mesmo que ele seja velho e solteirão empedernido. A excelência da linguagem assim cede aos sentimentos, fica em segundo plano para que Hollywood dê seu recado eterno de o amor que vence no fim (pelo menos essa era a mensagem até os anos 60, quando então resolveram detonar tudo).

Hoje a peça e o filme servem de suporte educacional, pelo pouco que vi na internet. No ensino da língua inglesa a história é uma espécie de referência para reencaminhar as novas gerações, vítimas do esforço da modernidade que tenta destruir a base civilizatória por meio da indústria do espetáculo e de outras demandas de massa. A história serve para mostrar a aliança da elite intelectual com o povo no esforço de desmoralizar a aristocracia.

Ao mesmo tempo, é uma história sobre a possibilidade de superação. Não é o comportamento que define uma lady, mas o modo como é tratada, diz a florista. E o tratamento do inglês que veio da India serviu de apoio para ela driblar os maus modos do professor e se transformar radicalmente. No fundo, a vitória é sua, não de seu mentor. Ela ascende não apenas socialmente, mas na auto-consciência da cidadania, para usar uma palavra recorrente de hoje.

O enfoque deste texto pode ser facilmente contestado. Mas, ao contrário do trabalho acadêmico, que precisa se reportar às fontes de tudo que afirma, e fazer o balanço da produção de pensamento anterior sobre o tema que está sendo abordado, o ensaio não perde tempo. Se limpassem as justificativas e citações minuciosas das teses, teríamos grande arejamento cultural. Isso tornaria acessível o núcleo das questões a um público que não quer se enredar no recorrente hábito de repetir sempre as mesmas coisas. É preciso incorporar os avanços teóricos e partir para a diferenciação já no primeiro parágrafo, senão continuaremos com esse ar de zumbi no mundo que deveria ser uma tarde de sol.


RETORNO - Imagem desta edição: Audrey Hepburn entre Harrison e Hyde-White em My Fair Lady - a aristocracia sendo ludibriada pela elite intelectual aliada a uma representante do povo.

8 de agosto de 2011

QUATRO QUADRAS



Nei Duclós

Cruzei o continente até a baía
onde avistaria a caravela decisiva.
Mas só vi Netuno perto da fogueira.
Tinha frio, o deus que ao mar estava preso

Já soltei esse grito achando que escutavam,
agora apenas respiro olhando a presa.
Sou o tufo de plantas num deserto.
Lá mastigo o medo

Levei o verbo ao prado encharcado de ruídos
ele amarrou a caça tremendo antes da cerca
Dei um tiro. Trouxe então na boca tensa
o poema, ainda palpitando, vivo

Há um momento eterno entre teu andar faminto
na rua estreita tomada pela guerra
e o desfecho que te aguarda num beco.
Esse é tempo amargo dos poetas


RETORNO - Imagem desta edição: Poseidon, no filme Le Mépris, de Godard.

7 de agosto de 2011

O POPULAR JACK O MARUJO


Nei Duclós

Chove manifestações de admiração pelo capitão das frases definitivas. Todos visitam seu barco para escutar o que sempre surpreende. Aumenta o prestígio do capitão. Melhor não avisá-lo,pois não está acostumado.Pode ir para o alto mar e adeus respostas na lata! As melhores, como acontece também nesta nova seleta da sua verve:


O sr. me leva para o outro lado do mar? perguntou a viajante. Não precisa, disse Jack o Marujo. O outro lado do mar é este

Não suporto o amor, disse o viajante. Sempre dou um jeito de jogá-lo fora. "Então não é o amor", disse Jack o Marujo. "É a embalagem"

O sr. procura o caminho da felicidade? perguntou a sonhadora. Não, disse Jack o Marujo, há muito engarrafamento

O sr. costuma sustentar seus pontos de vista? perguntou a pesquisadora. Nunca, disse Jack o Marujo. Eles que aprendam a se virar sozinhos

"Jack o Marujo é o cara que eu gostaria de ser. Mas toda vez que ele fica parecido comigo, perde a graça", confessou o grumete

"Conheci uma mulheraça de fechar o quarteirão. O que eu faço?" perguntou o grumete. "Peça em casamento e compre um 38", disse Jack o Marujo

Aquele velho me convidou para um pic-nic, disse o grumete. Deixa que eu vou, disse Jack o Marujo. Vamos ver se ele gosta de formiga

