1 de janeiro de 2009

Diário da Fonte
IDÉIA É COM ACENTO. E VIVA O TREMA


Reforma gramatical e ortográfica serve para duas coisas: encher o bolso dos espertalhões, que precisam relançar suas porcarias em novas e caras edições, e para provar que o Brasil não tem soberania, pois precisa entrar em acordo com países distantes para definir como vai escrever, ou seja, como vai usar o instrumento de identidade comum. Vi ontem na TV uns intelectuais portugueses dizendo que a reforma é ruim porque vai abrasileirar o idioma. É ruim porque vamos continuar jungidos a Portugal e Algarves. No Brasil nada muda. Não conseguimos declarar a independência nem na hora de colocar acento em idéia ou usar o trema.

E a crase, querem acabar com ela, ou já acabou? Acho a crase supimpa. Propõe uma tremenda dificuldade, não deixa que a preguiça tome conta. Se continuarmos eliminando conflitos na língua, todo mundo vaia acabar escrevendo em miguchês, o patuá internetês que usa huahuahua e outras porcarias. A idéia, com acento, é a seguinte: como sucatearam a educação, é preciso adequar os conteúdos ao sucateamento. Vão acabar com tudo, para que a idiotia impere. O cara entra na escola para ser formado em analfabetismo. Imagino uma escola nos novos termos: todo mundo aprendendo o que é ONG, que dar por dinheiro é uma profissão nobre, que escrever é coisa para patifes, que ler é para desocupados e todos devem praticar muito esporte para sair na televisão dizendo com certeza.

E o trema? Acham desnecessário. Pois o trema deve ficar e isso não se discute. É preciso impedir que essa canalha fique pontificando sobre regras consolidadas. Ao destruir os parâmetros, o território fica livre para a invasão pura e simples de imbecis como o tal professor Pasquale, que inventou que morte corre risco. Hoje todo mundo fala em risco de morte, mas todo mundo mesmo. É uma batalha perdida. É risco de vida, caralho! Pois é a vida que corre risco, idiotas!

Não se trata aqui de se insurgir contra a reforma gramatical, trata-se de desmoralizá-la, chutar seu saco, bater sem dó, desmascarar seus próceres, destruir sua pompa, bater forte em suas caras lambidas. Como vocês tiram acento de idéia? E os jornais seguem como cachorrinhos, adoram qualquer merda que fazem. Portugal que continue falando como sempre falou, escrevendo como sempre escreveu. Admiramos Portugal e os portugueses, mas isso não significa que temos a mesma língua, não temos. Nossa língua é o português do Brasil, é outra coisa. Para começar, usamos as vogais.

Filme ou noticiário português para mim tem que ter legenda. Trata-se de um língua européia. Quando meus poemas são aceitos em blogs portugueses, celebro. Eles vêem pontos de identificação entre nossa língua e a deles. Podem até considerar deles, não importa. Eu escrevo português do Brasil e me dou muito bem com os portugueses. Porque eu teria que, por lei, fazer tudo o que eles fazem?

Já passei por quinhentas reformas. Até hoje não me conformo com o fim dos hífens em palavras compostas. Acho o acento diferencial importante. Quando Monteiro Lobato tirou o acento de tudo eu acabei pronunciando “hipotése”. Quem me garantia que a palavra se pronunciava hipótese? Viva o acento agudo no lugar certo.

Então, não me venham com novas regras. Não se trata de saudosismo ou de ser retrógrado. Trata-se de resistir contra a sem-cerimônia com que metem a mão no patrimônio nacional. Em nome de quê, de quem? Toda reforma condena ao ostracismo a literatura feita antes, pois ela se torna “errada”. Basta, pulhas.

RETORNO - Imagem deste post: todo mundo conhece. Eistein mostra a língua para a burrice.