Hum, quer dizer que o sr. gosta de sereia? perguntou o folgado. É a maneira que encontrei de manter tua mãe no anonimato,disse Jack o Marujo

Quais os males do mundo? perguntou o estudante. "A macheza brucutu e seu subproduto, a frescurada obsessiva", disse Jack o Marujo

O sr.já navegou no Amazonas? perguntou o grumete. Não, o mar tem ciúmes, disse Jack o Marujo

Jack o Marujo é autor de tantas frases que o jornalista americano quis saber: "Are you writer?"perguntou. Não, I am wronger, disse o capitão

"Não quero consertar o Brasil. Quero que todos vão a puta que pariu", disse o grumete. Ok, disse Jack o Marujo. Agora vai varrer o convés

O que mais lhe atrai nas sereias? perguntou a editora de comportamento.Os ombros, disse Jack o Marujo

Estamos loteando o Brasil. Qual porção lhe interessa? perguntou o político. "Quero a Nara Leão", disse Jack o Marujo

“Já fui bom nisso", disse Jack o Marujo quando viu uma briga de facas no cais."Agora me limito a vibrar o fio da minha adaga para as nuvens"

E todo esse vento, é bom para navegar? perguntou o repórter.Sim,disse Jack o Marujo.Vou te colocar numa piroga a vela para ver se agüentas

Desistiu de participar do debate? perguntou o estudante. Prefiro tiro ao alvo, disse Jack o Marujo

De onde o sr. tira tantas frases?perguntou o aluno. "Dos anjos.Desde o fim da Criação ficam só de papo.São uns pândegos",disse Jack o Marujo

Mau humorado, Jack o Marujo desabafou: "A obsessão pela barriga alheia é ocupação de quem sonha em fornecer o buzanfan e não sabe como"


RETORNO - Imagem de hoje: Colombo. Tirei daqui.

O STAND UP É UM PERIGO



Nei Duclós

Stand up é a arte de levantar a platéia com baixarias que você só teria coragem de dizer para você mesmo ou para os amigos mais próximos – talvez até na presença de desconhecidos em alguma festinha, para checar sua popularidade. Grandes lendas se fizeram à sombra do stand up, como Lenny Bruce, radical comediante americano interpretado por Dustin Hoffman num filme de 1974 e que morreu ao optar pela radicalização de suas falas, o que o levou ao isolamento e às drogas (ou talvez era o que realmente procurava, como forma terminal de produção artística). Hoje há George Carlin, hilário e devastador nas suas críticas aos ambientalmente corretos. Estrelas como Seinfeld fizeram a fama nos clubs e bares antes de estourar na TV com sua série (que foi mais obra do parceiro Larry David, igualmente brilhante).

No Brasil o stand up chegou com tudo porque é um espetáculo barato de se fazer e porque tinha chegado a hora (tardia, como sempre). Trata-se de um monólogo, uma sucessão de tuits cortantes que impõem um ritmo de falas para estocar o público. Normalmente dá certo, pois as pessoas estão ali para rir e também se vingar, pois esse tipo de comediante diz o que todo mundo está pensando, ou pelo menos, deveria dizer. Como o humor oficial, o que passa na TV ainda está nos anos 30, pois faz piada com homem se vestindo de mulher, o stand up pegou bem na nova geração de comediantes, livres dessa canga maldita do século 20 que assombra uma mídia capitaneada por matusaléns. Só o quadro de Zorra Total de dois travestis que são assediados no metrô já diz tudo sobre o humor que o stand up deveria enterrar.

Deveria, mas as novas estrelas acabam caindo em desgraça rompendo a corda. Porque é uma tentação ter casa cheia para ouvir suas barbaridades. Então imaginamos que tudo pode ser dito. Foi o que aconteceu com o apresentador do Globo de Ouro, o ator Ricky Gervais, que bateu em Tom Cruise e John Travolta declarando que cientologistas gays faziam papel de heterossexuais enquanto heteros como as atrizes Juliane Moore e Annete Benning faziam papel de gays. Hoje vivemos sob liberdade vigiada e Rafinha Bastos entrou pelo cano quando cedeu à tentação de dizer que mulher feia deveria agradecer por ser estuprada. Uma barbaridade inominável dessas dá vergonha de dizer em casa, que dirá para o universo.

A mais recente vítima do stand up foi Lars Von Trier, que ao ver a sala de imprensa lotada em Cannes deitou a querer fazer graça e entrou pelo cano. Talvez porque tenha dito realmente o que sente e pensa mas achou que poderia disfarçar com estocadas de stand up. Se deu mal. Para esculachar com uma cineasta, que é judia, disse agradecer ao saber que não era judeu depois de conhecer a referida colega. Para completar (talvez porque as gargalhadas não explodiram, então ele tentou intensificar para ver dava certo) acabou dizendo que até se achava nazi e entendia Hitler (uma piada horrível que ouvimos a toda hora para encher o saco geral).

Como não há justificativa para semelhante atrocidade, Trier, ex-festejado diretor premiadíssimo por seus filmes radicais de vanguarda, foi banido do festival de Cannes. Ele depois tentou se desculpar, mas era tarde e não foi feliz nos seus argumentos. O stand up exige que você seja preciso. É uma questão de timing, bem mais do que você diz realmente. Você pode dizer as maiores baixarias, mas se respeitar certo ritmo e souber atingir aqueles pontos fracos do clima coletivo receptor, pode passar lotado. Fica tudo na risada. Mas é bom dosar e impedir que coisas profundamente sinceras (ou aparentemente engraçadas, mas brutais) não ajam contra sua verve, obrigando-o a se retratar ou desistir da carreira.

Obviamente que tentar fazer graça com judeu usando o nazismo dá erro, como prova o caso de Danilo Gentili que disse entender os habitantes de Higienópolis que eram contra o metrô, pois o barulho dos vagões lembrava Auschwitz. Há também o perigo de aparelhar o show, como acontece muitas vezes com Marcelo Adnet, que ataca o tucanato de Arnaldo Jabor ou das chamadas elites. Ao mesmo tempo, é prejudicial ao comediante achar que sendo a favor do politicamente correto poderá ser aceito, não ter problemas e continuar provocando risadas. Pois pode fazer sucesso num primeiro instante (e a imitação do ricaço que odeia aeroporto lotado do Adnet é realmente hilário), mas com o tempo acaba cansando, pois o público desconfia.

É um equilíbrio difícil de conseguir. Mas se fosse fácil qualquer chato contador de anedota seria o máximo. O talento para o stand up é raro. Além da vocação, é preciso ser um estrategista das falas, para não acabar na vala comum da desgraça. Há uma tendência em achar que o estrago promovido pelo stand up (sua facilidade é ao mesmo tempo uma ameaça) não mancha a “influência “ (palavra da moda) dos comediantes. No mínimo identifica valores da nova geração com o velho escracho, o que é ruim. A baixaria antiga estava sintonizada com o clima da época. Hoje os tempos são mais bicudos,pois a divisão entre moral e sua transgressão entrou numa fase mais aguda de conflito.

A permissividade, aparentemente sem freios, bate no paredão da censura, que se manifesta não só oficialmente, mas de modo natural, quando o público mostra-se avesso às apelações mais escandalosas. Van Trier causou espanto até mesmo para quem estava ao seu lado na coletiva. E dividiu a platéia entre o riso e o escândalo. O escândalo venceu.



RETORNO - Imagens desta edição,pela ordem: Dustin Hoffmann no papel de Lenny Bruce;Ricky Gervais; Lars von Trier; Danilo Gentili e Rafinha Bastos.

5 de agosto de 2011

ACASO E FORTUNA EM ERIC ROHMER


Nei Duclós

Dois filmes são insuficientes para analisar a obra de Eric Rohmer (1920- 2010), o patinho feio da Nouvelle Vague e diretor de inúmeros filmes importantes. Mas servem para detectarmos aspectos que me parecem decisivos no seu trabalho. É um mistério para a crítica o desconforto de Rohmer diante de seus pares mais famosos, com Godard à frente. Há explícita má vontade com seus filmes, como se tivesse absorvido todas as maldições do cinema francês de vanguarda, quando estas poderiam ser atribuídas tranquilamente em sua quase totalidade a Godard, que é premeditadamente chato (apesar de empolgante como criador) e cerebral e desdramático – portanto, anti-cinema – até o osso.

Rohmer não cabe nessa imagem feia que grudou nele principalmente com o sucesso da fala de Gene Hackman num filme de Arthur Penn de que ver um filme seu era tão empolgante quanto assistir uma tinta secando. Maldade, típica frase de perder o amigo mas não a piada. Os dois filmes que vi estão separados por mais de 30 anos, mas possuem pontos em comum que esclarecem sobre o que Rohmer fez no cinema. O primeiro é O Signo de Leão, sua celebrada estréia de 1959 e o segundo Conto de Inverno, de 1992, que faz parte do seus contos das estações.

Ambos tratam de acaso e fortuna, postura mística que funciona como um paradoxo para um realizador do chamado cinema verdade. Ali estão todos os elementos da vanguarda cinematográfica desencadeada pelos ex-críticos do Cahiers Du Cinema – linhagem a qual Rohmer pertence: as longas sequências da câmara seguindo os passos dos personagens, o olhar cru sobre a realidade urbana, os diálogos desdramáticos e ocasionais, a falta de grandeza dos personagens, as relações humanas em volta com ninharias. Um ambiente oposto ao enfoque místico de Rohmer, que procura algo além das aparências, ou pelo menos faz seus principais personagens acreditarem em algo fora do circuito da realidade, que no fundo é a França clássica sendo devorada pela modernidade, uma abordagem comum entre os cineastas franceses.

Rohmer é ostensivamente anti-intelectual,ou melhor, contra a pose intelectual de massa, as modinhas superadas da galanteria mental dos que profanam a cultura com sua vida indiferente (arte e literatura não mudam o vazio das vidas entregues ao nada). Um detalhe de O Signo do Leão mostra como a denúncia de Rohmer se comporta. Três pessoas discutem sobre ao barroco diante da catedral Notre Dame e uma delas, o amigo do casal que forma a roda, para impressionar a mulher do outro, intensifica sua argumentação (tosca, recorrente, autista) pegando-a pelo ombro, praticamente apalpando-a. Ele queria apenas tocar na fêmea do amigo,mas para isso usou de subterfúgios pseudo culturais. Em Conto de inverno, a protagonista se considera uma ignorante e a todo momento confirma essa sua verdade diante das conversas permeadas de leituras dos outros. Mas ela é a única capaz de entender uma peça de Shakespeare, pois viu com os olhos livres, sem a cortina das fumaças da pose.

O filme de 1959 é sobre um herdeiro que deixou de receber uma fortuna e perambula miserável por Paris, como um Henry Miller desesperado e subitamente lúcido diante da miséria social, mas sem o apoio da criação literária, pois se trata de um vagabundo puro e simples, sem justificativas. Ele então se alia a um palhaço e cumpre com ele o destino dos clochards, dos vagabundos artistas que se apresentam nas ruas em troco de migalhas. O sofrimento do andarilho (um estrangeiro, americano deslocado na capital francesa) por uma Paris no verão lotada de turistas endinheirados é o purgatório que enfrenta até ser avisado de que enfim a herança caiu no seu colo, pois seu concorrente, um primo, tinha morrido em acidente de carro.

A mulher do filme de 1992 aguarda o grande amor e pai da sua filha, que sumiu por obra de um desentendimento na hora da despedida, quando, desconhecidos, apesar de terem vivido cenas tórridas de amor, trocaram endereços falsos, um equívoco não intencional que provocou uma separação de cinco anos. Ela se atira aos namorados com esperança de esquecer essa fonte de felicidade que está no passado e que por um acaso e falta de sorte, sumiu. Mas acaba optando por livrar-se de todos eles para esperar a chance, a fortuna, que afinal acontece.


O happy end é outro paradoxo para um cineasta de vanguarda, mas nas duas obras ele se manifesta. Tudo isso torna Rohmer um cineasta mais radical do que parece ser. Toda a adjetivação babosa em cima dele de pessoas que não entenderam sua dialética – o místico do cinema racional, o anti-intelectual que propõe a leitura dos clássicos com os olhos livres – passa ao largo de percepções viciadas. Mas está tão claro e explícito que chega a doer.


RETORNO - Imagens desta edição: na foto maior, o purgatório do herdeiro, interpretado por Jess Hahn, em "O Signo de Leão", e na menor, colorida, o final feliz de "Conto de Inverno".

O CLIENTE DE TEXTOS


Nei Duclós

Cadeia produtiva implica um conjunto de clientes encadeados. Acontece também quando o produto é o texto. Quem confecciona artigo, nota, conferência, discurso; ou notícias, relatórios, campanhas, projetos especiais para atender necessidades institucionais e de marketing, precisa estar sintonizado com uma rede de interesses. Primeiro, se reportar a quem faz a encomenda diretamente, e que está a serviço de outra demanda, situada em posição mais remota em relação a quem produz o texto. No fundo, é uma linhagem de terceirização, que acaba caindo no colo do especialista, redator, artesão ou mestre de ofício da palavra.

Por que precisam do escriba? Não por seus belos olhos, ou porque saiba “dourar a pílula”, como dizem. Há preconceito contra a profissão porque todos acham que escrevem. Ao redator profissional, cabe detectar o que clientes próximos ou distantes querem dele. Não é difícil, basta perguntar e escutar. Desse contato, repassado em forma de briefing, surge, em meio à tralha comum de inutilidades verbais, o núcleo da questão, que pode ser o mote, ou mesmo um achado, uma solução pronta de linguagem, mas limitada porque a fonte não tem a maestria, o conhecimento para completar o serviço.

É um trabalho cheio de desdobramentos. O escriba precisa ter o desprendimento necessário para saber que vai produzir algo que não lhe pertence, mesmo que coloque no texto final todo o seu acervo e mesmo repasse até o desenho de um estilo. É preciso descolar-se do trabalho e ao mesmo tempo se envolver profundamente com ele, pois disso depende a sobrevivência. Seu objetivo principal é colocar no texto não o que vai imaginar, criar, bolar, mas o que vai conseguir a partir daquela migalha que recebeu da cadeia de clientes. Essa semente deve ser colocada na primeira linha, ou pelo menos deve ocupar o primeiro parágrafo, para que o receptor reconheça ali a própria marca e crie confiança desde o início no resultado do trabalho.

Se fosse só isso, o especialista nem seria convocado. Mas o amador em texto, o profissional de outra área que precisa dos préstimos dessa especialidade, não consegue a costura necessária para realizar o intento. O briefing precisa estar mergulhado numa solução de prata, o peixinho colorido deve ter ambiente na água limpa do aquário que só o escriba possui. Esse visgo, essa liga, essa arte, é o que define o valor do texto, sua razão de ser. É um resultado rápido de conseguir se o autor tiver traquejo de atender o freguês no prazo e na qualidade exigidos. Não se dorme sobre uma encomenda como se fosse uma sesta depois do vinho. Mas se embrulha o peixe ainda fresco para levar à porta do cliente.

Chocante? Nem um pouco. O ghost writer, o articulista sob encomenda, o cara da criação da área das letrinhas, é um trabalhador comum, que pode chegar à excelência, como em qualquer artesanato. Isso significa convencer primeiro o cliente mais próximo e, de quebra, por tabela, o que está mais distante e é quem decide a parada e libera a remuneração. Se a obra for bem feita, há retorno, ou seja, nova encomenda. Se o preço for razoável, pensado como um entre muitos que virão, há chances de continuar atendendo.

No caso de alguém que for contratado só para isso, e não apenas um freelance, que é mais comum, os cuidados devem ser redobrados, pois o hábito pode virar vício e quando menos se espera o empregado acaba com uma pilha de currículos para ser distribuído em muitas portas. Para evitar transtorno, é preciso agüentar no osso e muitas vezes engolir sapo. Isso não significa ser submisso e puxa saco. Humildade e eficiência garantem longevidade numa colocação profissional. A criatura das palavras, que vive do que escreve, é um abnegado e devoto colaborador que usa o verbo como instrumento. Vale ouro, mas nem sempre é bem pago.

Nesse embrulho, é preciso ser o menos vaidoso, o mais bem humorado, uma postura que é fruto do desprendimento citado acima. Mas cuidado. Perca a piada mas não perca o cliente. Não há muitos lugares onde um peão das letras pode domar o potro bravo das linguagens corporativas e institucionais. Precisa ser do ramo.

4 de agosto de 2011

MESA POSTA


Nei Duclós

Comida era conflito. Perdiz escabeche, não confiável, até mortal, poderia ser contaminada pelo butolino, como diziam as pessoas mais velhas e ariscas. A sopa de trigo, intragável, aparecia na mesa uma vez por mês pelo menos para fortificar a gurizada (que era esquálida por natureza). Desistíamos da gororoba no meio do prato e íamos “lavar” o dito na cozinha, quando jogávamos a sobra farta no lixo. Havia ainda o repolho refogado, que diziam ser importante, mas nunca descobri a que veio. Acelga, xicória, rúcula, todas as verduras amargas, que se opunham às guloseimas servidas com parcimônia, para não desvirtuarem a infância. Mas havia vingança. A irmã subiu na escada e com um abridor rompeu o selo da lata de pêssego em calda e comeu até sair pelo nariz. Ou aqueles que xingavam as advertências contra os excessos e acabavam no sal de frutas.

Havia os quitutes super valorizados e que não eram grande coisa, mas como os adultos davam bola, significavam briga certa na hora da distribuição, quando alguém se sentia lesado, pois a oferta era pouca para a galhardia da demanda. O tutano quente misturado à farinha, sal e azeite de oliva, capturado com pão estalando, fazia a festa da moçada quando havia fartura. Mas se escasseava, era motivo para berros que se escutavam na outra esquina. As oferendas mais cobiçadas não ultrapassavam duas unidades para cada boca de passarinho escancarada. Pastel ou trouxinha, com massa torcida nas pontas parecida com um bombom recheado, jamais sobrava diante da devoração militante.

Como havia muitas fantasias em cima da comida, era permitido improvisar alguma coisa, como o churrasco matinal dos domingos, acompanhado de vinho branco e exclusivo das crianças no auge do inverno. O sagu que enchia tonéis. Ou a sobremesa, sempre a mesma, especialidade da minha mãe, que jamais acertávamos o ponto. Era preciso que ela, depois de muita insistência, nos apresentasse a tradicional iguaria e que chamávamos de “maldita” por pura vontade de perder a chance mas não a piada. E que consistia em gelatina com pêssego argentino de lata dentro e coberta de merengue. Uma maravilha.

Nossa refeição independente mais comum era bolachinha Maria com goiabada, acompanhada de refrigerante, nos pic-nics da Gruta. Para lá nos dirigíamos a pé, andando cinco quilômetros pela carretera, puxando o carrinho de mantimentos. Chegávamos no local para pescar uns lambaris, tomar banho proibido pelos mais velhos por haver perigo de afogamento e o lanche que era divertido demais para quem, como nós, partilhava a mesa rigorosa, dentro do horário e sempre completa, com sopa de entrada e depois a chamada “comida seca”. Garotos de um lado, moças do outro, os mais velhos próximos ao pai e a caçulagem grudada na mãe. Era lei.

O cardápio marcava os dias da semana. Lembro que nas segundas-feiras era sempre feijão, arroz, purê e guisadinho. Eu sacudia a perna de satisfação enquanto comia. Uma vez olhei por baixo da mesa posta. Meus irmãos faziam o mesmo. Não passávamos de uma matilha, que aquele casal criou com a eficiência dos estadistas e o afeto duro das terras complicadas da fronteira.


RETORNO - 1. Crônica publicada no jornal Momento de Uruguaiana.2. Imagem desta edição: obra de Bosch. 3. Não consigo postar nos comentários, mas quero responder ao Gerson: nosso guaraná era o da Antártica. Não sabia que existia Guaraná PO, só cerveja! Abs.

3 de agosto de 2011

AGOSTO E O VENTO


Nei Duclós

Agosto trouxe palavras
de todos os cantos
que pousaram, tontas
aqui no horizonte

O vento não tinha nada
para levar. Virei âncora.
A não ser a alma, vela inflada.
De olho no exagero das ondas

O vento veio pedir comida
em minha porta, com tornados
em gang. Dei-lhes fubá,
que jogaram no oceano

Corremos para o caminho
expulsos pelo vento. Fomos pegos
Tomou nossos brinquedos
E nos amarrou no sereno

Tanto o vento torceu a corda
e varreu o céu de inverno
que nada restou a não ser os nervos
de uma nascente Lua Nova
Nei Duclós

Agosto trouxe palavras de todos os cantos,
que se aninharam em espaços incomuns,
entre o quintal e o horizonte

O vento não tinha nada para carregar.
Virei âncora. A não ser a alma, vela inflada
de olho no exagero das ondas

O vento veio pedir comida em minha porta.
Estava acompanhado de uma gang de redemoinhos.
Dei-lhes uns quilos de fubá, que eles jogaram no mar

Fomos para o canto fugir do vento,mas ele nos alcançou.
Tomou nossos brinquedos e nos ameaçou.
Por isso saímos a esmo,pelo campo afora

Viver o momento é como tentar capturar o pulo da rã.
Vivemos o que passou e um dia foi futuro.
O presente é a verdadeira impossibilidade

Carreguei meu pequeno caminhão de areia.
Pus no meio algumas pedras, surrupiadas da rua.
O peso era tanto que a roda de plástico quebrou

Meu olho resolveu comer palavras.
Nem é para alimento. É gula mesmo,
vontade de esconder o que enxerga

Tanto o vento varreu o céu de inverno
que nada restou a não ser restinhos
de uma nascente Lua Nova


2 de agosto de 2011

OFÍCIO


Nei Duclós

Esperam o escritor sumir para revelar seus embruxos
Faturam com alguém detestado em vida,
que amou por vocação.
Amor foi sua dor mais funda

Escritor não faz carreira
Quem faz carreira é o carreirista
Escritor joga fora suas chances
É que o ofício o distrai, como um vício

Escritor não escreve
Quem escreve é escrivão, escriba
Escritor se transforma no verbo que cria
e inunda as praças, como o vento sul

O louco da rua, o bobo da aldeia, o trôpego da Corte,
o varredor de sonhos,
o cara de mil bolsos, com guardados do Tempo.
Esse é o escritor

Escrever não é ser escritor.
Não é o uso da linguagem que o define.
Mas a palavra em estado bruto,
que emerge como criatura, antes da máscara

Escritor não se recolhe
para escrever o livro da sua geração.
Escritor tem sono pesado
e acorda em meio ao assombro da própria literatura

OFÍCIO

Nei Duclós

Esperam o escritor sumir para revelar seus embruxos
Faturam com alguém detestado em vida,
que amou por vocação.
Amor foi sua dor mais funda

Escritor não faz carreira
Quem faz carreira é o carreirista
Escritor joga fora suas chances
É que o ofício o distrai, como um vício

Escritor não escreve
Quem escreve é escrivão, escriba
Escritor se transforma no verbo que cria
e inunda as praças, como o vento sul

O louco da rua, o bobo da aldeia, o trôpego da Corte,
o varredor de sonhos,
o cara de mil bolsos, com guardados do Tempo.
Esse é o escritor

Escrever não é ser escritor.
Não é o uso da linguagem que o define.
Mas a palavra em estado bruto,
que emerge como criatura, antes da máscara

Escritor não se recolhe
para escrever o livro da sua geração.
Escritor tem sono pesado
e acorda em meio ao assombro da própria literatura


1 de agosto de 2011

JACK O MARUJO AZEITA A GARRUCHA


Nei Duclós

O sr. acredita em magia? perguntou a cartomante. Não, disse Jack o Marujo. Acredito em camarão a milanesa

O sr. alguma vez tirou a vida de um outro ser humano? perguntou o grumete. Não, nunca, disse Jack o Marujo. Mas já matei muitos

Mau humorado, Jack o Marujo desabafou: "A obsessão pela barriga alheia é ocupação de quem sonha em fornecer o buzanfan e não sabe como"

Existe alguma prova da existência de Deus? perguntou o ateu. Sim, os chatos também morrem, respondeu Jack o Marujo

Não foste à festa dos Marinheiros Veteranos? perguntei. Não, tudo o que eu lembro me atrapalha, disse Jack o Marujo

O sr.não é aquele? perguntou o passante. Não, aquele já não está entre nós, disse Jack o Marujo, tirando o chapéu em sinal de respeito

O sr.é favor do desarmamento? perguntou o pesquisador. Sim, prefiro bandido desarmado, disse Jack o Marujo azeitando os canos da garrucha

De onde o sr. tira tantas frases?perguntou o aluno. "Dos anjos.Desde o fim da Criação ficam só de papo.São uns pândegos",disse Jack o Marujo

Vou para o alto mar, disse Jack o Marujo para a vendedora de pastéis. Preciso me perder por um tempo para não ficar à toa me ocupando

O sr. é capaz de prever o futuro? perguntou a mística. Sim, disse Jack o Marujo. Nós vamos morrer

O sr. procura o caminho da felicidade? perguntou a sonhadora. Não, disse Jack o Marujo, há muito engarrafamento


RETORNO - 1. "Jack, o Marujo, é a personagem mais importante da literatura nacional em todos os tempos e meu modelo pessoal de classe, elegância e refinamento" (Renzo Mora). “Sem enrolação, queremos mais de Jack o Marujo” (Major Breno). “Jack, o marujo, é mau!” (Silvia Maria). “Jack, o Marujo é um personagem fascinante” ( Eduardo Balduino) 2. Imagem desta edição: tirei daqui.